Quando Gáwyr entrou pela porta o coração de Luthor congelou.

O Druida estava encharcado. Ele largou o balde cheio de água no chão, fechou a porta e suspirou. Luthor estava petrificado na mesma posição, mas o velho pareceu não notar.

— O que raios você esteve fazendo garoto? Eu achei que tivesse mandado que você acendesse o fogo — disse. Então ele se virou. Seu olho se arregalou e suas sobrancelhas se arquearam, a tensão em sua mandíbula era evidente, sua mão apertava o cajado com força. Ele respirou fundo e engoliu em seco — O que você esteve fazendo, garoto?

— Eu encontrei isso por acidente, eu juro. A porta se abriu com o vento e chuva, e apagou a fogueira. Eu coloquei aquele pedaço de lenha para segurar a porta. — disse, apontando. O olhar do Druida seguiu sua mão, depois voltou para o garoto, tudo no tempo de uma respiração. O olho de Gáwyr parecia mais amarelo que o normal, como se queimasse — Mas a chuva havia molhado o cavalo, então eu peguei o tapete para secá-lo. Aí peguei as almofadas para me sentar junto a ele, para me aquecer. Foi aí que vi isso. Eu fiquei curioso para saber o que era. Mas não abri, eu juro.

O velho se aproximou, escolhendo cada passo com cuidado. Seu cajado estava apontado para Luthor, ele recuava à medida que o Druida chegava mais perto. Quando estava em cima do alçapão, o rapaz já havia encostado na parede, suas pernas tremiam, observava a ponta do cajado como se fosse uma lâmina apontada para sua garganta. Gáwyr se abaixou, sem tirar o olho de Luthor ou menear o cajado, e puxou o aro de ferro, mas nada aconteceu.

— Você não conseguiria abrir nem se quisesse, garoto — disse, suspirando.

Luthor o acompanhou no suspiro, ele deslizou pela parede e se sentou no chão.

— Quase me mata do coração, seu velho caduco.

— Você quase me obriga a lhe matar, seu garoto idiota.

Ele se aproximou do rapaz e acertou a ponta do cajado na cabeça dele.

— Porra! — disse, esfregando a cabeça — Pra que você fez isso?

— Para lhe dar uma lição! O tempo com os Sídhe lhe tornou inconsequente, garoto tolo. Você não está em um daqueles castelos de rocha e madeira, adornado com feitiços que melhor seriam chamados de cacarecos. Eu não sou um daqueles idiotas pomposos e emperiquitados que lhe ofendem com meias palavras e frases de duplo sentido. Isso aqui é o mundo real, garoto. As pessoas são rijas, o mundo lhes fez assim. Por isso precisam manter segredos, e a maioria está disposta a matar e morrer por eles. Eu estaria — disse, com a voz carregada de uma represália raivosa. Então suspirou, tomou uma grande quantidade de ar, e soltou lentamente — Isso é o mundo real, garoto. Você precisa ser mais cuidadoso, precisa entender como ele funciona realmente. Você vai acabar sendo morto se não ficar atento, precisa manter seus olhos bem abertos.

Luthor sentiu seu coração parar ao ouvir aquela frase. Ao mesmo tempo sentiu sua mão pulsar, como se seu coração batesse nela. Não era uma pulsação dolorida, era como se uma energia muito grande irradiasse para fora de si, como uma rede de veias que se estendesse além de seu corpo. Ele olhou para sua mão e tentou falar:

— Eu... — balbuciou, sua garganta tinha um nó dolorido — Eu... Eu. É que... Eu...

— Sim, garoto? O que tem a me dizer, hein?

Ele olhou para o Druida e respirou fundo. Fechou a mão com força e a repousou na perna. Então engoliu em seco e disse:

— Eu só queria me desculpar. Tenha certeza de que não vai acontecer de novo — Ele hesitou por um instante então disse, finalmente — Eu vou manter meus olhos abertos, sempre.

Algo dentro de Luthor respondeu àquela frase, algo no mais fundo do seu interior. Ele se sentiu acalentado, e a pulsação na mão foi se atenuando. Ele não podia contar para Gáwyr. Queria, mas não podia. Talvez algo dentro dele ainda não acreditasse completamente no que houvera na noite passada. Talvez algo desconfiasse que o Druida nada saberia sobre seu encontro com o Cervo branco, ou que esse encontro não significava nada fora do comum. Não. Ele sabia por que não havia contado. Sabia que o encontro com o Cervo tinha traçado seu Destino, bem como podia ser sua Condenação. Ele também sabia que o velho Druida lhe diria as coisas que precisava saber sobre esse encontro e sobre a marca que levava. Mas bem lá no fundo, em seu coração, ele sabia que, por algum motivo, ainda não era a hora.

— Tudo bem, garoto — disse Gáwyr. Ele se aproximou e colocou a mão sobre o ombro de Luthor — Você tem que entender que eu me preocupo com você, rapaz. Seu futuro é importante para mim, por tenho que ser rígido contigo.

— Eu entendo, meu amigo. Eu realmente entendo.

— Tudo bem. Venha, vamos nos aquecer ao pé de uma bela fogueira.

— Claro, acho que você só esqueceu a parte de que foi a chuva que apagou a fogueira e agora ela esta toda encharcada. Mas se você tiver um feitiço para fazer fogueiras, eu aceito.

— Um feitiço talvez não, mas tenho algo — disse o Druida. Ele soltou um risinho maroto — Arrume as almofadas e coloque mais lenha na fogueira — disse, então subiu correndo as escadas.

Enquanto Luthor arrumava tudo, a chuva cessou. Não se ouvia mais as gotas pesadas tamborilarem na cabana. Ele ouvia o velho andar de um lado para o outro e resmungando. Vez por outro ele produzia um som diferente, algo metálico se chocando, um som que lembrava vidro se partindo, som de coisas sendo repuxadas, amassadas e esfareladas. Três vezes ele ouviu Gáwyr proferir alguma coisa muito baixa para ser entendida. Por fim, ele ouviu o som que lembrava algo sendo frito. Foi então que ele desceu, com sorriso no rosto, e um frasco na mão. Ele exibia o vidro redondo como troféu, dentro dele havia várias pedrinhas que mais pareciam cristais avermelhados. Mesmo sem luz alguma, eles reluziam, brilhando como vagalumes presos em uma jarra.

— O que são essas coisas, Gáwyr? — perguntou. O Druida estendeu a mão e lhe entregou o frasco.

— Você só precisa segurar um, dizer “Tan” e jogar com força no local onde quer fazer a fogueira.

Luthor retirou a rolha do frasco, e puxou uma das pedrinhas entre a ponta dos dedos. Era um pouco maior que uma semente, mas não muito. Olhando para ela, ele teve a impressão de vê-la se movimentando. Ele esticou a mão, repetiu a palavra, e jogou a pedra, conseguiu ouvir quando ela se quebrou, estatelando-se no chão. Mas a surpresa foi o que veio depois. O rapaz caiu no chão, entre as almofadas quando a grande chama surgiu com uma explosão que foi até o teto. Era uma chama diferente, mais brilhante e mais forte do que todas que ele havia visto. Ela também parecia mais quente, como se espantasse todo o frio que havia ao seu redor. Era, em todos os sentidos, a fogueira perfeita.

— Que tipo de feitiço é esse? É genial! — disse. O garoto tinha um sorriso embasbacado na cara, e avidez nos olhos que olhavam fixamente para o fogo.

— Na realidade isso não é um feitiço. É um tipo de arte Nov que vem sendo desenvolvida por Druidas, consiste em armazenar elementos diferentes em cristais especialmente feitos para isso. Eles vêm chamando de Koant. Mas também pode ser chamado de Encantamento. — disse. Ele fez uma pausa, e, rindo, continuou — Mas não deveria produzir uma chama tão grande, talvez haja implicações sobre a potência e efeito dos Encantamentos que nós ainda não entendamos totalmente. Bom, você vai pode estudar sobre isso depois que se iniciar na ordem.

— É, claro... — disse. Ele limpou a garganta, tentando disfarçar — Você teria algum outro Encantamento com você?

O Gáwyr sorriu para Luthor.

— Para sua sorte, eu tenho sim… — respondeu. O velho se virou e subiu a escada, voltando alguns instantes depois com uma pequena sacola — Aqui tem outros dois tipos de Encantamento, um eu já testei, mas posso lhe mostrar. Mas você pode me ajudar a testar o outro.

Luthor deu um sorriso largo.

— O que estamos esperando?!

— Então nos faça uma tocha e venha garoto!

O rapaz pegou um pedaço do pano cinzento que embalara a comida, e amarrou em um galho comprido para fazer a tocha. Os dois saíram da casa e foram para perto do lago. Gáwyr retirou uma pedra da bolsa que mesclava tons de azul com cinza e a entregou para Luthor, o ensinando as palavras que tinha que pronunciar. “Dour, dod ar”. Água, venha à mim. Ele se posicionou de frente para o lago e repetiu e um filete fino de água veio flutuando até ele. Ele se divertiu no começo, mas logo mais e mais algo foi saindo do lago e vindo até ele, que começou a se desesperar, sem saber como parar. O Druida ria da situação, sentado no chão, apenas observando. Então Luthor lançou a pedra para ele. Quando o velho pegou a pedra. Ele soube como deveria parar a água.

— Walch — disse ele. A trilha de água caiu no chão ao redor deles, respingando por toda a parte.

— Walch — repetiu Luthor — Se eu quiser posso usar isso para apagar a fogueira também?

— Você sempre foi esperto, garoto — respondeu, guardando a pedra na sacola — Pode sim, e ela não deixará calor, cinzas, nem fumaça.

— Isso é incrível, os guerreiros poderão viajar de um lugar para outro sem serem notados, será uma benção para suas vidas.

— Desde quando você se importa com as incursões de guerreiros, garoto?

— Não me importo — disse, tentando disfarçar — Eu só estava pensando nas implicações que algo assim poderia ter no mundo real, como você mesmo disse.

— Não foi bem isso que eu quis dizer, mas vou considerar como um começo — disse. O Druida se levantou e se aproximou de Luthor e retirou outra pedra da pequena bolsa — Está pronto para testar essa aqui?

O velho lhe deu a pedra. Ele a observou cuidadosamente. Era maior que a pedra de água, mas era menos brilhante, sua coloração era um cinza amarelado. Pequenos pontos pareciam brilhar dentro do cristal, mas muito fracos para serem percebidos. Era como tentar enxergar o brilho das estrelas através de uma janela embaçada. Ele não saberia dizer para que ela servia nem se ficasse horas a fio a inspecionando. Para ele, aquela era uma pedra qualquer, se passasse por ela algum dia, provavelmente nem iria notar sua presença.

— Tudo bem, eu desisto. Para que serve esta aqui? É algum tipo de Encantamento que suga nuvens?

— Você não poderia estar mais longe da realidade, garoto — disse Gáwyr. Ele pegou a tocha do rapaz e se afastou um pouco, apoiando as costas no velho carvalho — A palavra que você deve dizer para essa pedra depende da situação em que você se encontra. Esse é o mais complexo Encantamento já feito. Tente começar com a palavra Lugern. Eu sugiro que você coloque à sua frente, não sabemos o resultado que isso poder ter.

Luthor desconhecia a palavra, ele examinou mais uma vez a pedra, seus minúsculos pontos cintilantes pareciam mais vivos agora, como se estivessem se movendo. Ele esticou o braço então disse:

— Lugern!

A pedra se iluminou e jogou um facho de luz branca por todo o lago, era com acender uma grande chama e direcionar sua luz para todos os cantos. Ela lembrava a luz emitida pelo Cervo, forte, machucando os olhos, fria e sem cor.

— Walch — disse, dando fim à claridade.

Luthor olhou para o Encantamento, fascinado. Ao examinar novamente, ele pôde perceber que cada uma das pequenas luzes brilhava de forma diferente, com intensidades e cores diferentes.

— É uma pedra que contem diversos tipos de luz que podem ser convocados se a pessoa souber as palavras certas, não é? — perguntou. O Druida meneou a cabeça em confirmação, um sorriso orgulhoso estampava seu rosto — Como se chama?

— Pedra de Luzes, ora. Como mais poderia se chamar? — respondeu. Ele se levantou e começou a se aproximar do rapaz novamente

— Pedra de Luzes? É um nome bem criativo... — disse, rindo.

— Então o que você sugeriria, senhor nomeador?

Luthor parou por um instante e pensou. Pensou nas várias luzes que a pedra possuía. Então se lembrou sobre uma história que sua mãe vivia lhe contando quando era criança. Era uma história sobre as Seresh, As Damas Estelares que eram guardiãs das Regentes das Lua. Ele se lembrou do titulo que elas levavam.

— Acho que deve se chamar Iluminadora.

—Iluminadora? É um ótimo nome, garoto. Que seja assim então. — disse. Ele abriu um largo sorriso, pegou a pedra de volta e a guardou na sacola — Agora vamos, garoto. Amanhã é o grande dia, você precisa descansar.

— Sim, amanhã é o grande dia...

Os dois caminharam juntos para dentro da cabana. O Druida fez um guisado com toda a comida que havia trago, estava quente e suculento, uma refeição como o rapaz não tinha havia dois anos. Luthor se deitou no tapete, entre as almofadas e Gáwyr subiu para o segundo andar e dormiu, como seus roncos evidenciavam. Luthor passou um tempo observando a fogueira e lembrando-se da pedra. Ele pensava que assim como uma história antiga deu o nome a uma invenção nova, por vezes o passado moldava o que acontecia no presente, e por vezes o passado moldava o futuro. Como seu antepassado havia moldado seu futuro, tudo que ele fizera nos últimos dias somente existia porque um homem, há incontáveis anos, sobreviveu a um massacre. Era apenas uma coincidência que marcaria pra sempre o destino de varias gerações. Uma sombra lançada pelo tempo, que o impedia de seguir e estar à sua própria luz. Assim agia o Acaso. Sua mente circulou essa ideia até adormecer

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.