O bosque estava em silêncio.

Nenhum pássaro cantava naquele fim de tarde, não se ouvia os ágeis passos de nenhum animal pequeno correndo por suas trincheiras, nenhum predador esperava em arbustos cheios de frutas silvestres ou nas copas das árvores.

O Frio havia chegado.

Luthor era o único que se esgueirava por entre os majestosos Sotarns, as árvores robustas de tronco marrom-claro tinham folhas verdes vivas, como se tivessem sido pintadas a mão em seus galhos, e mais belas ainda eram suas flores, os Lírios-do-Sol, eram de um amarelo puro e de cerne alaranjado, como se pequenas chamas houvessem sido congeladas e delicadamente salpicadas dentre as árvores, seu aroma era doce e suave, um perfume delicado que envolvia qualquer um que passasse por perto. Mas isso acontecia somente na Floração. Agora havia entrado a estação do Frio, os troncos estavam todos cobertos por uma fina camada de gelo, as folhas assumiam a cor amarelada das flores, mas seu tom era sem vida, um amarelo opaco, suas flores quando morriam assumiam uma tonalidade cinza, e todo seu perfume se tornava um fedor pútrido, que produzia um amargo na boca.

O chão estava repleto delas.

“Não posso errar”, pensou, “Por nada nesse mundo, não posso”.

Uma pequena gota de suor escorreu pela lateral do seu rosto, ele piscou o olho rapidamente para afastá-la, apoiava-se na ponta dos pés, não podia correr o risco de pisar em nenhum galho solto no chão, sua respiração estava cadenciada, inspirava rapidamente, apenas dois segundos por vez, e depois expirava lentamente, soltando o ar pela boca como quem solta a fumaça de um cachimbo. O suor que lhe acometia era frio, assim como o vento que vinha soprando do norte, da direção da cachoeira onde nascia o Glásion, o Sol jorrava seu brilho alaranjado por entre as pequenas frestas da cobertura de folhas do Bosque de Sotarns, enquanto do outro lado do céu as estrelas iam surgindo lentamente acompanhadas pela escuridão arroxeada da noite.

Mas nada disso importava para Luthor, tudo em que sua mente conseguia pensar era a flecha na corda retesada do arco e o cervo para qual ela apontava. O animal comia as folhas de um arbusto, sem perceber sua presença, atrás de um grande Sotarn.

Ele inspirou e expirou.

“Esse é o momento” pensou “tudo pelo que passei até aqui será decidido agora, finalmente serei um Lyand, finalmente eu poderei...”.

Um som permeou a floresta. Luthor não saberia dizer o que era, mas por vários segundos ele reverberou, era de algum modo primitivo, mas poderoso, como um chamado ancestral, o rapaz sentia como se o próprio chão tremesse debaixo de seus pés. O cervo também notou esse som, ele levantou a cabeça bruscamente e olhou para longe, suas narinas se dilatavam e contraiam, e quando o som cessou, o animal respondeu com sua própria voz.

— Ah, merda... – Ele já sabia o que aquilo significava.

Luthor saltou de trás da árvore e soltou a corda liberando sua flecha, mas o cervo já havia disparado em sua corrida. O rapaz correu, deixando toda sua sutileza para trás, seu coração começou a retumbar no peito, ele tentou pegar outra flecha, mas suas mãos haviam perdido toda a firmeza, fazendo a flecha cair, se perdendo para sempre, a gota de suor já havia se transformado em um banho. O cervo se afastava. A respiração de Luthor estava descontrolada, ele arfava, conseguira pegar outra flecha, mas por mais que tentasse não dava conta de colocá-la na corda do arco, o cervo disparou, virando bruscamente para a esquerda, e quando fez a curva Luthor conseguiu encaixar a flecha e a disparou sem ter tempo de mirar, ela raspou na perna traseira do animal o fazendo gritar, mas não parar, ele pulou um tronco entre duas árvores e sumiu de sua vista. Derrapando para virar para a mesma direção Luthor pegou outra flecha, suas mãos já estavam dormentes nas pontas, forçando-o a olhar para a flecha para poder encaixá-la enquanto pulava o tronco ao mesmo tempo, um erro estúpido.

Ao desviar o olhar do caminho que estava seguindo, ele falhou em perceber a tempo que logo após o primeiro tronco havia um segundo. Ele tentou pular, mas seus reflexos debilitados pelo desespero não foram rápidos o suficiente, seus pés se prenderam ao tronco, fazendo com que ele caísse de cara no chão, o impacto da queda foi tão forte que lhe arrancou sangue do nariz e boca e o arco da mão. Ele tentou levantar, mas estava tonto, seus pés estavam dormentes, ele escorregou e caiu, tentou aparar a queda com as mãos, mas lhe faltavam forças, fazendo com que ele caísse novamente de cara no chão, lágrimas escorreram de seus olhos, ele tentou se apoiar novamente, mas nem isso conseguiu, apenas escorregou no chão úmido e bateu de cara mais uma vez, tudo escureceu e, de repente, ele desmaiou.

Da primeira vez seus olhos abriram por alguns instantes, apenas para observar o chão e cair de volta na escuridão. Da segunda, ele tentou mexer seu corpo, mas sem sucesso, apenas para fechar os olhos outra vez. Da terceira, ele apenas suspirou e fechou-os, abraçando as sombras de suas pálpebras. Até que ouviu uma voz sussurrar:

“Abra os olhos, Luthor” Ele escutou ao longe “Você precisa manter os olhos abertos, sempre”.

Tudo estava diferente quando ele abriu os olhos.

Ele respirou fundo para juntar forças, conseguindo se sentar no chão, e foi se arrastando até o tronco em que havia tropeçado, recostou ali e olhou para cima, o céu estava do roxo escuro típico das noites, as três Luas repousavam no alto, mostrando que já havia muitas horas que o Sol se pusera, as folhas amareladas dos Sotarns cobriam a maior parte do céu, mas, talvez por coincidência, uma constelação era claramente visível, Luthor havia aprendido sobre as constelações com Gáwyr, o Druida de seu clã, “As estrelas servem para te guiar,” ele lhe ensinara, “não só pelo mundo, mas também pelo tempo e suas histórias.”, e aquela, especificamente aquela constelação, fazia parte da sua historia, Ceriw, era como Gáwir lhe dissera que ela se chamava, mas todos os outros que ele conhecia a chamavam de O Cervo.

Luthor tentou recobrar a consciência, sua visão estava turva e suas mãos estavam geladas, ele esfregou as palmas e soprou nas mãos em concha para tentar se aquecer, mas o frio era muito intenso.

— Preciso fazer uma fogueira, ou então morrerei de frio.

Tateou a sua volta procurando seu arco e o encontrou perto do tronco, partido ao meio, o que o fez praguejar, a maior parte de suas flechas estava espalhada pelos arredores da clareira onde ele havia caído, conseguiu achar algumas em bom estado, que guardou na aljava junto com as metades de seu arco. Os galhos que estavam no chão já estavam úmidos e esponjosos então ele arrancou alguns das árvores a sua volta, arrumando-os em forma de cone rodeando-os com pequenas pedras, depois pegou alguns ramos de um arbusto e os enrolou, colocando dentro dos galhos. Com sua faca ele raspou uma pedra produzindo faíscas, que tão logo que atingiram os ramos fizeram surgir uma brasa, ele soprou de modo suave até que a brasa crescesse, formando uma chama que se alastrou pelos galhos criando uma fogueira.

Ele aproximou suas mãos da fogueira e logo depois esfregou as palmas para espalhar o calor, tirou a bolsa que carregava das costas e checou o que havia dentro. Primeiro tirou um cobertor de pele e jogou-o sobre os ombros para ajudar a se aquecer, descalçou as botas para deixar os pés respirarem e encolheu-os logo em seguida para dentro do cobertor; depois vasculhou procurando algum vestígio de comida remanescente de sua jornada, Luthor esperava ter terminado seu teste no dia anterior, então, para sua infelicidade, achou apenas duas maçãs e meia e uma cebola dentro da mochila, alem disso havia apenas uma par de roupas sobressalente e uma garrafa pela metade de vinho de amora silvestre, vestiu a camisa extra para se aquecer, colocou uma maçã e metade da cebola para assar e tomou um gole do vinho. A bebida era leve, adocicada até demais para o paladar de Luthor, mas foi o bastante para aquecer seu peito e fazer a ponta de suas orelhas e nariz formigarem, e naquela noite fria, isso era tudo que ele precisava.

A maçã estava doce como se tivesse acabado de ser colhida, mas a cebola já estava velha, e seu sabor ácido veio acompanhado de uma nota amarga que entorpeceu o paladar de Luthor, o que ele limpou com outro bom gole de vinho. Sua face já formigava por inteiro e ele já estava na metade da segunda maçã quando um barulho o deixou em alerta. Um farfalhar rápido de folhas, como a de um arbusto sendo puxado de um lado para o outro, ele pegou sua faca na cintura e colocou fogo num galho com ramos enrolados na ponta, fazendo uma tocha improvisada, e começou a seguir o som com as regras básicas da caça que havia aprendido, respiração curta e expiração suave, como seu pai lhe ensinara, posição de joelhos dobrados, para facilitar um possível salto ou corrida rápida, como sua irmã lhe ensinara, apoio na ponta dos pés, para minimizar a chance de barulhos, como os Sídhe haviam lhe ensinado.

Ele seguiu com a tocha levantada para o alto, para que pudesse ser confundida com a luz do céu, e a faca à frente, caso precisasse de um ataque furtivo rápido, andou por alguns metros e avistou um arbusto tremulando ao longe. Ele se aproximou. Quando estava a uma distancia razoável do arbusto, saltou por sobre ele, esperando achar sua presa do outro lado, mas tudo o que achou foram mais árvores e arbustos. Confuso, ele olhou em volta, mas não viu sinal nenhum de qualquer animal. O arbusto se moveu novamente, assustando Luthor, ele se virou e colocou a tocha perto dele, lá dentro algo branco se remexia, ele chegou mais perto, pôde ver quando o coelho virou o rosto para ele e logo em seguida correu para dentro da escuridão, o fazendo cair na risada.

Quando se sentou novamente perto da fogueira o fogo já crepitava suave, a chama diminuía a cada vez que um vento gelado batia.

“Provavelmente eu deveria catar mais alguns galhos e ramos, caso o fogo comece a apagar”, pensou.

A essa altura da noite todos os galhos mais baixos estavam úmidos e quase congelados por conta do frio, então ele decidiu subir no tronco para pegar galhos mais secos, perto das copas das arvores mais baixas. Quando terminou de pegar da mais próxima, largou os galhos no chão e foi se deslocar até árvore que estava na outra ponta do tronco, mas no meio do caminho seu pé tocou algo viscoso, o fazendo escorregar do tronco e cair de bunda no chão ao lado da fogueira.

— Que merda,— Praguejou— já é a segunda vez que esse tronco maldito me derruba.

Luthor se arrastou para perto da fogueira, na intenção de examinar em que havia pisado, quando observou à luz do fogo viu um liquido escuro de coloração avermelhada, que escorria como uma gosma rançosa, ele raspou um pouco de seu pé com o dedo e esfregou entre o polegar o indicador para sentir a consistência, ao aproximá-lo do nariz sentiu um cheiro ocre de ferrugem, então uma ideia surgiu em sua cabeça, mas só havia um jeito de confirmar, lentamente, dominando toda sua repulsa, ele aproximou os dedos dos lábios e provou o muco escuro, o gosto pútrido de ferro invadiu a sua boca, ele cuspiu rapidamente, sentindo a refeição anterior subir pela garganta, mas havia valido a pena, ele agora sabia do que se tratava.

— Você é meu.

Depois de recolher suas coisas e calçar as botas, ele acendeu uma tocha na chama da fogueira e logo depois a apagou, chutando terra em cima dela, passando a tocha por cima do tronco ele observou atentamente até achar o local onde havia pisado, era uma aglomeração de varias gotas escuras, que se estendia pela lateral do tronco, seguindo pelo chão em uma trilha que a principio era consistente, mas logo ia se tornando dispersa, mas ao longo do caminho Luthor pôde notar pegadas profundas no chão de relva e arranhões horizontais em árvores próximas. Não demorou muito para que ele achasse o que procurava. Numa clareira entre vários arbustos baixos estava sua presa, a criatura languida repousava deitada numa piscina de sangue, pela quantidade que escorria pelo chão já deveria estar morta há algumas horas, mas seu peito descia e subia como espasmos de dor e ela grunhia baixinho como se chorasse a cada vez que sua respiração a forçava a se movimentar. Se aproximando com cuidado, Luthor retirou sua faca da cintura, não a faca feita de metal, mas aquela que era feita dos chifres de um cervo como esse, que vivera nesse mesmo bosque, há mais de duzentos anos.

— Me desculpe por lhe causar dor desnecessária, era para isso ser rápido.

Ele se aproximou do animal e o agarrou pelos chifres, posicionou a faca em seu pescoço, o animal o olhou bem nos olhos, Luthor sentiu como se ele falasse, como se estivesse implorando, não por sua vida, mas pelo final de seu sofrimento.

— Que seu sacrifício não seja em vão – Foram suas palavras ao cortar a garganta do cervo, fazendo jorrar o restante do sangue que ainda estava em seu corpo.

Luthor começou a completar o ritual, ele mergulhou os dedos no sangue do animal e se virou para o norte, e apenas contemplou o céu, olhou para as estrelas r respirou profundamente o ar gelado da noite. Levando os dedos ensanguentados ao rosto, ele desenhou uma linha, vinda da sua pálpebra inferior, passando pela maçã de seu rosto e descendo até a lateral de seu queixo, ele repetiu os movimentos do outro lado do rosto, e então traçou uma linha do alto de sua testa, passando pelo nariz e boca, até a ponta do queixo.

Ele se sentou no chão e começou a meditar. Nos primeiros instantes sua mente foi avassalada por pensamentos, ele pensava em como não queria decepcionar seu pai, lembrou-se dele lhe ensinando a cavalgar, caçar e lutar, em seus irmãos, das aulas de esgrima que seu irmão, exímio espadachim, lhe dera, dos segredos de caça que sua irmã, a melhor arqueira que conhecia, lhe contara. Luthor pensou em sua mãe. Sua imagem pura e luminosa permeava sua cabeça em pequenos flashes das únicas lembranças que tinha dela, uma canção quase esquecida em sua memória lhe enchia os ouvidos, ele não se lembrava da letra, mas melodia vinha em notas nítidas e dançava suavemente numa cadência mística que lhe arrancava lágrimas. Mas todas essas coisas sumiam na mesma velocidade em que apareciam, “Os pensamentos devem ser como o vento,” ele se lembrava de ter aprendido, “você não pode lutar contra eles, assim como não pode soprar uma brisa na direção contrária da qual ela vem, mas você pode simplesmente deixar que ela venha, e esperar que ela passe, não se agarre a eles, apenas deixe que passeiem livres por sua mente, e eles desaparecerão por conta própria”, e tão logo a brisa passou, sua mente estava relaxada, uma página em branco marcada apenas por sensações, o cheiro da terra e das plantas, o som do farfalhar das folhas, o gosto do ar noturno do bosque, o beijo do vento que soprava entre as árvores, a escuridão de suas pálpebras.

Foi então que um brilho intenso o interrompeu. Luthor tentou abrir os olhos para ver o que era, mas ele era forte demais, parecia embalá-lo por completo, era frio e denso, como uma névoa feita de pura luz, ele sentiu o brilho se aproximar, não pela intensidade, mas pelo sentimento que crescia dentro dele, um misto de medo e curiosidade que reverberava em seu interior, como se algo dentro dele estivesse sendo atraído pela luz e tentasse desesperadamente abrir seu peito para sair, suas pálpebras ardiam e seus olhos lacrimejavam por dentro.

Então começou a diminuir, a sensação dentro dele foi se abrandando, seu coração foi retomando seu ritmo normal, ele espiou de olhos cerrados, e viu uma forma estranhamente familiar, a curiosidade ardia dentro de sua cabeça, ele fechou os olhos novamente e respirou fundo.

Inspirou. Expirou. E repetiu algumas vezes, até que, finalmente, conseguiu abrir os olhos.

Luthor não saberia dizer qual sensação o dominava naquele momento, se era espanto, fascínio ou pura incredulidade. Parado na sua frente estava um cervo branco, de dois metros de altura, seus chifres eram gigantescos, de um modo que era impossível que o animal suportasse carregá-los, ele cintilava sobre a luz das Luas e piscava vagarosamente seus grandes olhos vermelhos, seu corpo exalava uma espécie de névoa fria, como se o animal fosse feito de pura neve, ele soltou um bramido fraco e remexeu a terra com uma das patas enquanto abaixava a cabeça, fazendo os grandes chifres penderem para frente, e voltando a cabeça logo em seguida, seus olhos encontraram os de Luthor e ele sentiu como se o animal falasse dentro de sua cabeça. “Venha” dizia ele, “Venha até mim”.

Ele foi se aproximando lentamente do cervo, examinando atentamente cada detalhe de seu corpo, era como se a nevoa tornasse o animal parecido com uma ilusão, como as que os bardos encantavam nas chamas para que elas dançassem com a melodia de suas histórias, mesmo assim era impossível não sentir a força de sua presença, como se ele atraísse toda a energia para si mesmo. Seus olhos eram vibrantes, atraiam a visão como uma pedra telúrica atrai o metal, eles falavam, não com palavras, mas com sensações, vestiam-se de emoções momentâneas suaves demais para serem descritas ou mesmo compreendidas, algo naqueles olhos parecia estranhamente familiar para Luthor, como se exibissem lembranças que ainda não tinha, era como ver o futuro através de memórias dispersas como se tivessem caminhado na mente de alguém durante incontáveis anos, se tornando sombrias e confusas, um fio de prata perdido numa colcha de retalhos cinzenta e obscurecida pela ação do tempo.

Ele sentiu algo tocar sua mão. Era o cervo.

Sua cabeça estava aninhada perfeitamente com a mão de Luthor, mas seus olhos ainda estavam fixados nos do rapaz. O animal respirou e um sopro frio percorreu seu corpo. Outra respiração, olhos fixos, um sopro ainda mais frio. Respirou novamente, olhos impassíveis, um frio dolorido percorreu todos os ossos de Luthor. Então ele fechou os olhos, por alguns instantes ficou imóvel, como se nem mesmo respirasse, foi aí que o clarão voltou. Luthor tentou se afastar, mas sentia-se preso ao cervo, tudo que ele pôde fazer foi fechar os olhos.

A palma de sua mão queimou.

Começou com um pequeno calor, e foi piorando até que ele sentisse como se o próprio fogo do Sol queimasse sua carne e ossos, ele suava frio e esperneava noite adentro, mas nada parecia acontecer, nada mudava, a dor ia aumentando cada vez, lágrimas rolaram de seus olhos, ele gritou até que sua garganta arranhasse e o gosto do sangue subisse até sua boca, e, quando já não tinha mais forças pra lutar, tentar ou gritar, a luz cessou.

Luthor caiu no chão e levou a mão em concha ao peito, a dor nem se comparava ao que fora segundos antes, ardia como uma queimadura de metal. O cervo estava parado na sua frente, olhos vermelhos apontados para Luthor, ele ergueu a cabeça e bramiu. O som que saiu do animal mais se assemelhava a uma trombeta ou um berrante de guerra, a força de sua voz permeou todo corpo do rapaz, fazendo seus ossos vibrarem e sua cabeça tontear, havia algo poderoso naquele som, algo antigo e profundo, algo que Luthor nem mesmo poderia sonhar em compreender, mas dentro dele um sentimento cresceu, como uma onda submergindo todos os outros pensamentos.

O Cervo cessou o bramido e olhou para longe, ele brilhou, mas não como das outras vezes, era uma luz tênue, frágil como a de um vagalume, que se espalhava como pó na nevoa que cobria seu corpo, sua figura foi ficando cada vez mais turva, seus contornos desapareciam enquanto o brilho suave se espalhava cada vez mais no ar, até que ele se tornou todo uma nuvem de poeira brilhante, e foi soprado pelo vento, como se nunca estivesse estado ali, sem nenhum vestígio de sua passagem.

Nenhum, a não ser Luthor, que fora deixado caído na relva, com uma ferida na mão, um coração cheio de duvidas e uma palavra na cabeça.

Destino.

Notas finais
O próximo não vai demorar...