O Tempo que nos Resta

7 Sangue, Segredos e Vidro Quebrado



​No dia seguinte, o jipe estacionou na vaga habitual de West Valley High, mas apenas uma porta se abriu. Sofia desceu devagar, com os olhos fundos e uma expressão cansada que chamou a atenção de Garret e James, que já a esperavam perto da entrada.

​James deu dois passos rápidos à frente, varrendo o carro com os olhos, procurando desesperadamente pelos fios loiros de Elara.

​— Sofia! — James chamou, a voz carregada de uma ansiedade que ele mal conseguia disfarçar. — Cadê a Elara? Ela não veio com você?

​Sofia ajeitou a alça da mochila, engolindo em seco.

— Não, James. Ela... ela tinha um compromisso importante hoje de manhã. Não vai vir para a aula.

​O brilho nos olhos de James apagou-se instantaneamente. Seus ombros caíram de leve e ele passou a mão pelo rosto, o peito doendo com a rejeição que achava que estava sofrendo.

​— Entendi. Ela está fugindo de mim — ele murmurou, a voz amarga. Sem dizer mais nada, girou nos calcanhares e entrou no colégio, pisando duro.

​Garret aproximou-se de Sofia, envolvendo-a em um abraço de lado e depositando um beijo em sua têmpora.

— Ei... o que está acontecendo? O James está subindo pelas paredes, e você parece que não dorme há três dias.

​Sofia olhou para os lados, vendo o pátio esvaziar, e segurou a mão de Garret. Suas mãos tremiam.

— Garret... é mais complicado do que parece. Muito mais complicado. Eu queria poder te contar, mas... é o segredo dela. Só não deixa o James odiar ela, por favor.

​Distante dali, o cenário era pintado em tons de branco hospitalar e o som constante e irritante dos bipes dos monitores cardíacos.

​Elara estava sentada em uma imensa poltrona reclinável na ala de oncologia. Um cobertor grosso de lã cobria suas pernas, mas ela ainda sentia frio — um frio que vinha de dentro, dos medicamentos pesados que corriam por suas veias através do acesso em seu braço. Ela olhava em volta, com o coração apertado, observando os rostos pálidos, as cabeças cobertas por lenços e a fragilidade explícita daquele lugar.

​Ao seu lado, uma senhora idosa, de olhar cansado mas sorriso terno, ajeitou os óculos e olhou para a agulha no braço de Elara.

​— Eu não sei por que os médicos nos obrigam a fazer essa bosta — a idosa disse, a voz rouca, quebrando o silêncio do ambiente. — A gente sabe que essa quimioterapia destrói o corpo. No fundo, a gente sabe que não funciona para sempre.

​Elara deu um sorriso triste, ajeitando o cobertor.

— É... o gosto de metal na boca é o pior. A senhora está aqui há muito tempo?

​— Tempo demais, minha jovem. Já estou no estágio 5. Os médicos dizem que é só uma questão de tempo e de cuidados paliativos agora — a senhora deu de ombros, encarando o teto com uma aceitação dolorosa. — E você? Tão bonita, tão nova... O que faz aqui?

​— Estágio 2 — Elara engoliu em seco, sentindo uma lágrima solitária escorrer. — É leucemia. Eu estou... eu estou bem mal esses dias. O pior é que ninguém na minha família é compatível para o transplante de medula. Estamos na fila de espera, mas parece que o relógio corre mais rápido do que a busca.

​A idosa olhou para ela com profunda compaixão.

— Viva o hoje, menina. Não gaste o tempo que você tem chorando por amanhã.

​No final da tarde, a realidade do hospital cobrou seu preço. No banheiro de casa, Elara estava de joelhos no chão, com a cabeça curvada sobre um balde de plástico, vomitando o restante das forças que ainda lhe restavam. O suor frio colava os cabelos em sua testa.

​Sofia estava ajoelhada ao lado dela, segurando seus cabelos com uma mão e acariciando suas costas com a outra, com os olhos cheios de lágrimas.

​— Põe para fora, El... vai passar, a mamãe já está trazendo o remédio para o enjoo — Sofia dizia, a voz embargada.

​Elara se afastou do balde, tossindo, e deitou a cabeça no ombro de Sofia. Ela começou a chorar, um choro desesperado, doloroso e pesado.

​— Sofia... o James — Elara soltou entre os soluços, a voz fraca. — Eu não paro de pensar nele. O beijo dele... eu queria tanto poder viver isso. Mas eu não posso trazer ele para essa vida, Sofi. Olha para mim! Eu passo as tardes vomitando num balde, eu passo as manhãs amarrada a uma máquina de quimioterapia. Ele merece alguém inteira, não alguém em pedaços como eu.

​— Shh... calma, El. Não pensa nisso agora — Sofia a abraçou forte, chorando junto.

​Mais tarde, o silêncio da noite foi quebrado por um som nítido. Tique. Tique. Elara, que estava deitada na cama sob a penumbra do quarto, franziu o cenho. Ela se levantou devagar, caminhou até a janela e afastou a cortina. Lá embaixo, no jardim iluminado pela luz da lua, estava James. Ele segurava uma pequena pedra na mão, pronto para jogar novamente.

​Ao ver o rosto dela na janela, ele largou a pedra. Elara sentiu o impacto daquele olhar mesmo à distância. Movida por um impulso que não conseguiu controlar, ela desceu as escadas em silêncio, abriu a porta dos fundos e pisou na grama fria do jardim.

​James deu dois passos na direção dela. Ele parecia exausto, com os olhos escuros brilhando de uma intensidade assustadora.

​— Você não foi à aula — James começou, a voz rouca, cortando o vento da noite. — O Garret disse que eu devia te esquecer, que você é complicada. Mas eu passei o dia inteiro com a porra do seu gosto na minha boca, Elara. Eu não consigo dormir. Eu nunca fui atrás de nenhuma garota na minha vida, mas com você... eu sinto que se eu não vier, eu vou enlouquecer. Eu estou aqui, quebrando meu orgulho, para te dizer que eu quero você. Do seu jeito marrento, complicado, seja lá o que for. Eu estou aqui.

​Elara ouviu cada palavra, sentindo o peito rasgar de dor. Cada palavra dele era um punhal de amor que ela não podia aceitar. Ela o olhou nos olhos, engoliu o choro que subia pela garganta e, sem dizer absolutamente uma única palavra, girou nos calcanhares, entrou em casa e bateu a porta na cara dele.

​Ela se encostou as costas contra a madeira da porta, escorregando lentamente até sentar-se no chão frio. Ela cobriu a boca com as duas mãos para abafar os gritos de dor e o pranto que explodiu de seu peito. Do outro lado da porta, ela ouviu o silêncio de James, seguido por seus passos pesados se afastando na brita do jardim.

​James voltou para casa destruído. Ele entrou no quarto, jogou-se na cama de solteiro e acendeu o celular. Com o coração apertado, ele abriu o perfil de Elara nas redes sociais, algo que nunca tinha feito antes. Não havia muitas fotos; ela não era de ostentar. Mas uma foto antiga, dela olhando para o mar durante o pôr do sol, prendeu sua atenção.

​Ele desceu os olhos para a legenda escrita há alguns meses. Suas pupilas se dilataram ao ler as palavras:

​"Aproveitando cada segundo do tempo que ainda me resta nessa terra."

​James sentou-se na cama num pulo. O tempo que resta. O nome do livro que ela lia. As fugas. O ano sabático forçado. O gelo. A fragilidade. Tudo começou a colidir na mente dele como peças de um quebra-cabeça macabro.

​Ele levantou-se e correu pelo corredor, esmurrando a porta do quarto de Garret antes de entrar sem pedir licença. Garret deu um salto na cama, assustado.

​— Cara, que porra é essa? — Garret reclamou, esfregando os olhos.

​James caminhou até ele e esfregou a tela do celular na cara do amigo.

— Olha isso, Garret! Olha a legenda dessa foto da Elara! "O tempo que me resta nessa terra". A Sofia te disse que era mais complicado do que parecia, não disse?

​Garret leu o texto, o semblante mudando de sonolento para confuso e preocupado.

— É... esquisito. Mas pode ser só uma frase profunda de internet, James.

​— Não é! Eu conheço o olhar dela, Garret. Tem algo muito errado acontecendo ali. Ela me olhou hoje como se estivesse se despedindo de mim — James segurou o amigo pelos ombros, os olhos fixos e desesperados. — Você precisa falar com a Sofia amanhã. Descobre o que está acontecendo com a Elara, Garret. Por favor. Isso não é normal. Eu preciso saber a verdade.

​No dia seguinte, em seu quarto, Elara tentava se arrumar para parecer normal. Ela estava de pé em frente ao espelho do banheiro, segurando uma escova, penteando os longos cabelos loiros. Suas mãos estavam trêmulas e a palidez de seu rosto a assustava.

​De repente, ela sentiu uma sensação quente e fluida descer pelo lábio superior.

​Ela olhou para o espelho. Um filete de sangue vivo e escuro saía de sua narina esquerda. Elara largou a escova, pegando um pedaço de papel higiênico para estancar, mas o fluxo aumentou drasticamente no segundo seguinte. O sangue começou a jorrar, escorrendo por seus dedos, manchando sua blusa branca, pingando na pia de porcelana num ritmo frenético.

​O pânico tomou conta dela. A fraqueza veio como uma onda avassaladora, fazendo suas pernas falharem.

​— SOFIA! MÃE! PAI! — Elara gritou, a voz saindo abafada pelo sangue que entrava em sua boca.

​A visão dela começou a escurecer, cobrindo-se de pontos pretos. A força sumiu completamente de seus músculos. Antes que os passos desesperados de Sofia pudessem cruzar o corredor, o corpo de Elara desabou para trás, batendo com força no chão do banheiro, completamente desmaiada no meio do próprio sangue.