O Tempo que nos Resta
8 Paredes Brancas e Promessas Silenciosas
O bipe rítmico e insistente do monitor cardíaco foi a primeira coisa que trouxe Elara de volta à consciência. A luz forte do teto do hospital incomodou seus olhos, forçando-a a piscar várias vezes até que a visão embaçada começasse a focar. O cheiro de antisséptico cobria o ar. Ela moveu os dedos da mão direita, sentindo o incômodo familiar do acesso venoso e o frio do soro correndo por suas veias.
Ao lado da cama, o som suave e repetitivo de agulhas batendo chamou sua atenção. Elise estava sentada na poltrona de corino, com os óculos na ponta do nariz, concentrada em um novelo de lã rosa, tecendo um crochê com os dedos trêmulos. Um pouco mais adiante, encostada na janela, Sofia segurava um livro de bolso, mas seus olhos estavam fixos no nada, completamente distantes.
— Mãe... — a voz de Elara saiu como um sussurro rasgado, a garganta seca como areia.
Elise largou o crochê na mesma hora, as agulhas caindo no chão com um barulho surdo. Ela se levantou em um salto, segurando a mão livre da filha.
— Meu amor! Você acordou — Elise acariciou a testa de Elara, os olhos enchendo-se de lágrimas instantaneamente. — Graças a Deus. Não se mexa, querida.
Sofia fechou o livro num estalo e correu para o outro lado da cama, os olhos vermelhos denunciando que ela não dormia há horas.
— El... você deu o maior susto da nossa vida. O banheiro parecia uma cena de filme de terror — Sofia tentou brincar, mas sua voz falhou, entregando o pânico que ainda sentia.
— O que... o que aconteceu? — Elara tentou se sentar, mas uma onda de tontura a forçou a manter a cabeça no travesseiro. — O sangue não parava.
— O seu organismo está muito frágil, querida. Seu pai está lá fora tentando falar com o laboratório — Elise explicou, tentando manter a voz firme, embora seus lábios tremessem.
Antes que Elara pudesse perguntar mais, a porta do quarto se abriu devagar. O Dr. Álvaro, o oncologista que a acompanhava desde o primeiro diagnóstico, entrou segurando um prontuário digital. Sua expressão séria e os ombros ligeiramente caídos fizeram o estômago de Elara encolher.
— Que bom ver que já recuperou os sentidos, Elara — o médico disse, aproximando-se e ajustando o suporte do soro. Ele olhou para Elise e Sofia, respirando fundo. — Bem... os resultados dos exames de sangue que colhemos assim que você deu entrada na emergência acabaram de sair. E precisamos conversar de forma muito franca.
— Houve uma piora, não foi, doutor? — Elara perguntou diretamente. Havia uma calmaria dolorosa em sua voz, a aceitação de quem já esperava pelo pior.
O Dr. Álvaro assentiu lentamente, cruzando os braços sobre o jaleco.
— Infelizmente, sim, Elara. O sangramento nasal severo e o desmaio foram reflexos diretos de uma queda drástica e súbita nas suas taxas de plaquetas e hemoglobina. A quimioterapia que vínhamos fazendo no último mês não está mais conseguindo conter o avanço das células doentes. Em termos claros: o seu quadro clínico regrediu. Estamos entrando em uma zona de risco considerável.
Elise cobriu a boca com as mãos, soltando um soluço abafado. Sofia deu um passo à frente, segurando a grade da cama hospitalar com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.
— Mas doutor, tem que ter alguma coisa! Outro protocolo de remédios, um aumento nas doses... qualquer coisa! — Sofia exigiu, o desespero ditando seu tom de voz.
— Nós vamos alterar a medicação imediatamente para tentar estabilizar as taxas dela, Sofia — o Dr. Álvaro respondeu, mantendo o tom profissional, mas compassivo. — Porém, preciso ser honesto com vocês. O tratamento medicamentoso agora é apenas uma barreira temporária para ganhar tempo. A realidade é que o corpo da Elara não vai aguentar esse ritmo por muitos meses. A única chance real e definitiva de cura para ela, neste estágio, é o transplante de medula óssea.
— E a fila internacional? — Elise perguntou, a voz sumindo. — Nenhum doador compatível ainda?
— Ainda não, Sra. Styles. Continuamos cruzando os dados diariamente nos bancos nacional e internacional, mas a combinação genética da Elara é rara. Até encontrarmos, o foco total é mantê-la estabilizada e evitar qualquer tipo de esforço físico ou estresse emocional. O repouso agora precisa ser absoluto.
Elara olhou para a janela, observando os raios de sol cortarem as cortinas do hospital. Ela não conseguia parar de pensar nas palavras de James na noite anterior, no jardim, sob a luz da lua. Eu quero você. Do seu jeito marrento, complicado...
"Eu estava certa", Elara pensou, sentindo uma lágrima quente escorrer pelo canto do olho e molhar o travesseiro. "Eu vou morrer e destruir o coração dele se deixar ele entrar."
No dia seguinte, o céu amanheceu cinzento e pesado sobre West Valley High. Sofia insistira em ir à escola apenas para pegar as matérias e os trabalhos de Elara, mas sua mente estava completamente voltada para o quarto de hospital onde a irmã permaneceria internada pelos próximos dias.
Assim que ela desceu do jipe, Garret, que estava encostado no Mustang de James perto da entrada, largou a mochila no chão e correu na direção dela. James não estava com ele; tinha entrado direto, incapaz de lidar com a expectativa e o orgulho ferido.
— Sofia! — Garret a segurou pelos braços, olhando no fundo dos olhos dela. — Pelo amor de Deus, você precisa me dizer o que está acontecendo. O James está um trapo. Ele passou a noite em claro, rodando o quarto de um lado para o outro por causa daquela legenda da foto da Elara. Ele acha que ela está se despedindo dele, que vai embora da cidade, ou pior...
Sofia desviou o olhar para o chão, sentindo o peso do segredo esmagar seus ombros. Ela amava a irmã e prometera proteger sua privacidade, mas ver o sofrimento de Garret e, por tabela, o de James, estava rasgando seu peito.
— Garret... por favor, não me pressiona — Sofia pediu, a voz falhando, as lágrimas ameaçando cair bem ali, no meio do pátio do colégio.
— Eu não estou te pressionando por mal, minha linda — Garret suavizou o tom, puxando-a para mais perto e envolvendo-a em um abraço apertado, acariciando suas costas. — É que eu me importo com você, e o James está genuinamente quebrado. Ele nunca agiu assim por ninguém. Se a Elara está passando por problemas familiares, ou se ela vai se mudar, fala para a gente. A gente pode ajudar. O James move céus e terras se for preciso.
Sofia se afastou do abraço devagar, limpando uma lágrima teimosa que havia escapado. Ela olhou para Garret com uma seriedade que ele nunca tinha visto no rosto daquela garota brincalhona.
— É mais complicado do que parece, Garret. Muito mais complicado do que uma simples mudança ou um problema de família — ela engoliu em seco, sustentando o olhar dele. — E eu não posso te contar. Não é o meu segredo para ser revelado. É a vida da Elara, e somente ela tem o direito de decidir quem entra ou quem fica de fora. Se eu quebrar a confiança dela agora, eu destruo a única coisa que a mantém firme.
Garret franziu o cenho, captando a gravidade nas palavras de Sofia. O tom de mistério e a dor explícita nos olhos dela fizeram um sinal de alerta acender em sua mente.
— É algo grave, não é? — ele perguntou, a voz quase num sussurro.
Sofia não respondeu com palavras. Ela apenas apertou a mão de Garret com força, deu um beijo rápido em sua bochecha e caminhou em direção às portas duplas do colégio, deixando-o sozinho no estacionamento, com a certeza absoluta de que o tempo de James e Elara estava correndo contra um relógio que eles sequer sabiam que existia.
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