O Tempo que nos Resta

9 Palavras ao Vento e o Tempo que nos Resta



​O silêncio do quarto Styles era quebrado apenas pelo som distante do vento batendo contra a vidraça. Elara estava sentada na cama, com as costas apoiadas nas almofadas, observando o teto. Sua pele parecia ainda mais pálida após o susto no hospital, e o peso do segredo começava a se tornar uma âncora difícil demais para carregar sozinha. Ela olhava para o celular sobre o lençol, como se soubesse o que estava por vir.

​BZZZZZ. BZZZZZ.

​A tela iluminou-se com o nome de James. Elara fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e atendeu, levando o aparelho ao ouvido.

​— Alô? — sua voz saiu baixa, desprovida da habitual armadura de deboche.

​— Styles? — a voz de James veio do outro lado, mas não tinha a arrogância de sempre. Estava carregada de uma urgência dolorosa. — Você sumiu de novo. Eu passei o dia inteiro olhando para aquela maldita legenda da sua foto. O Garret conversou com a Sofia, e ela disse que era complicado. Para de palhaçada, Elara. Diz logo o que está acontecendo. Você vai embora? É isso?

​Elara engoliu em seco, sentindo uma lágrima quente escorrer por sua bochecha. Ela percebeu que não dava mais para fugir. O muro que ela havia construído estava desmoronando sob a insistência dele.

​— Eu não vou embora, James — ela disse, a voz trêmula, mas firme. — Pelo menos, não do jeito que você está pensando.

​— Então o que é? Fala comigo! — ele praticamente suplicou.

​— Eu estou doente, James — a verdade saiu de sua boca em um sussurro pesado, ecoando pelo quarto vazio. — Eu tenho leucemia. Há um ano. É por isso que eu vou pegar um ano sabático, e é por isso que nós não podemos ficar juntos. Minha vida não é normal, meu futuro não é uma garantia. Eu não posso deixar você entrar para depois te ver sofrer com o que sobrou de mim.

​Houve um silêncio absoluto do outro lado da linha. Um silêncio que pareceu durar uma eternidade. James não respirava, não falava, não se movia.

​— O quê?... — a voz dele saiu completamente rasgada, o choque anestesiando suas cordas vocais.

​— Sinto muito, James. Mas é a realidade — Elara limpou o rosto com as costas da mão. — Por favor, não me procura mais.

​Antes que ele pudesse processar ou responder, o som do clique indicou que a ligação havia caído.

​Na mansão Lâfrer, James afastou o celular do ouvido lentamente, encarando a tela escura. O mundo parecia ter perdido o chão sob seus pés. O quarterback intocável, o rapaz que tinha tudo o que queria na hora que queria, acabara de ser atropelado pela realidade mais cruel possível. O desespero subiu por seu peito como um incêndio. Ele largou o telefone na cama e correu pelo corredor, invadindo o quarto de Garret com os olhos arregalados e a respiração totalmente descontrolada.

​— Garret! Cara... acorda! — James gritou, puxando o amigo pelo braço.

​— Que foi, James? Que cara é essa? — Garret levantou-se assustado, vendo o desespero cru no rosto do melhor amigo.

​— A Elara... ela me contou — James passou as mãos pelo cabelo, a voz embargada, os olhos marejados. — Ela tem leucemia, Garret. Leucemia. Há um ano. É por isso que ela foge, é por isso que ela não quer me ver. Cara, eu não sei o que fazer... eu estou pirando!

​Garret sentou-se na borda da cama, o olhar mudando instantaneamente. Ele não pareceu surpreso; a gravidade das palavras de Sofia no pátio do colégio finalmente fizera sentido. Ele soltou um longo suspiro, colocando a mão no ombro de James.

​— Eu já esperava por algo assim, James... — Garret disse, o tom baixo e maduro. — A Sofia estava destruída ontem no colégio. Ela disse que era o segredo da irmã, que era algo que só a Elara podia contar. Faz sentido agora. Toda aquela fragilidade, as consultas... tudo faz sentido.

​— Eu não posso deixar ela passar por isso sozinha, Garret — James sibilou, o maxilar trincado, a determinação misturando-se à dor. — Eu não vou deixar.

​Mais tarde naquele mesmo dia, o Mustang preto de James estacionou em frente à casa dos Styles. Garret estava no banco do carona, dando o apoio que o amigo precisava. Eles desceram e caminharam até a porta. Foi Sofia quem abriu, com o semblante cansado, mas seus olhos suavizaram ao ver os dois.

​Ao entrarem na casa, Lucian e Elise estavam na sala. Houve um momento de silêncio tenso. Os pais de Elara olharam para James, reconhecendo o rapaz que fizera a filha chorar e surtar na noite anterior. Mas ao verem o olhar de pura dor e sinceridade nos olhos do quarterback, o julgamento cedeu lugar à compreensão.

​Sofia olhou para Garret, que fez um aceno sutil com a cabeça.

​— Mãe, pai... vamos dar um espaço para eles? — Sofia sugeriu suavemente, segurando a mão de Garret.

​Elise olhou para Lucian, que assentiu lentamente. Os três adultos e Sofia caminharam em direção à cozinha, fechando a porta flutuante atrás de si e deixando o caminho livre para o segundo andar.

​James respirou fundo, sentindo as mãos trêmulas, e subiu os degraus da escada um a um, com Garret logo atrás para lhe dar cobertura. Ao chegar à porta do quarto de Elara, James girou a maçaneta devagar e entrou.

​Elara estava deitada, olhando para a janela, mas virou o rosto ao ouvir o som da porta. Seus olhos se arregalaram ao ver James ali, vestindo sua jaqueta do time, mas com uma postura completamente desarmada.

​Garret deu um tapinha nas costas de James, sussurrou um "estou lá embaixo com a Sofi" e fechou a porta, deixando os dois completamente sozinhos na penumbra do quarto.

​James caminhou devagar até a beirada da cama e sentou-se com cuidado, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse quebrá-la. Elara desviou o olhar, as lágrimas já inundando seus olhos loiros.

​— Eu mandei você não vir, James — ela murmurou, a voz falhando. — Você não devia estar aqui. Não quer ver isso.

​James soltou um longo suspiro, estendendo a mão para tocar o rosto dela, acariciando sua bochecha pálida com o polegar.

​— Você achou mesmo que uma palavra de cinco sílabas ia me fazer correr de você, Styles? — ele deu um sorriso fraco, os olhos escuros brilhando com uma intensidade avassaladora. — Eu passei a vida inteira cercado de pessoas vazias, de pais que viajam o mundo e me deixam em uma casa gigante e fria. E aí você aparece. Com essa língua afiada, esse orgulho e esse jeito que me bota no meu devido lugar. Você acha que eu me importo com a doença? Eu me importo com você.

​— James... você não entende — Elara virou o rosto, tentando afastar o toque dele. — Eu posso morrer. O meu tempo está correndo. Não é justo com você. Você tem a faculdade, o futebol, o mundo inteiro pela frente. Eu sou uma contagem regressiva.

​James segurou o queixo dela com delicadeza, forçando-a a olhar para ele. Seu tom de voz mudou, tornando-se profundo e carregado de uma poesia que vinha direto do coração.

​— "Não chores pelo tempo que se esvai nas mãos, nem pelo amanhã que desenha a incerteza. O amor não se mede em anos ou estações, mas na urgência de um olhar que encontra sua fortaleza." — ele ditou, os olhos fixos nos dela. — Eu não dou a mínima para o relógio, Elara. Se o nosso tempo for de um mês, um ano ou cinquenta anos, eu quero passar cada segundo dele com você. Eu prefiro quebrar o meu coração tendo te amado do que passar o resto da minha vida inteiro, mas vazio por ter sido um covarde e fugido de você.

​Elara sentiu o peito explodir. As palavras dele derrubaram a última fortaleza que a quimioterapia e o medo haviam construído em sua mente. Ela olhou para o rapaz à sua frente — não o quarterback egocêntrico do colégio, mas o homem que estava disposto a caminhar com ela através da tempestade.

​— Você é um idiota, James Lâfrer — ela soltou um riso em meio ao choro, as lágrimas rolando livres por seu rosto. — Um completo idiota.

​— Sou o seu idiota, Styles. Se você me aceitar — ele sussurrou, aproximando o rosto do dela.

​— Eu aceito... eu não consigo mais lutar contra isso — ela cedeu, a voz sumindo.

​James não esperou mais nenhuma palavra. Ele inclinou-se e selou seus lábios nos dela. O beijo foi completamente diferente de todos os outros; não havia urgência ou jogo de poder. Era um beijo cheio de promessas silenciosas, de entrega mútua e de um amor que desafiava o próprio tempo. Elara entrelaçou os dedos nos cabelos escuros dele, permitindo-se, finalmente, sentir-se viva e protegida nos braços do rapaz que mudara o rumo de sua contagem regressiva.