O Tempo que nos Resta
10 Pequenos Milagres e Grandes Promessas
A luz da manhã na ala de oncologia parecia menos hostil daquela vez. Elara estava acomodada na mesma poltrona reclinável de couro, com o cobertor de lã cobrando seu espaço sobre suas pernas. Mas, ao contrário das outras sessões, onde o silêncio e o isolamento eram suas únicas companhias, sua mão direita estava firmemente entrelaçada nos dedos longos de James.
Ele estava sentado em uma cadeira de plástico desconfortável ao lado dela, usando um moletom casual, totalmente focado em mantê-la distraída. Com a mão livre, ele abria um pote de vidro com pedaços de abacaxi e morango que ele mesmo havia cortado antes de saírem de casa.
— Abre a boca, Styles. Hora da vitamina — James brincou, estendendo um pedaço de morango com um garfo de plástico.
Elara aceitou a fruta, mastigando devagar e sorrindo com o canto dos lábios. O gosto de metal que a quimioterapia costumava deixar na boca parecia diminuir com a presença dele.
— Você está muito mimada, sabia? Se o time de futebol te visse servindo fruta na boca de alguém com esse olhar de cachorrinho pidão, sua reputação ia para o ralo — ela provocou, a voz um pouco mansa por causa do efeito inicial do sedativo leve.
— Deixa que falem. Minha reputação está ótima — James deu de ombros, limpando o canto da boca dela com um guardanapo com extrema delicadeza. — E além do mais, eu sou o quarterback. Eu dito as regras. Se eu decidir que o novo padrão de masculinidade é cuidar da minha namorada, o time inteiro vai começar a andar com potinhos de fruta no vestiário.
Uma risada rouca e fraca veio da poltrona ao lado. Martha, a idosa do estágio 5 que Elara conhecera na sessão anterior, ajeitou os óculos de leitura e olhou para o casal com os olhos brilhando de diversão.
— Olha só... a minha companheira de batalha arrumou um enfermeiro de primeira categoria — Martha disse, ajeitando o próprio acesso venoso. — Na semana passada você estava com uma cara de quem ia carregar o mundo nas costas sozinha, menina. Que bom que ouviu o meu conselho.
Elara corou levemente, apertando mais a mão de James.
— Ouvir a senhora me fez pensar bastante, Martha. Este aqui é o James. James, essa é a Martha, minha mentora de cabeceira do hospital.
James inclinou-se para a frente, estendendo a mão livre para a idosa com um sorriso respeitoso.
— É um prazer, dona Martha. Obrigado por dar um choque de realidade nela. Ela é teimosa demais.
— Ah, eu sei como é. Os jovens acham que o tempo é um inimigo, rapaz — Martha encostou a cabeça no travesseiro da poltrona, suspirando suavemente. — Mas a verdade é que o tempo é só um cenário. O que importa é quem está no palco com você. Fico feliz que você tenha escolhido o palco dela.
James olhou de volta para Elara, os olhos escuros carregados de uma promessa silenciosa e profunda.
— Eu não estaria em nenhum outro lugar do mundo, Martha. Nem que me pagassem.
Enquanto a sessão de quimioterapia avançava no hospital, o clima no quarto de Sofia, na casa dos Styles, era de uma intensidade completamente diferente.
As cortinas estavam semiabertas, deixando a luz suave da tarde entrar. Sofia e Garret estavam deitados na cama de casal, abraçados sob os lençóis após passarem as últimas horas conversando sobre o futuro e sobre o medo constante que rondava a família. Sofia estava com a cabeça apoiada no peito de Garret, ouvindo as batidas calmas do coração dele, enquanto ele acariciava seus ombros com os dedos longos.
De repente, Sofia tensionou o corpo. O silêncio que antes era confortável tornou-se denso. Ela respirou fundo, os olhos fixos na parede, expressando um pensamento que vinha consumindo suas noites em claro.
— Garret... — ela chamou, a voz saindo pequena, quase um sussurro assustado.
— Oi, minha linda. Que foi? — ele respondeu, depositando um beijo carinhoso no topo da cabeça dela.
Sofia sentou-se na cama, puxando o lençol contra o peito. Seus olhos estavam marejados, cheios de uma urgência misturada com desespero.
— Eu estive pensando muito sobre o que o médico disse ontem... sobre a Elara precisar de um transplante de medula urgente e sobre ninguém na nossa família ser compatível.
Garret sentou-se também, franzindo o cenho com preocupação.
— Sim... o James me contou. É uma situação difícil, Sofi. Mas eles vão achar alguém no banco internacional, você vai ver.
— E se não acharem a tempo? — Sofia virou-se para ele, as lágrimas finalmente transbordando. — Garret, eu li sobre isso. Irmãos biológicos têm a maior chance de compatibilidade. Mas eu não sou. Eu fiz o teste e deu negativo. Só que... bebês que nascem dos mesmos pais têm 25% de chance de serem totalmente compatíveis. E eu... eu tive uma ideia maluca. Eu estou com tanta vontade de ter um bebê. De fazer um bebê com você. Para ver se ele nasce compatível e salva a vida da minha irmã.
Garret arregalou os olhos por um segundo, completamente pego de surpresa pela escala daquela declaração. Eles tinham 18 anos, estavam no último ano da escola. Um filho era uma responsabilidade monumental. Mas ao olhar para o rosto banhado de lágrimas de Sofia, para o desespero puro de uma irmã caçula disposta a dar a própria vida e o próprio futuro para salvar a outra, o coração de Garret transbordou de uma admiração e de um amor que ele nunca soube que era capaz de sentir por alguém.
Ele estendeu as mãos, segurando o rosto de Sofia com firmeza, limpando as lágrimas dela com os polegares.
— Sofia... olhar para você e ver o tamanho do seu coração me dá a certeza de que eu quero passar o resto da minha vida do seu lado — Garret disse, a voz incrivelmente madura, os olhos fixos nos dela com total segurança. — É uma loucura? É. Nós somos novos? Somos. Mas eu amo você. E eu faria qualquer coisa para ver você sorrir de novo e para ajudar a Elara. Se depender de mim para tentar salvar a sua irmã e para construir a nossa história... nós fazemos esse bebê agora mesmo.
Sofia soltou um soluço, mas dessa vez foi um soluço de alívio e gratidão. Ela jogou os braços ao redor do pescoço de Garret, puxando-o para si em um abraço apertado.
— Obrigada, Garret... obrigada por não me achar maluca — ela sussurrou contra o ouvido dele.
— Eu te amo, Sofia — ele respondeu, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela.
O beijo que se seguiu foi profundo, lento e carregado de uma gravidade diferente de todos os outros. Não era apenas desejo ou paixão juvenil; era uma promessa de entrega, um pacto de amor e de esperança contra a dor. Garret deitou Sofia de volta nos travesseiros com delicadeza, seus dedos traçando caminhos suaves pela pele dela enquanto os lençóis eram deixados de lado. Naquela tarde, no silêncio do quarto, eles se amaram com a intensidade de quem buscava gerar vida no meio da incerteza.
De volta ao hospital, a bolsa de quimioterapia finalmente chegou ao fim. O enfermeiro retirou o acesso com cuidado, colocando um pequeno curativo no braço de Elara.
James levantou-se imediatamente, ajudando-a a calçar os sapatos e segurando seu casaco de tricô para que ela vestisse sem precisar fazer esforço. Elara ainda estava um pouco instável nas pernas, o cansaço cobrando o preço habitual.
— Prontinho, Styles. Missão cumprida por hoje — James disse, passando o braço pela cintura dela para lhe dar apoio, permitindo que ela colasse o corpo contra o seu.
Elara olhou para a poltrona ao lado. Martha já estava fechando os olhos para tirar um cochilo pós-sessão.
— Tchau, Martha. Até a semana que vem — Elara sussurrou.
A idosa abriu um olho só, sorrindo fraco.
— Tchau, querida. Juízo vocês dois. E continuem segurando essa mão com força, rapaz. O caminho é longo, mas com boa companhia, a gente nem sente a subida.
James assentiu com um aceno firme. Ele conduziu Elara devagar pelo corredor do hospital em direção à saída. Enquanto caminhavam em direção ao Mustang sob o céu da tarde, Elara encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o perfume familiar de James limpar qualquer resquício do cheiro de hospital. Pela primeira vez em muitos meses, ela não sentiu medo do amanhã; ela apenas sentiu paz por ter James segurando sua mão no agora.
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