O Tempo que nos Resta

11 Onde o Amor Faz Morada



​A mansão dos Lâfrer, com seus cômodos imensos e silêncios caros, havia se tornado apenas um endereço distante para James. Suas roupas agora ocupavam metade do armário de Elara, suas escovas de dente dividiam o mesmo suporte no banheiro e sua jaqueta do time de futebol americano vivia jogada na cadeira da cozinha dos Styles. James simplesmente não ia mais para casa. Ele escolhera viver ali, onde cada centímetro quadrado exalava a presença da garota que havia capturado seu coração.

​Eles se tornaram inseparáveis. Estavam agarrados no sofá assistindo a reprises de séries antigas, trocando sussurros cúmplices enquanto dividiam o balcão da cozinha para preparar um lanche, ou simplesmente deitados no quarto, trocando carinhos em um silêncio que dizia mais do que qualquer poema de Shakespeare.

​Mas aquela noite, especificamente, trouxe a face mais dura e implacável da rotina do tratamento.

​O relógio de cabeceira marcava pouco mais de duas da manhã quando o estômago de Elara se revirou de forma violenta. Ela mal teve tempo de se sentar na beirada do colchão antes que a náusea avassaladora a dominasse.

​James, cujo sono havia se tornado incrivelmente leve desde que se mudara para lá, despertou no mesmo segundo. Sem precisar de nenhuma palavra, ele tateou a penumbra, alcançou o balde plástico que já ficava estrategicamente posicionado ao lado do criado-mudo e se ajoelhou no chão frio, bem na frente dela.

​Ele segurou o balde com firmeza mútua, enquanto Elara se curvava, o corpo inteiro tremendo com os espasmos dolorosos do vômito. Uma onda de suor frio colou as mechas loiras de seu cabelo na testa e no pescoço.

​— Põe para fora, meu amor... estou aqui. Solta tudo — James dizia, a voz em um tom incrivelmente doce e manso, totalmente desprovida de qualquer pressa ou repulsa.

​Com a mão livre, ele afastava os cabelos dela com os dedos, massageando a nuca de Elara com movimentos circulares e calmos, tentando transferir toda a sua força para aquele corpo tão fragilizado.

​Após longos e exaustivos minutos, os espasmos finalmente cessaram. Elara se afastou do balde, respirando de forma arfante, as lágrimas escorrendo livres por suas bochechas pálidas. Ela limpou a boca com um pedaço de lenço que James rapidamente lhe estendeu, sentindo-se a pessoa mais vulnerável do mundo.

​— Desculpa, James... — ela sussurrou, a voz falhando pelo choro preso na garganta. Ela cobriu o rosto com as mãos, tomada por uma súbita onda de vergonha. — Isso é horrível. É humilhante. Você não devia estar aqui vendo isso, cuidando de uma garota estragada...

​James colocou o balde de lado e, sem hesitar um único segundo, puxou as mãos dela para longe do rosto, forçando-a a olhar para ele. Seus olhos escuros faiscavam com uma seriedade profunda e um amor que beirava a adoração.

​— Ei, olha para mim, Elara Styles — ele comandou com suavidade, segurando o rosto dela entre as palmas das mãos quentes. — Nunca mais repita isso. Você não está estragada. Você está lutando. E eu sou o seu namorado, o seu parceiro. Eu amo você em cada segundo do dia: quando você está linda e marrenta no corredor do colégio, e quando você está aqui, no meio da madrugada, precisando de mim. Estar aqui não é um fardo, El. É o único lugar onde eu quero estar.

​Elara deixou um soluço escapar e se jogou para a frente, enterrando o rosto no pescoço de James. Ele a envolveu em um abraço apertado, aninhando-a em seu peito enquanto a trazia para cima da cama. Ele puxou o edredom grosso para cobri-los, protegendo-a do frio que insistia em fazê-la tremer.

​Deitados de lado, com os rostos a poucos centímetros de distância, James continuou a fazer carinho em suas bochechas, limpando o rastro das lágrimas com o polegar.

​— O gosto de metal voltou? — ele perguntou baixinho.

​— Um pouco — ela admitiu, fechando os olhos para saborear o toque dos dedos dele em seu cabelo. — Mas o seu perfume ajuda a disfarçar.

​James sorriu de canto, depositando um beijo terno na ponta do nariz dela.

— Amanhã eu vou fazer aquele suco de laranja bem gelado que você gosta. E vou tentar arriscar uns crepes no café da manhã. O que acha?

​— Acho que meu pai vai ficar com ciúmes do avental dele — Elara soltou uma risada fraca, a primeira daquela madrugada, fazendo o coração de James se aliviar. — Sabe... às vezes eu fico pensando no quanto a minha vida mudou desde aquele esbarrão no campo de futebol. Eu estava tão pronta para me fechar em um casulo e esperar o pior. E você simplesmente chutou a porta.

​— Eu sou um quarterback, Styles. Romper barreiras é a minha especialidade — James piscou, o brilho divertido voltando aos olhos por um momento antes de se tornar profundamente sério novamente. — Mas a verdade é que você me salvou também. Eu era um idiota arrogante que achava que o mundo girava em torno do meu próprio umbigo. Hoje, meu mundo gira em torno desse quarto. E eu sou muito mais feliz assim.

​Elara abriu os olhos, encarando a imensidão escura do olhar de James. Naquela penumbra, cercados pelas marcas físicas de uma doença implacável, o amor deles parecia intocável. Não havia leucemia, não havia contagem regressiva, não havia medo. Havia apenas o toque, o calor e a certeza absoluta de que eles pertenciam um ao outro.

​— Eu te amo, James — ela confessou, aproximando seus lábios dos dele.

​— Eu te amo muito mais, loira — ele sussurrou de volta.

​O beijo que trocaram foi lento, calmo e repleto de uma gratidão profunda por estarem ali, dividindo o mesmo espaço e o mesmo ar. James a puxou ainda mais para perto, colando o corpo dela ao seu, mantendo seus dedos entrelaçados sob o cobertor.

​Aos poucos, a respiração de Elara foi se tornando pesada e compassada, o cansaço cedendo lugar a um sono tranquilo e protegido. James permaneceu acordado por mais algum tempo, apenas velando o sono dela, ouvindo o som do coração de Elara bater contra o seu peito, grato por cada pequeno milagre que aquela noite, em toda a sua fragilidade, havia lhe permitido viver.