O Tempo que nos Resta
12 Fios de Incerteza e a Força do Amor
A manhã havia começado cinzenta, com uma chuva fina que batia de leve contra o vidro da janela, deixando o quarto Styles mergulhado em uma penumbra melancólica. Elara sentou-se na beirada da cama, sentindo o corpo um pouco mais disposto do que nos dias anteriores. Ela olhou para o espelho do guarda-roupa e decidiu que era um bom dia para tentar pentear os cabelos e fazer uma trança, algo que costumava amar.
James não estava no quarto no momento; ele havia descido até a cozinha para ajudar Lucian com o café da manhã.
Elara caminhou até o banheiro, pegou sua escova de madeira favorita e posicionou-se em frente ao espelho da pia. Ela respirou fundo, ergueu a mão e passou a escova suavemente pela primeira mecha loira, perto da têmpora.
Quando puxou a escova de volta, ela travou.
Entre as cerdas de madeira, não havia apenas alguns fios bobos. Havia um tufo espesso, dourado e brilhante. O coração de Elara deu um salto violento no peito. Suas mãos começaram a tremer. Com os dedos trêmulos, ela levou a mão até a lateral da cabeça e puxou de leve uma mecha curta.
O cabelo saiu por inteiro em seus dedos, sem resistência alguma, como se as raízes tivessem simplesmente desistido de segurá-lo.
— Não... não, por favor, agora não — ela sussurrou, a voz sumindo.
Em um ato de puro desespero, ela passou as duas mãos pelos cabelos, puxando-os para trás. Mais tufos imensos se soltaram, caindo na pia branca, espalhando-se pelo chão de porcelana, cobrindo seus ombros. O espelho devolvia a imagem de sua pior noite: pedaços do couro cabeludo começavam a aparecer, expondo a marca cruel da quimioterapia.
O pânico travou sua garganta. A escova caiu da sua mão, batendo no chão com um som oco. Elara deu um passo para trás, deixando os joelhos cederem, e desabou sentada no chão do banheiro, cercada pelos fios loiros que fariam tanta falta. Ela cobriu o rosto com as mãos e soltou um grito rasgado, um pranto desesperado e doloroso que ecoou por toda a casa.
— NÃO! Por que isso?! — ela soluçava alto, o peito subindo e descendo de forma violenta.
O som do choro desesperado disparou o alarme no andar de baixo. Em menos de dez segundos, passos pesados e frenéticos subiram as escadas correndo. James foi o primeiro a esmurrar a porta do banheiro, que estava apenas encostada, entrando com os olhos arregalados, seguido de perto por Sofia, Elise, Lucian e Garret, que tinha passado a noite ali com Sofia.
Ao cruzarem a porta, a cena partiu o coração de todos. Elara estava encolhida no chão, chorando tanto que mal conseguia respirar, e o chão ao redor dela estava coberto de fios dourados.
— Elara! — James caiu de joelhos na mesma hora, sem se importar com o chão frio. Ele tentou puxar as mãos dela para longe do rosto, mas ela se debatia, tentando se esconder.
— Não olha para mim, James! Sai daqui! — ela gritava entre os soluços, a voz falhando. — Olha isso! Eu estou ficando horrorosa! Eu estou sumindo por pedaços! Me deixa sozinha, por favor!
Sofia deu um passo à frente, as lágrimas já inundando seus olhos ao ver a dor da irmã, e ajoelhou-se do outro lado de Elara, envolvendo-a pelos ombros junto com James.
— Shh... El, olha para mim, minha linda. Estou aqui — Sofia pedia, o tom embargado, colando o rosto no ombro da irmã.
Elise desabou nos braços de Lucian na porta do banheiro. O pai de Elara apertou a esposa contra o peito, engolindo a própria dor, e caminhou até o chão, ajoelhando-se perto dos filhos. Ele estendeu a mão grande e tocou o ombro de Elara com uma firmeza paternal indescritível.
— Minha filha... olha para o seu pai — Lucian pediu, a voz grave e trêmula de emoção. — O seu cabelo era lindo, sim, mas ele é só uma moldura. A nossa Elara, a menina forte que a gente ama, não está nos fios de cabelo. Ela está aqui dentro desse peito que está batendo. Isso vai passar, faz parte do processo para você se curar.
— Mas dói, pai... dói tanto ver tudo sumindo — Elara soluçou, encostando a cabeça no peito de James, entregando-se ao abraço dele.
James a apertou contra si com tanta força que parecia querer absorver toda aquela doença para dentro de suas próprias células. Ele beijou o topo da cabeça dela, onde o cabelo ainda resistia, e segurou o rosto de Elara com as duas mãos, limpando as lágrimas que não paravam de descer.
— Styles, presta atenção no que eu vou te dizer — James falou, olhando bem no fundo dos olhos azuis dela, os seus próprios olhos marejados de uma sinceridade cortante. — Eu não me apaixonei pelo seu cabelo loiro. Eu me apaixonei por essa garota marrenta que me deu o maior fora da história do colégio. Eu me apaixonei pelo seu sorriso, pela sua mente, pela sua coragem de me enfrentar. Se você perder cada fio de cabelo dessa cabeça, você ainda vai ser a garota mais linda desse mundo para mim. Nenhuma doença tem o poder de mudar isso. Entendeu? Nenhuma.
Garret, que estava parado na porta dando apoio a Sofia, deu um passo para a frente e agachou-se perto deles, quebrando a tensão com seu habitual tom protetor e maduro.
— É verdade, Elara. E sabe de uma coisa? O James com esse cabelo dele cheio de gel é um saco. Se você quiser, a gente pega uma máquina agora e raspa a cabeça dele também, só para equilibrar o jogo. O que acha?
Elara soltou uma risada fraca e chorosa no meio do pranto, o que fez o peito de James se aliviar instantaneamente. Ela olhou para o namorado, vendo o amor puro que brilhava naqueles olhos escuros.
— Não precisa raspar o dele... o cabelo dele é a única coisa que salva a pose de jogador — ela brincou baixinho, limpando o nariz com o lenço que Elise havia acabado de lhe entregar.
Elise aproximou-se, sentando-se no chão junto com a família, e pegou a mão da filha.
— Nós vamos passar por isso juntas, meu amor. Eu comprei uns lenços lindos, de seda, coloridos. E a Sofia encontrou uns tutoriais de amarrações maravilhosas na internet. Você vai ficar uma rainha.
— Vai sim, El — Sofia sorriu, apertando a mão da irmã. — E se alguém no colégio ousar olhar torto, o soco da direita já está aposentado, eu invento um golpe novo.
Elara olhou para o círculo de amor que a envolvia no chão daquele banheiro. Seus pais, sua irmã, Garret e James — o rapaz que ela achava que iria embora ao menor sinal de fraqueza, mas que agora estava ali, limpando o chão sujo de sangue e fios de cabelo sem hesitar um segundo.
— Obrigada... — Elara sussurrou, deixando a cabeça descansar no ombro de James. — Obrigada por estarem aqui. Por não me deixarem cair.
James a puxou para mais perto, envolvendo-a completamente em seus braços protetores, enquanto o resto da família se mantinha unida ali no chão. Naquela manhã cinzenta, no meio da perda e da dor, Elara entendeu que a contagem regressiva de sua vida não importava, porque o amor que a cercava era infinito e capaz de preencher qualquer vazio que a doença tentasse deixar.
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