O Tempo que nos Resta
13 O Peso de uma Escolha e a Semente da Esperança
Um mês havia se passado desde aquela manhã cinzenta no banheiro. Trinta dias de uma rotina intensa, onde o tempo parecia correr em dois ritmos diferentes dentro da casa dos Styles. Para Elara, os dias eram marcados pelos novos lenços coloridos de seda que agora cobriam sua cabeça, pelas consultas frequentes e pela presença constante de James, que se tornara sua rocha. Para Sofia, porém, as últimas semanas haviam sido um borrão de ansiedade, noites mal dormidas e uma contagem silenciosa no calendário que ela não tinha coragem de confessar a ninguém. Até aquela manhã.
O sábado amanheceu com um sol tímido. Na sala de estar, Lucian lia o jornal e Elise ajeitava algumas almofadas. Elara estava sentada no sofá menor, com as pernas encolhidas sob um cobertor leve, usando um lenço azul-turquesa que destacava seus olhos. James estava ao seu lado, com o braço estendido sobre o encosto, massageando de leve os ombros dela.
A porta da frente se abriu e Sofia entrou. Seus passos eram lentos. Logo atrás, Garret vinha com as mãos enfiadas nos bolsos, a mandíbula tensa e uma expressão tão séria que parecia carregar o peso do mundo nas costas.
Sofia parou no centro da sala, olhando para cada um ali presente. Suas mãos tremiam visivelmente quando ela apertou os dedos de Garret, buscando apoio.
— Mãe... Pai... El... James. Sentem aqui, por favor — a voz de Sofia saiu trêmula, quebrando a calmaria da manhã. — Eu preciso falar uma coisa. Com todos juntos.
Lucian franziu o cenho, largando o jornal na mesa de centro. Elise parou o que estava fazendo na mesma hora, o instinto materno captando a eletricidade pesada no ar. James e Elara se entreolharam, tensos.
— O que houve, Sofia? Que cara é essa? — Lucian perguntou, ajeitando a postura no sofá, o tom de voz já mudando para o de um pai em alerta.
Sofia engoliu em seco. Ela olhou para Garret, que assentiu com a cabeça, apertando a mão dela com força, dando-lhe o sinal de que estaria ali, não importasse a tempestade. Ela respirou fundo, puxando o ar com força para os pulmões, e soltou a verdade de uma vez só:
— Eu estou grávida.
O silêncio que se instalou na sala foi tão absoluto que o tique-taque do relógio da parede pareceu ensurdecedor.
Lucian paralisou. Seus olhos se arregalaram e a cor sumiu do seu rosto de forma drástica. Elise deu um passo para trás, levando as duas mãos à boca, soltando um arquejo de puro choque. No sofá, Elara arregalou os olhos azuis, a boca entreaberta, olhando da irmã para Garret sem conseguir processar a informação. James endireitou o corpo na mesma hora, olhando para Garret com total incredulidade.
— O quê?... — Lucian quebrou o silêncio, a voz saindo baixa, perigosa e carregada de uma fúria contida. Ele se levantou lentamente, parecendo ainda maior no meio da sala. — O que você disse, Sofia?
— Eu estou grávida, pai — Sofia repetiu, as primeiras lágrimas finalmente transbordando e escorrendo por suas bochechas, mas ela manteve o queixo erguido. — Eu fiz três testes de farmácia hoje de manhã. Todos deram positivo.
— Você enlouqueceu, Sofia?! — Lucian explodiu, a voz ecoando pelas paredes da casa, fazendo Elara encolher-se de leve no sofá. Ele deu dois passos rápidos na direção de Garret, os punhos cerrados. — Você tem dezoito anos! Vocês dois estão no último ano da escola! Nós estamos no meio de uma batalha pela vida da sua irmã, e você faz uma irresponsabilidade dessas?! Garret, eu confiei em você dentro da minha casa!
Garret deu um passo à frente, colocando-se sutilmente entre Lucian e Sofia. Ele não recuou, não abaixou a cabeça, embora estivesse visivelmente pálido.
— Sr. Styles, por favor, me escuta — Garret pediu, a voz firme, mantendo o tom o mais respeitoso possível em meio ao caos. — Eu sei o que o senhor está pensando. Sei que parece a maior idiotice do mundo, mas eu não vou fugir. Eu amo a sua filha. Eu vou assumir esse bebê, vou trabalhar, vou fazer o que for preciso. Mas... o senhor precisa entender o motivo. Isso não foi um acidente de festa. Não foi um descuido.
— Um motivo?! — Lucian esbravejou, o rosto vermelho de indignação. — Que motivo no mundo justifica estragar o futuro de vocês dois agora?!
— PAI! CHEGA! ESCUTA ELES! — Elara gritou do sofá, a voz falhando pela emoção, levantando-se com a ajuda de James, que tentava manter a calma no ambiente.
Sofia limpou o rosto com as costas da mão, dando um passo à frente, ficando ao lado de Garret. Ela olhou diretamente para o pai, e depois para a mãe, que chorava silenciosamente encostada no batente da cozinha.
— Eu fiz isso de propósito, pai — Sofia soltou a bomba, a voz embargada pelo pranto.
A sala inteira congelou novamente.
— Do que você está falando, filha? — Elise perguntou, a voz sumindo em um sussurro confuso, aproximando-se devagar.
— Há um mês, quando nós fomos ao hospital após o desmaio da Elara... o Dr. Álvaro disse que o quadro dela tinha piorado. Ele disse que os remédios eram temporários e que a única chance real de cura era um transplante de medula — Sofia explicou, os ombros sacudindo pelos soluços. — Ele disse que ninguém na família era compatível, e que a fila internacional estava demorando demais. Mas ele também disse... que irmãos de mesmos pais têm a maior chance de compatibilidade do mundo. Vinte e cinco por cento de chance.
Elara sentiu o impacto das palavras da irmã diretamente no peito. Suas mãos foram à boca, as lágrimas inundando seus olhos na mesma hora. James sentiu um arrepio subir por sua espinha, apertando a cintura de Elara com força.
— Sofia... não — Elara sussurrou, a voz sumindo.
— Sim, El! — Sofia virou-se para a irmã, o olhar cheio de um amor desesperado e sacrificial. — Eu fiz o teste e eu não sou compatível com você. Eu queria tanto te salvar, e eu não podia fazer nada! Eu li que um bebê gerado pelos mesmos pais tem a mesma carga genética. Esse bebê que está aqui dentro da minha barriga... o sangue do cordão umbilical dele, as células-tronco dele... podem ser a sua cura, Elara! Eu conversei com o Garret naquela mesma tarde. Eu contei para ele o plano mais louco da minha vida, e ele... ele não me chamou de maluca. Ele segurou a minha mão e disse que faria qualquer coisa para te ajudar e para me ver feliz. Nós fizemos esse bebê para tentar salvar a sua vida, El. Porque eu não posso viver em um mundo onde você não esteja.
Quando as palavras de Sofia terminaram de ecoar pela sala, o silêncio que se seguiu foi completamente diferente. A fúria de Lucian desmoronou em um piscar de olhos. Seus punhos se abriram e seus ombros caíram, o rosto antes vermelho de raiva agora banhado por uma compreensão avassaladora e dolorosa.
Elise cobriu o rosto com as duas mãos, desabando em um choro alto e comovido, correndo em direção à filha caçula.
— Ah, minha menina... meu Deus, Sofia — Elise envolveu a filha em um abraço desesperado, apertando-a contra o peito, chorando junto com ela.
Lucian olhou para Garret. O quarterback imenso e protetor viu o pai de Sofia caminhar até ele. Mas, em vez de um soco ou de um grito, Lucian colocou as duas mãos grandes nos ombros de Garret, com os olhos transbordando de lágrimas.
— Você... você aceitou isso? — Lucian perguntou, a voz falhando como nunca antes. — Sabendo do peso de um filho na sua idade?
— Eu amo a Sofia, Sr. Styles — Garret respondeu, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto sério. — E eu considero a Elara como uma irmã. Eu faria tudo de novo. Se esse bebê puder trazer a cura para essa casa, vai ser a maior honra da minha vida ser o pai dele.
Lucian puxou Garret para um abraço apertado e paternal, um abraço de perdão, de gratidão e de aceitação mútua.
No sofá, Elara estava em prantos. Ela se desvencilhou dos braços de James e caminhou a passos trêmulos até a irmã. Sofia se afastou do abraço da mãe e olhou para Elara. As duas se jogaram nos braços uma da outra, um abraço forte, apertado, o lenço de Elara roçando no rosto de Sofia.
— Você é louca, Sofia... completamente louca — Elara chorava alto, escondendo o rosto no pescoço da irmã caçula. — O seu futuro... a sua vida... você abriu mão de tudo por mim?
— Eu não abri mão de nada, El — Sofia sorriu no meio das lágrimas, acariciando as costas da irmã. — Eu só garanti que o meu futuro continue tendo você nele. Nós vamos fazer o teste assim que der, e esse bebezinho vai te salvar. Você vai ver.
James aproximou-se devagar, parando ao lado de Garret. Ele olhou para o melhor amigo, os olhos escuros cheios de uma admiração profunda. James deu um soco de leve no ombro de Garret antes de puxá-lo para um abraço de lado.
— Você é o cara mais foda que eu já conheci na minha vida, Lioncort — James sussurrou, a voz embargada.
— Eu te disse, Lâfrer... eu cuido dos meus — Garret deu um sorriso fraco, limpando o rosto.
Naquela manhã de sábado, a sala da família Styles, que havia começado imersa no medo do amanhã e na raiva do inesperado, transformou-se em um santuário de esperança. Havia um bebê a caminho, uma vida nova gerada no meio da tempestade. E, pela primeira vez em muitos meses, a contagem regressiva no peito de Elara parecia ter encontrado um adversário à altura: o amor incondicional de uma irmã disposta a desafiar as leis do mundo para mantê-la viva.
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