O Tempo que nos Resta

6 Sabores, Toques e Verdades Ocultas



​A manhã seguinte trouxe um céu limpo e o habitual burburinho no estacionamento de West Valley High. Assim que o jipe das Styles parou, Garret já cruzava o pátio com passos largos. Antes mesmo que Sofia pudesse fechar a porta do carro, ele a envolveu pela cintura, erguendo-a levemente do chão antes de colá-la em um abraço apertado.

​— Bom dia, minha loira — Garret sorriu, dando um selinho demorado nela.

​— Bom dia, Lioncort. Que recepção é essa? — Sofia riu, as bochechas corando de felicidade enquanto se apoiava no peito dele.

​James aproximou-se logo atrás, com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta do time. Seus passos eram calmos, mas seus olhos escuros foram direto para Elara. Ele parou a uma distância respeitável, perdendo um pouco daquela pose defensiva da noite anterior.

​— Bom dia, loira — James disse, a voz num tom macio, quase íntimo. — Dormiu bem? Ou ficou pensando em Shakespeare?

​Elara ajeitou a alça da mochila, tentando ignorar o sobressalto que seu coração deu.

— Dormi muito bem, Lâfrer. E os meus sonhos são livres de poesia arrogante, obrigada.

​James soltou uma risada baixa, dando um passo à frente.

— Sabe, a casa está vazia hoje de novo. Que tal vocês duas passarem a tarde lá? A gente come alguma coisa, joga videogame, ou só assiste a algo. Sem brigas, prometo.

​Sofia largou o braço de Garret na mesma hora, os olhos brilhando. Ela agarrou o braço de Elara, juntando as mãos em sinal de súplica.

— Ai, El, por favor! Diz que sim! Vai ser super divertido, a gente não tem nada para fazer hoje à tarde. Por favor, por favor!

​Elara olhou de Sofia para James. Havia uma expectativa genuína no olhar dele, algo que parecia quase vulnerável por trás do escudo de bad boy. Ela suspirou, cedendo.

​— Tá bom. Nós vamos — Elara estipulou, apontando o dedo para James. — Mas eu não bebo refrigerante. Só tomo suco natural. Se não tiver, eu não fico.

​James abriu um sorriso vitorioso de canto a canto.

— Considera feito, Styles. Se não tiver na geladeira, eu espremo a fruta com as minhas próprias mãos.

​Logo após o último sinal, Sofia enviou uma mensagem rápida para Elise: "Mãe, vamos passar a tarde na casa de um amigo do colégio estudando e jogando. Voltamos ao anoitecer. Beijos!".

​Quando as irmãs estacionaram na mansão Lâfrer, o ambiente parecia completamente diferente da noite anterior; a calmaria e o silêncio da vizinhança nobre traziam uma paz inesperada. Assim que entraram, Garret e Sofia correram para a sala de jogos, disputando quem escolheria o primeiro controle do videogame, as risadas dos dois ecoando pelos corredores.

​Elara caminhou devagar em direção à cozinha, atraída por um cheiro maravilhoso de molho de tomate e manjericão. Ao cruzar o arco da porta, ela parou, surpresa. James estava de avental, com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos, espalhando farinha sobre a bancada de mármore enquanto abria uma massa de pizza caseira.

​— Você... fazendo pizza? — Elara arqueou uma sobrancelha, encostando-se no batente. — Pensei que você só soubesse discar para o delivery.

​James ergueu os olhos, limpando a testa com as costas da mão suja de farinha, e sorriu.

— Eu disse que tinha talentos ocultos, loira. E olha ali — ele apontou com o queixo para o balcão. Havia uma jarra de vidro cheia de suco de laranja natural, fresquinho, com pedras de gelo. — Promessa é promessa.

​Elara sentiu um calorzinho incômodo no peito. Para desviar da intensidade do olhar dele, ela caminhou até a bancada e pegou uma faca.

— Me dá os tomates. Eu ajudo a cortar. Não consigo ficar parada vendo você trabalhar.

​— Decidida. Gosto disso — James aproximou-se por trás dela para pegar o pote de tomates, ficando tão perto que ela podia sentir o calor do corpo dele. — Mas sabe que não precisa fugir de mim o tempo todo, né? Eu não mordo. A menos que você peça.

​Elara sentiu as bochechas queimarem e cortou o primeiro tomate com um pouco mais de força do que o necessário.

— Eu não estou fugindo, Lâfrer. Só estou garantindo que essa pizza seja comestível.

​James soltou uma gargalhada alta, o som ecoando pela cozinha limpa, e continuou a rechear a massa, provocando-a a cada movimento, enquanto Elara devolvia cada deboche com sua língua afiada. Havia uma dança implícita entre os dois, um jogo de atração que nenhum dos dois conseguia mais camuflar.

​Depois que comeram a pizza — que, para a surpresa de Elara, estava divina —, o clima mudou. Garret e Sofia, em meio a risinhos e sussurros cúmplices, anunciaram que iam subir para o quarto de Garret para "assistir a uma série".

​James e Elara ficaram sozinhos na imensa sala de estar. O entardecer pintava o céu de tons alaranjados pelas grandes vidraças. Um filme romântico qualquer passava na TV, mas nenhum dos dois prestava atenção. Elara estava sentada no sofá com as pernas encolhidas, e James estava logo ao lado, com o braço estendido sobre o encosto, perigosamente perto dela.

​Devagar, os dedos de James tocaram os fios loiros do cabelo de Elara, afastando-os do pescoço dela. O toque era incrivelmente leve, uma carícia suave que fez Elara fechar os olhos por um segundo, rendendo-se ao conforto daquele carinho.

​— Você é um mistério, Styles — James sussurrou, os dedos descendo pela linha da mandíbula dela. — Uma hora parece que vai me engolir vivo, na outra parece tão... frágil. Como se pudesse sumir.

​Elara abriu os olhos, o peito subindo e descendo rápido. Olhar para os lábios de James ali, tão perto, quebrou a última de suas defesas. James inclinou-se e, finalmente, os lábios se tocaram.

​O beijo começou lento, cheio de uma urgência contida, mas logo se tornou profundo e intenso. As mãos de James seguravam a cintura dela com firmeza, enquanto Elara se entregava à sensação de estar viva, esquecendo-se do mundo.

​Mas então, a realidade bateu como um balde de água fria. A leucemia. As consultas. O ano sabático. O fato de que seu corpo estava com os dias contados. Ela não tinha o direito de fazer aquilo com ele. Não podia deixá-lo se apegar a uma garota que poderia não estar ali amanhã.

​Elara empurrou o peito de James com força, afastando-se de um soco. Ela respirava arfante, os olhos cheios de lágrimas repentinas.

​— Não! — ela exclamou, limpando a boca com as costas da mão. — Não... a gente não pode fazer isso, James.

​James piscou, completamente atordoado e com a respiração cortada.

— O quê? Do que você está falando, Elara? O beijo foi perfeito, você sentiu isso...

​— Não importa o que eu senti! — ela se levantou do sofá, andando de um lado para o outro, os punhos cerrados. — Nós não podemos ficar juntos. É complicado demais, você não entende!

​James levantou-se também, a frustração e o orgulho ferido estampados no rosto.

— Complicado por quê? É por causa daquela palhaçada de ano sabático? É porque eu sou jogador? Fala comigo, para de me dar as costas! Eu estou me abrindo para você como nunca fiz com ninguém!

​— Você não sabe de nada, James! Só me deixa em paz! — ela gritou, a voz falhando pelo choro que ameaçava desabar.

​Antes que a discussão piorasse, Sofia desceu as escadas correndo, com o cabelo levemente bagunçado e um sorriso que sumiu na hora ao ver a expressão destruída da irmã. Garret vinha logo atrás, tenso.

​— El? O que houve? — Sofia correu até ela.

​— Nós vamos embora. Agora, Sofia — Elara pegou sua bolsa, sem olhar para James, e caminhou em direção à porta. Sofia olhou para Garret, sem entender, e seguiu a irmã rapidamente.

​A porta da frente bateu. Na sala, James chutou a mesa de centro com força, soltando um palavrão.

​— Cara... o que aconteceu aqui? — Garret perguntou, aproximando-se do amigo.

​James passou as mãos pelo rosto, a respiração pesada, os olhos fixos na porta por onde ela tinha saído.

— Eu não sei, Garret. Uma hora ela está nos meus braços e na outra ela me trata como se eu fosse um monstro. Mas que porra... eu estou completamente amarrado nessa menina, e ela parece que tem um muro de Berlim em volta dela.

​Em casa, Elara entrou batendo a porta e desabou no sofá da sala. Lucian e Elise, que liam na cozinha, correram para a sala ao ouvir o barulho. Elara chorava copiosamente, o corpo inteiro tremendo.

​— Filha! Meu amor, o que aconteceu? Você está sentindo dor? — Elise ajoelhou-se na frente dela, em pânico, segurando suas mãos frias.

​— Eu conheci uma pessoa, mãe... — Elara soltou entre os soluços, o peito doendo. — O James. Ele é... ele é incrível, ele lê Shakespeare, ele fez suco para mim, ele me beijou... Mas eu jamais, jamais posso trazer ele para a minha vida!

​— Calma, querida... — Lucian tentou abraçá-la, mas Elara se desvencilhou, os olhos arregalados em um surto de puro desespero.

​— Não, pai! Vocês não entendem! Eu tenho leucemia! Eu tenho pouco tempo! Como eu posso deixar alguém gostar de mim sabendo que eu posso morrer a qualquer momento? Eu vou destruir o coração dele! Eu vou destruir tudo! Eu quero que essa doença suma! Eu odeio a minha vida! — ela gritava, quebrando em prantos, hiperventilando.

​— Elise, pega o calmante, rápido! — Lucian comandou, segurando a filha nos braços com força para acalmá-la enquanto ela se debatia no meio do pranto.

​Elise correu até a cozinha, voltou com as gotas do remédio e um copo de água. Com muito custo, eles fizeram Elara tomar o calmante. Aos poucos, os gritos foram diminuindo, transformando-se em gemidos baixos de exaustão até que, finalmente, o remédio fez efeito e ela adormeceu nos braços do pai. Lucian a carregou para o quarto, deitando-a na cama com todo o cuidado do mundo.

​Sofia, que assistira a toda a cena da porta em silêncio, com as lágrimas escorrendo pelo rosto, esperou o pai cobrir a irmã. Ela deu um beijo na testa de Elara e desceu as escadas, encontrando os pais sentados à mesa da cozinha, com as cabeças baixas, completamente devastados.

​Sofia sentou-se com eles, limpando o rosto.

​— Mãe... Pai... — Sofia começou, a voz sumindo. — O James... ele não é um garoto ruim. No colégio ele tem fama de marrento, mas hoje eu vi como ele olhava para a El. Ele realmente está querendo ela. Ele fez de tudo para agradar ela hoje. E... também tem o Garret, o melhor amigo dele. Ele está comigo. Nós estamos ficando.

​Lucian e Elise ergueram os olhos na mesma hora, surpresos com a revelação sobre Sofia e Garret, mas o peso da situação de Elara logo voltou a reinar.

​Elise segurou a mão de Sofia, o olhar cheio de uma dor materna profunda.

— Minha querida... nós ficamos felizes por você e pelo Garret. Você merece ser feliz. Mas a sua irmã... — Elise olhou para o teto, segurando o choro. — A Elara está carregando o peso do mundo nas costas. Ela se isolou para não sofrer, e agora que o amor bateu na porta dela, ela está apavorada. Eu tenho tanto medo do que esse estresse possa fazer com a saúde dela...