O Tempo que nos Resta
19 O Último Sorriso e a Luz que Fica
O entardecer pintava o céu do lado de fora do quarto 304 com tons suaves de violeta e dourado. Dentro do quarto, a atmosfera era de uma calmaria quase sagrada. O bipe do monitor cardíaco parecia mais lento, ecoando como uma contagem compassada e inevitável. Elara estava deitada, com a cabeceira levemente elevada, mas sua postura não era mais de dor; havia uma serenidade profunda em seu rosto pálido.
Ela pediu que as cortinas fossem abertas para ver o pôr do sol e, com a voz fraca, mas lúcida, pediu que todos entrassem.
Um a um, eles ocuparam o pequeno espaço ao redor do leito. Elise e Lucian ficaram do lado direito, de mãos dadas; Sofia estava logo atrás, segurando a pequena Hope adormecida no colo, com Garret com o braço ao redor de sua cintura. O Dr. Álvaro mantinha-se discretamente perto da porta, com o prontuário sob o braço e o olhar marejado. E James... James estava sentado exatamente na beirada esquerda do colchão, segurando a mão de Elara contra o seu peito, recusando-se a soltá-la por um único segundo.
Elara correu os olhos azuis por cada rosto, sorrindo fraco. Ela respirou o oxigênio do cateter e começou a falar, a voz saindo como um sussurro melodioso.
— Obrigada por virem... — ela começou, os olhos fixando-se primeiro em sua mãe. — Mãe... obrigada por cada noite em claro, por cada xícara de chá e por ter me ensinado a ser forte. Não chore quando eu for, tá bom? Eu quero que você use aqueles lenços coloridos que me comprou para lembrar que a vida precisa ser vibrante. Você foi a melhor mãe que eu poderia ter pedido.
Elise soltou um soluço abafado, cobrindo a boca, enquanto Lucian a apertava contra o peito, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto do pai. Elara moveu os olhos para ele.
— Pai... meu porto seguro. Obrigada por me segurar nos braços quando o mundo pareceu desabar. Cuida delas por mim. Eu prometo que vou... mas uma parte de mim nunca vai sair dessa casa, porque você me deu as suas melhores raízes.
Lucian apenas assentiu com a cabeça, os lábios tremendo, incapaz de formular palavras diante da despedida da filha. Elara então olhou para Sofia e para o pequeno embrulho em seus braços.
— Minha canelinha de vidro... Sofia — Elara deu um sorriso mais largo, os olhos brilhando. — Olha para a nossa Hope. Você e o Garret criaram poesia em forma de gente. Sofia, você foi o meu maior escudo. Não carregue nenhuma tristeza. Você cumpriu a sua missão. Você me deu a paz que eu precisava para partir sabendo que o amor da nossa história continua bem aí, no coração da minha sobrinha.
— El... eu te amo tanto — Sofia chorou baixinho, encostando a testa no ombro de Garret.
Elara olhou para o rapaz ao lado de sua irmã.
— Garret... meu amigo. Obrigada por ser o homem que a minha irmã precisava e o irmão que o James nunca teve. Você foi gigante. Promete que vai continuar cuidando deles com essa sua pose de super-herói?
— Eu prometo, Elara. Com a minha vida — Garret respondeu, a voz rouca, limpando uma lágrima que insistia em cair.
Perto da porta, o Dr. Álvaro abaixou a cabeça. Elara buscou o olhar dele.
— Doutor Álvaro... obrigada. Eu sei que a medicina tem limites, mas a sua humanidade não teve. Obrigada por lutar comigo até o último minuto e por não me tratar apenas como um prontuário. O senhor é um médico extraordinário.
O Dr. Álvaro levou a mão ao peito, fazendo um aceno solene com a cabeça, profundamente comovido.
Finalmente, o olhar de Elara voltou-se para o lado esquerdo da cama. Ela moveu os dedos, acariciando o rosto de James, que estava estático, com os olhos fixos nela, as lágrimas lavando seu rosto sem parar. O quarterback parecia um menino assustado, agarrando-se à única certeza de sua vida.
Elara soltou uma risada fraca, um sopro de pura ternura, e usou o polegar para limpar o rosto dele.
— E você... James Lâfrer — ela sussurrou, o olhar transbordando de um amor infinito. — O cara mais egocêntrico, babaca e irritante que já pisou nos corredores de West Valley High. Você achava que o mundo girava em torno da sua jaqueta do time e do seu gel de cabelo...
James soltou um riso choroso, apertando a mão dela contra a sua bochecha.
— Eu era um idiota completo, loira. Você tem toda razão.
— Era sim — ela continuou, a voz tornando-se ainda mais suave. — Mas você mudou, James. Você deixou toda aquela armadura de lado e me deu o amor mais puro e corajoso que alguém poderia receber. Você trouxe luz para o meu pequeno tempo nessa terra. Você transformou os meus meses mais escuros em um jardim de outono. Eu não tenho medo de ir, porque eu fui amada por você. Promete para mim... que você não vai se fechar naquela mansão vazia? Promete que vai continuar sendo esse homem incrível que você se tornou? O mundo precisa da sua luz, James. Não apague ela por minha causa.
— Eu não sei como fazer isso sem você, Elara... — James desabou, apoiando a testa na mão dela, os ombros sacudindo pelo pranto. — Meu coração vai com você.
— Não, ele fica aqui. Comigo na memória e com eles no futuro — Elara pediu, usando o resto de suas forças para puxar o rosto dele para perto.
James inclinou-se e seus lábios se encontraram em um último beijo. Foi um toque leve, calmo, com gosto de lágrimas e de eternidade. Quando ele se afastou, Elara manteve os olhos fixos nos dele, com um sorriso sereno desenhado nos lábios.
— Eu sempre estarei no coração de cada um de vocês... — ela sussurrou para o quarto, os olhos lentamente se voltando para o pôr do sol na janela. — Olhem para o céu quando sentirem saudades. Eu vou estar lá.
O bipe do monitor cardíaco começou a espaçar. Bip........ Bip........
Elara fechou os olhos devagar, como se finalmente se rendesse a um sono profundo e sem dores. O sorriso permaneceu em seu rosto pálido. A linha no monitor tornou-se contínua, emitindo um som longo e liso.
Elise gritou, desabando no peito de Lucian. Sofia abraçou Garret, escondendo o rosto enquanto Hope soltava um pequeno choro no quarto. E James apenas deitou a cabeça no peito de Elara, ouvindo o silêncio que agora habitava ali, segurando a mão de sua loira com a certeza de que, embora o tempo dela na terra tivesse chegado ao fim, a luz que ela havia acendido em sua vida jamais se apagaria.
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