O Tempo que nos Resta
20 A Última Canção de Outono
A capela ecumênica do cemitério de West Valley estava envolta em um silêncio solene, cortado apenas pelo som suave da chuva que batia contra as grandes vidraças em arco. O ambiente exalava o perfume denso de dezenas de coroas de flores brancas e girassóis — a flor favorita de Elara —, enviados por amigos da escola, professores e vizinhos. No centro do salão, o caixão de madeira clara permanecia cercado por velas acesas. Sobre ele, repousava um dos lenços de seda coloridos que ela tanto gostava e uma foto emoldurada de seu sorriso teimoso, tirada no jardim de casa.
Quase todo o colégio estava lá. Jovens vestindo os moletons azul e dourado de West Valley High caminhavam em passos lentos, muitos de cabeça baixa, incapazes de digerir que a garota que andava pelos corredores semanas atrás agora não passava de uma lembrança.
Perto do caixão, a família Styles formava uma linha de dor e união. Lucian mantinha o braço firmemente ao redor da cintura de Elise, que chorava em silêncio, apertando contra o peito um terço de madeira. Sofia estava logo ao lado, segurando a pequena Hope nos braços, que parecia calma, como se soubesse que aquele lugar exigia respeito. Garret permanecia um passo atrás de Sofia, com a mão pousada em seu ombro, oferecendo o suporte físico de que ela tanto precisava.
A porta da capela se abriu devagar, e todos os olhares se voltaram para o corredor central.
James entrou. Ele vestia um terno preto impecável, mas seu semblante estava completamente desarmado. Seus olhos escuros estavam fundos, cercados por olheiras roxas, e ele não olhava para ninguém; seu foco estava exclusivamente na foto de Elara ao fundo do salão. Em sua mão direita, ele segurava uma única rosa branca e um pequeno livro de bolso com a capa gasta: O Tempo que Me Resta.
James caminhou lentamente até o caixão. O pátio do colégio, a pose de capitão, o orgulho de quarterback... nada disso existia mais ali. Ao parar diante do corpo sereno de Elara, as pernas dele vacilaram. Ele apoiou a mão esquerda na borda da madeira para não cair, e um soluço baixo e doloroso escapou de seus lábios.
Lucian deu um passo à frente, aproximando-se do rapaz. Em vez de afastá-lo, o pai de Elara colocou a mão grande e pesada nas costas de James, apertando-a com uma compreensão mútua que só dois homens que amaram a mesma garota poderiam compartilhar.
— Você foi o herói dela nos últimos meses, James — Lucian sussurrou, a voz grave falhando de emoção. — Obrigado por não deixar minha filha partir sozinha no escuro.
James engoliu em seco, as lágrimas rolando livres e pingando sobre o vidro do caixão.
— Eu que agradeço, Sr. Styles... por me deixar fazer parte da vida dela — James respondeu, a voz rouca e trêmula. Ele inclinou-se sobre o caixão, depositando a rosa branca e o livro sobre a madeira. — Eu trouxe o seu livro, loira. Você terminou a sua história... e agora eu preciso aprender a escrever a minha sem você.
Sofia aproximou-se devagar, com os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela ajeitou Hope nos braços e olhou para James com profunda ternura.
— Ela cumpriu a promessa, James — Sofia disse, o pranto embargando sua voz. — Ela disse que estaria no céu cuidando de nós. Olha para a Hope... ela tem o mesmo formato dos olhos da El. Uma parte dela ficou aqui. Com a gente. Com você.
James olhou para a bebê e estendeu o dedo indicador, deixando que a recém-nascida o segurasse com os dedinhos minúsculos, exatamente como fizera com Elara no dia anterior. Um sorriso triste e genuíno surgiu nos lábios do rapaz no meio das lágrimas.
— Oi, pequena... — James sussurrou para a bebê. — Eu vou te contar tantas histórias da sua tia. Vou te contar como ela me colocava no meu lugar e como ela era a garota mais corajosa desse mundo.
Garret deu um passo à frente, envolvendo James em um abraço de lado, forte e apertado. O quarterback desabou no ombro do melhor amigo por alguns segundos, deixando que o resto da fúria e da dor saíssem em um choro abafado.
— Estou aqui, irmão — Garret garantiu, os olhos marejados. — Nós vamos carregar essa lembrança juntos. Sempre.
— Obrigado, cara — James afastou-se, limpando o rosto com o lenço.
Antes que o caixão fosse fechado para o sepultamento, James pediu a palavra. Ele caminhou até o pequeno púlpito à frente da capela, sob o olhar atento e comovido de todos os presentes. Ele respirou fundo, olhou para a foto de Elara e começou a falar, a voz ecoando firme, apesar da dor:
— A Elara me disse uma vez que o tempo era um inimigo, uma contagem regressiva. Mas no final, ela me ensinou que o tempo é apenas um detalhe. Ela viveu menos de vinte anos, mas o amor que ela deixou nessa casa, em mim, na irmã dela e em todos vocês, é algo que vai durar para sempre. Ela me chamava de babaca, de egocêntrico... e ela estava certa — alguns jovens na capela soltaram um riso curto e choroso, quebrando a tensão. — Mas ela me transformou. Ela me trouxe luz. E eu prometi a ela que não deixaria essa luz apagar.
James olhou para o céu cinzento através do teto de vidro da capela, onde os primeiros raios de sol começavam a romper as nuvens de chuva, iluminando diretamente o salão.
— Vá em paz, minha loira marrenta. O quarterback aqui vai continuar jogando o jogo da vida por você — James finalizou, dando um leve beijo na ponta dos dedos e apontando para o céu.
O caixão foi fechado sob uma salva de palmas emocionada e calorosa. No meio da dor da perda, a certeza que ficava no coração de cada um ali presente, especialmente no de James, era de que Elara não havia perdido a batalha contra o tempo; ela simplesmente havia se tornado eterna na memória de quem teve a honra de amar sua luz.
Fale com o autor