O Tempo que nos Resta
21 Epílogo: Onde a Luz se Multiplica (Sete Anos Depois
O outono de West Valley mantinha o mesmo hábito de pintar as calçadas com folhas douradas e secas, mas o ar daquela tarde de domingo não carregava mais o peso da melancolia de outrora. A casa da família Styles estava cheia, viva e com as portas abertas. Lucian e Elise haviam insistido para que Sofia e Garret continuassem morando ali após o casamento; a casa era grande demais para ficar vazia, e a chegada de uma nova geração precisava de espaço.
No jardim da frente, o som de risadas infantis e passos rápidos na grama anunciavam a dona do lugar.
— Você não me pega, papai! Você é muito lento! — a pequena Hope, agora com sete anos completos, gritava enquanto corria em zigue-zague. Ela usava um vestido jeans e tinha os longos cabelos loiros presos em duas marias-chiquinhas balançando no ar.
Garret, ostentando uma barba rala que o deixava com um ar ainda mais maduro e os ombros largos de quem agora trabalhava na construtora de Lucian, vinha logo atrás, fingindo cansaço.
— Ah, é? Espera só até o quarterback aqui ativar o turbo, mocinha! — Garret riu, correndo um pouco mais rápido.
Nesse momento, o som familiar de um motor ecoou pela rua. Um Mustang preto, impecavelmente bem cuidado, estacionou em frente à guia. A porta se abriu e James desceu. Ele vestia uma calça jeans escura e uma camisa de botões com as mangas dobradas até o antebraço. O tempo havia lhe feito bem; o olhar antes tempestuoso da adolescência agora dera lugar a uma expressão de calma e solidez de um homem bem-sucedido.
Ao ver o carro, Hope parou de correr na mesma hora, os olhos azuis brilhando.
— TIO JAMES! — ela gritou, disparando em direção ao portão.
James abriu um sorriso largo, largou as chaves no bolso e agachou-se, recebendo o impacto do abraço de Hope, que saltou em seu colo. Ele a ergueu no ar, girando-a antes de acomodá-la no braço.
— E aí, minha princesinha! De um a dez, o quanto você sentiu saudade do seu tio favorito? — James brincou, dando um beijo na bochecha dela.
— Onze! E o papai estava tentando me pegar, mas ele corre que nem uma tartaruga — Hope respondeu, cruzando os bracinhos com uma pose orgulhosa que fez James perder o fôlego por um segundo. Era a exata expressão de Elara.
Garret aproximou-se, estendendo a mão para o melhor amigo e puxando-o para o clássico abraço de lado.
— Não liga para ela, Lâfrer. Ela puxou a teimosia da mãe e a língua afiada de... bem, você sabe de quem — Garret deu um sorriso cúmplice. — Entra aí, cara. O almoço está na mesa e a Sofia já estava reclamando que você ia se atrasar.
A mesa da sala de jantar estava farta. Lucian cortava o assado na cabeceira, enquanto Elise servia as saladas com o mesmo sorriso terno de sempre. Sofia, com os cabelos cortados na altura dos ombros e um olhar radiante de mulher realizada, ajeitava os pratos.
James sentou-se ao lado de Hope, que fazia questão de ficar perto do tio.
— Então, James, como estão as coisas na agência de advocacia esportiva? — Lucian perguntou, servindo o rapaz. — Soube que fechou contrato com um grande time da liga nacional semana passada.
— Tudo caminhando muito bem, Sr. Styles. Dá trabalho, mas manter esses atletas na linha é quase como o que o Garret fazia comigo no colégio — James comentou, trocando um olhar divertido com o amigo.
— Nem me fale. Você dava o triplo de trabalho que a Hope dá — Sofia brincou, servindo o suco.
Hope, que estava ocupada tentando pegar um pedaço de brócolis com o garfo, olhou para o prato de James e depois para o próprio. Ela estendeu o garfo e pegou o pedaço de carne do prato de James, colocando na própria boca sem pedir licença.
— Ei! Roubo de comida no meu próprio prato, Styles? — James arqueou uma sobrancelha, fingindo indignação.
Hope mastigou devagar, engoliu e olhou bem no fundo dos olhos dele, com os olhinhos azuis semicerrados e um sorriso de lado.
— O quarterback titular tem que saber proteger a bola, Lâfrer. Se você vacilou, a posse de bola é minha — ela ditou, usando exatamente as mesmas gírias que James costumava usar.
A mesa inteira silenciou por um segundo, antes de explodir em uma gargalhada conjunta. Elise limpou uma lágrima de riso no canto do olho, olhando para o marido.
— Meu Deus... ela é a cópia cuspida e escarrada da Elara nessa idade — Elise comentou, com a voz embargada, mas um tom doce de saudade. — A Elara fazia exatamente a mesma coisa com o prato do Lucian. E usava o mesmo tom de deboche.
— É verdade — Lucian sorriu, olhando para a foto de Elara que ainda decorava o aparador da sala, cercada por girassóis frescos. — Tem dias em que eu olho para a Hope respondendo o Garret e sinto que a nossa loira marrenta está aqui, puxando a nossa orelha para a gente não esquecer as regras dela.
James olhou para Hope, que agora sorria orgulhosa do próprio feito, e sentiu o coração aquecido. A dor dilacerante de sete anos atrás havia se transformado em uma saudade bonita, uma presença viva que habitava nos detalhes daquela casa.
— Ela estaria orgulhosa de você, Hope — James sussurrou para a menina, piscando para ela. — Mas na próxima, eu vou interceptar o seu garfo.
Mais tarde, após o almoço, a casa acalmou. Lucian e Garret haviam levado Hope para tomar sorvete na praça, e Elise tirava um cochilo. James subiu as escadas devagar e caminhou até o final do corredor. A porta do antigo quarto de Elara estava encostada.
Ele empurrou de leve e entrou. O quarto havia se tornado uma espécie de escritório e santuário de memórias. A cama de solteiro não estava mais lá, substituída por uma estante cheia de livros e fotos. James caminhou até a prateleira central, onde o livro O Tempo que Me Resta estava guardado, ao lado de um dos lenços de seda azul-turquesa que ela usara no hospital.
Ele estendeu a mão, tocando o tecido macio, fechando os olhos por um instante para buscar na memória o cheiro dela.
— Sabia que te encontraria aqui — a voz de Sofia soou suave na porta. Ela entrou, trazendo duas canecas de café, e entregou uma a ele.
James abriu os olhos, dando um sorriso fraco e aceitando a caneca.
— É inevitável, Sofia. Toda vez que venho aqui, preciso passar nesse quarto. É como se eu precisasse dar um relatório para ela de como estou me saindo com a promessa que fiz.
Sofia encostou-se na escrivaninha, observando o amigo.
— E você está se saindo incrivelmente bem, James. Você se tornou o homem que ela sabia que você seria. Você não se fechou. Você construiu uma carreira, ajuda o Garret, é o melhor tio do mundo para a Hope... Ela estava certa sobre você. A sua luz não apagou.
James olhou para o lenço na prateleira, dando um gole no café.
— Tem noites em que ainda é difícil, sabe? Quando a casa fica muito silenciosa. Mas aí eu venho aqui aos domingos, vejo a Hope correndo com aqueles mesmos olhos azuis, falando com aquele mesmo orgulho... e percebo que a Elara nunca foi embora de verdade. O plano de vocês... aquela loucura que você e o Garret fizeram na adolescência... salvou todos nós, Sofia. Pode não ter curado o corpo dela, mas salvou a nossa família da escuridão.
Sofia deixou uma lágrima solitária escorrer, mas sorriu, aproximando-se e colocando a mão no ombro de James.
— Nós demos a ela um motivo para partir em paz, James. E ela nos deu o motivo para continuar vivendo. Olhar para a Hope e ver os traços da Elara me faz lembrar todos os dias de que o amor é a única coisa que sobrevive ao tempo.
James assentiu, colocando a caneca de lado e pegando o pequeno livro de bolso por um segundo, folheando as páginas gastas antes de guardá-lo de volta no lugar.
— Eu te amo, loira — James sussurrou para o quarto vazio, sabendo, no fundo de sua alma, que em algum lugar além daquele céu de outono, Elara Styles estava sorrindo de volta e dizendo que ele continuava sendo um quarterback muito sentimental.
Ele virou-se para Sofia, envolveu-a em um abraço terno e protetor, e juntos eles caminharam em direção à porta, prontos para descer e continuar vivendo a história que Elara havia iluminado com seu pequeno, mas eterno, tempo na terra.
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