O Tempo que nos Resta

17 O Sangue do Meu Sangue



​O dia que fora planejado em meio a lágrimas, preces e promessas finalmente havia chegado, tingindo o céu de West Valley com um cinzento denso e carregado. No Hospital Central, os corredores da ala de obstetrícia e da oncologia pareciam colidir em uma contagem regressiva sufocante.

​No bloco cirúrgico do segundo andar, Sofia estava deitada na mesa de parto. O suor frio cobria sua testa e suas mãos apertavam os dedos de Garret com uma força sobre-humana. Ele usava a roupa privativa do hospital, os olhos fixos na namorada, tentando ser a rocha que ela precisava, embora seu próprio coração batesse de forma violenta contra o peito.

​— Está quase, Sofia! Mais uma força, o topo da cabeça já apareceu! — a obstetriz comandou, enquanto, no canto da sala, a equipe do Dr. Álvaro preparava as bolsas térmicas e os kits de coleta de células-tronco do cordão umbilical.

​Sofia soltou um grito rasgado, unindo cada resquício de energia que seu corpo de dezoito anos possuía. Garret inclinou-se, colando sua testa na dela.

​— Vai, minha linda... por ela. Pela nossa Elara — ele sussurrou, a voz embargada.

​Com um último esforço e um choro agudo, alto e cheio de vida que ecoou pela sala de cirurgia, a pequena Hope veio ao mundo. Sofia desabou nos travesseiros, chorando copiosamente de exaustão e alívio. No mesmo segundo, o obstetra clampeou o cordão umbilical, e a equipe de oncologia agiu com precisão milimétrica, drenando o sangue rico e escuro do cordão para dentro das bolsas esterilizadas.

​— Coleta realizada com sucesso — o técnico anunciou, lacrando o material. — Levando para o laboratório de imunogeneticidade agora. O teste de tipagem HLA de urgência vai começar.

​Garret olhou para a filha sendo limpa pela enfermeira, uma menininha perfeita com os traços de Sofia, e depois olhou para a bolsa de sangue que subia pelo elevador. A vida e a cura caminhavam lado a lado.

​No quarto 304, o silêncio era agonizante. Elara estava sentada na cama, a cabeceira totalmente elevada. O oxigênio do cateter nasal chiava baixinho. Ela usava um lenço branco, que deixava seu rosto miúdo ainda mais em evidência. Suas mãos tremiam tanto que James precisava segurá-las entre as suas para mantê-la firme.

​James não saía do lado dela. Seus olhos escuros estavam fixos na porta do quarto, as pernas balançando em uma ansiedade que ele mal conseguia conter.

​— Ela já deve ter nascido, James... — Elara sussurrou, a voz fraca, os olhos azuis fixos no teto. — Eu sinto que o mundo mudou de peso nos últimos minutos.

​James inclinou-se, colando os lábios na mão dela.

— Ela nasceu, loira. Tenho certeza de que é linda e marrenta igual à mãe e à tia. Agora é só esperar o laboratório liberar o laudo. Aguenta firme.

​Os minutos se arrastaram como horas. Cada passo no corredor fazia o peito de James dar um salto. Quarenta minutos depois, a maçaneta girou.

​O Dr. Álvaro entrou no quarto. Ele trazia um envelope pardo nas mãos, mas sua postura não era a de um homem que trazia uma vitória. Seus ombros estavam caídos, os olhos fixos no chão, e ele não conseguiu sustentar o olhar de James quando cruzou a porta. Atrás dele, Lucian e Elise vinham abraçados, com Elise chorando baixinho contra o peito do marido.

​Elara sentiu o ar sumir dos pulmões antes mesmo do médico falar. O monitor cardíaco acelerou os bipes na mesma hora.

​— Não... — James murmurou, a voz sumindo, levantando-se da cama devagar. — Não, doutor. Diz que deu certo. Por favor.

​O Dr. Álvaro respirou fundo, retirando os óculos e olhando para Elara com uma compaixão dolorosa.

​— Elara... James... Os analistas do laboratório acabaram de rodar o teste de compatibilidade HLA em triplicado para garantir que não houvesse erro — o médico engoliu em seco, a voz falhando por um segundo. — Infelizmente, a combinação genética do sangue do cordão umbilical da bebê não atingiu o nível de compatibilidade necessário para o transplante. O resultado é... não compatível. As células seriam rejeitadas pelo seu corpo imediatamente.

​O quarto pareceu desabar.

​James deu um passo para trás, batendo as costas na parede do hospital, os punhos cerrados contra a cabeça.

— Não! Não pode ser! A Sofia fez isso por ela! O Garret... a gente jogou tudo nessa chance! Tem que ter um erro nessa porra de exame, faz de novo! — ele gritou, o desespero cru explodindo de sua garganta, as lágrimas escorrendo livres pelo rosto.

​— Nós testamos todas as variantes, James. Sinto muito. Sinto profundamente — o Dr. Álvaro manteve o tom baixo, com o coração partido.

​Elara não gritou. Ela apenas fechou os olhos, deixando a cabeça pender para trás no travesseiro. Duas lágrimas grossas cruzaram suas bochechas pálidas. Ela estendeu a mão em direção a James, chamando-o de volta.

​— James... vem cá — ela pediu, a voz sumindo.

​James correu para o lado dela, caindo de joelhos no chão e escondendo o rosto no edredom dela, chorando como um menino indefeso. Elara colocou a mão fraca sobre os cabelos escuros dele, acariciando-os.

​— Eu sabia, meu amor... eu te disse que o meu corpo sentia — ela sussurrou, o olhar vago. — Está tudo bem.

​Mais tarde, no quarto da maternidade, o clima de celebração pelo nascimento de Hope fora completamente esmagado. Sofia estava sentada na cama, segurando a filha nos braços com todo o cuidado do mundo, enquanto Garret estava sentado na beirada, com o braço ao redor dos ombros da namorada.

​A porta se abriu e o Dr. Álvaro entrou, acompanhado por Lucian e Elise. Sofia olhou para o rosto da mãe e o seu sorriso sumiu instantaneamente. A cor fugiu de suas bochechas.

​— Não deu certo, não foi? — Sofia perguntou, a voz trêmula, apertando a bebê contra o peito.

​Lucian caminhou até a filha, ajoelhando-se ao lado da cama e cobrindo as mãos de Sofia e a bebê com as suas mãos grandes.

​— Minha filha... você foi a irmã mais corajosa do mundo — Lucian disse, o pranto cortando sua voz de pai. — O bebê é perfeito. Ela é linda. Mas a medula... não é compatível com a Elara.

​Sofia soltou um grito de dor, um som rasgado que pareceu quebrar as paredes daquele quarto. Ela enterrou o rosto no topo da cabeça da filha, chorando com um desespero que fez a própria recém-nascida começar a chorar baixinho.

​— Não! Não é justo! — Sofia soluçava, o corpo inteiro tremendo. — Eu fiz isso para salvar ela, pai! Por que Deus não deixou? Por que a minha irmã não pode ficar com a gente?!

​Garret puxou Sofia e a bebê para dentro de seu peito, desabando em lágrimas junto com ela. Ele beijava o topo da cabeça de Sofia, sentindo a dor esmagadora de ter jogado sua juventude e suas fichas em um milagre que o destino havia recusado.

​— Shh... eu estou aqui, Sofi. Nós estamos aqui — Garret chorava abafado. — A Hope está aqui. Ela é o nosso milagre, mesmo que a história não tenha sido do jeito que a gente queria.

​O Dr. Álvaro aproximou-se da cama com os olhos marejados, colocando a mão no ombro de Sofia.

​— Sofia, olhe para mim — o médico pediu com doçura. — O que você e o Garret fizeram foi um ato de amor puro, monumental. A ciência tem limites, mas o que vocês geraram aqui foi esperança. A Elara me pediu para te dizer uma coisa antes de eu descer. Ela disse: "Diga à minha irmã que a Hope já me salvou, porque ela me deu o motivo mais lindo do mundo para ver o sol nascer hoje". Não carregue essa culpa. A Hope é uma benção.

​Sofia olhou para a filha através das lágrimas, vendo os olhinhos da menina se abrirem de leve. O peso da realidade era terrível, mas no meio do quarto de hospital, o choro daquela nova vida lembrava a todos que, mesmo quando a cura falha, o amor incondicional permanece intacto e invicto contra o tempo.