O Tempo que nos Resta
18 O Encontro da Vida com a Despedida
O corredor do terceiro andar do hospital parecia mais longo do que nunca. O silêncio da ala oncológica era quebrado apenas pelo som abafado dos passos de Sofia, que caminhava devagar, ainda sentindo o incômodo dos pontos do parto recente. Em seus braços, envolta em uma manta de lã branca, a pequena Hope dormia tranquilamente, alheia à tempestade que desabava sobre a família.
Garret e James não estavam ali. Lucian e Elise haviam descido até a lanchonete para tentar respirar um pouco, deixando que as duas irmãs tivessem o momento delas.
Sofia parou em frente à porta do quarto 304. Ela respirou fundo, engolindo o nó que insistia em fechar sua garganta, e empurrou a madeira com o ombro.
Elara estava deitada, com a cabeceira elevada, mas seus olhos azuis voltaram-se para a porta no mesmo segundo. O cateter de oxigênio chiava baixinho em seu nariz, e seu rosto estava tão pálido quanto os lençóis hospitalares. No entanto, ao ver o pequeno embrulho nos braços de Sofia, um brilho puro e imediato iluminou suas feições.
— Vocês vieram... — a voz de Elara saiu como um sopro, fraca, mas carregada de uma emoção profunda.
Sofia caminhou até a beira da cama e sentou-se na cadeira de plástico, aproximando o bebê da irmã. As lágrimas já rolavam livres pelo rosto de Sofia.
— Eu prometi que você ia ser a primeira a pegar ela no colo depois de mim, não prometi? — Sofia deu um sorriso trêmulo, limpando o rosto com uma das mãos enquanto, com todo o cuidado do mundo, transferia o pequeno fardo de lã para os braços fracos de Elara.
Elara ajeitou os braços magros, encaixando Hope perfeitamente contra o seu peito. No momento em que o calor do corpinho do bebê tocou a sua pele, o monitor cardíaco acusou uma leve oscilação, mas logo se estabilizou. Elara baixou o rosto, aproximando o nariz dos cabelos finos da sobrinha.
— Ela tem cheiro de vida, Sofi... — Elara sussurrou, as lágrimas transbordando e pingando na manta branca.
Como se sentisse a presença da tia, a pequena Hope se espreguiçou devagar, soltando um gemido baixo, e abriu os olhinhos escuros, fixando-os diretamente no rosto de Elara.
Elara estendeu o dedo indicador trêmulo, tocando a mãozinha minúscula do bebê. Instintivamente, os dedinhos de Hope se fecharam ao redor do dedo de Elara, apertando-o com uma força surpreendente. O peito de Elara subiu e desceu com força, tomada por um choro silencioso e comovido.
— Oi, Hope... oi, minha princesinha — Elara conversou com a pequena em seu colo, a voz falhando pelo choro, os olhos fixos na menina. — Eu sou a sua tia Elara. Olha só para você... tão perfeita. Tão cheia de futuro. A sua mamãe e o seu papai foram os jovens mais corajosos do mundo por terem trazido você para cá.
Sofia cobriu a boca com as mãos, soltando um soluço abafado, vendo a cena que tanto havia sonhado, mas sob o peso de uma realidade tão dolorosa.
— Você veio com uma missão tão linda, meu amor — Elara continuou a sussurrar para o bebê, aproximando o rosto para roçar suas bochechas na dela. — Você veio para trazer luz para essa casa. Eu sei que a sua medula não pôde me curar por fora... mas o seu nascimento curou a minha alma, Hope. Você tirou o meu medo. Você me deu a certeza de que a nossa família vai continuar, de que o amor que eu e a sua mãe temos vai viver através desses seus olhinhos. Quando você crescer, a mamãe vai te contar que você foi o maior milagre que a tia Elara já viu.
— El... por favor — Sofia desabou, segurando a mão livre da irmã, encostando a testa no colchão da cama. — Eu queria tanto que o resultado tivesse sido diferente. Me perdoa... me perdoa por não ter conseguido.
Elara desviou os olhos do bebê por um segundo, olhando para a irmã caçula com uma doçura infinita. Com muito esforço, ela puxou a mão de Sofia e a beijou.
— Não pede perdão por dar a vida a alguém, Sofia. Você me deu o maior presente do mundo. Eu estou em paz, Sofi. Olha para ela... como eu poderia não estar em paz olhando para o futuro bem aqui no meu colo? Eu amo você, minha irmã. Obrigada por tudo.
As duas irmãs se olharam através das lágrimas, unidas pelo laço de sangue e pelo amor que havia gerado uma nova geração no meio da dor.
Enquanto a vida se encontrava no quarto 304, o desespero absoluto dominava a parte mais alta do hospital.
No terraço técnico, sob o céu cinzento e a chuva fina que começava a cair, as portas de metal se abriram com força. James passou por elas pisando duro, com os punhos cerrados e a respiração completamente descontrolada. Ele caminhou até o parapeito de concreto, olhou para a imensidão fria da cidade e desabou.
Suas pernas falharam. O quarterback intocável de West Valley, o rapaz que nunca chorava, caiu de joelhos no chão molhado do terraço. Um grito rasgado, violento e cheio de agonia escapou de sua garganta, perdendo-se no som do vento e da chuva.
— NÃO! POR QUE ESSA PORRA TINHA QUE ACONTECER?! — James esmurrou o chão de concreto com força, esfolando os nós dos dedos, a dor física não sendo nada comparada ao rasgão em seu peito. — NÃO É JUSTO! ELA NÃO PODE MORRER, CARA! ELA NÃO PODE!
Garret, que havia subido logo atrás dele, cruzou o terraço correndo. Ao ver o melhor amigo jogado no chão, destruído pelo desespero, Garret jogou-se de joelhos ao lado dele, ignorando a água que encharcava suas roupas. Ele envolveu os ombros de James com os braços fortes, puxando-o para o seu peito em um abraço desesperado de irmão.
— James! Me escuta, cara! Estou aqui! — Garret gritava contra o vento, segurando o amigo com força enquanto James se debatia, tomado pelo pânico.
— Garret... ela vai morrer, cara — James chorava alto, um choro convulso, soluçando contra o ombro do melhor amigo, agarrando-se à jaqueta dele como se estivesse se afogando. — O exame deu negativo... acabou a nossa última chance. O que eu vou fazer sem ela, Garret? Eu não sei voltar a ser quem eu era antes. Ela é o meu mundo, cara. Eu não vou aguentar ver ela fechar os olhos... eu não vou conseguir.
Garret sentiu as próprias lágrimas se misturarem com a água da chuva que escorria por seu rosto. Ele apertou James ainda mais forte, enterrando os dedos nas costas do amigo, compartilhando daquela dor que parecia esmagar os dois.
— Você vai aguentar, James! Você vai aguentar por ela! — Garret disse, a voz trêmula de emoção, mas cheia de uma firmeza leal. — A Elara precisa de você inteiro agora, Lâfrer. Ela precisa que você segure a mão dela até o último segundo. Você foi o cara que trouxe o sorriso de volta para ela. Não entrega os pontos agora. Eu estou aqui com você. Eu não vou te soltar, cara. Nós vamos carregar esse fardo juntos, até o fim.
James continuou a chorar, os ombros sacudindo violentamente sob a chuva do terraço, deixando toda a pose de jogador e todo o orgulho irem embora pelo ralo do hospital. Ele se entregou ao amparo de Garret, o irmão que a vida lhe dera, esvaziando sua alma daquela fúria impotente.
Lá embaixo, no quarto, a vida recém-nascida trazia a paz; ali em cima, no topo do mundo, a lealdade de dois amigos tentava reconstruir as forças de um coração que acabara de ser partido em mil pedaços.
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