O Tempo que nos Resta
16 O Limiar do Tempo e o Peso do Amor
O quarto 304 estava mergulhado no silêncio pesado da madrugada. O único som era o bipe contínuo e melancólico do monitor cardíaco e o chiado sutil do cateter de oxigênio. Lá fora, os corredores do hospital estavam desertos, envoltos na penumbra da hora mais fria da noite.
Na cama reclinável, Elara estava encolhida de lado. O corpo parecia pequeno sob as camadas de lençóis brancos. Uma onda de dor aguda, uma queimação profunda que começava nos ossos e se espalhava por todos os seus músculos, fez seu peito subir e descer de forma descompassada. Ela trancou os dentes, apertando os punhos contra o peito, os olhos fechados com força enquanto uma lágrima silenciosa escorria pelo seu rosto pálido. A sensação era de que suas forças estavam escorrendo pelos vãos dos dedos, deixando apenas uma carcaça exausta.
O som suave da trinco da porta sendo girado a fez abrir os olhos devagar.
James entrou. Ele trazia uma mochila pendurada em um dos ombros, os cabelos escuros ligeiramente bagunçados e o rosto marcado pelo cansaço de quem passava os dias divididos entre as últimas semanas de aula e o hospital. Mas, ao olhar para a cama e perceber a expressão de sofrimento dela, sua postura mudou instantaneamente. Ele largou a mochila no chão com pressa e caminhou até a lateral do leito.
Ao ver a silhueta dele se aproximar na penumbra, Elara sentiu um alívio imediato, aquele que só o perfume dele conseguia trazer. Com muito custo, superando a dor que travava suas articulações, ela estendeu os dois braços trêmulos na direção dele, as palmas abertas em um pedido mudo e desesperado por abrigo.
— Vem cá... — ela sussurrou, a voz saindo arrastada, quase sem fôlego. — Deita comigo, Lâfrer. O frio daqui está ganhando de mim hoje.
James não hesitou um segundo. Ele puxou a grade de proteção da cama para baixo, tirou os tênis com agilidade e subiu no colchão estreito, acomodando-se com extremo cuidado para não puxar nenhum dos fios do monitor ou do acesso em seu braço. Ele se deitou de lado, puxando o edredom sobre os dois, e envolveu o corpo magro de Elara em seus braços, trazendo-a para perto até que a cabeça dela estivesse aninhada exatamente no vão de seu pescoço.
Elara soltou um longo suspiro, colando o corpo contra o calor dele. O tremor de suas pernas começou a diminuir aos poucos.
— Sabe, Styles... o espaço nessa cama é tão reduzido que eu acho que o hospital devia cobrar o aluguel por metro quadrado — James murmurou perto do ouvido dela, tentando usar seu habitual tom divertido para quebrar a gravidade do momento, enquanto seus dedos começavam a traçar carinhos suaves pelo lenço de algodão que cobria a cabeça dela. — Se o meu treinador souber que estou dormindo em um espaço menor que o banco de reservas, ele me corta do time.
Elara soltou uma risada fraca, o som saindo como um sopro contra o peito dele.
— Você reclama demais para um quarterback titular, Lâfrer. Pense nisso como um treinamento de resistência. Se você sobreviver a essa cama de solteiro de hospital, está pronto para qualquer linha de defesa.
— Eu sobrevivo a qualquer coisa, contanto que o prêmio no final seja esse sorriso aqui — James respondeu, a voz tornando-se subitamente macia. Ele inclinou o rosto, depositando um beijo terno na têmpora dela, deixando os lábios descansarem ali por alguns segundos.
O silêncio voltou a reinar no quarto, mas era um silêncio diferente, preenchido pelo calor mútuo. Elara ergueu o rosto devagar, encarando a imensidão escura dos olhos de James. Na luz fraca do monitor, ela viu cada detalhe do rosto do rapaz que havia transformado sua dor em poesia. O peito dela se apertou, não de dor física, mas de uma urgência que vinha do fundo de sua alma.
— James... — ela chamou, os olhos fixos nos dele, uma seriedade cortante assumindo sua voz. — Olha para mim.
— Estou olhando, loira. Sempre.
— Eu te amo — ela confessou. A frase saiu limpa, profunda, sem nenhuma das barreiras ou deboches que ela costumava usar no início. — Eu te amo com tudo o que me restou. Com cada pedaço desse corpo cansado. Eu passei tanto tempo tentando te afastar porque achei que estava te protegendo, mas a verdade é que você foi a melhor coisa que me aconteceu. Você me fez sentir viva quando tudo ao meu redor cheirava a fim. Obrigada por não ter desistido de mim quando eu fui uma covarde.
James sentiu a garganta dar um nó apertado. Seus olhos marejaram na mesma hora. Ele aproximou o rosto, colando a testa na dela, as mãos grandes acariciando as costas de Elara com uma urgência contida.
— Eu também te amo, Elara. Muito mais do que as palavras de Shakespeare ou de qualquer outro cara conseguiriam explicar — ele sussurrou, a voz trêmula de emoção. — E eu vou continuar aqui. Nós vamos vencer isso. A Sofia está forte, o bebê está crescendo... falta pouco.
Elara fechou os olhos por um instante, deixando uma lágrima quente escorrer e molhar a pele de James. Ela respirou fundo, sentindo o oxigênio do cateter entrar em seus pulmões, mas a queimação interna continuava ali, implacável. Ela se afastou apenas o suficiente para olhar novamente no fundo dos olhos dele, e a expressão de aceitação dolorosa em seu rosto fez o coração de James disparar em pânico.
— James... escuta — ela pediu, a voz falhando pelo choro que ameaçava desabar. — Eu preciso que você seja forte por mim agora. Eu preciso colocar isso para fora porque está me sufocando. Eu... eu não estou mais aguentando, James. A dor está ficando forte demais. É como se o meu próprio corpo estivesse me dizendo que a linha de chegada dele está perto.
— Não diz isso, Elara! — James cortou, a voz subindo um tom, o desespero e o medo puro estampados em suas feições. Ele segurou o rosto dela entre as mãos. — O transplante está chegando, a medula da sua sobrinha vai ser a resposta. Você prometeu que ia aguentar!
— Eu estou tentando! Juro que estou tentando com todas as minhas forças! — ela soluçou alto, deixando o pranto romper de vez, agarrando-se ao moletom dele com os dedos fracos. — Mas o meu corpo está fraco, meu amor. Eu sinto isso por dentro. Eu tenho tanto medo de que, quando a hora chegar... quando o bebê nascer e a medula for coletada... o meu corpo simplesmente não seja mais forte o suficiente para receber. Eu tenho medo de que não dê certo, James. Tenho medo de deixar você aqui sozinho depois de ter te feito se apaixonar por mim.
James sentiu o impacto daquelas palavras diretamente no centro do seu peito, como se o chão tivesse sumido sob seus pés. O quarterback intocável desmoronou ali, na penumbra do quarto 304. Ele puxou Elara para um abraço desesperado, enterrando o rosto nos ombros dela, deixando suas próprias lágrimas caírem livres, molhando o lenço de algodão dela.
— Não... eu não aceito te perder, Elara — James chorava abafado, o corpo inteiro tremendo com o peso da realidade. — Eu não posso voltar para aquela casa gigante e vazia sabendo que o mundo continua girando sem você nele. Você me mudou. Você me fez ser alguém de verdade. Se o seu corpo estiver fraco, eu te dou as minhas forças. Eu te dou o meu ar, a minha vida, qualquer coisa. Mas fica comigo. Por favor, fica comigo.
Elara abraçou-o de volta com o resto de energia que possuía, chorando junto com ele no meio da penumbra. Naquela cama estreita de hospital, despida de qualquer orgulho ou pose, a dor da incerteza uniu os dois em um laço que nenhuma doença conseguia tocar. Eles ficaram ali, agarrados um ao outro, chorando pelo medo do amanhã, mas agarrando-se com unhas e dentes ao calor do agora, enquanto o monitor cardíaco continuava a ditar o ritmo incerto do tempo que ainda lhes restava.
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