O Tempo que nos Resta

15 O Equilíbrio do Tempo



​Os meses seguintes avançaram em uma velocidade implacável, desenhando realidades opostas dentro da mesma família. O tempo, que parecia gerar vida e força na barriga de Sofia, parecia roubar as energias e a cor de Elara.

​Na casa dos Styles, o quarto que antes era apenas de duas adolescentes agora abrigava uma poltrona de amamentação e algumas caixas de roupinhas de bebê que Garret e Sofia compravam aos poucos. Sofia já exibia uma barriga nitidamente redonda de seis meses, que ela acariciava a todo instante. Mas a alegria da espera pelo nascimento era constantemente nublada pelo vazio do quarto ao lado.

​Elara havia piorado drasticamente. Os novos protocolos de quimioterapia falharam e suas taxas despencaram a ponto de os médicos proibirem sua permanência em casa. Ela havia se mudado em definitivo para o quarto 304 do hospital central.

​A luz do fim de tarde entrava pelas persianas do hospital, projetando linhas douradas sobre a cama ajustável. Elara estava magra, os olhos azuis parecendo ainda maiores em seu rosto pálido. Ela usava um lenço rosa suave na cabeça e respirava com o auxílio de um cateter de oxigênio nasal.

​James estava sentado na beirada do colchão. Ele havia mudado muito naquele período; o maxilar estava mais marcado, o olhar mais maduro, mas a doçura com que tratava Elara continuava intocável. Ele segurava um espelho pequeno na altura do rosto dela, enquanto ajudava a passar um hidratante labial para aliviar o ressecamento causado pelos remédios.

​— Prontinho, Styles. Perfeita como sempre — James sorriu de canto, guardando o produto no criado-mudo e depositando um beijo cuidadoso na testa dela.

​— Eu estou com cara de fantasma, Lâfrer. Não minta para uma paciente terminal, é contra as regras do bom mocismo — ela brincou, a voz saindo fraca, mas mantendo a ironia de sempre.

​— Eu nunca minto. Você está fantasmagoricamente linda — ele rebateu, fazendo-a soltar uma risada curta, que logo se transformou em uma sequência de tosses baixas. James inclinou-se na mesma hora, entregando-lhe um copo de água com canudo. — Devagar... estou aqui.

​A porta do quarto abriu-se devagar e Sofia entrou, respirando um pouco mais pesado devido ao peso da barriga. Ela vestia um vestido leve que marcava bem a sua gestação. Logo atrás, Garret vinha carregando uma bolsa térmica e uma almofada ortopédica para as costas de Sofia.

​— Olha só quem chegou para animar esse piquenique de hospital — Sofia anunciou, abrindo um sorriso largo ao se aproximar da cama.

​Elara olhou para a irmã e seus olhos brilharam. Ela estendeu a mão trêmula em direção à barriga de Sofia.

— Meu Deus, Sofi... parece que ela cresceu mais desde ontem. Deixa eu sentir?

​Sofia inclinou-se com cuidado sobre a lateral da cama, pegando a mão fria de Elara e posicionando-a bem no centro de sua barriga redonda. Quase instantaneamente, um pequeno chute movimentou a pele sob os dedos de Elara.

​— Sentiu isso? — Sofia sorriu, com os olhos cheios de lágrimas. — Acho que ela reconheceu a voz da tia marrenta.

​— Ela chutou forte... — Elara murmurou, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto. — Ela tem a sua força, Sofia.

​Garret aproximou-se, colocando a mão no ombro de James, dando-lhe um aperto firme de apoio mútuo. Depois, inclinou-se para Elara.

— Ela é teimosa que nem a mãe, El. E o médico do pré-natal disse que ela está super saudável. O desenvolvimento está perfeito.

​James olhou para a cena, sentindo um nó na garganta. Ele sabia o que aquela contagem regressiva significava. Voltou-se para o amigo, com o tom de voz baixo.

— Como estão as coisas com o Dr. Álvaro, Garret? O comitê de ética já aprovou o protocolo de coleta do cordão?

​Garret assentiu, sério.

— Tudo certo, James. Assim que a bolsa estourar e o parto for feito, a equipe de oncologia vai estar na sala de cirurgia para coletar o sangue do cordão umbilical e as células-tonco. O laboratório já está de prontidão para fazer o teste de compatibilidade na mesma hora.

​Elara ouvia tudo em silêncio. Ela olhou para a irmã, vendo o cansaço no rosto de Sofia, o sacrifício que ela estava fazendo ao carregar aquela vida para tentar salvar a outra.

​— Sofia... — Elara chamou baixinho, apertando os dedos da irmã. — Promete uma coisa para mim?

​— Qualquer coisa, El — Sofia respondeu, acariciando o rosto da irmã.

​— Se... se o teste der negativo... se não for compatível... eu quero que você não se sinta culpada. Você e o Garret já fizeram mais por mim do que qualquer pessoa no mundo faria. Essa menina já é o meu maior milagre, mesmo que ela venha apenas para alegrar a vida de vocês quando eu não estiver mais aqui.

​— Para com isso, Elara! — Sofia cortou, a voz embargada pelo choro. — Vai dar certo. Ela vai ser compatível. Você vai sair dessa cama, vai carregar a sua sobrinha no colo e vai me ajudar a trocar as fraldas dela porque eu não sei o que estou fazendo! Você não pode desistir agora.

​James segurou a outra mão de Elara, trazendo a atenção dela para si. Seus olhos escuros estavam fixos nos dela com uma determinação inabalável.

​— Ela tem razão, loira. Nós não aguentamos toda essa jornada até aqui para você entregar o jogo nos minutos finais do campeonato — James disse, a voz trêmula de emoção, mas cheia de força. — Eu estou aqui com você todos os dias. O Garret e a Sofia estão gerando a nossa resposta. Aguenta firme, Styles. Só mais um pouco.

​Elara olhou para os três rapazes e moças ali reunidos ao redor de seu leito de dor. O amor que preenchia aquele quarto de hospital era tão denso que quase abafava o som dos aparelhos. Ela respirou o oxigênio do cateter, sentindo o chute da sobrinha contra a palma de sua mão, e assentiu lentamente.

​— Tudo bem... — ela sussurrou, forçando um sorriso fraco através das lágrimas. — Eu vou aguentar. Por ela. Por vocês.