O Tempo que nos Resta
5 Máscaras, Poesia e Linhas Cruzadas
A mansão dos Lâfrer parecia tremer. A música eletrônica com batidas graves ecoava pelas janelas de vidro, misturando-se aos feixes de luzes coloridas que cortavam o jardim. O estacionamento improvisado no gramado estava lotado de carros de alunos de West Valley.
Quando Elara e Sofia cruzaram a porta da frente, o impacto do ambiente foi imediato. O lugar estava lotado, casais se agarravam perto das colunas e grupos de jovens brindavam com copos vermelhos de plástico.
— Caramba, a resenha do Lioncort é o evento do ano — Sofia gritou por cima do som, os olhos brilhando de animação.
Elara apenas ajeitou o casaco, sentindo-se instantaneamente deslocada.
— "Coisa light", ele disse. Nós temos definições bem diferentes de calmaria.
Antes que Sofia pudesse responder, Garret surgiu do meio da multidão. Ele não vestia a jaqueta do time, apenas uma camiseta escura que destacava seu porte atlético, e exibia um sorriso de orelha a orelha ao ver a caçula das Styles.
— Você veio! — Garret disse, aproximando-se de Sofia. Ele olhou para Elara e acenou. — Que bom que convenceu ela, Elara. Fiquem à vontade.
— Oi, Lioncort — Sofia sorriu, as bochechas corando levemente.
— Vem, está tocando uma música ótima lá perto da piscina. Quer dançar? — Garret estendeu a mão para ela, com uma espontaneidade que desarmou qualquer resquício de pose durona de Sofia.
Sofia olhou para a irmã, hesitante. Elara forçou um sorriso encorajador e fez um gesto com a mão.
— Vai lá, Sofi. Eu vou achar um lugar para sentar e pegar uma água. Divirta-se.
Sofia segurou a mão de Garret e os dois sumiram na pista de dança improvisada. Garret era magnético; ele não tentava impressionar como James, ele apenas fazia Sofia rir alto enquanto tentava acompanhar os passos desajeitados dele no ritmo da música. A conexão entre os dois era palpável e natural.
Elara caminhou até a cozinha, pegou uma garrafa de água lacrada e sentou-se em uma banqueta alta por alguns minutos, observando o movimento. O barulho e o calor começaram a lhe dar uma leve dor de cabeça, um lembrete incômodo de que seu corpo cansava mais rápido do que o de qualquer jovem de 17 anos. Precisando de ar e silêncio, ela decidiu explorar a casa.
Ela subiu a imensa escadaria de mármore, onde o som do primeiro andar chegava mais abafado. O corredor do segundo piso tinha várias portas fechadas. Movida por uma curiosidade rara, Elara girou a maçaneta de uma das portas do fundo e entrou, empurrando-a devagar.
O quarto era imenso, decorado em tons de cinza escuro e madeira. Havia uma cama king-size desarrumada, uma prancha de surfe no canto e várias molduras na parede. Elara se aproximou para olhar as fotos. Eram imagens de um James mais jovem, sorrindo de verdade ao lado de Garret em um campo de futebol, e algumas fotos de paisagens distantes — provavelmente cartões-postais enviados pelos pais ausentes.
— Curiosa, Styles? — a voz rouca e debochada ecoou da porta, fazendo Elara dar um salto de susto.
James estava encostado no batente, com um copo na mão e os olhos semicerrados, observando-a. Ele deu um passo para dentro do quarto, fechando a porta atrás de si, deixando o barulho da festa ainda mais distante.
— Só estava procurando um lugar onde o QI médio do ambiente não fosse negativo — Elara rebateu rapidamente, recuperando a postura fria e cruzando os braços. — E pelo visto, errei de quarto.
James soltou uma risada nasalada, caminhando até ela com passos lentos.
— Grosso modo, você está no meu santuário. E no corredor do colégio você parecia bem corajosa, mas aqui em cima... parece uma menininha perdida.
— Eu não tenho medo de você, James Lâfrer. Tenho preguiça — ela ironizou, sustentando o olhar dele. — O que foi? Veio cobrar as desculpas que disse ao Garret que eu te devia?
— Talvez — ele se aproximou mais, a distância entre eles diminuindo a ponto de ela conseguir sentir o perfume importado dele. — Ou talvez eu só queira entender qual é o seu problema comigo. Todo mundo me adora.
— Eu não sou todo mundo — ela respondeu, a voz firme, embora seu coração estivesse batendo um pouco mais rápido pelo magnetismo involuntário dele.
Para desviar o foco daquela proximidade, Elara desviou os olhos e eles pousaram em uma estante de livros embutida na parede. Entre troféus de futebol e bonés, havia uma fileira de livros de capa dura. Ela franziu o cenho ao ler um dos títulos.
— Espera aí... — Elara deu um passo para o lado, aproximando-se da estante. — William Shakespeare? Hamlet? Romeu e Julieta? Você sabe ler coisas que não tenham o desenho de uma bola de futebol?
James trincou o maxilar, mas o deboche em seu rosto deu lugar a algo mais sóbrio, quase defensivo.
— Eu tenho notas excelentes, Styles. E tenho bom gosto. Surpresa?
Elara tocou a lombada de um dos livros, um sorriso genuíno e divertido surgindo em seus lábios pela primeira vez.
— Estou chocada. Achei que seu livro de cabeceira fosse o manual de regras do futebol americano. Não imagino você entendendo uma linha de poesia.
James deu um sorriso de canto, desafiado. Ele deu um passo à frente, fixou os olhos nos dela e, com uma voz surpreendentemente calma, profunda e sem nenhum deboche, ditou:
— "O amor não se transforma de hora em hora, com suas semanas breves; mas se mantém firme até o fim dos tempos... Se isso for erro, e contra mim provado, eu nunca escrevi, nem ninguém jamais amou." — Ele fez uma pausa, o olhar intenso preso ao dela. — Soneto 116. Quer que eu continue, ou a marrenta do colégio vai admitir que me julgou mal?
Elara ficou sem fala. O impacto das palavras ditas por ele, com tanta propriedade, fez seu estômago revirar de um jeito completamente diferente. Havia uma camada em James que ela não esperava encontrar. O silêncio se instalou entre os dois, mas não era mais um silêncio hostil. Era denso, carregado de uma eletricidade nova.
James deu mais um passo. Seus olhos desceram para os lábios de Elara. Ela segurou a respiração, sentindo o calor dele. Ele inclinou o rosto devagar, e por um segundo, Elara esqueceu da leucemia, do ano sabático e de todas as suas barreiras. Ela simplesmente quis que ele avançasse.
ESTRAÇALHO! BOOM!
O som de vidro quebrando e gritos enfurecidos vindos do andar de baixo cortou o momento como uma lâmina.
— Mas que porra... — James praguejou, afastando-se abruptamente com a mão na testa.
A porta do quarto foi aberta num estrondo por um Garret esbaforido.
— James! O Miller e o cara do time rival começaram a quebrar a sala! Corre lá!
James olhou para Elara, os olhos cheios de frustração.
— Não sai daqui. Eu já volto.
Assim que os dois rapazes desceram correndo as escadas, Elara soltou o ar, trêmula. Ela tocou os próprios lábios, o coração parecendo uma bateria no peito.
— O que eu estou fazendo? — ela sussurrou para si mesma.
Lembrando-se do trato com a irmã, ela desceu as escadas logo atrás. A sala era um caos: James estava no meio de dois caras imensos, segurando um deles pelo colarinho com pura autoridade para acabar com a briga. Elara varreu o ambiente com os olhos e encontrou o que procurava perto do corredor da cozinha.
Sofia e Garret estavam encostados na parede, mas não pareciam nem um pouco preocupados com a briga. Eles estavam se beijando com uma intensidade que fez Elara pigarrear alto.
— Sofia! — Elara chamou.
Os dois se separaram num sobressalto. Sofia estava com o batom levemente borrado e os olhos brilhando. Garret coçou a nuca, meio sem jeito, mas sorrindo.
— El! — Sofia ajeitou a blusa.
— São dez para as onze. Nós temos que ir agora — Elara disse, firme.
— Ah, já? — Garret lamentou, olhando para Sofia.
— Regra dos generais, Lioncort — Sofia deu um selinho rápido nele. — Me manda mensagem amanhã. Tchau!
Sofia puxou Elara pela mão e as duas praticamente fugiram pela porta da frente, entrando no jipe antes que James pudesse voltar. Sofia deu partida no carro, com um sorriso que não cabia no rosto.
— Ai meu Deus, El! O Garret é perfeito! — Sofia começou a tagarelar enquanto dirigia. — Ele é engraçado, dança super bem, o beijo dele é maravilhoso e ele não tem nada daquela pose de jogador babaca. Ele é incrível, sério, papo de jovem apaixonada mesmo!
Elara olhava pela janela, observando os postes de luz passarem. Sua mente estava presa no Soneto 116 e na forma como a voz de James tinha mudado naquele quarto.
— E você? — Sofia deu uma cotovelada de leve na irmã. — Como foi com o James? Vi você sumindo.
Elara piscou, voltando à realidade, e vestiu sua máscara de frieza novamente.
— Um chato, Sofia. Insuportável. Ele tentou crescer para cima de mim com o ego dele de sempre. Nunca mais vou a uma festa em que esse garoto esteja.
— É uma pena... — Sofia murmurou, desconfiada do silêncio da irmã.
Vinte minutos depois, Elara já estava em seu quarto. Ela havia colocado o pijama e escovado os dentes. Deitou-se na cama, encarando o teto, tentando afastar a imagem dos olhos escuros de James da mente.
BZZZZZ. BZZZZZ.
O celular em cima do criado-mudo vibrou. Ela estendeu a mão e olhou para a tela. Era um número desconhecido. Curiosa, ela arrastou o dedo e atendeu.
— Alô?
— Sabe, Styles, mentir é um pecado literário bem feio — a voz grave e zombeteira de James ecoou pelo receptor.
Elara sentou-se na cama num pulo.
— James? Como você conseguiu meu número?
— O Garret estava tão feliz porque ganhou um beijo da sua irmã que praticamente entregou o seu número em uma bandeja de prata para mim quando eu pedi — deu para ouvir o sorriso dele do outro lado da linha. — Você fugiu. Não terminamos nossa conversa sobre Shakespeare.
— Terminamos sim. Eu fui embora porque meu horário acabou e porque não aguento duas horas seguidas de arrogância — ela tentou manter o tom firme, mas seu coração já estava acelerado de novo.
— Arrogância? Eu ditei poesia para você, loira. Admite, você ficou impressionada.
— No máximo, surpresa por você saber conjugar verbos, Lâfrer — Elara rebateu, um sorriso involuntário surgindo em seu rosto na penumbra do quarto. — Agora, se me dá licença, eu preciso dormir. Diferente de você, eu tenho coisas úteis para fazer amanhã.
— Tipo o quê? Fugir de mim no corredor de novo? — Tipo viver a minha vida bem longe da sua. Boa noite, James.
— Boa noite, Styles. A gente se vê amanhã. Você querendo ou não.
Elara desligou o telefone e o pressionou contra o peito, soltando um suspiro longo. Aquilo era perigoso. Muito perigoso para alguém que não podia se apegar.
Na mansão, James jogou o celular na cama e caminhou até a janela de seu quarto, olhando para a rua escura. A festa lá embaixo estava terminando, mas o barulho já não importava. Ele passou a mão pelo cabelo, sentindo uma inquietação desconhecida no peito. Aquela loira, com seus olhos frios, sua língua afiada e a fragilidade misteriosa que ela tentava esconder a todo custo, tinha feito algo que nenhuma outra garota jamais conseguiu: ela havia tirado totalmente o sono dele.
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