​O rugido da torcida do West Valley High vibrava nas arquibancadas de metal, mas para Elara, o som parecia vir debaixo d'água. O cheiro de pipoca e grama cortada preenchia o ar frio da noite. Ela puxou o capuz do casaco um pouco mais para a frente, tentando se esconder do vento e dos olhares.

​— Olha lá, El! O James tá imparável hoje! — Sofia puxou a manga da irmã, apontando para o campo.

​No gramado iluminado pelos refletores, o camisa 10, James Lâfrer, esquivou-se de dois defensores com uma agilidade quase arrogante. Ele lançou a bola oval perfeitamente nos braços do receptor, garantindo mais um touchdown para o time. A arquibancada explodiu.

​Elara forçou um sorriso, ajustando a postura.

— Ele joga bem. Só é uma pena que saiba disso.

​— Ah, qual é? Ele é um tremendo gato, egocêntrico, mas um gato — Sofia riu, mas logo o brilho em seus olhos suavizou ao olhar para a irmã. — Você está bem? Quer ir embora? Se o cansaço bater, me avisa.

​— Estou bem, Sofi. Só... com um pouco de frio. O tratamento da semana me deixou meio sem bateria, mas eu queria ver o jogo com você.

​— Você sabe que não precisa se forçar a nada, né? O papai e a mamãe quase infartaram quando dissemos que vínhamos.

​— Eu sei. Mas eu preciso viver um pouco antes de virar uma inválida no ano sabático enquanto você e todo mundo vão para a faculdade — Elara desabafou, o tom entregando uma ponta de amargura que tentava esconder.

​— Ei — Sofia segurou a mão da irmã, firme. — Você não vai virar inválida. Só vai descansar. E eu vou estar aqui. Sempre.

​O apito final ecoou, decretando a vitória do time da casa. A multidão começou a se dispersar.

— Vamos antes que o estacionamento vire um caos? — sugeriu Elara. Sofia assentiu.

​As duas desceram as escadas da arquibancada e começaram a contornar a lateral do campo de treinamento, contornando o fluxo de alunos. Elara estava distraída, olhando para os próprios pés, quando o mundo colidiu contra ela.

​BUM.

​O impacto contra um peito firme coberto por uma armadura de futebol americano a jogou direto no chão de terra. O impacto fez suas costelas doerem, e a fragilidade de seu corpo cobrou o preço.

​— Mas que porra! Olha por onde anda, garota! — a voz ecoou, ríspida e cortante.

​Elara ergueu os olhos, piscando contra a luz dos refletores. Era James Lâfrer. Ele segurava o capacete debaixo do braço, o suor escorrendo pelo rosto desenhado, que no momento estava contorcido em pura irritação. Ao lado dele, seu eterno escudo, Garret Lioncort, observava a cena.

​— Desculpa... eu não vi — Elara murmurou, a voz falhando, sentindo-se humilhada no chão.

​— É, deu para notar. Da próxima vez, usa os olhos ou sai do caminho. Não tenho tempo para perder com gente aérea — James cuspiu as palavras, sem menção nenhuma de ajudá-la a levantar, e fez menção de passar direto.

​Uma lágrima quente e involuntária escorreu pelo rosto de Elara. Não era só pela grosseria; era pelo lembrete de quão fraca ela estava fisicamente. Ela se levantou rápido, limpando o rosto, com o peito soluçando de dor e frustração, e começou a caminhar rápido, desabando em choro.

​Sofia, que tinha ficado paralisada por dois segundos absorvendo a cena, sentiu o sangue ferver. Ela olhou para a irmã chorando, se afastando, e depois para o brutamontes de um metro e oitenta à sua frente.

​— Ei! Seu imbecil! — Sofia gritou.

​James virou o rosto, com um sorriso de canto arrogante.

— O que foi, garo...?

​Ele não teve tempo de terminar a frase. Sofia deu um passo à frente e, com toda a força de seu corpo, desferiu um soco certeiro, de baixo para cima, direto no meio das pernas de James.

​O som do impacto foi seco. O sorriso de James sumiu instantaneamente. Seus olhos se arregalaram, a cor sumiu de seu rosto e ele soltou um ganido agudo, caindo de joelhos na grama, encolhido em posição fetal.

​— Puta que pariu! — Garret exclamou, os olhos arregalados. Ele olhou para James gemendo no chão e depois para Sofia. A garota estava com os punhos cerrados, respirando arfante, os olhos faiscando faíscas de puro ódio.

​Garret a encarou por um segundo longo demais. Em vez de ficar bravo, uma admiração genuína e um sorriso de canto surgiram em seu rosto. Que garota incrível, ele pensou.

​— Se você ou seu amigo imbecil chegarem perto da minha irmã de novo, o próximo vai ser na cara! — Sofia esbravejou, virando as costas e correndo para alcançar Elara.

​Garret soltou uma risada abafada antes de se agachar ao lado do amigo.

— Cara... você tá vivo?

​— Cala... a... boca... — James sibilou, a voz três oitavas mais aguda que o normal, a mão pressionando a área atingida. — Me tira... daqui.

​Com muito esforço e entre risadas contidas de Garret, ele ajudou o quarterback a se levantar e o arrastou até o carro, levando-o direto para a mansão dos Lâfrer.

​Na enorme sala de estar da casa de James, Henrique e Suzana Lâfrer liam alguns papéis de negócios, com as malas de viagem já prontas perto da porta para o embarque na manhã seguinte. A porta se abriu e Garret entrou carregando James, que ainda andava curvado, com as mãos nos bolsos e uma carranca monumental.

​— O que aconteceu com você, filho? Que andar é esse? — Suzana perguntou, erguendo as sobrancelhas bem desenhadas.

​James se jogou no sofá com um gemido, cobrindo o rosto com uma almofada.

​— Sr. e Sra. Lâfrer, vocês não vão acreditar — Garret começou, explodindo na risada que estava segurando o caminho todo. — O grande astro do time, o intocável James Lâfrer, acabou de ser nocauteado no estacionamento.

​Henrique tirou os óculos de leitura, interessado.

— Um rival do outro time?

​— Quem dera, Sr. Henrique! Foi uma garota! Desse tamanho! — Garret esticou a mão na altura do peito. — O James foi dar uma de babaca com uma menina do terceiro ano, e a irmã dela simplesmente plantou um soco de direita direto no saco dele. Ele caiu igual a uma jaca podre!

​Henrique soltou uma gargalhada alta, batendo no joelho. Até Suzana não conseguiu conter o riso, cobrindo a boca com elegância.

​— Muito engraçado. Vão se ferrar todos vocês — a voz de James saiu abafada contra a almofada, o ego mais ferido do que o próprio corpo.

​Enquanto isso, no aconchego do quarto Styles, o clima era completamente diferente. Elara estava deitada na cama, encolhida sob as cobertas, encarando a parede com os olhos vermelhos de tanto chorar.

​A porta se abriu devagar e Sofia entrou, trazendo um copo de água. Ela sentou-se na beirada do colchão e colocou o copo na cabeceira, acariciando o cabelo da irmã.

​— Ele é um idiota, El. Não liga para o que aquele projeto de ogro falou.

​— Não é só o que ele falou, Sofi... — Elara se virou, a voz fraca. — É como eu me senti. Tão fraca. Um esbarrão me derrubou. Eu costumava ser forte. Agora, qualquer vento me quebra.

​Sofia suspirou, o olhar cheio de amor, mas também de uma firmeza necessária.

​— Olha para mim, Elara. Você está doente, não morta. Aquele cara é um babaca com todo mundo, a culpa não foi da sua imunidade ou da sua força. Foi ele que foi um ogro.

​Elara limpou uma lágrima teimosa.

​— Mas...

​— Mas nada — Sofia a interrompeu docemente. — Você precisa ser um pouco menos sensível, El. Eu sei que tudo está difícil, que o diagnóstico mudou tudo, mas se você começar a se desmanchar por causa de garotos idiotas como o James Lâfrer, o mundo vai te engolir. Você é uma Styles. A gente aguenta o tranco. E, se você não aguentar... — Sofia deu um sorriso cúmplice, estalando os nós dos dedos. — Eu bato neles por você. De preferência, onde mais dói.

​Elara soltou uma risada fraca, a primeira da noite.

— Você não fez aquilo, fez?

​— Fiz. E faria de novo. Agora descansa, tá? Amanhã é outro dia.

​Sofia deu um beijo na testa da irmã e apagou a luz, deixando Elara na penumbra, dividida entre o medo do futuro e a estranha sensação de que sua vida pacata acabara de sofrer um desvio definitivo.