O Tempo que nos Resta

2 Manhãs Barulhentas e Olhares de Longe



​O cheiro de panquecas quentes e café fresco era a única coisa capaz de arrastar Sofia Styles para fora da cama em uma manhã de terça-feira. Ela desceu os degraus correndo, ainda de pijama, e encontrou a cozinha inundada pela luz do sol.

​Lucian Styles estava de pé ao lado do fogão, usando um avental ridículo que dizia "Beije o Cozinheiro", brandindo uma espátula como se fosse uma varinha mágica. Elise, sua mãe, estava sentada à mesa, rindo discretamente por cima da borda de sua xícara de chá.

​— Bom dia, projeto de furacão — Lucian saudou Sofia, jogando uma panqueca perfeitamente dourada no prato dela.

​— Bom dia, pai. Bom dia, mãe — Sofia pegou a panqueca com os dedos mesmo, recebendo um olhar de leve bronca da mãe. — Cadê a El?

​— Estou bem aqui — a voz de Elara veio da porta.

​Ela vestia calça jeans e um casaco de tricô oversized, confortável. Embora houvesse leves sombras sob seus olhos, ela exibia um sorriso genuíno. A tempestade de lágrimas da noite anterior parecia ter dado trégua.

​— Como acordou hoje, meu amor? — Elise levantou-se imediatamente, tocando a testa da filha mais velha com as costas da mão, um hábito que se tornara automático no último ano.

​— Inteira, mãe. Sem febre, sem dores, e com fome — Elara brincou, sentando-se ao lado de Sofia.

​— Ótimo! Porque hoje seu pai se superou. Acho que ele colocou açúcar demais nessas panquecas — Sofia provocou, levando uma cotovelada leve do pai.

​— Respeite o artista, Sofia — Lucian inflou o peito. — Elara, se precisar que eu te busque mais cedo na escola hoje...

​— Pai, está tudo bem — Elara o interrompeu suavemente, cobrindo a mão dele com a sua. — É só o colégio. E a Sofi está comigo. Se eu sentir qualquer coisa, eu aviso. Prometo.

​Sofia engoliu o pedaço de panqueca e sorriu de lado.

— É, pai. E se qualquer armário de um metro e oitenta tentar quebrar a promessa, eu tenho dois punhos prontinhos para o segundo round.

​Elara engasgou com o suco de laranja. Lucian e Elise se entreolharam, confusos.

​— Que round, Sofia? — Elise franziu o cenho.

​— Nada, mãe! Piada interna! — Elara apressou-se em dizer, chutando a canela da irmã por baixo da mesa, o que fez Sofia soltar um abafado "Ai!". — Vamos, Sofi, ou vamos nos atrasar.

​Do outro lado da cidade, na mansão dos Lâfrer, o clima era consideravelmente menos sutil.

​James desceu as escadas pisando duro, segurando a mochila por uma alça só. Ele ainda andava com as pernas ligeiramente mais afastadas do que o habitual, o que arrancou uma gargalhada imediata de Garret, que já estava atacando uma montanha de ovos mexidos na bancada da cozinha.

​— Olha aí! O campeão de West Valley caminha entre nós! — Garret cantarolou, erguendo uma torrada. — Como estão as joias da coroa, majestade?

​— Cala a boca, Garret — James resmungou, jogando-se em uma banqueta alta com um gemido contido. — Eu ainda vou achar aquela garota. E quando eu achar...

​— Vai fazer o quê? Levar outro gancho de direita? — Garret riu tanto que quase se engasgou. — Cara, aquilo foi épico. Eu devia ter filmado.

​Henrique Lâfrer entrou na cozinha, vestindo um terno impecável, digitando furiosamente no celular. Ele mal olhou para o filho ao pegar uma xícara de café para viagem.

​— Bom jogo ontem, James. Vi o placar — Henrique disse, o tom focado nos negócios. — Sua mãe já foi para o aeroporto. Meu voo sai em uma hora. Juízo vocês dois. Não quero a polícia ligando para Nova York porque vocês destruíram a casa.

​— Sim, senhor — James respondeu, a voz automática. Ele já estava acostumado com aquela rotina de solidão compartilhada.

​Henrique deu um tapinha rápido no ombro de James e saiu, a porta da frente batendo segundos depois.

​Garret olhou para o amigo, o tom de brincadeira suavizando um pouco.

— Bom... mais uma semana só nossa. Beber até cair ou treinar até morrer?

​James deu um sorriso de lado, recuperando sua arrogância habitual.

— Os dois. Agora anda, passa o café antes que eu use a sua cara como bola de futebol.

​O estacionamento do colégio West Valley High estava o caos de sempre: música saindo dos carros, alunos correndo para não pegar detenção e o habitual desfile de jaquetas do time de futebol americano.

​James estacionou seu Mustang preto na vaga reservada e saltou, ajeitando a gola da sua jaqueta do time. Garret desceu pelo lado do carona, ajustando a mochila.

​— Olha lá — Garret apontou com o queixo em direção à entrada principal.

​Um jipe antigo e um pouco barulhento havia acabado de estacionar algumas vagas adiante. Da porta do carona, Elara desceu. O vento matinal bagunçou seus cabelos loiros. Ela ria de alguma coisa que Sofia, saindo do lado do motorista, havia dito. Havia uma leveza nela, uma beleza delicada que parecia não pertencer àquele ambiente escolar barulhento.

​James parou o passo, os olhos cravados em Elara. Na noite anterior, sob os refletores e a raiva, ele mal tinha prestado atenção nos detalhes. Agora, sob a luz clara do sol, algo nele estalou.

​— Cara... — James murmurou, sem desviar o olhar. — Até que a cega que passou por cima de mim ontem à noite era bem bonita. Olha aquilo.

​Garret olhou de James para Elara, e um sorriso enorme e perigoso se espalhou por seu rosto. Ele deu uma cotovelada forte nas costelas do quarterback.

​— Ah, não brinca! O grande James Lâfrer admitindo que uma garota é bonita? E logo a irmã da garota que te nocauteou? — Garret começou a empurrar James levemente na direção delas. — Vai lá, garotão. Já que você achou ela bonita, engole esse orgulho besta e vai lá chamar ela para sair. Quero só ver se você tem coragem.

​James desvencilhou-se do empurrão do amigo, ajeitando a jaqueta com os olhos semicerrados, observando Elara sumir pelas portas duplas do colégio.

​— Eu não preciso de coragem, Lioncort. Eu consigo o que eu quiser — James respondeu, o tom egocêntrico voltando com força total, embora seu coração tivesse dado uma batida estranha no peito. — Mas ela vai ter que pedir desculpas primeiro.