O Tempo que nos Resta

4 Convites, Negociações e Linhas Cruzadas



​A tarde caía sobre a cidade e, dentro da imensa sala de jogos da mansão Lâfrer, o som de tiros virtuais ecoava das caixas de som do videogame. Garret estava relaxado em uma das poltronas de couro, controlando seu personagem na tela com precisão, enquanto James andava de um lado para o outro pelo carpete escuro, ignorando completamente o próprio controle jogado no sofá.

​— Dá para parar de andar como um leão enjaulado? Está tirando minha concentração — Garret reclamou, sem desviar os olhos da TV.

​— Garret, liga para ela — James mandou pela décima vez nos últimos cinco minutos, parando bem na frente da tela.

​— Cara, sai da frente! Vou levar um headshot! — Garret desviou a cabeça para o lado. — Liga para quem?

​— Para a Sofia, imbecil. Liga para ela agora e convida ela para a festa de hoje à noite aqui em casa.

​Garret finalmente largou o controle, olhando para o amigo com uma sobrancelha arqueada e um sorriso sarcástico.

— Ah, entendi. O grande James Lâfrer está implorando para eu usar os meus contatos? O mundo capotou mesmo.

​— Não estou implorando, estou organizando o evento — James retrucou, cruzando os braços e tentando manter a pose, embora o maxilar trincado entregasse sua ansiedade. — Só liga. Se a Sofia vier, ela traz a irmã. E eu tenho uma conta para acertar com aquela loira marrenta.

​— Sei bem que conta é essa — Garret riu, mas pegou o celular no bolso. — Tá bom, tá bom. Eu já ia ligar para ela de qualquer jeito. Mas se ela me der um fora por sua causa, você vai me pagar um ano de combustível.

​Garret discou o número e colocou no viva-voz. Demorou quatro toques até que a voz firme de Sofia ressoasse do outro lado da linha.

​— Lioncort? Já está com saudades do meu soco de direita? — ela atendeu, com um tom divertido.

​Garret sorriu instantaneamente, jogando o corpo para trás na poltrona.

— Desse soco eu quero distância, Sofia. Mas de você, não. Olha só, vai rolar uma resenha aqui em casa hoje à noite. Coisa light, só o pessoal do colégio, música boa, comida... Eu queria muito que você viesse.

​Do outro lado, houve um silêncio pensativo.

— Hum, não sei não, Garret. No meio da semana? E além do mais, onde você vai, o projeto de ogro do seu amigo vai atrás. Minha cota de James Lâfrer por essa semana já estourou.

​James fechou os punhos e apontou o dedo para o celular, gesticulando freneticamente para Garret consertar a situação. Garret riu em silêncio da cara do amigo antes de responder.

​— Olha, eu garanto a sua segurança. E para ser bem sincero... o James está completamente gamado na sua irmã. Ele não para de falar dela desde o sinal da manhã. E eu... bom, eu estou bem focado em você. Dá uma chance para a gente?

​Sofia soltou um suspiro audível do outro lado da linha.

— Você não desiste, né? Tá bom, Lioncort. Eu vou tentar convencer a Elara. Mas não prometo nada.

​— Já é mais do que eu esperava. Me avisa se conseguirem vir — Garret piscou para James, que soltou o ar que nem sabia que estava segurando.

​— Aviso sim. Até logo, Garret. — A ligação caiu.

​Na casa da família Styles, Sofia largou o celular na mesa de cabeceira e caminhou direto para o quarto ao lado. Ela bateu de leve na porta e entrou, encontrando Elara sentada na cama, cercada por alguns livros e um caderno de anotações para o ano sabático.

​— El, precisamos conversar — Sofia jogou-se de barriga para baixo na cama da irmã, olhando-a com uma expressão pidona.

​Elara nem levantou os olhos do caderno.

— Se tem essa cara, lá vem bomba. O que foi, Sofi?

​— Vai rolar uma festa na casa dos Lâfrer hoje à noite. E nós fomos convidadas. O Garret acabou de me ligar.

​Elara parou de escrever na mesma hora. Ela fechou o caderno devagar e encarou a irmã com total incredulidade.

— Você quer ir à casa do cara que me humilhou ontem e que quase me usou de outdoor no corredor hoje? Sofia, você perdeu o juízo?

​— Ai, El, o James é um idiota, eu sei. Mas o Garret é legal! Ele foi super fofo no telefone — Sofia se aproximou, segurando as mãos da irmã. — E o Garret me disse que o James está caidinho por você. Ele não para de falar de você.

​Elara soltou uma risada seca, desvencilhando as mãos.

— Ele não está caidinho, Sofia. O ego dele foi ferido porque eu não caí nos pés dele como as outras garotas fazem. Isso é um jogo para ele. E eu não tenho tempo para jogos. Minha vida já tem complicações reais demais.

​Sofia engoliu em seco. Ela detestava quando Elara usava a doença como escudo para se isolar do mundo.

​— Justamente por isso, El — Sofia usou um tom mais suave, quase suplicante. — Você mesma disse hoje de manhã que queria viver um pouco antes do ano sabático. A gente não precisa ficar até tarde, não precisa falar com o James. Nós entramos, comemos, conversamos um pouco com o Garret e vamos embora. Por favor... faz isso por mim? Se o James vier encher o saco, eu juro que dou outro soco nele.

​Elara olhou para os olhos brilhantes da irmã caçula. Ela sabia o quanto Sofia abria mão de coisas da sua própria juventude para cuidar dela e lhe fazer companhia. Um sentimento de culpa misturado com carinho falou mais alto.

​Elara soltou um longo suspiro de rendição.

— Tá bom. Eu vou. Mas com duas condições: nós vamos com o seu carro e vamos voltar cedo. Se eu disser que quero ir embora, nós saímos no mesmo segundo.

​— Fechado! Você é a melhor irmã do universo! — Sofia comemorou, pulando da cama. — Agora vamos falar com os generais.

​As duas desceram até a sala, onde Lucian e Elise assistiam à televisão juntos no sofá. Sofia tomou a frente da negociação, explicando que era uma reuniãozinha de colégio e que voltariam cedo. Os pais hesitaram por um momento, olhando preocupados para Elara.

​— Tem certeza de que está disposta, querida? — Elise perguntou, o olhar materno cheio de zelo.

​— Tenho sim, mãe. Vai ser bom sair um pouco de casa — Elara garantiu, dando um sorriso reconfortante.

​Lucian olhou para o relógio.

— Tudo bem. Mas quero as duas em casa até as onze da noite. E qualquer problema, me liguem imediatamente que eu vou buscar.

​— Pode deixar, coroa! — Sofia mandou um beijo no ar.

​De volta ao quarto, Sofia pegou o celular e digitou rapidamente uma mensagem para Garret:

​"Consegui dobrar a dona do gelo. Nós vamos. Mas chegamos cedo e saímos cedo."

​Na mansão Lâfrer, o celular de Garret apitou na bancada da cozinha. Ele leu a mensagem e deu um soco no ar, soltando um grito de comemoração.

​— Uhul! Elas vão vir, cara! A Sofia confirmou! — Garret exclamou, jogando o celular para cima e pegando no ar.

​James, que estava encostado na geladeira fingindo desinteresse, permitiu que um sorriso largo e vitorioso surgisse em seu rosto. Ele ajeitou a postura, a confiança voltando a circular por suas veias em velocidade máxima.

​— Eu te disse, Lioncort — James falou, o tom de voz carregado de pura arrogância e expectativa. — Ninguém resiste por muito tempo. Hoje à noite, aquela loira vai ver que o jogo dela acabou.