O Tempo e a Esperança

33 História extra III


História extra III

O sol já estava ficando quente, pois o meio dia se aproximava. Yumi esperava sentada na varanda da casa tradicional dos Kaneshiro, alimentando os poucos pássaros que se aventuravam no calor. Apesar da aparente serenidade de seu lar, ela sabia que alguma decisão importante estava sendo tomada dentro daquelas paredes, e que tudo ali lhe dizia respeito. Mesmo sendo muito jovem, já havia percebido que havia algo de estranho acontecendo em sua família e ela tinha medo das conseqüências que isso poderia gerar.

Quando a porta de correr se abriu e o rosto sorridente de seu pai apareceu, seu coração deu um salto repentino. Com um aceno, ele a chamou para entrar na sala.

Tudo dentro de sua casa transpirava ordem e sobriedade. Muitas vezes seu pai dizia que a única coisa que não combinava com o lugar era ele. E talvez tivesse razão. Perto de Yura, seu marido Kaneshiro Ryoma parecia mais um eterno menino, sempre pronto para agradar a namoradinha. Quando Yumi entrou, seu pai alisou seus cabelos curtos e disse:

— Não se preocupe Yu-chan. Papai e mamãe estão apenas pensando em seu bem...

Seu sorriso era sempre fácil e sincero. Os cabelos negros lhe caiam nos olhos, conferindo a Ryoma uma aparência quase inofensiva, que aliados aos olhos grandes e verdes, fazia qualquer pessoa confiar plenamente nele.

Sua mãe a esperava sentada no tatame. A barriga saliente já prenunciava que o bebê em breve iria nascer. Os cabelos azuis claros desciam elegantemente sobre seus ombros, e seu rosto exibia o cansaço comum ao fim da gravidez. Os olhos azul-cobalto acompanharam a filha e o marido enquanto estes se acomodavam em frente a ela.

— Yumi começou ela com sua voz firme e grave você já tem sete anos e em muito breve entrará na academia ninja. Por isso, já pode entender algumas coisas que acontecem na família.

— Querida... interrompeu Ryoma carinhosamente Falando desse jeito vai assustar a menina...

— Ela tem que aprender a ser firme, Ryoma. E além do mais, isso a envolve profundamente!

Seu pai tinha razão, pensou Yumi. Ela já estava ficando assustada.

— Como você sabe, seu irmãzinho está perto de nascer. continuou Yura — Infelizmente, segundo a Hokage-sama, ele esta numa posição muito difícil e pra ele nascer, terei que passar uns dias no hospital. Sua avó vai me fazer companhia lá e o seu pai terá que sair em uma missão.

— Mas... E eu? perguntou a menina assustada Como ficarei?

— Não se preocupe. Você não ficará só. Nem poderia com tudo que está acontecendo... pensou Yura, mas quando falou outras palavras saíram de sua boa — Seu pai já providenciou com quem você passará esses dias.

Yumi olhou rapidamente para Ryoma, que sorriu consolador.

— Você vai ficar com meu irmão. O seu tio Akito.

Para a menina aquilo soou um pouco estranho. Quase não tinha contato com o irmão de seu pai. Na verdade nunca o vira, somente ouvira seu pai falar dele. Por que então ficaria com ele e não com uma pessoa do clã Kaneshiro? Percebendo a confusão de sua filha, Yura sorriu.

— Me sentirei mais segura se você ficar por lá. Essa casa é grande e quase sempre está vazia. Já com Akito, ficará sempre com ele. Como ele tem a saúde frágil, não costuma sair muito.

Mesmo parecendo tranqüila, havia algo na voz de sua mãe que a deixava nervosa. Uma tonalidade quase imperceptível, mas que seus ouvidos infantis captaram. Mas nada falou. Confiava cegamente nas decisões de sua mãe. Ela jamais faria algo sem ter pensado em todas as alternativas.

— Quando irei? perguntou Yumi com a cabeça baixa.

— Amanhã. respondeu sua mãe.

O resto do dia foi dedicado à preparação. Cuidadosamente, seu pai fizera suas malas durante toda à tarde, enquanto a consolava com palavras carinhosas e preocupadas.

— Não será muitos dias, uma semana no máximo. disse ele enquanto enrolava suas meias E Akito é uma boa pessoa. Só é um pouco rude às vezes. e sorrindo, acrescentou — Ele fala tudo que pensa.

— Isso é ruim? perguntou a menina abraçada com um coelhinho de pelúcia.

— Nem toda verdade se diz Yumi. Algumas são dolorosas demais e as pessoas preferem guardar para elas mesmas. Mas seu tio não pensa assim. Acha que tudo deve ser dito, mesmo que doa.

Yumi pensou um pouco no que seu pai dissera. Akito parecia ser alguém muito sincero e digno de confiança.

— Pai... chamou Yumi depois que Ryoma fechou sua mala.

— Fale querida.

— A mamãe ta me escondendo uma verdade dolorosa né? O motivo por que eu to indo para o tio Akito...

Ryoma olhou surpreso para sua filha. A menina o encarava séria, esperando uma resposta sincera. Ele suspirou e sorriu.

— Não sei de onde você tira essas idéias... — e acariciou os cabelos dela Agora, que tal jantarmos e dormir? Amanhã será um dia longo!

Aquela refeição foi muito silenciosa. Mesmo sendo uma mulher de poucas palavras, Yura estava mais calada que o normal àquela noite. Possivelmente pensando no filho que nasceria dali a pouco e que estava em risco. Até Ryoma que sempre era alegre, ficara repentinamente sério. Yumi desejava que o bebê nascesse logo, pois não agüentaria aquela pressão por muito tempo.

No dia seguinte, logo que o sol nasceu Yumi já estava acordada e pronta para partir. Esperava que sua mãe fosse se despedir dela, mas apenas seu pai a esperava na porta do clã, já com sua bagagem.

— A mamãe está cansada. explicou Ryoma Não quis acordá-la.

— Onde mora o tio Akito? perguntou ela curiosa.

— Fora da vila. respondeu.

— Fora da vila? se surpreendeu a menina Ele não é ninja?

— Sim, ele é. Um ninja médico. Mas sua saúde está bastante debilitada há algum tempo. Ele detesta calor e aglomerações. Então decidiu morar na casa de campo da nossa família, para que seu corpo fique mais saudável.

Os dois andaram em torno de meia hora até chegaram a uma bela casa, em estilo tradicional, que ficava perto de um lago, a nordeste da vila. Era um lugar agradável, com um belo bosque e um jardim maravilhoso. Imediatamente Yumi sentiu vontade de percorrer aqueles campos e tomar banho no lago. Percebendo o entusiasmo da menina, Ryoma advertiu:

— Não saia da casa a menos acompanhada de seu tio, entendeu?

O tom sério com que seu pai falou a deixou magoada. Mas mesmo assim ela assentiu:

— Sim senhor.

Tão logo se aproximaram da casa, Yumi percebeu alguém que se encontrava sentado na varanda, de costas para eles. No primeiro momento achou que fosse uma mulher, pela estrutura delicada do corpo. Mas ela logo percebeu que se tratava de um homem. Quando sentiu a presença de alguém, ele se virou lentamente e vendo os dois se aproximando, se levantou. Vestia uma bonita capa vermelha decorada com dragões dourados por cima de um quimono preto. Seus pés estavam descalços e ele tinha um sinete na mão direita.

— Akito. falou seu pai carinhosamente.

Então esse é o tio Akito! pensou Yumi encantada.

Ele era realmente bonito. Tinha os cabelos negros caindo desalinhados sobre seus olhos, sua pele era branca e de um pálido profundo, que contrastavam com os olhos em um verde muito vivo. Devia ter vinte anos, no máximo, e parecia uma pessoa tão gentil quanto seu irmão.

— Ryoma-nii-san... murmurou Akito numa voz baixa e rouca, porém suave.

E como se só notasse a presença de Yumi naquele momento, ele a olhou longamente e depois sorriu. Delicadamente levou sua mão até os cabelos da garota e os acariciou. A menina percebeu que sua mão era magra e delgada, parecendo uma delicada garra com sua unhas pontudas e finas, como as de um passarinho.

— Então essa é a Yumi? Que linda!

Yumi corou drasticamente ao ouvir o elogio e rapidamente se curvou, cumprimentando apressada:

— É um prazer conhece-lo, tio Akito. disse formalmente.

Akito soltou uma gostosa gargalhada ao ouvir essas palavras.

— Que interessante! comentou ele Ela parece com a mãe não só na aparência física, mas até no modo de falar!

— Desculpe ter que incomoda-lo Akito com meus problemas. falou Ryoma depois do comentário Mas será por poucos dias. Só enquanto volto de minha missão e...

— Então o clã Kaneshiro continua se degladiando tanto ao ponto de você confiar a segurança dela a mim? interrompeu Akito com um sorriso singelo no rosto.

Pela forma abrupta com que seu pai parou de falar, Yumi percebeu que Akito falara algo indevido. E enquanto ela tentava lembrar o significado da palavra degladiar, Ryoma falou seriamente:

— Não é melhor instalar logo a Yumi antes de conversarmos, Akito?

— Claro, claro! disse ele displicentemente Yumi-chan, pode entrar e guardar suas coisas.

— Obrigada, tio Akito. agradeceu ela entrando em seguida.

Mas logo depois que chegou a um grande corredor, percebeu que não sabia onde deixar sua mala. Colocou suas coisas no chão e voltou para perguntar onde ficaria. Logo que chegava à porta, ouviu seu pai comentar:

— Não fale essas coisas perto da Yumi, por favor. sua voz soou aborrecida.

— Desculpe-me irmão. Foi sem querer. falou Akito parecendo arrependido.

— Tentamos manter Yumi alheia aos assuntos do clã. Ela é muito criança ainda.

— Mas logo saberá. Afinal, ela está em perigo não é? Por isso a trouxe até mim...

Yumi colocou as mãos na boca para não deixar sair uma exclamação amedrontada. Ela estava em perigo?

— Eu não podia recorrer a mais ninguém. Nenhum ali dentro é confiável. esclareceu Ryoma.

Akito fez um som de desdém com a boca.

— Você abandonou sua família e seu sobrenome para cair em um ninho de cobras meu irmão?

Ryoma suspirou tristemente. Parecia cansado.

— Já conversamos sobre isso, Akito. Não peço para você me perdoar. Peço apenas para cuidar de minha filha durante alguns dias. Eles podem se aproveitar dos casos de desaparecimentos para fazer mal à Yumi. E eu confio em você.

Um silêncio constrangedor se seguiu a essa frase.

— Não devia confiar tanto em mim... murmurou Akito Veja, sou somente um doente. Se alguém tentar atacar-nos, seremos presas fáceis.

— Você não é um inválido Akito. contestou Ryoma veementemente E sua doença não o torna incapaz.

— Quantas crianças já sumiram? perguntou o outro tentando mudar o rumo da conversa.

— Sete. respondeu. Mas a anbu já está trabalhando nesses casos. Mas outro grupo. O meu estará numa missão em busca de pistas sobre Uchiha Sasuke. Acho que você já ouviu falar sobre ele não é?

— E quem não ouviu...

Yumi começou a voltar para dentro da casa e parou no corredor onde havia largado suas coisas. Não queria que o pai soubesse que ela ouvira aquela história. Mas agora sabia por que seus pais a deixavam ali.

Na varanda, a conversa ainda se desenrolava entre os dois irmãos.

— Compreendo... murmurou Akito Não se preocupe. A Yumi ficará bem aqui.

— Obrigado Akito! exclamou Ryoma se curvando ligeiramente Voltarei em uma semana.

Akito se aproximou do irmão e o abraçou carinhosamente.

— Tenha cuidado. disse antes de solta-lo.

Pela janela, Yumi viu seu pai se distanciando. Uma tristeza enorme tomou conta de seu coração. Sentia-se sozinha e abandonada. E enquanto olhava para a estrada, sentiu uma mão delicada roçar em seu rosto.

— Yumi-chan... chamou Akito meigamente Venha conhecer seu quarto...

No resto da manhã, ela pode conhecer toda a casa, que era enorme. Seu tio lhe dera permissão para andar em todos os cômodos, exceto o quarto dele.

— Afinal, você não quer ficar doente também, não é mesmo? brincou.

Ao meio dia em ponto, eles almoçaram. Como não havia outras pessoas na casa, ela deduziu que ele mesmo fazia todos os afazeres e prometeu a si mesma que iria ajudá-lo para pagar sua permanência ali. Quando sentaram à mesa, Yumi reparou que mesmo com o calor que fazia Akito não se desfazia da capa vermelha que vestia por cima de seu quimono.

— Não sente calor, tio Akito? perguntou ela enquanto ele colocava seu almoço.

— Não, pelo contrário. respondeu ele sorrindo Sempre estou com frio.

E a olhando diretamente nos olhos, de uma forma que a deixou apreensiva, ele perguntou casualmente:

— Você ouviu a conversa entre seu pai e eu, não foi?

Ela corou drasticamente.

— E-Eu, d-desculpe n-não q-.

— Calma. pediu ele gentilmente Não estou acusando-a de nada. Diferente de seu pai, eu acho que você tem direito de saber o que acontecendo.

Pegando a tigela de arroz que ele lhe ofereceu, Yumi pegou os ohashi e começou a comer. Como ela não disse nada, Akito serviu a ele mesmo e comeu também. Logo que terminaram o almoço, ele a convidou para dar uma volta no jardim, o que Yumi aceitou prontamente. E foi durante a caminhada que ele revelou a ela a história do clã Kaneshiro que lhe era desconhecida.

— Quando seu avô, o pai de sua mãe, morreu em uma missão, o clã Kaneshiro se viu sem seu líder mais querido. Mesmo que tradicionalmente a sucessão fosse dada de pai para filho, muitos julgaram seu tio Fuuma um incapaz de governar. Já ouviu falar dele, não? perguntou.

Ela assentiu.

— Pois bem, — continuou Akito sentando em baixo de uma cerejeira, no que foi imitado pela menina mesmo com desagrado dos demais, Fuuma assumiu. Na época sua mãe tinha dezessete anos e já namorava meu irmão, seu pai.

— Você não faz parte do clã Kaneshiro, tio Akito?

— Não. Nem seu pai fazia. Mas ainda não chegamos nessa parte da história. carinhosamente ele alisou seus cabelos — Um dia, Fuuma adoeceu repentinamente e morreu logo em seguida. Até hoje sua mãe suspeita que foi envenenamento. Mas nada foi provado. E foi ai que começou a luta pela sucessão do clã. Como sua mãe ainda era jovem demais, pelo menos foi isso que alegaram, os mais velhos começaram uma série de maquinações para tomar o poder. Isso gerou uma grande instabilidade dentro da família e levou há dezenas de mortes misteriosas.

Uma brisa cálida agitou as folhas das arvores, fazendo com que diversas pétalas de cerejeira caíssem sobre eles. Yumi ouvia tudo atenta. Aquela história era totalmente triste, mas havia realmente acontecido na sua família e isso a atraia.

— E como minha mãe se tornou líder? perguntou ansiosa.

— Quando ela fez dezoito anos, exigiu seus direitos. É claro que muitos usaram como pretexto para se opor à sucessão o relacionamento dela com Ryoma-nii-san. Então ele decidiu renegar a nossa família e casou com sua mãe adotando o sobrenome Kaneshiro para que ela pudesse liderar a família. um brilho estranho passou pelos olhos de Akito, mas Yumi não soube o definir o que era E ela acabou ocupando o cargo e impondo regras rígidas dentro do clã. Sua mãe é uma mulher forte, Yumi. Mas mesmo assim, o estrago tinha sido feito. A família estava desestruturada, perdera membros demais e creio que até hoje sua mãe tema um levante.

— E onde eu entro nessa história?

— Você é a próxima na linha de sucessão. Caso algo ocorra com você, a família fica sem herdeiros. E agora com sua mãe fragilizada, ficaria mais fácil de atingir.

Com os olhos arregalados, Yumi olhou assustada para Akito. Nunca pensara que tinha essa importância toda dentro da família. Devia ser por isso que sua mãe exigia tanto dela.

— Tio Akito... Estou com medo...

Uma expressão de desagrado surgiu na face delicada de Akito.

— Um ninja não pode sentir coisas como medo, Yumi-chan. Nem pode fracassar.

Diante do olhar triste da menina, Akito se levantou e fez um sinal para que ela o acompanhasse.

— Vamos voltar. Não posso ficar tanto tempo exposto ao sol.

Os primeiros dias que se passaram foram muito tranqüilos. Yumi descobriu que a companhia de seu tio a agradava muito e aquilo parecia ser recíproco. Como não podia se aventurar muito para fora dos jardins da casa, Yumi passava os dias treinando em frente à varanda da casa, observada por Akito que sempre elogiava o esforço da menina. Ela pretendia dominar o arremesso de Shurikens antes mesmo de entrar na academia e praticava em uma árvore.

— Estique mais o braço Yumi-chan. orientava Akito Assim ela chegará mais longe.

E ela obedecia. E sempre conseguia seus objetivos. Quando voltava à varanda, ele a abraçava e dizia:

— Boa menina. Herdou as melhores qualidades dos Sentaro. Quando você crescer, ensinarei todas as técnicas de nossa família e a encarando com um brilho de êxtase nos olhos, murmurava Você tem tudo para ser a melhor. Esforce-se!

Depois ele a fazia ler livros sobre ninjutsu e contava suas experiências como ninja até adquirir aquela doença que o fez se isolar de Konoha. À noite jantavam cedo e Akito se recolhia logo após a refeição. Como também tinha o hábito de dormir cedo, a menina não estranhou. A única coisa que ela se sentia um pouco incomodada era a forma como muitas vezes seu tio a olhava. Parecia triste e ao mesmo tempo contente por ela estar ali, e não se cansava de dizer o quanto era parecida com a mãe.

No terceiro dia de sua estadia lá, Akito perguntou se Yumi não gostaria de ir ao lago se refrescar. Prontamente ela aceitou. O dia estava agradável e Akito levara uma sombrinha tradicional na mesma cor vermelha de sua capa. Ele se sentou em uma pedra e passou a observá-la brincar na água, jogando água pra cima e nadando.

Yumi adorou a água fresca e queria que seu tio também aproveitasse para se divertir um pouco, mas ele parecia ser muito susceptível ao calor. Abanava-se freneticamente com um leque e fazia uma cara de cansaço por estar fora de sua casa.

Não havia se passado muito tempo quando Akito se levantou rapidamente e se dirigiu até onde ela estava.

— Yumi! Venha rápido! ordenou ele.

A urgência dele a assustou e Yumi correu em sua direção. Akito a empurrou delicadamente para trás dele deu dois passos para frente.

— Então a família Kaneshiro não quis sujar suas próprias mãos... comentou suavemente e sorrindo enquanto encarava dois ninjas que vinham em sua direção.

Eles não tinham a bandana de Konoha, reparou a menina. Era um emblema diferente, tinham uns riscos na diagonal e ela não pode identificá-los.

— Tio Akito, quem são eles? perguntou temerosa.

— Então aquele é o alvo? perguntou um deles apontando para a menina.

— Dois chunins para matar uma criança e um doente... Que coisa feia não? falou Akito tranquilamente.

— Quem é você? perguntou um deles.

— Sentaro Akito. falou ele cordialmente como se cumprimentasse um amigo querido.

Yumi queria correr e se esconder, mas Akito não dissera nada, não dera nenhuma ordem e parecia calmo. Quando os dois ninjas pularam em sua direção, ele soltou delicadamente a sombrinha, que foi em direção à menina, ocultando sua visão durante alguns momentos. Quando ela se livrou do objeto, empurrando para o lado, os dois ninjas já jaziam no chão caídos sob os pés de seu tio.

— Que patético... murmurou Akito.

Aquela cena ficou em sua cabeça o resto do dia. Nunca imaginara que ele fosse tão forte. Seu tio deixara os dois homens ainda vivos, amarrados e comentou casualmente que iria contatar a anbu para levá-los. Soube também que aqueles ninjas eram da Vila Oculta da Névoa e isso geraria uma forte tensão na vila.

— Mas não se preocupe. falou ele docemente Nada acontecerá a você, Yumi-chan!

Quando ela lhe sorriu, ele tocou gentilmente seu rosto com as duas mãos e murmurou:

— Boa menina.

Naquela noite, Yumi não conseguiu dormir bem. Ficava imaginando que a qualquer momento outro ninja iria entrar em seu quarto e tentar ataca-la de novo. Seu tio falara que ela não se preocupasse que a casa estava segura, mas mesmo assim tinha medo. Por isso, quando viu que não iria dormir tão cedo, se levantou e decidiu falar com Akito. Andou tranquilamente até o quarto dele, mas parou em frente à porta, temerosa. Ele devia estar dormido, pensou. E já pretendia voltar para o quarto quando ouviu um barulho dentro do quarto. Parecia um gemido, ou algo assim. A curiosidade se sobrepôs à cautela naquele momento. E mesmo estando proibida de entrar ali, Yumi corajosamente empurrou um pouco a porta e olhou para dentro.

Não havia ninguém lá. Ela estranhou. Jurava ter ouvido algo. Terminou de abrir a porta e entrou no quarto. Não havia nada de anormal lá. E caminhando pelo ambiente na busca de seu tio, tropeçou acidentalmente em algo que quase a fizera cair. Ao olhar para o chão, viu uma argola de ferro que parecia sair do chão. Yumi abaixou-se e puxou-a. Uma escada surgiu em seu campo de visão, após remover facilmente uma tampa de madeira. Os ruídos se tornaram mais fortes e ela começou a descer pelo caminho escuro. No final dela, uma luz branca e forte ofuscou seus olhos. O que viu a deixou estarrecida.

Era uma sala branca, com diversos frascos transparentes contendo partes de corpos humanos. Em um canto, diversos volumes cobertos por lençóis brancos pareciam descansar serenamente. E bem à sua frente, os dois homens que a atacaram de manhã estavam amarrados em mesas de metal e Akito trazia na mão um bisturi, com o qual cortava lentamente o primeiro deles. Todavia o mais horrível é que ele ainda parecia estar vivo.

Pensou em correr, mas Akito logo percebeu sua presença. Olhou para trás e a encarou seriamente. Colocou o bisturi em uma bandeja repleta de outras ferramentas médicas e caminhou lentamente até a pia e lavou as mãos.

— Você tem coragem... comentou ele em voz baixa.

Ele não vestia a capa vermelha por cima da roupa, que ela reparou ser totalmente diferente da que ele usava diariamente, apesar de ser totalmente negra como a outra.

— Por que está aqui? perguntou no mesmo tom.

O som da água escorrendo parecia hipnótica para Yumi. Ela apenas ficou calada, ouvindo o barulho cadenciado no metal.

— Então, me diga. insistiu Akito calmamente Eu não vou ficar zangado. Por que está aqui?

Quando a torneira foi fechada, Yumi pareceu recuperar a voz. Timidamente, gaguejou:

— E-eu n-não sei...

Akito se dirigiu até ela devagar. Seu rosto estava sereno, mas não tinha aquele sorriso bonito que ela tanto gostava. Quando ficaram frente a frente, ele levantou a mão e a esbofeteou.

Surpresa e confusa, a menina levou a mão até o rosto segurando o lugar onde ele batera. E quando o olhou novamente, teve medo. Toda a expressão serena desaparecera de sua face, que exibia um ódio profundo e um furor que jamais imaginava ver em alguém como Akito. E antes dela se recuperar, ele tornou a bater em seu rosto, dessa vez com mais força. E enquanto sua mão descia sobre a menina diversas vezes, ele gritava alucinado:

— Então você achou que podia vir até aqui e fazer o que quiser, não é?! Você é igual a sua mãe, aquela vagabunda que roubou Ryoma de nossa família! Menina má! Menina má!

As lágrimas lavavam seu rosto e ela se sentia culpada por ter desobedecido-o. Akito estava realmente furioso. E quando a menina caiu no chão depois de uma tapa mais forte, ele agarrou em seus cabelos e começou a puxá-la em direção aos homens presos.

— Eu te salvei e é assim que você agradece?! ele continuava a berrar em plenos pulmões Você quer ver? Quer?! Pois eu te mostrarei!

Cambaleando, por estar sendo puxada pelos cabelos, Yumi foi jogada em uma cadeira de metal fria e teve as mãos amarradas nela. Akito se afastou um pouco, pareceu se recuperar de seu ataque de fúria e a encarou com tristeza, tendo as mãos apoiadas na mesa de metal onde um dos homens estava preso.

— Eu pensei que podia confiar em você, Yumi-chan... disse tristemente Eu estava guardando isso para quando você ficasse maior e eu fosse te ensinar as técnicas de nossa família... Mas... Já que você está aqui...

Com um simples movimento, ele fez com que a mesa ficasse de pé. O homem estava fortemente amarrado e já trazia diversos cortes em seu corpo. Respirava com dificuldade e sua boca estava amordaçada. Akito pegou novamente um bisturi e o estômago de Yumi deu uma volta completa. Mas sua língua travara, e ela não conseguia dizer nada.

— O corpo humano é fascinante, Yumi-chan... falava ele com aquela expressão serena novamente Veja como somos frágeis e ao mesmo tempo fortes... Como o sangue flui fácil...

Lentamente ele começou a cortar o braço do homem, mostrando à menina a carne que surgia sob a pele. Fez um grande corte, de uma ponta a outra e começou a puxar a pele com uma das mãos.

O pobre homem parecia sofrendo muito e as lágrimas brotaram dos olhos de Yumi.

— T-Tio A-Akito... Pa-Pare, p-por favor...

Parando momentaneamente o que fazia, Akito a olhou aparentemente confuso.

— Por que chora por alguém que tentou te matar Yumi? Ele é apenas escória.

— M-Mas... E-Ele ta sofrendo...

Um sorriso singelo brotou na face de Akito, que recomeçou a cortá-lo.

— Você é doce como seu pai... Isso me deixa feliz...

Mas ele continuou fazendo todo processo com precisão, até deixar apenas o osso do braço a mostra. Mas o homem continuava vivo. Quando começou a abrir sua perna, Akito comentou displicentemente:

— Dei um leve sedativo, apenas para ele não desmaiar com a dor... Afinal, tenho o coração muito gentil...

Yumi assistiu, horrorizada, seu tio desmembrar o ninja da vila da Névoa, enquanto fazia comentários casuais sobre a anatomia humana. Quando seu bisturi atingiu a veia aorta do homem, o sangue espirrou atingindo sua face pálida, mas ele pareceu não se importar. Apenas comentou:

— Que pena... Ele já morreu... Espero que o outro seja mais forte...

E diante da cena grotesca, Yumi não resistiu mais e pendeu a cabeça para frente, desmaiada.

Acordou no dia seguinte em sua cama, vestida em seu pijama e abraçada com seu coelhinho de pelúcia. Olhou assustada para os lados, procurando o laboratório, o sangue e seu tio, mas tudo parecia normal. Levantou-se com cuidado, trocou de roupa e, amedrontada, passou a andar pela casa. O cheiro de comida na sala das refeições lhe chamou atenção. Ao entrar lá, Akito a esperava com a mesma roupa de sempre e com aquele sorriso meigo e bonito.

— Bom dia Yumi-chan! cumprimentou alegremente Vamos comer?

Ele não falou sobre nada do que acontecera. Na verdade, era como se nem ao menos se importasse. E quando ela perguntou timidamente:

— Tio... Sobre ontem à noite... Eu...

— Ontem à noite? perguntara ele confuso O que foi Yumi-chan? Teve pesadelos? Que pena, eu dormi tão bem!

Teria sido somente fruto de sua cabeça e do medo que sentira na manhã passada? Foi o que se perguntara durante todo o dia. Akito se comportou normalmente e voltou a ser carinhoso com ela. Era como se nada houvesse acontecido. Mas mesmo assim ela tinha medo. Medo que ele novamente batesse nela, que gritasse e fizesse a mesma coisa da noite passada. Mas ao fim do dia, ela mesma já começava a achar que tudo fora um sonho.

Quando a noite chegou e ela se deitou, procurou dominar o medo que a invadiu involuntariamente. Tudo foi um sonho, ela dizia para se mesma. Mas a dor das tapas foram tão fortes, o cheiro de éter tão intenso, as lágrimas tão desesperadas... E quando ela estava quase adormecendo, ouviu alguém abrir sua porta. Seu coração deu um salto quando Akito se debruçou sobre ela na cama e chamou ternamente:

— Yumi-chan... Venha comigo...

Sabia que não podia negar e o acompanhou cheia de medo. Logo chegaram à sala do dia anterior e Yumi viu os pedaços do ninja da Névoa em fracos transparentes, inclusive a cabeça.

— Tio... Por que o senhor fez isso? perguntou com a voz extremamente assustada.

Ele parou de caminhar repentinamente e a encarou. Depois, se baixou até sua altura. Yumi se encolheu, esperando novamente as tapas, mas sentiu lábios roçando seu rosto delicadamente.

— Por que eu te amo Yumi... E eles tentaram te machucar...

Yumi sabia que ele mentia. Sabia que existia algo mais dentro daquele corpo frágil e que ele lhe escondia. Mas ela não se importava. Não queria saber.

O ritual de desmembramento recomeçou e dessa vez ele não a amarrou. Obrigou a olhar tudo de perto, comentando a beleza do corpo humano, acariciando seus instrumentos e sussurrando maldições contra a família Kaneshiro. Quando ele ia abrir o tórax do ninja,Yumi segurou suas mãos ousadamente.

— Não tio! Não faça isso! pediu entre lágrimas.

Diferente do que ela esperava, ele sorriu. E segurou delicadamente sua mão.

— Entendi... Você quer fazer também não é? Boa menina...

E antes que pudesse impedir, Akito colocou o bisturi em sua mão e obrigou-a a cortar a carne do homem deitado na mesa de metal que estava novamente na vertical. Ela chorou, esperneou, tentou tirar sua mão e ele apenas ria e a segurava com força perto dele. Numa tentativa mais ousada de se livrar do tio, Yumi puxou a mão violentamente. Akito soltou a mão dela sorrindo. Yumi viu, horrorizada, quando sua mão involuntariamente cortou profundamente o ventre do homem, fazendo com que ele soltasse um gemido forte e suas víceras caíssem no chão sob seus olhos infantis. Akito começou a rir agradavelmente e comentou:

— Você o matou Yumi... Boa menina!

E a abraçou ternamente.

A sua estadia se tornou um inferno. Durante o dia, Akito tratava-a normalmente, até com mais doçura que antes. E durante a noite, obrigava a fazer todo tipo de inumanidades em cadáver e em pessoas vivas também. Yumi descobriu que as crianças sumidas de Konoha que seu pai comentara fora trabalho dele, e que Akito achava que não fazia nada demais ao capturá-las e mata-las. Justificava seus atos dizendo ser tudo pelo bem da ciência. Fazia experimentos na tentativa de achar uma cura para sua doença. Era algo degenerativo, e que atacava todo sistema nervoso.

— Estou morrendo Yumi-chan... dizia ele Mas não se preocupe, não é genético... Você não morrerá sofrendo como eu. e abraçando ela com as mãos sujas de sangue acrescentou Você ficará comigo, não é? Para sempre...

Ele também a ameaçava muitas vezes, dizendo que ela era sua cúmplice e que caso contasse aquilo para alguém, ela também pagaria. Akito a impôs todo tipo de abuso mental que uma criança poderia sofrer, amedrontando-a, subjugando sua vontade com palavras ora duras, ora tenras, proferindo bênçãos e maldições e a abraçando no final, dizendo o quanto a amava.

No dia marcado para seu pai busca-la, Yumi o esperava com angústia. Em nenhum momento Akito dissera o que faria com ela, e até mesmo comentava alegremente que sentiria sua falta. E quando Ryoma cruzou o portão, a menina sentiu alívio e vergonha.

— Yu-chan! cumprimentou ele feliz, abraçando-a.

Yumi teve vontade de vomitar quando recebeu o carinho do pai. Não se sentia digna dele.

— Ryoma-nii-san! falou Akito alegremente Como está o bebê? E como se chama?

— Bem, graças a Deus. Ele se chama Yuki. Voltará em breve para casa com a mamãe. e ele soltou Yumi de seus braços Minha missão já foi concluída, levarei Yumi para casa.

Possessivamente, Akito a abraçou por trás. Ryoma se surpreendeu com a expressão que seu irmão mostrou na face pálida.

— Não a leve agora, por favor. pediu ternamente Eu estive tão só durante tanto tempo, que a presença de Yumi foi muito importante para mim. Até sinto que melhorei de minha doença com sua companhia...

O pânico se instalou na menina. Então era isso! Ele não permitiria que ela saísse daquela casa.

— Mas Akito contestou ele Yura sente falta da Yumi, e além do mais, não queremos incomodá-lo.

— Não é incomodo. E a Yumi adora isso aqui, não é Yumi?

A forma como ele a olhou sugeria claramente que ela devia concordar. Era como se Akito já dominasse seu espírito e ela não pode negar, por mais que dentro de sua alma, se debatesse freneticamente.

— Sim... murmurou Gosto de ficar com o tio Akito...

— Bem, já que é assim não vejo problema. — falou Ryoma aliviado — E além do mais, devo receber outra missão ainda hoje. Mais crianças desapareceram e somente um grupo da anbu não é suficiente para a investigação...

O coração de Yumi deu um pulo. O que seu pai diria se soubesse que o próprio irmão matara todas aquelas crianças? Mas Akito não parecia temeroso, muito pelo contrário. Sorriu gentilmente e falou:

— Espero que tenha sorte nas buscas, meu irmão...

Ryoma foi embora, deixando Yumi desolada. Por que não conseguira dizer tudo que acontecera ao seu pai? Por que não gritava que o assassino das crianças era Akito? Por que simplesmente baixara a cabeça diante dele? Seu tio parecia saber a resposta. Logo que anoiteceu, sussurrou em seu ouvido, diante de mais um corpo infantil:

— Você também me ama Yumi. E ficará para sempre comigo. Todo o sempre. Irei te arrancar dos braços de sua mãe do mesmo modo que ela arrancou meu irmão de mim... Sou o ultimo dos Sentaro, sabia? Por causa dela...

— Por isso você odeia minha mãe, tio? perguntou ela sem conseguir conter as lágrimas Só por que o papai a escolheu e não a você?

Mais uma vez Akito a esbofeteou, e pegando um bisturi, fez um grande corte em seu ombro. O grito de Yumi ecoou dentro da sala fria e ele começou a espancá-la freneticamente.

— Ele não a escolheu! berrava enquanto batia na menina Ela o obrigou a abandonar todos nós! Nossa pobre mãe morreu de desgosto! O nii-san sempre vinha nos visitar até que aquela prostituta engravidou de você! ele parou abruptadamente de bater nela e então a abraçou serenamente Me perdoe meu amor! A culpa não é sua por ter uma mãe tão má... Eu te amo, viu? Te amo muito.

Não havia mais escapatória. Cada dia que se passava Yumi se via envolvida nos tentáculos de Akito. E ele não estava disposto a abrir mão dela. Estava transformando-a naquilo que ele queria, no que desejava. Mas quando fazia quase um mês que estava lá, seu pai retornou. E dessa vez veio decidido.

— Perdoe-me Akito. Tenho que leva-la.

Para sua total surpresa, ele permitira sua ida. Até arrumou suas malas e deu doces para que não sentisse fome na caminhada de volta à vila. E quando abraçou fortemente, sussurrou em seu ouvido:

— Lembre-se de manter nosso segredo... Não demorarei a buscá-la...

Voltar para casa não foi um alívio, e sim um suplicio. Esperava a cada momento que alguém apontasse o dedo para ela e dissesse que ela havia feito coisas horríveis e devia ser punida. Ficou assustada também de como sentia prazer em ver sangue também. Descobrira isso depois que cortara acidentalmente com uma faca de cozinha, enquanto ajudava seu pai a preparar o almoço. Ficara olhando o sangue escorrer pela mão calmamente até seu pai perceber e rapidamente lhe fazer um curativo, alertando-a a ter mais cuidado com as facas.

Yura logo notou todas as diferenças da menina e a chamara para uma conversa. Apesar de não poder sair do quarto ainda, a mulher fazia questão de comandar o clã de sua cama, segurando o filho recém nascido no colo. Logo que a menina entrou, perguntou sem rodeios:

-Aconteceu algo na casa de Akito que você queira me contar, Yumi?

A menina pensou que fosse ficar sem voz, tremer e gaguejar. Ou começar a chorar, pedindo perdão de joelhos. E ficou bestificada quando sua voz saiu calma e tranqüila:

— Não mamãe. Nada aconteceu.

— Tem certeza? insistiu ela.

— Tenho. afirmou firmemente.

Nada mais foi dito. Mas naquela noite, sem saber por que, Yumi se levantou de sua cama e caminhou até a varanda, como se esperasse algo. E não ficou surpresa ao ver Akito parado no portão, esperando-a. Caminhou até ele sem medo, e aceitou a mão que lhe foi oferecida.

— Eu sabia que você iria querer ficar comigo de novo... Boa menina... murmurou ele.

Akito a levou de volta à sua casa. Yumi não se importou quando ele prendeu seus braços na mesa, do mesmo modo que fizera com os ninjas da Nuvem e com as outras crianças. E quando ele arrancou sua blusa, sabia o que ele faria.

A dor veio aguda e dilacerante. Akito cortava seu peito da mesma forma com que fizer antes, só que com mais calma como se a acariciasse. O sangue fluía de seu corpo lentamente, enquanto ele movimentava o bisturi como se não pudesse haver coisa mais prazerosa que ver a expressão de dor naquela face delicada.

Os ultimo fios de razão de Yumi se romperam quando Akito retirou uma parte de sua pele e se inclinando sobre ela, beijou seu testa delicadamente, murmurando:

— Sempre a amarei, Yumi.

A porta foi aberta de forma violenta, mas ela só ouviu o som de pessoas de atirando sobre seu tio e a voz aflita de seu pai, que gritava:

— Akito! Como pode ter feito isso Akito!

Mas sua consciência foi abafada pelas sombras que se instalaram em sua alma. E ela gritou. Gritou por Akito, repetindo todas as maldições que ouvira ele pronunciar, todas as palavras de ódio contra sua família, todas as juras daquele amor doentio dele e chorou. Chorou copiosamente antes de desmaiar.

*********

Tudo que os ninjas médicos fizeram por Yumi fora em vão. Ela parecia ter perdido completamente a razão. Mesmo enfaixada e sentindo dores por todo corpo, devido a imensa extensão dos ferimentos, ela se debatia freneticamente a cada pessoa que entrasse no quarto, se rasgava com as próprias mãos, chamando pelo tio que fora preso pela anbu, acusado de assassinato, torturas e ocultamento de informações. Para impedi-la de prejudicar-se mais a si mesma, Tsunade ordenou que a mantivesse dopada e amarrada à cama.

À pedido da Hokage, o caso permanecia em sigilo, para preservar a segurança de sua família. Estando a par do que acontecia dentro do clã, sabia que aquela informação sobre a loucura de Yumi apenas serviria para fazer ressurgir a guerra dentro da família, e que isso com certeza provocaria a extinção dos Kaneshiro.

Todavia, quem mais sofria com essa situação eram Yura e Ryoma. Ajoelhado, com a testa no chão do quarto onde estava sua filha, ele não cansava de pedir perdão à sua esposa:

— A culpa foi minha! disse ele novamente entre lágrimas Eu devia ter percebido! Devia saber que o Akito estava mal, que aquela doença debilitava não só seu corpo, mas sua mente também!

— A culpa não é sua, querido... murmurou Yura com o semblante cansado enquanto embalava o filho mais novo Não há outro culpado se não eu... Com toda minha arrogância e desejo de ser líder do clã, acabei impondo a você uma condição absurda para ficar comigo... Você negou sua família... Negou seu sangue... Apenas por um capricho meu...

— Eu sempre te amei, Yura disse ele levantando a cabeça e olhando-a nos olhos Negaria tudo outra vez para fica do seu lado...

As lágrimas dela foram inevitáveis. Ryoma a abraçou consolador, mas sem saber o que dizer. A sua primogênita jazia naquela cama, sem nenhuma chance de recuperação mental, e com o corpo parcialmente mutilado por causa de seu irmão. Sentiu um ódio sem precedentes dentro dele.

— O que faremos Ryoma? perguntou Yura desesperada.

— Talvez você mesma tenha a solução Yura. disse uma voz.

Tsunade entrou no quarto e se encaminhou até eles. Já fazia três dias que ela pensava no caso e estava cada vez mais difícil ocultar das outras pessoas o que tinha acontecido. Havia apenas um ano que o Sadaime tinha sido assassinado e não podia se arriscar a ter um confronto civil em Konoha. A vila ainda passava por dificuldades.

— Tsunade-sama. murmurou Yura fazendo uma reverência.

— Yura começou a Hokage Você domina a técnica de Selamento Divino, ou estou errada?

— Técnica de Selamento divino? murmurou Ryoma confuso.

Um brilho de esperança surgiu na face de Yura quando ela assentiu.

— Sim, eu domino. e se voltando para o marido explicou — O Selamento Divino é uma técnica proibida, criada pelo meu bisavô, o Nidaime, que é passada a cada sucessor do clã. Foi um dos motivos por que eu pude assumir a liderança, pois meu pai havia me ensinado antes de falecer.

— E como é essa técnica? perguntou.

— Consiste numa técnica extremamente complexa, que só pode ser usada mediante o sangue de nossa família. Com ela, podemos selar todo tipo de habilidade ninja, por mais forte que ela seja, uma linhagem ou até mesmo uma memória. aqui ela deu uma pequena pausa ao ver a expressão de seu marido se iluminar — Aquilo que selamos é totalmente apagado, ou parcialmente esquecido. A diferença fundamental entre essa e outras técnicas é quando ela é aplicada em elementos e linhagens.

Ela caminhou até a beira da cama de sua filha e continuou:

— Se eu lacrar seu elemento, você jamais poderá usar um justus que o exija. Se lacrar sua linhagem, você não poderá utilizá-la, nem transmiti-la geneticamente aos seus descendentes. E se eu lacrar suas lembranças, poderei apagar um evento de sua mente, ou modificar-lo de acordo com minha vontade...

— Mas ela é muito perigosa falou Tsunade séria Pode incapacitar permanentemente quem usa ou quem é alvo. Por isso, precisa-se da autorização do Hokage para executá-la... Exige sangue, e um controle perfeito de chakra. Eu mesma não poderia fazer, mesmo tendo a condição do sangue. O pai de Yura e eu éramos primos em segundo grau. Mas eu jamais me atreveria a usá-la.

— Então... falou Ryoma esperançoso.

— Eu permito que você utilize-o em Yumi. disse Tsunade por fim olhando para Yura.

*********

Akito estava preso pelas mãos quando Ryoma entrou. Mesmo diante do olhar de ódio que ele lhe lançou, o prisioneiro sorriu meigamente.

— Ryoma-nii-san... murmurou ele.

— Como você pôde fazer isso com minha filha, Akito... sussurrou Ryoma cheio de ódio Como pôde?

— Por que eu a amo, e a queria pra mim...

— Mentira! gritou Ryoma esbofeteando-o Você quis atingir Yura! Admita Akito!

Um sorriso demente se apossou do rosto delicado.

— Se já sabe a resposta, por que me pergunta Ryoma-nii-san?

— Queria ter certeza antes de matá-lo...

Puxando sua espada anbu, Ryoma mirou o pescoço do irmão, que não parecia abalado. Pelo contrário, manteve o sorriso enquanto falava aquelas que seriam suas últimas palavras:

— Mate-me irmão. Mate o último Sentaro. Assim não serei tragado pelas garras dessa doença maldita que me aflige! Mas não esqueça que meu fantasma sempre rondara Yumi, até que eu possa tomá-la novamente para mim...

Com um único golpe, ele separou a cabeça do tronco do seu irmão. O barulho que ela fez caindo no chão chamou a atenção de outros anbus.

— Kaneshiro-san! exclamou um deles Você não tinha permissão de vir até aqui e... foi então quando ele percebeu o corpo decapitado de Sentaro Akito Você enlouqueceu Kaneshiro-san? Além de matar seu único irmão, assassinou um prisioneiro sem a permissão da Hokage!

— Isso não importa mais... murmurou ele antes de sair.

********

A própria Yura prendeu os grilhões nos braços de Yumi. Ela devia estar fortemente amarrada, ou sairia do círculo que a mãe formara com seu próprio sangue. O pulso dela ainda sangrava quando lentamente fez todos os símbolos no corpo da menina e depois em seus próprios braços. E, ignorando os gritos de Yumi que chamava por Akito, ela começou um invocamento.

— Água eterna, primeiro selo! exclamou colocando as mãos no chão.

As palavras escritas em seus braços ganharam vida e se misturaram àquelas do círculo embaixo de Yumi. Elas dançavam resplandecendo como se esperassem sua ordem. Fazendo um selo com as mãos, Yura continuou:

— Água eterna, segundo selo!

As letras rubras rodopiaram e se dirigiram até a cabeça de Yumi, e pararam como se esperando a próxima ordem. Respirando fundo, Yura sabia que havia chegado à pior parte.

— Água eterna, terceiro selo!

Mesmo que já esperasse por aquilo, o grito de Yumi quase a fizera perder a concentração. As palavras começaram a pressionar a cabeça da menina, como se quisessem parti-la em duas. Yumi sentia como se houvesse presas sendo enfiadas sem dó em seu cérebro. Sua cabeça ardia e queimava, e ela se debatia entre as correntes de seus braços, tentando fugir daquela dor. As lágrimas rolavam de sua face, enquanto uma grande escuridão encobria seus pensamentos. E tão repentinamente quando viera, a dor parara. Seu corpo frágil pendeu para frente, inanimado.

Yura não pode ver os resultados imediatos de seu esforço. Estava debilitada física e mentalmente. Quando o brilho vermelho parou, ela pode relaxar e imediatamente desmaiou.

******

— Deu tudo certo Ryoma. comunicou Tsunade em sua sala no dia seguinte Yura já esta medicada e passa bem. Yumi também acordou e a primeira coisa que perguntou foi se o irmãozinho já havia nascido.

— E sobre o que aconteceu...

— Nenhuma lembrança. disse a Hokage Nem mesmo lembra que Sentaro Akito tenha existido. Foi um selamento perfeito.

Ryoma suspirou aliviado. Tinha sua família de volta e isso era o que importava.

— Mas e quanto aos ferimentos? Como explicaremos a ela? perguntou ele preocupado. — Aquilo deixará marcas profundas e que não poderão ser apagadas...

— Acidentes acontecem. sentenciou Tsunade.

Mesmo feliz com o andamento de tudo, ele sabia que não estava ali apenas para ouvir boas noticias. E já se preparara para isso.

— E quanto a mim, Tsunade-sama?

Seu tom era pesaroso, mas não arrependido.

— Entendo seus sentimentos, mas não posso aceitar seus atos. Você está sendo afastado definitivamente da anbu e voltará a fazer missões somente como Jounin.

************

Yumi acordou repentinamente sentindo uma dor muito forte na cabeça. Tivera um pesadelo horrível, sabia disso. Quando levou as mãos à cabeça, percebeu que a dor escapava por entre os dedos.

— Você está bem Yumi?

A garota se surpreendeu ao ouvir a voz de sua mãe ao seu lado. O quarto estava escuro e ela não pudera ver inicialmente que havia alguém sentado ao seu lado. Sentou-se rapidamente da cama, olhando para os lados assustada.

— Onde estão Makoto e Suzumi? perguntou aflita O que aconteceu?

— Calma. pediu Yura tenramente Vocês todos foram salvos por Hyuuga Neji. Veja. e afastou o biombo do lado de sua cama, revelando mais dois leitos, onde descansavam seus amigos.

Yumi relaxou e deitou-se novamente. Sua mãe ofereceu uma maçã que ela aceitou prontamente.

— Você ficou desacordada por quase três dias revelou ela.

E sentindo uma vergonha terrível, Yumi pediu entre lágrimas:

— Perdoe-me mamãe! Eu falhei como líder!

Yura passou delicadamente a mão em seu rosto.

— Não, não falhou. Eles estão vivos graças a você. Ouvi os elogios de toda equipe de resgate, inclusive de Hatake Kakashi. Estou orgulhosa.

Diante daquelas palavras, Yumi se atirou nos braços de sua mãe.

— Obrigada mamãe... Por ter orgulho de mim...

Yura correspondeu ao abraço com carinho. Não havia nada que quisesse mais que o bem de sua menina. Por isso ainda havia algo que a incomodava.

— Diga-me Yumi pediu ela Por que você acordou tão assustada? Pensando nos seus amigos?

Yumi se soltou dos braços da mãe e a olhou profundamente.

— Não... Foi aquele pesadelo de novo...

O coração de Yura se apertou, mas ela não demonstrou nada.

— E você lembrou dele? perguntou ela mesmo sabendo qual seria a resposta.

— Não... Como sempre, não lembro de nada...

Mesmo após cinco anos, Yura ainda se impressionava quão profundo Akito se instalara na mente de sua filha. Mesmo sendo um selamento considerado perfeito, as lembranças ainda voltavam à mente de Yumi durante o sono quando a menina era exposta a situações estressantes. Yura ainda temia que, um dia, elas voltassem à mente dela. Se ela tivesse coragem, seria capaz de fazer um segundo selo, mas não ia arriscar a filha daquela forma. Mas uma coisa a deixava tranqüila. Desde que Uzumaki Naruto assumira o Time três, os pesadelos de Yumi diminuíram consideravelmente. Ainda o agradeceria por aquilo. Talvez pedisse a Ryoma fazer um prato especial e o convidasse para o jantar.

— Cadê o papai? perguntou Yumi enquanto comia a maçã.

— Em casa com Yuki. Mas ele virá logo que amanhecer.

— Quero comer sushi quando chegar em casa... pediu a garota.

— Claro querida! Papai terá prazer em preparar.

Apesar de tudo, pensava Yura, no final tudo fora melhor do que ela esperava para seu futuro. Conseguira acabar com as intrigas do clã, salvar sua filha, e apesar de Ryoma ter sido expulso da anbu, ele não parecia sentir falta de lá, muito pelo contrário. Ele assumira a função de dono-de-casa, já que a mulher não tinha tempo de realizar aqueles afazeres. E quando viu Yumi sorrir abertamente para o irmãozinho quando ele fora visitar-la naquele dia, soube que havia horas em que um cargo era o que menos importava.

E também pensou se aproximando da cama Não existe nada melhor do que cuidar das pessoas importantes para nós.