O Tempo e a Esperança

34 História Extra IV


História Extra IV

— Ei, quando eu saio daqui? – perguntou Suzumi chateada.

— Em breve. – respondeu Sakura sorrindo diante do mau humor da paciente, enquanto ela fazia um novo curativo em sua barriga.

— “Em breve, em breve”! – resmungou menina. – Você me diz “em breve” desde que cheguei aqui... Tô de saco cheio! Quero ir pra casa!

— Se consegue falar desse jeito é por que já esta curada! – falou dando umas tapinhas em cima do curativo.

Suzumi não achou graça da piada e fez uma cara feia para Sakura, que apenas riu e foi até onde estava Makoto. Desde que chegaram em Konoha três dias atrás, estavam internados no hospital, sendo constantemente examinados, medicados e chateados. Ainda lembrava o alvoroço que foi logo que chegaram. Cada um deles foi encaminhado para uma sala de cirurgia. O seu caso foi o menos grave. Teve duas costelas quebradas que foram facilmente reparadas. O problema foi que uma dessas costelas perfurara seu fígado de tal forma que quase o partira em dois. Por isso tiveram que remover um pedaço dele.

— Fígado regenera! – dissera Tsunade sorrindo para ela após a cirurgia.

E por isso ainda estava ali, para que pudessem ver que ele se regenerava numa velocidade maior, e estava empurrando dezenas de remédios goela abaixo, e sempre fazia uma briga para tomá-los. Ela não agüentava mais. Seus irmãos estavam sozinhos em casa, provavelmente tudo estava bagunçado e quem ia colocar ordem em tudo era ela. Apesar de Shunsui já dar conta de algumas obrigações, preferia ela mesma faze-lo.

Na cama ao lado, Sakura examinava Makoto. Os olhos dele continuavam enfaixados e sua mão esquerda também. Como ele era canhoto, com a mão quase inutilizada no primeiro dia, teve que ser alimentado e sempre que precisava ir ao banheiro, outra pessoa tinha que ir. O mau humor dele estava no mesmo nível do dela, com o agravante que ele mal falava e se limitava a responder tudo com monossílabas.

— A mão ainda dói muito? – perguntou Sakura mexendo cuidadosamente os dedos do menino.

— Não muito. – murmurou ele.

— Vamos tirar as bandagens de seus olhos daqui a pouco para um novo exame. Mas não precisaremos colocar novamente, se tudo der certo! – a médica tentava animar o menino, mas ele não parecia disposto a cooperar.

Depois que Sakura se levantou, Suzumi passou a observar seu colega. O que ele estaria pensando nos últimos dias? Como mal abria a boca, nem mesmo para responder aos seus insultos, imaginava que Makoto estaria preocupado com relação aos seus olhos. Pelo que entreouvira nos corredores quando fora aquela manhã no banheiro, o veneno que o atingira era forte. Ele não ficaria cego, mas talvez tivesse seqüelas. E vendo-o sentado na cama, tão calado e sério, imersos em seus próprios pensamentos, Suzumi sentiu uma palpitação diferente no peito. Por um momento quis dizer alguma coisa, consola-lo, até abraçá-lo...

— Por que está olhando fixamente pra mim Suzumi? – perguntou Makoto sem mover a cabeça.

“Que porra é essa que eu to pensando?!” pensou horrorizada. E deu graças pelos olhos dele estarem enfaixados e não poder ver seu rosto se avermelhar. Começou a rir para esconder o nervosismo repentino que a invadiu.

— Só olhando sua cara de múmia! – falou num tom exageradamente alto – Parece até que vai ser embalsamado!

Makoto fez um barulho com a boca, mas não respondeu. Ele não se sentia bem o bastante para brigar. Em breve voltaria para casa. Como iria explicar para Takeshi-sama que ele perdera o controle do jutsu que ele ensinara e que quase perdera a mão por isso? Ele iria ficar tão decepcionado, e esses pensamentos lhe doíam mais que os insultos de Suzumi. E tinha seus olhos também. Eles não ardiam mais, nem coçavam, mas ainda assim os mantinham enfaixados. Sabia que lhe escondiam algo.

Enquanto estava perdido em seus pensamentos, sentiu uma mão acariciar seus cabelos. E se surpreendeu ao reconhecer os batimentos de Suzumi sentada em sua cama.

— Não se preocupe Makoto! – falou ela alegremente – Logo, logo você fica bom!

Makoto sentiu o rosto queimar diante dessas palavras.

— Obrigado... – murmurou grato, mas encabulado por sentir que gostaria de ver o rosto dela sorrindo.

— Não vai demorar e você vai poder bater “uma” novamente com essa mão! – gracejou a menina.

Toda gratidão que ele sentiu pela preocupação dela se foram diante da piada de tanto mau gosto, e ele começou a gritar com ela, iniciando uma briga. Suzumi voltou para sua cama satisfeita. Makoto tinha que colocar pra fora tudo que o afligia. E passou a responder os insultos dele.

— Isso é um hospital, façam silêncio.

A voz de Yumi reboou nos ouvidos dos dois como se fosse um trovão. Mesmo sem gritar, o tom de sua voz era sempre grave, parecido com o da sua mãe. Por isso que, quando ela falava sério, soava tão assustadora, que eles não hesitavam em obedecer. E diante do silêncio que se seguiu das palavras da garota, Sakura sorriu.

— Obrigada Yumi. – agradeceu – E agora, vamos mudar essas bandagens?

Sakura puxou o biombo e encobriu a garota deitada da vista de Suzumi. Mesmo tendo apenas eles no quarto e Makoto não poder ver, a garota sabia que sua amiga tinha vergonha de se mostrar. Também pudera, as marcas horrendas que ela tinha no peito não era algo bom de exibir. Suzumi sabia daquelas cicatrizes por que, sendo amiga de muito tempo de Yumi, notara que ela sempre andava muito coberta, mesmo no verão. A garota explicara que as cicatrizes eram frutos de um acidente na sala de armas de seu pai, mas que fazia tanto tempo que ela não lembrava. E somente uma única vez pudera conferir de perto o porquê do medo da menina de se mostrar, quando sem querer a vira trocar de roupa na academia.

Quando terminou todos os exames daquela manhã, Sakura avisou antes de sair do quarto:

— Acho que poderei liberar vocês no fim do dia!

O grito de felicidade de Suzumi foi ouvido até do outro lado do hospital. Ela realmente não gostava dali.

***********

As enfermeiras cochichavam sobre sua beleza, mas aquilo não o incomodava. Dirigiu-se com elegância até o balcão da recepção, e perguntou numa voz suave:

— Quarto de Otori Makoto?

A moça perdeu o fôlego diante daquele rosto afilado e gentil. Os olhos negros a observavam com um interesse peculiar, esperando sua resposta. Sabia que não estava diante de qualquer pessoa. O quimono elegante que ele usava, prenunciava que o rapaz à sua frente pertencia à nobreza de Konoha. Por isso, ela gaguejou um pouco antes de responder:

— Q-Quarto 332, senhor.

Ele apenas sorriu, mas não agradeceu. E quando já estava no corredor, ouviu nitidamente as palavras da garota;

— Quem será ele?

— Deve ser alguém muito importante... E é tão lindo! – respondeu a outra.

Ele sorriu enquanto caminhava em direção ao quarto. Era impressionante o que as pessoas falavam quando não sabia que estavam sendo ouvidas.

****************

Após o almoço, Yura penteava os cabelos da filha carinhosamente. Sendo muito espessos e lisos, os cabelos de Yumi eram fáceis de serem cuidados, mas fazia questão de somente ela poder penteá-los. Ryoma sempre ria e dizia ser ciúme de mãe, mas a verdade é que, se alguém olhasse bem o couro cabeludo de Yumi, veria as marcas do selamento que fora feito nela. Como o objetivo havia sido lacrar lembranças, o selo se pôs por baixo dos cabelos, o que para ela fora um alívio. Incentivara a menina a deixar o cabelo crescer e com isso era praticamente impossível de vê-lo se não fosse bem de perto e enquanto o penteava.

— Você quer que eu faça uma trança ou um rabo de cavalo? – perguntou ela à filha.

— O de sempre. – pediu Yumi.

Sorrindo, Yura prendeu o cabelo da filha em um rabo de cavalo e colocou um belo laço branco nele.

— Pronto agora você pode se sentir um pouco melhor, né?

— Obrigada mamãe!

Yura sorriu e olhou para Suzumi que as observava. Logo que percebeu que a mãe de sua amiga a encarava, a garota desviou a vista. Mesmo sabendo que não devia pensar naquelas coisas, sentia um pouco de inveja de Yumi, por ter uma família tão bem estruturada. Perguntava-se o que sua mãe estaria fazendo se tivesse condições de participar daquele momento de sua vida. Será que ela também pentearia seus cabelos? A visitaria?

— Quer que eu lhe faça uma trança, Suzumi-chan? – perguntou Yura sorrindo.

— Não precisa. Mas obrigada pela preocupação, Yura-san.

Makoto imaginava o quanto deveria ser difícil para Suzumi ver cenas como aquela. Na verdade, mesmo há quase um ano juntos, em nenhum momento ouvia ela falar dos pais, e só soubera da história dela por que Yumi lhe contara. E foi por isso que decidira sempre participar dos “acampamentos”. Mas sabia que não estava em situação melhor. Tinha seus pais sim, mas eles eram sempre tão distantes dele...

Ainda estava perdido naqueles pensamentos, quando ouviu alguém abrir a porta. Aquilo o assustou um pouco. Estivera desde cedo prestando atenção naquele corredor, se preparando para uma possível visita de seu pai. Queria estar ciente de sua vinda, caso ele resolvesse aparecer, por isso ouvia todos os passos ecoados no soalho. Mas quem quer que tenha entrado, conseguia caminhar sem fazer barulho nenhum.

O coração de Makoto imediatamente se acelerou. Aquilo só significava uma coisa.

As meninas olharam instintivamente quando a porta foi aberta. Mas se surpreenderam ao ver que não conheciam aquela pessoa. Ele era alto, vestia um quimono elegante que combinava perfeitamente com as feições suaves e gentis de seu rosto. O cabelo era negro, e impecavelmente penteado. Era realmente um homem bonito. Muito bonito.

Yura observou o homem entrar na sala sem fazer nenhum barulho ao andar, com um olhar surpreso nos olhos. Yumi percebeu a perplexidade de sua mãe e perguntou baixinho:

— Você o conhece, mãe?

Ela afirmou com a cabeça.

O homem parou em frente à cama de Makoto. E quando menos elas esperavam, ele se atirou sobre o garoto, o abraçando fortemente.

— Makoto-kun!!! – exclamou ele alegremente – Eu estava morrendo de saudades!!! – enquanto falava, o homem apertava muito o menino que adquirira uma cor escarlate na face.

— Takeshi-sama... – murmurou o menino encabulado – Tá apertando demais...

“Então esse é o tal Takeshi-sama?!” pensou Suzumi horrorizada enquanto Takeshi abraçava repetidamente Makoto, sorrindo abertamente e brincando com os cabelos do garoto. “Ele é tão... alegre...”.

Takeshi soltou Makoto ao perceber que ele já ficava sem fôlego, mas apertou com ambas as mãos as bochechas do garoto, puxando-as carinhosamente e sorrindo como um pai quando quer perturbar o filho.

— Tadinho do meu menino! – exclamou ele – Tão machucado! Mas não se preocupe, estou aqui para salva-lo! – falou com sorriso brincalhão nos lábios, mas sabendo que o garoto estava louco para sair dali.

Makoto tentou falar alguma coisa, mas com as bochechas sendo impiedosamente puxadas, não pode dizer nada além de algumas palavras incompreensíveis:

— phgsdhbaifhdncdhudfhfncn...

— Hã? Não estou entendendo Makoto-kun! – e soltou carinhosamente as bochechas do menino.

— Takeshi-sama... – murmurou o garoto alisando o rosto dolorido – O que faz aqui?

— Não ficou contente em me ver? – perguntou Takeshi surpreso.

— Não é isso! – apressou-se Makoto em dizer – É que... O senhor tem tantas obrigações... Não devia deixar o clã só por minha causa... – Mas era totalmente perceptível que o menino estava muito feliz por ele estar ali.

— Ah, não se preocupe com isso! – respondeu ele abanando a mão displicentemente – Eu fiz questão de vir pega-lo.

— Me pegar? – estranhou o menino.

— É! Achei estranho que você ainda não havia ido me visitar mesmo tendo voltado da missão, afinal você nunca deixa de fazê-lo. – disse com um tom que misturava preocupação e contentamento; preocupação por ele não ter aparecido e contentamento pela existência daquele costume que tanto o agradava. — e quando perguntei para Masami, ele me disse que você estava internado aqui... – o tom que Takeshi usou soou um pouco descontente, como se ele tivesse ficado aborrecido com o pai do menino por não ter contado a ele antes, deixando bem claro em sua expressão que queria ter estado ali desde o primeiro dia – Mas, deixe-me ver seus olhos!

Enquanto as meninas observavam boquiabertas, Takeshi simplesmente tirou os curativos que Sakura havia feito no menino. Sem as bandagens, Makoto abriu lentamente os olhos se acostumando com a luz e olhou para o líder do clã, que sorria para ele.

— Bom muito bom! – exclamou Takeshi.

No momento que entrou no quarto para verificar os pacientes, Sakura notou a presença de alguém que não conhecia. Era um homem muito bonito que, sentado na cama de Makoto, não parava de assanhar os cabelos do menino e abraça-lo. Reparou também que Makoto estava sem as bandagens nos olhos.

— Makoto! – entrou ela reclamando – Você tirou o curativo sem minha permissão?

— Fui eu quem tirei. – disse Takeshi calmamente.

— E o senhor seria... — Sakura indagou arqueando a sobrancelha.

— Otori Takeshi. Prazer. – cumprimentou displicentemente sem ao menos olhá-la.

Sakura prendeu a respiração. Sasuke já lhe falara sobre o líder do clã Otori e de todo o mistério que cercava o clã. E agora estava diante desta ilustre figura, e não imaginara que ele fosse tão sorridente. Impressionava-se também pelo fato dele ser muito novo. Não devia ter mais que vinte e cinco anos.

— Otori-sama – falou a médica calmamente – Não devia ter tirado as bandagens do Makoto assim, ainda vamos fazer muitos...

— Claro que precisava! – cortou ele sorridente – Como vou levá-lo de volta para o clã se ele não puder ver o caminho?

— Levá-lo? – estranhou a médica – Mas eu ainda não dei alta a ele!

Takeshi se virou lentamente para ela. Todos os presentes na sala puderam sentir a aura de poder que emanava dele. Mesmo acostumada a lidar com pessoas difíceis, Sakura se assustou diante do olhar frio que o líder dos Otori lhe dirigiu. E quando ele falou, sua voz soou baixa e contundente:

— Não me lembro de ter pedido autorização, Haruno Sakura. – e depois voltou sua atenção para o menino ajudando-o a se levantar.

Yumi se impressionou como uma pessoa podia se mostrar tão simpática e depois tão ameaçadora, como Takeshi acabara de fazer. Olhou para Sakura e viu que ela exibia um vermelho intenso na face. Mas parecia não ter desistido.

— Otori-sama, podemos conversar um momento? – pediu educadamente.

Takeshi pensou um pouco.

— Claro! – e se dirigindo a Makoto, acrescentou – Enquanto falo com a Haruno-san, arrume suas coisas ta? – disse casualmente, como se não pretendesse considerar nada do que a médica poderia lhe dizer.

— Sim senhor. – respondeu prontamente Makoto, se mostrando bastante feliz com um sorriso estampado no rosto.

E Takeshi acompanhou Sakura até o lado de fora da sala. A médica suspirou um pouco e começou:

— Entendo sua preocupação Otori-sama, mas devo dizer que não posso deixar Makoto ir para casa antes de examiná-lo pelo menos mais uma vez.

— Temos médicos excelentes no clã Otori, Uchiha-san. – disse ele sarcasticamente ao pronunciar o sobrenome.

Sakura se surpreendeu ao ouvir Takeshi pronunciar o sobrenome de Sasuke ao se referir a ela. Afinal, mesmo já estando morando com seu namorado, eles ainda não haviam oficializado nada e poucas pessoas sabiam disso. Fazia somente três dias que ela tinha se mudado. Ela pode perceber também um tom de desaprovação no modo que ele pronunciara aquele sobrenome.

– Makoto será cuidado por eles lá, onde seria o certo desde o princípio. – continuou Takeshi de certa forma menosprezando o tratamento dali. — Quando soube que ele estava aqui, apenas permiti que ele fosse examinado por respeito à pessoa de Tsunade-sama que é uma exímia médica. Mas agora, vou levá-lo de volta. – Disse ele peremptoriamente. — Tudo que vocês pudessem fazer por ele já foi feito.

— Otori-sama – insistiu Sakura – O caso de Makoto é delicado. Ele perdeu de dez a quinze por cento da visão! Precisamos fazer uma cirurgia de reparação antes que...

— Um Otori não necessita de sua visão para ser um bom ninja, Uchiha-san. E se meus médicos acharem que Makoto-kun necessita de uma cirurgia, eles o farão. – disse de forma a deixa extremamente claro que não confiava o seu amado Makoto aos médicos dali e dando o assunto por encerrado, ele lhe virou as costas e voltou ao quarto, deixando Sakura sem palavras.

Makoto já estava pronto quando Takeshi entrou novamente no quarto e sorrindo, o abraçou. Takeshi ficou surpresa pela demonstração pública de afeto e o sorriso que saiu de seus lábios foi de pura felicidade.

— Vamos Makoto-kun! – exclamou alegremente – Prometo que quando chegarmos ao clã, lhe darei muitos doces!

— Doces?! — estranharam Suzumi e Yumi enquanto Makoto baixava a cabeça e acompanhava o líder de seu clã.

— Sim, doces – Takeshi falou parando para responder as meninas. – Makoto-kun adora doces! Ele sempre come até dar dor de barriga quando está em minha casa!

— Takeshi-sama... – murmurou Makoto extremamente sem jeito – Não entre em detalhes...

Enquanto Yumi e Suzumi continuavam observando, espantadas, o colega Takeshi olhou para o menino sem entender a surpresa delas. Mas como não iria perder tempo com aquilo, fez um gesto, chamando o garoto para ir embora.

Quando chegaram à porta, essa foi aberta por um homem que vinha acompanhado de um menino. Makoto só pode perceber que era o pai e o irmão de Yumi quando eles chegaram perto. Ryoma parecia muito surpreso ao ver Takeshi ali.

- Otori-sama! – exclamou se curvando rapidamente em sinal de respeito.

- Ryoma-san. – falou Takeshi sorrindo – Há quanto tempo! Imagino que ainda não retornou à anbu, certo? – o tom que usou foi irônico e de quem sabia demais.

Yumi não soube por que, mas seu pai pareceu constrangido diante do comentário, mas logo se recuperou.

- Prefiro minha cozinha. – disse ele sorrindo.

Takeshi se limitou a balançar a cabeça, e puxou Makoto pela mão. Antes de sair, o menino deu um breve aceno para suas colegas, que retribuíram.

— Amanhã na área de treinamento! – avisou Yumi antes de ele sumir.

A porta foi fechada e quando os passos de Makoto pararam de ecoar, Suzumi comentou:

— Puxa, eu realmente achava que...

— SHHH! – mandou Yura fazendo um sinal de silêncio. – Não falem nada...

Já do lado de fora do prédio, Takeshi sorriu. Kaneshiro Yura era realmente muito esperta. Mas não o conhecia suficiente, ou não o teria subestimado.

Depois de um momento de silêncio, Yuki, um bonito menino de cinco anos com os cabelos pretos como o do pai, foi o primeiro a falar:

— Nee-san! Me abraça! – e saltou por cima da menina.

Logo Suzumi e Yumi estavam tão entretidas com o pequeno Yuki, que não comentaram nada do acontecido envolvendo o líder do clã Otori e Makoto. Mas quando Ryoma achou que havia transcorrido bastante tempo, caminhou até a janela e observou. Não havia mais sinal dos dois. Voltou até onde estava sua esposa e sussurrou preocupado:

— Ele sabe.

Yura confirmou com a cabeça antes de responder:

— O que os Otori não sabem Ryoma? Mas isso não o interessa. Ainda bem...

Longe dali, Takeshi sorriu.

“Realmente... O que os Otori não sabem” pensou ironicamente. “Pelo menos o que não queremos saber...”.

************

A tarde passou voando. Sakura, mesmo aborrecida com o acontecido com Makoto, se mostrou bem alegre quando disse que as duas meninas estavam liberadas. A única recomendação que ela fez, principalmente a Suzumi, foi que as meninas não deviam se meter em nenhuma briga pelos próximos dias.

Yumi deixou rapidamente o quarto, acompanhada pela família. Yuki pulava e ria enquanto Ryoma descrevia o que tinha feito para o jantar daquela noite. Percebendo o silêncio de sua amiga, Yumi convidou alegremente:

— Vamos jantar lá em casa hoje Suzumi?

— Não, obrigada. Tenho muita coisa pra fazer em casa... – respondeu a outra.

— Tem certeza Suzumi-chan? – insistiu Ryoma – Eu fiz sushi!

— Tenho Ryoma-san. Há muita coisa para ser feita em casa.

Mesmo parecendo decidida, Suzumi não podia esconder a pontada de tristeza na sua voz. Virou de costas para a amiga e arrumou suas coisas silenciosamente. Yumi ainda abriu a boca para tentar convencê-la, mas sua mãe tocou no seu ombro e balançou a cabeça. Aquilo só ia fazer a menina se sentir pior.

Quando ouviu a porta do quarto se fechar, Suzumi sentou na cama, lutando contra as lágrimas. Por aquele motivo queria ter ido embora mais cedo. Adorava todos Kaneshiro, mas simplesmente não agüentava ver aquela cena de família feliz. Também pensou no estranho Makoto que tinha visto. Nunca o menino se mostrara tão diferente quanto naquele dia. Ele parecia... Feliz. Tão feliz quanto jamais o vira. O modo com que ele olhava para Takeshi e o modo como este retribuía, parecia algo que estava além de sua capacidade de compreensão. Era um sentimento profundo que a fazia sentir desconfortável. Por que Makoto nunca se mostrara contente daquela forma com elas? E por que estava com vontade de chorar diante da lembrança daquele sentimento explícito? O sentimento era tão intenso que tinha impressão que se tivesse estendido as mãos, poderia participar daquilo. De repente, ela percebeu que estava pensando demais e sacudiu a cabeça.

E enquanto se levantava, ouviu alguém empurrar a porta.

— Então a Yumi já foi? – perguntou Sakura.

— Já e eu to indo também. – sentenciou ainda de costas para a porta, vestindo uma jaqueta por cima da roupa.

— Vai sozinha Suzumi? – indagou a médica.

— Não tenho ninguém para vir me buscar. – respondeu irritada lembrando da família de Yumi e principalmente de Takeshi.

— Não tenha tanta certeza disso... – falou Sakura satisfeita.

Quando Suzumi se virou para reclamar, viu que ela empurrou a porta para o lado, dando espaço para duas cabeças muito ruivas surgirem. E foi com surpresa que ela viu os irmãos se atirando em cima dela, sorrindo.

— Que saudades nee-san! – gritou Suichi agarrando a irmã.

— Vou levar sua bolsa, nee-san! – se ofereceu Shunsui animadamente pegando a bolsa sem esperar resposta.

Suzumi se viu sendo carregada para fora do hospital pelos irmãos, que começaram logo a falar como haviam passado aqueles dias, se desculpando por terem quebrado coisas, correndo e puxando-a pelas ruas, parando a todo momento para falar com alguém e tudo ao mesmo tempo e tão rápido que ela ficou zonza. Mas seu coração estava aliviado. Ali estava sua família. E ali estava sua felicidade. Não precisava invejar ninguém, a nenhum momento. Dependia daqueles dois da mesma forma que eles dependiam dela. E era isso que os mantinham vivos.

— Se tiver um alfinete fora do lugar no meu quarto – disse ela ameaçadoramente – Mato os dois.

Os meninos de limitaram a rir e continuaram puxando-a até chegar em frente à casa.

— Bem vinda de volta! – disseram eles em uníssono.

Ela abraçou os dois e murmurou:

— Não existe nenhum outro lugar em que eu gostaria de estar.