O Tempo e a Esperança

28 Capítulo XXVI – Destinos trocados


Capítulo XXVI – Destinos trocados

Naruto demorou bem menos que o normal para chegar à Vila Oculta da Areia. O tradicional era levar em torno de três dias. Ele precisou apenas de um e meio. Estava ansioso. Ainda lembrava-se da reunião que havia participado. No princípio, quando o anbu dissera “todos os jounins” ele teve a esperança de que fosse encontrar Hinata no escritório da Hokage. Sem o séqüito do clã, talvez fosse mais fácil se aproximar. Mas ela não estava lá. O único Hyuuga presente era Neji, que nem ao menos o cumprimentou quando ele chegou.

— Eu convoquei vocês, por que a vila passa por uma situação delicada. Estamos à beira de uma guerra. – começou Tsunade.

Todos foram pegos de surpresa. Apesar de terem notado uma tensão presente nos últimos tempos, não pensavam que a situação era tão grave.

— Hokage-sama, – começara Kakashi – qual o motivo?

Tsunade suspirou.

— Em breve a Vila Oculta da Pedra irá selar aliança com a Areia e, consequentemente, com Konoha.

— Mas isso deveria ser uma boa notícia! – exclamou Lee surpreso.

— Sim. E é. – disse a Hokage suspirando – O problema é que a Névoa e a Nuvem não concordam conosco. E provavelmente farão de tudo para impedir que a aliança seja selada. Por isso, o Kazekage entrou em contado conosco. Pediu uma ajuda especial para o dia do selamento do acordo, que será em breve.

— Que bom que Gaara conseguiu cumprir a missão dele lá na Pedra! – disse Naruto contente e fazendo com que todos o olhassem, surpresos – O que foi? Eu disse algo errado?

— Naruto – começou Sasuke – Você sabia?

Naruto coçou a cabeça encabulado.

— Bem... Durante o festival, o Gaara me contou algumas coisas. Entre elas, a visita à Pedra e os motivos dela... – falou como se estivesse se desculpando.

Tsunade sorriu.

— Então eu entendo o pedido dele.

— Que pedido? – perguntou Naruto interessado.

— Ele requisita reforços. Mas de apenas uma pessoa. Ele quer que você, Naruto, vá à vila da Areia. De lá partirá para a Pedra seguindo as instruções dele.

— Apenas eu? – surpreendeu-se ele.

— Sim.

Sasuke foi um dos presentes que se mostrou totalmente contra a missão solitária de Naruto.

— Hokage-sama, não acha que é muito perigoso para somente Naruto? Deixe-me acompanha-lo!

A Hokage não permitira. E lá estava ele indo sozinho rumo ao desconhecido. Qual interesse de Gaara em chamar apenas ele? Isso era uma das muitas coisas em que pensava. Outra era o que havia acontecido antes do fim daquela reunião, quando o escritório da Hokage fora invadido por Yumi e Kasuma que alertaram a ele e a Lee da briga entre Hanabi e Suzumi. Interferindo de forma rápida, puderam evitar o pior, mas Suzumi não estava bem. Depois que levara a garota para o hospital, soube por Sakura do estado de sua aluna antes de partir:

— Ela não corre mais risco de vida – dissera ela – Mas não acordará tão cedo. Pode ir tranqüilo para sua missão.

Antes de ir, contudo, ele ainda falou com Yumi e Makoto para saber o que exatamente acontecera e também com Lee, que insistia em pedir perdão por Hanabi.

— Esqueça Lee. – falou ele – Não foi culpa sua. E pelo que me contaram, nem de Hanabi. Suzumi provocou. E olhe que eu ouvi isso da boca dos colegas de time dela!Então não se preocupe. Vou dar umas broncas nela quando voltar!

— Mesmo não tendo sido culpada, Hanabi levou tudo à sério demais. Vou falar com ela também. – prometera Lee sério.

E assim pôde deixar Konoha sem muita preocupação.

Logo ao chegar a Vila Oculta da Areia, foi recepcionado pelo próprio Kazekage. Era muito bom rever Gaara. Ele o esperava na entrada da vila, ao lado de Kankuro e Temari, que acenaram alegremente quando ele entrou. Gaara sorria. Quando ele fora para Konoha, em torno de três meses atrás, mal tiveram oportunidade de conversar, apenas por um breve espaço de tempo, mas mesmo assim, ele assistira sua nomeação a jounin, atrasando sua partida para a Vila da Pedra. Por isso, quando ficaram frente a frente, não foi de espantar o imenso sorriso dado por Naruto.

— Gaara! – exclamou feliz – Há quanto tempo!

— Naruto. – disse Gaara sorrindo também – É bom revê-lo. Jounin, certo?

Naruto sorriu batendo de leve em seu colete.

— Pois é... Agora eu sou um pouco mais importante não é mesmo? E espero que não demore muito tempo para aquele nosso chá!

— Também espero o mesmo. Agora venha. – convidou o Kazekage apontando para dentro – Preciso lhe colocar a par de tudo antes de sua viagem. Você pode descansar enquanto preparamos o jantar. A viagem deve tê-lo cansado e você está com fome, certo?

Ele realmente estava. Depois de tanta energia gasta para poder chegar o mais breve possível, acabara sem se alimentar direto durante aquele tempo. Jantaram na casa do Kazekage, na companhia de seus irmãos e Baki, que não escondia a desaprovação de ver Naruto à mesa. Foi muito bom poder saborear a boa comida da vila enquanto eles colocavam os assuntos em dia. Para total espanto de Naruto, Gaara já sabia do acontecido entre ele e Hinata.

— Temari me contou tudo. Ela estava como examinadora do Exame Chunin. Como você está agora?

— É difícil dizer Gaara. Eu... – ele pensou por um pouco e decidiu que não tinha nada a esconder – Eu realmente gosto dela... Mas parece que não sou correspondido sabe... – e tentou dar uma risada que soou incrivelmente falsa.

— Para pessoas como nós – começou Gaara – É mais difícil lidar com a rejeição, o abandono, ou a perda... Por isso, quando achamos alguém que se importe conosco é como se renascêssemos...

Os olhos dele se iluminaram ao dizer essas palavras. Naruto ficou confuso. Gaara estava diferente do que ele lembrava.

— E foi por você entender tão bem essa sensação que eu o chamei.

— Você me chamou por que eu tomei um fora? – perguntou Naruto confuso.

— E que fora... – comentou Temari.

— Temari! – reclamou Baki.

Temari e Kankuro caíram na risada. Gaara continuou sério, olhando para os irmãos que se calaram instantaneamente.

— Não. Chamei por que você é o único que poder garantir que eu não fique mais sozinho.

— Eu não estou te entendendo Gaara.

— Lembra que eu lhe falei da minha missão na Vila da Pedra?

Naruto afirmou com a cabeça.

— Naquela viagem, – relembrou Gaara – estava certo que eu iria me encontrar secretamente com o daymio do País da Terra e com o Tsuchikage para tentar selar uma aliança de paz. Bem... Nesse sentido minha missão foi bem sucedida. Até demais eu diria.

— Prossiga. – pediu Naruto

— Durante a minha estadia lá eu conheci Kotori-hime, a filha do daymio, durante o jantar de apresentação. Ela não é uma ninja, então não participou negociações, mas sempre nos encontrávamos pelos jardins da casa dela, onde fiquei hospedado...

Notando que as feições de Gaara se suavizaram e ele deu um sorriso calmo, Naruto sentiu como se tivesse levado um choque. Olhando para o amigo, exclamou:

— Você se apaixonou por ela!

Gaara afirmou com a cabeça. Temari e Kankuro esse entreolharam sorrindo, enquanto Baki revirava os olhos.

— E ela por mim – disse Gaara se mostrando contente – Foi graças interferência dela que eu, juntamente com o Daymio, conseguimos convencer o Tsuchikage a aceitar a aliança. Depois, fui convidado a passar mais um tempo lá, e eu e ela... Envolvemos-nos...

— Em que sentido? – perguntou Naruto malicioso.

— Bem, nós vamos nos casar dentro de uma semana.

— TÁ BRINCANDO?! – gritou ele surpreso.

Todos caíram na risada.

— Felizmente não. A comitiva que a trará para a Areia, onde realizaremos o casamento, partirá em três dias.

— Nossa Gaara, estou muito feliz por você! Você vai casar cara! Boa sorte! – e deu umas sonoras tapinhas nas costas do outro. Todos olharam surpresos. Ninguém jamais fora tão íntimo do Kazekage, ou demonstrara tanto afeto por ele.

Mesmo falando com tanto carinho da noiva, Gaara assumiu uma expressão sombria ao continuar:

— Contudo, nosso casamento sela definitivamente a aliança com a Pedra. Por isso, temo pela vida de Kotori. Reuni meus melhores homens e eles vão ajudar na escolta. Mas eu ainda não estava satisfeito. Por isso pedi a Hokage-sama que me enviasse você. – ele olhou profundamente dentro dos olhos do amigo antes de responder – Você é o único em quem confio para trazer minha noiva em segurança. Um atentado a ela nessas circunstâncias não seria uma surpresa.

Naruto sorriu feliz. O Kazekage o reconhecia como um igual. Para seu atual estado de espírito aquilo era essencial. Todavia, uma coisa o deixou pensativo.

— Tenho uma dúvida. – disse Naruto apertando os olhos – Se a Névoa ou a Nuvem atacarem a princesa do País da Terra, não estariam praticamente assinando a guerra contra a Pedra e arruinando todas as chances de uma aliança?

— Não exatamente. Eles podem se unir com os ninjas da Pedra que não apoiaram a aliança e tentar forjar uma traição da Areia, matando Kotori e colocando a culpa em nós. – nesse momento seu rosto se contorceu de dor ao imaginar isso, mas mesmo assim continuou — Ou podem seqüestrá-la e exigirem da Pedra que desfaçam a aliança. O certo é que, com certeza tentarão impedir que ela chegue até mim.

— Você mesmo não pode ir buscá-la? – perguntou Naruto preocupado com o amigo.

— A tradição diz que não. Só poderei vê-la na hora do casamento.

Naruto sabia o quanto significava aquela missão. Não era apenas a garantia de paz entre as Vilas, mas principalmente a felicidade de ser amado por alguém, algo que seu amigo nunca tivera.

— Pode deixar Gaara. – disse convicto – Eu trarei sua noiva sã e salva para a Areia. Nem que isso custe minha vida.

A viagem foi realizada no dia seguinte. Eram em torno de vinte ninjas, contando com ele, que iriam ajudar na escolta. Antes de saírem, Gaara deu para Naruto um colete de jounin e uma bandana da Areia. E explicou:

— Não quero envolver Konoha caso algo dê errado. Para todos os efeitos você se passará por um ninja da Areia. É um pedido que eu te faço.

Naruto pegou os objetos oferecidos por Gaara e considerou por um momento.

— Isso é realmente necessário? – perguntou receoso.

— Temo que sim. – respondeu Gaara.

Diante da resposta do Kazekage, ele tirou a bandana e o colete de Konoha deixando-os aos cuidados de Kankuro e se equipou como um ninja da Areia. Partiram em seguida, deixando uma sensação de tranqüilidade em Gaara. Apesar de tudo esta apontando contra, ele sabia que ia acabar tudo bem.

Foram dois dias até que atingirem os limites entre o País do Vento e o País da Terra. Até a capital, levaram mais meio dia. Quando chegaram ao castelo do Daymio, a comitiva da princesa já estava toda organizada. Eram muitos ninjas da Vila da Pedra, mas não chegava ao número dos ninjas da Areia. Naruto não participou das conversas entre os líderes das comitivas. Manteve uma distância segura. Realmente diante de tantos ninjas estrangeiros, não era bom só ele ser de Konoha. Iria até parecer uma afronta. Enquanto as vilas interessadas mandaram muitos enviados, por que Konoha apenas um?

Partiram no dia seguinte, pela manhã. Até àquela hora, ele ainda não havia visto a noiva de Gaara. Mas tão logo começaram o percurso, o líder da comitiva da Areia o designou para fazer a guarda pessoal dela, em sua liteira. Ao vê-lo, a princesa abriu um meigo sorriso.

— Uzumaki Naruto, estou certa? – perguntou singelamente.

Ele a olhou, surpreso. Kotori-hime era tudo que podia se definir de uma verdadeira princesa. Seus cabelos loiros escuros caiam levemente sobre suas costas, atados em um adorável laço de seda. Os olhos verdes o miravam numa mistura de carinho e curiosidade e sua pele era tão branca que, por um momento, achou que fosse feita de marfim. Ela era pura delicadeza e graciosidade.

— Sim, sou eu. – ele respondeu um pouco encabulado – Como soube?

— Gaara-sama falou-me tanto sobre você que não foi necessário ninguém me falar nada. – ela sorria – Mas onde esta seu protetor de Konoha?

Naruto tocou o protetor da Areia e sorriu.

— Uma medida de segurança do Gaara. Mas não se preocupe Kotori-hime. Eu irei defendê-la com qualquer que seja a bandana. – falou convicto.

Kotori sorriu. Já entendera por que seu noivo admirava tanto aquele shinobi. Ele tinha o dom de fazer com que todos confiassem nele.

Apesar de tantos ninjas na escolta da princesa, Naruto sentia que havia um clima muito tenso no ar. Principalmente pelo fato de estarem andando mais devagar por causa da princesa. Não podiam sair correndo com ela, então viravam alvos mais fáceis, pois demorariam mais tempo para chegar na Areia. Por esses motivos, ele prestava atenção em cada movimento efetuado entre todos na caravana. Suspeitava que a qualquer momento pudessem ser atacados. Mas até chegarem aos domínios do País do Vento nada aconteceu. Porém, no terceiro dia de viagem, o dia amanheceu com uma estranha névoa. Imediatamente Naruto ficou alerta. Conhecia aquilo. Não era uma névoa normal.

— Kotori-hime. – começou ele – Não se afaste de mim. Creio que eles chegaram.

E estava certo. De um momento para o outro, vários ninjas começaram a surgir no meio da neblina, no mesmo instante que muitos ninjas da Pedra começaram a atacar os da Areia.

— Maldição! – sibilou Naruto – Gaara previu isso! Traição!

Mas não era hora para impropérios. A vida de Kotori estava em risco. Ela o olhava como se não acreditasse no que visse.

— T-Traição?! – balbuciou – A Pedra nos traiu? Como? Eu sou a princesa do País da Terra!

— Calma Kotori-hime! Não são todos. Muitos parecem tão surpresos quanto nós. Mas temos que sair daqui! Por favor, me acompanhe e não largue minha mão! – e fazendo um selo murmurou – Kage bushin no jutsu! Henge!

Ele invocou duas cópias e transformou uma delas na princesa. Enquanto as cópias assumiam seus lugares na liteira, eles se afastaram silenciosamente. Naruto sentia a garota tremer de medo. Provavelmente ela nunca vira uma batalha de perto. Ouvindo os gritos e barulhos metálicos de armas, se retiraram do foco do conflito. Mas era difícil se mover naquela névoa. Quando mais densa ela se tornava, nublava não só a visão, mas também a audição.

— Droga... Que falta faz Makoto... – murmurou ele. – E Sasuke também...

Andaram durante um tempo, até chegarem um ponto que não podiam mais avançar. Naruto tomou a frente da princesa e puxou uma kunai. Passou a tentar ouvir qualquer ruído, mas a névoa parecia afetar todos os sentidos.

— Naruto-dono... – começou Kotori.

— Shhhh... – fez Naruto pedindo silêncio.

Porém era tarde. Eles já tinham sido achados. Naruto percebeu isso o momento em que a névoa começou a baixar. Eram três ninjas. Todos eles pareciam ser de um tipo de anbu, porém com roupas da vila da Nuvem.

— Achou que podia nos enganar com um simples bushin? – falou um deles que pela voz era possível saber que se tratava de um adolescente.

Naruto deu uma risadinha desdenhosa.

— Bem, pode não ter enganado, mas vocês levaram um bom tempo para chegar até aqui não é?

— Você não parece ser um jounin normal – falou uma garota – Há algo de diferente em você.

— Realmente – falou Naruto ainda rindo – Estou me lamentando em ter que matar uma criança e uma mulher. Mas se for pela Kotori-hime, acho que posso conviver com isso.

Os três caíram na risada.

— Por mais que você seja um jounin, é apenas um. Como conseguirá derrotar nós três, membros da elite? – continuou a garota.

Foi a hora de Naruto gargalhar.

— Elite? Eu tenho o péssimo hábito de preferir lutar com a “Elite”, então não haverá problema. KAGE BUSHIN NO JUTSU!

Diversas cópias surgiram no local.

— Não vai nos derrotar com isso! – falou o terceiro.

— Vocês – disse Naruto aos bushins – permaneçam ao lado da Kotori-hime. Eu vou lutar sozinho.

— SIM! – gritaram os bushins.

Naruto se aproximou dos três ninjas que permaneciam atônitos. Não acreditavam que aquele rapaz fosse lutar sozinho. Mas logo perceberam o porquê de tanta confiança. Mesmo sendo muito fortes, os três perceberam em pouco tempo que não seriam capazes de vencerem sozinhos. Por isso, no meio da luta, o mais jovem tentou seqüestrar Kotori enquanto Naruto lutava com os outros dois.

— Naruto-dono! – gritou Kotori.

Imediatamente, Naruto se jogou por cima da mulher e, tomando impulso nas costa dela, arremessou-se sobre ele sem pensar duas vezes.

— RASENGAN! – gritou furioso.

O corpo do garoto foi atingido em cheio e mandado violentamente em direção a uma árvore. Agora Naruto estava irritado. Ia acabar com tudo rapidamente.

— Rasengan? – falou a mulher – Isso é um golpe do...

— Não! – disse o homem incrédulo – Ele é da Areia!

Naruto riu, com os olhos já adquirindo um tom avermelhado.

— Deixe eu me apresentar direito – rosnou ele – Uzumaki Naruto. Jounin de Konoha.

Os dois se entreolharam. O homem fez menção de atacar, mas foi derrubado rapidamente com uma kunai atravessando sua garganta. Naruto pulou como uma raposa feroz em seu pescoço, rasgando-a. Depois usou o Kage bushin pra ir atrás da mulher que aproveitou a morte do companheiro para fugir. Enquanto suas cópias se encarregavam de encontrá-la e darem cabo dela, ele se aproximou da princesa. E descobriu por que Gaara a amava. Mesmo vendo a Kyuubi em seus olhos, ela não se intimidou. Nem gritou ao ver suas roupas sujas de sangue.

— Desculpe por fazê-la presenciar essa cena, Kotori-hime. – pediu sinceramente.

Ela balançou a cabeça negativamente.

- Não há o que desculpar Naruto-dono. Sei que você é um portador de um biju, como o tinha meu noivo. Eu os admiro. Vocês conseguem dominar um monstro dentro de vocês todos os dias de suas vidas.

Antes que ele pudesse responder, foi interrompido por uma voz.

— Uzumaki-san!

Era o líder da comitiva da Areia. A névoa se dissipava aos poucos e eles puderam ver que muitos ninjas amigos vinham em sua direção.

— Como estão as coisas? – perguntou Naruto preocupado.

— Nada boa. Tivemos muitas baixas... Contudo, eles recuaram. Mas já mandei um aviso para a vila. Vamos esperar eles mandarem reforços e...

— Não. – disse Naruto.

Todos o olharam, surpresos.

— Uzumaki-san...

— Vamos continuar a viagem. Se ficarmos aqui será pior. E além do mais, não quero atrasar o casamento. – e olhando para a princesa perguntou – Concorda comigo, Kotori-hime?

Ela afirmou com a cabeça.

— Veja – gritou um dos rapazes da Areia – O garoto ainda está vivo.

Naruto voltou a atenção dele para o menino no chão. Ele respirava com dificuldade. Agachando-se ao seu lado e tirando a máscara de seu rosto, Naruto sentiu um aperto no coração. Ele não devia ter mais que treze anos, quase a idade de seus alunos.

— Vamos levá-lo para interrogatório? – perguntou um dos ninjas presentes.

— Ele está morrendo. – disse Naruto com a voz embargada – Não há salvação.

O garoto abriu os olhos e o olhou profundamente. E, para total surpresa de Naruto, ele sorriu.

— M-Morr-rrer... p-pelas... mãos... de... U-Uzumaki Na-Naruto... – balbuciou com dificuldade – Q-Que honra...

E pendeu a cabeça, sem vida.

Uma dor profunda partiu a alma de Naruto. Não havia honra em se morrer tão jovem. Naquela hora, contudo, sua atenção foi chamada por um caderninho preto que saía da roupa dele. Já havia visto um daqueles antes. Um Bingo Book da Vila da Nuvem. Sem pensar bem por que, apanhou o caderninho e guardou em seu colete. Talvez a Hokage visse alguma utilidade nele.

***************

Gaara aguardava ansiosamente a chegada da comitiva. Já estava no dia deles voltarem, mas nada fora avistado ainda. Ia constantemente até a varanda do escritório, que ficava no ponto mais alto da vila e observava o horizonte. Quando o dia já chegava ao fim, Kankuro entrou em sua sala, sorrindo aliviado:

— Eles chegaram Gaara! – comunicou.

O Kazekage se levantou rapidamente e acompanhou o irmão. Na entrada da vila, os primeiros ninjas entravam. Naruto vinha à frente da liteira de Kotori e acenou para o amigo quando o localizou. Com um movimento de mão, Gaara pediu que todos parassem. Depois, se dirigiu até onde sua noiva se encontrava.

— Naruto. – chamou – O que aconteceu? Vocês demoraram...

— Exatamente o que você previu. Traição. Fomos atacados pelos ninjas da Nuvem e da Pedra. – esclareceu.

A expressão de Gaara se tornou sombria. Ele olhou para a liteira com um ar triste. Imaginado o que se passava na cabeça do Kazekage, Naruto tocou em seu ombro e sorriu.

— Ela está ansiosa para vê-lo... – disse abrindo um pouco a cortina da liteira.

— Não posso Naruto. – disse Gaara receoso – A tradição diz...

— Deixa esse negócio de tradição pra lá! – reclamou Naruto — Você está doido pra vê-la, eu sei disso!

— Dizem que dá má sorte para o casamento... – argumentou Temari.

Mas Naruto não deu ouvidos ao que ela dizia e terminou de abrir as cortinas. O rosto de Kotori surgiu iluminado pelo sol do fim de tarde. Com a ajuda de Naruto, ela saiu do seu transporte e olhou para o noivo. Um belo e tímido sorriso surgiu em sua face. Gaara também sorriu e segurou as mãos dela serenamente.

— Kazekage-sama – chamou Baki interrompendo a cena – Precisamos acomodar todos os convidados e terminamos os últimos preparativos do casamento...

“Eita, que cara chato” pensou Naruto.

Mas Gaara parecia não se importar com a interrupção. Estava inebriado demais com a presença de Kotori que não parecia se importar mais com nada. Quando ele respondeu ao seu sensei, nem ao menos o olhou. Sua atenção estava todo na sua noiva.

— Leve-os até suas acomodações... – e acrescentou — Prepare um quarto para o Naruto também.

— Pra mim? – perguntou Naruto surpreso – Mas eu preciso voltar para a Vila...

Kotori e Gaara o encararam ao mesmo tempo. Pareciam não ter entendido o que ele dissera.

— Voltar para a vila? – perguntou Gaara franzindo a testa.

— Não ficará para o casamento, Naruto-dono? – indagou Kotori parecendo extremamente desapontada.

Naruto coçou a cabeça, nervoso.

— Bem, a vovó Tsunade deve ta esperando minha volta e...

— Apenas um dia ela entenderá. – cortou Gaara – A menos, é claro, que você não queira ficar...

— Claro que não é isso! – falou Naruto apressadamente.

— Então ficará? – perguntou a princesa esperançosa.

Naruto suspirou. Não tinha como negar um pedido daqueles. Seria bom, no final das contas. Poderia se distrair um pouco.

— Sim, ficarei. – decidiu ele.

— Ótimo. – exclamou Gaara satisfeito – Acompanhe Baki. Ele te levará até minha residência e o acomodará. Irei eu mesmo acompanhar minha noiva até as acomodações dela.

Não dava pra saber quem era o mais incomodado com a situação: Naruto, por estar sendo escoltado por Baki, ou Baki por estar escoltando Naruto. Caminharam num silêncio constrangedor até a casa de Gaara.

— Espere um pouco aqui. – pediu Baki – Irei providenciar as acomodações...

“Provavelmente as piores possíveis” pensou Naruto desanimado.

E qual não foi sua surpresa quando ele o levou até um quarto espaçoso e confortável. Uma grande cama o aguardava no centro do quarto e só então ele percebeu o quanto aqueles dias haviam sido cansativos. Logo que foi deixado sozinho, pulou na cama macia e adormeceu quase que instantaneamente. Nem ao menos se preocupou em tirar as roupas.

Dormiu profundamente por algumas horas e acordou quando a noite estava avançada. Tinha muita fome. Levantou-se da cama e começou a andar pela casa em busca da cozinha. Para seu total desespero, a casa de Gaara era bem maior do que ele supunha. Em pouco tempo estava perdido.

Continuou a andar em busca de se localizar, até que viu uma luz acesa no fim do corredor. Aproximou-se cautelosamente e viu que a luz vinha de uma bonita sala de visita. Mas não havia ninguém lá. Adentrando silenciosamente reparou no canto esquerdo uma porta aberta que dava passagem pra um jardim lá fora. Naruto ouviu vozes e reconheceu a de Gaara. Aproximou-se para falar com o amigo e pedir que lhe guiasse de volta. Espreitando cautelosamente através da porta, viu que ele estava acompanhado. E estancou imediatamente ao vê-lo confessar:

- Eu a amo, Kotori.

Sob a luz da lua cheia Gaara segurava, com uma mão, as mãos de sua noiva e com a outra, acariciava suavemente seu rosto. Ela parecia deslumbrada com ele. Olhavam-se com tanto amor, que beirava a adoração. Por um momento, Naruto se odiou por estar presenciando clandestinamente essa cena tão intima. Recostou-se ao batente da porta de forma a não ser visto, mas não se afastou. Viu quando o Kazekage se aproximou da princesa e, segurando o queixo delicadamente, a beijou com ternura. Ao afastarem-se, Kotori abraçou seu noivo encostando seu rosto contra o ombro dele. Ficaram assim durante algum tempo. Depois, Gaara passou a mão nos cabelos dela e disse:

- Amanhã poderemos finalmente ficar juntos... Para sempre. – falou com fervor.

- Seguirei Gaara-sama para onde ele for... Até para a morte... – prometeu ela. – Pois a minha vida sem o seu amor seria um eterno vazio... Eu o amo, Gaara – confessou com os olhos brilhando com intensidade do amor que sentia.

Para Naruto, já bastava. Tão silenciosamente quanto chegara, ele se fora. Com alguma dificuldade, conseguiu encontrar seu quarto. Despiu-se totalmente, tendo o cuidado de reservar a bandana e o colete da Vila da Areia para entregar. De volta a cama, não conseguia tirar aquela cena de sua cabeça.

“Eles foram feitos um para o outro...” pensou Naruto aliviado. Seu amigo finalmente encontrara seu lugar no mundo.

Mas também sentia inveja de Gaara, que conseguira alcançar o amor, enquanto ele ainda se sentia o ultimo dos homens. Fechou os olhos e lembrou-se de Hinata. Tentou odiá-la, despreza-la por tê-lo abandonado, mas simplesmente não conseguia. Rolou pela cama lembrando-se de todos os momentos que passaram juntos, tentando dormir desesperadamente. Quando finalmente adormeceu, o resto de sua noite foi povoado de sonhos envolvendo Hinata, onde ele reviveu dolorosamente o instante em que ela lhe virara as costas.

Naruto acordou quando o sol já se insinuava pela janela. Estava tão exausto da viagem e da noite mal dormida que, ao despertar, ainda se encontrava meio zonzo. Por isso, quando viu alguém debruçado sobre ele, pensou por um momento que fosse a continuação de seu pesadelo.

- Hinata... – balbuciou.

A garota sorriu. Quando os olhos de Naruto entraram em foco, ele viu que não se tratava dela. Era alguma criada da casa, a julgar pelas roupas. Rapidamente ele se afastou, envergonhado, e puxou as cobertas, cobrindo a sua nudez.

- Quem é você? – perguntou ainda sonolento.

- Kankuro-sama me mandou para vê-lo e perguntar se precisa de alguma coisa, Naruto-sama... – falou ela com a voz insinuante.

“Naruto-sama?!” estranhou ele.

Era a primeira vez que alguém o chamava assim. E por algum motivo não lhe soou muito bem.

- Hã... Pode me chamar só de Naruto mesmo... – pediu.

Ela deu um sorriso muito charmoso.

- Então... Naruto... Em que posso ser útil pra você? – perguntou ela se debruçando mais sobre a cama.

- Útil? – perguntou ele.

- Sim... Posso fazer tudo o que você quiser... – disse ela insinuante.

- Tudo? – ele parecia interessado.

- Sim, tudo... – sussurrou ela.

- Então você pode trazer um ramen pra mim? – pediu ele contente – Estou morrendo de fome!

Ela parecia não ter entendido muito bem.

- Ramen? – estranhou.

- É ramen! – confirmou alegremente.

- Não quer... Outra coisa? – insistiu ela mais uma vez.

- Não, só o ramen ta bom!

Quando Kankuro a avisara que ele era um pouco estúpido, não estava sendo realista. Ele era completamente estúpido.

- Então ta! – disse ela saindo e batendo a porta.

- Ué... Por que ela ficou tão chateada? – perguntou ele a si mesmo.

A garota não voltou com o ramen, quem apareceu foi outra avisando que o café da manhã seria servido em breve. Ele então tomou um longo banho, vestiu uma roupa e foi em direção à sala onde seria servida as refeições. Gaara não estava lá. Apenas Kankuro e Temari. Quando o viu, o irmão do Kazekage começou a rir incontrolavelmente. Temari e Naruto se entreolharam, confusos.

- Qual o motivo da piada? – perguntou Temari.

Kankuro fazia um grande esforço para parar de rir, e estava falhando miseravelmente. Naruto, sem entender que ele era o motivo daquela crise súbita, passou a comer vorazmente. Estava faminto. Aqueles dias de missão foram muito difíceis para ele.

- Naruto. – chamou Temari – Posso te perguntar uma coisa?

Com a boca cheia de comida, ele afirmou com a cabeça.

- Você sabe sobre o Shikamaru? Como ele ta? Ele ta saindo com alguém lá em Konoha? – perguntou preocupada.

Naruto engoliu tudo que estava em sua boca e respondeu meio confuso:

- Bem, que eu saiba ele ta bem. Vimos-nos durante a reunião onde recebi essa missão...

- Ele nem mandou um recado pra mim?! – Temari parecia chateada.

- Não houve tempo. Tive que sair correndo da reunião pra... Resolver uns problemas... – desconversou ele.

- Ele tem outra, eu sei disso! – exclamou ela irritada.

- Deixa de paranóia Temari! – reclamou Kankuro já recuperado da crise de riso – Você só fala nisso desde que voltou!

- Por que a preocupação, Temari? – perguntou Naruto – O Shikamaru gosta de você... Ele não tem motivo pra ter outra namorada...

- Você acha? – indagou ela com os olhos iluminando.

- É claro. Além do mais, ele acha as mulheres tão problemáticas que provavelmente uma já é demais pra ele... Duas seria impensável... Fora que o pai dele o mataria... Todo clã Nara te adora! – concluiu Naruto enchendo mais a boca.

Temari pareceu mais feliz e continuou a comer. Kankuro ainda encarava Naruto com um sorriso no canto dos lábios. Gaara entrou pouco tempo depois, e se dirigiu primeiramente a Naruto:

- Espero que as acomodações estejam confortáveis. – desejou ele se sentando à mesa.

- Estão. Obrigado Gaara.

- O casamento será realizado à tarde. – comunicou o Kazekage – E amanhã você poderá partir.

- Pra mim ta ótimo! – disse Naruto.

O resto do dia foi muito corrido. Naruto recebeu uma roupa formal para cerimônia das mãos da dama de companhia de Temari.

- Obrigado, Soichiro. – agradeceu ele – Como vai você e Kiba?

A garota ruborizou instantaneamente.

- Muito bem, Naruto-san. Obrigada.

A cerimônia foi extremamente solene. Quem celebrou foi um famoso monge do País do Vento. Todas as pessoas mais ilustres estavam presentes lá. Naruto se sentiu meio deslocado no início, mas depois passou a assistir ao casamento ao lado de Temari e Kankuro. Depois de todas as formalidades, eles se reuniram em um grande salão, onde as festividades seriam realizadas. Sentado bem perto dos recém casados, Naruto sentia uma pontada de inveja da felicidade dos dois. Ficou em silêncio o resto da noite, devaneando e pensando em como tudo seria se Hinata ainda estivesse ao seu lado. Sua tristeza não passou despercebida por Kotori. Quando Gaara precisou se ausentar da mesa para cumprimentar algumas pessoas, ela falou com sua voz doce:

- Algum problema Naruto-dono?

Naruto negou com a cabeça.

- Nenhum problema Kotori-hime. – disse enfaticamente.

- Tem certeza? Eu poderia ajudá-lo...

Kotori sorriu para ele de forma tão doce e preocupada que Naruto viu-se sem ter como negar nada para ela. Suspirando, ele começou a contar para ela toda a história dele e Hinata e que eles não estavam mais juntos.

- Entendo... – murmurou ela tristemente – É uma pena que Naruto-dono esteja passando por isso... Mas... Permita-me ser impertinente... O que sentes por ela?

“Pergunto-me a mesma coisa todos os dias, Kotori-hime...” pensou tristemente. Mas Naruto sabia que era algo forte o suficiente para não fazer com que aquela imagem desaparecesse de seus pensamentos.

- Gosto dela, com certeza... – disse ele olhando para as próprias mãos – Gosto mais do que seria aceitável nesse caso...

- Para quem gosta tanto, Naruto-dono, você desistiu muito facilmente... – comentou pensativa.

Rapidamente ele levantou os olhos e encarou-a. A princesa não parecia repreendê-lo, mas usava um tom triste.

- Não estou entendendo Kotori-hime... O certo não seria que ela desistiu fácil? – perguntou confuso.

Kotori meneou a cabeça.

- Naruto-dono... Você nunca se perguntou por que ela terminou desse jeito com você?

- Milhares de vezes! – disse ele enfático.

- E já chegou a uma solução? Ela te falou os motivos? Alguém te falou os motivos? – inquiriu ela.

- Não... Ninguém sabe...

- Se ela realmente não sentisse nada por você, teria deixado as razões dela muito claras. E não se ressentiria de falar que não gostava mais de você. – explicou de forma calma e conclusiva – Entretanto, ela guardou as razões somente para ela... Isso pode significar que ela teve um motivo muito forte para acabar com você, mas que provavelmente lhe magoaria caso você soubesse. E se ela se preocupou, é por que gosta.

Naruto raciocinava sobre o que a princesa acabara de falar. Seria realmente verdade?

- E o que isso significaria exatamente, Kotori-hime? – pediu ele desesperadamente.

- Talvez, tudo que ela esperasse era que você insistisse mais, procurasse pelas razões, e que a ajudasse com esse fardo. Ninguém deixa de gostar depois de uma noite Naruto-dono. Talvez, a Hinata que você gosta, ainda sinta o mesmo e esteja magoada por, ao invés de buscar por ela, você tenha levado sua vida sem preocupações para frente...

A chegada de Gaara deixou a conversa se perder. Depois da festa e antes de ir voltar para Konoha, ele e Naruto se encontraram em uma reunião mais formal. Como jounin e Kage.

- Sua missão foi bem sucedida. – falou Gaara com um sorriso – Estou satisfeito.

- Obrigado, Gaara. — disse sinceramente.

E entregando um grosso envelope a Naruto, o Kazekage se despediu dizendo:

- Entregue isso à Hokage-sama. – e acrescentou — Espero vê-lo em breve.

Naruto recebeu o envelope e sorriu.

- Eu também espero.

Apesar da despedida, Naruto não esqueceu das palavras da princesa. Teria ele cometido um erro quando se afastara de Hinata? Teria sido realmente ele que teria se afastado? Deveria ter feito o que realmente desejado e buscado ela, mesmo à força? Ou seguir sua vida teria sido o melhor caminho? Estaria ela o protegendo de algo? O que seria? Eu não tenho do que ser protegido, pensou arrogantemente. Além do mais sempre não deixara espaço pra ela falar? Não a apoiara em tudo que ela resolvera fazer? E mesmo que não o tivesse feito, ainda assim acreditava que, se ela quisesse poderia ter procurado-o. Se gostasse realmente dele o teria procurado. Sentimentos contraditórios o acompanharam no trajeto de volta a Konoha. E ele decidiu. Ela realmente não gostava dele. Mas de fato havia algo errado naquela história e ele faria alguma coisa. Estava na hora de solucionar todo aquele problema.

***************

Tsunade olhou para o time da anbu à sua frente. Lamentava o queria fazer, mas não havia outra escolha. Já se passara do prazo que o Kazekage tinha pedido para a missão de Naruto. Ela estava ansiosa. Sabia os riscos que envolviam, não só para ele como para toda Konoha. E para seus planos. Não podia deixar Naruto morrer. Então iria, pela primeira vez, interferir em uma missão requisitada por uma vila amiga.

— Tudo o que vocês têm que fazer – começara ela – é descobrir o paradeiro dele e trazê-lo de volta à vila.

— Tsunade-sama, isso é necessário? – perguntou uma garota do grupo – Ele saiu há pouco mais de uma semana...

— Claro que é. – respondeu Sasuke ríspido – Essa missão é considerada de rank S e ele foi sozinho. E não recebemos nenhuma notícia dele até agora!

— Não acha que está se deixando levar pelo lado sentimental Uchiha-san? – perguntou um dos anbu – é de conhecimento geral a amizade de vocês dois...

— EU estou ordenando a ida, não o Sasuke. – disse Tsunade decidida – E vocês já podem ir.

— Não há necessidade mais. – disse o único do grupo que não tinha se manifestado ainda.

Todos o encararam, surpresos.

— Otori... – começou Sasuke.

— Ele acaba de entrar na vila. – disse o rapaz.

******************

Naruto entrou despreocupadamente na vila. Não sabia do que acontecia no escritório da Hokage, nem que era foco de tanta preocupação. Andou tranquilamente em direção ao prédio até de ser interceptado por Sasuke.

— Sasuke! – cumprimentou contente.

Mas o amigo não deu mostras de querer retribuir o cumprimento. Pelo contrário. Logo que chegou perto o suficiente, deu um forte soco no rosto de Naruto, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse no chão.

— Você ta louco?! – perguntou Naruto irritado.

— Seu idiota! Por que não avisou nada para nós?

Naruto se levantou limpando o filete de sangue que escorria de sua boca.

— Não tive como. Foi uma missão bem secreta. Agora eu queria que você fizesse o favor de me deixar passar. Eu preciso falar com a Hokage!

Sasuke o olhou com raiva. Depois, seu olhar se suavizou. Naruto também pareceu ficar mais ameno. Era só preocupação, percebera. Era bom pensar que alguém esperava sua volta.

— Vai lá – mandou Sasuke tentando parecer indiferente – Depois conversamos.

— Certo. – disse Naruto saindo em direção ao escritório. – Precisamos mesmo conversar! – completou misterioso.

Tsunade o esperava com um sorriso nos lábios. Ficaram apenas eles dois no escritório.

— Como está Suzumi? – foi a primeira coisa que Naruto falou.

— Por que a demora? – perguntou ela revidando.

— Eu perguntei primeiro. – disse ele.

Tsunade o olhou, irritada.

— Já recebeu alta e passa bem. Está em casa e Sakura passa lá três vezes ao dia para ver o estado dela. Agora a minha resposta. – ordenou.

— Fiquei para o casamento. – respondeu ele encabulado.

— Entendo... – disse ela parecendo estar satisfeita com a resposta — Então devo supor que tudo ocorreu tranqüilamente? – perguntou perscrutando o rosto dele.

Naruto suspirou.

— Quem dera... A Nuvem nos atacou junto com alguns ninjas da Pedra. Exatamente como Gaara supôs.

Tsunade suspirou.

— Então eles já começaram a agir... Temo que a guerra esteja perto... – disse preocupada.

— Talvez não. A Pedra é aliada agora. Eles não vão querer uma guerra contra três vilas.

— Espero que você esteja certo. Mas quando se trata daquelas vilas, nada é certo. – e lembrando acrescentou – O Kazekage não mandou nada pra mim?

— Ah, mandou! – disse Naruto batendo na cabeça e tirando um grosso envelope do colete, entregando-o para Tsunade.

A Hokage recebeu o envelope, satisfeita. Olhou seu conteúdo e sorriu. Depois disse, tirou um envelope menor, mais igualmente grosso, de dentro do maior, pegou outro debaixo da mesa e entregou os dois para Naruto.

— Seu pagamento. – disse quando ele a olhou intrigado.

Naruto abriu os pacotes e quase caiu pra trás. Nunca tinha visto tanto dinheiro.

— Vovó Tsunade... – falou quase sem voz – Tem certeza que é tudo isso?

— Claro que é. Você recebeu pagamento do País da Terra, da Vila da Areia e de Konoha. Era uma missão de extrema importância.

— Mas... – ele procurava palavras, sem as achar.

— Se você não quiser, pode me dar que eu darei um destino muito proveitoso para ele. – brincou Tsunade.

— Destino proveitoso? Sei... O Cassino provavelmente – disse desconfiado – Não, ele é meu! E eu irei dar um destino realmente proveitoso! Vou pagar ramen para Makoto, Suzumi e os irmãos dela, Yumi e talvez pro Sasuke e a Sakura! Quer vir Vovó Tsunade?

Ela começou a rir.

— Não obrigada! Vá gastar “proveitosamente” seu pagamento...

Ele já estava de saída quando se lembrou de algo.

— Ah, Vovó Tsunade! Eu encontrei isso. – e tirou o Bingo Book do colete – Acho que pode ser útil. Eu ainda não vi. Vou deixar isso ao seu cargo.

Naruto entregou o caderninho e saiu alegremente. Tsunade olhou intrigada para as informações em suas mãos. Abriu lentamente e começou a folheá-lo. Cada página virada deixava seu rosto mais branco e atônito.

— Acho que vou ter que fazer uma visita... – murmurou para si mesma antes de levantar, pegar seu casaco e sair.

****************

Hiashi apertou o pergaminho entre os dedos com furor. Sentia uma profunda raiva começar a borbulhar dentro de si. Como ele podia ter sido enganado com tanta facilidade? Hanabi observava seu pai, apreensiva. O rosto dele estava lívido de um ódio que ela nunca vira antes. Pensou em perguntar o motivo daquilo, mas sentiu medo que aquela ferocidade emanada dele pudesse atingi-la.

— Hanabi – começou ele numa voz quase inaudível – parece que eu terei que me ausentar... Chame o conselho imediatamente.

— Mas pai o qu...

— Apenas faça o que estou mandando! Sua irmã pode estar correndo risco!

Ela o olhou, assombrada.

— A nee-san? Por quê?

Antes que Hiashi pudesse responder, uma moça da Souke entrou e se inclinou com a cabeça até o chão.

— Há uma visita esperando para ser atendida, Hiashi-sama. – anunciou Umi.

— Dispense. – mandou irritado – Tenho assuntos mais urgentes!

— Hiashi-sama – disse ela em tom incerto – Trata-se da Hokage-sama.

Hiashi olhou para a garota com a testa franzida. O que a Hokage queria com ele naquele momento? Estaria relacionado ao que ele acabara de descobrir?

— Mande-a entra então.

A moça fez mais uma reverência e saiu. Hiashi então se dirigiu à sua caçula.

— Saia e espere minhas ordens.

— Sim papai. – e se retirou da sala no mesmo instante que Tsunade entrava.

A Hokage parecia tão lívida quanto Hiashi, reparou Hanabi. Isso tudo estava lhe dando uma horrível sensação, ainda mais pelo fato de Neji não está presente para ajudar. Por isso, fechou a porta silenciosamente, mas procurou ficar bem perto na esperança de ouvir um pouco da conversa.

Quando Tsunade se acomodou no tatame em frente a Hiashi, olhou para o pergaminho nas mãos dele e suspirou.

— Era falso? – perguntou ela.

— Sim. – disse ele fazendo um grande esforço para não deixar sua voz falhar.

— Como eu temia... – revelou Tsunade apreensiva – Recebi isso a poucos momentos. Explica tudo.

Hiashi pegou o caderninho negro das mãos dela e estremeceu. O símbolo da Vila da Nuvem não lhe trazia boas lembranças. A morte de seu irmão ainda era algo doloroso de se lembrar mesmo que já fizesse quinze anos. Por um momento imaginou o que aquilo teria a ver com sua família, mas foi só abrir para que a horrível constatação lhe atingisse como um golpe no estômago.

— Hinata... No Bingo Book... Hokage-sama, o que significa isso? – perguntou atônito.

— Não é obvio Hiashi? Eles ainda querem o byakugan. Creio que essa viagem dela tenha sido uma forma de tirá-la dos domínios do clã para seqüestrá-la. Eles provavelmente pretendem se apoderar da linhagem para então levar a cabo suas intenções de guerra.

Hiashi sentiu as mãos tremerem, mas não se envergonhou da presença da mulher à sua frente. Por mais que fosse orgulhoso, era sua filha que estava em risco. Sabia o que tinha de fazer.

— Irei atrás dela. – disse ele.

— Não Hiashi. É essencial que você fique na vila. A ausência de Hinata como líder do clã já não é bom, se ficarmos sem você, como o clã ficara caso aconteça algo durante esse período? Hanabi não tem idade para substituir vocês.

— Se ao menos a senhora não houvesse mandado Neji naquela missão... – vociferou ele.

— Era algo que somente ele podia fazer. Mas creio que a essa altura já esteja perto de voltar. Por isso, — ela tirou um pergaminho do casaco – essas são as instruções de onde ele está. Escolha um membro de seu clã para levá-lo até Neji e que esse membro o substitua se necessário. Ele deve então partir imediatamente ate onde está Hinata e se encontrar com o grupo que enviarei ate lá.

— Umi – chamou Hiashi.

A moça que anunciara Tsunade retornou.

— Hiashi-sama. – disse ela.

— Aqui está a localização de Neji. Encontre-o e diga que você irá assumir a missão dele e que ele deve se dirigir até onde está Hinata o mais rápido possível.

— Sim Hiashi-sama. – assentiu Umi e retirou-se rapidamente.

— Quantos dias faz que ela saiu? – indagou Tsunade.

— Dois. – respondeu Hiashi como se estivesse sendo cortado por dentro. E levando a mão aos olhos, murmurou – Minha filha...

— Tenha paciência Hiashi. – pediu a Hokage — Hinata é forte, diferente do que você pensa. E vem passando por uma situação muito pior que essa...

O tom sarcástico não passou despercebido por Hiashi. Deixando de lado sua preocupação com o bem estar de Hinata, encarou Tsunade com um olhar inflexível.

— Espero que você não esteja se referindo ao fato do extinto relacionamento entre ela e Uzumaki Naruto, Tsunade-sama.

— Não Hiashi. Refiro-me ao agora, onde ela ainda sofre por ele.

— Coisas de jovens. — respondeu dando de ombros — Ela superará.

— Você já superou Hiashi? Já esqueceu o que aconteceu há vinte anos atrás?

Do outro lado da porta Hanabi ouvia tudo, mas sem entender nada. Do que a Hokage falava? O que tinha acontecido com seu pai há vinte anos atrás?

Hiashi desviou a vista e falou friamente:

— O que nos ensina a sermos mais fortes não deve ser esquecido. Ainda me lembro muito bem do que aconteceu, Tsunade-sama. E vou lutar até a morte para que minha filha não passe o mesmo que eu!

— O que ela está passando é bem pior Hiashi! Por Deus, você não vê que ela está sofrendo? A dor silenciosa dela? Eu sei muito bem que você está envolvido no rompimento deles!

— Por que você o defende sabendo que a união dos dois não seria jamais possível? – indagou Hiashi com ferocidade.

— Naruto não é ele Hiashi! – defendeu Tsunade – Ele jamais faria aquilo com Hinata!

— Quem garante? – questionou Hiashi.

— Eu garanto. – retrucou Tsunade.

O silêncio se abateu sobre a sala. Do outro lado da porta, Hanabi não perdia uma palavra. Apesar de tudo está ainda meio confuso, algumas coisas começavam a fazer sentido.

Diante da resposta de Tsunade, Hiashi deu um sorriso meio esnobe.

— Então, você garante por seu favorito, Tsunade-sama? – perguntou frisando bem a palavra “favorito”.

Tsunade também sorriu.

— Sim Hiashi. Eu garanto por meu favorito.

Ele balançou a cabeça.

— Enquanto eu viver, não permitirei que outro estranho desgrace o clã Hyuuga, Tsunade-sama. E essa é minha última palavra.

A Hokage suspirou. Não era uma boa hora para se discutir com Hiashi. Ele estava nervoso e preocupado com o paradeiro da filha. Iria parar por enquanto. Mas não desistiria do caso tão cedo.

— Irei me retirar por hora, Hiashi. Organizarei o time de resgate de Hinata.

— Eu não o quero envolvido. – disse ele firmemente.

— Eu decido quem mando nas minhas missões Hiashi-kun. – disse em tom de deboche – Mas não se preocupe. Naruto acabou de voltar de uma missão estressante e eu quero poupá-lo. Tenho outros planos para ele. – pegou de volta o Bingo Book e fez menção de sair. Todavia, voltou um pouco e falou – Agradeça a ele, Hiashi-kun. Se Naruto não tivesse achado este Bingo Book, na próxima vez que nos veríamos seria no funeral de Hinata.

E deixou casa rapidamente, se dirigindo ao seu escritório. Chegando lá, mandou chamar Sasuke imediatamente. Não podiam mais perder tempo.