O Tempo e a Esperança
27 Capítulo XXV – Palavras perdidas
Notas iniciais
Capítulo XXV – Palavras perdidas
Sasuke acordou como se tivesse levado um choque. Sentou-se rapidamente na cama, com o coração acelerado. Passando as mãos pelo peito nu, tentava fazer desaparecer aquela sensação funesta que se alojara em sua alma. Pesadelos como aqueles eram constantes sempre que enfrentava uma missão particularmente difícil ou quando estava estressado. Nos últimos dias eles se tornaram constantes. E eram sempre os mesmos. Olhos malignos o perseguindo até fazer com que caísse num abismo. Agora, com a vila enfrentando o código de segurança, ficava impossível manter a calma. Desde aquela reunião, sua mente o torturava. Não podia permitir ameaças a Konoha. Não naquele momento. Não quando estava tão feliz.
“Não irei mais cair nas sombras! Nunca mais!” decidiu resoluto.
Mas ainda se sentia inseguro. Virou a cabeça para a cama, apenas para uma constatação que o deixaria ainda pior. Sakura não estava ao seu lado. Encostando a mão nos lençóis, percebeu que eles se encontravam frios. Ela devia ter saído há algum tempo. Se levantando, passou a procurar um bilhete ou qualquer coisa que indicasse o motivo de sua saída repentina. Ela nunca o deixara só na cama. A ausência de uma explicação o deixou ainda mais apreensivo. Sua pressa só podia indicar uma coisa: emergência no hospital.
“Naruto!” foi a primeira coisa que pensou.
Fazia mais de uma semana que ele partira sozinho em uma missão especial requisitada pela Hokage e ainda não voltara. Apesar de Sasuke ter se oferecido para ir com o amigo, Tsunade havia dito:
— Preciso de você aqui, Sasuke. E também, o Kazekage requisitou apenas a presença de Naruto.
Depois da saída de Naruto, não tiveram mais noticias. Isso o deixava extremamente impaciente. Principalmente depois do acontecido naquele mesmo dia. A briga entre Suzumi e Hanabi apenas deixara explicito uma coisa que todos já sabiam. Havia um mal estar generalizado na vila por causa de Naruto e Hinata. O incidente só servira para as pessoas apoiarem ainda mais o rapaz. Começava-se a ouvir comentários cada vez mais constantes do comportamento das pessoas do clã Hyuuga, o quanto eles eram frios e mesquinhos. É claro que Sasuke não se deixava influenciar por conversas bobas de velhas fofoqueiras, mas era fato que tudo aquilo o incomodava. Não agüentava mais ver Naruto no estado que ele se encontrava.
Ainda lembrava bem do dia que o tirara do bar para dormir em sua casa. Durante toda aquela noite, Naruto lhe revelara tudo que o afligia, os seus sentimentos, seus medos, sua angustia deixando as lágrimas lavarem sua alma. Para Sasuke vê-lo naquele estado era perturbador. Afinal, diferente do dia que Hinata o abandonara, naquela noite Naruto estava sóbrio e consciente quando afirmara:
— Eu ainda a quero Sasuke. Chame-me do que você quiser, mas eu não esqueci Hinata e a desejo mais que qualquer coisa no mundo.
— Tudo que eu posso te chamar é de temerário. – dissera Sasuke impassível – Insistir nesse erro é como se atirar de um penhasco. Não há nada que você possa fazer.
- Se eu não respeitasse tanto a vovó Tsunade e o que ela fez por mim, — começou Naruto com raiva no olhar — eu já teria provocado uma guerra civil aqui em Konoha! Por que minha vontade é invadir aquele clã e tira-la de lá à força e exigir explicações!
Mas o que Naruto não sabia era que aquilo tudo já tomava proporções de guerra civil. Toda vila participava de cada ato daquela peça macabra, esperando um desfecho dramático e nefasto. E se isso acontecesse, não havia o que pensar. Ficaria ao lado do amigo. Mesmo que sua atual posição lhe exigisse imparcialidade.
Tomou um banho rapidamente, vestiu sua roupa anbu e saiu de casa o mais depressa que suas pernas permitiram. Tinha um estranho pressentimento de que alguma coisa estava preste a acontecer.
Não demorou muito para chegar ao hospital. Aparentemente tudo estava normal. Nenhuma correria, nenhuma emergência. Nada que perturbasse a paz da vila de Konoha. Começou então a se sentir um tolo. Agora, à luz do dia percebia que talvez Sakura só tivesse dado uma saída rápida, ido comprar algo e toda aquela sensação provinha de seu pesadelo. Ela poderia nem estar no hospital. Como estava difícil lidar com aqueles sentimentos ainda tão intensos e novos para ele! Já pensava em dar a volta e retornar para casa, quando ouviu uma voz que o chamara.
— Hey, Sasuke-kun!
Era Kakashi. Parecia despreocupado e feliz.
— Então finalmente apareceu? – perguntou Kakashi feliz – A Sakura está cuidando de tudo, então nada vai acontecer.
O estômago de Sasuke se contraiu dolorosamente.
— O que está acontecendo, Kakashi-sensei? – perguntou preocupado — Do que a Sakura está cuidando?
Kakashi pareceu surpreso.
— Ué? O parto. O que mais seria?
— Parto? – Sasuke parecia mais perdido ainda.
— Kurenai entrou em trabalho de parto essa madrugada. E o Asuma foi buscar Sakura lá na sua casa. Não me diga que não acordou quando ele a chamou?
Não, não escutara. E não era de se admirar. Estava tão cansado que dormira profundamente depois que fizeram amor. O pensamento o fez corar um pouco.
— Algum problema? – perguntou Kakashi curioso.
— Não, nenhum... – disse disfarçando – Então Kurenai-san está tendo o bebê?
— Sim. – afirmou Kakashi contente – E o Asuma está descontrolado de nervosismo. Já que você parece desocupado, venha dar uma força a ele também.
Sasuke acompanhou seu antigo sensei em direção ao hospital. Mas eles não entraram lá. O rapaz, a princípio, não entendeu a onde eles estavam indo até ver Asuma sentado na sombra de uma árvore, de cabeça baixa e rodeado por pontas de cigarro.
— Bom dia Asuma-san. – cumprimentou Sasuke.
Asuma levantou a cabeça e Sasuke pode ver que ele tinha dois cigarros ao mesmo tempo na boca. Seu olhar parecia perdido.
— Sasuke-kun – falou ele sem tirar os cigarros da boca – Como vai? – e sem esperar resposta disse – Eu vou mal. Ansioso demais... Acho que preciso de um cigarro.
— Mas, Asuma-san, e esses dois aí na sua boca? – perguntou Sasuke incrédulo enquanto Kakashi caia na risada.
— Ah! – exclamou Asuma parecendo notar os cigarros agora – Quem bom. Poupa-me o trabalho de acender um...
E passou a revezar um e outro em ambas as mãos, tragando-os pausadamente. Kakashi realmente estava se divertindo com a situação, notou Sasuke. Pouco tempo depois, Konohamaru chegou com as mãos no bolso e um dos lados do rosto vermelho.
— E aí? – perguntou Asuma ansioso – Nasceu?
— Não. – respondeu Konohamaru aborrecido – E a recepcionista disse que se eu perguntasse de novo, ela me estrangulava.
— Nossa que violência. – disse Kakashi sem esconder do garoto que achava aquilo muito engraçado.
— Por que ela está tão chateada? – perguntou Sasuke olhando para Kakashi com um ar de reprovação.
— Deve ser porque esse ai – Konohamaru apontou para Asuma — me mandou perguntar a mesma coisa umas cem vezes desde que chegamos aqui! E levei uma tapa por isso... — ele parecia muito irritado.
— Calma Konohamaru! – disse Asuma rindo – Tome, fume um cigarro e se acalme... – e ofereceu um dos cigarros de sua boca.
— Que tipo de tio é você?! Eu só tenho quinze anos!
— Aiaia... Então eu fumo por nós dois... – e acendeu o terceiro cigarro.
Nesse exato momento, Sakura saiu do hospital olhando para os lados como se procurasse algo. Quando os avistou, veio em sua direção parecendo bem irritada.
— Em vez de estar poluindo seus pulmões – começou ela aborrecida falando com Asuma – devia estar lá dentro dando apoio à sua esposa! Se continuar desse jeito, vai adquirir um câncer e morrer!
— Não se preocupe Sakura-chan! – disse Asuma sorrindo tranqüilo – Não morrerei por causa de um cigarrinho...
— Três. – corrigiu ela.
— Que seja. Três cigarrinhos. Eu espero ter uma morte mais honrosa... Mas me diga, já que está aqui, significa que meu filho nasceu? – seu rosto adquirira uma expressão iluminada.
— Filha. – corrigiu Sakura rindo — É uma menina.
Os três cigarros despencaram da boca de Asuma. Ele arregalou os olhos e ficou olhando-a como um idiota.
— Me... nina. – balbuciou — Uma menina? – ele parecia não acreditar.
— Sim. Uma linda e saudável menina. E Kurenai-san o espera.
Asuma deu um largo sorriso e correu em direção ao hospital puxando Konohamaru.
— UMA MENINA! UMA MENINA, KONOHAMARU! UMA SARUTOBI!! – gritava feliz.
— Aiaiaia, me solta velho doido! – reclamava o rapaz.
Depois que eles desapareceram, Sakura olhou para Kakashi e Sasuke dando um sorriso.
— Então tudo correu bem. – disse Kakashi apagando os cigarros com o pé.
— Sim. Foi um parto rápido. Kurenai-san não sofreu muito. – e olhando para Sasuke disse encabulada – Desculpe ter saído sem avisar...
— Não precisa se desculpar. Eu devia ter acordado com o barulho. Mas estava tão cansado...
— Vou deixar vocês a vontade – disse Kakashi saindo – Quero ver a nova membro da vila de Konoha. Espero que ela não se pareça com o pai...
E acenando, entrou no prédio.
— Bem, eu quero ir em casa – começou Sakura – Tomar um banho, descansar um pouco, e voltar mais tarde para ver Kurenai-san – e percebendo o olhar de Sasuke, acrescentou — como visita.
Sasuke sorriu e a abraçou.
— Certo. Eu vou com você até sua casa. Mais tarde vamos visitar Kurenai-san.
Ela levantou a cabeça e o encarou séria, como se estivesse procurando algo.
— Sasuke, alguma notícia do Naruto? – perguntou preocupada.
— Não. – disse ele pesaroso – Nenhuma notícia.
— Você pretende fazer alguma coisa?
— Esperar até amanhã. Se nada for informado à vila, irei imediatamente atrás dele.
Sakura suspirou tristemente.
— Não vamos nos preocupar com isso agora – falou Sasuke tentando anima-la, mas sem acreditar no que dizia – Venha, vamos comprar algo bem bonito para a nova mamãe.
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Neji observava a preparação da viagem de Hinata com um peso no coração. Não poderia acompanhá-la e isso o deixava extremamente frustrado. Mas não podia recusar uma missão designada pela Hokage. Antes de ser um Hyuuga, era um ninja de Konoha. Devia cumprir suas missões. Porém, havia pessoalmente escolhidos os acompanhantes de sua prima. Eram quatro rapazes da Bouke, que conheciam bem o terreno que levava à fazenda do primeiro ministro do País do Fogo. Há várias décadas as duas famílias mantinham uma proximidade que gerava muitos benefícios para ambos. Agora que o outono se iniciava e as colheitas estavam próximas, o político decidira viajar para sua fazenda, distante cerca de dois dias de Konoha, e aproveitara para convidar a nova líder e reafirmar os laços entre eles.
— Não é nenhuma reunião de política. – dissera Hiashi à filha e ao sobrinho – Mas também não é nada informal. Por isso, cuidado com suas palavras e atitudes.
— Sim senhor. – respondeu Hinata.
Ele fora incumbido de cuidar para que tudo desse certo na viagem. Mas se fosse por seu desejo, ela só seria feita no dia que ele terminasse sua missão. Mas o clã tinha pressa. Não iriam esperá-lo.
— Neji-sama. – chamara Nobuhiro, um dos rapazes que acompanhariam Hinata – Tudo está pronto.
— Ótimo. Estejam apostos. Vocês partirão a qualquer momento. – e se dirigindo até onde Hinata estava, sentou-se de frente para ela.
— Hinata-sama. Está tudo pronto. Poderá partir quando desejar.
Ela o olhou com a expressão cansada.
— Obrigada, Neji-nii-san. Quero ir imediatamente.
— Por que não espera um pouco? – insistiu ele – Ainda nem foi examinada pelo médico... E nem ao menos pretende visitar Kurenai-san e sua filha?
O coração de Hinata se estreitou ao ouvir o nome de sua sensei. A coisa que mais queria era poder vê-la, pedir conselhos... Mas ela provavelmente pensava a mesma coisa que todos da vila de Konoha a seu respeito. Principalmente depois do episódio entre Suzumi e Hanabi.
— Não acho prudente visitá-las agora. Quando voltar talvez... Mas queria que você, antes de sua missão passasse lá e levasse flores no meu nome... Não quero que a Kurenai-sensei pense que eu a esqueci... E transmita minhas desculpas, por favor.
— Sim Hinata-sama.
Hinata e seus acompanhantes deixaram a mansão, na mesma hora que Neji também saía. Mas antes dele tomar o caminho que levaria para fora dos portões de Konoha, se dirigiu à floricultura. O local estava bem animado, até a sua entrada. Enquanto ele se dirigia até Ino, sentiu todos os olhares voltados só para si. Ino também não foi diferente. O mediu com os olhos, e com um sorriso falso de vendedora, perguntou:
— Em que posso te ajudar Neji-san?
— Uma dúzia de margaridas, por favor.
— Claro... – disse ela friamente por cima do sorriso falso.
Alguns minutos depois, um buquê estava nas mãos da garota. Após pagar pelo serviço, Neji as recebeu. Mas elas não foram sozinhas.
— São para sua dona? – perguntou Ino tão logo entregou as flores.
Todas as pessoas pararam esperando sua resposta. Neji suspirou irritado. Estava se cansando daquilo.
— Você superestima suas flores, Yamanaka. – disse calmamente – Não há necessidade de oferecer algo tão ínfero à Hinata-sama.Mas como ela mesma pediu que as comprasse aqui para oferecer à sua antiga sensei, então me sujeitei a vir... Nas palavras de Hinata-sama, as flores da loja de Ino-san são as mais bonitas de Konoha... – virou-se para sair e antes de chegar à porta, acrescentou sem olhar para trás — Mas infelizmente tenho que discordar dela.
E saiu altivo, deixando todos boquiabertos.
O hospital estava bem movimentado. Não era de se espantar. Tanto Kurenai quanto Asuma eram muito queridos. Nada mais normal que receberem muitas visitas e presentes. Passou pela recepção, informou-se sobre a localização do quarto e se dirigiu para lá. Teve que esperar algum tempo para poder entrar. Enquanto isso, as pessoas cochichavam apontando para ele.
“Os deixem pensarem o que quiserem. Não me abalam.” Pensou.
Quando finalmente pôde entrar no quarto, viu o quanto o clã Yamanaka estava lucrando, pois por todos os lados viam-se flores, das mais diversas. Asuma estava debruçado sobre Kurenai dizendo alguma coisa muito gentil, pois ela sorria com as bochechas rosadas.
— Kurenai-san, Asuma-san. – falou respeitosamente para avisar de sua presença.
— Ah, Neji-kun! – disse Asuma sorrindo. – Que bom que veio! Opa, mais flores! Vou buscar mais alguns vasos.
— Vá mesmo. – pediu Kurenai alegremente – Senão daqui a pouco vamos ter que cavar o chão para acomodá-las!
Asuma recebeu as flores de Neji e saiu rindo. Tão logo ele saiu, Kurenai assumiu uma expressão séria.
— Como está Hinata? – perguntou sem rodeios.
Neji então percebeu, com um alívio no coração que nem todos em Konoha acreditavam nos boatos. Olhou para dentro dos olhos decididos de Kurenai. Sabia que não precisava mentir para ela.
— Muito mal. Não come direito, não dorme mais... Vive em um estado deplorável... – ele se sentia mal em dar essa notícia para alguém que acabava de se tornar mãe.
Kurenai começou a chorar silenciosamente. Levou as mãos ao rosto procurando impedir que as lágrimas continuassem.
— Por que, Neji? O que está acontecendo? – indagou incrédula.
— Quero saber tanto quanto você, Kurenai-san. Passei os últimos dois meses tentando descobrir enquanto me envolvia em missões, mas a Hinata-sama não me confidenciou nenhuma palavra... – e olhando a mulher à sua frente questionou – A senhora não acredita nesses boatos, não é mesmo?
Ela o encarou, incrédula.
— Em nenhum momento eu pensei que Hinata fosse capaz de um terço das coisas que lhe atribuíram nesse período. E até briguei com Konohamaru certa vez por conta disso. Eu e Asuma concordamos que deve haver algo por trás disso tudo. Se eu ao menos suspeitasse que qualquer coisa fosse verdade, teria ido falar com ela pessoalmente. A mim ela ouviria. Nem que eu tivesse que forçá-la a isso.
Neji sorriu.
— Então a senhora deveria ter ido. Mesmo sabendo que era tudo mentira.
— Ela não veio me ver por causa disso? – perguntou triste.
— Na verdade não – mentiu ele – Ela teve que fazer uma viagem a serviço do clã.
— E você não foi? – surpreendeu-se ela.
— Tenho uma missão. – disse pesaroso – Passei apenas para cumprir essa ordem de Hinata-sama. Ela não a esqueceu. Deseja felicidades e pede perdão.
— Obrigada por vir, Neji. – agradeceu Kurenai sorrindo – E diga a Hinata que não há o que perdoar.
Ele se curvou e saiu.
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Sasuke caminhou ao lado de Sakura até o hospital. Depois que passaram na floricultura para comprar flores para Kurenai, ficaram sabendo que Neji estivera lá e que, supostamente, destratara Ino.
— Quem eles pensam que são?! – dizia Sakura irritada – Não agüento mais isso. Primeiro Naruto, depois Suzumi e Ino... Quem vai ser o próximo?
Ele concordava com a namorada. Aquela situação estava indo longe demais. E cada vez mais dizia para si mesmo que a tendência seria apenas piorar com o tempo. Foi então que um pensamento sombrio lhe passou pela cabeça. E se o motivo da demorar de Naruto fosse justamente causado por aqueles fatores? E se o clã Hyuuga estivesse, de alguma forma, envolvido naquele sumiço?
“Não...” pensou tentando ser racional “Eles não se atreveriam a tanto...”.
Naquele momento em que esses pensamentos estavam tão frescos e latentes em sua mente, Sasuke viu Neji saindo do hospital. Ele vinha em sua direção, de cabeça erguida, com a tradicional arrogância do clã Hyuuga. O chefe da anbu sabia que, naquele momento, o rapaz deveria estar em missão e não ali pela vila. Seus olhos se encontraram e o ar ficou imediatamente mais frio e pesado. Sorrindo sarcasticamente, Sasuke falou:
— Então, você é muito competente, não é mesmo, Hyuuga Neji? Já acabou tão cedo a missão designada pela Hokage-sama...
Neji parou de andar, analisou o rosto de Sasuke por um momento e respondeu em um tom frio:
— Não creio que minha eficiência esteja dentro de suas responsabilidades, Uchiha Sasuke. Não sou membro da anbu, portanto, não te devo satisfações.
Sakura olhou para Sasuke, depois para Neji e apertou o buquê de flores contra o peito. Não era bom que aquela conversa continuasse.
— Sasuke-kun... – pediu ela séria – Vamos. Não quero que as flores murchem antes de entregar à Kurenai-san...
Sasuke, porém não parecia estar escutando a namorada aflita. Continuou encarando Neji, que também não desviava o olhar.
— Diante de sua resposta – começou Sasuke ainda com um sorriso esnobe – posso supor que você ainda não foi cumprir suas ordens não é mesmo?
Neji também sorriu.
— Fui bem claro quando afirmei que isso não te interessava. Mas se isso vai aplacar a sua curiosidade, devo dizer que não, ainda não fui.
Sasuke balançou a cabeça negativamente.
— Se sente tão superior assim, Neji? Que nem ao menos se importa em cumprir uma simples missão?
— As missões me importam tanto quanto à você. E eu já estaria a caminho dela, se você não estivesse em meu caminho, me detendo com tolas palavras. E ao fato de me sentir superior devo desapontá-lo. Não me sinto superior. Sei que sou.
Os lábios de Sasuke se crisparam, mas ele não alterou o tom de voz quando falou:
— Como todos em sua família, não é mesmo? Acham que podem se desfazer dos outros sem remorso nenhum, estou errado?
Neji arqueou as sobrancelhas como se estivesse finalmente achado uma resposta para uma questão muito difícil.
— Então é isso – disse ele sorrindo desdenhosamente – Seu problema não é o fato do cumprimento de minha missão ou não. Você está tomando as dores de seu querido amigo... Não acha que ele já tem capacidade de se defender sozinho não, Sasuke?
— Naruto sabe se defender melhor que qualquer um de nós dois, Neji. – disse Sasuke do mesmo modo que o outro – Porém, quando somos apunhalados pelas costas costumamos perder um pouco dessa noção de defesa, não concorda?
Soltando uma risadinha maldosa, Neji respondeu:
— Não sei essa resposta, Sasuke. Mas creio que o próprio Naruto seria o mais indicado para respondê-la, não concorda? Afinal, não foi a primeira vez que ele se viu sozinho depois que alguém o deixou pra trás não é? Ou não me diga que você esqueceu de sua pequena jornada de três anos atrás?
Quem estava ao redor ouvindo a fria discussão, se encolheu diante das palavras de Neji. Ele tocara num ponto extremamente sensível não só para Sasuke, mas para todos na vila de Konoha. O chefe da anbu rangeu os dentes por um momento. Mas depois pareceu recuperar a frieza.
— Não esqueci não, Neji. Como também não esqueci que, a mesma pessoa a quem você serve com tanto fervor agora, quase foi morta pelas suas mãos, seis anos atrás...
Sakura estava aflita. Os insultos velados começaram a ficar mais pesados.
Neji meneou a cabeça como se estivesse ouvindo o maior dos absurdos. Com uma das mãos retirou uma mecha de cabelo que havia caído sobre seus olhos. E encarando Sasuke, falou:
— Há um abismo muito grande entre nossas ações, Sasuke. Meu confronto com Hinata-sama foi um duelo honrado, dentro das normas da vila, com testemunhas e permitido pelo falecido Terceiro Hokage... E quanto a você? Traiu seus amigos, sua vila, se aliou a um ninja perigoso que quase destruiu Konoha em sua ambição. – e como se supostamente só tivesse lembrado daquilo agora, disse ironicamente — Ah, esqueci de mencionar que o citado ninja a quem você se uniu foi o mesmo que assassinou o nosso Hokage naquela época.
Ninguém perdia um só momento daquela disputa de emoções que havia se estabelecido. Sasuke parecia que ia explodir a qualquer momento.
— Não me venha com lições de moral Neji. Você fala em luta honrada, mas quase matou sua prima em sua fúria. Você parece que sabe tão bem quanto eu o que é perder alguém que amamos e ser consumido pelo ódio.
— Sim eu sei. Como sei também que, se Hinata-sama assim quisesse, poderia ter me matado antes que eu tivesse deferido o primeiro golpe. – e passando o dedo pela bandana em sua testa acrescentou – O selo que prende a Bouke dá poder de vida e morte sobre nós para a Souke. Bastava uma palavra para que ela me matasse sem a necessidade de fazer um único movimento. E em nenhum momento ela atentou contra a minha vida. Nem quando a sua estava em risco.
Sasuke começou a rir debochadamente.
— Agora sua “Hinata-sama” é uma salvadora, hein? Pena que parece que essa índole bondosa dela se manifeste apenas para com os membros de sua família. Por que, para Naruto, tudo que ela fez foi se mostrar justamente o contrário!
— Você já se perguntou o motivo disso, Sasuke? Nunca te passou pela cabeça que Naruto possa ter provocado essa situação? Que ele pode ter ferido Hinata-sama ao ponto de ela se recusar a vê-lo?
Sasuke olhou incrédulo.
— Mesmo que quisesse Naruto não tem capacidade mental de fazer mal a ninguém!
— Sasuke-kun... – falou Sakura constrangida – Era para defender o Naruto, não ofendê-lo...
— Você deve ser mais idiota que ele por pensar isso. – alfinetou Neji.
— E o que leva você a pensar que sua amada líder não provocou essa situação? – revidou Sasuke quase cuspindo aquelas palavras.
— Por que eu tenho presenciado o sofrimento de Hinata-sama durante todo esse tempo. A vejo chorar durante o sono, definhar dia após dia de tanta dor, a vejo morrer aos poucos e chamar pelo nome de Naruto em seus pesadelos. Ela sim está sofrendo. E qual mulher que ama tanto ao ponto de deixar-se levar pelas correntes da infelicidade, se recusaria a estar com seu amado se não tivesse um ótimo motivo para aquilo?
A revelação chocou todos os presentes. Até então ninguém imaginava que Hinata pudesse estar sofrendo tanto por Naruto. E pelas palavras de Neji, até mais que o próprio. Seria a verdade ou só um meio de fazer a líder do clã Hyuuga de vítima?
— Você parece acreditar muito nela, não é mesmo? – falou Sasuke sem dar mostras que acreditava em uma única palavra do que Neji dissera – O que pretende Neji? Atrair simpatizantes para sua adorada líder?
— Não. – disse convicto – Hinata-sama não precisa de simpatizantes. Ela tem todo o clã Hyuuga para acreditar nela e segui-la até a morte. Não precisamos da compaixão de ninguém. Você mais que ninguém deveria saber o quanto nossa família é importante para nós, Sasuke. Ou já esqueceu o que é compartilhar laços de sangue?
Faíscas saltavam dos olhos de Sasuke que parecia prestes a atacar Neji, que continuava calmo e sereno, mesmo tendo um olhar gélido e insensível.
— Não Neji. – disse Sasuke tentando controlar suas emoções – Por isso estou aqui me sujeitando a falar com você. Eu defenderei Naruto até a minha morte! Ele é como se fosse um irmão para mim!
— Um irmão que você abandonou durante três anos! – relembrou o outro serenamente.
— E o que Hinata é para você Neji? – disse enfurecido – Para acobertar o que ela faz?
— Hinata-sama é minha vida. – falou Neji como se retirasse essas palavras do fundo de sua alma – E não preciso acobertá-la, Sasuke. Se há uma vítima nessa história é ela e não seu precioso “irmão”. – essa última palavra foi dita com tanto desdém que Sasuke parecia que não se conteria por muito tempo.
— Acho que já entendi... – disse Sasuke tentando rir displicente sem muito sucesso – Você a ama, Neji? Por isso se empenha tanto em defendê-la e deixá-la longe de Naruto?
Os olhares recaíram instantaneamente sobre Neji, como se esperassem vê-lo encurralado. Mas não foi isso que aconteceu. Neji apenas abriu um sorriso de desdém e falou sem nenhuma inflexão na voz:
— Se já está apelando para esse tipo de acusação sem fundamento, Sasuke, vejo que não há mais necessidade de falar com você. É muito atrevimento seu sequer imaginar que minha devoção por Hinata-sama pudesse ser explicado por um sentimento tão pequeno e mesquinho quanto o amor.- E fazendo uma pausa, olhou profundamente nos olhos de Sasuke e disse — Eu não amo ninguém. Meus sentimentos por Hinata-sama dizem respeito somente à minha obrigação para com ela, como líder do clã e como minha única família. E quanto ao ato de mantê-la longe de Naruto... Devo admitir que você esta certo. Enquanto ele não me provar e provar a todos nós sua inocência e seus sentimentos pela Hinata-sama, ele continuará sendo para mim, e todo o clã, apenas um estorvo. Bem como todos os inúteis que se envolvam com ele. – e com o objetivo explícito de atingir Sasuke, acrescentou — Principalmente você.
Sasuke não precisava mais de nenhuma palavra. Já estava em seu limite. Deu um passo para frente, com os olhos já totalmente vermelhos, na intenção de atacar o rapaz à sua frente que nem ao menos parecia querer se mover. Mas Sasuke não atacou, mesmo que essa fosse sua intenção. Asuma interferiu entre os dois rapidamente. Enquanto soltava calmamente a fumaça de seu cigarro, ele falou para ambos sem, contudo, olhar para nenhum.
— Não quero brigas por aqui, rapazes. – falou num tom sério – É o nascimento de minha filha e gostaria que tudo estivesse o mais calmo possível. Se quiserem resolver suas questões pessoais, façam em outro lugar e outro dia. Não aqui, não agora.
Neji deu de ombros. Não parecia interessado em nenhuma briga seja qual fosse o dia ou situação. Virou as costas para Sasuke, que permanecia com o rosto contorcido de ódio, e saiu em direção à saída da vila. Estava satisfeito. Parecia ter abalado muitas pessoas que assistiam a cena com seus argumentos. Finalmente a vila de Konoha conhecia o outro lado da história. Quando Hinata voltasse de sua viagem, provavelmente pudesse visitar sua antiga sensei sem precisar suportar todo o ressentimento da vila. Com um sorriso nos lábios, deixou Konoha e começou a correr o mais rápido que pôde. Terminaria logo aquela missão e se uniria à escolta de Hinata antes mesmo dela chegar ao seu destino.
Notas finais
Curtam o capítulo e quem tem muita curiosidade para o próximo capítulo e não quer esperar eu postar aqui, visite minha comunidade no Orkut ‘Contos da Joy’. ;Dd
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