O Tempo e a Esperança

36 Capítulo XXXI – Sob a luz de teus olhos


Notas iniciais
Pessoal, quero deixar claro que leio todas as reviews, apenas não tenho tempo de responder uma por uma. Então, podem continuar deixando seus comentários, ok? Bjs!!!

Capítulo XXXI – Sob a luz de teus olhos

Neji abriu a porta de correr silenciosamente. O sol penetrou o quarto de Hinata suavemente, e seus raios tocaram a face da garota como se fossem suaves beijos. Ela abriu os olhos devagar, se acostumando com a claridade. Remexeu-se na cama e sentou quando percebeu que não estava sozinha no quarto.

— Bom dia Hinata-sama. – cumprimentou ele sorrindo para ela.

— Neji-nii-san... – Hinata pareciam um pouco confusa – Bom d-dia...

Ele se aproximou dela e pôs a mão em sua testa. Hinata não pode deixar de sorrir desse gesto.

— Sem febre. – suspirou ele aliviado – Fiquei receoso que o remédio tivesse sido fraco demais.

— Remédio? – perguntou ela.

— Não se lembra de nada, Hinata-sama? – indagou curioso.

Sim, ela lembrava, mas vagamente. Tão logo chegaram em casa, seu pai havia levado-a para o quarto. Depois, Hanabi a ajudara a tomar um banho. Quando Neji lhe dera um chá para aliviar as dores no corpo, dormira logo em seguida, cansada pelo desgaste físico e emocional que sofrerá. Correu os olhos pelo quarto. O cheiro tão familiar de lavanda a deixava tranqüila. Era bom se sentir segura de novo. Tudo estava exatamente no mesmo lugar que deixara. Nemo continuava nadando tranquilamente ao lado da Kyuubi de pelúcia. Uma palpitação fez seu peito doer. Lembrara de Naruto. Imediatamente voltou sua atenção para o primo.

— Neji-nii-san... Eu estou dormindo desde aquela hora que chegamos? – ela tentava desviar o pensamento triste.

— Na verdade, você dormiu pelos últimos três dias, Hinata-sama...

— Três dias? – ela parecia chocada.

Uma sobra de tristeza passou pelos olhos de Neji.

— Foi todo o estresse a que você foi submetida. Depois que adormeceu, começou a ter uma febre muito forte. Nós tivemos que medica-la – e dando uma pausa, falou a contragosto – Você chamou pelo nome de Naruto o tempo todo.

Um rubor atingiu o rosto de Hinata e ela desviou a vista de seu primo. Esperava que ele começasse a falar contra Naruto e não poderia dizer nada. Todos deviam ter ouvido seu desabafo. Neji deveria estar odiando Naruto bem mais. Todavia, o rapaz não disse nada. Limitou-se a observá-la e depois, suspirando, se levantou.

— Seu pai a espera para tomarem café da manhã juntos. Avisarei a ele que você já acordou e passa bem. – se encaminhando para a porta, ele parou por um momento e virando a cabeça, a encarou – Quando estiver com vontade de falar, eu lhe ouvirei, Hinata-sama.

E a deixou sozinha para poder se vestir.

Hinata não pretendia falar nada. Seu passado com Naruto estava acabado. Não podia voltar atrás no que dissera. Mesmo assim, doía pensar. Doía saber o que teria que enfrentar sem ele. Levantou-se e foi ao banheiro. Tomou um banho demorado, procurando apagar de sua memória a face dele. Mas era uma batalha perdida. Nunca se esqueceria do sorriso maroto dele, nem de sua voz macia, nem de seus beijos carinhosos. Estava condenada a viver de um amor que não existia mais.

Vestida com o quimono tradicional de líder, ela se dirigiu até a sala de refeição. Seu pai a esperava lá, juntamente com Neji.

— Onde está Hanabi? – perguntou triste. Ela queria muito falar com a irmã.

— Depois que soube que você estava bem, foi para o dojo de Lee. – esclareceu Neji – Parece que ela está treinando para virar jounin.

— Jounin? – estranhou Hinata – Mas ela acabou de se tornar chunin!

— Ela ficou muito abalada com seu seqüestro, Hinata-sama. Disse-me que pretende ela mesma defende-la da próxima vez. – havia uma pontada de satisfação na voz dele.

— Não haverá próxima vez. – decretou Hiashi.

Hinata o olhou. Seu pai ainda exibia os traços de cansaço de quando a tirara angustiado dos braços de Neji, mas parecia ter recobrado a postura de sempre. Mas ela não se importou. Gostava de seu pai, não importava qual seu humor. Sempre o amaria. Pensando nisso, sorriu para ele.

— Não, papai. Realmente não haverá. Eu irei treinar mais, e não precisarei ser salva por ninguém. A partir de hoje, lutarei eu mesma pela minha vida.

Hiashi levantou os olhos de sua xícara de chá. Um brilho estranho perpassou por sua face.

— Não me referi a isso, Hinata. Sei que você pode lutar. O que eu quero dizer é que não é mais prudente você se afastar dos domínios do clã.

Hinata olhou rapidamente para Neji que também parecia surpreso com a determinação de Hiashi. O homem continuou a tomar seu chá tranquilamente, como se não notasse aqueles olhares inquisitórios.

— Papai, o que exatamente senhor quer dizer com isso? – perguntou aflita.

— O que exatamente você entendeu. Você está proibida de deixar os domínios do clã, a não ser sobre minhas expressas recomendações.

As portas do mundo que já se mostravam estreitas para Hinata, subitamente se fecharam. Levou as mãos em direção da boca, tentando fazer que o tremor de seus lábios não fosse notado por Hiashi. Neji, então, entendeu que não podia ficar calado.

— Hiashi-sama, creio que essa decisão é um tanto precipitada. Mesmo que Hinata-sama realmente deva ficar sem sair da vila por um tempo, não vejo por que ela deva se privar de andar por Konoha...

— Não há nada para ela fora desses muros. – sentenciou ele.

Neji não parecia convencido.

— Mas, Hiashi-sama...

— Deixe Neji-nii-san – pediu Hinata conformada – Papai tem razão. Não há nada que me espere fora do clã Hyuuga...

O tom dela foi tão triste, que nem mesmo Hiashi pode deixar de sentir. Mas apenas deu de ombros. Não iria arriscar sua filha por mais nada. Nem pela vila, nem por ninguém.

— Coma Hinata. – pediu Hiashi – Deveremos retornar ao trabalho logo. Mantive o clã funcionando perfeitamente, mas você precisa retomar seu posto.

Ela afirmou com a cabeça. Precisava manter a mente ocupada. Senão iria enlouquecer.

O dia passou rápido, e logo anoitecera. Hanabi retornou a casa somente depois do sol posto e parecia cansada e satisfeita. Abraçando a irmã, passou a contar tudo que fizera no dojo:

— Eu lutei contra Tasuki e Kasuma ao mesmo tempo! Claro que o idiota do Tasuki não dá trabalho, mas com o Kasuma deu pra penar. Mas quebrei seus genjutsus e anulei seus ninjutsus!

— Esse Kasuma parece ser muito bom... – comentou Hinata tentando sorrir animada.

— Ele é... Bem, o Taijutsu dele é uma porcaria por que ele é muito novo ainda, mas em matéria de Ninjutsu e Genjutsu... – Hanabi de uma pausa e percebendo que seu pai estava distraído e não ouvia a conversa, ela sussurrou para Hinata – Eu não lutaria a sério com Kasuma... Não tenho certeza que ganharia...

Depois, enquanto ela relatava animada a luta que tivera a seguir com Lee, Hinata passava a mão pelos cabelos da garota. Todos pareciam felizes e satisfeitos. Ela também deveria estar assim. Sua alma devia descansar segura na comodidade de seu lar, na presença das pessoas que amava, na consciência do que era realmente importante. Então por que toda aquela aparente tranqüilidade apenas a feria mais? Por que simplesmente sorrir doía mais que chorar? Por que de repente aquela vontade de sair correndo do ambiente calmo?

Naruto.

Essa era sua resposta.

Depois que jantaram, foi até seu quarto. Ficou pensando em tudo que acontecera por algum tempo. Como ele estaria? Estaria pensando nela? Ou sua raiva apenas aumentara? Queria muito voltar a ver aqueles olhos de novo, mas não com o brilho inquisitório da ultima vez. Queria, se seu orgulho permitisse, pedir perdão, pedir pra voltar, contar tudo que estava em seu coração, poder abraçá-lo e beija-lo. Se ele tivesse dito uma vez, uma única vez que a amava, tudo seria tão diferente...

Ficou por um tempo remoendo essas suposições. Depois não agüentou mais. Levantou-se de sua cama e passou a andar pela casa. A noite estava fria e ela sentiu o assoalho gelado por baixo de seus pés nus que, inconscientemente, a levaram para o escritório de seu pai. Havia uma luz acesa lá. Bateu levemente na porta e depois entrou. Hiashi estava sozinho. Ela ficou na porta olhando para ele até que, com um aceno, ele pediu pra ela entrar.

- Sem sono, Hinata? – perguntou olhando para ela por cima de uma pilha de documentos à sua frente.

Ela afirmou com a cabeça.

- Nada mais natural. Você dormiu pelas ultimas setenta e duas horas. Deve demorar um pouco para voltar ao seu ritmo normal. – e voltou seus olhos para um pergaminho.

-Está ocupado? – perguntou ela se aproximando do kotatsu onde seu pai estava.

- Um pouco. Neji foi buscar um pouco mais de chá para nós. Sente-se. – convidou.

Se acomodando debaixo do kotatsu, viu todos os documentos que ocupavam a mesa. Para dar tempo de sua recuperação, ele estava trabalhando até mais tarde para que não chegasse muito trabalho em suas mãos convalescentes.

- Quer me dizer alguma coisa, Hinata? – perguntou ele sem tirar a vista do papel que lia.

- Pai... – começou ela.

Hiashi levantou os olhos e a encarou.

- O que aconteceu com os corpos de Nobuhiro e dos demais? – perguntou tristemente.

- Neji me disse que Kakashi enterrou todos eles. – esclareceu parecendo desconfortável – Como seus corpos ainda estão nos domínios do país do Fogo, solicitarei à Hokage que façamos um pequeno templo naquele local em homenagem a eles. Eram rapazes muito dedicados.

- Eu... Posso pedir algo? – sua voz soou trêmula e ansiosa.

Ele a encarou receoso.

- Peça. Só não sei se poderei atender.

- É sobre o filho do Tetsu.

Hyuuga Tetsu foi o Hyuuga que perdera a cabeça durante a luta contra os ninjas da Nuvem.

- O que tem o filho do Tetsu? – quis saber Hiashi.

- Ele tem três anos... Em breve fará quatro...

- E será selado como todo membro da Bouke.

- É justamente isso. O pai dele morreu para me proteger. Eu queria que, em homenagem a isso, o menino fosse incorporado à Souke.

Hinata viu que pela primeira vez na vida conseguira surpreender o pai. Hiashi parecia ter perdido a voz por um segundo, mas logo recuperou a compostura.

- Isso que você me pede é um absurdo! – exclamou – Tetsu morreu cumprindo sua obrigação. Não há necessidade disso.

Não era estranha a recusa do pai. Na verdade, ela sabia que havia poucas chances dele aceitar isso. Mas não escondeu sua decepção.

- E-eu e-entendo... – balbuciou. Mas era mentira. Ela jamais compreenderia aquilo.

Uma mão forte e quente cobriu a dela. Hinata viu, com surpresa, Hiashi tocar em suas mãos com delicadeza. E a observava preocupado.

- Você está doente Hinata. Precisamos cuidar de você. Não se preocupe com esse tipo de coisa.

Ela negou com a cabeça.

- Não é meu corpo que precisa ser cuidado...

Sabia exatamente do que ela falava. Mas não iria dar espaço para aquilo. Hiashi retirou a mão de cima da dela e voltou sua atenção mais uma vez para os documentos à sua frente e continuou a fazer seu trabalho.

“Talvez... Só mais uma vez...” pensou Hinata com desespero.

- Papai... Quando eu fiz aquela promessa a você no hospital... – começou ela.

- Você estava ciente do que faria quando aceitou meus termos. – cortou Hiashi – E eles foram bem claros e ainda estão de pé.

Naquele momento, Neji se aproximava com a chaleira e alguns onigiri. Mas estancou em frente à porta fechada quando essa conversa se iniciou.

- Eu sei – disse Hinata com a voz trêmula – o senhor me deu onze dias, ou seja, daquele dia até a data do meu aniversário eu teria liberdade para fazer tudo que eu quisesse. Em troca, ao final daquele prazo, eu iria cortar todos os meus laços com qualquer pessoa que pudesse prejudicar minha responsabilidade com o clã.

- Mais exatamente, eu exigi que você cortasse relação com Uzumaki Naruto. – disse Hiashi sombrio.

“Então foi isso!” pensou Neji. Naruto não havia abandonado Hinata, nem fizera nada para forçá-la a tomar essa atitude. Quem estava por trás do rompimento dos dois desde o início era Hiashi. Por um momento, Neji se culpou por não ter percebido antes. Não existia força que maior que pudesse subjugar a vontade de Hinata tão facilmente quanto a do pai.

- Pai... Eu só aceitei esse acordo por que a outra opção que me foi oferecida era muito pior! O senhor queria que eu cortasse ligação com Naruto no momento em que ele mais precisava de mim! – argumentou Hinata.

- Se você tivesse me ouvido naquele dia, teria evitado toda essa situação em que nos encontramos e poupado a todos. Principalmente a você. Quando eu lhe dei aqueles dias, achei que seria prudente de sua parte se você fosse afrouxando seus laços com ele, até poder cortá-las definitivamente. – ele parecia irritado quando continuou – Mas ao invés de seguir por esse caminho, você estreitou mais ainda esses laços, fazendo com que a separação fosse muito mais dolorosa para você!

- Eu o amo, pai! – exclamou ela.

Pela segunda vez naquela noite ela surpreendeu seu pai. Havia uma grande diferença entre saber que determinada pessoa sentia algo forte por outra e ouvir uma declaração repleta de sofrimento e desespero dessa mesma pessoa, como a que Hiashi acabara de ouvir.

- Mas ele não te ama. – falou ele sem nenhuma inflexão na voz.

- Nunca ninguém irá me amar se eu continuar presa a essas amarras que você me impôs pai! – argumentou fervorosamente com o coração cheio de angustia.

- Você não precisa de amor, Hinata. Apenas precisa de sua família! – Hiashi foi taxativo.

- E você, pai? Nunca precisou de amor? – indagou desesperada.

- O amor quase me destruiu uma vez. Não permitirei que isso aconteça novamente nessa casa! – bradou Hiashi.

- Pai... – ela chorava agora – Por favor...

- O que você me pede, Hinata, soa para mim como se eu estivesse assinando sua sentença de morte. Pare de se iludir! – disse intempestivamente. Para ele por mais que tivesse presenciando o sofrimento de Hinata, ele não acreditava que Naruto pudesse fazê-la feliz, ou mesmo demonstrar qualquer tipo de sentimento por ela. Em sua mente estava livrando sua filha de prolongar o sofrimento que ela sentia no momento.

- Eu não posso esquecer-me do Naruto-kun! – sua voz se elevara ao mesmo volume de Hiashi, mas nem mesmo assim ele se comoveu.

- Se você não pode, eu irei apagá-lo de você... – A determinação em sua voz era de tal forma intensa que beirava a crueldade.

No primeiro momento, ela não entendeu o que ele dissera. Depois observou horrorizada Hiashi mostrar a foto que ela e Naruto tiraram no show que foram ao lado de Sakura e Sasuke.

- Onde... – começou ela, mas perdeu as palavras.

- Você não pode esconder nada de mim, Hinata.

Quando viu seu pai aproximar a foto da vela que se encontrava em sua mesa, ela se lançou sobre ele, tentando detê-lo, procurando tomar a foto de suas mãos.

- Não! – gritou desesperadamente.

Hiashi a empurrou com um movimento a fazendo cair sentada no chão. E foi horrorizada que viu seu pai queimar lentamente àquela lembrança. A foto primeiramente ficou vermelha das chamas, para depois foi se tornando preta e disforme até sobrar apenas cinzas sobre a mesa. Para Hinata, os poucos segundos que transcorreram vendo a foto ser destruída lentamente se estenderam por mais tempo que deveriam fazendo com que ficasse a sensação de que o tempo teria parado. Observou aquela cena com olhos arregalados e repletos de lágrimas e sofrimento sufocante, sentindo que seus sonhos era destroçados a cada cinza que caia. Ao ver que nada mais restava da foto, pode sentir nitidamente seus sentimentos quebrarem como vitral, e viu os cacos de seus sonhos caírem lentamente ao seu redor.

Como se apenas chegasse agora e não tivesse ouvido nenhuma palavra, Neji entrou sem nenhuma expressão dentro da sala.

- Trouxe mais chá, Hiashi-sama. – anunciou friamente.

Hinata limpou as lágrimas rapidamente e se levantou. Queria sair correndo dali, mas suas pernas mal se mexiam. Sem dizer nada, caminhou lentamente para saída, e ouviu seu pai dizer:

- Se isso a fará se sentir melhor Hinata, falarei amanhã com o conselho e levantarei sua proposta sobre o filho de Tetsu.

“Tomar com uma mão... Dar com a outra...” pensou ela amargamente.

- Obrigada, pai... – murmurou antes de sair.

Neji não fez nenhum comentário sobre o que se passara. Continuou trabalhando normalmente com seu tio, até que o relógio marcar quase meia-noite. Foi quando decidiu ir embora.

- Minha ajuda ainda é necessária, Hiashi-sama? – perguntou displicentemente.

- Não. Pode ir se deitar. – disse ele.

Quando Neji se levantou, Hiashi o deteve segurando em seu braço.

- Cuidado com suas ações, Neji. – avisou com um olhar que dizia que não acreditava naquela aparente placidez.

- Sempre tenho, Hiashi-sama. – falou calmamente.

E era verdade. Ele nunca agia sem pensar. Por isso, tomou cuidadosamente o caminho do quarto de Hinata. Ela não estava na cama. No primeiro momento, ele ficou preocupado. Porém, logo em seguida, ouviu um barulho vindo de seu banheiro. Ao se aproximar, viu Hinata debruçada sobre a privada, vomitando sofregamente, com o corpo coberto de suor.

- Hinata-sama! – exclamou Neji.

Com dificuldade ela levantou. Deu a descarga e depois se lavou na pia. Sem olhar para ele, sussurrou:

- Adianta eu mandar você ir embora?

- Não. – respondeu ele.

Ajudou-a a voltar para o quarto, mas Hinata não estava nada bem. Arfava e parecia não conseguir respirar muito bem.

- Vamos até a varanda Hinata-sama. Você precisa de ar puro. – e a puxou gentilmente para fora do quarto.

O céu estava nublado e as nuvens encobriam a luz da lua, dando uma aparência mórbida à paisagem a volta. Hinata se apoiou nele enquanto respirava profundamente, mas sem conseguir conter as muitas lágrimas que lavavam sua face. Diante de todo esse sofrimento, Neji decidiu que já era hora de acabar com aquilo. Não agüentava mais ver Hinata sendo massacrada daquela forma e apenas assistir tudo passivamente. Não iria mais receber ordens de ninguém. Iria fazer o que achava o correto.

- Enquanto você estava dormindo, não permiti que ninguém a examinasse sem seu consentimento. Mas isso acaba agora. Vou examiná-la Hinata-sama e descobrir os motivos de sua doença. – avisou Neji.

Hinata não disse nada, nem o impediu. Não tinha forças para fazê-lo.

Neji ativou seu byakugan e começou a procurar as causas da enfermidade de sua prima, enquanto mantinha a mão sobre a testa dela, resplandecendo de chakra de cor esverdeada. Percorrendo o corpo dela com os olhos, precisou de apenas poucos minutos para descobrir a causa de seu sofrimento. Deteve seus olhos sobre o coração da garota que batia acelerado e se encheu de tristeza e decepção.

Ela já devia saber a muito tempo o que acontecia em seu corpo a julgar pela expressão desesperada que o encarava agora. E sofrera aquele tempo todo sozinha.

Hinata logo soube que Neji tinha descoberto. Ele a olhava com uma multidão de sentimentos, dos quais ela não conseguia, ou não queria descobrir nenhum. No auge de sua aflição, ela fez a coisa que mais parecia sensata. Atirou-se nos braços dele, despejando tudo que estava preso de sua alma durante aqueles dois meses. Foi um pranto longo, triste e arrebatado. Neji retribuiu o abraço e, desajeitadamente, passou a mão sobre os cabelos de Hinata.

- Neji-nii-san... – balbuciou ela durante o choro.

Neji inclinou-se em direção ao rosto de Hinata e, quanto sua boca estava rente aos seus ouvidos, sussurrou para somente ela ouvir:

- Irei protegê-la até o fim... Hinata-sama...

E com seus justus médicos, Neji a sedou. Levou-a de volta para o quarto carinhosamente e deitando Hinata cuidadosamente sobre a cama, levantou-se, saiu e fechou a porta.

“Ela tem tão pouco tempo...” pensou sombriamente se dirigindo à saída do clã. Ele sabia o que tinha que fazer. Estava na hora de resolver todo aquele problema.

E tinha a plena certeza de que somente ele podia fazê-lo.

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Hanabi estava muito atrasada e aquilo lhe incomodava. Nunca gostara de demorar a chegar em casa, mas fora inevitável daquela vez. Enquanto entrava rapidamente pelo clã, mas procurando fazer silêncio, desejava que seu pai não ficasse zangado, nem que reclamasse com ela.

Naquela noite depois do jantar, já que Neji iria trabalhar ajudando Hiashi com uns documentos, ela decidira dar uma saída e procurar algo que pudesse animar sua irmã. Hinata passara todo o jantar calada, com a aparência tristonha, possivelmente ainda relembrando todo estresse passado durante o seqüestro. Mesmo que não pudesse fazer muito, animá-la já era mais que suficiente. Por isso, tão logo pode sair se dirigiu a uma doceria de Konoha. Pretendia apenas comprar alguns doces para sua irmã e voltar imediatamente para casa. Todavia, acabara encontrando Tasuki e Kasuma no caminho e se entretera com eles, e passaram um bom tempo comentando as lutas que tiveram naquela tarde. Também soubera de algumas coisas que acontecia na vila.

— Parece que todo o Time três recebeu alta agora a pouco. – comentou casualmente Kasuma.

— Perdedores... – resmungou Hanabi em tom aborrecido, enquanto escolhia os doces mais bonitos que via no mostruário.

— Não acho. – rebateu Tasuki – Parece que eles derrotaram um jounin e ajudaram muito no resgate de sua irmã... – o menino imediatamente se arrependeu depois do que fizera.

Hanabi se voltou com os olhos faiscando em raiva para o colega, que logo procurou segurança se escondendo atrás de Kasuma, mesmo sendo mais alto que o menino.

— Quem resgatou minha irmã foi o Neji! – falou a garota parecendo irritada e fazendo Tasuki se encolher – Não sei por que todos insistem em dizer que aqueles fracotes ajudaram!

— Deixa ela Tasuki – pediu Kasuma quando Hanabi se afastou um pouco para pagar o que escolhera – Ela está chateada por que a Kimura foi pro resgate e ela não...

Mas a discussão não parou ali, para total desespero do pobre Kasuma, que teve que servir de mediador entre os colegas. A situação perdurou mais algum tempo, até que encontraram Lee que passeava com Tenten naquele momento. Alegremente, o jounin cumprimentou seus alunos:

— O que fazem aqui há essa hora? Deviam estar em casa.

— Nada demais sensei. – respondeu Kasuma um pouco envergonhado – Apenas conversando.

Lee olhou para a expressão irritada de Hanabi e depois para a amedrontada de Tasuki e viu que “apenas conversando” era uma forma pacificadora de Kasuma dizer que estava tentando proteger Tasuki dos punhos de Hanabi. Por isso tentou aplacar um pouco a tensão deles:

— Então vamos comer doces! – exclamou Lee alegremente fazendo a nice guy pose – Eu pago!

— Aproveitem a boquinha livre meninos! – brincou Tenten

E assim, Hanabi acabou arrastada pelos colegas e se juntou ao seu sensei e a namorada dele numa conversa muito agradável, apesar de suas ocasionais explosões envolvendo Tasuki e bombas de chocolate. Mesmo tendo jantado, não resistiu aos diversos chocolates que lhe foram oferecidos por Lee. Mesmo achando que seu sensei era extremamente desprovido de bom gosto e elegância no quesito vestimenta, gostava muito dele e fora agradável passar algumas horas com seu time, ainda que a presença de Tenten a incomodasse um pouco. Não esquecera que a garota já gostara de Neji. Mas a Tenten fora simpática, atenciosa e parecia realmente apaixonada por Lee.

— E aí sensei, quando sai o casamento? – perguntara propositadamente esperando a reação de Tenten.

— Ah, depende dela... – respondera Lee encabulado.

— Por mim não vai demorar. – disse Tenten com uma sinceridade palpável.

— Oba! Casamento! Comida de graça! – exclamou Tasuki fazendo todos rirem.

— O sensei merece! – disse Kasuma imitando a nice guy pose.

O problema foi que toda essa animação acabara fazendo com que todos perdessem a hora. E já passava da meia noite quando Hanabi entrou no clã Hyuuga.

“Droga, não devia ter demorado tanto...” pensou se dirigindo ao quarto de sua irmã. “Acho que a Hinata-nee-san já está dormindo...”.

Realmente quase todo clã Hyuuga estava mergulhado nas sombras. Não havia nenhum movimento pelos corredores, até chegar à varanda que levava ao seu destino. Com as mãos ocupadas com o embrulho repleto dos doces favoritos de sua irmã, ela nem se preocupou em andar na escuridão que só era aplacada pelos fracos raios da lua, que serpenteavam entre as nuvens no céu nublado. E foi no momento que o vento soprou mais forte, dispersando as nuvens e permitindo que um pouco mais de luz iluminasse o caminho, que ela teve uma visão que gelou seu sangue.

Na varanda, em frente ao quarto de sua irmã, estava Neji. Mas ele não estava sozinho. Quando percebeu que era Hinata que estava ali, sentiu um aperto na boca do estômago. Naquele exato instante, a garota se jogou em total abandono nos braços do rapaz, que a acolheu fortemente em um abraço apertado. Logo depois, viu o rapaz baixar sua cabeça em direção ao rosto dela. Novamente a luz da lua foi encoberta pelas nuvens, mas Hanabi sabia que não precisava ver mais. Nem queria. O pacote, cuidadosamente embrulhado, escorreu por entre seus dedos e caiu no chão aos seus pés. O barulho foi acobertado por um trovão que reboou naquele exato momento. O corpo dela estava paralisado e as lágrimas escorriam por seus olhos. E quando tudo começou a clarear de novo, com medo do que mais pudesse ver, Hanabi deu às costas à cena e fugiu.

Correu pelo jardim em direção a uma árvore que havia bem no meio dele. Arfando, segurou fortemente o tronco, na tentativa desesperada de conter o tremor de suas pernas. As lágrimas vinham abundantes e por mais que quisesse, elas não paravam de vir. Seus soluços eram embalados pelo silvo do vento frio que soprava. Dentro de si mesma Hanabi sentiu seus sentimentos serem destroçados, como uma taça que cai violentamente sobre o chão. Sabia exatamente o que vira. E não podia ignorar aquilo.

“Não...” pensava desesperada “Não quero... Não admito!”.

Então era aquilo? Aqueles eram os verdadeiros sentimentos de Neji? Ela se sentia traída e humilhada. Como podia ele estar com outra pessoa depois de todas as provas que dera que ela o amava? E principalmente, com Hinata que nem ao menos o amava! Em sua dor, odiou Neji por não amá-la, odiou Hinata por tocar em Neji mesmo sabendo que ela o amava e principalmente, odiou Naruto por não ter feito nada para cultivar o amor de sua irmã. Onde estava aquela maldita raposa que não aparecia para arrancar Hinata de seu sofrimento? Por que tinha que ser Neji a fazê-lo? O seu Neji?

Encostou-se à árvore e levantou a cabeça como se buscasse ar. Não podia permitir aquilo. Queria voltar lá e gritar, bater naqueles dois, mas suas pernas não se moviam. Na verdade os gritos de sua alma se perderam antes de chegar à garganta. Por que aquela sensação de sufocamento? Tentando se acalmar, sabia que precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa. E quando se voltou novamente para o caminho por onde havia chegado mesmo sem ter tomado uma decisão do que exatamente faria, viu uma sombra vir calmamente em sua direção. Soube quem era antes mesmo de ver seu rosto. Conhecia aquele jeito de andar, e até mesmo a forma como o vento soprava em seus cabelos. Não tinha como não saber. E foi essa lembrança que lhe deu forças para se firmar quando o viu parar frente a ela. Tinha plena consciência que ninguém conhecia Neji como ela.

— Hanabi-sama. – a voz dele ressoou entre as sombras da noite – O que faz aqui há essa hora?

A tranqüilidade com que ele lhe falava era a mesma de sempre. Nada parecia anormal em sua aparência.

Hanabi cruzou os braços e olhou para ele profundamente. Sabia que seus olhos estavam cheios de lágrimas e sua expressão de dor. Mas não se intimidou perante ele.

— Eu... Nunca pensei que pudesse ser isso... – começou Hanabi sofregamente – Mas que burra que eu fui... — e levou a mão à cabeça, como se estivesse aplacando seus pensamentos.

— Do que está falando Hanabi-sama? – perguntou ele um pouco preocupado com a forma de falar da garota. Ela nunca falara daquela forma tão séria.

— Você... Por i-isso que nunca me olhou... Que n-nunca t-teve ninguém... Que nunca a-aceitou o que eu s-sentia por você... – mesmo que quisesse aparentar uma força que não tinha, Hanabi foi traída pela intensidade de sua dor, que fazia com que sua voz falhasse.

Neji ficou em silêncio observando a garota. Sua expressão refletia uma leve indagação diante do sofrimento da menina. Aquilo irritou profundamente Hanabi, que teve vontade de pular em cima dele, sacudi-lo e gritar. Como podia olhá-la daquele jeito depois da cena na qual fora protagonista? Seria ele tão dissimulado aquele ponto? E foi com uma enorme surpresa que ela ouviu sua voz sair calma e singelamente fria de seus lábios.

— Você ama a Hinata-nee-san. – afirmou ela com sombria convicção.

O vento soprou mais forte naquele momento, agitando os cabelos de Neji, que arqueou as sobrancelhas para sua prima. Ela o encarava com os cabelos desalinhados pelo vento, mas sem nenhuma preocupação com a aparência sofredora que aquilo lhe dava. Tirando uma mecha de cabelo dos olhos, Neji encarou firmemente a menina.

— Não sei de onde você tirou um absurdo desse Hanabi-sama – falou ele sem nenhum sentimento na voz — Aconselho que esqueça isso e vá dormir. Está tarde. – E dado meia volta, já se preparava para sair quando ouviu a voz dela:

— Eu vi. Vocês se beijaram. – havia uma gélida dor contida nessas palavras.

Agora ele realmente parecia surpreso quando se voltou para ela.

— Do que está falando Hanabi-sama? – perguntou confuso.

— Agora a pouco. Em frente ao quarto de minha irmã. Você a beijou. – era impressionante como sua voz soava calma naquele momento mesmo com tudo que se passava em seu peito.

Aproximando-se um pouco mais da garota, Neji a olhou profundamente, como se tentasse escavar suas mais profundas emoções. Por um momento, as pernas de Hanabi voltaram a ficar bambas, mas ela não se importou. Não iria fraquejar naquele momento. Não diante dele.

— Hanabi-sama – começou ele seriamente – Eu não sei exatamente o que você viu ou pensa ter visto. Só posso te garantir que eu não beijei Hinata-sama.

— Beijou. – insistiu Hanabi – Eu sei que você a abraçou e a beijou.

— Realmente eu a abracei. Mas nunca a beijei. Nem hoje, nem dia algum. Entenda que sua irmã passa por um momento difícil e...

— Um momento difícil? – cortou ela – Você se refere ao seqüestro ou ao fato dela ainda amar aquela raposa? – perguntou sarcasticamente.

— Um completa o outro. – definiu Neji enigmático.

Hanabi passou as mãos pelos cabelos, na tentativa de arrumá-los. Mas o vento estava cada vez mais forte e os despenteava sem piedade. Não sabia por que ele estava tão calmo enquanto um vulcão queimava seu peito. Será que não dava pra perceber o quanto ela sofria naquele momento?

— Neji... – murmurou ela – Por quê? Você sabe que a nee-san ama a raposa... Por que você a ama? Você se contenta assim com tão pouco a ponto de acalentá-la enquanto ela sofre por outro?

Ele se limitou a fita-la em silêncio. Vendo que não era contestada, Hanabi sentiu um gosto amargo em sua boca.

Ciúmes.

— Por que eu não percebi antes? – perguntou ela, sem saber se falava com ele ou consigo mesma – Você sempre a tratou de uma forma especial, sempre cuidando dela... Mesmo ela passando três dias desacordada, chamando pela raposa, você esteve ao lado dela o tempo todo, como um tolo apaixonado que se contenta com migalhas de atenção! – era difícil distinguir se a revolta contida naquelas palavras era por amor a ele ou por decepção por suas ações — É isso que você é Neji? Um apanhador de sobras?!

O furor com que ela o encarou impressionou ele, mesmo que aparentemente não demonstrasse nada. Então era aquele o nível do amor que Hanabi sentia por ele? Algo tão profundo que a fazia tremer a cada palavra proferida, parecendo oras um tigre ora um gato assustado, que parecia pronto a pular sobre seu pescoço ou roçar em seus braços? Mas ela estava errada. Ele tinha plena consciência de seus sentimentos.

— Eu não a amo. – sentenciou ele friamente.

— Mentiroso... – sibilou Hanabi – Ninguém faz tanto por uma pessoa se não a amasse...

— Seus conceitos estão um pouco distorcidos, Hanabi-sama. Não há nenhuma espécie de amor dentro de minha relação com Hinata-sama. Pelo menos não esse tipo de amor que a que você se refere.

— Por quê? Por que você mente para mim?! – seu tom era desesperado e aflito.

— Você se engana Hanabi-sama. – falou inexpressivamente — Eu não amo Hinata mais que amaria uma irmã...

— Então por que estava tão juntos? Por que você a abraçou? – o tom de Hanabi era incisivo.

— Hinata-sama precisa de mim.

— Eu preciso de você! – falou ela com paixão – Eu que sempre te amei desde criança! Eu que sempre te admirei! Eu que jamais amarei outra pessoa além de você!

— Hanabi-sama... Seus sentimentos podem não passar de uma fantasia de sua cabeça. Eu entendo que...

— Não, não entende! – afirmou com determinação mais sem alterar o tom de sua voz — Você não sabe como me sinto! Você não sabe o quanto me dói ver você com ela todos os dias, dando atenção a ela enquanto eu sou relegada a um segundo plano em sua vida! – sua angustia era palpável tanto em sua voz quanto em seus olhos.

Neji começou a sentir todo o ar que pairava sobre eles se tornar mais pesado e denso. Os sentimentos de Hanabi eram palpáveis e pareciam querer entrar em ebulição ao tocar a sua pele. Ele sabia qual seria o resultado de tudo aquilo. Desde que ela se tornara uma adolescente e passara a proclamar seu amor incondicional, Neji sabia qual seria o fim daquilo. E tentava retardar de todas as maneiras aquele desfecho. Mas estava difícil. Hanabi era uma mulher agora, mesmo que ele quisesse enxergar o contrário.

— Eu não amo ninguém Hanabi-sama. — a mesma frase que ele sempre repetira à todas as mulheres que atravessaram sua vida foi dita mais uma vez. Mas ela não soou da mesma forma. Havia algo a mais.

“Ele esconde algo!” percebeu Hanabi sentindo a quase imperceptível falha em suas palavras ao proferir aquela frase. E percebeu que Neji mentia ao dizer que não amava ninguém. E se deixou levar por todo desespero que lhe batia as portas da alma.

- Traidor... – murmurou ela e sua voz era cheia de ressentimento – Você traiu todos meus sentimentos ao amar minha irmã...

— Por que insiste nisso Hanabi-sama? – perguntou ele – Por que insiste em colocar em meu coração sentimentos inexistentes?

Hanabi se aproximou de Neji e eles ficaram bem pertos um do outro.

— E por que você insiste em negar que ama alguém quando nós dois sabemos que isso é mentira? – retrucou ela friamente.

Neji não acreditava estar diante da mesma menina que o seguia com adoração durante os últimos seis anos. Quando ela passara a conhecê-lo tão bem quanto ele mesmo? Quando ela conseguira se esgueirar por entre as muralhas que ele próprio erguera ao ponto de agora saber sentimentos que ele escondera até de si mesmo tendo mesmo há pouco tempo descorberto-os? Hanabi de repente parecia madura e séria ao enfrentá-lo daquela forma. Ainda não gritara uma única vez e nem o agredira fisicamente. Mesmo que seus dedos estivessem se crispando de remorso e violência, ela os mantinha fechados numa tentativa de controle sobre seu corpo. Ela nunca se mostrara tão determinada e tão resolvida como daquela vez. Toda sua infantilidade parecia ter sido deixada junto com aquele pacote de doces que ele apanhara no chão antes de ir até ela. Mesmo sabendo que Hanabi estava equivocada, mesmo sabendo que as acusações dela eram infundadas, não pode deixar de admirar aquela sua nova face tão inusitada.

Mas ela só tinha treze anos. Por mais madura que parecesse, só tinha treze anos. E foi pensando nisso que ele lhe deu um leve sorriso irônico e falou sarcasticamente:

- O que uma criança como você sabe dizer dos meus sentimentos Hanabi?

Estava no momento dela explodir, de gritar que não era criança e sair correndo. Eram essas as atitudes que Neji esperava que ela tomasse. Todavia, Hanabi não fez nenhuma delas. E sua atitude seguinte foi mais destrutiva que seus costumeiros ataques infantis. Vencendo a pouca distância que se interpunha entre eles, Hanabi envolveu-o com seus braços e depois o beijou lenta e profundamente.

Quando sentiu os lábios macios tocarem sua boca, e seu corpo ser envolvido por aqueles frágeis braços, Neji se viu pela primeira vez em sua vida sem nenhum tipo de reação. No primeiro momento pensou em afastá-la, mas logo depois percebeu que não conseguiria. Ou melhor, que não queria.

O corpo macio de Hanabi se pressionou contra o seu no momento em que ele também retribuiu o abraço. Sentiu a respiração dela se acelerar quando começou a corresponder o beijo na mesma intensidade que recebia. Para a garota foi como se de repente não conseguisse ouvir nenhuma outra coisa, a não ser a respiração dele, que começava a ficar tão pesada quanto a sua. Segurando firme nas roupas dele, suas mãos queriam segura-lo com toda força que fosse capaz, como se temesse que ele fugisse a qualquer momento. Mas ele não parecia disposto a fugir.

O perfume dos cabelos de Hanabi começou a tomar de conta de todo seu olfato e Neji se viu envolvido por mais essa nova descoberta. Todos seus sentidos pareciam querer lhe pregar peças como em um jogo de trapaça, onde ele havia caído. Sentia-se como um pássaro nas garras de um gato astuto. Se seus olhos estavam fortemente cerrados, podendo apenas supor a expressão do rosto dela, seus ouvidos estava repletos dos sons de Hanabi, e teve impressão que se pudesse se concentrar um pouco mais ouviria até as batidas de seu coração. Sua pele parecia queimar em contado com a dela e seu gosto misturava inocência, desejo e chocolate. Neji fora simplesmente arrebatado por Hanabi e ela sabia disso.

No instante que percebeu que o tinha dominado e tomado para dentro de si, Hanabi rapidamente o afastou, interrompendo bruscamente todas as sensações que compartilharam, todos os sentimentos aflorados e todos os pensamentos abandonados. Neji a olhou aparentemente confuso com a repentina separação de corpos e ela sentiu uma imensa satisfação de ver que o atingira.

- Então... Ainda sou uma criança pra você? – perguntou com furor, mas sem ocultar o sorriso de uma satisfação quase maligna, mas que não esperava resposta.

E dando vazão a toda insegurança adolescente que ainda habitava seu corpo, deu as costas para ele e foi embora rapidamente.

Neji esperou ela sumir de sua visão e segurou o tronco da arvore. Nunca pensara antes que um contado físico com Hanabi fosse o atingir tanto, naquela profundidade tão avassaladora.

- Eu tentei... – murmurou ele como se falasse com o vento – Tentei adiar... Mas parece que não há mais jeito... Perdi...

Esperou alguns minutos para poder voltar à casa. Primeiro se dirigiu ao quarto de Hinata e colocou em sua cabeceira os doces trazidos por Hanabi. Depois saiu e, cautelosamente, se dirigiu para o quarto da caçula da Souke. A porta estava firmemente fechada, mas ele pôde ouvir os soluços abafados da menina. Mas não podia fazer nada naquele momento. Tinha que, antes de qualquer coisa, resolver o problema de Hinata. Aquilo era mais urgente e muito mais grave.

“Minha relação com sua irmã está bem acima de coisas tão simplórias quanto a paixão ou o amor, Hanabi-sama” pensou ele se afastando da porta dela. “Espero que você compreenda logo isso”.

***************************

Por três vezes o sol percorreu todo seu quarto, até dar lugar às sombras da noite. Contudo, para ele nada daquilo tinha nenhum significado. Nada mais tinha.

Deitado em sua cama, Naruto deixou-se levar por toda dor sentida em sua alma. Não lutou contra o desespero, nem contra as lágrimas, nem contra o pânico que surgira no primeiro dia de seu exílio auto-imposto. Na verdade, permitiu que todas as sensações viessem e voltassem segundo seu bel-prazer, sem se importar qual delas fazia aquelas incomodas lágrimas virem com mais força. E elas sempre vinham. Pelo menos até o segundo dia.

Depois do emaranhado se sentimentos o perturbarem, chegou o auto-flagelo. Merecia aquilo. Tudo que estava passando era culpa sua. Nunca fizera nada de certo mesmo. Era um fracassado. Chegara até onde estava por puro acaso do destino e de pessoas que estavam coincidentemente colocadas em seu percurso. Ele era um inútil. Não tinha capacidade para nada, muito menos para fazer uma mulher feliz. Iria sempre viver a sombra dos outros, esperando sempre um olhar de compaixão e pena serem direcionados até ele. Por isso não tinha ninguém em sua vida. As pessoas se cansavam de suas falhas, de seus defeitos. A culpa era dele, só dele.

Durante sua infância, sonhara que um milagre pudesse acontecer e a porta daquele quarto fosse se abrir e seus pais viessem buscá-lo, dizendo ser engano e que ele tinha sim uma família. Mas é claro que era apenas um sonho infantil que morreu logo que ele atingira uma certa idade. Depois, sonhava ficar forte e derrotar todos e assim impor sua existência a todos que o desprezaram. Mas as coisas não funcionavam assim.

Entendia agora que o que ele sempre quisera e almejara acima de tudo era ser amado. E fora. Hinata o amara mais que qualquer pessoa poderia tê-lo amado. E ele não vira. Não percebera aquela linda garotinha que sempre o olhava. Se ele tivesse levantado os olhos somente uma vez, uma única vez que fosse e encontrado os dela, saberia que tudo seria diferente. Saberia que ele estaria com ela e não naquele quarto vazio e podre. Mas não levantara. Sua dor e ressentimentos eram tão fortes que mantivera sua cabeça baixa. Sem querer teve que admitir que finalmente compreendia Sasuke. Certa vez, o amigo o acusara de não saber o que era ter laços rompidos e odiar aquilo. Na época, contestou o que ele dizia, mas agora sabia. Sasuke estava certo o tempo todo. Não existe dor pior que perder quem se ama.

Por isso, no terceiro dia de claustro, nenhum pensamento passava mais por sua cabeça. Apenas um grande e gigantesco vazio se instalara. Não sentia fome, não sentia sede, nem ao menos sentia que ainda havia sangue da batalha em seu corpo e que dava um detestável cheiro a seu corpo. A única coisa que conseguia era dormir. Mas nem em seus sonhos estava seguro. Se antes seus pesadelos eram em forma de costas o rejeitando sobre a luz da lua, agora via um par de olhos lacrimejantes lhe abandonarem sob a chuva torrencial. E preferia ficar acordado e deitado, como se apenas esperasse por algo. E sabia o que exatamente era. Tudo o que ele queria era poder fechar os olhos e não tornar a abri-los. Aí poderia, quem sabe, se livrar daquele mundo que sempre o rejeitara.

“Você anseia pela morte, garoto?” perguntou a Kyuubi.

Ele não respondeu. Não tinha forças para isso.

Naqueles dias em que estava preso por vontade própria a seus medos e delírios, a voz do demônio estava ficando cada vez mais nítida, cada vez mais ansiosa.

“Quanto mais você enfraquece seu espírito, mais eu fico forte” zombava ela “E vai chegar um momento que minha vontade ficará maior que a sua. Aí eu me libertarei de você e poderei destruir essa maldita vila como era minha pretensão há dezoito anos atrás...” a gargalhada que ela deu depois poderia congelar o sangue de qualquer pessoa. Mas para Naruto, soou como uma risada boba e sem sentido.

- Não me importo... – conseguiu murmurar com a voz fraca.

Um breve silêncio precedeu a voz da raposa.

“Por causa de uma mulher você está se deixando perder a razão, garoto?”

Ela estava enganada. Não estava perdendo a razão. A insanidade já o abraçara há muito tempo. Não havia mais o que perder. Não havia mais o que insistir. Não havia mais saída.

Sem Hinata, não havia mais Naruto nenhum.

“Se você a quer tanto assim, deixe-me guia-lo... Eu a trarei até você... Poderá possuí-la da forma que preferir... Destruirei todo aquele clã, e você satisfará todos seus desejos...”.

- Impossível... – balbuciou – Meu desejo é simplesmente o amor dela... E isso não se consegue mediante força nenhuma a não ser a do nosso coração... E o meu já não existe mais...

A Kyuubi não se manifestou mais depois disso. Era um alívio ser deixado a sós consigo mesmo novamente. Pode se fechar dentro de sua alma de novo, se trancar com sua solidão e percorrer aquela lenta estrada que nos separa da razão e da sanidade e que nos leva ao caminho sombrio da loucura.

Quando o quarto dia se iniciou, simplesmente não havia nenhum traço de resistência em seu espírito. Tudo dentro dele parecia destruído. Por isso, não se importou de ignorar totalmente o anbu que apareceu na sua janela. Não era Sasuke. Mesmo que fosse, isso não era importava. Quem quer que aparecesse só iria encontrá-lo da mesma forma.

- A Hokage solicita sua presença, Uzumaki Naruto. – disse o anbu.

Não deu nenhuma resposta. Aquilo não lhe interessava. Mas o ninja não parecia compartilhar daquela idéia.

- A Hokage solicita sua presença, Uzumaki Naruto. – repetiu ele.

Naruto nem ao menos lhe dirigiu um mero olhar. Continuou preso aos seus devaneios insanos, sem se importar que ele agora entrava em seu apartamento e se dirigia até a cama.

- Eu preciso insistir que você compareça no escritório da Hokage, Uzumaki Naruto. Ela precisa urgentemente lhe ver. – ele já estava ficando irritado.

Silêncio.

- Não tem mais respeito pelas ordens que recebe Uzumaki Naruto? – perguntou indignado.

Por um momento, um único momento, Naruto levantou a cabeça e o olhou. Seus olhos estavam vermelhos.

- Saia da minha casa... – murmurou ameaçadoramente – Nada disso me interessa mais... – e voltou a pender a cabeça na cama.

O homem saiu do apartamento tão silenciosamente quanto entrara. Deveria informar a recusa a Tsunade. Com certeza ela ficaria bastante contrariada. Quando se dirigia ao escritório da Hokage, viu três garotos correndo em direção ao apartamento. Mas ignorou-os. Eles que se preparassem para enfrentar o que estava preso naquele quarto.

***************

- É tão bom estarmos juntos de novo! – exclamou Yumi.

Graças aos cuidados de Sakura, a garota estava plenamente recuperada. Passara por uma cirurgia, mas todo seu corpo respondera bem ao tratamento intensivo e ela pode sair no mesmo dia que os colegas. Suzumi foi a que menos se feriu. Duas costelas quebradas e o fígado perfurado. Segundo a médica, nada demais. Já Makoto ainda trazia a mão esquerda enfaixada, mesmo que pudesse mexê-la sem tantas dificuldades. Seus olhos desincharam há algum tempo e ele já exibia a mesma expressão mal-humorada de sempre. Sentados no local de treinamento, comiam onigiris feitos pelo pai de Yumi, alguns recheados com atum, outros com ameixa e uns com pimenta, feitos especialmente para Makoto.

- Os olhos estão bons Makoto? – perguntou Yumi preocupada.

Sua mãe dissera que ataques nos olhos sempre eram mais perigosos, por que podiam causar cegueira.

Makoto, por um momento, pensou em dizer para as amigas de sua perda parcial da visão. Segundo Hatsuharu e Takeshi explicaram para seu pai e sua mãe, ele perdera treze por cento da capacidade ótica. Contudo, achou melhor não falar nada. Não queria preocupá-las. Por isso, deu de ombros e respondeu:

- Infelizmente estão. Pois se eu tivesse ficado cego, não veria essa criatura horrenda aqui! – falou apontando para Suzumi

- Horrenda é tua mãe!!! – exclamou Suzumi irritada.

- Minha mãe jamais colocaria um piercing no NARIZ!!! – rebateu ele apontando a nova aquisição da garota.

- Ela não tem estilo como eu! E além do mais, isso foi em comemoração a nossa saída do hospital. — e cruzou os braços em sinal de defesa.

- Você sai do hospital e vai se furar para comemorar?! – perguntou ele horrorizado.

- Ah, vai se fuder, seu merdinha!

- ORA SUA!!!

A briga começou e Yumi não fez nenhum esforço para pará-la. Chegou à conclusão que tudo só estaria bem se aqueles dois brigassem. Calmaria significa perigo.

E era exatamente por isso que ela estava preocupada. Durante os dias que ficaram no hospital, não receberam nenhuma visita de Naruto. Ele permanecia sumido da vistas de todos e aquilo ela achava estranho. Por isso, quando viu que seus colegas pararam de gritar um com o outro para tomar fôlego, ela propôs:

- Vamos visitar o Naruto-sensei?

Suzumi abriu um grande sorriso.

- Vamos! Já que ele não pode nos ver, iremos até ele! – exclamou animada.

- Se ele quisesse realmente ver a gente teria ido lá... – resmungou Makoto parecendo muito insatisfeito com a idéia.

- Bem, ele deve ter seus motivos. – disse Yumi fechando a caixinha de lanches vazia – Quem sabe não está se resolvendo com a Hinata-sensei, não é? Depois de salvar ela...

Suzumi e Makoto se entreolharam instintivamente. Não haviam contado a Yumi da briga entre Hinata e Naruto. Tudo que a garota sabia é que sua antiga sensei estava a salvo. Mas o gesto não passou despercebido pela menina. Parou o que estava fazendo e encarou os companheiros.

- Qual o problema? – perguntou curiosa.

- Nada! – responderam os dois em uníssono.

- Vocês estão me escondendo alguma coisa... – Yumi era esperta e conseguia “ler” bem as atitudes dos amigos, principalmente as suspeitas.

- Não estamos escondendo nada, não é Makoto? – perguntou Suzumi ao garoto numa voz doce e extremamente falsa.

- Nadinha! – respondeu o garoto, mais nervoso que a garota.

- E se vocês estão concordando em alguma coisa, isso me faz supor que é realmente grave... – colocando as mãos na cintura e com a expressão extremamente séria, Yumi continuou – Falem logo!

Ela parecia tão assustadora que os dois nem tiveram mais coragem de negar. Contaram toda a situação que acontecera a Yumi, que logo após ouvir tudo, começou a se dirigir rapidamente ao apartamento de Naruto.

- Ei, Yumi, espera! – pediu Suzumi correndo atrás dela.

- Por que a pressa? – perguntou Makoto.

- Não é óbvio? – disse ela ansiosa — Se o Naruto-sensei brigou com a Hinata-sensei e praticamente sumiu depois disso, significa que ele está com certeza muito triste. Tão triste que nem conseguiu ir nos visitar.

Fazia sentido, pensaram os garotos. E fez mais sentido ainda quando eles começaram a bater na porta e a chamar pelo seu professor e ele não os atendeu:

- Naruto-sensei! Naruto-sensei! Você está aí? – perguntava Yumi.

- Ele ta sim. – disse Makoto – E ele ta... Estranho...

- Estranho como tampinha? – perguntou Suzumi.

- Os batimentos dele estão mais devagar que o normal. E se eu sou tampinha você também é, pois temos a mesma altura agora... – Makoto parecia um pouco irritado.

- Não é hora pra isso, vocês dois. – reclamou Yumi – Temos que fazer algo!

- Espera aí! – pediu Suzumi tirando a amiga da frente do caminho e começando a gritar mais alto e bater violentamente na porta – NARUTO-SENSEI! NARUTO-SENSEI! ABRA JÁ ESSA PORTA OU A BOTAMOS ABAIXO!!!!!

- Você vai fazer o que ela ta dizendo? – perguntou Makoto baixinho.

- De forma alguma... – respondeu Yumi no mesmo tom.

Suzumi continuou gritando por um tempo, até que o vizinho de Naruto gritou mais alto.

- CALEM A BOCA SUAS PESTES!

- VENHA ME CALAR SE FOR HOMEM!!!! – gritou Suzumi de volta se esquecendo momentaneamente de Naruto e se dirigiu para a porta ao lado.

Yumi a segurou dizendo:

- Não vamos conseguir nada assim!

- Eu vou! – revidou Suzumi – Vou me acalmar quebrando a cara desse aí!

- Suzumi, precisamos ajudar o sensei e não vai ser dessa forma! – argumentou Yumi.

- E o que iremos fazer? – Makoto parecia confuso.

- Buscar alguém que pode nos ajudar! – disse ela.

Suzumi e Makoto concordaram. E começaram a seguir Yumi em direção ao hospital de Konoha.

**********

Sakura não tinha plantão naquele dia e isso a deixava extremamente satisfeita. Havia tantas coisas para aprontar. Mesmo a casa de Sasuke sendo toda mobiliada, faltavam coisas essenciais para que a vida dos dois fosse mais confortável. Por isso, quando pegou sua maleta e se dirigia alegremente para o bairro Kokoro no Haien, pensava em aproveitar a tarde para fazer essas coisas. Foi quando avistou três pessoas correndo em sua direção.

- Sakura-san! – chamou Yumi parando perto dela.

- Yumi! – exclamou Sakura sorrindo – Suzumi e Makoto também. Como estão?

- O Naruto-sensei precisa de sua ajuda! – disse a líder do time.

O sorriso de Sakura se apagou quase imediatamente.

- O que aconteceu? – perguntou preocupada.

- Sakura-san não percebeu que o sensei sumiu por esses dias? – indagou Suzumi.

- Bem... Tivemos muito trabalho, principalmente com vocês três... E aqueles lá que capturamos... – falou ela pensativa – Mas agora que você falou, ele realmente ta sumido.

- Nós fomos lá a casa dele e o sensei nem falou com a gente! – reclamou Makoto – Eu o ouvi lá, mas ele nem abriu a porta!

- Acho que é algo relacionada àquela briga que ele teve com a Hinata-sensei... – falou Yumi tristemente.

“Droga, eu devia ter desconfiado!” pensou Sakura irritada consigo mesma. Tinha ficado tão feliz de estar finalmente morando com Sasuke que nem considerara o estado de Naruto. Por isso, acompanhou os garotos de volta ao apartamento dele. Quando pararam em frente à porta dele, Suzumi perguntou apreensiva:

- Acha que consegue Sakura-san? Ele pode não abrir a porta...

Mas Sakura já estava preparada. Tirou um molho de chave do bolso e colocou na fechadura que abriu com um estalo seco.

- Você tem a chave da casa do sensei? – perguntou Makoto surpreso.

- Todos nós temos as chaves uns dos outros. – esclareceu ela – Esperem aqui fora, por favor.

Ela entrou fechando a porta às suas costas. O quarto estava abafado e quente. Um cheiro estranho impregnava a casa, e ela reconheceu como sendo o fedor de sangue seco. Colocou a mão na boca para não vomitar. Cheiros fortes a deixavam enjoada nos últimos dias.

Naruto se encontrava deitado de bruços na sua cama, da mesma forma que o vira quatro dias atrás, com a mesma roupa que matara Hibiki da Nuvem. Ele não se mexeu mesmo quando ela se aproximou.

- Naruto... – falou ela preocupada – Você está me ouvindo?

Se ele a ouviu, não deu mostras de estar interessado no que ela poderia ter a dizer. Mas Sakura conhecia-o bem o suficiente para saber que Naruto normalmente não se deixaria ficar tão desesperado a ponto de chegar àquela situação. Devia então estar doente, se sentindo mal e sem conseguir ir pro hospital. Ou sem coragem.

- Naruto, você está sentindo alguma dor? Está doente?

Silêncio. Nem ao menos um olhar. Nem ao menos um gesto. Nenhuma resposta.

- Fale alguma coisa Naruto. Por favor! – pediu angustiada.

Sakura se debruçou sobre o amigo, tomando seu pulso. Ele estava tão pálido, tão abatido. Podia ainda estar com uma grave infecção devido aos ferimentos não tratados ou mesmo com alguma doença. Seus batimentos eram tão fracos que ela temeu pela saúde dele.

- Naruto! O que você tem? Por que você está assim? – o desespero começou a tomar de conta dela.

Como ele não proferiu nenhuma resposta, ela se irritou completamente. Pegou os ombros dele e começou a sacudi-los enquanto gritava.

- FALE COMIGO NARUTO! FALE!

O corpo dele sacudia como se fosse feito de pano. Nenhuma reação. Ele nem ao menos se dignou a olhá-la. Sakura entrou em pânico. Parecia que Naruto se colocava longe do alcance dela propositalmente. Talvez a gravidez a tivesse deixado mais sensível, ou talvez a tristeza dele fosse tão grande que a contagiou. O certo é que Sakura começou a chorar diante do estado do amigo e seus soluços chegaram aos ouvidos de todo Time três. Eles se entreolharam preocupados, mas não entraram no apartamento. Pouco tempo depois, o choro se fora tão rápido quanto chegara. Sakura se levantou e saiu. Respirou fundo com os olhos fechados e, quando os abriu se deparou com três pares de olhos encarando-a ansiosos.

- Nada... – admitiu ela suspirando.

- E agora? – perguntou Suzumi preocupada.

- Outra pessoa pode vir? – quis saber Yumi.

- Sim. – respondeu Sakura esperançosa – Acho que Naruto vai ouvir o Sasuke-kun.

- E onde ele está? – Makoto perguntou.

- Na sede da anbu. Está trabalhando.

- Eu irei buscá-lo! – se ofereceu o garoto, e ao ver Sakura consentir com a cabeça, saiu correndo o mais rápido que pode.

***********

Tsunade estava ansiosa. Queria muito que o anbu que mandara falar com Naruto chegasse logo com ele. Antes de levar sua proposta adiante, tinha que ter o consentimento do rapaz. É claro que aquilo era uma mera formalidade, pois sabia que Naruto jamais negaria a oportunidade que ela iria oferecer. E aquela era a melhor hora para levar adiante seus planos. O salvamento de Hinata proporcionara muito status para todos que participaram da missão, mas principalmente para o rapaz. E a captura dos ninjas inimigos os ajudara muito. Puderam saber de muitas coisas que o tal Hibiki tinha em mente. A única coisa que a deixara chateada fora o desenrolar do incidente com a vila da Nuvem.

Após o mísero fracasso da missão, a vila inimiga havia recorrido ao argumento que Hibiki agira sozinho e por conta própria sem o conhecimento do Raikage. É claro que tudo era só balela, mas eles não aceitaram os depoimentos de Kobayashi e muito menos o de Ikimono, que foram considerados insanos devido aos dias passados ao lado de Morino Ibiki. E pra completar, o daimyou do país do Fogo achara melhor que eles aceitassem o pedido de desculpas e deportassem os presos de volta a sua vila de origem. Mesmo com muito desagrado, ela consentira nisso.

“Preciso de, pelo menos, algo bom hoje...” pensou ela chateada, e achou que teria quando a porta se abriu e o anbu entrou. Mas ele estava só.

- Onde está Naruto? – perguntou ela irritada.

- Não quis vir. – foi a resposta.

O rosto dela mudou de cor rapidamente para uma cor vermelho furioso.

- Como assim “não quis vir”?! – inquiriu.

- Não quis. – disse ele simplesmente antes de começar a contar toda situação.

Tsunade se levantou de repente após ouvir o relato.

- Irei até lá. – anunciou enquanto se encaminhava para porta.

- Hokage-sama, isso é realmente necessário? – o anbu parecia confuso.

A Hokage parou na porta antes de responder decidida:

- Sim é.

E saiu decidida.

**********

Não precisou virar a cabeça para sentir que outra pessoa entrara no quarto. Dessa vez, todavia, usou a porta. Os passos eram lentos e cautelosos e ele reconheceu os passos de Sakura. Imaginava que mais cedo ou mais tarde eles acabariam aparecendo. Mas não se importou. Ela não podia fazer nada por ele.

Ela começou a falar coisas, mas ele distinguiu poucas coisas. Uma delas perguntava seu estado. Naruto achou que talvez aquilo fosse uma piada de mau gosto. Como ela podia perguntar se estava bem? Não era óbvio que seu estado estava lastimável e desprezível? E por que estava ali? Devia esta em casa ou com o Sasuke. Em qualquer lugar, menos ali.

Sentiu que ela esperava uma resposta. Mas não teve interesse de falar nada para ela. Falar o que? Pra que? Com qual objetivo? Não havia nada a ser dito. A menos que fosse à Hinata. Mas sabia que aquilo era impossível. Ela estava longe de seu alcance.

Não se importou que ela o sacudiu, nem que chorou. Sakura não sabia o que era sentir dor de verdade. Nunca estivera naquela situação. Nada podia fazer.

Sentiu-se aliviado quando ela fora embora. Não a queria ali. Não queria ninguém ali.

***********

O prédio da anbu estava quase deserto àquela hora. Não seria difícil encontrar Sasuke. Pelo menos era aquilo que Makoto pensava. Porém, ele nunca havia entrado antes naquele lugar, nem sabia com quem falar para se informar com relação ao chefe do lugar. Por isso, entrou timidamente no prédio e passou a procurá-lo pelos corredores. Tentava ouvir seus passos ou seu coração, mas não o achou. Ele não estava perto.

Sentiu-se desanimado. Sua audição estava muito limitada ainda. Tentou esforçar um pouco mais, procurando Sasuke pelas redondezas, mas o que encontrou foi outro som conhecido, alguém que estava bem perto dele. Era alguém que ele não queria estar encontrando de fora das paredes do clã Otori. Mas antes que pudesse ir embora, também foi percebido por essa pessoa. E acabou se encontrando com aquele alguém.

- O que faz aqui, Makoto? – perguntou rudemente seu pai aparecendo às suas costas.

Makoto se voltou e seus olhos encontraram-se com o dele.

Otori Masami encarava o filho em busca de uma resposta. Não sabia bem o porquê, mas o garoto detestava encontrar com ele naquelas situações. Toda vez que seu pai o olhava, sentia como se ele o encarasse com desprezo ou vergonha. Diferente da forma carinhosa com que Takeshi o olhava.

“Ele tenta não me amar” pensou ele nas palavras ditas por Takeshi no dia anterior. Mas nem aquilo era suficiente para aplacar aquele gosto amargo na boca.

- Eu perguntei Makoto – continuou Masami – O que faz aqui?

- E-Eu v-vim p-procurar o Sasuke-san... – gaguejou o menino baixando a vista em direção ao chão.

- E desde quando você pode se dirigir ao chefe da anbu pelo primeiro nome, menino? – a voz dele baixara de tom, como sempre acontecia quando ele estava irritado.

- P-Papai... – Makoto parecia assustado – E-Eu...

- Makoto? – perguntou uma voz.

Pai e filho se voltaram ao mesmo tempo. Sasuke se aproximou estranhado a forma como eles estavam sussurrando. Nem conseguira ouvir o que Masami dissera pra deixar o menino tão assustado. Já percebera que era aquela a forma que os Otori falavam entre si. Usavam um tom baixo e murmurado.

- Bom dia Uchiha-san! – falou Makoto polidamente se curvando.

Sasuke achou aquilo ainda mais estranho. Não era costume de Makoto trata-lo de forma tão formal. O menino era bem expansivo normalmente.

- Veio visitar seu pai? – perguntou Sasuke curioso. Nunca Makoto tinha ido lá, nem Masami dava mostras que tinha interesse em levar o filho.

- Na verdade, Uchiha-san, a Haruno-san pediu para que eu viesse até aqui te buscar. – explicou ele rapidamente, mas tendo o cuidado de deixar a voz num tom normal. Se falasse alto, seu pai não iria gostar — O Naruto-sensei não está bem e ela disse que somente o senhor poderia ajudar.

A expressão de Sasuke se tornou imediatamente preocupada.

- Onde ele está? – perguntou ele já se dirigindo à porta.

- No apartamento dele. – falou Makoto o acompanhando. Sentia-se culpado por considerar um alivio deixar o mesmo local em que seu pai estava.

Masami não disse nada, nem se despediu. Ficou ouvindo eles se distanciarem apressados. E ouviu também quando Sasuke dissera casualmente:

- Não me chame de “Uchiha-san” Makoto só por que estamos perto de outras pessoas. Pode continuar a me chamar pelo primeiro nome mesmo.

- Sim, Sasuke-san! – disse o garoto retomando sua animação.

Ele decidiu que não queria ouvir mais. Dizia a si mesmo que tinha coisas mais importantes para fazer. Mas talvez fosse somente a dor de saber que nunca conseguiria arrancar aquele sorriso sincero dos lábios do menino. Afastara-se demais para tentar recupera-lo àquela altura de sua vida. E tinha que admitir que o contato dele com as pessoas de Konoha estavam mudando suas atitudes infantis em algo mais. E esse algo estava cada vez mais os separando.

Sasuke e Makoto não demoraram a chegar. As meninas os esperavam, ansiosas. Sem perder tempo, o chefe da anbu perguntou:

- O que exatamente está acontecendo Sakura? – sua voz soou urgente e preocupada.

- Eu não sei bem Sasuke-kun. – ela imediatamente começou a chorar — Tentei falar com o Naruto, mas ele simplesmente não responde, não revida, fica deitado como se já estivesse morto...

Não precisou ouvir mais nada. Abriu a porta e entrou.

************

Tsunade caminhou irritada até a casa de Naruto. Durante o percurso muitas pessoas a cumprimentaram ou acenavam em cada lugar por qual passava. Muitas vezes teve sua ida retardada por um morador ou outro que a parava para discutir possíveis problemas. Usando toda sua educação e os últimos resquícios de calma que ainda tinha, dispensou-os delicadamente, se desculpando que tinha problemas para resolver.

Quando chegou em frente à casa de Naruto, não se espantou de deparar com o Time três e Sakura em frente ao prédio. Pelo contrário, aquilo apenas confirmou suas suspeitas que algo acontecia de errado.

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- Então, minhas desconfianças estavam certas. – começou tão logo chegou – O que aquele moleque aprontou Sakura?

- Ele parece está sofrendo de depressão ou algo assim. – disse a médica tristemente.

- Tsunade-sama, estamos esperando o Sasuke-kun que entrou para tentar falar com o Naruto-sensei. – esclareceu Yumi.

Tsunade suspirou.

- Então irei esperá-lo também. E quando ele sair, quero saber essa história direito. – decretou decidida.

**************

Sasuke sentiu o mesmo cheiro nauseante de sangue seco que Sakura, mas não se importou. Naruto estava debruçado sobre a cama, da mesma forma que quando a garota o vira. O chefe da anbu marchou até a cama do amigo e nem ao menos falou. Pegou-o pelos ombros de modo a virá-lo para cima. Naruto não mostrou nenhuma forma de resistência e seus olhos estavam desfocados.

- Você não acha que está na hora de voltar ao mundo dos vivos Naruto? – perguntou ele friamente.

Como não houve resposta concreta e definida, Sasuke se debruçou mais sobre o amigo. Precisava que ele o olhasse dentro de seus olhos. Mas Naruto nem ao menos deu mostras que percebia sua presença.

- É assim que você demonstra sua força a mim Naruto? Depois de todas as coisas que você me disse, depois de ter me trazido das trevas você se deixa levar por elas? – o tom que ele usou era inquisitório e inconformado.

Apenas silêncio.

Sasuke estava agora realmente preocupado. Nunca imaginara que Naruto pudesse ficar em um estado vegetativo como aquele. Era simplesmente incompatível com tudo que ele sempre pregava, com o que sempre dizia. Era incompreensível ver Naruto afundando daquela forma. Precisava segura-lo na superfície.

- Naruto, ouça bem o que vou te dizer. Entendo sua dor. Sei o que você está sentindo. Mas, por favor, não desista de viver dessa forma. Lute. Pense em seu Time que está preocupado. Pense na Sakura e no seu afilhado que ela está esperando. – disse de forma calma procurando a atenção de Naruto, tentando arrancar alguma reação dele.

Percebendo que o olhar de Naruto em nenhum momento se alterara, sentiu a angustia toma-lo por dentro. Como um flash, todas as lembranças sua com Naruto voltaram a sua cabeça, fazendo com que sentimentos há muito esquecidos voltassem a inundar seu coração.

- Então os laços que você mais prezava foram rompidos. Agora você está sentindo aquela dor que o envolve, que o consome, que o enlouquece... Que faz todo o mundo perder sentido para você... – a voz de Sasuke estava embargada deixando entrever todo o sofrimento que ele estava botando pra fora toda a angustia que sempre o consumiu. – Vendo você agora eu posso entender o que você sentiu quando há seis anos atrás tentava me convencer a voltar, quando você me pedia para não romper os laços que criamos juntos.

Para Sasuke parecia que aquele dia sobre a cachoeira havia voltado, mas de uma forma diferente, inusitada até. Agora quem implorava pelo volta de um amigo não era Naruto. E Sasuke podia lembrar com uma exatidão nefasta cada detalhe, cada palavra.

- Uma vez você me falou que se perguntava se a sensação que você sentia quando estava comigo era a mesma de se ter um irmão e eu me surpreendi por você ir tão longe por minha causa. – suas palavras soaram tristes lamentando o desprezo àqueles laços. – Não quero mais que você se pergunte se somos como irmãos ou não. Nós somos irmãos! E eu não quero que você me deixe sozinho.

Lentamente Naruto moveu a cabeça, dando uma pequena esperança a Sasuke. Mas quando seus olhos de encararam, ele simplesmente ficou perplexo. Todo brilho de vida tinha desaparecido de seu amigo.

- Sasuke... – murmurou com a voz arrastada – Se você realmente me entende, saia, por favor... Estou cansado... Quero ficar só...

As palavras balbuciadas de forma tão dolorida o desarmou. Não conseguiu dizer mais nada. Se sentindo um lixo inútil, Sasuke saiu.

**********

Sasuke.

Naruto reconheceu rapidamente a forma como aqueles pés pisavam em seu assoalho. Daquela vez ele não utilizara a janela, mas a porta. Não fazia diferença, no final das costas. O que quer que ele dissesse não seria muito diferente do que fizera Sakura. E aquilo não iria atingi-lo. Talvez para dar mais ênfase a sua ida ali, Sasuke o pegou pelos ombros e o virou para cima. Até então, estivera deitado de bruços, mas agora fora obrigado a olhar para cima.

A situação foi no mínimo inusitada. Sasuke praticamente proferira para ele as mesmas palavras que o próprio Naruto dissera três anos atrás. E pode compreender o amigo naquela época.

Não havia por que voltar. Não havia lugar para onde voltar. Aquele mundo não pertencia mais a ele. Mas essas palavras apenas ecoavam no inconsciente de Naruto e Sasuke não pode ouvi-las, apenas deduzir o que o silêncio sussurrava.

Mas Sasuke deveria compreender. Também perdera pessoas que amava e fora acometido por uma dor que o privara de parte de sua vida. Então por que ainda insistia? Por que não o deixava se perder também em sua dor? Não precisava que ninguém viesse para mostrar pena ou compaixão. Ele não precisava daquilo. Nem daquilo, nem de nada.

E pediu pra ser deixado em paz.

Pelo menos naquilo foi atendido.

**********

O chefe da anbu teve uma grande surpresa ao ver que não era apenas Sakura e o Time três que o aguardavam ansiosos. Tsunade acabara de chegar e parecia furiosa.

- E então Sasuke-san? – perguntou Yumi ansiosa.

- Ele não me ouviu... – disse pesaroso – Apenas pediu que o deixasse em paz.

- Pelo menos ele falou... – comentou Sakura esperançosa.

- Sasuke, me explique o que está acontecendo. – exigiu a Hokage – Mandei um anbu aqui para buscar Naruto e ele simplesmente disse que não iria!

Em poucas palavras Sasuke explicou o que havia acontecido entre Naruto e Hinata quando eles se encontraram. Em alguns momentos, Sakura ou Suzumi o interrompiam para falar coisas que ele esquecera.

- Eu não acredito que ele continue dessa forma há quatro dias! – exclamou Tsunade irritada – O que deu na cabeça desse menino?

Ela parecia preocupada e nervosa. Talvez mais que qualquer outro presente ali.

- Ele está sofrendo Tsunade-sama... – Suzumi suspirou – Quando as pessoas se apaixonam e perdem seu amor, sofrem como se estivessem morrendo... – ela parecia extremamente triste quando falou isso.

- Eu não quero me apaixonar nunca... – disse Makoto sombriamente.

- Nem eu. – falou Yumi.

- O amor nem sempre traz a dor, meninos. – discordou Sakura – Mas no caso de Naruto há muito mais coisas envolvidas. Ele não teve uma infância fácil, cresceu sozinho... Toda pessoa a qual ele se apega é tratada da forma mais especial possível – e olhando para Sasuke, ela acrescentou – Naruto é capaz de dar a vida por quem ele ama...

- Por isso mesmo vou falar com ele. – resolveu a Hokage se encaminhando para a porta — a mim ele tem que ouvir. Certa vez ele me deu um sermão sobre minhas responsabilidades. Lembrarei cada palavra que ele falou naquele dia e exigirei que ele cumpra as dele!

Quando a Hokage entrou no apartamento, Suzumi se voltou para Sakura e perguntou:

- As responsabilidades que a Hokage-sama falou agora, são conosco?

- Também... – disse ela pensativa – Mas a Tsunade-sama parece estar querendo algo mais de Naruto... Vamos esperar o que ela fará.

**************

Tsunade não tinha tempo a perder. Por isso não reparou na anarquia na qual se encontrava o apartamento de Naruto. Apenas se dirigiu decidida até ele e ordenou inflexível:

- Levante-se daí imediatamente Uzumaki Naruto.

Tsunade permaneceu parada por um tempo, como se ainda esperasse que ele a atendesse, mas foi em vão. Naruto sequer lhe voltou um único olhar. Permaneceu estático na cama. Respirando fundo para manter a calma, a Hokage falou:

- Há seis anos atrás quando você foi em minha busca para que eu me tornasse Hokage no lugar de Sarutobi-sensei, você fez questão de me deixar a par da importância que isso teria em minha vida. – seu tom era acusatório — Você me convenceu que eu estaria traindo a mim mesma e as pessoas que eu amava se não o aceitasse. E aqui estou. Aceitei de peito aberto.

Ela deu uma pequena pausa esperando alguma reação. Como não houve, ela prosseguiu:

- Você foi à minha procura por amor a Konoha e por amor àqueles que eu poderia salvar. Encheu-me de palavras sobre responsabilidades e compromisso. Imagina como eu me senti aos cinqüenta anos recebendo sermão de um garotinho de doze? – ela deu uma pausa lembrando toda aquela situação seis anos atrás e o quanto agradecia a Naruto por todas as coisas que ele lhe disse, e depois continuou — Pois eu te digo: não foi algo muito agradável. Mas até que surtiu efeito. Você me deu uma vontade de viver que eu tinha perdido há algum tempo. Por isso, quando agora te vejo nesse estado, penso que suas palavras não foram sinceras. Ou que aquele garotinho cresceu e se tornou o mais estúpido dos homens!

Da mesma forma que Sakura e Sasuke, ela procurou o olhar de Naruto. Sem conseguir seu intento. Ele parecia ouvi-la da mesma forma que uma porta ouviria.

- Eu confiei em você! – ela já estava ficando desesperada – Acreditei na sua força! E veja como você me paga Naruto! Veja o que está fazendo consigo mesmo!

Sem esconder sua dor, Tsunade procurava conter as lágrimas que agora mareavam seus olhos. Entendia bem o porquê de ele despertar aquelas sensações nela. Com as pontas dos dedos tocou a face pálida e inchada de Naruto.

- Olhe pra mim... – pediu ela carinhosamente – Veja tudo que eu sinto por você Naruto... Nunca tive filhos, a vida me privou disso. Mas ela me mandou você para se tornar a família que perdi...

A pele de Naruto estava fria ao toque. Se não fosse sua respiração fraca, e toda sua experiência como médica, a Hokage poderia supor que ele estava morto. Porém, era como se realmente estivesse. E isso a deixava exasperada.

- Naruto! – ela gritou o nome dele – Sabe por que te deixei fazer o Exame Jounin? Sabe por que tenho protegido você durante todos esses anos? Por que deixei você partir naquela empreitada em busca de poder para trazer Sasuke de volta? Por que me releguei a aceitar suas atitudes intempestivas?- e sua voz foi se tornando cada vez mais desesperada. — Eu quero fazer de você meu herdeiro! Meu sucessor! Venho lutando por isso desde que eu te conheci! Permiti seu treinamento com Jiraya para que ele pudesse te ajudar para o futuro que eu guardei para você!

Aquela com certeza não era a hora apropriada para revelar suas intenções. Todavia, se pudesse ajudar a trazer Naruto de volta para seus braços, isso não importava.

- Naruto... – começou ela suavemente – Tenho quase sessenta anos e Konoha não pode passar pelo mesmo problema que passou seis anos atrás, na morte repentina do Sadaime. Por isso, eu quero fazer de você meu sucessor. Você será o próximo Hokage de Konoha, como você tanto deseja. Eu irei te ensinar tudo, para que você possa receber o cargo de minhas mãos durante minha vida. Levante-se... Venha comigo... O conselho já foi informado de minha decisão... A vila o apoiará... Venha comigo...

Os olhos de Naruto se encontraram com os delas e Tsunade pode perceber toda a extensão do dano que aquele coração tinha sofrido. Com os lábios entreabertos, ele balbuciou:

— Não tenho interesse... Em me tornar Hokage...

O pranto veio forte e dolorido. Tsunade se inclinou sobre Naruto, chorando compulsivamente, tal qual uma mãe quando vela o corpo de um filho morto. Não podia ser verdade. Não com seu menino. Não com aquele que ela aprendera a amar com todo aquele amor profundo que somente uma mãe podia ter. Deixou que suas lágrimas caíssem no rosto dele e que suas mãos o abraçassem, na espera de uma retribuição. Mas isso não aconteceu. Naruto tornou a fechar os olhos, alheio a sua dor. E com o coração em pedaços, ela o deixou na cama e saiu do apartamento.

***********

Talvez aquela fosse a pessoa que doía mais ver entrar em seu apartamento. Talvez por que fizesse uma imagem materna a seu respeito. Ou talvez por que o colar que ela lhe dera ainda pousava em seu pescoço como um amuleto. E tal como uma mãe raivosa, ela começou a lhe dar ordens que sabia ser impossível de serem cumpridas.

Até mesmo ele poderia ter rido diante da ordem se assim pudesse. Nada lhe soara tão incoerente quanto aquelas palavras. Era simplesmente impossível para ele fazer qualquer movimento. Estava morto. E mortos não andam. Será que ninguém percebia que ali jazia uma alma decaída em um corpo moribundo? Não percebiam que nada do mundo dos vivos lhe interessava?

Exatamente era aquele seu problema. Sua alma não existia mais. E sem alma, não há sonhos. Seu sonho de ser Hokage parecia apenas uma piada de mau gosto naquela situação. Para que ser Hokage? Para encontrá-la e não poder abraçá-la? Para sempre viver pensando em todos, mas encontrar a casa vazia quando chegasse? Ninguém para dizer “Bem vindo”? As pessoas da vila podiam ser importantes, mas a vila não iria amá-lo, dormir com ele, segurar tenramente em suas mãos, lhe sussurrar doces palavras nas noites frias...

Não precisava do cargo de Hokage.

Tudo o que precisava era Hinata, e isso não podia mais ter.

Queria pedir desculpas a Tsunade por estar permitindo que ela derramasse aquelas lágrimas que caiam em seus olhos, mas não o fez. Que sofresse, e assim o deixasse em sua paz mortuária. E foi o que ela fez depois de um tempo. E tão logo ela saiu se debruçou na cama novamente, afundando o rosto no travesseiro e na solidão.

************

Nunca Tsunade parecia aparentar a idade que tinha. Mas talvez o choque a tivesse enfraquecido. Não se importou com os olhares assustados que todos a dirigiram quando saiu do quarto. Agora seus quase sessenta anos estavam visíveis. Com os olhos ainda derramando lágrimas de desesperança, Tsunade se deixou ser abraçada por Sakura, que procurou confortar a dor de sua mestra. Todos estavam abatidos. Parecia que a ultima esperança de tirar Naruto dos fios de loucura que ele próprio tecera tinha se evaporado.

- Minha voz não pôde alcançá-lo... – balbuciou a Hokage com a voz trêmula e o rosto encostado ao ombro de Sakura.

-Parece que nenhuma voz chega até o vazio que a alma dele se tornou — confessou Sasuke pesaroso — Nenhum voz consegue chegar até lá.

- A minha voz chegara até ele. – disse alguém.

Todos se viraram surpresos e viram Neji se aproximando. Ele caminhava calmamente e parecia totalmente convencido que poderia fazer exatamente o que falava.

- O que faz aqui? – resmungou Sasuke entre os dentes.

- Meu assunto não é com você Sasuke. Vim falar com o Naruto. – disse friamente.

- Veio piorar a situação dele? – retrucou o rapaz irritado.

- Não. – respondeu calmamente — Talvez eu seja a única salvação dele. E você sabe disso. A minha voz passará pela escuridão e o vazio e provocará a reação que nenhum de vocês conseguiu arrancar. – falou de forma convicta e não deixando qualquer dúvida de que iria conseguir.

- Você está insinuando que você saberia lidar com Naruto melhor do que nós? – e dando uma pausa, Sasuke acrescentou fervorosamente. – Melhor do que eu?!

- Não estou insinuando. – e olhando diretamente nos olhos de Sasuke continuou cortante. – Eu estou afirmando!

E antes que Sasuke pudesse revidar, Sakura falou:

- Deixe-o Sasuke-kun... Talvez ele tenha razão... Já fizemos tudo que podíamos...

Mesmo contra a vontade, ele teve que concordar com ela. E não fez nenhum movimento quando Neji começou a se dirigir ao apartamento. E, mesmo que não quisesse admitir, esperava que ele conseguisse fazer por Naruto o que ele e os outros não puderam fazer.

*************

Eles pareciam estar conspirando para não o deixarem em sua paz mortuária. Foi isso que Naruto pensou quando ouviu mais passos entrando pela porta. Esperou que a ladainha começasse novamente, pronto para ignorar todas as palavras como fizera anteriormente. Mas nada aconteceu. Nenhuma palavra foi dita. Ouviu um barulho de cadeira sendo afastada e percebeu que, quem quer que tenha entrado se sentia bem o suficiente para sentar. Já havia passado alguns minutos quando uma voz zombeteira lhe falou:

- Patético.

Neji havia entrado na casa se sentindo desconfortável com aquele cheiro horrendo que o lugar adquirira. Naruto estava deitado de lado sobre a cama, com o rosto voltado pela parede e não se mexeu quando ele entrou. Não pretendia desperdiçar suas palavras nem seu tempo. Mas mesmo assim puxou uma cadeira que estava ali por perto. Sentou nela no sentido contrário, de modo a permitir que seus braços repousassem no encosto dela que estava à sua frente e não às suas costas. Observou atentamente o rapaz deitado na cama antes de pronunciar aquela palavra. Sentiu que ele reconhecera sua voz, pois deu uma leve mexida nas mãos. Nada mais, só o suficiente para deixar Neji satisfeito.

- Suas atitudes – recomeçou ele – além de patéticas e estúpidas só me provam o que eu já sabia de você Naruto. Você não passa de um fracassado. E um fracassado jamais alcançará alguém como eu.

Aparentemente suas palavras não fizeram efeito nenhum. Mas Neji sabia que, somente o fato dele estar ali possivelmente já deixava Naruto mais atento, mais consciente.

- Você se deixou levar pela dor e pela escuridão. Aquela mesma que você combatia tão veementemente com palavras, findou por derrubá-lo. Como você se sente Naruto? – perguntou sarcasticamente — Como se sente provando um pouco do gosto amargo do desespero que somente pessoas com eu ou Sasuke sentimos? Dá para ser tão confiante agora?

Sua voz era uma mistura de desprezo, e até um pouco de satisfação. Parecia se divertir jogando para ele tudo que fizera nos decorrer daqueles anos.

- Agora, onde está sua petulância? Onde está toda sua coragem? É mais difícil perder alguém do que nunca ter tido não é? – falou de forma irônica procurando atingir Naruto com suas palavras. — E deve ser bem pior para você... Afinal, eu e Sasuke tivemos nossas pessoas queridas arrancadas de nossas mãos. E quanto a você Naruto? Perdeu a Hinata-sama por sua própria ignorância e estupidez...

Naruto se remexeu incomodado na cama. Neji deu um pequeno sorriso. Estava conseguindo despertar sua reação. Agora que sabia que ele o ouvia perfeitamente, podia finalmente fazer o que era seu intento desde o começo.

- Até ontem eu realmente pensava tudo que estou lhe dizendo. Até descobrir a verdade. – suspirando, ele fechou os olhos – Até descobrir por que Hinata-sama o deixou. Até descobrir qual era a promessa que ela havia feito e a quem fizera.

O coração de Naruto bateu mais forte naquele momento do que havia batido nos últimos dias. Lentamente ele virou a cabeça e encarou Neji. Suas emoções voltaram a ficar em ebulição. Olhando diretamente para o rapaz sentado tão à vontade em sua cadeira, só pode pensar que ele sabia algo que lhe interessava muito e estava prestes a compartilhar aquele segredo.

- Ótimo. – exclamou Neji satisfeito — Você não está morto. Poderá me ouvir. E preste bem atenção. O tempo não irá esperar nem a mim, nem a você. E direi tudo isso apenas uma vez. Depois, caberá a você escolher seu caminho.

Parou por um momento para ver a reação de Naruto. Parecia que um brilho se insinuava nas feições pálidas. Então, Neji começou:

- Por volta de três meses atrás, Hinata-sama ainda estava lhe ensinado para o Exame Jounin. Ela fazia isso ao mesmo tempo em que lidava com a dor da doença que a corroia por dentro e, silenciosamente, suportava. Todavia, aqueles boatos sobre vocês dois chegaram aos ouvidos de Hiashi-sama. Não preciso dizer que ele não ficou satisfeito não é? E mesmo sabendo que tudo que diziam era mentira, ele não hesitou: ordenou que Hinata-sama se afastasse de você imediatamente.

Agora ele realmente conseguira captar a total atenção de Naruto. O rapaz sentou lentamente na cama, sem desgrudar os olhos de Neji, absorvendo cada detalhe de suas palavras.

- É claro – continuou ele – que Hinata-sama não quis aceitar aquilo, e discutiu com o pai. Mas Hiashi-sama não a ouviu e a obrigou a ir com ele falar com você. Ele ia forçar-la a dizer que pararia de dar aulas e ver você. Ele já sabia do amor dela por você e, por um motivo que ainda desconheço, isso o deixava apavorado. – Neji deu uma pequena pausa, como se procurasse a resposta para questão que acabara de colocar, mas logo prosseguiu – Depois disse, você sabe melhor que eu o que aconteceu. Ela passou mal e você a levou para o hospital. Lá, ainda que Hinata-sama estivesse convalescendo, Hiashi-sama levantou novamente o assunto a seu respeito.

- Hinata... – começou Naruto com a voz rouca – Não parou de me ver... Naquele dia...

- Não. – confirmou Neji – Por que ela aceitou um acordo que seu pai propôs.

- Acordo? – perguntou Naruto atento.

- Sim. Ela se preocupava de você não poder estudar sozinho... E creio que também não queria romper a ligação recém-adquirida com você... Então, Hiashi-sama deu a ela duas opções: cortar as ligações com você imediatamente, ou esperar até o aniversário dela. Ou seja, ele deu a ela onze dias a começar por aquele, para que ela fizesse o que tivesse vontade, com a obrigação de, no final desse período, ela cortasse ligação com todos aqueles que pudessem interferir na vida dela como líder.

- Então ela... – começo Naruto.

- Aceitou a segunda opção. Era óbvio que o faria. Prometeu ao pai que, em troca daquela falsa liberdade, cortaria os laços que construíra com você... E teve que cumprir a promessa quando o prazo findou.

Naruto olhou para as próprias mãos. Elas estavam inchadas depois de tanto tempo sem moverem-se. Com cuidado, começou a movimentar os dedos. E pensava no que Neji acabara de dizer.

- Por que ela não me contou? – perguntou desolado – Não confiava em mim? Eu poderia ter ajudado...

- Qual seria sua atitude se soubesse? – quis saber Neji.

- Eu... Iria falar pessoalmente com o pai dela e tirar satisfações, exigir que ele não fizesse isso... – disse tristemente.

- E que direito tinha você de exigir qualquer coisa? O que você alegaria a ele por se meter nos assuntos da família? — o rapaz sabia exatamente que aquelas seriam as palavras de Hiashi se Naruto tivesse entrado no clã Hyuuga dizendo coisas como aquelas.

Naruto pensou um momento. Era uma questão difícil. Se tivesse enfrentado Hiashi três meses atrás, o que diria? Só uma coisa lhe veio à cabeça.

- Eu diria que eu gostava dela, e que ele não tinha o direito de se meter na nossa vida. – falou finalmente como se aquilo aplacasse um pouco sua dor.

- Aí está o problema Naruto. Você sabe disso. Mas a Hinata-sama nem ao menos desconfiava quais era seus sentimentos em relação a ela. E, seja sincero, até quatro dias atrás eu sei que nem ao menos você sabia quais eram seus sentimentos. Ela não queria expor você a isso. Nem arriscar afrontar a família por algo tão instável. Afinal, nem imaginava qual será sua reação. Hinata-sama foi prudente. Quis poupar a todos. Até hoje, sabemos que ela não sabe dos seus sentimentos.

Naruto tinha que admitir. Neji estava certo. Se ele somente descobrira seu amor por Hinata quatro dias atrás, como imaginar que ela saberia a ponto de arriscar brigar com a família por causa dele?

- Provavelmente, ela não imaginou que tudo iria adquirir a dimensão que tomou. – Neji olhou para o teto enquanto falava — Tudo que ela queria, e posso afirmar com toda certeza, era passar o maior tempo possível com você. E quando vocês começaram a namorar realmente, consigo imaginar seu sofrimento por saber que teria que renunciar sua almejada felicidade por causa da promessa. Ela enfrentou tudo sozinha. Preferia sofrer sozinha. Não tinha coragem de te contar. Não queria que Hiashi-sama tivesse motivos ainda maiores para odiá-lo. Quis evitar o embate dos dois.

Uma pontada dolorosa no coração fez Naruto levar a mão pro peito. Era difícil acreditar que ela tivesse enfrentado tudo isso sozinha apenas para poupá-lo. Mas era algo da natureza dela, tomar todas as dores para si.

- Hinata... – murmurou Naruto.

- Ela tem sofrido por sua ausência e pelo desprezo de todos, sem dizer uma única palavra de arrependimento. Creio que se lembra dos dias que passou ao seu lado como os mais belos de sua vida... – a voz dele soou diferente da habitual e Naruto por um momento achou que ela soara quase carinhosamente.

- Por que está me dizendo isso Neji? – indagou Naruto olhando diretamente em seus olhos.

Neji sustentou aquele olhar.

- Por que Hinata-sama está infeliz. Ela te ama e sofre por isso. Seu sorriso morreu há muito tempo. Para mim, não há injustiça maior que negar-lhe o amor que ela cultivou por toda sua vida. – e apertando os olhos acrescentou – Um amor que, se eu soubesse ser impossível, não teria vindo até aqui. – Ele fez uma pausa como se quisesse acrescentar ainda mais uma coisa, mas não o fez.

Naruto pareceu confuso por um momento.

- Não entendi o que você quer dizer Neji.

- Você a ama Naruto.

Fora uma afirmação sem dúvidas nem receio. Parecia que Neji conhecia mais seus sentimentos que ele próprio.

- Se não amasse, — continuou como se falasse a coisa mais óbvia do mundo – não teria mergulhado nesse estado, nem teria sofrido esse tempo todo.

Como Naruto não falou nada, ele insistiu:

- Estou errado Naruto?

- Não. – disse Naruto com seus olhos recuperando o brilho de vida – Eu amo Hinata. – a confissão feita a outra pessoa e não a ele mesmo pareceu retirar um peso de seu coração. E se o rapaz a sua frente falava a verdade, ainda tinham chance de ficarem juntos.

Neji sorriu mediante as palavras de Naruto.

- Está pronto para enfrentar o que virá? Ou vai deixá-la esperando?

“Você não pode se dar esse luxo...” pensou Neji lembrando da situação de Hinata. Mas por hora não falou nada.

Naruto se remexeu e colocou os pés no chão. Precisou de um enorme esforço para ficar em pé, mas conseguiu.

- Estou pronto para tudo. – disse decidido. – Hinata não enfrentará nada sozinha.

- Ótimo. – disse Neji se levantando também – Vou te levar até ela. Porém, antes de irmos, tome um banho. Você está fedendo. – completou fazendo uma expressão de desdém.

*************

Quando a porta do apartamento se abriu, quase uma hora após a entrada de Neji, por um momento todos pensaram que ele também falhara. Mas logo a dor de todos foi aplacada. Apesar de ainda estar um pouco pálido, Naruto andava decidido e não usava mais a roupa de quatro dias atrás. Na verdade, tinha os cabelos molhados e vestia uma roupa limpa. Não trazia a bandana na cabeça, nem usava nenhum de seus acessórios ninjas. Caminhou em silêncio até onde seus amigos estavam. Eles pareciam surpresos, mas aliviados. Timidamente, Naruto sorriu encabulado. E curvando-se a frente daqueles que sofreram por sua causa, pediu:

- Perdoem à confusão que causei – a voz dele ainda estava rouca – Conversaremos depois, tenho um assunto para resolver. – e fez menção de acompanhar Neji.

- Para onde você vai Naruto? – perguntou Sasuke. Ele parecia chateado por não ter conseguido o mesmo que Neji e ao mesmo tempo aliviado e contente por ver o amigo com aquele ânimo depois de vê-lo quase à beira da morte.

Naruto parou de andar e virou-se sorrindo para Sasuke.

- Vou buscar minha mulher. – e acenou para eles acompanhando Neji sem esperar resposta.

Todos ficaram surpresos com a determinação, mas ninguém o impediu. Apenas torciam para que tudo desse certo daquela vez.

Eles caminharam algum tempo, evitando as ruas mais movimentadas de Konoha. Depois, se aproximaram do clã Hyuuga, mas não tomaram a direção da casa principal. Na verdade, rumaram para um lugar vizinho ao bairro do clã, mas ele parecia uma área desabitada, apesar de estar bem cuidada. Chegaram a um portão grande que tinha o símbolo Hyuuga que Neji empurrou e abriu, mas não havia ninguém lá.

A casa imitava o estilo tradicional da casa principal Hyuuga. Tinha um belo jardim e um pequeno lago em frente a ele. O piso da varanda era feito de carvalho e emitia um som parecido com pássaros cantando quando eles pisaram nele. Abrindo a porta de correr, Neji apontou para o interior da casa, convidando Naruto a entrar. O rapaz tirou as sandálias e adentrou no recinto. A decoração era extremamente bonita e elegante, reparou. Percebendo a curiosidade de Naruto, Neji explicou:

- Essa propriedade pertence ao clã, mas ninguém mora aqui. Ela é usada somente para alojar pessoas importantes quando estas vêm visitar o líder do clã.

- Ah... – murmurou Naruto compreendendo agora por que apesar de vazia ela estava tão bem cuidada.

- Aqui é ideal para vocês conversarem. Ninguém irá atrapalhá-los. Trarei Hinata-sama logo que escurecer. Fique a vontade. Tem comida aqui caso queira.

- Obrigado por tudo, Neji. – disse Naruto com sinceridade.

O rapaz o olhou por um momento. Parecia estar cogitando alguma coisa. Sua expressão assumiu um ar extremamente triste, deixando Naruto apreensivo. Neji parecia querer contar alguma coisa, mas as palavras aparentavam ter fugido pelos jardins.

- Algum problema Neji? – perguntou Naruto preocupado.

Baixando a vista até o piso de carvalho, Neji suspirou.

- Há uma coisa que não te contei naquela hora. – disse finalmente.

- O quê? – o coração de Naruto disparou ao ver a atitude desolada de Neji.

- Você precisa resolver tudo esta noite, Naruto! – a voz dele tinha uma certa urgência – Você e Hinata-sama não podem esperar mais!

Assustado com o desespero velado naquelas palavras, Naruto falou sério:

- Prometo que essa situação se encerrara amanhã. Dou minha palavra. Mas quero que me diga por que eu e Hinata não podemos esperar mais.

Suspirando, Neji falou em tom baixo:

- Hinata-sama não tem mais muito tempo...

Diante do olhar abismado de Naruto, passou a relatar tudo que descobrira na noite anterior.

**********

Hinata passara a manhã se sentindo mal. Não sabia se fora pela discussão que tivera com o pai na noite anterior, pela atitude estranha de Hanabi que, de um momento para outro, passara a tratá-la com uma frieza anormal, ou o sumiço repentino de Neji. Esse último a deixava mais apreensiva que os demais. Principalmente depois do que ele havia descoberto. Temia qual seria sua reação. Por isso, ficara o dia todo com os nervos à flor da pele, se assustando a cada barulho mais alto que alguém pudesse fazer.

Não agüentando tamanha pressão, logo que anoiteceu, Hinata pediu a Umi que lhe fizesse um chá e foi para o quarto. Queria deitar-se, pois sentia todos seus músculos doerem de tensão, mas teve medo de adormecer antes que tomasse o chá, pois seu estômago doía. Sentou-se perto da janela e passou a observar as estrelas. Esperava que a garota não demorasse. Queria beber algo quente e tentar dormir. Não tinha vontade de comer. Sua boca estava seca e parecia dormente. A cabeça latejava um pouco quando a porta se abriu e ela voltou-se para a porta pronta para agradecer a Umi pelo chá. Mas não foi a garota que lhe estendeu o copo, e sim Neji. Ela quase dera um grito de susto, mas o sufocou no último segundo.

- Neji-nii-san... – murmurou recebendo a xícara.

- Beba Hinata-sama. Você não me parece bem... – disse ele com um tom de preocupação, sentando-se a seu lado.

Ela sorveu o líquido com ânsia. Ele não tocara no assunto. Depois de ter bebido todo o chá, Neji pegou o copo de sua mão e o depositou na bandeja. Para espanto de Hinata, utilizou o byakukan e pareceu procurar algo lá fora por alguns segundos. Depois, desativou sua linhagem e se levantou fazendo um gesto para ela imitá-lo. Hinata fechou sua janela e também se levantou.

- Venha comigo. – sussurrou ele.

Ela pensou em questioná-lo sobre o que acontecia, mas a urgência que viu em seus olhos a fez calar. Ajeitou o quimono que usava e o seguiu. Eles se esgueiraram pela casa principal como se fossem dois fugitivos e, pensou Hinata, talvez realmente fossem. Seguiram pela parte mais escura do jardim, e logo estavam de fora da propriedade. Somente então ela perguntou:

- Para onde estamos indo Neji-nii-san? – uma idéia repentinamente passou pela cabeça dela – Você está me levando para a Hokage-sama?! Eu não irei! – ela ficara subitamente em pânico.

Rapidamente Neji tapou sua boca e a olhou nos olhos.

- Silêncio Hinata-sama. – pediu murmurando – Senão irão nos encontrar. E eu não estou levando-a pra Hokage-sama. Nem pra nenhum médico. – esclareceu ele – Apenas me siga e confie em mim.

Hinata confiava. Mais que ele pensava. Era o único aliado que possuía e tinha plena consciência disso. Por essa razão, se deixou levar sem nenhum esclarecimento até a casa que seu pai usava para hospedar visitas. Ela sentiu o cheiro da flor branca que crescia por ali e que só soltava seu perfume nas primeiras horas da noite. O pequeno lago refletia a luz da lua e das lanternas tradicionais com o símbolo do clã que pendiam na varanda. Com leveza, procurou pisar na varanda de modo a não fazer o piso produzir aquele característico som que tanto a fascinava na infância, mas sabia que era impossível. O barulho de pássaros a acompanhou até a porta de correr, que fora aberta por Neji. Ela entrou cautelosamente na sala. E desejou ardentemente não ter entrado.

Naruto a esperava, sentado à mesa com um copo de chá nas mãos e uma chaleira fumegava em frente a ele. Quando seus olhos se encontraram, Hinata pensou em fugir. Mas a porta as suas costas foi fechada bruscamente por Neji. Ainda o ouviu dizer:

- Voltarei pela manhã, Hinata-sama.

E o barulho dos pássaros a alertara que ele se fora.

Seu corpo tremeu diante da situação. Seu último encontro com Naruto ainda lhe dava náuseas. Lembrava a forma que gritara com ele, a forma como fora rude e cruel. Também se lembrava das palavras frias dele. E agora estavam frente a frente de novo. Naruto não se levantou. Apenas a olhou e pediu:

- Poderia sentar Hinata? – seu tom era baixo e calmo.

Era estranho ser convidada a se sentar numa casa que por direito lhe pertencia, mas não tinha cabeça para achar aquilo engraçado. Atendeu ao pedido e sentou-se cautelosamente à sua frente na mesa baixa. Naruto despejou chá em uma xícara e ofereceu. Hinata somente aceitou por que queria manter suas mãos ocupadas, e evitar que elas denunciassem seu nervosismo. Mas ele notou o tremor dela quando seguraram a xícara.

Naruto perscrutou seu rosto sem reservas. Com pesar no coração, notou as linhas sinuosas de cansaço que o rosto delicado exibia. Queria que ela o olhasse, mas não teve coragem de pedir isso.

Enquanto Hinata olhava para o chá de cor esverdeada entre suas mãos, sentiu que Naruto a observava. Esperava a qualquer momento que ele fizesse a mesma exigência de dias atrás, quando a obrigara a encará-lo. Mas ele não proferiu nenhuma palavra. O silêncio pairou sobre eles até que, num impulso, ela levantou a vista e o encarou. E se surpreendeu ao ver marcas tão profundas embaixo de seus olhos, que denunciavam insônia e cansaço. Perguntou-se o que ele via em seu rosto, e desejou ter tido tempo de se arrumar um pouco antes de sair de casa.

- Não estamos nos nossos melhores dias, não é? – brincou ele procurando quebrar o gelo entre os dois.

Relutantemente, ela sorriu.

- Parece que temos duas tristes sinas, Hinata... – começou ele – A primeira é que nunca estamos em bons dias quando vamos conversar...

Por um momento não entendeu o que ele queria dizer, mas então se lembrou da manhã quando começaram a namorar. Ambos também exibiam olheiras e cansaço por terem passado a noite mal-dormida, exatamente como naquela hora. Depois, no dia de seu seqüestro. Ela ainda estava um pouco dopada e ele acabara de sair de uma luta mortal.

- E q-qual a s-segunda? – ela ousou perguntar.

Naruto suspirou tristemente.

- Da mesma forma como naquela manhã no caminho para o campo de treinamento, eu tenho que te pedir perdão...

Hinata apertou a xícara em suas mãos, se perguntando onde ele pretendia chegar.

- P-Perdão Na-Naruto-kun?

- Sim. Tenho que te pedir perdão por todas as coisas estúpidas que eu disse! – e se curvou fazendo a testa encostar-se ao chão. Hinata ficou totalmente perdida, sem saber o que dizer. Quando recuperou a voz, disse ansiosa:

- N-Não s-se curve p-por f-favor...

Naruto permaneceu com a testa no chão durante um momento, até que sentiu as mãos de Hinata em seu ombro, procurando levanta-lo.

- E-Eu também p-preciso te pedir perdão, Naruto-kun... – as lágrimas ameaçavam cair quando ela pronunciou aquelas palavras – Eu lhe disse coisas horríveis...

Quando Naruto se levantou, eles ficaram bem próximos um do outro. Para tentar levantá-lo, ela havia vencido a distância que a mesa colocava entre os dois. Ambos os corações batiam mais forte. Com a ponta dos dedos, Naruto tocou na face dela, que estremeceu.

- Hinata... Você não precisa me pedir perdão... Você não mentiu... Eu merecia ouvir tudo aquilo... Nada do que eu faça poderá pagar tudo que você passou por minha causa...

Os dedos dele subiram pelo seu rosto e logo a palma de sua mão também a acariciava. Hinata fechou os olhos sentindo aquele toque carinhoso, transformando todo seu cansaço numa alegria repentina. Mas uma coisa a despertou daquele transe.

- N-Naruto-kun... O que você sabe sobre... – ela não teve coragem de terminar. E antes que ele pudesse responder, já sabia qual seria a resposta.

- Neji me contou tudo.

Imediatamente ela puxou o rosto, se afastando das mãos dele.

- Então é isso? – perguntou decepcionada – Você quer ficar comigo por pena! Por que eu vou... – sua voz foi se perdendo entre sua dor e medo.

Em pânico procurou se levantar e sair dali o mais rápido que pudesse, mas os braços de Naruto a envolveram com delicadeza e carinho. E toda sua energia se fora ao sentir novamente aquele toque em seu corpo.

- Calma... – ele pediu no mesmo tom paciente que se usa para crianças assustadas – Eu não vou mais permitir que você se afaste de mim Hinata...

Hinata olhou dentro dos olhos dele. Procurava distinguir aquela avalanche de sensações que via refletido em suas pupilas, mas seu coração ferido se recusava a acreditar no que via. Percebendo sua perplexidade, Naruto continuou:

- Nada do que eu soube vai mudar o que sinto por você... Muito pelo contrário. Tudo que posso sentir é tristeza por ter permitido que você passasse por tudo isso sozinha... Por isso... Eu prometo que nunca mais irei te deixar, Hinata...

As lágrimas escorriam pelo rosto dela quando perguntou com a voz fraca:

- Por quê? – inquiriu ela – Se não fica comigo por pena, por que está aqui?

Ele sorriu ao responder:

- Por que eu te amo. — e ela só pode enxergar verdade nos olhos dele.

As pernas de Hinata ficaram bambas e ela só não despencou no chão por que já estava sentada. Naruto a segurou delicadamente, estreitando o abraço e encarando aqueles olhos perplexos. Doía pensar que ela não acreditava em seus sentimentos, mas percebeu que era algo mais que isso. Ela tinha medo.

- N-N-N-Naru-to-kun... – ela mal conseguia articular uma palavra.

- Hinata...

Suas mãos seguraram a nuca dela e, carinhosamente, a puxou para perto dele. Aproximou os lábios dos dela e esperou para ver sua reação. Hinata fechou os olhos, oferecendo sua boca, que logo foi tomada por ele, aprofundando o toque entre os corpos.

As sensações que explodiram dentro dos dois podia ser sentida até mesmo no ar que os rodeavam. Todo o tempo que passaram separados, toda a dor sentida, todas as dúvidas, tudo enfim se evaporou. O beijo se transformou em dois, três, em vários, como se não houvesse nada mais importante em todo mundo que aquilo. E, certamente, para os dois não havia mesmo.

Quando seus lábios se separaram um tempo e seus olhos novamente se encontraram, nada precisou ser dito. Naruto se levantou oferecendo a mão, que ela prontamente aceitou. Caminharam pelo corredor da casa até chegarem a um aposento iluminado apenas pela luz da lua que entrava pelas frestas. Mesmo não sendo necessário, Naruto fechou a porta.

Hinata se encaminhou para uma lanterna e, a acendeu com a tarja de fogo que tinha lá. A pálida luz rodopiou e depois começou a bruxelar pelo quarto. Ela se virou para encarar Naruto. Diante dele, tomada de uma coragem que não sabia que possuía, Hinata começou a tirar lentamente o quimono. Ele a observava com desejo e ânsia enquanto ela despia as suas vestes. A pele continuava da mesma forma que ele lembrava, de um branco puro, semelhante ao marfim. Seu corpo pedia por ela com fervor. Quando Hinata terminou seu ritual, se inclinou em direção ao futon sobre o tatame.

Naruto lentamente começou a se despir sem tirar os olhos dela, que o observava sem medo. Depois, se aproximou dela e deitou ao seu lado. Beijou-a novamente, sentindo o corpo macio e delicado que tomara com as mãos. Ela o abraçou pressionando sua pele nua contra a dele. Com as mãos trêmulas, Naruto começou percorrer aquelas formas volumosas e firmes, sentindo o calor que emanava de seu ser.

As sombras da luz davam uma aparência misteriosa ao quarto, que se aliou ao tempo lá fora quando o vento começou a soprar mais forte espalhando uma suave chuva por Konoha, mas eles não sentiram frio. Estavam envolvidos no calor de seus corpos e sentimentos. Naruto percorria o corpo dela com a boca, matando toda a vontade que perdurara por tanto tempo e que nem ele sabia que existia. Primeiro, provou de sua boca, depois começou a descer lentamente por seu pescoço, se detendo em toda sua extensão. Não queria permitir que nenhum lugar do corpo de Hinata ficasse sem ser tocado por seus lábios. E ouvindo os gemidos dela, desceu em direção aos seus seios. Eles pareciam ansiar por seus carinhos, e quando os tocou, Hinata segurou fortemente seus cabelos, mas não o impediu de continuar. Com a boca, passou a acariciar aquela parte macia e sensível, sentindo as mãos dela puxarem seu cabelo a cada novo delírio, a cada novo toque. Continuou seu percurso, descendo por seu ventre até chegar próximo as suas pernas. Queria poder fazer tudo que tinha vontade, queria dar-lhe todo prazer que jamais poderia imaginar. Hinata não impediu quando Naruto gentilmente afastou suas pernas e ela passou a morder os lábios diante dos toques deles. Era uma sensação incomparável, que ela nunca imaginara poder sentir. E quando seu corpo começou a estremecer de prazer, Naruto parou abruptamente com suas carícias. Com um gemido, ela protestou contra a interrupção, mas logo foi silenciada com os beijos dele. E, instintivamente, soube o que ele queria.

Com as mãos e a boca, passou a imitar tudo que ele havia feito com ela. O corpo de Naruto era forte e rígido, e diversas cicatrizes marcavam o logo caminho que ela percorreu. Quando sua boca chegou ao selamento, ela sussurrou para o umbigo dele, ansiando que a Kyuubi pudesse ouvi-la:

- Ele será meu agora... Não mais seu...

Nunca saberia se o demônio-raposa pode ouvi-la, mas aquela atitude a fazia sentir mais forte e mais dona de si. Naruto lhe pertencia, da mesma forma que ela pertencia a ele. E sabia que nada, nem ninguém poderiam mudar aquela situação. Seus destinos estavam unidos de modo inseparável.

Mesmo sem nenhuma experiência, Hinata sabia que dava prazer a ele. Podia ouvir sua respiração pesada e os tremores de seu corpo enquanto o vasculhava com sua boca. Conseguiu arrancar gemidos de seus lábios quando o tocou de forma mais intima e ousada, e se surpreendeu quando ele não deixou que ela concluísse as caricias.

Naruto a deitou novamente no futon, subindo por seu corpo como uma serpente sinuosa. E antes de penetrá-la, murmurou promessas de amor e eternidade em seu ouvido que ela retribuiu com lágrimas de felicidade. E quando finalmente se possuíram, o tempo parou sobre suas cabeças.

Era impossível para dois mortais se amarem tanto, pensou a Kyuubi. Como podiam se doar tanto esperando tão pouco em troca? Mas ela preferiu não partilhar daquelas sensações presentes em Naruto naquela hora. Deixou os dois a sós, sabendo que a partir daquele momento aquela garota estaria tão presente na vida dele e seria tão necessária quanto ela. Talvez até mais.

Como no dia embaixo da árvore do campo, seus corpos pareciam conhecer a mesma dança secreta que só os amantes conseguiam executar. Porém, Naruto reparou, ela se doava mais naquela noite que na vez passada. Talvez a certeza de ser amada despertasse em Hinata uma força desconhecida que a impulsionava agora em direção a ele. E quando atingiram o clímax, o fizeram juntos, se abraçando entre as cobertas, desejando que aqueles poucos segundos se prolongassem por séculos.

Encostando a cabeça em seus seios, Naruto fechou os olhos ouvindo a respiração cansada dela e sentindo seus dedos ágeis lhe acariciarem os cabelos.

- Eu adoro quando você mexe no meu cabelo assim... – confessou ele ofegante.

Ouviu a risada tímida de Hinata e depois sua voz suave:

- Eu sempre gostei do modo como ele fica assim, todo espetado... Achava que você usava alguma coisa pra deixá-lo assim...

- É natural... – confessou ele, sem saber por que ficava sem jeito falando sobre aquelas amenidades.

Provavelmente, fosse por que nunca ninguém havia se interessado em conhecê-lo mais a fundo, saber suas preferências, seus gostos. Mas ele e Hinata passaram a noite conversando sobre tudo e sobre nada, sobre amor e dor, sobre passado e futuro, e em poucas horas sabiam que nunca ninguém jamais os conhecera tanto quanto um ao outro.

Aquele quarto ainda presenciou mais cenas de amor, onde Naruto e Hinata, depois de conhecer a alma um do outro, procuravam agora desvendar os segredos de seus corpos. Com satisfação, ele descobriu que as costas dela eram extremamente sensíveis. Quando as tocou com a língua, Hinata arqueou bruscamente pra trás, gemendo alto. Ele então continuou fazendo aquela descoberta enquanto ela se contorcia de prazer embaixo dele. Mas logo ela pode revidar, pois confirmou algo que já desconfiava. Naruto era extremamente sensível em toda área ao redor do selamento. E era lá que ela retribuiu tudo que ele havia lhe proporcionado.

Ficaram a noite toda naquele duelo de sensações, tentando sempre superar o esforço passado e acabaram por adormecer sem saber exatamente quando e como, um nos braços do outro, felizes e sem medo ou receio.

*********

Tão logo o sol despontou, Neji se levantou. Não dormira a noite toda, preocupado com Hinata e com a atitude de Hanabi na noite em que ele descobrira o segredo da prima. Não somente isso, ela parecia ter se comportado estranhamente durante todo o dia seguinte. Teria que conversar com a garota depois. Aquela situação estava insustentável.

Discretamente, Neji se retirou da casa e saiu dos domínios Hyuuga. A manhã estava fria e nublada, prenunciando um outono gélido e possivelmente um inverno desconfortável. Era bom saber que nunca nevava no país do Fogo, mas suas chuvas podiam ser tão incomodas quanto o gelo.

Pensava se estava tudo bem entre aqueles dois. Caso eles não se resolvessem, só havia um caminho a seguir para livrar do sofrimento por vir. E para o bem de Hinata e também o de Hanabi, ele desejava não ter que toma-lo. Empurrou o portão levemente, desejando encontrar boas notícias. E quão satisfeito não ficou ao ver que o que o aguardava era bem melhor do que ansiava.

Naruto e Hinata estavam sentados na varanda de mãos dadas, e aparentemente apenas esperavam sua chegada. Levantaram-se ao vê-lo e caminharam lentamente em sua direção, sem soltar as mãos em nenhum momento. Neji ficou feliz ao notar, pela primeira vez em muito tempo, um sorriso sincero e feliz nos lábios de Hinata. Naruto, então, olhou diretamente em seus olhos e, com a voz forte e decidida, pronunciou a frase que o rapaz a sua frente mais esperara:

- Leve-me até Hyuuga Hiashi.

Notas finais
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