O Tempo e a Esperança
32 Capítulo XXX – Todas as coisas que ela disse
Capítulo XXX – Todas as coisas que ela disse
Sakura comandou a lenta caminhada em direção ao local de batalha. Mesmo sabendo ser quase impossível para Sasuke, Naruto ou Neji perderem aquela luta, temia serem emboscados por qualquer ninja remanescente. Se alguém os atacasse, somente ela, Kakashi e, em último caso, Suzumi poderiam lutar. Por isso toda a cautela. Seu antigo sensei também parecia pensar como ela, pois mantinha descoberto seu sharingan, analisando todo o caminho de volta, enquanto trazia Yumi desacordada em suas costas. Makoto também estava disposto a ajudar. Vasculhava a área em busca de sons que prenunciassem inimigos, mas tudo que ouvia eram as batalhas que se travavam mais à frente. E quando já estavam quase chegando à casa, ele avisou:
— Acabou.
Todos pararam imediatamente de andar, apreensivos. Kakashi analisou o garoto atentamente e perguntou:
— Quem venceu?
— Konoha. – falou o garoto sorrindo.
Ao ouvir essas palavras, Sakura apressou o passo e logo pôde ver a casa. Mesmo notando todo o estrago causado pela luta de Naruto e Hibiki, não viu mais ninguém.
— Onde está Sasuke-kun? – indagou ela preocupada.
— Por ali. – apontou Makoto para o lado esquerdo da casa.
Sasuke estava sentado ao lado do corpo de Ikimono quando eles se aproximaram. A roupa dele estava toda encharcada de sangue e o rapaz respirava com dificuldade.
— SASUKE-KUN! – gritou Sakura correndo em sua direção.
Ele levantou a vista e sorriu.
— Você... Esta... Bem...? – perguntou Sasuke com dificuldade.
— Estou... – respondeu ela com lágrimas nos olhos sentando-se ao lado dele.
— Ela ainda está viva... – comentou Kakashi observando Ikimono – Mas parece que... – ele parou o que ia falar e perguntou em seguida – Você usou o Mangekyou?
— Sim... Depois que... Ela... Perfurou-me... Com isto... – Sasuke mostrou a agulha em sua mão.
Sakura imediatamente entrou em ação. Colocando as mãos sobre as costas de Sasuke, começou a tratar de seu pulmão ferido. Enquanto pressionava o chakra para dentro do corpo dele, curando as feridas, forçava-o a expelir o sangue acumulado, da mesma forma que Neji fizera com Yumi. Suzumi não achou nem um pouco agradável vê-lo vomitar todo aquele sangue. Depois de recuperar o tecido interno da pele, Sakura passou uma faixa pelo tronco de Sasuke.
— Pronto! – exclamou ela aliviada – Não há mais necessidade de se preocupar.
— Obrigado Sakura. – ele a olhou com tanto carinho que ela enrubesceu.
Suzumi observou a cena e, se afastando um pouco, murmurou:
— Detesto romances melosos...
Makoto sorriu. Imaginava que tipo de romance agradaria Suzumi.
— Não podemos ficar parados aqui. – disse Kakashi – Temos que nos apresar e procurar por Hinata e...
— Não será mais preciso.
Neji se aproximou com Hinata nos braços. Ela parecia adormecida e estava envolta em um lençol branco, mas que exibia marcas de sangue.
— Ela esta ferida? – perguntou Sakura preocupada.
— Aparentemente não. Mas examine-a Sakura-san. Por favor.
Sakura, todavia, reparou em algo mais.
— Neji... Seu pulso...
— Não se preocupe comigo. – cortou ele – Cuide da Hinata-sama.
Colocando Hinata com cuidado deitada na grama em frente a Sakura, Neji sentiu o olhar acusador de Sasuke. E, enquanto enfaixava o próprio pulso, antes que pudesse perguntar o motivo daquela antipatia, o próprio Sasuke deixou claro suas preocupações.
— Onde está Naruto? – inquiriu de forma seca.
— Não sou ama de leite de seu amigo para saber de todos os passos dele. – devolveu.
— Eu estou aqui. – Naruto se fez ouvir claramente.
Trazia uma expressão nada satisfeita no rosto. Também sua aparência não era das melhores. Sua roupa jazia toda manchada de sangue e rasgada. A bandana de Konoha estava frouxamente pendente em sua testa e muitos ferimentos podia se ver em seu corpo. Parecia que ele rasgara algo com suas mãos, pois as unhas se encontravam muito machucadas, como se tivessem forçado algo. Por um momento, Sakura achou que fosse melhor atende-lo primeiro. Mas no momento em que viu a forma com que ele olhava para Hinata deitada na grama, não teve dúvidas que ele recusaria isso categoricamente.
Makoto percebeu que tinha acontecido algo entre Neji e Naruto. Seus corações batiam da mesma forma. Irritados. E antes que ouvisse a voz de seu sensei, soubera que ele percebera seu estado e o de Suzumi.
— Como vocês estão? – perguntou ele preocupado, mas sem tirar os olhos de Hinata.
— Bem, nós lutamos e vencemos! – falou Suzumi animadamente, mas parecendo encabulada com a preocupação.
Makoto sentiu uma fisgada no coração ao ouvir os batimentos dela se acelerarem.
- Qual o problema de Yumi? – indagou Naruto depois que percebeu que Kakashi a trazia desacordada nas costas.
- A Yumi quase morreu. Vencemos a primeira batalha, mas apareceu outro ninja logo depois e não tínhamos condições de lutar. – falou Makoto antes que Suzumi pudesse explicar – Então o Hyuuga-san chegou bem na hora e salvou ela. Na verdade, ele salvou todos nós. Certo, Suzumi?
- É... – respondeu a garota contrariada.
Naruto olhou para o rapaz ao lado de Hinata. Ele também se colocou próximo a Hinata ignorando o olhar do outro. E, diante do que dissera Makoto, se viu obrigado a dizer:
- Obrigado pela ajuda Neji.
- Não precisa agradecer. Tudo que eu fiz não foi por vocês, e sim pela Hinata-sama. Ela gosta demais de seu time para vê-los morrer. – falou indiferente.
- Eles são MEU time. – corrigiu Naruto.
Todavia, Neji não respondeu à provocação. Continuava olhando para sua prima, enquanto Sakura a examinava com cautela.
- Nenhum ferimento externo. Eles cuidaram bem da Hinata. Talvez planejassem fazer alguma forma de experimento com ela, pois a mantiveram sem nenhuma forma de agressão.
- E por que ela esta desacordada? – perguntou Neji.
- Tranqüilizantes. Mas eu tenho aqui o antídoto.
Com uma injeção, Sakura aplicou o antídoto do tranqüilizante. Depois, tomando o pulso de Hinata, ficou um minuto em silêncio, avisando em seguida:
- Pronto. O efeito do remédio vai passar rápido. Então poderemos voltar para Konoha.
- É importante que os distanciemos daqui rápido. – comentou Kakashi – Se a Vila da Nuvem perceber que o plano falhou estando tão perto de ser concluído pode vir atrás de nós. Além do mais, temos feridos.
Sakura concordou com a cabeça. Era extremamente importante levar Yumi e Makoto de volta a Konoha o mais rápido possível.
- Ela irá acordar quando? – quis saber Neji.
- Em poucos minutos. – disse Sakura.
Naruto olhou para a face empalidecida de Hinata. Era impressionante que, por mais que tentasse, não conseguia proteger quem era importante para ele. Por quantas vezes não já falhara? Perdera Sasuke uma vez, depois quase perdera Gaara e, por duas vezes perdera Hinata. Mas não haveria uma terceira vez. Por isso, quando a garota deu os primeiros sinais que estaria despertando, ele se aproximou mais de onde ela estava.
- Eu quero que vocês me deixem sozinho com ela. – disse decidido.
Neji virou a cabeça rapidamente para Naruto. Parecia surpreso, irritado e incrédulo.
- O que o leva a pensar que eu permitirei isso? – sibilou ameaçadoramente.
As mãos sujas de sangue mancharam o quimono branco de Neji. Todos ficaram apreensivos. Naruto colocou sua mão sobre o peito de Neji, sem força, apenas para atrair a atenção do rapaz. Depois aproximou seu rosto do dele. E com a voz rouca, falou ameaçadoramente:
- Não me lembro de ter pedido sua autorização, Neji. Eu estou dizendo que irei falar com a Hinata. Nem que para isso tenha que passar por cima de você.
Neji segurou o pulso de Naruto, e o empurrou para longe de sua roupa. Encarou o rapaz durante alguns segundos. Naruto sustentou o olhar, como se uma pequena guerra de vontades estivesse sendo travada. Todavia, Neji parecia buscar algo nos olhos dele. Algo que, provavelmente, nem o próprio Naruto sabia da existência. E encontrou o que queria. Depois disso, começou a se afastar.
- Não me intimido por simples ameaças Naruto e você sabe disso. – e sem olhar para ele acrescentou – Não faça com que eu arrependa-me do que estou fazendo.
E começou a se distanciar de onde eles estavam.
Sasuke olhou para Neji quando este passou por ele. Depois, acenou para Sakura e Kakashi. Sabia que Naruto ia precisar de um pouco de privacidade. Relutantemente, Suzumi também deixou o lugar sendo puxada pela mão por Makoto.
- Você ouviu o sensei Suzumi. Ele quer ser deixado a sós com a Hinata-sensei.
- Espero que ela não o machuque de novo. – resmungou ela.
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Hinata acordou lentamente. Sentia frio. Um torpor estranho percorria seu corpo. No momento que sua consciência despertou, ela foi tomada por um grande pavor. Antes de aplicar a injeção, o rapaz chamado Kobayashi dissera sorrindo:
- Nos veremos agora quando você acordar na Vila Oculta da Nuvem...
Abriu os olhos com medo de presenciar apenas a escuridão. Temia estar cercada de inimigos e sem poder se defender. Mas não foi assim. Não viu rostos ameaçadores. Viu apenas um céu escuro e cinzento acima de sua cabeça.
- Hinata... – ouviu alguém dizer.
Seu coração disparou ao ouvir aquela voz. Rapidamente se sentou. Esperava encontrar qualquer um olhando para ela. Qualquer pessoa, exceto Naruto, que se encontrava sentado a sua frente. No instante que seus olhos se encontraram, foi como se um furacão passasse no interior dos dois. Os segundos que permaneceram se olhando passaram como uma eternidade. Nenhum som a não ser o do vento. E, sem saber o que dizer, Naruto abriu os braços convidativos.
Todo medo, receio, estresse e dúvida de Hinata explodiram dentro dela. Desesperada, ela atirou-se em seus braços, chorando copiosamente.
- N-Naruto-kun... – balbuciou entre as lágrimas.
Naruto a apertou fortemente contra o peito. Queria confortá-la, dizer o quanto sentira sua falta, que ela não tivesse medo e que ele sempre a protegeria. Queria poder esquecer tudo que acontecera e prolongar aquele momento por toda eternidade se possível. Desejava beija-la, sentir seu corpo novamente, acaricia-la com suas mãos e deixar que todos os acontecimentos se perdessem no calor de tudo que sentiam. Os soluços de Hinata faziam com que seu corpo tremesse entre seus braços e ele passou delicadamente a mão sobre seus cabelos, confortando-a. Tinha muita coisa a dizer, muitos sentimentos a revelar, mas em um determinado momento, as palavras pareceram ter se perdido no caminho de sua alma até a boca. E ele sabia o porquê. Os dois meses passados no sofrimento, na mágoa, no ressentimento, na solidão e na humilhação que sentira, não puderam ser esquecidos por um simples abraço e foram eles quem silenciaram sua voz. E quando percebeu que o choro dela se aplacava, Naruto relutantemente, a afastou.
- Espere Hinata. – disse ele com sua voz soando friamente – Há coisas que precisamos conversar.
Hinata estremeceu. Não sabia se era por causa da fina chuva que começou a cair, ou se da forma como ele falara com ela. O certo é que, o que quer que fosse naquele momento ela não tinha condições de ouvir. Estava debilitada por todo o tempo que passara em cativeiro, o medo extremo a que fora submetido e a dose cavalar de tranqüilizante que haviam aplicado nela. Seu organismo e sentimentos estavam fragilizados. Não sabia se podia resistir a uma conversa intensa com Naruto sem desfalecer no meio do processo.
- N-Naruto-kun... – pediu ela baixinho – E-Eu não e-estou me s-sentindo muito bem... P-Podemos d-d-d-deixar para...
- Não. – interrompeu ele – Não deixarei para momento nenhum. Já esperei demais para estar frente a frente com você, Hinata. Não esperarei mais.
Um mau pressentimento invadiu Hinata.
- O-O q-q-que v-você quer c-conversar c-c-comigo, Naruto-kun? – perguntou ela olhando para o chão.
- Você sabe muito bem sobre o que eu quero falar Hinata. Eu quero respostas!
Um trovão reboou naquele momento. Hinata se encolheu por baixo do lençol. Naruto não sabia se de medo do barulho ou de responder a sua pergunta.
- N-Naruto-kun... P-Por favor... – suplicou ela – E-eu não estou...
- Hinata, eu não deixarei você sair daqui sem me dar as respostas que eu quero! – disse ele determinado.
- P-Por que v-você e-estar fa-fazen-do isso c-comigo, Naruto-kun? – tropeçando nas palavras, Hinata procurava inutilmente se mostrar calma.
- Por quê? Você ainda me pergunta por que Hinata? Depois de tudo o que aconteceu?
A voz dele lhe cortava o coração, como afiadas navalhas. Pode sentir toda dor e ressentimento em suas palavras. E sabia que não havia como se defender. Naruto a observou durante uns instantes. Queria que ela dissesse algo, mas Hinata limitou-se a olhar para o jardim que começava lentamente a encharcar.
- Você não tem coragem nem mesmo de olhar pra mim, Hinata? – perguntou ele pesaroso.
Ela não respondeu.
Naruto passou a mão pelos cabelos molhados como se tentasse controlar as emoções que borbulhavam dentro dele. Depois, falou numa voz falsamente calma:
- Eu não pedi para você entrar na minha vida, Hinata.
Uma aguda dor brotou em seu coração. A água lavava seu rosto e o frio se instalava em seu corpo e alma. E mesmo assim, ela não o olhou.
- Você entrou na minha vida – continuou ele – sorrateiramente, como uma serpente e se instalou como um parasita sugando tudo de bom que eu havia conquistado depois de tanto sofrimento. Passei anos da minha vida da mesma forma. Sozinho. Sentia falta de carinho sim, mas o pouco que conquistei era o essencial. Até você aparecer.
Hinata sentiu um arrepio percorre seu corpo. Toda aquela frieza com que Naruto lhe falava pesava sobre ela como se o mundo fosse colocado em seus ombros. Sua língua simplesmente travara. Não conseguia proferir uma única palavra. Mas seus ouvidos estavam perfeitos. E ouviam o desabafo dele com os sentimentos se despedaçando a cada palavra.
- Eu não pedi sua ajuda! – Naruto continuou despejando tudo que passava por sua cabeça – Quando você apareceu naquele maldito bosque, e tão solicitadamente ofereceu sua ajuda para o exame Jounin, já planejava isso, Hinata? Queria fazer com que eu me apaixonasse por você para depois me chutar como se chuta uma bola velha?
- N-Nã-ão... – ela balbuciou desesperada – E-Eu n-nunca...
- Mentirosa! – gritou ele fazendo com que Hinata se encolhesse – Quando você vai parar de mentir pra mim, Hinata? Primeiro disse que gostava de mim, e agora isso? Eu gostava de outra pessoa, sabia? Amava outra pessoa naquela época! Podia ter tentado ficar com ela, ser feliz com ela, mas deixei me levar por esse seu jeito sonso de princesa encantada e só me feri com isso!
É claro que Naruto jamais tivera vontade tentar ficar realmente com Sakura, principalmente depois de vê-la com Sasuke. Porém, sentiu um prazer mórbido de ver o corpo de Hinata se contrair ao ouvir aquelas palavras.
— Você me enganou, me ludibriou, me tratou como um simples objeto... Foi divertido pra você? – perguntou sarcasticamente – Pois para mim não foi! Eu acreditei em você! Acreditei que podia ser feliz com você! Acreditei que você gostasse de mim!
A frustração dele parecia ter atingido o ápice. Continuou a despejar tudo sobre Hinata, ignorando a expressão de dor estampada em seu rosto e o tremor que percorria seu corpo. Queria que ela sentisse a mesma dor que o acompanhara durante o período em que se separaram.
- Tudo que recebi dessa droga de relacionamento foi dor e tristeza! Depois de tudo que a gente passou, dos nossos momentos agradáveis, você me deixou no dia de sua posse! – ele fez uma pequena pausa e baixou o tom da voz — Conveniente, não? No dia que você tomou posse desse maldito cargo, achou que eu não fosse mais necessário, não é? Egoísta! – Naruto falava duramente desejando que ela pudesse ver em seus olhos tudo aquilo que ele sentia, mas ela se recusava a encará-lo e aquilo já o havia irritado demais – Olhe para mim! – ordenou ele segurando o queixo dela com força.
- N-Nã-ã-o.. – exclamou fracamente tentando se livrar das mãos que a forçavam a encarar a realidade.
Mas foi impossível. Ela estava fraca demais para resistir. Fitou aqueles dois olhos azuis que transbordavam de mágoa.
- Por que, por um momento, eu achei que você seria diferente? – agora ele falava numa voz muito baixa, quase sussurrada – Você era igual a todos, não? Rindo de mim... O pobre menino que não tinha amigos... Que não tinha pais... Que não tinha ninguém... Sempre sozinho, sempre triste... E sempre o alvo de gozação... Você riu muito Hinata? Divertiu-se as minhas custas? – sibilou ele.
- Não!!!! – gritou com todas as forças afastando com uma tapa a mão dele de seu rosto.
O grito de Hinata pegou Naruto de surpresa. E todos aqueles que estavam por perto. Até então, ninguém além de Makoto podiam ouvir qualquer coisa da conversa. Mas pela primeira vez, a voz de Hinata se elevava a um nível que, mesmo aqueles que não estavam tão próximos, podiam ouvir. Neji fez menção de ir até eles, mas Makoto segurou a manga de seu quimono.
- Não vá, Hyuuga-san. – pediu – A Hinata-sensei precisa colocar tudo que está sentindo para fora, ou poderá implodir de tanta dor...
Neji olhou para o garoto, espantado. Makoto parecia poder ouvir não apenas as palavras, mas todos os sentimentos que emanavam dela. E, foi somente por isso, que ele se absteve de interromper a conversa.
Do outro lado do jardim, Naruto olhou para Hinata surpreso. Agora, ela não desviava sua vista, muito pelo contrario. O encarava com tal intensidade que ele ficou apreensivo. Seus olhos refletiam algo que ele nunca vira nela até então.
Raiva.
- Eu nunca ri de você! – continuou Hinata ainda com a voz bastante alterada – Nunca! – Hinata praticamente cuspiu com ódio essa palavra em cima dele.
Ela se levantou cambaleante, deixando cair o lençol em que ele a havia envolvido. A chuva colava sua roupa ao corpo. Ainda era a mesma roupa com a qual fora seqüestrada. Naruto também se levantou. Hinata parecia que ia desmaiar a qualquer momento, com o rosto muito pálido, mas que começou a adquirir uma coloração rosada nas bochechas enquanto ela continuava gritando com a mesma intensidade que fizera antes:
- Sim é verdade! Todos sempre riram de você! Mas eu não! – olhando pra ele como se ele não pudesse tê-la ofendido de maneira pior. — Nunca ri de você! Você era especial pra mim! Sempre foi! E ainda é!
Confuso, Naruto a olhava, boquiaberto. Nunca vira aquela expressão no rosto dela. Parecia enfurecida e decidida.
- O que voc- — começou ele.
- Cale a boca! – mandou ela furiosamente – Você não sabe de nada! Não sabe de nada sobre mim! – Naruto sentiu a verdade chocante contida naquelas palavras. — Quem você pensa que é para me julgar? Para dizer o que sou ou deixo de ser? Você nunca tinha sequer olhado para mim antes de eu te dar aquelas malditas aulas! Nunca prestou nem atenção que... que... que... – a sua voz foi perdendo a força – que eu sempre te observei...
Foi impossível para qualquer um se manter alheio àquela conversa. E com Hinata berrando daquela forma, era mais difícil ainda. Mas ninguém disse nada. Apenas esperavam o fim daquela conversa.
- Você lembra Naruto? Lembra o dia que me viu pela primeira vez? – perguntou ela com lágrimas correndo pelo seu rosto e se misturando à chuva.
Naruto. Era a primeira vez que ela se referia a ele assim. Antes, era somente “Naruto-kun”. E sem saber por que, aquela forma de falar o nome dele sem o sufixo o deixou desnorteado. Era como estar diante de outra Hinata que ele não conhecia. Mas não era verdade. Aquela era Hinata. Ela somente parecia querer colocar para fora todas as coisas que sempre se passara dentro dela, mas que a vergonha e a timidez impediam. Ele não sabia o que se passava na cabeça dela, porém queria saber. Essa nova face dela o deixava tão encantado quanto estarrecido. E enquanto essas coisas passavam por sua cabeça, ele tentava lembrar quando a tinha visto pela primeira vez. Quando percebeu que não sabia, se sentiu um lixo.
- Eu... – começou ele se sentindo um pouco envergonhado.
- Não lembra, não é? – gritou ela num tom magoado, e levando a mão ao peito continuou – Pois eu lembro! Lembro de tudo. – gritou enfaticamente ao mesmo tempo em que o olhava com certeza de que ela sabia que ele não lembrava — Para mim, aquele dia foi especial. Sabe por quê? – inquiriu ela.
- Não... – admitiu Naruto
- Por que foi naquele dia que eu conheci a única pessoa que amei em toda minha vida!
A confissão arrancada do fundo da alma o pegou desprevenido. Limitou-se a continuar fitando-a com a boca semi-aberta, se sentindo um total idiota. O rosto de Hinata agora estava totalmente vermelho e seus lábios tremiam de raiva e de frio. A chuva caia mais forte, mas mesmo assim não abafou as suas palavras.
- Foi no primeiro dia da academia. – revelou — Eu estava nervosa, com medo, era tímida demais até para falar. Quando Iruka-sensei começou a chamar um por um para falar seu nome na frente da sala, eu tremi. Sabia que não ia conseguir. Mas... Você estava sentado ao meu lado... – os olhos dela adquiriram um brilho de nostalgia – Você me disse “Não tenha medo, menina bonita!”... – cruzando as mãos sobre o peito, Hinata deu uma pequena pausa, como se quisesse reter aquelas lembranças — Foi a coisa mais meiga que qualquer pessoa já tinha me dito. Então, quando Iruka-sensei te chamou, você foi à frente da sala e falou “Eu sou Uzumaki Naruto, futuro Hokage de Konoha! Vocês devem me respeitar!” E eu passei a te admirar desde aquele momento.
Lentamente aquela cena voltou à cabeça de Naruto. Mas, mesmo que se esforçasse Naruto ainda não se lembrava de te-la visto lá.
- Mesmo quando todos começaram a rir, você não baixou a cabeça. – um pequeno sorriso se insinuou nos lábios trêmulos — E foi isso quem me inspirou a falar. Claro que não da mesma forma que você, mas eu falei em público pela primeira vez! Aquilo foi muito importante para mim. No dia seguinte, eu te levei um doce, para mostrar meu agradecimento. Esperei ansiosamente que você sentasse novamente ao meu lado... Mas você não veio... Passou por mim, sem me dar ao menos a chance de falar... E foi sentar ao lado da Sakura-san...
“Eu me apaixonei pela Sakura...” pensou ele atônito “Quando Hinata se apaixonava por mim?!”.
- Desde então – continuou ela tristemente — eu todo dia dizia a mim mesma “Falarei com ele hoje!”, mas o hoje não chegou nunca... O doce voltava sempre para casa na minha mochila e eu o oferecia a Hanabi. Então eu apenas... Observava-te a distância... Eu espreitava quando você treinava sozinho... Vendo seu sofrimento... Sofrendo com você! Queria dizer algo, te consolar... Te dar forças do mesmo modo que você me dera naquele dia... Mas... Mas... – a força dela parecia estar se evaporando diante das lembranças.
- Hinata! – ele não conseguiu mais ficar calado – Eu precisava tanto de alguém naquela época! Era tão só! Por que você nunca se aproximou de mim, se sabia que eu sofria? – agora ele também gritava.
- Você nunca me deu abertura para eu me aproximar! – explodiu ela — Estava tão entorpecido com seu próprio sofrimento que nem ao menos me notava! – Hinata começou a puxar a blusa com fúria, como se tentasse arrancar seu coração – Nem o meu nome você sabia! – falou com os olhos cheios de acusações. — Sabe quando você dirigiu a palavra de novo pra mim? Quatro anos depois! Quando, por acaso, sentamos lado a lado no Exame Chunin! Mas depois, quando fomos fazer a inscrição para a segunda fase... Você se aproximou de mim... E eu tentei te dar uma pomada para aquela ferida que a Anko-san fez no lado esquerdo do seu rosto... E mais uma vez você passou por mim, seguindo outra direção. – As lágrimas que escorriam de seus olhos só eram um fator a mais a indicar todo a magoa que ela sentia ao falar de todas aquelas lembranças.
Instintivamente, ele levou a mão ao rosto. Lembrava vagamente da ferida causada por Anko durante o exame. Mas fora algo que acontecera há tanto tempo... Era impressionante como ela se lembrava de todos os detalhes. Naruto se perguntava por que nunca tinha notado aquela devoção que ela parecia sentir. O que poderia dizer diante do desabafo de Hinata? O que dizer para aplacar aquele desespero que ela parecia sentir a cada palavra? E o que fazer com o desespero que crescia dentro dele a cada palavra proferida? Mas antes que ele pudesse pensar, ela continuou:
- Eu torci por você quando houve sua luta contra o Kiba-kun! Mesmo ele sendo do meu time eu quis que você ganhasse! E quando eu fui lutar... Senti que talvez pudesse conseguir um pouco de sua admiração na minha luta, se me esforçasse bastante. Mas isso desapareceu de mim quando vi que lutaria com o Neji-nii-san. Sabia que ia perder. Mas não fugi, mesmo que fosse essa minha vontade! Eu apanhei do Neji-nii-san, cai varias vezes, mas não desisti... Sabe por quê? – o inquiriu de forma incisiva, mas sem esperar por resposta dele. — Suas palavras de incentivo me davam esperança! E por que queria que você me notasse! Que visse o quanto eu era capaz! Que me admirasse... Que pudesse ver até onde eu podia chegar por você...
- Hinata... – murmurou ele desolado.
- Quando você foi embora de Konoha para treinar... – Hinata agora falava respirando com dificuldade, como se o esforço para se manter em pé sugasse não só suas forças, mas também sua alma – Eu fui me despedir de você...
- Ninguém se despediu de mim daquela vez! – cortou ele.
- Eu sei... Somente eu fui... Mas você estava olhando para o monumento do quarto Hokage... Tão determinado... Que achei melhor não falar nada. E te esperei... Esperei você voltar... Por três anos... Depois mais três... Nunca consegui colocar ninguém na minha vida além de você... – e inspirando profundamente ela finalizou – Eu sempre amei você! Sempre! – E seus olhos continham aquele brilho que sempre ele vira, mas nunca soubera identificar... Até agora. — Enquanto você nem sabia da minha existência e se afogava em auto-piedade! Então, Naruto, quem é mais egoísta nessa história?!
Naruto não sabia o que responder. Nem podia. Ela tinha razão. Antes de começar a estudar com Hinata, só lembrava-se dela quando a via. Não havia defesa pra isso, ele não tinha como revidar. Mas ainda restava uma coisa, e ele não hesitou em falar:
- Mesmo com todo esse amor que você diz que sente... Abandonou-me...
Hinata segurou mais forte a sua roupa. Tinham entrado em terreno proibido. Ela jamais teria coragem de acusar seu pai. Apesar de tudo, o amava muito. E sabia que não podia quebrar sua promessa.
- Você pensa que foi fácil para mim? – perguntou ela tristemente – Eu não queria ter feito aquilo... Por que eu faria? Depois de tantos anos te amando em segredo, por que eu me desfaria de você tão rápido?
- Então...
- Não! – gritou ela dando dois passos para trás – Eu não posso falar! Eu não posso! Eu prometi!
Neji ficou alerta. Hinata já falara de promessa antes. No dia de sua posse. “Estou indo cumprir minha promessa”. Então ela fora se despedir de Naruto. Mesmo sofrendo, ela foi. Mas por quê?
Naruto parecia pensar a mesma coisa que Neji.
- Por que Hinata? Que promessa é essa? – perguntou desesperado, avançando sobre ela e segurando seus ombros.
Ela segurou a cabeça com as mãos, em uma atitude desesperada, lutando consigo mesma e contra aquele desejo de dizer tudo.
- Não posso falar! – gritou.
- Mas é minha vida! – exclamou ele num grito desesperado e sem querer sacudindo ela – Diz respeito a mim também! Eu tenho o direito de saber!
- Por mais que eu queira... Você não pode saber... – Mesmo sofrendo ela não iria dizer e ele sentia isso.
- Se você quiser, pode sim! – afirmou ele irritado.
- Não diga que posso desfazer minha palavra... Você preza mais as promessas que qualquer um... – disse ela tristemente – e além de tudo... Para que ainda remexer nisso, Naruto? Para que você ainda está interessado em saber? Você não me ama... Nunca me amou... Isso não te diz mais respeito... — Ela disse aquilo de uma forma que soou cansada de saber daquilo... Cansada de sofrer por aquilo... Cansada de lutar por algo que ela sabia que não iria ter...
Para Naruto, aquela afirmação tão simples, mas dita com tanta convicção e ao mesmo tempo tanta mágoa o machucou mais que qualquer coisa que houvesse sido falada ali. A chuva começou a recuar, mas o vento ainda soprava frio. Ambos tremiam e ele ainda a segurava pelos ombros.
- Isso é...
- Mentira? – interrompeu ela – Não, Naruto. Não é. E pelo o que eu vejo neste instante em seus olhos, você sabe que não é. Eu sempre amei você, mas você só começou a conviver comigo depois que começamos a estudar juntos... Depois disso, namoramos uma semana... Não há como aprender a amar nesse tempo tão curto... E a prova disso, é que enquanto eu sofria por estar longe de você, sofria por todos na vila me odiarem e virarem as costas para o meu clã... – e só então ao olhar pra ela, Naruto pode ver a extensão de todo o sofrimento que ela passara, reparou finalmente nas suas faces encovadas, na sua pele pálida, em seu corpo mais magro e principalmente em seus olhos que lhe diziam mais do que as palavras que tudo aquilo não era fruto do seqüestro, mas sim fruto de suas ações para com ela e isso aumentou ainda mais o estado desesperado em que se encontrava. — Você continuou a viver sua vida feliz e sem preocupação e nem ao menos procurou saber minhas razões!
- Mas eu fui atrás de você no dia seguinte! – respondeu ele tentando se enganar.
- Por orgulho! Não por amor! – falou ela como se soubesse mais do que o próprio Naruto o que se passara naquela ocasião. — Se você sentisse algo por mim, teria ido me procurar de alguma forma! Você não sabe quantas noites eu passei acordada... Esperando que um sapo verde e gordo entrasse pela minha janela mais uma vez... Mas ele nunca veio... – a decepção escorria pelas palavras dela.
A palidez da pele começou a retornar depois que cessaram seus gritos, e aquilo era preocupante. Sabia que a qualquer momento ela poderia desmaiar ali. Mas Hinata não desmaiou. Continuou encarando-o com um sentimento que Naruto não queria estar vendo. Era algo como dor, misturada a desapontamento... Estaria ela arrependida por amar tanto ele? Não saberia dizer. Na verdade, tudo aquilo era muito novo e confuso para Naruto. Estava diante da pessoa que mais o amara durante sua vida. Era uma coisa que ele sempre quisera ter. Mas um abismo parecia ter se imposto entre eles.
A chuva parou totalmente e as nuvens começaram a se dispersar. Quando a luz da lua iluminou os dois, fazendo com que os olhos dela brilhassem intensamente para ele, Naruto pôde finalmente compreender.
— Nossas vidas não podem se cruzar mais, Naruto... – murmurou ela em prantos – Para o nosso bem... E de todos em nossa volta... Por mais que eu queira... Que deseje... Não podemos ficar juntos... Desde o inicio era óbvio que seria impossível...
— Hinata... – foi tudo que ele conseguiu pronunciar.
— Não... Não fale nada, por favor... Não torne tudo mais difícil... – suplicou ela – Viva sua vida, Naruto. Seja feliz. Realize seus sonhos. Torne-se um Hokage. – E ele pode sentir toda a grandeza dos sentimentos de Hinata, pois mesmo naquele momento onde ela se achava tão magoada, ela queria que ele fosse feliz. — Quanto a mim... – ela se soltou dos braços deles — Talvez nos encontremos novamente, como Hokage e líder de clã... Até lá, esqueça que fiz parte de sua vida... Se é que um dia eu realmente fiz... – E com essa última frase ela se desligou totalmente do sofrimento que ele lhe trazia erguendo por fim uma barreira de isolamento para seus sentimentos.
— Você ainda faz... – ele tentou dizer, mas ela lhe virou as costas e, mais uma vez, foi embora.
Naruto estendeu o braço como se pudesse tentar alcança-la apenas com esse movimento. Porém, uma dura barreira havia sido colocada entre os dois. Uma barreira da qual ele mesmo assentara os tijolos.
“Você não me ama...” aquilo ainda reboava nos ouvidos dele.
Uma sensação de solidão tomou de conta do interior de Naruto. Mas era uma sensação diferente. Não era aquela que ele já se acostumara a sentir. Era mais amarga, mais fria e infinitamente mais dolorida. Não se comparava a nada que tivesse experimentado antes. Tudo pareceu mais opaco e cinza aos seus olhos. Dentro de si, sentia como se um furacão espalhasse pelo tempo todos os sentimentos bons que carregara. Seus sonhos de repente pareceram perder a cor. Tudo que havia feito até aquele dia, subitamente perdeu o sentido. Ele não se sentia vazio. Sentia-se morto.
E finalmente Naruto compreendeu.
Descobriu o motivo que o levara a pensar nela todos os dias.
Que o levara a pegar o Time três e continuar seu trabalho.
Que não conseguia olhar para outra mulher.
Que o impulsionara a desafiar a Hokage pra vir resgatá-la.
O que o mantivera com os dois pés na razão durante aqueles dois meses.
E por que de repente se sentia um lixo.
Naruto descobriu que amava Hinata com toda força de sua alma.
E com a mesma luz que chegara a essa conclusão, percebeu também que a perdera.
Definitivamente.
Não havia lágrimas para chorar, pois não havia mais um coração para sofrer. Apenas um deserto seco e vazio dentro do peito.
Hinata cambaleou até ficar fora das vistas de Naruto. Em prantos, se arrependia de cada palavra que dissera para ele. Mas não tinha agüentado. Pela primeira vez na vida, perdera totalmente a capacidade de controlar seus atos. Quando atravessou o jardim e encontrou Neji esperando por ela do outro lado da casa, sentiu uma onda de alivio. Pelo menos tinha um aliado ali.
— Neji-nii-san... – sua voz soou fraca e rouca.
— Não fale nada, Hinata-sama.
Ele tirou uma manta grossa de sua mochila que não tomara chuva e a envolveu com o calor que ela almejava, não para o corpo, mas para a alma.
— Vou levá-la de volta. – afirmou Neji com convicção.
— Sim... – balbuciou ela – Quero voltar para casa. Para minha família...
Mas ela sabia que jamais seria a mesma de novo. Todos seus sonhos haviam morrido. E ela mesma dera o golpe final.
Sasuke se aproximou de Naruto, preocupado. Sakura também quisera ir até ele, mas ela e Kakashi precisavam resolver como levariam Ikimono e Kobayashi para Konoha. O seu sensei também estava mandando uma mensagem a vila, relatando o sucesso da missão.
— Naruto. – chamou ele preocupado – Precisamos voltar...
“Voltar...” pensou Naruto “Voltar para que? Voltar para quem?”.
Todavia não disse nada. Apenas seguiu o amigo.
Makoto ouvia as lágrimas derramadas por Suzumi. Ela, é claro, tentava esconder os soluços, mas sabia que ele perceberia mais cedo ou mais tarde.
— Por que chora Suzumi? — perguntou ele.
— Não estou chorando... – respondeu ela entre os soluços – É só o frio que ta fazendo meus olhos lacrimejar e meu nariz escorrer.
Achou melhor não discutir com ela. Não havia clima pra isso.
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Tsunade olhava pela janela de seu escritório para as crianças que corriam lá embaixo, nas ruas de Konoha. Não importava o que acontecesse, ela tinha a obrigação de proteger o futuro delas. Se algo saísse errado na missão e a vila da Nuvem colocasse as mãos no byakugan ou no sharingan, ficariam em uma desvantagem horrível. Não se preocupava com o caso de Makoto. Os Otori tinham seus próprios meios de impedir que sua linhagem se disseminasse.
Já fazia dias que o grupo de Kakashi partira, e cada minuto que se passava, deixava-a cada vez mais preocupava e temerosa. Não eram somente as linhagens que a preocupavam. Mas as pessoas que as possuíam também.
Uma batida na porta a tirou de seu devaneio.
— Entre. – disse ela.
Shikamaru entrou na sala, acompanhado de Ino e Chouji. Eles traziam nas mãos um dos pássaros usado na vila para mandar mensagens de forma segura e rápida. Com um aperto no coração, reconheceu aquele como sendo o que Kakashi levara.
— Qual a mensagem? – perguntou apreensiva.
— A missão foi um sucesso. – respondeu Shikamaru com um grande sorriso – Nenhuma baixa do grupo de resgate, dois prisioneiros e Hinata sã e salva.
Entregou o pergaminho a Hokage, que o leu rapidamente. Sentiu-se triste pela morte de Nobuhiro e os outros Hyuuga, mas também aliviada pelos outros, principalmente as crianças, estarem vivos. Enrolando o pergaminho, ela olhou para o grupo a sua frente e ordenou:
— Shikamaru, vá até o clã Hyuuga e dê a notícia à Hyuuga Hiashi que sua filha está a salvo e chegará à vila ainda hoje. Ino vá até o hospital e diga aos ninjas médicos que preparem a sala de cirurgia imediatamente. Temos três feridos graves. Depois, se dirija ao clã Kaneshiro e peça para Kaneshiro Yura estar em minha sala o mais breve possível. Chouji contate Morino Ibiki e diga para preparar duas celas e a sala do interrogatório. Imediatamente. – havia urgência em sua voz.
— Sim, Hokage-sama. – disseram os três em uníssono e partiram.
Tsunade se recostou em sua cadeira e, lentamente pegou a garrafa de sakê que Naruto havia deixado para ela. Bebeu um gole, dizendo a si mesma que não havia mal nenhum em fazer aquilo no horário de trabalho. Não depois do estresse dos últimos dias.
E depois que a equipe chegasse, tinha coisas importantes para resolver. Sorriu ao imaginar a cara de Naruto ao saber o que ela reservara para ele.
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Logo depois de decidir que Sakura se encarregaria de levar Yumi, enquanto Sasuke e Kakashi se encarregavam dos inimigos que seriam entregues ao interrogatório, o grupo começou a voltar todos juntos para Konoha. Neji, que levava Hinata nas costas, andava bem a frente dele, sem se afastar muito por ordens de Kakashi, mas só mantendo qualquer espécie de contato quando estritamente necessário. Não sabiam dizer se por que pretendesse realmente se manter afastado, ou se por que simplesmente Naruto começou a andar mais devagar forçando os outros a acompanharem seu ritmo. Mas ele evitava chegar perto de todos durante todo o trajeto da volta. Seus olhos estavam perdidos e não falou uma única palavra. Se lhe faziam qualquer pergunta, limitava-se a balança a cabeça, afirmando ou não.
Dois dias depois da partida, puderam avistar os portões de Konoha. Um alívio para Hinata, que por um momento pensou que os laboratórios da vila da Nuvem seria o seu futuro.
- Finalmente, de volta para casa... – disse Neji.
Tudo que Hinata queria era voltar para o clã e se enterrar em seu quarto. Não queria ver ninguém. Todavia, quando os portões de Konoha se abriram para eles, seu coração foi surpreendido por uma cena que não esperava jamais. Seu pai com uma expressão preocupada, os aguardava na entrada da vila. E não estava sozinho. As pessoas mais chegadas do clã também estavam lá. Tão logo atravessaram os portões, Hiashi se dirigiu até onde eles estavam.
- Hinata! – chamou Hiashi.
- Papai... – murmurou Hinata.
Com cuidado, Hiashi tirou a filha das costas do sobrinho e a abraçou fortemente. Encostou o rosto dela em seu ombro e passou delicadamente as mãos em sua cabeça. As demonstrações de carinho daquele homem sempre foram as mais discretas possíveis, mas naquele momento, toda discrição pareceu ter sido esquecida. Quando Hinata olhou para o rosto de seu pai, percebeu que as marcas nele estavam mais profundas e duras. Hiashi parecia ter envelhecido anos nos poucos dias nos quais esperara sua volta.
- Não se preocupe minha filha – disse ele com a voz embargada – Ninguém mais lhe fará mal. Eu não permitirei.
- Papai... – era tudo que ela conseguiu pronunciar enquanto se deixava envolver por aqueles braços confortadores.
- Hinata-nee-san!
Hanabi também estava lá. Abraçou a irmã e o pai chorando tanto quanto a primeira.
Naruto observou aquela cena sentindo um gosto amargo de ciúme em sua boca. Sasuke pareceu preocupado com a expressão desolada do amigo. Tocou em seu ombro e disse:
- Vamos Naruto. Seu time precisa ir ao hospital, e precisamos levar os prisioneiros para Morino Ibiki.
Naruto pareceu não ter ouvido nada. Continuou observando todo clã Hyuuga rodear Hinata como se ela fosse a coisa mais preciosa que eles possuíam. E talvez realmente fosse.
Sakura se aproximou da comitiva dos Hyuuga e chamou a atenção de Neji.
- Neji-san, por que não leva Hinata para o hospital para que eu possa examiná-la melhor? – perguntou preocupada.
- Não será necessário. – quem respondeu foi Hiashi – Cuide desses garotos que estão com vocês. De minha filha, cuidarei eu.
E enquanto Hiashi colocava sua primogênita nos braços, seus olhos se encontraram por um momento com os de Naruto. E o rapaz pode ver todo o ódio que aquele pai sentia por ele.
“Você me odeia...” pensou Naruto quando o viu se afastar com Hinata “E com toda razão. Sempre achei que você se envergonhasse da Hinata, mas vejo agora que não. Você a ama e protege... E fará isso melhor que eu. Se estivesse em seu lugar, Hiashi, também me odiaria...”.
Todos começaram a se dispersar. Sakura levou o Time três até o hospital, enquanto Kakashi e Sasuke levavam os prisioneiros para a prisão. A ele nada foi designado. E ficou parado, em pé, perdido em seus pensamentos, observando na direção do clã Hyuuga. Mas nada mais havia lá para ele. Nem lá, nem em lugar nenhum.
Com pingos de chuva caindo sobre sua cabeça, começou a se encaminhar de volta para seu apartamento. E de volta para a solidão, que o esperava de braços bem abertos.
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