O Sussurro da Academia
7 Capítulo 7: O Fantasma de Hayate Gekko
O dormitório de Shikamaru era um santuário de caos organizado. Livros sobre táticas de guerra e história militar estavam empilhados em torres precárias ao lado de mangás e revistas de jogos, ameaçando desabar a qualquer momento. Um tabuleiro de shogi, com uma partida complexa e esquecida pela metade, ocupava o centro do tapete puído. O ar tinha um cheiro familiar de café requentado, papel velho e da chuva fraca que batia do lado de fora da janela, um aroma que normalmente o acalmava. Naquela noite, porém, o silêncio no quarto era diferente. Não era o silêncio preguiçoso de um dia normal, mas um silêncio pesado, denso, carregado com a memória recente do terror no porão.
Hinata segurava o copo de água com as duas mãos. O vidro estava gelado, e a condensação molhava seus dedos, mas ela mal sentia. O frio era uma boa distração, uma âncora para a realidade enquanto sua mente ainda ecoava com os sussurros e o som de unhas arranhando madeira. Suas mãos ainda tremiam, uma vibração fina e persistente que ela não conseguia controlar.
Shikamaru estava sentado na cadeira da escrivaninha, de costas para o notebook, os cotovelos apoiados nos joelhos, os dedos entrelaçados em frente à boca. Ele não olhava para ela, mas para o tabuleiro de shogi, e Hinata podia quase sentir as engrenagens daquela mente genial girando, processando a loucura que tinham acabado de viver, tentando encaixá-la nas regras lógicas do seu mundo.
— Era inteligente — disse ele, finalmente, quebrando o silêncio. Sua voz era baixa, analítica, quase desprovida de emoção, mas Hinata notou o músculo tenso em sua mandíbula. Ele também estava abalado, apenas demonstrava de forma diferente. — Não era um ataque de fúria cega. Foi calculado. Direcionado. Cada palavra foi escolhida a dedo.
— Sabia exatamente o que dizer — concordou Hinata, a voz um sussurro. Ela sentiu um calafrio ao se lembrar. — Coisas... do meu passado. Coisas que me disseram online, anos atrás. Uma frase exata. Como é que ele podia saber?
— Não sabemos se é um "ele". Não sabemos o que é. Mas sabemos como opera. Se alimenta de medo, e usa as nossas memórias, as nossas fraquezas, como um garfo e uma faca. Comigo, usou o meu medo de falhar, a minha tendência a desistir. Com você, usou o seu trauma. — Ele levantou o olhar do tabuleiro e a encarou, e pela primeira vez, ela viu a vulnerabilidade por trás da análise. Ele também tinha sido ferido. — Mas você fez algo que eu não fiz. Você sentiu algo. Dor. Tristeza. Isso é uma informação nova, e é a única vantagem que temos.
Hinata pensou na sensação. A onda de ódio que a tinha atingido no porão fora a coisa mais assustadora que já sentira, uma malícia pura que queria aniquilá-la. Mas por baixo dela, como uma melodia triste sob uma tempestade de ruído, estava aquela corrente de pura agonia. — Era... como um grito de socorro — tentou ela explicar, as palavras a saírem com dificuldade. — Mas um grito que se transformou em raiva porque ninguém ouviu. Soava... solitário.
Shikamaru se levantou e começou a andar pelo quarto, um animal enjaulado. A preguiça tinha desaparecido completamente, substituída por uma energia nervosa e focada. — Ok. Ok. Então temos uma entidade que ataca psicologicamente, que está ligada a um desaparecimento em 1998 e a um símbolo estranho, e que, aparentemente, está sofrendo. — Ele parou em frente à janela, olhando para o campus escuro e chuvoso. As gotas de chuva escorriam pelo vidro, distorcendo as luzes distantes e fazendo-as parecer estrelas a chorar. — Nossa abordagem até agora foi defensiva. Fomos reativos. Isso está errado. Se continuarmos assim, vai nos caçar um por um, nos isolar e nos quebrar.
— Então o que a gente faz? — perguntou Hinata, a esperança na voz dela dependendo inteiramente da resposta dele.
Shikamaru se virou, seus olhos normalmente preguiçosos brilhando com uma intensidade afiada na luz fraca do quarto. — Mudamos o jogo. Passamos de presas a caçadores. Se quisermos entender o monstro, precisamos entender o homem. O foco da nossa investigação, a partir de agora, é 100% em Hayate Gekko.
A pesquisa recomeçou, mas com um novo propósito. Já não procuravam por fantasmas, mas por uma vida. O notebook de Shikamaru se tornou o centro de operações. Hinata se sentou ao seu lado, tão perto que seus ombros quase se tocavam, o calor do corpo dele uma presença reconfortante na frieza do mistério.
Eles mergulharam nos arquivos digitais da academia, um cemitério de sites com design dos anos 90 e links quebrados. Era um trabalho de arqueologia digital, e Shikamaru era um mestre. Com uma paciência que Hinata nunca imaginou que ele possuísse, ele metodicamente abria cada anuário digitalizado, cada edição do jornal estudantil "A Folha de Konoha".
As descrições eram o que se esperaria de um jornal universitário. Descreviam Hayate como um capitão "dedicado" e "silencioso" da equipe de esgrima. Um aluno "promissor" de literatura clássica. Havia fotos dele, em preto e branco, a qualidade granulada o fazendo parecer ainda mais um fantasma. Numa foto, ele recebia um troféu, seu sorriso parecia forçado, uma máscara cansada que não chegava aos olhos. Em outra, ele estava no meio de sua equipe, e parecia quase alheio, seu olhar se desviando da câmera como se procurasse uma saída.
— Ele não parece feliz — observou Hinata, sua voz suave.
— Ele parece exausto — corrigiu Shikamaru, dando zoom numa das fotos. A imagem se pixelizou, mas as sombras sob os olhos de Hayate ainda eram visíveis. — Olhe as olheiras. São as mesmas da foto do anuário. Ele já não estava bem, muito antes de desaparecer.
Eles continuaram cavando. Listas de membros de clubes, menções honrosas, artigos sobre competições. E um nome começou a aparecer repetidamente ao lado do de Hayate. Nos agradecimentos de um artigo, na lista de parceiros de treino, na legenda de uma foto da equipe.
Anko Mitarashi.
— Ela era a vice-capitã da equipe de esgrima — disse Shikamaru, sublinhando o nome na tela com o cursor. — E estava no mesmo ano que ele.
A curiosidade moderna assumiu o controle. Deixaram o arquivo da universidade e abriram uma aba de rede social. Digitaram o nome. Vários perfis apareceram. Eles filtraram por idade e localização. E então, a encontraram.
O perfil mostrava uma mulher na casa dos quarenta, com cabelos escuros e curtos e um olhar intenso que nem a foto de perfil conseguia suavizar. As fotos mostravam uma vida que não se encaixava em nenhum catálogo. Uma foto dela numa moto, o vento a chicotear seu cabelo. Outra ensinando uma aula de autodefesa, sua expressão feroz e concentrada. Várias com um grupo de amigos rindo num bar, um copo de cerveja na mão. Era a imagem de uma mulher que viveu intensamente, que não tinha medo de nada. Um contraste tão gritante com o fantasma em preto e branco de Hayate Gekko que chegava a ser perturbador.
Hinata sentiu um nó no estômago ao olhar para o rosto de Anko. Como ela consegue sorrir assim?, pensou. Será que ela se esqueceu dele completamente? Ou será que essa força toda é apenas uma armadura que ela construiu sobre uma ferida antiga?
Enquanto a investigação de dois de seus amigos atingia um novo nível, em outra parte do campus, a vida continuava, com seus próprios dramas mais mundanos. Naruto encontrou Sasuke perto do ginásio, guardando seu equipamento de kendo no armário. O corredor estava quase vazio, e o som metálico do armário se fechando ecoou de forma aguda. — Ei, Sasuke — começou Naruto, se encostando nos armários. — A gente precisa conversar.
Sasuke nem sequer olhou para ele, seu foco total em organizar suas coisas com uma precisão irritante. — Não, не precisamos.
— É sobre a Sakura — insistiu Naruto. — Ela não está bem. E você também não. Essa situação toda é ridícula. Por que vocês não conversam e resolvem isso de uma vez?
Sasuke fechou a porta do armário com uma força contida. Ele finalmente se virou para Naruto, seus olhos escuros frios como obsidiana. — Você não sabe de nada, Naruto. Fique fora disso.
— Eu sou seu amigo! E sou amigo dela! Eu estou no meio disso!
— Então saia — disse Sasuke, sua voz baixa e perigosamente calma. Ele passou por Naruto, esbarrando em seu ombro de propósito. — A última coisa de que preciso é de você me dando lições de moral.
Naruto ficou olhando para as costas de Sasuke se afastando, um misto de raiva e frustração borbulhando dentro dele. Ele cerrou os punhos. Por que ele não me deixa ajudar? Depois de tudo o que passamos... por que ele ainda insiste em carregar tudo sozinho? Ele não entendia que a frieza de Sasuke era apenas outra forma de lidar com uma dor que ele não sabia como expressar.
De volta ao quarto de Shikamaru, a luz do notebook iluminava os rostos concentrados dele e de Hinata. Eles tinham passado a última hora analisando o perfil de Anko, cada foto, cada post antigo. Não havia nenhuma menção a Hayate. Nenhuma menção à Academia Konoha. Era como se seu passado tivesse sido completamente apagado.
— Ela construiu uma vida nova — sussurrou Hinata. — Talvez ela não queira se lembrar.
— Ou talvez ela tenha sido forçada a esquecer — ponderou Shikamaru, seu cérebro já calculando as probabilidades e as abordagens. Essa mulher parece uma fortaleza. Chegar de repente e perguntar sobre um amigo que desapareceu há vinte anos... a chance de ela nos mandar passear é de quase 90%. Precisamos da jogada certa. — Se ela era próxima dele, ela deve ter notado o comportamento estranho. Os sussurros. Ela é a única pessoa viva que podemos encontrar que esteve lá, que o conheceu. Ela pode ter as respostas.
Ele olhou para Hinata, a decisão se formando em seu rosto. A hesitação tinha desaparecido, substituída por uma determinação fria. O peso da responsabilidade que ele tanto evitava estava agora firmemente sobre seus ombros. Mas, pela primeira vez, ele não estava sozinho a carregá-lo. — Precisamos falar com ela.
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