O Sussurro da Academia

8 Capítulo 8: A Sombra que nos Segue


O dormitório de Shikamaru tinha se tornado, de forma não oficial, o quartel-general daquela guerra silenciosa. O tabuleiro de shogi no chão já não era um jogo, mas um mapa de guerra. As peças representavam as suas poucas informações e os seus muitos inimigos invisíveis. Sentados no chão, rodeados por livros e xícaras de café frias da noite anterior, eles traçavam o próximo movimento. A chuva fina batia um ritmo suave e melancólico na janela, o único som a quebrar a quietude tensa do quarto, um silêncio que parecia ter peso e textura, quase sufocando-os com a gravidade da sua situação.

— Ela não vai falar conosco de livre e espontânea vontade — disse Shikamaru, a voz rouca pela falta de sono. Ele esfregava os olhos, sentindo a areia da exaustão arranhar suas pálpebras. A noite em claro não tinha sido gasta apenas em pesquisa, mas em reviver o terror do porão, analisando cada segundo, cada sussurro, cada falha na sua própria coragem. Ele se sentia como um general revendo uma batalha perdida. — Uma mulher que apaga o passado de forma tão completa não vai gostar que dois estudantes apareçam para desenterrar fantasmas. Abordagem errada e ela se fecha para sempre. É como tentar forçar um xeque-mate contra um mestre. Precisamos de uma abertura sutil, algo que a convença a nos dar uma chance, sem parecer que estamos invadindo o seu trauma.

Hinata segurava o copo de água com as duas mãos. O vidro estava gelado, e a condensação molhava seus dedos, mas ela mal sentia. O frio era uma boa distração, uma âncora para a realidade enquanto sua mente ainda ecoava com os sussurros e o som de unhas arranhando madeira no porão. Ela olhava para a determinação no rosto de Shikamaru, a forma como sua mente processava cada detalhe, e sentia uma fagulha de algo que não sentia há dias: esperança. Era frágil, como a chama de uma vela no meio de um vendaval, mas estava lá. Ele não a via como louca. Ele a via como uma aliada. — Então não podemos simplesmente chegar e perguntar sobre o Hayate? — perguntou ela, sua voz um pouco mais firme agora.

— Não. Seria como perguntar a um veterano de guerra sobre o seu pior dia no campo de batalha. Precisamos de uma desculpa, uma razão plausível para estarmos pesquisando sobre a turma de 98. — A mente dele trabalhava, analisando ângulos, descartando possibilidades com a rapidez de um computador. Se dissermos que somos da família, ela pode verificar. Se dissermos que somos da polícia, é crime. Se dissermos a verdade... ela nos interna. — Podemos dizer que estamos fazendo um trabalho para o jornal do campus. Uma peça nostálgica sobre "campeões do passado". É fraco, é transparente, mas é melhor do que nada. Pelo menos nos coloca na frente dela.

Enquanto ele falava, o celular de Hinata, pousado na mesa de cabeceira, vibrou. O som, antes inocente, agora era carregado de ameaça. Ambos olharam para o aparelho como se fosse uma serpente prestes a picar. O corpo de Hinata enrijeceu, as memórias da noite anterior a assaltando. A foto. O número que não existia.

— Pode ver quem é? — pediu ela, a voz baixa, incapaz de tocar no aparelho. Suas mãos começaram a tremer novamente.

Shikamaru esticou o braço, pegou no celular e olhou para a tela. Sua expressão tensa relaxou visivelmente. — É o Naruto. — Ele virou a tela para ela.

A mensagem brilhava ali, simples e genuína: "Ei, você sumiu. Está tudo bem? Se precisar conversar, estou aqui."

Uma onda de emoções complexas atingiu Hinata, tão forte que lhe tirou o ar. O calor da preocupação de Naruto, uma coisa pela qual ela ansiava há anos, misturava-se agora com uma pontada de culpa e uma tristeza profunda. Como poderia ela explicar o que estava acontecendo? “Oi, Naruto. Eu estou bem, só estou sendo assombrada por uma entidade que se alimenta de traumas e que mora na torre do relógio.” Ele pensaria que ela estava louca, tal como Sakura. A distância entre o seu mundo de sombras e o mundo normal e barulhento dele parecia ter se tornado um abismo intransponível. Ela sentiu uma lágrima silenciosa escorrer pelo seu rosto, não de medo, mas de uma súbita e dolorosa solidão. Shikamaru entendia o seu terror, mas Naruto... Naruto representava a vida normal que ela sentia que estava perdendo para sempre.

— Eu respondo depois — disse ela, a voz embargada, limpando a lágrima rapidamente. — Você tem razão. O trabalho do jornal. É um bom plano.

A viagem até a academia de defesa pessoal de Anko levou-os para um lado da cidade que eles raramente visitavam. Os prédios elegantes e bem cuidados do distrito universitário deram lugar a armazéns de tijolo com paredes grafitadas, oficinas mecânicas e prédios residenciais mais antigos, com roupas penduradas nas janelas. O cheiro de chuva no asfalto misturava-se com o cheiro de fumaça e das frituras de um restaurante de rua. O ônibus chacoalhava, os assentos de tecido áspero vibravam, e a cada parada, o murmúrio das conversas de estranhos parecia conter ameaças ocultas. Um homem idoso, de chapéu, sentado no fundo do ônibus, parecia encará-la fixamente, os olhos opacos sob a aba. O coração dela acelerou. Era ele? Era a criatura disfarçada? Ela afundou-se no assento, tentando ficar invisível, o sangue gelando nas veias. Shikamaru, percebendo sua angústia, seguiu seu olhar. Ele analisou o homem por um momento, sua mente processando cada detalhe, e depois, de forma sutil, mudou de lugar, bloqueando a linha de visão entre eles. "Ele só está olhando para a chuva", sussurrou Shikamaru, e Hinata percebeu que era verdade. O homem estava apenas perdido em seus próprios pensamentos. A paranoia era um veneno, distorcendo o mundo à sua volta, fazendo monstros de sombras inofensivas.

— Estamos quase chegando — disse Shikamaru, sua voz quebrando o transe dela. Ele apontou para a tela do celular. — O GPS diz que é a duas ruas daqui.

Enquanto ele falava, a tela do celular piscou. O mapa desapareceu, substituído por uma cacofonia de pixels coloridos e estática, acompanhado por um chiado agudo que saiu dos alto-falantes. O som era como unhas arranhando um quadro-negro diretamente em seus ouvidos, uma intrusão violenta e familiar. — Que raio...? — murmurou Shikamaru, batendo na lateral do aparelho com uma irritação crescente.

A estática parou tão abruptamente quanto começou. O mapa voltou, mas a rota estava diferente. A linha azul já não os guiava para a rua principal, mas para um beco estreito e escuro entre dois armazéns, mal iluminado por uma lâmpada piscando. O nome do destino no topo da tela tinha mudado. Já não dizia "Rua Industrial, 142". Dizia "Fim da Linha".

— Deve ser um bug — disse ele, mais para se convencer a si mesmo do que a ela, embora sua voz não tivesse a certeza de antes. Ele tentou recalcular a rota, mas a linha teimosamente apontava para o beco.

— Shikamaru... — a voz de Hinata era quase inaudível, um fio de terror.

Ele desligou a tela e guardou o celular no bolso. O gesto era definitivo. Não era um erro. — Não importa. Eu sei o caminho. Ele não vai brincar conosco de novo.

Eles desceram do ônibus e começaram a andar. A sensação de estarem sendo observados era quase insuportável, um formigamento frio na nuca. As ruas estavam mais vazias ali, e o som dos seus passos ecoava nos prédios de tijolos, como se estivessem andando num túmulo de concreto. Foi então que Hinata parou de repente, seu corpo gelando, os pés colados ao asfalto molhado. Ela estava olhando para a vitrine escura de uma loja abandonada, coberta por uma camada de poeira tão espessa que mal refletia. O vidro era um espelho opaco para o seu pior pesadelo. — O que foi? — perguntou Shikamaru, parando ao lado dela, a voz tensa.

Ela não conseguia falar. Apenas apontou com o dedo trêmulo para o vidro sujo. Shikamaru olhou. Ele viu apenas o reflexo deles, duas figuras tensas contra a paisagem urbana decadente. O coração dele martelava no peito, um tambor de alerta. — Hinata, não há nada...

— Atrás de nós — sussurrou ela, os olhos arregalados de terror, sua voz tão fraca que quase se perdeu no vento.

Shikamaru forçou o olhar, tentando ver através da sujeira do vidro, da sua própria incredulidade. E por uma fração de segundo, ele viu. Não era um reflexo claro, mas uma mancha na realidade, uma distorção. Parada no meio da rua atrás deles, onde antes não havia nada, estava a silhueta. Alta, fina, seus contornos ondulando como a bruma de calor, distorcendo o prédio atrás dela. Não estava fazendo nada. Apenas observando. Uma sensação de frio cortante o atingiu, a mesma sensação do porão, mas agora sob o céu aberto.

O instinto tomou conta. Num movimento rápido e fluido, Shikamaru agarrou o braço de Hinata e puxou-a, virando-a para longe da vitrine e começando a andar a um passo rápido e decidido. — Não olhe para trás — ordenou ele, sua voz baixa e urgente, quase um rosnado. Seu aperto era firme, quase doloroso, mas transmitia uma segurança inegável. Sua mente, antes tão cerebral, agora estava completamente focada na proteção. — Continue andando. Não corra, apenas ande. Não o deixes ver que nos assustou.

O contato físico foi um choque para ambos. O calor da mão dele no braço dela era a única coisa real num mundo que se estava desfazendo. Ela tropeçou, seus joelhos ameaçando ceder, mas ele segurou-a com firmeza, seu corpo servindo de escudo entre ela e o que quer que estivesse na rua. Pela primeira vez, ela sentiu o medo recuar, não porque a ameaça tinha desaparecido, mas porque já não estava enfrentando-a sozinha. Ele acreditava nela. Sem hesitação. Ele tinha visto também. A validação, mesmo no meio do terror, era uma sensação poderosa. Naquele instante, no meio da escuridão e do pânico, uma conexão profunda se formou entre eles, uma espécie de cumplicidade que transcendia a amizade. Ela sentiu uma estranha e inesperada pontada de alívio, de segurança, de algo quase... reconfortante, ao lado dele.

A academia de defesa pessoal de Anko Mitarashi ficava no segundo andar de um prédio de tijolos, por cima de uma loja de pneus. O som de gritos de luta e de corpos batendo no chão podia ser ouvido da rua, uma distração bem-vinda do silêncio sinistro que os tinha seguido. Eles subiram as escadas de metal, o coração de Hinata ainda martelando do encontro na rua, e entraram num espaço amplo e austero. O cheiro era uma mistura de suor, borracha e desinfetante, um cheiro honesto e terreno que os puxava de volta à realidade. No centro, uma mulher de cabelo escuro e curto instruía um grupo de alunos, sua voz um chicote. Era ela. Anko.

Eles esperaram num canto, observando. Anko era uma força da natureza, seus movimentos precisos e poderosos, sua energia quase palpável. Ela dispensou os alunos e caminhou na direção deles, limpando o suor do pescoço com uma toalha. De perto, ela era ainda mais intimidante. Havia uma energia perigosa e contida nela, como a de um predador no auge da sua forma. Velhas cicatrizes finas eram visíveis em seus antebraços, contando histórias de batalhas passadas que eles não podiam imaginar. — Sim? — disse ela, sua voz ríspida, sem rodeios. — Se estão aqui para a aula de iniciantes, é às quintas.

— Na verdade, não — começou Shikamaru, adotando a sua postura mais relaxada e inofensiva, um sorriso contido brincando em seus lábios. — Somos estudantes da Academia Konoha. Estamos escrevendo um artigo para o jornal do campus sobre antigos campeões da universidade. Seu nome apareceu como vice-capitã da equipe de esgrima de 98.

Anko parou, seu olhar endurecendo, tornando-se navalhas de obsidiana que o avaliavam da cabeça aos pés. — 98? Isso foi há uma vida. Não tenho nada para dizer sobre isso. — Ela pegou numa garrafa de água, pronta para encerrar o assunto. — Qual é o nome do seu orientador? E qual o tema exato do artigo? Quero ver os papéis da autorização do jornal.

Shikamaru não vacilou. — O professor Asuma. Ele está... de licença sabática, mas nos deu a ideia. O tema é "Lendas Esquecidas: Os Atletas de Ouro da Konoha do Passado". Os papéis estão no campus, mas podemos trazê-los amanhã, se for necessário.

Anko analisou-o por um longo momento, os olhos perscrutando sua alma, tentando encontrar a mentira. Hinata sentiu o coração na garganta. Ela podia sentir a tensão, a batalha silenciosa de vontades entre os dois. — Seria só por um momento — insistiu Shikamaru, percebendo que ela estava o testando. — Queríamos falar sobre o capitão da equipe, Hayate Gekko. Ele era uma lenda, pelo que lemos.

O nome atingiu-a como um soco. A garrafa de água na sua mão estremeceu, e um pouco de água derramou. Por um instante, a máscara dura de Anko rachou. Shikamaru viu uma sombra de dor, uma memória antiga passar pelos seus olhos, uma ferida que nunca cicatrizara. Mas desapareceu tão rápido quanto veio, substituída por uma parede de hostilidade fria, ainda mais intensa do que antes. — Nunca ouvi falar dele — mentiu ela, sua voz seca e sem emoção. A mentira era tão óbvia que chegava a ser um insulto. Ela não estava os convencendo, estava demarcando território.

— Isso é estranho — disse Shikamaru, seu tom calmo contrastando com o dela. — Porque há fotos de vocês os dois juntos no anuário. Ele parecia te admirar muito. E você parecia... se importar com ele.

— Olha, garoto, eu não sei que jogo você está jogando, mas eu não tenho tempo para as suas brincadeiras de faculdade. A minha resposta é não. Agora, saiam. E não voltem. Nunca mais.

Ela virou-lhes as costas, um claro sinal de que a conversa tinha terminado. A missão parecia um fracasso. Eles tinham vindo até ali para nada. Mas Shikamaru ainda tinha uma última carta na manga.

— É por causa do símbolo, não é? — disse ele, sua voz cortando o ar como uma lâmina, afiada e precisa.

Anko congelou, suas costas ainda viradas para eles. Cada músculo em seu corpo pareceu enrijecer, como uma estátua de pedra. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, quebrado apenas pelo som distante do tráfego.

— O círculo com as três vírgulas. O símbolo que o Hayate andava desenhando em todo o lado antes de desaparecer. O mesmo símbolo que está gravado na base da torre do relógio. O mesmo símbolo que a gente encontrou... onde ele sumiu.

Lentamente, como se estivesse lutando contra uma força invisível, Anko virou a cabeça, apenas o suficiente para olhá-los por cima do ombro. A hostilidade tinha desaparecido completamente. No seu lugar, havia algo muito pior.

Medo. Puro e genuíno. Um medo tão profundo e antigo que Hinata sentiu um arrepio na espinha. Era o mesmo medo que ela sentia, refletido nos olhos dela.

— Nunca mais voltem aqui — sibilou ela, sua voz um aviso mortal, mal audível, mas carregada de uma gravidade avassaladora. — Esqueçam esse símbolo. Esqueçam esse nome. Se não o fizerem, vocês não vão apenas desaparecer. Vão desejar ter desaparecido.

E com isso, ela caminhou até à porta e segurou-a aberta, seus olhos ardendo com uma intensidade que não deixava espaço para argumentos. Eles tinham a sua resposta. Anko não só se lembrava. Ela estava aterrorizada. Eles tinham tocado numa ferida aberta.

Eles saíram em silêncio, e a porta bateu atrás deles com uma finalidade assustadora, o som ecoando no corredor vazio. Não falaram nada enquanto desciam as escadas e voltavam para a rua agora escura. A chuva tinha parado, mas o ar continuava pesado, e um frio úmido se agarrava à pele. A silhueta não estava mais ali, mas a sua presença parecia impregnar a própria atmosfera.

Encontraram um pequeno café 24 horas a poucos quarteirões, um oásis de luz fluorescente e cheiro de café queimado. Sentaram-se numa mesa no canto, o vinil vermelho do assento rachado e frio. A xícara de Shikamaru tremia levemente ao tocar na mesa.

— Ela sabe — disse Hinata, finalmente, a voz saindo trêmula. — Ela sabe de tudo. Você viu o medo nos olhos dela? Era o mesmo que eu senti.

Shikamaru mexia o café preto numa xícara lascada, seus olhos fixos no pequeno vórtice que ele criava. Sua mente estava em overdrive, ligando os pontos. — Não era só medo, Hinata. Era um aviso. "Vão desejar ter desaparecido". Isso não é uma ameaça, é uma... profecia. É o que ela acha que vai acontecer conosco porque é o que quase aconteceu com ela. Ela não estava nos ameaçando, estava nos alertando.

A realização atingiu Hinata com a força de um soco. — Você acha que... ela é uma sobrevivente?

— Eu acho que sim — confirmou ele, finalmente olhando para ela. Sua expressão era sombria, a de um jogador que acaba de perceber a verdadeira complexidade do jogo. — Ela não está nos bloqueando porque não quer falar sobre o Hayate. Ela está nos bloqueando porque teme por nós. Ela teme o que vai acontecer se continuarmos mexendo com isso. Ela não é uma inimiga. Ela é a primeira vítima que conhecemos que conseguiu escapar. E ela está aterrorizada porque sabe que o que a persegue ainda está lá.

Eles ficaram em silêncio, o peso daquela descoberta assentando sobre eles. A missão tinha mudado radicalmente. O que antes parecia uma caça a um monstro, agora era a tentativa de salvar uma alma perdida e de obter ajuda de uma sobrevivente traumatizada. — Então... o que fazemos agora? — perguntou Hinata, sua voz um sussurro.

Shikamaru bebeu um gole do café amargo, sua mente já traçando novas estratégias. — Não podemos mais forçar a porta. Precisamos encontrar a chave. Precisamos descobrir uma forma de mostrar a ela que não somos uma ameaça, mas a única chance que ela tem de acabar com isso de vez. Não a forçamos. Conquistamos sua confiança. E para isso, precisamos de mais informações. Informações que o medo dela não vai nos dar.