O Sussurro da Academia

1 Capítulo 1: A Geometria das Sombras


A luz do fim de tarde pintava o campus da Academia Konoha com tons de laranja e roxo. Para a maioria dos estudantes, era um sinal para guardar os livros e dar início à noite. Para Shikamaru Nara, deitado na grama sob a sombra do velho carvalho próximo à biblioteca, era a hora mais problemática do dia. A transição. O momento em que as coisas mudavam.


Ele não estava observando as nuvens, como de costume. Seus olhos estavam fixos em algo muito mais mundano: a sombra da torre do relógio que se esticava pelo pátio. Era uma linha longa e escura, perfeitamente normal, exceto por um detalhe que fazia seu cérebro coçar. A ponta da sombra, onde deveria estar a extremidade do telhado pontiagudo, estava... torta. Curvada para a esquerda, como um dedo quebrado, desafiando a geometria do sol.


Ele piscou, sentou-se. A anomalia persistia. Era ilógico. Problemático.


— Se eu te encontrar dormindo de novo aqui, eu juro que vou te matricular em um curso de jardinagem.


A voz cortante, inconfundível, o tirou de sua análise. Temari estava parada na sua frente, braços cruzados e uma sobrancelha arqueada. O sol poente parecia incendiar seus cabelos loiros.


— Não estou dormindo, estou pensando — respondeu ele, a preguiça em sua voz mal escondendo a pontada de irritação. — Olhe. — Ele apontou. — A sombra.


Temari olhou para a torre, depois para a sombra, e de volta para ele, com uma expressão de tédio. — É uma sombra, Shikamaru. O que tem ela? O sol está se pondo, as coisas ficam estranhas. Você está estranho. Vamos, Sakura e os outros estão esperando no Ichiraku.


Ele olhou novamente. Por um instante, a ponta da sombra pareceu se contorcer, como algo vivo. Ele balançou a cabeça. Quando focou de novo, a curva tinha sumido. A sombra estava perfeitamente reta, como deveria estar.


— Problemático... — ele sussurrou para si mesmo, levantando-se devagar.


O "Ichiraku" não era mais a barraca de ramen de antigamente, mas um restaurante universitário barulhento, o ponto de encontro oficial da galera. As mesas do lado de fora estavam cheias. Em uma delas, o drama já estava servido.


Sakura Haruno cutucava seu narutomaki com os hashis, o olhar fixo em qualquer ponto que não fosse o homem sentado à sua frente. Sasuke Uchiha bebia um chá gelado, o silêncio ao redor dele parecia uma muralha de gelo. A tensão entre os dois era tão palpável que ninguém se sentava perto. Do outro lado da rua, encostada em uma pilastra, Karin Uzumaki os observava, um sorriso presunçoso no rosto.


— Isso é ridículo — Naruto Uzumaki disse em voz alta, gesticulando com um pedaço de carne de porco. — Por que eles insistem em sair juntos se nem conseguem se olhar?


— Porque talvez ainda se importem, Naruto-kun — Hinata Hyuuga respondeu em voz baixa, sentada ao lado dele. Seu rosto corou quando Kiba Inuzuka, do outro lado da mesa, passou um braço por seus ombros.


— Ou talvez só gostem de tortura — Kiba riu, apertando o ombro de Hinata. — Deixa eles pra lá. E você, Hina? Vai querer ir naquela festa da república Akatsuki no sábado?


Naruto parou de mastigar, o olhar endurecendo por uma fração de segundo ao ver a mão de Kiba em Hinata.


Foi nesse cenário que Shikamaru e Temari chegaram.


— Finalmente, o casal problema chegou — Kiba brincou.


— Não somos um casal — disseram Shikamaru e Temari em uníssono, sentando-se em lados opostos da mesa. A troca de olhares entre eles foi rápida, mas carregada de uma história não contada.


Enquanto Temari era arrastada para uma conversa com Kiba e Naruto tentava, sem sucesso, incluir Hinata no papo, Shikamaru permaneceu quieto. A imagem da sombra torta não saía de sua cabeça. Ele pegou o celular, abriu a câmera e deu um zoom na torre do relógio. A imagem estava nítida. Tirou uma foto. Tudo normal.


Então, seus olhos baixaram para a tela do celular. O relógio marcava 18:07. Ele olhou para o relógio da torre no pátio. Os ponteiros de ferro marcavam 18:07. Tudo certo. Ele desviou o olhar para o reflexo da torre em uma poça d'água próxima. No reflexo, os ponteiros marcavam 11:23.


Ele congelou. A água não invertia a posição dos ponteiros daquela forma. Era impossível. Ele olhou para a torre real, depois para o reflexo. Real: 18:07. Reflexo: 11:23.


— Shikamaru? Você está pálido — a voz de Hinata, suave e preocupada, o trouxe de volta.


Todos na mesa olharam para ele. Ele forçou um bocejo.


— Só cansaço — mentiu. — Acho que vou para o dormitório mais cedo hoje.


Ele se levantou, a mente a mil por hora. Geometria e física podiam ser relativas, mas o tempo não. E algo no coração daquela academia estava quebrando as regras.


Shikamaru não foi direto para o dormitório. Ele precisava ver de perto. Contornou o pátio, mantendo-se nas sombras, e se aproximou da poça d'água que ficava perto da base da torre do relógio. Ele se agachou, o coração batendo um pouco mais rápido.


Lá estava. O reflexo nítido da torre na água escura. E os ponteiros, imóveis, marcando 11:23.


Ele pegou o celular para tirar uma foto da anomalia, para provar a si mesmo que não estava ficando louco. Apontou a câmera para o reflexo. Na tela do celular, no entanto, a imagem era outra. A câmera não mostrava os ponteiros errados. Mostrava o relógio marcando a hora certa, 18:10. Mas mostrava algo mais.


Por uma fração de segundo, no reflexo da água capturado pela tela, ele viu uma figura. Uma silhueta escura e disforme estava parada no topo da torre, bem atrás dos ponteiros do relógio. Não parecia humana. Era longa, fina, e parecia se contorcer como fumaça.


Um arrepio percorreu sua espinha. Ele ergueu o olhar da poça para a torre real, no céu.


Não havia nada lá. Apenas a torre, os ponteiros e o céu roxo.


Ele olhou de volta para a tela do celular, para a foto que tinha acabado de tirar. A figura não estava na foto. Tinha sumido. Mas, ao dar zoom na imagem, ele viu algo que gelou seu sangue. No vidro do relógio, mal visível, havia a marca de uma mão. Uma marca de mão escura e fuliginosa, com dedos longos e finos demais para pertencer a qualquer ser humano. E estava do lado de dentro do vidro.