O Sussurro da Academia

2 Capítulo 2: O Peso da Lógica



Shikamaru não foi para o seu dormitório. A imagem daquela mão fuliginosa, com os dedos compridos demais, estava gravada na sua retina. Cada instinto lógico no seu corpo gritava que era impossível, mas ele tinha visto. Precisava de outra perspectiva, uma que fosse teimosamente ancorada na realidade, mesmo que isso o fosse irritar. Precisava da Temari.


Ele a encontrou no corredor do dormitório feminino, rindo de algo que Ino lhe mostrava no celular. Ele esperou, encostado à parede, com uma paciência que não sentia.


— Finalmente — disse ela, ao reparar nele depois de se despedir de Ino. — Pensei que você tinha hibernado. O que foi? Esqueceu o caminho para o seu quarto?


— Preciso falar com você. É sério — a voz dele saiu mais grave do que o habitual, desprovida da sua preguiça característica.


A expressão de Temari mudou, o divertimento sendo substituído por uma análise cuidadosa. Ela assentiu, guiando-o para uma pequena sala de estar no final do corredor, vazia àquela hora.


— Ok, desembucha. Você está com essa cara que você faz quando perde no shogi.


Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos ilógicos numa sequência que fizesse sentido. — Você viu a sombra da torre do relógio quando estávamos lá fora, certo?


— A sombra? — ela franziu o sobrolho. — Shikamaru, já superamos isso. Era uma sombra.


— Não, não era. A ponta estava torta. E depois, o relógio... — ele fez uma pausa, sabendo o quão louco aquilo ia soar. — O reflexo do relógio numa poça de água estava marcando uma hora completamente diferente. E quando tentei tirar uma foto com o celular, eu vi... vi uma coisa no topo da torre. E uma marca de mão, por dentro do vidro do relógio.


Ele terminou, o silêncio preenchendo o espaço entre eles. Temari olhava para ele, não com preocupação, mas com uma crescente impaciência, como se estivesse ouvindo a desculpa mais elaborada do mundo para faltar a uma aula.


— Ok, deixa eu ver se entendi — disse ela, cruzando os braços. — Você está me dizendo que viu uma sombra torta, um reflexo de relógio que viaja no tempo e um fantasma no topo da torre, tudo isso nos dez minutos em que esteve "pensando" na grama?


— Eu sei como soa...


— Soa a cansaço, Shikamaru. Ou a algo que você fumou — ela cortou-o, a voz firme. — Você está se sobrecarregando com os trabalhos da faculdade. Precisa dormir. Uma sombra torta? A sério?


A frustração borbulhou no peito dele. Não era a reação que esperava, mas era a que devia ter previsto. A mais lógica, ironicamente.


— Não estou inventando, Temari.


— Não disse que estava. Disse que você está vendo coisas. É diferente — ela descruzou os braços, o tom suavizando-se um pouco. — Vai dormir. Se amanhã de manhã as sombras ainda estiverem fazendo truques de magia, nós te levamos ao psicólogo do campus.


Ela virou-se para sair, encerrando o assunto.


Shikamaru ficou parado no meio da sala, ouvindo os passos dela se afastando pelo corredor. A frustração inicial deu lugar a um sentimento gelado e pesado: solidão. Ele estava sozinho nisto. A palavra dela, "psicólogo", ecoava na sua mente. Talvez ela tivesse razão. Talvez fosse apenas o stress.


Mas e a marca da mão?


Ele caminhou de volta para o seu dormitório, a mente um turbilhão. O quarto estava como sempre: uma bagunça organizada. Roupas jogadas sobre uma cadeira, livros de estratégia abertos na secretária, um tabuleiro de shogi no chão com as peças numa partida a meio. Era o seu santuário de lógica, e algo ilógico tinha acabado de invadir o seu mundo.


Sentou-se em frente ao notebook, a luz do ecrã iluminando o seu rosto determinado. Se a realidade estava a falhar, a única coisa a fazer era encontrar as regras por trás da falha. Ele abriu o navegador e começou a digitar.


“Lendas urbanas Academia Konoha”


Os primeiros resultados eram lixo. Histórias de fantasmas de calouros, contos sobre a cozinheira do refeitório. Ele refinou a busca.


“Incidente torre do relógio Konoha”


Nada.


“Estudante desaparecido Academia Konoha”


Ele scrollou por páginas e páginas de resultados irrelevantes. Já passava da meia-noite. Os seus olhos ardiam. Quando estava prestes a desistir, encontrou um link para o arquivo digitalizado de um antigo jornal local. A interface era arcaica. Ele digitou "Academia Konoha" no campo de busca.


A maioria eram notícias sobre prémios e eventos desportivos. Mas um título, de um artigo de 1998, fez o seu coração parar por um segundo. "Buscas por estudante desaparecido continuam no campus da Academia."


O artigo era curto e vago. Um estudante do terceiro ano, chamado Hayate Gekko, tinha desaparecido do seu dormitório sem deixar rasto. A polícia investigou, mas o caso nunca foi resolvido. Não havia menção a fantasmas ou sombras. Mas no final do artigo, uma única frase se destacou: "Amigos do desaparecido relataram que, nas semanas que antecederam o seu sumiço, Gekko se queixava de pesadelos e de ouvir 'sussurros estranhos' perto da torre do relógio."


Shikamaru recostou-se na cadeira. Não era uma prova, mas era uma conexão. Um padrão. Ele não estava louco.


Enquanto Shikamaru se afundava na sua pesquisa, a vida no campus continuava. Na biblioteca, o silêncio era quebrado apenas pelo virar de páginas e o teclar suave. Sakura estava mergulhada num livro de farmacologia, tentando ignorar o mundo. Mas o mundo tinha uma forma cruel de se fazer notar.


A porta da biblioteca abriu-se e Sasuke entrou. Os seus olhares cruzaram-se por cima das estantes. Foi apenas um segundo, mas foi o suficiente para um turbilhão de emoções passar pelo rosto de Sakura: surpresa, dor, raiva. Ele manteve a sua máscara de fria indiferença, desviou o olhar e caminhou para a secção de história, sentando-se numa mesa o mais longe possível dela. O espaço entre eles parecia carregar o peso de mil palavras não ditas. Sakura apertou o livro com força, as unhas cravando-se na capa dura, e tentou, sem sucesso, voltar a concentrar-se.


Longe da biblioteca, no seu próprio quarto, Hinata terminava de organizar as suas anotações. O quarto era o seu refúgio, um lugar calmo e arrumado. Ela sorriu ao pensar em Naruto, mesmo que a presença de Kiba a tivesse deixado um pouco desconfortável mais cedo. O seu celular vibrou sobre a mesa. Ela pegou-o, esperando uma mensagem de boa noite de uma das suas amigas.


Mas não era.


O remetente era "Número Desconhecido". E a mensagem continha apenas uma imagem. Estava escura, granulada e distorcida, como se tivesse sido tirada por uma câmara com defeito. Mas ela reconheceu o que era.


Era uma foto da torre do relógio, tirada de um ângulo estranhamente baixo, como se o fotógrafo estivesse deitado no chão. Os ponteiros do relógio estavam desfocados, mas a coisa mais arrepiante era a figura. Uma silhueta escura e manchada estava sobreposta à imagem, bem no centro, uma forma vagamente humana, mas com os membros longos e finos demais. Era a mesma figura que Shikamaru tinha visto.


Hinata sentiu um calafrio percorrer o seu corpo. O seu primeiro instinto foi apagar a mensagem. O segundo foi responder.


“Quem é?”


Ela clicou em enviar. Um segundo depois, uma notificação de falha apareceu. "Mensagem não entregue. O número não existe."


Ela olhou para a imagem de novo, o coração a bater descontroladamente no peito. O número não existia. Mas a imagem estava no seu celular. E ela sentiu, pela primeira vez naquela noite, que não estava sozinha no seu quarto.