O Sussurro da Academia

6 Capítulo 6: A Voz na Estática


A escuridão no porão não era apenas ausência de luz. Era uma substância. Pesada, fria e palpável, ela pressionava os tímpanos e grudava na pele como uma mortalha úmida. O baque da porta de metal se fechando ainda ecoava no ar, um som final e absoluto que selou o mundo lá fora. O zumbido das luzes restantes tinha morrido, deixando um silêncio tão profundo que Hinata conseguia ouvir o sangue pulsando alto e rápido em seus ouvidos, um tambor frenético anunciando o pânico.

— Shikamaru? — a voz dela saiu como um fiapo, engolida pela escuridão.

— Estou aqui. — A resposta dele veio de perto, calma, mas com uma tensão cortante. O som de tecido se mexendo, e uma luz fraca e trêmula cortou a escuridão. A lanterna do celular dele. O feixe era pateticamente pequeno naquela escuridão, iluminando apenas um círculo de chão poeirento e as pernas de uma estante de metal. — Não entre em pânico. A porta deve ter só travado.

Mas ambos sabiam que era mentira. Não tinha sido uma simples avaria. A queda de temperatura, o sussurro, a porta se fechando... era uma sequência de eventos orquestrada, uma armadilha se fechando.

— O que foi aquele som? — perguntou ela, referindo-se ao chiado que tinha ouvido, a sua voz pouco mais que um sopro.

— Não ouvi nada — admitiu Shikamaru, movendo o feixe de luz lentamente pelo corredor. As sombras das estantes de metal se esticavam e dançavam como dedos esqueléticos, criando monstros onde antes havia apenas prateleiras. — Fique perto de mim.

Hinata obedeceu, aproximando-se tanto dele que conseguia sentir o calor do seu ombro, uma pequena âncora de realidade naquele frio sobrenatural. Era um frio úmido, que parecia vir de dentro das paredes, de dentro da própria pedra, atravessando suas roupas e se instalando em seus ossos. E o som que ela tinha ouvido... tinha voltado.

Um chiado baixo, como o de uma rádio mal sintonizada, crescendo em volume. E por baixo dele, o arranhar. Scratch. Scraaaatch. Unhas em madeira. Lento, deliberado, vindo do fundo do corredor escuro, para lá do alcance da luz do celular.

— Agora você está ouvindo, não está? — sussurrou ela.

Shikamaru não respondeu, mas ela viu o maxilar dele se contrair. Ele estava ouvindo.

E então, a estática em suas mentes começou a tomar forma. Os sussurros deixaram de ser apenas ruído. Tornaram-se palavras. E as palavras eram veneno, personalizadas para cada um deles.

"O gênio..." a voz sibilou na cabeça de Shikamaru, uma colagem de sons que era ao mesmo tempo masculina e feminina, velha e jovem. "O menino preguiçoso que se acha mais esperto que todos. Mas você не é. Lembra daquela prova do ENEM? A última questão de matemática. Você sabia a resposta, mas desistiu. É o que você faz. Desiste quando fica difícil. Você vai desistir deles também, quando a morte chegar."

Shikamaru estremeceu, o feixe de luz tremendo violentamente em sua mão. Aquilo não era um ataque físico. Era uma dissecação da sua alma. A voz estava pegando sua maior força, a sua inteligência, e a torcendo na sua maior fraqueza: o seu medo de falhar, a sua aversão à responsabilidade.

"Você gosta dos seus quebra-cabeças, não gosta? Do seu shogi. Mas estas peças... estas peças sangram. Cada jogada errada... uma nova mancha no tabuleiro. E você vai errar. Você sempre erra."

Ao mesmo tempo, uma voz diferente, mais cruel, infantil e aguda, focou-se em Hinata.

"Olha só... a menina assustada. A ratinha que se esconde." O som de unhas arranhando madeira ficou mais alto, mais perto. "Nós lembramos de você. Da vergonha nos seus olhos. Todos rindo. Apontando. 'Olha a esquisita dos olhos de cores diferentes'. Nós vimos os comentários, debaixo das suas fotos. 'Patética'. Eles nunca esqueceram, sabe? E nós também não. Naruto nunca olharia para você de verdade. Ele sente pena. Todos sentem."

O trauma do cyberbullying voltou com a força de um soco. As palavras eram os insultos exatos que a tinham assombrado durante anos. Ela tapou os ouvidos com força, as unhas se cravando no couro cabeludo, mas era inútil. As vozes estavam dentro da sua cabeça. — Para... por favor, para... — ela choramingou, o corpo tremendo incontrolavelmente.

Shikamaru, lutando contra a névoa de auto-aversão que a voz instilava nele, virou-se para ela. O rosto de Hinata estava banhado em lágrimas, seus olhos fixos no escuro com um pavor absoluto. A criatura estava a destruindo. A raiva — pura, protetora — se sobrepôs ao seu próprio medo. — Hinata, olhe para mim! — ordenou ele, sua voz firme tentando cortar o ruído. — Não é real! Está usando as nossas cabeças contra nós!

Ele apontou a luz para o fundo do corredor, de onde o som do arranhar vinha. Por um instante, eles viram. Uma forma agachada no escuro, alta e fina, seus membros longos dobrados em ângulos impossíveis, como um inseto malformado. Não tinha um rosto, apenas uma mancha de escuridão mais profunda, que parecia sugar a luz da lanterna.

A criatura se ergueu lentamente, e a onda de sussurros se focou inteiramente em Hinata, um ataque final e esmagador. "FRACA. INÚTIL. NINGUÉM VAI AJUDAR VOCÊ. ELES VÃO OLHAR. ELES VÃO RIR. DE NOVO. E DE NOVO. E DE NOVO..."

Uma onda de puro terror e malícia atingiu Hinata, tão forte que ela se sentiu afogando. Seu peito apertou, o ar faltando. Era o clímax do seu pior pesadelo. Ela fechou os olhos, esperando seu espírito quebrar.

Mas por baixo daquela onda de ódio, ela sentiu outra coisa.

Uma corrente subterrânea. Fraca, quase impercetível, mas inegável. Não era uma memória sua, era algo estranho, invasor. Um vislumbre. Um corredor escuro, o cheiro de mofo, o som de choro. Uma solidão tão profunda e antiga que fazia eco com a sua própria. Uma tristeza tão avassaladora que era quase sufocante. A criatura não era apenas um monstro. Era uma ferida. Uma ferida aberta que gritava de agonia e queria que todos sentissem a mesma dor.

A reação de Hinata mudou. O pânico ainda estava lá, mas a sua empatia, a sua característica mais fundamental, abriu uma pequena fresta naquela muralha de terror. Ela não sentiu pena. Sentiu... uma ressonância. Uma compreensão.

E a entidade sentiu a mudança.

O ataque de sussurros vacilou. A malícia pura foi contaminada por aquela emoção inesperada. A criatura não esperava compaixão. Não esperava compreensão. Era uma linguagem que não conhecia. O ataque psicológico parou por um segundo crucial, como um motor que engasga. A figura no escuro pareceu se encolher, confusa.

Shikamaru não perdeu a oportunidade. Ele não sabia o que Hinata tinha feito, mas viu a hesitação do inimigo. Sua mente, livre por um instante do ataque, trabalhou a uma velocidade vertiginosa. Não havia como lutar. A única opção era perturbar.

Com um grito, ele atirou o pesado livro de shogi que trazia consigo com toda a força contra uma estante de metal no corredor oposto. O impacto foi ensurdecedor no porão silencioso, um estrondo metálico que ecoou como um trovão, seguido pelo som de dezenas de livros velhos caindo em cascata no chão.

O caos sônico quebrou a concentração da entidade. A figura escura se virou na direção do barulho, desnorteada. O som de unhas arranhando parou.

— AGORA! — gritou Shikamaru, agarrando a mão de Hinata e puxando-a na direção da porta.

Eles correram, seus passos ecoando na escuridão. A porta de metal, que antes parecia um cofre de banco, abriu-se com um simples empurrão. Eles irromperam para o corredor iluminado da biblioteca, tropeçando e caindo no chão, o ar quente e o zumbido normal das luzes parecendo a coisa mais segura do mundo.

Shikamaru se levantou de imediato e olhou para trás. A porta do porão estava aberta, revelando apenas escuridão e silêncio. Não havia sinal de perseguição.

Ele ofegava, a adrenalina bombeando em suas veias. Olhou para Hinata, que estava encolhida no chão, tremendo, mas já não chorando. Ela olhava para a porta escura com uma expressão não só de medo, mas de uma profunda e perturbadora tristeza.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca.

Ela apenas assentiu, incapaz de falar.

— Vem. Para o meu quarto. É mais perto. — disse ele, ajudando-a a levantar-se.

No dormitório de Shikamaru, ele trancou a porta e ligou todas as luzes. O lugar era uma bagunça, mas parecia o santuário mais seguro do mundo. Ele deu-lhe um copo de água, e eles sentaram-se em silêncio por vários minutos, apenas normalizando a respiração.

— Aquilo... — começou Shikamaru, finalmente. — Não era só um fantasma. Era inteligente. Sabia exatamente onde atacar. Usou as minhas próprias falhas contra mim.

— Comigo também — disse Hinata, a voz ainda tremendo. — Usou... coisas do meu passado. Coisas que ninguém aqui deveria saber. Mas tinha mais uma coisa, Shikamaru. No meio da raiva... eu senti... dor. Sofrimento.

Shikamaru olhou para ela, sua mente analítica trabalhando a todo vapor, desta vez com novas informações. — Você sentiu a emoção daquilo?

— Eu acho que sim. Era... esmagador. Como alguém gritando por ajuda, mas só conseguindo gritar com ódio.

Ele ficou em silêncio, olhando para o tabuleiro de shogi no canto. As peças estavam espalhadas. As regras do jogo tinham mudado. — Então não estamos lidando com um monstro que só quer matar — concluiu ele. — Estamos lidando com algo que está sofrendo. E você... você conseguiu sentir isso.

Eles tinham sobrevivido ao primeiro confronto. Mas agora sabiam, sem sombra de dúvida, que não estavam lidando com um simples fantasma. Estavam lidando com algo quebrado. E, por alguma razão, a dor daquela criatura e a dor de Hinata ressoavam na mesma frequência. E Shikamaru não fazia ideia se isso era a sua maior arma, ou a sua maior fraqueza.