O Sorriso Do Palhaço
5 Capítulo 5 — Um milagre
Notas iniciais

A intensidade da chuva não amenizava conforme o passar do tempo, pelo contrário, esta apenas aumentava a cada passo veloz que a garota ruiva dava em direção à sua dita liberdade. Na hora em que o sol deveria estar atravessando o céu imponentemente, a noite parecia tomar seu domínio com as nuvens quase negras encobrindo o azulado resplandecente que deveria estar ali. As frias gotículas d’água davam um ar frio e noturno para o dia que se tornara noite.
A adrenalina bombeada pela corrente sanguínea da jovem apenas lhe dava mais energia para fugir logo dali ou morrer tentando. As pernas pesavam conforme a distância entre si e o circo estacionado aumentava. Vontade era o que não lhe faltava, todavia a exaustão tomava conta de seu corpo assim como a ferrugem corroia metais antigos.
O ar faltava-lhe dos pulmões e o suor escorria por todo seu corpo em uma tentativa sem sucesso de abaixar a temperatura alta da menina.
A roupa nova ganhada há não menos de uma hora grudava nos traços curvilíneos da ruiva, devido tanto ao suor quanto à chuva que despencava sem piedade sobre a terra. Os pés de moça estavam banhados com lama incrustada que custaria a sair com toda certeza. A água fazia com que a maquiagem passada na pele da garota para disfarçar os arranhões escorresse lentamente deixando à mostra todas as marcas que ganhara desde que fora capturada na floresta.
Talvez “capturada” pudesse ser um termo forte e de grande significado, contudo era esta a intenção. Sua entrada forçada no circo não havia sido nem um pouco gentil ou sutil.
A brutalidade com a qual fora pega em um momento tão frágil tanto lhe surpreendeu como a mudou pouco a pouco. Todavia nada fez com que a ruiva mudasse tanto quanto Ulquiorra. Aquele homem foi capaz de mudar toda a perspectiva de mundo maravilhoso que Orihime tinha.
A doce moça de olhos cinzentos já não era mais tão ingênua como antes. Não, o mundo não era um lugar bonito, pelo contrário, era um lugar amargo, sujo, difícil, sem contar o fato de não ser confiável—tanto as pessoas quanto o próprio ambiente propício a trapaças.
E a vida?
Ah, a vida era ainda pior. Tão cruel quanto o próprio destino—se é que estes não eram apenas nomes diferentes para a mesma coisa—, aquele que engana as pessoas com as mais belas mentiras para depois lhes tirar tudo sem qualquer aviso prévio.
As lágrimas escorriam pela bela face da garota e estas se misturavam com as gotas de chuva, frias e sem emoção, diferentes das lágrimas quentes e cheias de rancor e raiva, não por alguém, mas por tudo em geral. Pelo mundo ser um lugar tão miserável e sem esperança.
Orihime corria desajeitada escorregando no lodo e sujando ainda mais a barra de sua saia. A roupa uma vez feita de tecidos claros, agora não passava de um trapo molhado e cheio de terra. O capim raso arranhava os calcanhares da garota deixando-os com marcas avermelhadas por ventura tendo um filete de sangue. Os galhos mais altos pelos quais a ruiva passava sem desviar deixavam machucados maiores em seus braços e rosto, estes sendo amenizados pela chuva fria. O cabelo se desprendera e as presilhas azuis se foram, agora estavam perdidas em algum lugar da mata densa e selvagem.
A exaustão consumia o frágil corpo da menina almejando a liberdade. As gotículas d’água gelavam até sua alma em pedaços espalhados por aí, seu coração então, este virara pó quando ouviu as palavras rudes vindas de seu “mestre”. As frívolas lágrimas desciam pelas quentes e rosadas bochechas se misturando com as gélidas gotas da chuva, contudo não abaixando a temperatura corporal da pobre jovem.
Seu olhar estava embaçado tanto de lágrimas quanto da chuva, já não distinguia mais seus lamentos e as águas dos céus, apenas sabia que não conseguia enxergar um palmo a frente de seu nariz, ou seja, estava correndo às cegas para qualquer que fosse o lugar. Só queria sair dali o mais rápido possível, também se morresse não se importava, pelo menos estaria livre.
A baia de sua saia estava totalmente rasgada e cheia de barro ocultando os belos traços e cor do tecido, assim como sua blusa estava com algumas manchas e furos os quais foram feitos pelos galhos das árvores. Szayel a mataria se soubesse o estado das roupas extremamente novas e feitas especialmente para ela.
Oh, Szayel. A única pessoa que fora um pouco gentil com Orihime no circo, a único que disse que iria ajudá-la. Ela voltaria apenas para lhe dizer adeus e desculpar-se, contudo voltar não era mais uma opção para a jovem perdida na densa floresta.
A moça tentou limpar sua face molhada em vão, o resultado foi totalmente o contrário do esperado; ao invés de clarear sua visão, acabou tropeçando em uma raiz por estar com os olhos fechados no momento.
Se suas vestimentas já estavam imundas antes de cair, agora eram apenas barro.
Inoue tentou levantar, mas suas forças já tinham se esgotado e seu pé latejava de dor, provavelmente torceu-o na hora da queda.
Resmungou de dor e olhou ao seu redor, tentando identificar o ambiente falhando, afinal, era uma floresta escura e nunca estivera ali na vida. Deixou mais lágrimas rolarem, afinal, iria morrer ali mesmo, não havia motivo para esconder suas emoções como o indiferente palhaço. Encolheu-se apoiada em um tronco de árvore e ficou ali; à espera e deriva da morte.
Seus pensamentos eram inúmeros, mas um principal passava por sua mente: finalmente iria para o seu lugar feliz. A fuga fora bem sucedida então por que a moça chorava de tristeza e não felicidade? Por que insistia em pensar não em Szayel, que fora gentil, mas em Ulquiorra, o homem rude que a motivou a fugir? Não entendia, simplesmente não fazia sentido.
Os prantos da jovem foram interrompidos quando esta ouviu uma singela risada e uma luz chamou sua atenção.
Lentamente abriu seus olhos cinzentos tentando focar a imagem e quando conseguiu, arregalou o olhar o máximo possível.
Uma garotinha de sete, no máximo nove anos com longos cabelos ruivos e orbes cinzentos sorria lindamente na frente de Inoue. A menina usava um vestido branco com alças e comprimento até o joelho. Seus pés descalços não estavam sujos pela terra lamacenta, na verdade a pequena estava impecável, nenhum resquício de sujeira. Uma aveludada luz branca emanava dela formando uma aura ao redor de si.
Orihime apenas não podia acreditar nos seus próprios olhos, ela estava fitando a si mesma, anos atrás quando era uma criança feliz e não sabia.
Mais lágrimas desciam pelas bochechas avermelhadas da moça mais velha enquanto esta tinha um sorriso nostálgico nos doces lábios. Abraçou a si mesma e cobriu a boca enquanto chorava cada vez mais naquele canto, encostada na árvore.
Sabia que era sua imaginação, sabia que isto era um tiro no escuro de uma mente desesperada e cansada, sim, sabia de tudo isto, mas mesmo assim, a sinceridade do sorriso da pequena a emocionava e fazia-a querer voltar para os tempos em que tudo era mais simples, onde seu irmão cuidava de si, onde era uma criança que se preocupava apenas em ir para a cama na hora certa.
Sentia saudades do simples e banal, queria seus dias monótonos de universitária de volta.
— Por que você está chorando, moça? — a criança perguntou inclinando-se na direção de Orihime com olhar de dúvida.
Por um instante Inoue surpreendeu-se, todavia logo recuperou o fôlego e sorriu para a menininha. Riu sem graça e ajoelhou-se um pouco mais perto de sua versão mais nova.
— Não é nada, eu estou apenas feliz, sabe. — respondeu aproximando sua mão do rosto da doce pequena.
Os pequenos orbes cinzentos e brilhantes da mais nova acompanhavam a mão cheia de lama e pequenos arranhões da maior seguindo em direção às grandes bochechas que a ilusão possuía.
A chuva caía sem misericórdia por todos os cantos da floresta, exceto pelo lugar onde a criança estava de pé. A aura branca de luz não somente dava um ar angelical para a menina como também impedia que esta se molhasse devido ao temporal.
— Você é muito fofa, já te disseram isso? — perguntou carinhosamente enquanto ainda aproximava sua mão do rosto da pequena, com medo de tocar nesta ilusão e ela se desfazer já que era esta miragem que fazia a felicidade de Orihime neste momento.
Hesitante, a pequena afirmou com sua cabeça.
Orihime deu uma risada baixa e curta, contudo feliz.
Quando finalmente a maior chegou a tocar a macia face da criança, esta logo perdeu o ar angelical e tentou agarrar violentamente a fugitiva.
Os olhos não eram mais cinzentos, eram vermelhos. As vestes brancas e extremamente limpas agora se tornaram negras e cheia de rasgos e manchas de sangue. O cabelo ruivo como o fogo escureceu como as roupas ou até mais.
Ao tentar agarrar Inoue, a criança soltou um berro agudo de estourar os tímpanos.
Não era mais um anjo, e mesmo se fosse, seria um negro, servo de Lúcifer, um caído.
A pobre moça gritava e se debatia tentado fugir da suposta criatura. Esperneava em vão, o abraço que a prendia cada vez tornava-se mais forte para esta não fugir.
Os gritos agudos da circense abalavam a audição falha de Grimmjow que a segurava fortemente em seus braços. Não entendia direito porque tantos gritos histéricos e tamanha relutância de olhos fechados. Ela não o batia, não o xingava, nem mesmo profanava uma palavra rude para o rapaz.
Ele deduziu que a moça estava sonhando devido aos olhos fortemente fechados. Deveria estar delirando e tendo péssimos pesadelos, normal. Quem nunca teve sonhos tão perturbadores a ponto de gritar? Dentre os circenses, ninguém.
O azulado a apertava ainda mais forte para ver se esta acordava e nada.
Começou a se irritar com a garota.
Grimmjow estalou a língua frustrado. Aquele palhaço de meia tigela ainda o pagaria por tê-lo feito vir atrás desta vagabunda no meio de tamanho temporal. Por que diabos o próprio Ulquiorra não viera atrás dessa garota já que se importava tanto? Por que Grimmjow teve de vir em seu lugar? Não sabia e repugnava a reposta destas perguntas.
— Cale a boca, princesa! Isso não é real! Sou eu, o Grimmjow! Agora quer parar de gritar e me deixar surdo, merda! — gritou nos ouvidos da menina para que esta acordasse.
Com um último grito de desespero, Orihime parou e abriu seus olhos em espanto. Analisou a figura grande e forte que a segurava. Um homem, não, um rapaz. Não sabia exatamente o porquê, mas decepcionou-se um pouco por perceber que quem a estava levando de volta ao circo era Grimmjow e não Ulquiorra.
Olhou atentamente para o rosto do azulado, este parecia estar furioso e continuava com a mesma carranca de sempre. Os olhos cinzentos da jovem começavam a ficar marejados.
Foi tudo um sonho. Nada era real. Aquela menina nunca esteve ali e nunca se transformou em uma criatura demoníaca. Tudo um sonho.
Mas por parte estava desapontada por estar voltando para aquele circo de opressores. Voltando a ser uma escrava sem quaisquer direitos. Seria humilhada novamente, teria condições precárias novamente, se machucaria novamente e seria obrigada a fazer coisas as quais nunca sequer cogitou fazer.
Não queria viver esta vida, na verdade, nem permanecer viva queria mais.
Queria voltar para a época em que poderia deitar no colo de seu irmão e chorar até que tudo ficasse bem. Queria atravessar a rua de mãos dadas com ele por ser perigoso demais ir sozinha. Queria ganhar um beijo de boa noite e ser coberta com carinho. Queria ouvir histórias lúcidas na hora de dormir, todas com final feliz. Queria acreditar em finais felizes mais uma vez. Queria viver em um conto de fadas. Queria brincar de ser uma princesa e almejar ser uma. Queria voltar a acreditar no impossível e improvável. Queria ter sua inocência novamente. Queria ser ingênua a ponto de acreditar no Papai Noel.
Queria acreditar em magia e em milagres, pois era isto que Inoue precisava neste momento.
Um milagre.
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