O Sorriso Do Palhaço

2 Capítulo 2 — Desvie o olhar


Notas iniciais
Oláááá! Não estou atrasada! Estou aqui bem no dia marcado, que milagre! Bem, eu até pensei em postar uns quatro dias antes quando finalizei o capítulo, mas preferi esperar a data marcada e ser pontual, assim, teria tempo de começar o terceiro capítulo; coisa que não fiz AINDA. Aproveitem o capítulo, não revisado para variar, espero que gostem.Sem mais delongas, boa leitura.

A água escaldante dilua o sangue seco incrustado na pele alva da garota. Murmurava palavras de baixo calão por estar sofrendo tamanha ardência quando o líquido quente se encontrava com as feridas recentes e não cicatrizadas, tal dor podia ser comparada a reação de sal de cara com a carne viva.

Seus olhos marejados estavam fortemente fechados combinando com seus dentes cerrados demonstrando o incômodo atual pelo qual a ruiva passava. Não eram apenas machucados físicos, mas também mentais. Seu psicológico estava um completo caos comparado ao de horas atrás. A dor de ver quem se ama estar nos braços de outra e, logo após, ser seqüestrada por homens suspeitos até ser levada para um trem inundo onde seus únicos companheiros eram ratos era muito maior do que se podia imaginar.

Pegou mais água com uma caneca de madeira a despejou-a sobre seus ombros desnudos e machucados. A ardência chegava ao nível de ser descrita como “insuportável”, contudo, Orihime estava disposta a agüentar todos estes incômodos a fim de se sentir mais limpa; mentalmente também.

A dor tomava conta dos olhos cinzentos da garota prisioneira. Sua pele alva podia voltar a ser branca como sempre, sem as manchas agonizantes de sangue antes tidas por toda a extensão de seu frágil corpo. Seus cabelos ruivos—agora molhados—pareciam voltar a ter o mesmo brilho de antes, mesmo sem os tratamentos devidos.

Deixou o recipiente de mogno sobre o chão empoeirado passando a abraçar as próprias pernas enquanto sentada na grande bacia cheia d’água quente. Seus olhos vazios fitavam um ponto qualquer na paisagem deprimente. Todos os pensamentos que lhe afligiam desde que fora seqüestrada voltavam à tona trazendo consigo algumas dúzias de lágrimas.

Toda sua vida de antes jogada às traças. Não que tivesse tido uma vida maravilhosa, mas esta também não era péssima a ponto de querer se ver livre dela. “Kurosaki-kun... Rukia-san... Ishida-kun... Será que eles notam minha ausência?”, divagava. Perguntava-se se sentiriam sua falta na faculdade, ou se comentariam sobre seu desaparecimento repentino. Tatsuki com certeza notaria pelo menos a presença de algo errado no ar, entretanto, Ichigo, sem dúvida alguma, ficaria até aliviado pelo sumiço da ruiva.

Recordava-se perfeitamente de suas últimas palavras para o ruivo e de sua clara reação de surpresa e colisão de sentimentos incompatíveis. Se apenas pudesse se esquecer dos últimos momentos de liberdade seria bem mais fácil conviver na sua atual situação.

Sua mente cansada a estorvava com a repetição de cenas de poucas horas atrás onde, a pobre Orihime, se desmanchava em lágrimas após fugir de forma covarde do seu amigo mais antigo. O porquê de tal ato vergonhoso era a insegurança ocasionada de anos em silêncio da ruiva.

A tortura mental era tanta que a garota fechou seus opacos olhos cinzentos no intuito de tentar esquecer tudo; sua vida, seus amigos, seus deveres, seus problemas. Talvez ela se afogasse ali mesmo, o que não seria má coisa já que sua condição de escrava era muito pior do que o próprio cessar de batimentos cardíacos.

Desejava ir para um belo lugar—de preferência um campo cheio de várias espécies de flores—, onde seu irmão a estaria esperando com seu mais galante sorriso estampado. Esperava poder, daquele lugar, olhar por seus queridos amigos como Tatsuki, Chad, Ishida, Rukia e Ichigo. Queria tornar-se um anjo para ter a possibilidade de ajudar pessoas as quais estivessem numa situação igual, ou pior, à sua. Ou talvez, quem sabe, um arco-íris para iluminar os dias sombrios dos vivos sofredores. Seja o que for Inoue só queria levar a alegria àqueles que não a possuíam ainda.

Uma sequência de batidas na madeira foi ressoada pelo ambiente. Nenhuma resposta por parte da menina entretida nos pensamentos acolhedores de passar desta para a melhor. Outro conjunto de sons na superfície de carvalho ecoou pelo dito banheiro. Ainda nenhum manifesto de Orihime.

Silêncio.

E, de repente, um estrondo fez com que a ruiva se despertasse dos inacabáveis devaneios.

Arregalou os delicados olhos nublados e dirigiu-os à entrada do local onde se deparou com uma porta escancarada e um rapaz—com cabelos azuis assim como seus orbes, musculoso e, sem esquecer, bonito—se encontrava com uma toalha sobre o ombro direito e uma muda de roupa na mão esquerda. Sua expressão era de raiva e, possivelmente, um quê de sarcasmo e ironia nos olhos cobaltos.

Sem pestanejar Orihime tentou ao máximo cobrir suas vergonhas enquanto sua face tingia-se do tom mais espalhafatoso dos vermelhos. Podia não conhecer o tal homem, todavia sabia que ele não seria seu anjo o qual lhe tiraria das condições precárias de vida, pelo contrário, este parecia apenas querer vê-la sofrendo mais e mais.

— O seu tempo de banho acabou. Vaza! — falou o homem rudemente.

Após um breve segundo de hesitação e surpresa, Inoue voltou à si escolhendo-se na bacia d’água.

— M-Mas eu ainda não acabei! — gaguejou tentando pôr o máximo de seriedade possível na frase.

— Mas nada, princesa. VAZA. O horário acabou, azar seu. Agora sai daqui, vamos. — o azulado reforçou adentrando mais no recinto colocando sua muda sobre um balcão velho e cheio de tralhas empoeiradas. Após isto, virou-se novamente para a ruiva com dúvida podendo ser interpretada no rosto. — Você não me ouviu? Vaza! — brandou novamente. Depois de dar uma olhada para a moça dentro da bacia, um sorriso malicioso e mal intencionado formou-se nos lábios do rapaz. — Ou você quer que eu te ajude a terminar isso? Hein? Quem sabe você quer tomar um banho junto de mim... O que diz, princesa? — perguntou depravado fazendo apenas com que a face da ruiva ficasse ainda mais rubra.

A última coisa que Orihime viu antes de fechar seus olhos fora o azulado aproximando-se com passos vagarosos, apenas aproveitando o prazer de torturar psicologicamente a pobre menina.

Por que ela? Por que justo a inocente Inoue? Ora, ela sempre fora uma ótima menina. Podia não ser a mais inteligente nem a mais forte ou engraçada, mas sempre—sem exceções—fora a boa menina, a inocente, o anjo disfarçado no corpo de uma frágil criança. E era isto sua recompensa? Um cara querendo abusar-lhe a pureza? Ser a mais gentil das pessoas não parecia mais tão gratificante agora.

— Grimmjow, pare. — uma terceira voz soou vinda da porta escancarada.

O tal rapaz de cabelos azuis—Grimmjow parecia ser seu nome—estalou a língua insatisfeito e recuou alguns passos da bacia d’água. Ouvindo o afastar de seu possível estuprador, Orihime abriu os olhos sem pressa alguma e observou o ambiente. O azulado realmente havia deixado uma distância considerável entre ela e ele, contudo parecia que estava prestes a pular no pescoço daquele que lhe chamou segundos atrás.

— O que foi, projeto de assombração? — disse em um tom rude. — Eu não fiz nada, droga. Pare de me incomodar! E, afinal, mesmo se eu fizer algo pra essa princesa, não vai acontecer nada. — sua voz apenas tornava-se mais irritada e sarcástica a cada palavra dita.

— Senhor Aizen deixou claro de que a menina tem sua proteção e se, por algum acidente infame, ela venha a se machucar, o culpado pagará não apenas com o emprego, mas com o próprio sangue inundo. — retrucou calando Grimmjow de uma vez por todas.

A voz do salvador da ruiva parecia ficar mais próxima assim como passos largos eram ouvidos, todavia, quando a menina desviou o olhar para ver a quem devia sua inocência, deparou-se com seu desprezível carcereiro de cabelos negros e olhos esmeraldas parado logo ao lado da bacia. Ulquiorra.

— Vamos, mulher, levante-se logo antes que desrespeite mais o horário estipulado para seu banho.

— Faça-me o favor e desvie o olhar para outro lugar, vocês dois, para que eu possa me trocar. — a ruiva exigiu.

Grimmjow arqueou uma sobrancelha e revirou os olhos. Ela era mais audaciosa do que imaginara. Ulquiorra nada fez, apenas continuou a encará-la com os olhos vazios e a boca inexpressiva.

— Você não tem direito de pedir tal coisa, mulher. Devo lembrar-lhe de que é uma escrava? — o destino parecia rir na face rubra de Inoue, este só poderia estar lhe pregando uma peça das mais cruéis. — Vou repetir. Vamos, mulher, levante-se. — exigiu uma segunda vez.

— Pode, pelo menos, me providenciar uma toalha... senhor? — pediu com certa relutância em usar o pronome não digno para o rapaz.

Sem qualquer palavra Ulquiorra estalou os dedos e Grimmjow lhe jogou uma toalha branca. O moreno colocou o macio tecido sobre a cabeça da ruiva e ficou à sua espera, parado no mesmo lugar.

“Espero que meu lugar no céu esteja garantido por ter de agüentar tamanho desrespeito durante estes dias”, pensou bufando. Orihime levantou-se ainda dentro da bacia fazendo com que poças d’águas se formassem ao seu redor. Rapidamente pegou a toalha em sua cabeça e enrolou-a no corpo, porém fora tempo o bastante para, tanto Grimmjow quanto Ulquiorra, olharem para suas curvas e fartos seios. Contudo, Ulquiorra não ficou animado como o outro rapaz, pelo contrário, este apenas continuou neutro e indiferente como sempre fazia.

Inoue deu um passo para fora e então outro, deixando o chão de madeira encharcado, todavia ninguém parecia se importar com isso. Pegou a larga blusa branca e o short provisórios em uma das bancadas e retirou-se do recinto sendo seguida pelo seu carcereiro.

— Oe, Ulquiorra. — chamou Grimmjow. — Se eu esbarrar de novo com essa ruiva sozinha, nem vou pensar duas vezes antes de estuprá-la. Ouviu bem? Então acho bom isso não acontecer de novo. — concluiu com um sorriso maligno nos lábios.

O palhaço ignorou os dizeres e continuou a manter guarda atrás da menina se dirigindo ao vagão onde seria seu quarto, este também sendo o do moreno já que Aizen lhe incumbiu o dever de vigiá-la 24h por dia.

Adentrou o local e largou a toalha no chão, não se importando se o rapaz a observava ou não. Vestiu a larga blusa e o short marrom sem muita dificuldade. Colocou as madeixas avermelhadas atrás das orelhas e continuou a encarar a parede oposta do recinto, sem coragem de encarar Ulquiorra que a observou durante todo o tempo pelas costas.

Suas bochechas queimavam de tanto vermelho já colorido. Os punhos cerrados tremiam assim como os lábios perfeitamente desenhados e rosados. Nunca tinha sido tão violada como foi hoje. Era a primeira vez que ficava nua na frente de, um não, mas dois homens. Já passara vergonha o suficiente para o resto de sua vida, nem sequer sabia o porquê de estar tratando de tudo isso com tamanha banalidade, sem chiliques, gritos ou lágrimas. Ela parecia apenas estar aceitando tudo de forma calma e tranqüila quando, na verdade, seu psicológico caía aos pedaços conforme pensava no que seria seu amanhã se o hoje já era insuportável.

Sentia o olhar dos olhos esmeraldas cravado nas suas costas. A tensão do ar era simplesmente sufocante assim como toda a sua situação deplorável. Queria um refúgio. Um belo lugar para onde escapar nos momentos de fraqueza. Até mesmo suas prezadas presilhas dadas pelo falecido irmão tinha se perdido na bagunça em que sua vida se tornara. Não via os adereços desde fora tirada do vagão de trem pela primeira vez.

Estava exausta e frustrada com todas as peças que o destino já lhe pregara. Queria de volta sua dura vida como estudante universitária e garçonete de meio período. Queria chegar em casa tarde da noite e deitar em sua confortável cama para no dia seguinte continuar com sua rotina monótona e cansativa. Queria...

— Mulher. — chamou Ulquiorra afastando os pensamentos sem fim da garota.

Respirou fundo e deu um longo suspiro fechando os olhos antes de responder qualquer coisa a seu “mestre”.

— O que foi... Senhor? — perguntou hesitando, novamente, em usar tal pronome que o rapaz não merecia.

— Pare de fitar inutilmente uma parede de madeira e apresse-se se não quiser continuar vestindo estes trapos. A mando do senhor Aizen, Szayel providenciará vestimentas novas para você além do traje que deverá ser usado nas apresentações para o público. — comentou sem qualquer entusiasmo, apenas falava como uma máquina que fora programada para tal serviço.

Lentamente Orihime girou os calcanhares com a esperança de ter roupas aceitáveis, enfim uma esperança neste fim de mundo. Ulquiorra estava com meio caminho já andado para sair do vagão quando virou-se para a garota.

— Ande logo. Szayel não espera por ninguém, muito menos eu. — disse voltando a andar vagarosamente. — Se apresse mulher, ou suas poucas regalias lhe serão retiradas até que só terá o mínimo para sobreviver.

Não foi preciso um reforço para que a ruiva rapidamente acelerasse seu passo para ficar lado a lado com o palhaço. Manteve a boca fechada já que, a qualquer frase sua, seria respondida com meia palavra ou ainda mandada se calar por não saber seu lugar.

Bem, isto não importava agora, pois finalmente—depois do que pareciam séculos—Orihime teria roupas novas.

Notas finais
Gostaram? Odiaram?Ai, dels, se vocês soubessem o quanto me viciei na série Sussurro depois de terminar esse capítulo. Se tivesse começado antes os livros era capaz de eu atrasar a entrega de hoje. Enfim! Se eu escrevesse uma história originalo que estou pensando em fazer, vocês leriam? Só uma hipótese! Ah, todos os comentários serão respondidos no máximo hoje, não se preocupem, não os esqueci.Até mês que vem, anjos. Fuinha desu.