O Sorriso Do Palhaço

3 Capítulo 3 — A perfeição do imperfeito


Notas iniciais
Olá, anjinhos ♥ Quase que me atraso, mas isto seria injusto demais para com vocês que me deram DUAS recomendações totalmente inesperadas. Eu não queria atrasar de forma alguma, nem mesmo o mal funcionamento dos três teclados aqui de casa me deixou longe de vocês, viram?Ainda não recompensei as lindas, maravilhosas, e PERFEITAS recomendações que recebi neste meio tempo, mas ainda vou fazer algo especial para vocês que comentam e que leem, me dando inspiração.Obrigada, Yoshida e Marina (amomanga) ♥ Ainda recompenso-lhes as divas recomendações de alguma forma. Bem! Sem mais delongas, aí está o capítulo com o divo do Szayel, espero que gostem~

O sol se encontrava no meio do céu azulado com ralas nuvens cinzentas lhe decorando. A probabilidade de chuva era quase nula e todos os circenses estavam satisfeitos com isto, pelo menos não iriam ter de ensaiar debaixo de uma tempestade.

A maioria dos empregados estava no melhor de seus humores, afinal, nenhum ”corte de orçamentos” havia sido executado há seis meses—um recorde para aquele circo em específico. Contudo, os mais prestigiados, como os trapezistas e domadores e leões, continuavam com a mesma carranca de sempre, sem expressar qualquer compaixão e sempre sendo frios com aqueles que cruzavam seu caminho.

A terra seca e empoeirada era marcada pelo peso dos pés descalços de Inoue e pelos tênis de Ulquiorra. As solas da ruiva estavam deveras sujas e imundas, assim como seus calcanhares, apesar de ter tomado um banho há não menos de uma hora. Bolhas começavam a se forma na pele outrora macia da garota não acostumada a condições tão precárias. Tentava conter as expressões de repulsa ou de dor ao pisar no lugar de seus machucados, não queria iniciar outra discussão com o rapaz, visto que a última não acabara lhe favorecendo tanto, pelo contrário.

Enquanto caminhavam moderadamente rápido ao encontro com Szayel, Orihime pôde perceber a atenção de muitos olhares voltados para si. Muitos membros da trupe lhe olhavam ora com espanto, ora com desprezo. Era simplesmente desanimador ficar em sua situação como se não bastasse apenas o fato de ela ser escrava, agora tinha olhares reprovadores lhe acompanhando. A cada dia mais ela fazia questão de dizer a si mesma o quanto estava odiando este circo mesquinho e individualista. Se todos os circos fossem deste jeito de verdade, preferia passar o resto de sua vida longe das tendas enormes e coloridas—símbolos do espetáculo.

Todo o encanto relacionado às apresentações circenses se perdera no momento em que Inoue viu a dura realidade de como eram os bastidores. Recordava-se de tardes quentes e tediosas, aonde seu irmão chegava em casa mais cedo, animado, ele prometia para a pequena uma surpresa e pegava em sua mão guiando-a para fora de casa a um lugar desconhecido. E, após alguns minutos de caminhada entusiasmada, chegariam a uma barraca cheia de cores onde pessoas faziam o impossível possível e toda a magia encantava os espectadores. A ruiva outrora já gostara do circo, mas isto fora antes de tornar-se escrava de um.

Perdida em pensamentos nostálgicos e falsos, Orihime sentiu algo puxar a gola de sua camisa para trás, assustando-a. Logo, ela acordou dos devaneios sem qualquer sentido e focou no ambiente ao seu redor.

Uma arara cheia de peças detalhadas e únicas tais como uma saia cravejada com pequenas pedras variando entre preto e branco, um colete de safári sem qualquer atrativo senão um chicote anexado no cabide, dentre outras roupas muito provavelmente usadas durante apresentações por todos os circenses. Um espelho mais alto até mesmo que Ulquiorra e uma cômoda com fitas métricas, agulhas e alguns tecidos espalhados sobre si, contando o fato de que suas gavetas também deveriam estar cheias com os tipos mais diferentes de rendas, veludos, sedas e por assim vai.

Sua boca formou um perfeito “O” enquanto ainda sentia uma mão em seu colarinho. Deixando de lado a expressão de surpresa e admiração, a ruiva olhou para trás encontrando uma mão pálida e fria sobre sua camiseta. Seguindo o contorno do braço magro encontrou o rosto perfeitamente definido de Ulquiorra com os traços únicos e que, juntos, formavam ângulos belos de se ver. Seus olhos esmeraldas continuavam com a mesma indiferença de sempre e os cantos de sua boca jamais se curvaram formando um sorriso para a menina. No entanto, lá estava ele segurando sua blusa com firmeza.

Seus olhares se encontraram por uma fração de segundo, logo o rapaz desviou os orbes esmeraldas para o lado, à procura de quem deveria estar ali. No entanto, Inoue continuava olhando para o rosto pálido do mais velho, inspecionando as feições que jamais reparara antes. Talvez fosse o calor estressante do dia, ou seu cansaço, mas, de alguma forma, ela achou-o bonito. Sim, deveria ter enlouquecido.

— Szayel. Apareça. — ele ordenou ainda não largando o tecido fino da blusa bege da menina.

Ulquiorra voltou a olhar para a ruiva percebendo que esta ainda o encarava com curiosidade a admiração.

— Algo errado, mulher? — perguntou frio olhando diretamente nos orbes cinzentos de Inoue.

Rapidamente, ela focou um ponto qualquer no chão para deixar a imensidão esmeralda dos olhos do palhaço. Podia se perder facilmente no mar esverdeado e nas linhas angulosas do rosto do rapaz. Sem dúvida alguma a rotina de escrava a havia levado à loucura. Como mais ela explicaria chamá-lo de belo em sua mente? Ela devia odiá-lo, e ela o fazia. Sim, odiar. Era isso.

— Não, nada, senhor. — murmurou.

Antes que Ulquiorra pudesse falar mais algo, ou até repreendê-la, o som de botas na terra ecoou por seus ouvidos. Algumas palavras de baixo calão com um toque afeminado soaram pelo ar e, não muito depois, uma figura esguia, alta, magra e com cabelos exoticamente róseos e compridos surgiu de trás da cômoda bagunçada. Os olhos de Orihime se fixaram no homem a sua frente, sem dúvida, nunca vira algo deste gênero na faculdade de medicina nem nas lanchonetes em que costumava trabalhar.

Ele tinha olhos dourados como o mais puro ouro usado nas igrejas barrocas e estes tinham um tom de arrogância e superioridade exalada por professores. Seus cabelos, róseos como as saias de meninas, chegavam à altura dos ombros esqueléticos. Os fios coloridos estavam presos atrás da cabeça com uma presilha vermelha com detalhes prateados. A armação de seus óculos era branca com pontos em cinza. O rapaz chegava a ser mais alto que Ulquiorra, contudo, mais magro e esguio. Se colocassem uma saia, ou um vestido, no rosado ele poderia se passar por uma menina. Embora tudo sua aparência o relacionava a uma dama na cabeça de Inoue, seus ombros largos davam um toque de masculinidade que faltava em si.

Os pensamentos contraditórios de Orihime foram cortados quando Ulquiorra lhe empurrou usando o colarinho que segurava. Desajeitada como sempre foi, a ruiva caiu de joelhos na frente do rapaz de fios rosados.

— Essa é a nova escrava do senhor Aizen. Ela necessita de roupas novas. Arranje. — ele ordenou andando em direção ao outro com a intenção de ir embora. — Isso é tudo por enquanto. Não a mime demais, Szayel, ou terá consequências. — murmurou próximo ao ouvido do rosado lhe causando nada menos que desgosto.

Ele estalou a língua e amaldiçoou o palhaço em tom baixo, mas não baixo o bastante para não ser ouvido pela garota ruiva.

— Era só o que me faltava. Gastar meus dons com uma mera escrava moribunda qualquer. — resmungou ainda não tendo visto a garota de joelhos a sua frente. Suspirou pesadamente e olhou a sua volta para tentar encontrar a tal menina. — Mas onde ela está... — logo, deparou-se com Inoue no chão. A surpresa contida nos olhos ônix do homem não podia ser ocultada. — Você é a escrava? — perguntou levemente incomodado com a beleza anormal para uma mera servente.

Estranhando o comportamento ignorante do rosado, Orihime assentiu com sua cabeça.

Era só o que lhe faltava. Mais alguém para continuar lhe depreciando com os substantivos de “escrava” e “servente”. Já não bastava ter seus sentimentos pisoteados por tudo que passou desde então, ainda teria de ser tratada como um mero objeto sem qualquer valor. Odiava isso. Odiava no quê sua vida havia se tornado.

Seu maior desejo era gritar até o ar se esgotar de seus pulmões. Queria dizer ao mundo todas as suas frustrações e dar sugestões para o dono de seu destino mudar logo o rumo de sua vida se quisesse a ruiva viva por mais tempo.

Sentiu um toque frio levantar seu queixo e logo se deparou com uma expressão de desgosto e superioridade estampada no rosto afeminado do rapaz. Ele estalou a língua novamente—algo comum para ele—, nunca acreditaria que esta menina seria a escrava se o próprio Ulquiorra não houvesse lhe dito. Analisou minuciosamente o rosto delicado de Orihime à procura de alguma imperfeição. Tirando alguns arranhões e manchas causadas por, provavelmente, a estadia até então no circo, ela tinha as expressões mais belas que Szayel já vira em toda sua carreira à procura da perfeição inalcançável.

Largou bruscamente o delicado queixo da menina e endireitou a postura andando de um lado para outro, impaciente. Com cautela, Inoue levantou-se e ficou parada olhando para ele até perceber o espelho ao seu lado. Deixou seu olhar ser capturado pelo seu reflexo envelhecido. Não era mais a mesma garota jovem que presenciara da última vez. Claro, continuava sendo a bela Orihime, todavia, a juventude parecia ter escapado por seus dedos. Grandes olheiras formavam-se abaixo dos olhos cinzentos e opacos de cansaço. Os arranhões e marcas vermelhas davam um ar de desgastada para a menina.

Com passos lentos ela se aproximava do objeto, surpresa com sua própria visão totalmente mudada. Seus finos dedos estavam em carne viva e as manchas de sangue sobre seus ombros custavam a desaparecer totalmente. Chocada tocava em seu próprio rosto não o reconhecendo mais como seu.

— Incrível, não? — divagava Szayel enquanto aproximava-se vagarosamente da menina tocando-lhe os fios ruivos e quebradiços. — Como o circo pode fazer com que nem mesmo você mesma se reconheça, não acha, querida? — sussurrou no pé do ouvido de Inoue lhe causando tamanho choque de realidade. Sem muita pressa, o rosado rondava a pequena garota lhe analisando com outros olhos, olhos de pena e crítica. — Aposto que um dia sua pele já foi tão macia quanto os lençóis de algodão egípcio. Seus olhos já devem ter sido tão brilhantes como o próprio sol... Não estou certo? — passava o dedo indicador sobre a pele ressecada de Orihime conforme a menina vagava inutilmente à procura de resposta plausíveis em sua tão cansada mente. — Sua vida era fácil, não perfeita, mas fácil... Nem sempre tinha comida na mesa, mas nunca passou pela miséria. Nem sempre sobrava dinheiro para se divertir, mas também nunca ficou na pobreza. — o rosado contentou-se em parar ao lado direito da ruiva, observando o reflexo da mesma com curiosidade. — Disse alguma mentira, querida? — ela balançou a cabeça em negação. — Então digo mais, se me permite. Você nunca terá aquilo de volta. Nunca terá mais uma vida fácil como a de antes, não os mesmos cabelos, nem os mesmos olhos, sequer a mesma pele. O circo muda as pessoas e você não será exceção da regra. Mas, se quiser, podemos fazer um acordo.

Os orbes cinzentos da escrava voltaram-se, sem demora, para o rosto do homem, cheios de aflição e desespero por alguma nova mísera esperança jogada a si.

— Um acordo? — repetiu iludida com o pingo de perspectiva.

Szayel sorriu satisfeito com o interesse da jovem.

— Sim, querida, um acordo. — reforçou com entusiasmo, todavia um olhar cheio de mistérios impregnava os tão belhos olhos dourados do circense. — Eu farei o meu máximo para te deixar de volta ao seu estado original e, em troca, você tem que ser perfeita. Fechado?

O pobre psicológico da menor não conseguia associar, por mais que tentasse, o conjunto de palavras que formavam tal contrato inusitado.

Tornar-se perfeita nunca esteve na lista de afazeres de Orihime, muito menos nos objetivos a serem feitos antes de sua morte. Acreditava que a dita “perfeição” era inalcançável, até mesmo para os humanos mais belos e próximos de serem comparados com anjos. Nem mesmo anjos eram perfeitos. Nada era e nunca seria.

Contudo, Szayel parecia mais do que sério nas palavras em que dissera para Inoue—o que a fez repensar algumas vezes mais seus conceitos e o quanto era lerda para entender um simples combinado com o objetivo de ter de volta tudo aquilo que perdeu no momento em que algemas foram lhe impostas por pessoas sem escrúpulos.

— Ser... Perfeita? Desculpe, mas eu não entendo... — confessou confusa.

— Não precisa entender, apenas faça o que eu disser. E então, fechado? — questionou uma vez mais, sério.

— Mas... Eu não entendo... Por que você está fazendo isso por mim? Por que eu? Por que... Por que você está sendo tão gentil com uma... Escrava? — perguntou mais como para si mesma, perguntas que a assombravam. Por que ela? Por que sempre ela? A ruiva, realmente, queria ter a resposta para isso, mas a desconhecia por enquanto.

— Por que as perguntas? Se eu estou fazendo isso, são por motivos meus que não são de sua conta. Apenas aceite uma boa ajuda de alguém que está disposto, afinal, não vai achar muito disto por aqui. Talvez esse seja o primeiro e último acordo amistoso que vai fazer durante sua vida circense.

— Motivos? Que motivos?

— Já disse que eles não são de sua conta, mas... — Szayel sorriu. — Quem sabe algum dia eu te conte eles. Então, o que me diz? Fechado? — ele estendeu a mão.

Aquele parecia ser finalmente uma decisão sensata, mas arriscada. Geralmente Inoue pensaria algumas centenas de vezes antes de rejeitar, todavia, ela não era mais a antiga Inoue, ela agora era uma escrava de um ambiente hostil o qual denominavam de circo. E, para todos os efeitos, ela estava, agora, pouco se lixando para o que aconteceria no dia de amanhã se ele chegasse.

Orihime hesitou inicialmente, analisou o olhar e o sorriso do rapaz e, depois, pegou sem pestanejar na mão dele formando um aperto.

— Fechado.

Notas finais
O que acharam? Gostaram? Odiaram? Não sei se o Szayel ficou bom, não consegui o descrever muito bem neste capítulo, mas da próxima vez ele vai estar PERFEITO, prometo. Que motivos ele tem? Tem haver com o passado dele, ENFIM!Espero que tenham gostado mesmo que não tenha ficado perfeito.Até mês que vem, anjinhos.Beijos da Fuinha ♥