O Sorriso Do Palhaço
4 Capítulo 4 — Só uma primeira e última vez
Notas iniciais

O calor intenso apenas fazia com que o movimento do refeitório aumentasse. Não que houvesse comida nesta hora, afinal, o almoço fora servido há menos de uma hora. Os estômagos estavam cheios o que significava apenas conversas animadas nas mesas cheias de cadeiras ocupadas.
Os grupos, bem distintos, sentavam-se com certa distância entre si para não ocorrer quaisquer desavenças em um dia tão calmo como este. Alguns apenas tentavam se divertir o máximo permitido por aquele ambiente, outros já preferiam discutir coisas mais seriamente e também havia aqueles que preferiam comentar assuntos inapropriados para os menores presentes.
Não eram todos que estavam sentados ao redor das extensas mesas, contudo, uma grande maioria ocupava as cadeiras e bancos de madeira colocados ali poucos dias antes quando deram uma parada para fazer os ensaios e reparos necessários.
Risadas altas e equivocadas podiam ser ouvidas vindas da penúltima mesa ao lado da entrada para o bosque denso. Nela estavam os mais problemáticos, todavia os que mais arrecadavam dinheiro do circo. De dez cadeiras, sete estavam ocupadas e apenas estes sete conseguiam fazer mais barulho do que os circenses presentes todos juntos. A conversa animada se expandia a ponto de até mesmo aqueles aos arredores do pavilhão conseguiam ouvir perfeitamente as risadas e comentários vindos da mesa.
Com passos lentos e silenciosos, Ulquiorra se aproximou da extensa superfície. Os olhares se voltaram para ele e sua maneira calma e indiferente de ser. Muitas eram as mulheres do circo que caíam aos seus pés, talvez fosse porque o estilo misterioso do palhaço tinha um quê de sexy e tentador fazendo com que os instintos mais primitivos das damas se aflorassem.
Os sete pares de olhos desviaram sua atenção para a figura alta se aproximando e conforme a distância se tornava cada vez menos, as sete bocas pararam de falar; algumas sorrindo com satisfação e outras apenas indiferentes como as expressões do circense de cabelos negros e pele pálida como a neve.
Lentamente, sem pressa alguma ou qualquer preocupação se fizesse barulho—o que não ocorreu—, Ulquiorra puxou uma cadeira de madeira lascada em certas partes e sentou-se a beira da mesa, próximo do atirador de facas e sua assistente; ambos não muito falantes assim como o rapaz de olhos esmeralda.
Como a noite cai sobre os arranha-céus, o silêncio caiu sobre a mesa—antes a mais barulhenta do refeitório. Até mesmo o pavilhão inteiro calou-se com a chegada do palhaço. Este sendo tão temido quanto o próprio Senhor Aizen já que o rapaz era praticamente seu cachorrinho, aquele para quem cabia “verificar” o trabalho dos circenses e notificar ao patrão caso houvesse alguma irregularidade.
Se alguém podia acabar com sua vida no circo assim como a vida em si, este alguém era Ulquiorra.
Sua expressão indiferente e passível era tão fria como a camada de gelo dos lagos no inverno. O verde profundo de seus olhos era tão penetrante como a lâmina de um punhal cravejado de esmeraldas e rubis; algo belo, porém fatal. Os sedosos e brilhantes cabelos negros que, ao mesmo tempo em que atraíam a atenção de todos, pareciam sugar a luz do lugar com seu tom preto como os céus à meia-noite. Tudo em si exalava perigo e mistério, contudo, jamais um sorriso fora exibido nos lábios pintados com batom preto do palhaço.
Vários olhares encontravam-se focados no mais novo membro da mesa de carvalho antigo lascado em certas partes. O olhar mais intenso que o fuzilava vinha de um par de orbes azuis cobaltos cheios de raiva, sadismo, dentre outros sentimentos relacionados a estes. Contudo, um sorriso malicioso estava exposto nos lábios do rapaz azulado. Não era nenhuma surpresa para alguém, todos estavam acostumados com a maneira de Grimmjow e seus olhares perigosos que faziam par com o sorriso sádico.
O véu do silêncio continuava sobre aqueles sentados na mesa, todavia os olhares começavam a se desviar de Ulquiorra. Alguns acharam interesse em brincar com seus copos de madeira cheios com pouca água, outros encontraram um novo passatempo em trocar olhares com a pessoa mais próxima de si naquele recinto. Todos menos Grimmjow. Ele continuava a encarar o rapaz moreno sem reduzir a intensidade posta em tal gesto, quem sabe até fuzilou-o mais. E, com isso, os presentes já sabiam o que ia acontecer; uma nova discussão entre os circenses de madeixas azuis e negras.
Ulquiorra, antes entretido em observar rapidamente cada um sentado na mesa, desviando seu olhar ora ou outra para algum ponto aleatório da paisagem, fixou seus orbes esmeraldas nos cobaltos de Grimmjow, desfiando-o. Estreitou as sobrancelhas, mas sem deixar sua expressão indiferente; sua marca registrada.
— Algo em que possa ajudar-lhe, Grimmjow? — questionou Ulquiorra quebrando a fina camada de silêncio frágil, contudo, sagrada.
Os outros sete presentes prestavam toda a atenção possível na conversa que ia se desenrolar, afinal, toda conversa entre estes dois acabava em uma discussão, e toda discussão era uma diversão para eles. Começavam as apostas na mesa, todas feitas em sussurros e a equilibradas entre Ulquiorra e Grimmjow, contudo, tinham conhecimento da superioridade do palhaço negro.
Grimmjow riu. Uma risada desnecessária e maníaca.
— Eu diria que tem mais de um “algo” com o que você possa me ajudar, morcego de estimação. — retrucou visando a uma série de argumentos ofensivos entre ele e o rapaz.
— Sinto lhe dizer que sou apenas um mero servo de Senhor Aizen e não um psicólogo para curar seus problemas mentais distintos e variados, os quais seriam necessários uma série de especialistas para sequer resolver alguns e descobrir novos tipos de doenças cerebrais contidas nesta sua cabeça.
Risadas abafadas podiam ser identificadas vindas de dois ou três pontos da mesa e outras se espalhavam pelo pavilhão que estava a observar a mais nova prova da rixa entre os dois circenses mais disputados entre as mulheres dali.
— Pelo menos eu sei sorrir, palhaço de meia tigela.
As risadas imediatamente cessaram-se conforme todos olhavam com pena para Ulquiorra e medo com Grimmjow.
Nem todos tinham conhecimento do passado do palhaço, na verdade, ninguém conhecia a história anterior ao circo do moreno. Nem Aizen, nem Grimmjow, nem Hallibel, nem ninguém. Alguns corajosos já tentaram procurar por registros nas prefeituras das cidades, caçar contas bancárias, relatos de pessoas, mas não teve sequer um resultado, sequer uma pista de quem Ulquiorra já foi.
Ele era um fantasma. Alguns chegavam a duvidar da veracidade de seu nome.
Teorias, por ventura, circulavam dentre as conversas aleatórias do circo. Uma vez ou outra o assunto se voltava para o palhaço e logo começavam as hipóteses; algumas prováveis e outras simplesmente insanas e impossíveis. A única coisa que todas estas especulações todas tinham em comum era que desconheciam a verdade e desta nem perto chegavam.
O rapaz não se incomodava com todo este mistério o rodeando e nem com os diversos cochinhos sobre si, desde que ninguém viesse lhe tirar a paz com perguntas desnecessárias e incômodas. E a mais comum destes questionamentos que a calma lhe tirava, era: “por que você não sorri já que é um palhaço?”. Ulquiorra simplesmente odiava ouvir isto e ainda ser provocado com este fato. Como Grimmjow fez.
O clima tenso apenas se intensificou e novamente o véu do silêncio caiu sobre o pavilhão, até mesmo as outras mesas calaram-se para ver a surra que o moreno daria no azulado. Contudo, algumas mentes com mais conhecimento sobre o comportamento do palhaço sabiam que este preferia a guerra verbal a socos e chutes. Não gostava de sujar suas mãos com o sangue alheio, principalmente com alguém que ele repugnava tanto como Grimmjow.
Despreocupadamente Ulquiorra pegou um copo qualquer sobre a superfície de carvalho, o recipiente meio cheio com água. Seus dedos brincavam na madeira maciça que compunha o copo. Começou a mover o líquido dentro em um redemoinho para divertir-se. Seus olhos esmeraldas seguiam o ritmo das pequenas ondas contidas dentro da cavidade. Parecia estar entretido já que seus orbes esverdeados refletiam o brilho da água e seus movimentos.
— Sabe o que me incomoda? — falou despreocupadamente fazendo uma pausa para remexer mais um pouco no copo e logo parar e encarar os profundos olhos azuis cobaltos de Grimmjow fazendo com que, não só ele, mas todo o pavilhão estremecesse só de sentir a tensão e a agressividade imposta nos orbes esmeraldas. — Pessoas... Ou melhor, dizendo... Vermes imundos os quais não tem a mínima noção do que estão falando ou de onde estão entrando e, mesmo assim, falam e continuam se enfiando onde não são requisitados.
Seu olhar vasculhava cada canto do outro circense, estudando suas fraquezas visíveis a, até mesmo, aqueles inexperientes. Uma gota de suor escorria pela testa do azulado cortando o rosto tenso deste. O palhaço deixou a caneca sobre a mesa de madeira maciça e inclinou-se na direção de Grimmjow, deixando seu rosto perigosamente próximo do outro. Estreitou os olhos esmeraldas capazes de afogarem quem quer que se perca em sua imensidão e continuou seu breve monólogo.
— Ainda mais aqueles que não têm moral para falar do passado desconhecido e alheio. Soa-lhe familiar, Grimmjow? — insinuou com sua voz, contudo, a expressão continuava a mesma.
O rapaz de madeixas azuladas engoliu em seco. Podia não admitir, mas ele apenas temia a autoridade de Ulquiorra, nada mais nada menos. Preferia enfrentar um leão a ter de lidar com as brigas verbais travadas entre ele e o palhaço.
Grimmjow semicerrou os olhos e estalou a língua, já cansado de toda esta subordinação ao moreno. Não era comunista, contudo também não apoiava a ditadura e era isto que o circo era; uma ditadura. “Ame o circo ou deixe-o” era o lema de Aizen e seus sócios, ou “cale a boca ou vá embora” como os circenses o popularizam.
— Já que tem um passado desconhecido, que tal ser um cadáver desconhecido também, hã? Que tal, morcego vegetariano? Gostaria de experimentar a sensação de, até mesmo após a morte, não ser ninguém? Posso te ajudar se quiser. — retrucou o azulado inclinando-se na direção do moreno da mesma maneira que este fizera momentos atrás.
O pavilhão aproximou-se da confusão e todos olhavam para tudo isto com curiosidade e as apostas apenas aumentavam. Se isto evoluísse para uma briga de verdade, com socos e ferimentos, a maioria garantia a vitória de Grimmjow, o domador de leões e animais ferozes.
— Melhor ser um cadáver desconhecido do que um vivo miserável e imundo como você. — afirmou Ulquiorra calmamente irritando ao outro rapaz.
Todos os presentes se surpreenderam e, agora, sabiam onde tudo isto iria parar apenas por ver a cara do azulado.
Grimmjow tinha os olhos semicerrados e o rosto vermelho de raiva. Levantou-se bruscamente enquanto a cadeira de madeira—onde antes estava sentado—ia ao chão ressoando por todo o local aberto.
Os batimentos cardíacos do azulado aceleraram de maneira considerável, na verdade, de maneira absurda e muito provavelmente não saudável. As veias saltavam de seu pescoço e testa expressando ainda mais a raiva sentida. Iria quebrar a cara de Ulquiorra e seria agora.
— ORA, SEU...! — gritou enquanto seu punho seguia em trajetória certeira para a face pálida e inexpressiva do palhaço.
Este nem se dava ao trabalho de se fazer de surpreso ou desviar. Não se importava. Nem com Grimmjow nem com nada. Se fosse para morrer, que acontecesse logo e indolor. Preferia que acabassem logo com sua vida sem significado já que ele mesmo não tinha coragem de fazê-lo por conta própria. Era tamanho covarde que nem se matar conseguia.
Por que não morria logo? Ele não merecia viver mesmo. Estava à espera de uma briga para que pudesse perder e morrer por perda de sangue de uma vez. E ali estava sua chance.
— Ulquiorra, você está bem? — uma doce voz fez par com mãos aveludadas acariciando seu rosto.
Onde estava a dor? A ardência no rosto após um soco? Onde estava o sentimento de vergonha após ser atingido de maneira tão humilhante por um de seus subordinados?
Nada.
Vagarosamente, sem pressa alguma, Ulquiorra abriu os profundos olhos esmeraldas e logo encontrou outros cinzentos fixados nos dele. Pôde observar preocupação, ternura, carinho e afeto contidos nos orbes semelhantes às nuvens em dias de chuva. Contudo, fora um fio vermelho que o fez reconhecer o rosto próximo ao dele.
Orihime; a escrava.
Pela primeira vez em muito tempo, Ulquiorra ficou surpreso e mudou de expressão.
Rapidamente olhou de soslaio para onde Grimmjow deveria estar e logo descobriu o que acontecera.
Szayel chegara bem na hora de puxar o azulado para trás fazendo com que o soco fosse falho, levando tanto o domador de animais quanto o estilista ao chão onde, agora, o rosado tentava acalmar o outro e não economizava argumentos em defesa do palhaço perplexo.
Este logo foi interrompido pela ruiva entrando em seu campo de visão.
Inoue insistia em perguntar sobre o estado do jovem, contudo, este nada respondia, estava ocupado demais perdido na profundeza do olhar acinzentado da moça.
Contudo, rapidamente o moreno voltou a expressar sua indiferença em relação a praticamente tudo. Fora por pouco, mas acontecera. Pela primeira vez em anos, Ulquiorra se perdera dentro de um olhar carregado de amor e carinho vindo de uma mulher.
O rapaz levantou-se dispensando as formalidades de Orihime e ajeitou sua camisa amassada pela garota cega de preocupação segundos antes quando praticamente, por algum motivo não compreendido por inteiro pela jovem, se jogou no palhaço para que este não recebesse o golpe violento de Grimmjow.
— Estou bem, mulher, não precisava da sua ajuda. — falou friamente.
Todavia, ao levantar-se e olhar melhor para a moça de cabelos avermelhados, percebera sua mudança de aparência.
Suas madeixas estavam mais vivas e cheias de cor, muito provavelmente haviam voltado a seu estado original. As marcas de feridas e sangue não eram mais visíveis, pelo contrário, a pele parecia nova e macia como deveria sempre ser. As vestimentas agora serviam perfeitamente em seu corpo curvilíneo e destacavam suas qualidades. Sem sombra de dúvida Szayel tinha feito um trabalho impecável na moça.
A garota já deveria estar acostumada com a forma grossa com que era tratada pelo rapaz, todavia, desta vez algo lhe machucou; o fato de ela estar tentando fazer algo bom e receber em troca palavras tão rudes como aquelas.
Os olhos cinzentos e doces de Orihime começavam a ficar marejados enquanto Ulquiorra tentava acalmar a multidão dando um discurso sobre como as ordens do circo deveriam ser seguidas e como todos deveriam se retirar dali para não haver mais confusões. No entanto, a única coisa que a ruiva ouvia era: “fuja”.
E ali, conforme a garoa iniciava-se e intensificava-se, a moça de belos cabelos avermelhados saiu correndo abandonando seus sapatos rumo à floresta, para qualquer lugar em que aquele rapaz rude não estivesse. Qualquer lugar onde pudesse, pelo menos, morrer do seu jeito e ir para o que chamam de paraíso com seu irmão.
O que restou da moça fora uma sapatilha branca manchada de barro.
Não era uma Cinderela, na verdade, a sapatilha não fazia juiz algum ao sapato de cristal do conto. De Cinderela não tinha nada a não ser o sapato, pois Cinderela fugiu por não ter mais tempo para ficar e Orihime fugiu para não passar mais tempo ali; causas diferentes.
Inoue não era Cinderela, contudo ainda um príncipe poderia correr atrás de si.
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