O Som Que Me Leva Até Você
1 Seu Mundo Perfeito
Notas iniciais
As luzes amareladas e imponentes do suntuoso salão de banquetes incidiam diretamente sobre o palco, criando uma ilusão de calor que não alcançava a pele fria de Hinata. A madeira nobre do violoncelo, apoiada contra seu peito, parecia a única coisa viva e pulsante naquele raio de luz. Segurando o arco com a precisão milimétrica que lhe fora incutida a ferro e fogo desde os cinco anos de idade — quando suas mãos pequenas mal conseguiam abraçar o instrumento —, ela fechou os olhos por um segundo. Um segundo inteiro para afastar o peso do olhar vigilante de Hiashi na primeira fileira e focar apenas na respiração.
Ela puxou a primeira nota.
O som grave, denso e aveludado preencheu o espaço com uma força avassaladora, reverberando pelo teto alto ornamentado em gesso e folhas de ouro. Para a platéia de jóias reluzentes e ternos sob medida, Hinata estava apenas entregando uma execução impecável de uma peça complexa de Bach. Para ela, no entanto, aquele instrumento era a extensão de tudo o que sua voz contida nunca conseguira gritar. Desde a infância, o violoncelo fora seu refúgio e sua prisão: a única linguagem onde tinha permissão para sentir sem reservas, mas era também a ferramenta pela qual sua liberdade fora moldada e cobrada em horas exaustivas de ensaio solitário.
Enquanto seus dedos fluíam pelo instrumento, ela tentava, como sempre, colocar a própria alma em cada vibração daquelas cordas. Era seu mecanismo de defesa quando a realidade ao redor se tornava densa demais. Havia, contudo, algo diferente naquela noite. Uma inquietação sutil e persistente cutucava a base de seu peito, uma vibração estranha e desconhecida, como se o ar do salão estivesse carregado por uma eletricidade invisível. Não era o nervosismo habitual das apresentações — era uma sensação de expectativa, como o silêncio pesado que antecede uma tempestade no meio do verão.
Mesmo com essa leve perturbação tensionando seus músculos, a memória muscular e anos de disciplina implacável falaram mais alto. Seus dedos deslizaram pela madeira com uma perfeição inquestionável. A postura permanecia ereta, o rosto mantinha a serenidade angelical que todos esperavam da herdeira dos Hyūga, e o arco cortava o instrumento sem um único vacilo. Não houve uma nota fora do lugar, nem um deslize na afinação; apenas a entrega técnica de quem aprendeu que errar nunca foi uma opção.
A última nota vibrou no ar, sustentada até o último resquício de som morrer contra o teto trabalhado do salão. Por um brevíssimo instante, o ambiente permaneceu suspenso, capturado pelo eco daquela performance.
Em seguida, o salão explodiu em aplausos contidos de uma plateia aristocrática.
Hinata abriu os olhos devagar. Seu rosto não demonstrava o cansaço do esforço físico ou emocional; mantinha a serenidade graciosa que lhe era natural. Ela se levantou com a postura ereta e impecável, segurando o violoncelo com uma leveza elegante enquanto inclinava a cabeça e o corpo em um agradecimento perfeitamente ensaiado. Na primeira fileira, Hiashi Hyūga apenas assentiu com a cabeça — o gesto de quem via ali não sua filha, mas a consolidação do prestígio da família.
Ao descer do palco com passos suaves que mal faziam ruído, ela aceitou com um gesto delicado de cabeça a taça de champanhe oferecida por um garçom. Caminhou com fluidez em direção ao grupo onde seu pai centralizava as atenções.
— Uma execução sublime, Hinata — elogiou um dos empresários mais influentes do setor financeiro, erguendo sua taça em homenagem a ela. — A sensibilidade e o domínio técnico são raros de se ver em alguém tão jovem.
— Agradeço a gentileza de suas palavras, senhor Miraki — Hinata respondeu, a voz vindo num tom suave, pausado e cristalino, acompanhada por um sorriso diplomático e caloroso na medida exata. — É um privilégio poder compartilhar a música com apreciadores tão atentos.
— O talento é fruto do compromisso inegociável com a excelência — Hiashi interveio, a voz grave impondo-se com naturalidade enquanto pousava a mão de forma leve, porém firme, sobre o ombro da filha. — Hinata compreende perfeitamente o padrão que seu nome exige.
O diálogo ao redor continuou fluindo sobre contratos, datas de concertos em grandes capitais e recepções exclusivas. Hinata manteve-se presente, respondendo com a polidez intocável que fazia dela uma figura admirada por todos naquele meio. No entanto, a sensação de sufocamento persistia. Não era aversão ao ambiente — ela fora criada para dominá-lo com maestria —, mas sim a constatação de que toda aquela conversa polida passava longe do que ela acabara de entregar no palco.
Aproveitando o momento em que o pai se voltou para responder a um sócio de longa data, Hinata inclinou-se levemente com uma graciosidade impecável.
— Com sua licença, pai. Vou me ausentar por alguns instantes para tomar um pouco de ar fresco.
Hiashi fez um breve sinal com a mão, autorizando-a sem desviar a atenção.
Afastando-se do epicentro do evento, Hinata caminhou com passos tranquilos pelo tapete suntuoso, mantendo a taça entre os dedos finos. Guiada pela busca por um momento de silêncio, seus olhos azuis-perolados identificaram a imponente escadaria de mármore ao fundo do salão. Ela subiu os degraus sem pressa, deixando o tilintar dos copos e gargalhadas contidas para trás.
No andar superior, uma porta dupla de madeira nobre e vidros lapidados encontrava-se entreaberta. Ao empurrá-la com delicadeza, o ar frio da noite encontrou seu rosto, trazendo um alívio imediato.
Ela deu alguns passos para fora, pisando no piso de pedra de um terraço amplo com vista para as luzes distantes da metrópole. Acreditava estar sozinha, mas a penumbra logo revelou outra presença.
Encostado no balaústre de mármore, estava um jovem. Ele vestia um terno escuro de corte impecável — claramente sob medida —, mas o colarinho da camisa estava levemente aberto e o nó da gravata, afrouxado como um sutil toque rebelde. Nas mãos, ele segurava um pequeno caderno de capas gastas e uma caneta, rabiscando folhas com uma pressa quase urgente, impulsionada por um surto visível de inspiração.
A sola do sapato de Hinata produziu um estalo discreto contra a pedra do chão.
O rapaz ergueu o rosto no mesmo instante.
Quando os olhos azuis e intensos de Naruto encontraram os dela, a postura dele mudou. Havia nele uma postura polida e firme, condizente com o terno que usava, mas nos olhos amarelava uma energia crua, viva e profundamente perspicaz. Um olhar de quem não se deixava impressionar por aparências, mas que, naquele exato segundo, parecia absolutamente capturado pela figura elegante e serena da mulher à sua frente.
Hinata não recuou. Manteve a postura ereta, a taça de champanhe firme em sua mão e o olhar sustentado com a calma refinada que lhe era própria, embora, no fundo do peito, aquela mesma inquietação estranha do palco tivesse acabado de atingir o seu ápice.
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