O Som Que Me Leva Até Você

2 Fonte de Inspiração


Notas iniciais
Mais um capítulo pra vocês! A história já está finalizada, só vou soltar os capítulos devagarinho, não são muitos! Aproveitem!

Naruto ajeitou o terno sob medida no espelho antes de cruzar as portas do salão de festas, contendo um suspiro de exaustão que não chegou à sua face. Por fora, mantinha a postura firme e os modos impecáveis que a criação ao lado de Jiraiya exigia; por dentro, o tédio já começava a corroê-lo. Aquele mar de vestidos caros, taças reluzentes e risos calculados era o oposto absoluto do que fazia seu sangue pulsar.

Ao lado do padrinho, trocou apertos de mão e cumprimentos breves com alguns dos empresários mais influentes do país. Falava o necessário, sorria na hora certa, seu papel era discreto; para todos ali ele era apenas um jovem subordinado que acompanhava o mais velho. Só que, apesar de atento, sua mente estava longe — nas linhas de baixo que Sai vinha tentando acertar, nas batidas de Shikamaru e no seu próprio violão que o esperava no galpão do grupo.

A conversa do grupo, no entanto, foi interrompida quando o mestre de cerimônias anunciou a atração principal da noite: a apresentação do prodígio da família Hyūga.

Naruto nunca tinha visto Hinata. Ela pertencia a um universo musical refinado, distante dos bares ruidosos onde ele se apresentava com a banda. Mas no instante em que ela subiu ao palco e o raio de luz atingiu sua figura serena e impecável, algo no ar mudou e até a atmosfera ao redor pareceu se assentar em uma quietude quase solene.

Ela levou o arco ao violoncelo. E quando a primeira nota soou, grave e profunda, o mundo ao redor de Naruto simplesmente desligou o som.

Ele parou. Não conseguiu dar mais um passo, tampouco desviar o olhar. A música dela não era apenas técnica perfeita; era crua, viva e carregada de algo que só um verdadeiro artista conseguia reconhecer. Naruto sentiu cada vibração reverberar direto no seu peito. Cada nota musical sugeria novos acordes, novos caminhos e melodias que ele precisava registrar antes que evaporassem. Era tão urgente e real que fez suas mãos formigarem. Era a faísca para a melodia que ele procurava há meses.

Assim que os aplausos finais irromperam e o público começou a se movimentar, Naruto aproveitou o momento de distração de Jiraiya. Escorregou pela multidão com passos ágeis e subiu a grande escadaria de mármore, buscando o silêncio da noite.

Ao cruzar as portas do terraço e sentir o vento frio no rosto, puxou do bolso interno do terno o pequeno caderno espiral gasta. Ele sempre carregava com ele, caso o tédio batesse, como geralmente acontecia... Mas, dessa vez era diferente. Apoiou-se no balaústre e começou a rabiscar versos e compassos em uma velocidade frenética. Cada nota daquele violoncelo precisava virar letra, virar notas no violão, batidas na bateria, uma letra... Os meninos da banda iam enlouquecer quando ele mostrasse a base daquela canção no próximo ensaio.

Foi quando o estalar discreto de um sapato na pedra o fez erguer a cabeça.

A própria fonte de sua inspiração estava ali, a poucos metros, segurando uma taça de champanhe com a mesma elegância magnética do palco. Por um segundo, a confiança habitual de Naruto balançou. O peito dele deu um salto violento e o coração acelerou sem pedir licença. Ele sustentou o olhar sem demonstrar sobressalto, fechando o caderno devagar entre os dedos.

— Fugindo do barulho? — ele perguntou, a voz saindo num tom tranquilo e educado, acompanhada por um meio sorriso discreto que suavizava a formalidade da ocasião.

Hinata deu alguns passos calmos em direção à mureta, sem perder a elegância habitual, e manteve seus olhos claros fixos nos dele.

— Talvez — ela respondeu, com a voz cristalina e pausada. — O salão é muito amplo, mas parece haver pouco espaço para o silêncio lá embaixo.

— Ou para a música em si — Naruto comentou, inclinando levemente a cabeça e observando o semblante dela. — A maioria parece mais ocupada em ser vista do que em realmente ouvir o que estava sendo tocado.

Um leve brilho de surpresa cruzou o olhar de Hinata. Ela se aproximou mais um pouco do balaústre, guardando uma distância respeitosa, mas suficiente para que a conversa fluísse longe do eco da festa.

— Você parece ter prestado atenção — disse ela, com um tom curioso, porem contido.

— Seria impossível não fazer isso — Naruto respondeu, adotando uma postura mais descontraída enquanto apoiava o cotovelo na pedra. — A sua apresentação teve algo que não se ensina em qualquer lugar. A técnica todos esperam de alguém no seu posto, mas o peso daquelas notas... isso vem de outro lugar.

Hinata inclinou o rosto devagar, genuinamente tocada pela observação. Anos ouvindo elogios genéricos sobre sua “precisão” e “disciplina” não a tinham preparado para a leitura direta e precisa daquele rapaz de terno elegante e olhar atento.

— A música precisa ter espaço para ser sentida — ela explicou de forma serena, desviando o olhar por um instante para o horizonte iluminado da cidade. — Do contrário, torna-se apenas a execução mecânica de um papel. É um diálogo muito solitário quando só uma das partes se importa com o significado. Você é músico? — ela completou, apontando de leve com a taça para o pequeno volume que ele ainda segurava.

Naruto olhou para o objeto em suas mãos e depois voltou a encará-la, deixando o sorriso se expandir de forma sincera.

— Digamos que a sua apresentação me deixou com algumas ideias que eu não queria esquecer — admitiu ele, num tom leve e sem pretensão. — Quando uma melodia forte aparece, é melhor ter onde anotar antes que o barulho ao redor faça ela sumir.

— Então você escreve? — Hinata perguntou, com o interesse visivelmente desperto.

— Eu tento — ele respondeu com modéstia, ajustando a postura. — Principalmente quando encontro algo que vale a pena virar som. E a forma como você tocou hoje definitivamente valia.

Hinata sustentou o olhar dele, sentindo uma tranquilidade incomum se instalar entre os dois. Não havia cobranças, bajulação ou formalidades excessivas ali no terraço — apenas duas pessoas que falavam a mesma língua no meio do silêncio da noite.

A conversa entre os dois fluiu com uma facilidade quase perigosa. No refúgio do terraço, sob o céu estrelado e longe das conversas fúteis do salão, Hinata e Naruto deixaram de lado as amarras do mundo lá fora.

Eles finalmente se apresentaram. Quando ele disse seu nome, a sonoridade simples e firme do nome Naruto pareceu ecoar de um jeito diferente no peito de Hinata. E quando ela pronunciou o dela, com a dicção perfeita e suave, Naruto guardou cada sílaba.

A partir dali, o diálogo virou uma sinfonia. Falaram sobre a estrutura das composições, sobre a diferença entre a precisão da música clássica e acordes mais crus, sobre como a música era, para ambos, a única forma sincera de expor o que a voz insistia em calar, uma forma de libertação para coisas que cada um sentia... Entre sorrisos contidos de Hinata e gestos mais expressivos e apaixonados de Naruto ao defender uma ideia, o tempo simplesmente deixou de existir. A presença um do outro parecia preencher todos os vazios que eles nunca perceberam que tinham.

O transe só foi quebrado pelo som firme de saltos batendo contra o piso de pedra do terraço.

— Hinata! — a voz de Tenten soou afobada na penumbra. A esposa de seu primo Neji surgiu na porta do terraço, ajustando o vestido de gala e respirando fundo. — Meu Deus, eu procurei você pelo salão inteiro! Seu pai está furioso, perguntando por você há quase uma hora. Nós precisamos ir, agora!

Ao ver a figura elegante de Naruto ao lado da cunhada, Tenten piscou, surpresa, mas manteve a discrição.

Hinata se sobressaltou, o encanto do momento se desfazendo como névoa. A realidade e as amarras de seu sobrenome voltaram com o peso de uma tonelada.

— Eu... eu já estou indo, Tenten — Hinata respondeu, a voz mantendo a calma polida, embora seus olhos entregassem o sobressalto.

Ao ver a reação dela e perceber que ela estava prestes a sumir da sua frente, um pico de frustração imediata atingiu Naruto. Ele não podia simplesmente deixá-la ir embora assim, sem a certeza de que a veria de novo. Movido pela sua habitual impulsividade quando algo realmente importava, ele agiu sem pensar duas vezes e segurou sua mão, fazendo ela parar.

— Espere — ele disse com firmeza, abrindo o caderno espiral.

Com movimentos ágeis, Naruto rasgou um pedaço do papel do seu caderno de rascunhos, tirou a caneta do bolso e anotou seu número de telefone em traços rápidos. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles, e estendeu o papel para ela.

— Me deixa te ver de novo — ele pediu, sustentando o olhar dela com uma intensidade magnética. — Por favor. Me liga ou me manda uma mensagem quando puder.

Hinata hesitou por uma fração de segundo, sabendo o risco que corria, mas estendeu a mão delicada para aceitar o pequeno pedaço de papel.

Quando as pontas dos dedos de Naruto roçaram a pele fina da mão dela, uma descarga elétrica visível e avassaladora percorreu o corpo de ambos. O toque durou apenas um instante, mas o calor e a vibração foram tão reais que Hinata prendeu a respiração.

Ela fechou os dedos ao redor do papel, guardando o número contra a palma da mão como se fosse um tesouro valioso. Ergueu o rosto e olhou diretamente nos olhos azuis dele. Um brilho inédito, vivo e sutilmente rebelde surgiu nos olhos azuis-perolados dela.

— Eu vou falar com você — ela prometeu, a voz suave, mas carregada de uma certeza que nem ela mesma sabia que tinha.

Com um último olhar que dizia mais do que qualquer palavra, Hinata deu meia-volta e caminhou ao lado de Tenten em direção às escadas, deixando Naruto sozinho no terraço, com o peito acelerado e o aroma suave dela ainda preso ao ar da noite.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.