O Som Que Me Leva Até Você
4 Rachaduras no Mundo Perfeito
Notas iniciais
Ao lado de Tenten, Hinata desceu os degraus de mármore e caminhou em direção à limousine preta parada em frente ao salão. O ar frio da noite não foi suficiente para dispersar o calor que ainda queimava na palma de sua mão, onde o pequeno pedaço de papel permanecia escondido.
A porta do veículo foi aberta pelo motorista, e o silêncio pesado do interior do carro as acolheu. Hiashi já estava acomodado no banco de couro, com uma expressão rígida que dispensava palavras. Neji ocupava o assento ao lado, impecável e observador.
— Onde você estava, Hinata? — Hiashi perguntou no instante em que a filha se acomodou. O tom grave não era alto, mas carregava a irritação cortante de quem exigia controle absoluto. — Ficamos esperando por você.
Antes que Hinata pudesse articular sua resposta perfeitamente polida, Tenten inclinou o corpo levemente para a frente, curvando a cabeça em um gesto de respeito ensaiado.
— Peço desculpas, senhor Hiashi — Tenten interveio, a voz calma e segura. — A culpa foi minha. Eu encontrei Hinata descansando em uma das poltronas do segundo andar. Ela estava exausta após a apresentação e eu acabei me distraindo, perdendo o horário.
Neji estreitou os olhos na direção da esposa, captando no ar a mentira sutil, mas manteve os lábios selados. Ele resolveria aquela questão a sós com Tenten mais tarde.
Hiashi soltou um suspiro pesado, ajustando o paletó do terno. A explicação de Tenten era plausível o suficiente para que ele não prolongasse o incidente na frente dos outros.
— Perder o foco não é um luxo que nos permitimos, Hinata — o patriarca declarou, encarando a filha. — Sua imagem reflete a imagem desta família.
— Me perdoe, pai. Não vai se repetir — Hinata respondeu, baixando os olhos com a subserviência elegante que sempre se esperava dela.
Enquanto a limousine cortava as ruas iluminadas da cidade em direção à mansão Hyūga, Hinata voltou o rosto para a janela. No reflexo do vidro escura, ela não viu a herdeira perfeita ou a celista aclamada. Lembrou-se do brilho intenso dos olhos azuis de Naruto, do nó da gravata afrouxado com despretensão e do sorriso sincero que, por pouco tempo, fez o peso de seu sobrenome desaparecer. Pela primeira vez em anos, ela se sentiu verdadeiramente livre.
Assim que chegaram à mansão, Hinata retirou-se para seus aposentos. Trancou a porta do quarto com um clique suave e finalmente soltou a respiração que parecia presa em seu peito desde o terraço.
Caminhou até a bolsa de festa, onde tinha guardado discretamente o pequeno pedaço de papel amassado. Com cuidado, traçou os números desenhados com a escrita firme de Naruto. Pegou o telefone e salvou o contato com uma única letra: “N”. Ninguém que colocasse os olhos em seu aparelho desconfiaria de uma única inicial.
Duas batidas leves na porta a fizeram congelar.
Rapidamente, Hinata escondeu o papel sob o livro na mesa de cabeceira e bloqueou a tela do celular antes de se aproximar e abrir a porta.
Tenten deslizou para dentro do quarto, fechando a porta atrás de si com agilidade e cruzando os braços.
— Certo, Hina. Quem era ele? — Tenten foi direto ao ponto, embora a voz fosse um sussurro cauteloso. — Se o seu pai descobre que você estava a sós com um rapaz em um terraço escuro, nós duas estamos completamente ferradas.
Hinata piscou, surpresa com a franqueza da cunhada, mas o carinho e a preocupação no olhar de Tenten a desarmaram.
— O nome dele é Naruto — Hinata confessou em tom baixo, sentindo as bochechas esquentarem levemente. — Ele... ele estava ouvindo minha apresentação. Nós começamos a conversar sobre música no terraço.
— Só sobre música? — Tenten ergueu uma sobrancelha, aproximando-se. — Hina, eu vi a cara dele quando eu cheguei. E vi o jeito que você olhou pra ele antes de me seguir.
Hinata caminhou até a janela de seu quarto, abraçando os próprios braços enquanto tentava organizar as emoções desconhecidas que a invadiam.
— Foi diferente, Tenten — Hinata desabafou, a voz suave carregada de sinceridade. — Ele não me olhou como se eu fosse um troféu dos Hyūga ou um prodígio num palco. Ele me ouviu de verdade. Quando eu estava conversando com ele, parecia que eu podia respirar sem me preocupar com cada palavra ou movimento.
Tenten observou a amiga em silêncio por alguns instantes. Desde que entrara para a família, mesmo antes de se casar com Neji, ela assistia com aperto no coração à rotina que Hinata era submetida. Viu de perto o preço que a perfeição cobrava da garota.
— Você tá ferrada demais, Hina — Tenten suspirou, balançando a cabeça, mas um sorriso acolhedor surgiu em seus lábios. — Se o senhor Hiashi sonhar com isso, o mundo cai. Mas... quer saber? Você merece uma vida de verdade, Hina. Você merece sentir as coisas por escolha sua, e não porque alguém escreveu uma partitura pra você seguir.
Hinata olhou para Tenten com profunda gratidão, sentindo o peito aquecer.
— Só tome muito cuidado — Tenten completou, segurando delicadamente as mãos da amiga. — Seu pai não tolera desvios. Se você for andar por esse caminho, precisa ser mais esperta do que ele.
— Eu vou ser — Hinata prometeu, sentindo uma firmeza inédita dentro de si.
Após a saída de Tenten, o silêncio da madrugada voltou a pesar sobre o quarto. Hinata sentou-se na borda da cama com o telefone na mão, a tela iluminada refletindo em seus olhos claros. O número de Naruto estava ali, pronto para ser contatado. O impulso de enviar uma mensagem era quase incontrolável, mas a prudência e o medo do pai falaram mais alto naquele momento. Guardou o aparelho sob o travesseiro e encarou o teto por horas, a mente dividida entre o dever que sempre a sufocou e a sensação inebriante de liberdade que aquele rapaz de olhos azuis lhe proporcionar.
Aquela noite em claro cobrou seu preço. Na manhã seguinte, Hinata acabou se atrasando alguns minutos para o café da manhã — um deslize inaceitável sob o teto dos Hyūga.
Ao adentrar a imponente sala de jantar, sentiu o peso do ar. À mesa, Hiashi ocupava a cabeceira, acompanhado por Neji, Tenten e a jovem Hanabi, que raramente estava em casa.
— A pontualidade é a base da disciplina, Hinata — a voz grave de Hiashi cortou o tilintar das louças assim que ela se acomodou. O olhar do patriarca era severo. — Pequenos atrasos revelam uma mente desconcentrada. E uma mente desconcentrada comete falhas. Nesta família, a perfeição não é uma opção, é o nosso padrão.
— Perdoe-me, pai — Hinata baixou o rosto, mantendo a voz suave e a postura polida. — Não voltará a acontecer.
De canto de olho, Tenten trocou um olhar rápido e cúmplice com ela, enquanto Neji mantinha a postura rígida e Hanabi observava a cena em silêncio.
O restante do dia foi uma espiral de exaustão. No estúdio particular da mansão, Hinata passou horas diante do violoncelo para os ensaios de sua próxima apresentação. Mas, pela primeira vez em anos, suas mãos não obedeciam com a precisão mecânica de sempre. Ela errou notas simples, perdeu o tempo de passagens complexas. Sua cabeça estava longe, dividida entre a voz autoritária do pai ressoando em seus ouvidos e a lembrança do riso sincero de Naruto sob a brisa daquela noite.
Ao fim da tarde, exausta e à beira de um colapso emocional por tentar conter o que sentia, Hinata trancou-se em seu quarto. Olhou para o violoncelo no canto e depois para o telefone sobre a penteadeira. Entendeu que não conseguiria mais sufocar aquela parte de si.
Puxou o aparelho, abriu o contato “N” e, com as mãos levemente trêmulas, mas tomadas por uma decisão firme, digitou a mensagem:
"Boa noite, Naruto. Aqui é a Hinata. Guardei o seu número, como prometi no terraço... Espero que seu caderno ainda esteja cheio de boas ideias."
Ao apertar o botão de enviar, uma onda de alívio e coragem percorreu seu peito. A escolha fora feita.
Do outro lado da cidade, Naruto, ao ler o texto, não conteve o sorriso que se formou em seu rosto, respondeu sem hesitar:
"Sim, o caderno continua cheio de ideias... na verdade, passei o dia trabalhando em uma melodia nova por sua causa. Fico muito feliz que tenha me mandado mensagem."
Na mansão Hyūga, ao ver a resposta rápida dele, Hinata levou a mão aos lábios para conter um sorriso. Pela primeira vez em todo aquele dia exaustivo, seu coração finalmente pareceu bater no ritmo certo.
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