“Vou fazer uma apresentação no Hotel Bellevue na sexta-feira”, Hinata informou em uma das mensagens durante a semana.

Do outro lado da tela, os olhos de Naruto brilharam imediatamente. Era a oportunidade perfeita que ele tanto esperava.

“Ficarei ansioso até lá. Quero muito ver você novamente”, ele respondeu, sem hesitar.

Na sexta-feira, o camarim do Hotel Bellevue estava imerso em um silêncio tenso. Hinata encarava o espelho, impecável em um vestido de gala que moldava sua postura elegante. Seus cabelos estavam meio presos, destacando a delicadeza de suas feições. Ela parecia um anjo — mas um anjo de olhar ansioso, que não parava de suavizar o tecido do vestido com as mãos trêmulas.

— Você parece que vai desmaiar, Hinata — Tenten comentou, entrando no camarim e observando a cunhada. — O que está acontecendo com você?

Hinata olhou para a porta para se certificar de que estava fechada e aproximou-se de Tenten, falando aos sussurros:

— O Naruto vai estar aqui hoje... E eu vou me encontrar com ele.

Tenten arregalou os olhos, soltando um riso abafado de puro choque.

— Você está completamente maluca! — acusou com um sorriso desacreditado. — O seu pai vai te matar!

— Me ajuda, Tenten! Só por alguns minutos — Hinata implorou, a voz embargada por uma necessidade urgente. Ela precisava daquilo; precisava sentir o calor e a liberdade, precisava respirar fora das amarras sufocantes de Hiashi novamente.

Tenten suspirou fundo, cruzando os braços e balançando a cabeça.

— Ok. Mas, dessa vez, eu não vou ser responsável se você for pega. O Neji quase teve um surto daquela outra vez. Eu não contei nada, obviamente, mas ele sabe que estamos escondendo alguma coisa.

Hinata, sempre tão contida e reservada, envolveu a morena em um abraço apertado e sincero, agradecendo do fundo do coração.

-Você é a melhor amiga do mundo!

Enquanto isso, na entrada principal do hotel, Naruto desembarcava discretamente ao lado de Jiraiya. Vestia um terno escuro alinhado, mas seu olhar carregava um brilho de expectativa que o tutor há muito tempo não via.

— Nunca vi você tão leve antes de encarar um evento desses — observou Jiraiya, ajustando o paletó e encarando o afilhado de canto de olho.

Naruto apenas respondeu com um sorriso travesso, mantendo o mistério. Jiraiya soltou uma risada baixa, balançando a cabeça diante do rapaz que já não era mais uma criança.

No salão principal, em meio a apertos de mão e conversas banais de negócios, os olhos azuis de Naruto varriam o ambiente sem parar, buscando a figura de Hinata. A ansiedade no peito era quase palpável. Segurando uma taça de champanhe, ele caminhava devagar pelo local até que sua atenção foi fisgada por dois homens entretidos em uma conversa séria com outros empresários. Hiashi e Neji Hyuuga.

Jiraiya logo surgiu ao seu lado e murmurou discretamente quem eram. Naruto assentiu em silêncio, já sabendo perfeitamente de quem se tratava. Naquele exato momento, um dos homens se virou, avistou Jiraiya e veio imediatamente em sua direção para cumprimentá-lo.

— Hiashi, quanto tempo! — Jiraiya o saudou cordialmente. — Creio que no último evento não pudemos nos falar direito.

— Não mesmo, Jiraiya — respondeu Hiashi, estendendo brevemente o olhar para o loiro ao lado dele, que sustentou a postura firme. — Não apresentei meu sobrinho a você – ele deu espaço ao mais novo — Este é Neji.

— O tão falado prodígio dos negócios — Jiraiya cumprimentou o jovem, sorrindo. — É bom finalmente conhecê-lo. Tenho alguns projetos que com certeza serão do seu interesse.

Para preservar o anonimato de Naruto e evitar alarde sobre ele, Jiraiya não fez questão de introduzi-lo formalmente. A omissão fez com que Hiashi e Neji deduzissem que o rapaz de olhar atento era apenas um mero assistente pessoal.

A conversa seguiu um ritmo leve e estritamente profissional até que as luzes do salão começaram a se dissipar, focando apenas no palco principal para anunciar a atração da noite.

— Conhece minha filha, senhor Jiraiya? — Hiashi perguntou com visível pompa, embora seu tom carecesse de qualquer afeto genuíno, algo que Naruto captou no mesmo instante.

— Com certeza. Já tive o prazer de apreciar o talento dela em outros eventos. Uma moça adorável — respondeu Jiraiya.

No palco, a iluminação revelou Hinata com seu violoncelo. No segundo em que pôs os olhos no “anjo” à sua frente, Naruto não conseguiu mais desviar o olhar. Seu coração batia pesado no peito, tomado por uma onda avassaladora de admiração e saudade.

Ao lado deles, Neji — sempre calmo, analítico e extremamente observador — notou a mudança imediata na postura do rapaz. O suposto “assistente” não olhava para a apresentação com a cortesia de um convidado, mas com uma intensidade profunda e magnética. Neji não desconfiou de nada concreto de início, mas guardou aquele detalhe em sua mente, atento a cada gesto.

. . .

Os últimos acordes do violoncelo ecoaram com uma vibração aveludada pelo imenso salão do Bellevue, morrendo sob uma salva de palmas entusiasmada. No palco, Hinata curvou-se com a elegância contida de sempre, absorvendo o brilho das luzes e os elogios da multidão. Ao descer do palco, ajustou o vestido com calma e seguiu na direção onde seu pai a aguardava... Ela o sentiu antes de realmente vê-lo.

A surpresa a fez desacelerar o passo por uma fração de segundo.

Naruto estava deslumbrante. Usava um terno de grife, cortado sob medida, com um caimento impecável que destacava sua postura confiante. Sua presença era magnética e sofisticada. Ao seu lado estava um homem mais velho, de feições imponentes e olhar astuto.

Antes que Hinata alcançasse o grupo, Tenten a interceptou com sutileza, emparelhando os passos com os dela.

— Ele está um verdadeiro príncipe — Tenten murmurou perto do ouvido de Hinata, mantendo o sorriso social impecável.

Ao chegarem, Hiashi tomou a palavra com seu costumeiro orgulho formal, apresentando a filha ao lendário empresário Jiraiya.

— É uma honra conhecê-la, senhorita Hyūga. Sua apresentação foi verdadeiramente sublime — elogiou Jiraiya, curvando-se levemente.

— Muito obrigada, senhor Jiraiya, a honra é toda minha — Hinata respondeu com a doçura e a reverência habituais.

Seus olhos, porém, cruzaram com os de Naruto. O loiro sustentou o olhar com uma intensidade calorosa, um sorriso discreto e cúmplice brincando no canto de seus lábios. Hinata achou curioso o fato de Jiraiya não o ter apresentado, deixando ele de lado. Seu pai e primo também não pareceram se importar com ele. Mas não ia se apegar aquilo, estava nervosa com o que estava prestes a fazer,

A conversa sobre negócios entre os homens se estendeu. Aproveitando um momento em que Hiashi e Neji se voltaram inteiramente para um assunto trazido por Jiraiya, Naruto deu um passo sutil para trás. Com movimentos fluidos e sem chamar atenção, ele deslizou entre os convidados até desaparecer por uma das portas que davam acesso aos corredores reservados.

Ninguém notou seus movimentos, mas Hinata viu. Era o momento.

Com um gesto imperceptível, ela apertou sutilmente a mão de Tenten. O sinal silencioso que tinham combinado no camarim, foi captado no mesmo instante.

Tenten agiu com maestria. Interrompendo a conversa dos homens com a graça natural que possuía, fez uma leve mesura:

— Com licença, meu marido. Se me dão licença, gostaria de se ausentar uns minutos. Hinata, venha comigo um instante, por favor?

Os homens mais velhos apenas assentiram, compenetrados no diálogo corporativo, mas Neji acompanhou as duas com o olhar analítico de sempre.

Assim que cruzaram a porta do luxuoso banheiro e garantiram que estavam a sós, Tenten virou-se para Hinata com um brilho nos olhos.

— Certo, a rota tá livre. Se o seu pai ou o Neji sentirem sua falta antes da hora, o plano é o seguinte: a gente se separou no caminho e você foi interceptada por um grupo de senhoras da sociedade querendo te parabenizar pela performance. Você é educada demais pra cortar a conversa e se atrasou por isso. Perfeito e inquestionável. Mas, por favor, vinte minutos!

Hinata sentiu o peito cheio de gratidão.

— Você é incrível, Tenten. Obrigada!

— Vai logo antes que eu mude de ideia! — Tenten piscou — Vinte minutos!

Garantindo que o corredor estivesse vazio, Hinata saiu do banheiro sem ser notada. Ajustando o vestido, um gesto nervoso, ela caminhou com a respiração acelerada em direção à porta por onde o dono dos olhos azuis havia desaparecido momentos mais cedo.

Assim que Hinata atravessou a porta de serviço, uma mão firme e quente envolveu delicadamente seu pulso. Antes que pudesse soltar um suspiro de surpresa, ela foi guiada por um corredor curto que dava acesso a uma pesada porta de vidro. Naruto a puxou suavemente, levando-a para um jardim privativo do hotel, banhado pela luz prateada do luar e cercado por canteiros de flores noturnas.

O ruído abafado do salão de festas ficou para trás, substituído apenas pelo farfalhar suave das folhas ao vento frio da noite.

Naruto virou-se para ela, a iluminação da lua destacando os contornos marcantes de seu rosto e a intensidade dos olhos azuis.

— Eu passei a semana inteira ansioso para ver você de novo — ele confessou, a voz grave e baixa, sem soltar a mão dela. — Mas nada do que eu imaginei chega perto de como é infinitamente melhor estar na sua presença. As mensagens, o telefone... nada disso faz justiça a ter você bem aqui na minha frente.

Hinata sentiu o rosto queimar de timidez, o coração batendo descompassado contra as costelas. Ela olhou diretamente naqueles olhos azuis que povoaram seus pensamentos durante as últimas semanas, a fazendo sonhar acordada, o mesmo olhar que a fez ver portas abertas e caminhos desconhecidos. Um sorriso puro e contido brotou em seus lábios.

— Eu não devia estar aqui... se eles desconfiarem, não sei o que pode acontecer — Hinata sussurrou, a voz trêmula pela proximidade e pelo receio de serem descobertos.

Naruto, tomado por um impulso urgente e incontrolável, deu um passo à frente, diminuindo a pouca distância entre eles. Estendeu as mãos e envolveu o rosto de Hinata com as palmas quentes, os polegares acariciando a pele macia de suas bochechas com um misto de desespero e cuidado sagrado.

— Eu sei — ele murmurou, a voz grave, encarando-a como se ela fosse a única coisa real no mundo. — Mas, Hinata, eu não consigo explicar o que acontece quando estou com você... é uma conexão inexplicável. Parece que tudo finalmente faz sentido.

— Eu sinto o mesmo... É como se, do seu lado, eu pudesse finalmente respirar. — ela respondeu em um sussurro entregue, pousando as mãos suavemente no peito dele, sentindo o coração de Naruto martelar tão rápido quanto o seu.

Ele aproximou-se devagar, dando a ela todo o tempo do mundo para recuar, se quisesse. Mas Hinata apenas fechou os olhos, entregando-se ao momento.

Quando os lábios dele tocaram os dela, o mundo ao redor simplesmente deixou de existir. Não houve hesitação ou pressa; foi um encontro inevitável. Hinata fechou os olhos, as mãos firmando-se no terno dele como se precisasse daquela ancoragem para não flutuar. Tudo nela respondeu ao toque de Naruto — o calor da pele dele, o perfume acolhedor, a forma como os braços dele a cercavam, protegendo-a de tudo e de todos. Era um afeto tão avassalador que fazia seu peito doer de tão cheio, uma certeza silenciosa de que era ali, nos braços dele, que ela realmente pertencia.

Para Naruto, sentir os lábios de Hinata e a forma sincera como ela retribuía o beijo fez cada peça do seu caos interno se encaixar. Ele a apertou um pouco mais contra si, temendo que ela desaparecesse se ele a soltasse.

Não era apenas atração física ou o fascínio da proibição. Eram duas almas profundamente solitárias que passaram a vida inteira procurando por algo que sequer sabiam nomear — até encontrarem uma na outra.

No silêncio daquele jardim, sob o céu prateado, o destino finalmente cumpria o que havia traçado no momento em que suas histórias se cruzaram.



Notas finais
Espero que tenham gostado! Até a próxima!