O Sol e A Lua
37 Sementes e Estrelas

O dia da posse não começou com o alvoroço da vila; começou com o silêncio sagrado da floresta, como se a própria natureza tivesse prendido a respiração para assistir a um rito antigo; a cabana, aninhada entre troncos que guardavam musgo e histórias, parecia um relicário de madeira e fumaça, onde cada sopro de vento era uma oração contida. O orvalho, depositado em fios de teia e nas pétalas das flores e folhas, cintilava como pequenos faróis; o nascer do sol ali não era apenas luz, era um sacramento lento e ritualístico, um desabrochar de cores que lavava a noite e purificava o mundo.
O amanhecer se fez em camadas; primeiro um azul profundo que ainda guardava o frio da noite, depois um violeta tímido que se esticava como um lenço, até que o laranja veio rasgando o céu e tingiu as nuvens de ouro. O ar trazia cheiros que pareciam memórias: terra molhada, pinho, a fumaça distante de um fogareiro. Cada som era ampliado pela quietude: o pio de um pássaro que ensaiava a canção do dia, o farfalhar das folhas que se acomodavam ao novo calor, o gotejar lento do orvalho que encontrava o chão. Havia uma sensação de rito naquele amanhecer; como se o sol, ao nascer, estivesse abençoando não só a Vila, mas também os pequenos gestos que sustentavam a paz.
Na varanda desde antes do amanhecer, Naruto e Hinata permaneceram sentados por um tempo que não se media em minutos; o corpo de um encostado no outro, a manta envolvendo-os como um segredo compartilhado. Sequer estavam próximos da idade em que considera-se um adulto responsável e emocionalmente estável, e ainda assim havia ali uma maturidade sólida, uma ternura que não se confundia com pressa; o toque era gentil e puro: mãos entrelaçadas, dedos que se traçavam linhas invisíveis numa carícia despassada. Em algum momento, Naruto passou a ponta dos dedos pelo cabelo de Hinata; ela sorriu, e o sorriso era um sol menor que iluminava o peito dele.
Nesse instante, o tempo pareceu curvar-se sob o peso de tudo o que haviam sobrevivido, movidos por uma gravidade suave e inevitável, aproximaram-se, as respirações misturando-se ao vapor da manhã; foi um beijo suave, o primeiro momento de entrega romântica desde antes do ataque, desde que o luto havia se tornado a sombra persistente de seus dias. Foi um toque de lábios leve, quase etéreo, que carregava o gosto da esperança e a fragilidade de duas almas tentando se reencontrar em meio aos escombros da batalha; era um selo de doçura que tentava curar as feridas invisíveis, um reconhecimento silencioso de que, apesar de terem se tornado armas, eles ainda pertenciam um ao outro.
— Você acha que o vovô está nos vendo agora? — Naruto indaga, a voz baixa, cheia de esperança e de uma reverência quase infantil; os olhos buscando o horizonte como se pudesse encontrar ali uma resposta.
— Sinto que ele nunca saiu daqui, Naruto. — Hinata responde, apertando a mão dele entre as suas; a pele dela era macia, um contraste absurdo com a letalidade e força entre seus dedos — Ele ficaria orgulhoso; não pelo que nos tornamos, mas por estarmos aqui, cuidando um do outro.
Ficaram assim, trocando confidências miúdas; falaram de coisas simples: de como o vento daquela manhã lembrava as tardes de verão, de um desenho que Hanabi fizera, de um lugar onde um dia plantariam uma árvore grande o bastante para as crianças subirem. As palavras eram pequenas sementes; cada promessa, um broto de futuro.
— Ele continua dormindo? — Hinata questiona, um resquício de preocupação perturbando sua paz.
— Sim, mas parece mais forte, acho que logo teremos companhia. — Naruto responde apertando seus braços em volta dela — Até imagino como ele vai estar insuportável por um tempo.
— Não vá brigar com ele, Naruto, naquela hora, se não fosse o Kurama… — Hinata nem consegue proferir as palavras, seu coração lateja dolorosamente só de imaginar.
— Eu não vou, prometo. Se estou aqui hoje, sei que foi graças a vocês dois. — Seus lábios tocaram o topo da cabeça dela, enquanto seu abraço tornava-se mais necessitado.
Sabia que se não fosse a maestria de Hinata em Ninjutsu médico e a força descomunal de Kurama para reverter a transformação, seu nome seria mais um naquele memorial de mármore; agora seu amigo permanecia em um sono profundo, recuperando-se do desgaste doloroso que o Fuinjutsu também infligira a ele, e para que o selo enfraquecido não se rompa. Quando Kurama despertar, Naruto sabia que teriam que reforçá-lo, ou aquela parte dele, que guardava um ódio imenso da humanidade, romperia as barreiras ao menor impulso negativo que sentisse; a parcela era pequena, mas a potência condensada daquela fúria, poderia destruir um pequeno vilarejo.
O choro abafado que veio de dentro da cabana interrompeu o momento de contemplação; a mudança foi sutil e imediata; Naruto endireitou-se num reflexo protetor, e Hinata, com a paciência que originada de cuidar de outros, levantou-se. Ao entraram e dirigirem-se ao quarto dos pequenos, encontraram Konohamaru e Hanabi ainda presos em sonhos que mordiam; seu agir foi silencioso e sem pressa, com cuidado e uma compreensão profunda do medo que se sentia estar preso na escuridão. Hinata sentou-se na beira da cama e começou a acariciar os cabelos de Hanabi, enquanto Naruto, com mãos firmes e gentis, dava tapinhas tranquilizadores nas costas de Konohamaru, como se estivesse ninando-o; suas vozes logo entoaram canções antigas, melodias sem letra que funcionavam como trilhas para os pequenos seguirem e libertarem-se dos pesadelos.
— Shh… está tudo bem — Naruto murmura, a mesma voz que podia comandar um esquadrão agora era um bálsamo.
O despertar lento e sentido deles, foi recebido por sorrisos gentis, afagos e abraços protetores e cálidos, um carinho que prometia que tudo ficaria bem, que confortava e devolvia a segurança.
— O café da manhã vai ser especial hoje; quem quer ajudar com a bagunça? — Com um tom de brincadeira, Naruto ergue ambos em seus braços, correndo com eles para a cozinha, fazendo-os gargalhar.
A cozinha transformou-se num palco de alegria; o avental de Hinata, amarrado de forma torta no corpo de Naruto, era um estandarte de brincadeira; Konohamaru dava ordens com a autoridade de quem quer ser levado a sério, e Hanabi ria alto enquanto “pintava” rostos nos ovos com ketchup. Havia farinha no nariz de Naruto e em algum momento daquela desordem, o pequeno Sarutobi conseguiu a façanha de colocar-lhe uma panela na cabeça, como se fosse um capacete; as risadas constantes ecoavam e faziam as paredes da cabana vibrarem com uma vida que desafiava a dor de seus passados.
— Naruto-nii, cuidado! — Konohamaru grita, apontando para uma panqueca que ameaçava saltar da frigideira.
— Isso é arte culinária avançada, Kono, você não entende. — Naruto retruca, fingindo ser sério.
Assim que as palavras saíram de sua boca, a panqueca saltou “acidentalmente” para o prato mais próximo, fazendo o menino gargalhar.
— Hinata-nee, olha o que eu fiz! — Hanabi chama, exibindo um ovo amplamente decorado.
Havia tanto ketchup, provavelmente, para um desenho realista do rosto dela com a inclusão até mesmo de seus cabelos, que Hinata soube que aquele seria seu; tanto pela intenção da menina, quanto pelo fato de que nenhum dos menores conseguiria comê-lo.
— Está lindo, Nabi, parece até que o ovo está feliz de estar aqui. — Hinata disse, e a simplicidade da frase trouxe uma alegria sem igual.
Entre panelas e risos, ovos realistas e panquecas saltadoras, houve espaço para confidências, para olhares cúmplices, que diziam que estavam vencendo, uma manhã por vez, estavam protegendo seu tesouro mais valioso; ao redor da mesa, ouvindo os planos dos seus pequenos generais que já montavam um cardápio para a semana toda, a atmosfera de cuidado e dedicação também os envolvia, em cada gesto trocado, como o matcha de Hinata, que Naruto sempre fizera questão de preparar, ou como o hábito que a Hyuuga tinha de sempre servir-lhe as refeições; havia ainda o toque das mãos ao passar um prato, o cuidado em secar um copo, o jeito de ajeitar o cabelo do outro, tudo isso compunha uma coreografia de afeto que não precisava de palavras.
Ao deixarem as crianças com Yumi, o peso do dever começou a assentar-se, fazendo aquela sensação radiante e calorosa recuar para o espaço reservado às preciosidades de suas vidas, em suas mentes; no alojamento onde guardavam seus equipamentos, o contraste com aquele início de manhã era um tanto elétrico e desconcertado. Enquanto tentavam, num malabarismo impressionante, usar os armários como barreira e permaneciam de costas um para o outro no vestiário compartilhado, uma memória recente e perturbadora os deixava tensos; a situação em si, que já era trabalhosa antes, tornou-se um gatilho, quando os sons de suas vestes sendo retiradas trouxe a imagem de Tsunade dando-lhes aquela aula escabrosa. Como se a “química dos fluidos” fosse atacá-los a qualquer instante, e com suas percepções aguçadas dando-lhes a consciência de cada movimento do outro amplificado, a dupla vestiu seus trajes desesperadamente; a rigidez torturante só cedeu, quando as máscaras estavam devidamente fixadas em seus rostos, dando a liberdade para que o rubor tomasse-lhes conta das bochechas.
— Pronta? — Naruto pergunta, ainda sem virar-se.
— Pronta. — Hinata responde, pondo-se ao seu lado.
Lá fora, Konoha fervia sob o sol do meio-dia, o perfume das flores da decoração exalava e espalhava-se com o vento morno, misturando-se ao cheiro das tendinhas de comida de rua, e dos incensos cerimoniais; patrulhando cada meio metro, o corpo Shinobi, a força policial Uchiha e a Divisão intercalava-se, tanto para evitar confusão daqueles mais empolgados, como para garantir a segurança do perímetro. Quando os líderes de clãs surgiram enfileirados e formalmente trajados, houve um arfar audível e uníssono de antecipação, e então Tsunade subiu ao palanque, trajando o manto e o chapéu de Hokage com toda a dignidade que seu nome e sangue garantiam-lhe; a multidão explodiu em euforia, vivas e gritos ecoando como trovões em comemoração à Godaime. Contudo, após os primeiros momentos de celebração, a atmosfera sofreu uma fratura violenta; o ar tornou-se gélido e opressor, como se a alegria da praça tivesse sido sugada por um vácuo de letalidade.
Flanqueando a Godaime, Neko e Kitsune surgiram das sombras como espectros de morte, suas presenças massivas, carregadas de uma crueza que silenciou abruptamente as comemorações; seus passos não produziam som algum, suas posturas dignamente eretas numa precisão disciplinaria absurda, e suas armas — extensões de suas vontades — cintilando terrorificamente sob o sol escaldante. Eles não eram apenas Shinobis; eram a personificação do ideal marcial e eficaz que a nova ordem estabelecera, figuras cujas identidades haviam sido forjadas em fogo, sangue e dor; logo, seus discípulos tomaram posição um passo atrás deles, Tora e Karasu, igualmente opressores, igualmente aterrorizantes. A presença do quarteto era um aviso, uma demonstração da nova era: eles eram as sombras impiedosas que protegeriam a luz; o choque visual das máscaras inexpressivas e a aura de perigo que emanava de seus corpos estáticos paralisara a praça em um temor reverencial.
O silêncio sepulcral foi quebrado pelas vozes agudas e puras das crianças entre os moradores, que começaram a gritar: “Neko-chan!” e “Kitsune-nii!”. Elas queriam sua atenção, esticando os braços e pulando nos ombros de seus pais para ter um vislumbre melhor daqueles que as protegiam nas noites sem luar. É quando a canção começa, não como uma melodia suave e floreada, como um brado estrondoso e dilacerante, como se tivesse sido ensaiada nos corações de cada cidadão; era o rugido de um animal ferido que ainda quer lutar. A canção popular que começou a espalhar-se pelo País do Fogo pelas caravanas nas estradas, de taverna em taverna, agora ecoava por toda Konoha, um clamor rústico por justiça e socorro:
“Ouvi o brado que o vento por anos calou, Onde o medo era a sombra que o povo abraçou. Na calada da noite, a agonia era o pão, E o povo gemia, ferido, jogado ao chão. Era um tempo de trevas, de angústia sem fim, Onde a prece morria num mundo tão ruim.
Mas vede! No breu, uma chama se acendeu, Pois o clamor do aflito o céu enfim atendeu. Embora as máscaras tragam o traço sombrio, Elas trouxeram a esperança e cruzaram o rio. O medo que asfixiava, no aço se dissipou, Pois a luz da justiça na treva enfim brilhou!
Sem rastro eles chegam, sem rastro se vão, Limpando a maldade na palma da mão. Atendem ao grito de quem não tinha voz, Sendo o escudo valente no tempo mais atroz. Suas mãos de justiça na escuridão se estendem, A Raposa e o Gato que seu povo atendem!
Dorme, ó criança, tranquila no leito, Pois o fardo do mundo eles trazem no peito. Sabendo que o dia há de vir sem o medo, Pois o braço da guarda é o nosso segredo. Aceitaram ser lâmina pra sermos o trigo, Afastando de nós todo o mal e o perigo.
Cantai ao valor, à entrega e à fé, Que mantém nossa amada Konoha de pé! Kitsune e Neko, no altar e na mão, Eternos heróis… Guardiões do nosso Chão!”
O rugido da canção ainda vibrava nas pedras da praça quando o silêncio retornou, mas desta vez não era um silêncio de choque, e sim de uma expectativa elétrica, como se os habitantes quisessem vê-los reagir ao seu cântico; ainda que soubessem que eles não poderiam revelar nada. Tsunade, posicionada à frente, observava a rigidez absoluta de seus subordinados, vendo em Kitsune e Neko não apenas os seus melhores Shinobis, mas os jovens que, antes de vestir suas máscaras, tentavam equilibrar a vida doméstica com o fardo do dever; era conhecedora da disciplina de ferro que impunham-se, a imobilidade de estátuas, a respiração controlada que ocultava o turbilhão de emoções, e que talvez para alguns, pudesse ser sentida como indiferença. Com um olhar carregado de uma sabedoria que compreendia que a paz não se sustentava apenas com temor, mas com esperança, a Godaime tomou uma decisão sem precedentes; virando-se ligeiramente para os quatro guardiões flanqueando-a e, com uma voz imponente com a autoridade de uma Hokage, deu a ordem que ninguém esperava.
— Descansem! — A Senju ordena firmemente, alto o bastante para a população emudecida ouvir.
Foi um comando simples, mas que ressoou como o quebrar de uma corrente, em um movimento sincronizado, Kitsune, Neko, Tora e Karasu relaxaram a postura de combate; os ombros baixaram milímetros, e a tensão letal que emanava deles dissipou-se, dando lugar a uma presença ainda poderosa, mas subitamente humana. Ao mesmo tempo, com um aceno de Tsunade, um destacamento do corpo Shinobi avançou coordenadamente para a primeira fileira da multidão; gentilmente, mas eficiente, os ninjas recolheram as crianças mais empolgadas que gritavam na frente, e entre elas, Konohamaru e Hanabi, cujos olhos brilhavam com uma mistura de incredulidade e êxtase.
Os pequenos foram conduzidos para cima do palanque oficial, e o que se seguiu foi uma demonstração rara, uma concessão nunca feita na história de Konoha; impressionados e em estado de puro deslumbramento, os pequenos cercaram os Tenentes e seus discípulos. Konohamaru, sem hesitar, correu até Kitsune, parando a centímetros daquela figura aterrorizante, olhando para cima com uma admiração que transcendia as palavras, Hanabi aproximou-se de Neko, tocando timidamente o protetor de braço dela, como se quisesse ter certeza de que aquela figura de lenda era real; foi nesse instante, com seus coraçõezinhos aos pulos, e a inteligência e perspicácia desenvolvida pelos jogos de lógica e a proximidade dos laços que os cercavam, que ambos os pequenos fizeram a maior descoberta de suas vidas.
Aquelas presenças calorosas eram inconfundíveis, e quando seu raciocínio ressaltava que seus irmãos tiveram de deixá-los para trabalhar naquela manhã, somando ao quanto eram fortes, tudo juntou-se como o grande quebra-cabeças de mil peças; com os olhinhos arregalados, o pequeno Sarutobi chamou baixinho um “Nii-chan?” enquanto a pequena Hyuuga afirmava um “Nee-san!”. A gargalhada de Kitsune ecoou como um tambor retumbante e vívido, ao passo que a delicada Neko fazia um singelo gesto de silêncio com o indicador; o assombro da duplinha mirim foi enorme, mas a euforia foi maior, e com um orgulho renovado e alimentado, eles estufaram o peito e empertigaram aqueles ombros diminutos, acenando freneticamente em concordância.
As outras crianças cercavam os quatro, que já não mantinham a formação tão rígida, permitindo que os pequenos se aproximassem, tocando as bainhas das espadas e as máscaras com mãos trêmulas de curiosidade, alguns mais corajosos davam abraços, pediam para beijar-lhes as faces mascaradas, e seus pedidos eram prontamente atendidos; ao todo, oito crianças foram levadas ao pódio de posse, e os jovens ANBU’s, compreendendo as intenções da Godaime, ergueram os pequenos em seus braços, para a alegria deles e espanto da multidão. Com uma criança entusiasmada em cada braço, e claro, Konohamaru e Hanabi com seus irmãos, os quatro aproximaram-se do beiral do palanque; era uma demonstração da força e do futuro de Konoha, uma clara evidência de que uma existia pela outra. O choque na multidão foi visível, o povo de Konoha, que minutos antes via espectros da morte, agora testemunhava algo profundamente tocante: a fragilidade e a bondade transparecendo através das sombras. Por baixo da porcelana das máscaras, Naruto e Hinata não podiam conter os sorrisos que desabrochavam, invisíveis ao mundo, mas sentidos em cada gesto.
Era um momento de clareza absoluta para a Vila, aquela cena deixava claro que, antes de serem lâminas de aço e guardiões implacáveis, eles ainda eram jovens cheios de vida e bondade, eram seres que amavam e eram amados; a humanidade deles, exibida ali no centro do poder, servia como a maior promessa de Tsunade para a nova era: a de que as sombras de Konoha não serviam à morte, mas à vida que pulsava naqueles pequenos rostos admirados. Tsunade então deu um passo à frente e o silêncio caiu absoluto, seus olhos de mel varrendo seus quatro carrascos e os pequenos radiantes em seus braços, e depois fixaram-se na massa de rostos na praça; sua voz, amplificada e firme, carregava o peso de gerações e o comprometimento com o futuro.
— Olhem para estes pequenos. — A Senju começa, abrindo os braços, abrangendo-os a todos — Olhem para os sorrisos que, por um momento, esqueceram o medo. É por este futuro que estes jovens aqui, Kitsune, Neko, Tora, Karasu e tantos outros Shinobis valorosos, estiveram lutando nas sombras mais profundas. Eles não lutam por glória ou por nomes em pedras; eles lutam por estes sorrisos. Foram essas vozes que eles protegeram com o próprio sangue, mesmo quando a vila dormia sem saber seus nomes.
Ela fez uma pausa, os olhos cor de mel brilhando com uma determinação feroz.
— Eles aceitaram ser a lâmina para que estas crianças pudessem ser o trigo. E a partir de hoje, Konoha não será apenas a vila que eles protegem. Eu me coloco diante de vocês como sua Hokage para dizer: a partir deste dia, eu também protejo esses sorrisos. Eu também luto por esse futuro. Eles são as sombras da luz, e eu serei o sol que garante que essa sombra nunca precise recuar diante do mal. — Tsunade finaliza.
O brado que se seguiu não foi de guerra, mas de uma gratidão ensurdecedora. Tsunade olhou de soslaio para Naruto e Hinata, vendo-os, não como armas, mas como os filhos da folha que finalmente podiam respirar.
***
Após a cerimônia, o ar festivo da praça foi rapidamente substituído pela atmosfera austera do dever, os pequenos foram devolvidos aos seus pais, e Konohamaru e Hanabi retornaram à tutela cuidadosa de Yumi, que zelava por eles enquanto a dupla trabalhava; Tsunade os acompanhou até a Divisão, observando a transformação imediata: o calor acolhedor que emanaram no palanque esvaiu-se, dando lugar à imponência e eficácia de quem comanda.
Nos corredores escuros e intimidantes da Divisão, a autoridade da dupla era absoluta, por onde passavam, esquadrões e grupos prestavam-lhes continência, enquanto os seus próprios subordinados passavam a segui-los, relatando missões rápidas concluídas e recebendo novas diretrizes; Tsunade notou, perplexa, como até mesmo os membros antigos do corpo Shinobi de Konoha — que agora se reportavam e subordinavam primeiramente à ANBU — atuavam com disciplina e regramento rigorosos diante da dupla. Havia ali um respeito conquistado no campo de batalha, um reconhecimento silencioso da letalidade e maestria que ambos possuíam.
A dupla guiou a Hokage através do labirinto de pedra até uma das salas de interrogatórios mais afastadas, um lugar nefasto, carregado por uma aura pesado que evocava memórias sombrias; há algum tempo, aquele mesmo palco fora o cenário do treino rigoroso de Naruto e Hinata. Era ali que Sakumo conduzia o interrogatório de Kabuto através de técnicas de privação sensorial, e o homem que outrora fora o orgulhoso e arrogante braço direito de Orochimaru já não existia; o que restava era uma figura que em nada lembrava o Shinobi que um dia desafiara a Vila. Tsunade manteve-se às sombras, o olhar atento tanto à condição deplorável do prisioneiro quanto à postura dominante da dupla.
— Relatório de estado, Sakumo. — Kitsune ordena, sua voz agora um eco desprovido de emoção, ressoando com a mesma autoridade gélida de Ibiki Morino.
— Privação total há setenta e duas horas. Ele perdeu a noção de tempo, espaço e de si. — Sakumo prontamente relata, afastando-se cedendo-lhes o lugar.
Neko aproximou-se do prisioneiro, e seus dedos, que horas antes acariciavam os cabelos de Hanabi com doçura, agora moviam-se com uma precisão técnica assustadora enquanto verificava os pontos de pressão e a estabilidade do chakra de Kabuto.
— A mente dele está fragmentada, mas o núcleo de informações permanece protegido por um selo de autossacrifício. — A garota analisa numa calma terrorífica — Precisamos de uma abordagem sistemática.
Kitsune inclinou-se sobre Kabuto, a máscara de raposa a poucos centímetros do rosto pálido do espião; o método da dupla era uma sinfonia de agonia psicológica e física coordenada.
— Onde estão os arquivos sobre a transferência de alma, Kabuto? — O tom baixo dele era sufocante.
— No… labirinto sul… — Balbucia o prisioneiro, tentando desviar a atenção do local real.
Imediatamente Neko pressionou um Tenketsu específico no pescoço de Kabuto, enviando uma descarga de chakra que simulava a sensação de agulhas de gelo perfurando os nervos; Kabuto soltou um gemido abafado, o corpo retorcendo-se contra as correntes.
— Mentira. — Neko assegura, gélida — Seus batimentos cardíacos e o fluxo de chakra denunciam a fraude. Tente novamente.
— Esconderijo… central… País do Arroz… — Kabuto ofega, a voz trêmula pela dor residual.
Desta vez, Kitsune aplicou o castigo, liberando uma fração mínima, mas densa, da intenção assassina de Kurama — que mesmo adormecido era de uma eficácia assombrosa — fazendo com que Kabuto sentisse o peso de uma besta colossal esmagando seus pulmões.
— Resposta incompleta. — As palavras soaram como um rosnado de advertência — Quero as coordenadas exatas e a frequência do selo de entrada.
O interrogatório seguiu esse padrão rítmico de desconstrução por camadas: a cada meia verdade ou hesitação, Neko sobrecarregava as terminações nervosas, enquanto Kitsune corroía a mente de Kabuto com a pressão de sua presença opressora; em um último espasmo de vontade, o homem tentou trancar sua mente, acumulando o resto de sua energia para um intento final de resistência silenciosa. Era a natureza humana buscando um último refúgio; foi nesse momento que Kitsune riu, um som seco e desprovido de humor.
— Você se agarra a uma esperança vazia, Kabuto. Protege informações para um trono que já não tem rei. — Kitsune disse num tom letalmente suave — Orochimaru foi vencido na última batalha. O “senhor” que você espera é agora apenas um homem comum, despojado de cada gota de poder que você tanto idólatra.
Os segundos seguintes pareciam arrastar-se, cada respiração ofegante e dolorosa ocorria como se um obstáculo intransponível impedisse o ar de chegar aos pulmões, o impacto da revelação foi o golpe de misericórdia; sem o mestre divino para adorar, o selo de autossacrifício na mente de Kabuto perdeu sua proteção emocional e ruiu.
— Ele… virou humano? — O sussurro de Kabuto foi seguido por um choro histérico, enraivecido e fraco.
Totalmente rendido, ele começou a despejar as respostas finais: a localização exata do laboratório de engenharia genética e a lista dos infiltrados nas fronteiras do País do Fogo; Tsunade, observando a conclusão, viu que a dupla não havia obtido apenas dados, mas a rendição absoluta de um dos inimigos mais perigosos de Konoha.
A Senju deixou a sala de interrogatório em modo reflexivo, o som de seus passos ecoando no corredor nefasto como as batidas sonoras do relógio da morte, ressonando com a imagem perturbadora do que vira; agora entendia por que o Sandaime relatava estar tão preocupado em alguns momentos no passado. Ela mesma estava profundamente impressionada com a metamorfose daqueles dois; a mesma voz de Naruto que, uns dias antes esteve rindo e brincando naquele jantar na cabana, transformara-se num instrumento de desconstrução psicológica naquela sala, e a eficácia clínica de Hinata, que tornara seu Ninjutsu médico em uma arma de agonia sistemática, era aterradora e brilhante. Atrás dela, os dois não permitiram que o sucesso da confissão gerasse qualquer euforia; imediatamente, a dupla passou ao planejamento estratégico com base nos dados obtidos, sem demora, reuniram-se com Tenzou.
— Sakumo, mantenha o prisioneiro em estado de privação total. Ninguém entra sem nossa autorização. — O Tenente ordena, sua postura mantendo a precisão disciplinar que silenciara a praça — A mente dele deve ser mantida saudável apenas o suficiente para novas consultas, se as coordenadas do País do Arroz apresentarem inconsistências.
— O local é uma armadilha natural e o tempo corre contra nós. Que esquadrão vocês pensam em enviar para uma infiltração dessa magnitude? — Tenzou, após analisar a complexidade do laboratório principal cercado por pântanos e névoa, quebra o silêncio.
— Tora e Karasu. — Já estava decidido desde quando saíram da sala de interrogatório.
Era a escolha óbvia e técnica mais indicada; ambos já conduziam essas incursões de campo e limpeza há tempos e possuíam uma sistemática de trabalho moldada pela própria dupla, o que garantia que a missão seria executada sem margem para erros.
— Montaremos um esquadrão de elite que agirá sob as ordens diretas de Tora e Karasu — Neko explica firmemente — Eles assumirão a liderança da incursão ao País do Arroz. Tora cuidará do mapeamento e contenção, enquanto Karasu coordenará a neutralização tática e a extração de dados.
— Muito bem! Aprovarei imediatamente todo o suporte logístico e financeiro necessário para a mobilização. — Tenzou, que sempre dera à dupla plena autonomia devido à confiança absoluta em seu julgamento, apenas assente.
— Lady Tsunade, também necessitaremos de sua aprovação imediata na parte burocrática para a saída desses esquadrões de elite. — Kitsune volta-se então para a Senju.
A decisão deles de permanecer na Vila era estratégica e política, não deixariam Konoha naquele momento crítico de fragilidade e transição; era imperativo que ficassem para conduzir Tsunade em sua adaptação e familiarização com as complexas diretrizes internas da ANBU e da própria vila, garantindo que a nova ordem se assentasse sem fissuras.
— Pelo momento, manteremos Kabuto vivo. — Neko conclui — Quando a última célula infiltrada for eliminada e a limpeza completa, daremos fim a ele.
Enquanto o setor administrativo da Divisão trabalhava em ritmo febril para oficializar as petições de mobilização e o esquadrão de elite era reunido para receber os detalhes da missão no País do Arroz, Kitsune e Neko conduziram Tsunade para outra ala do complexo; gradualmente, a pressão sufocante dos corredores de interrogatório deu lugar a um ambiente mais limpo, arejado e banhado por uma luz clínica, porém suave: o setor médico da ANBU. Ali, em um leito pulcro e monitorada por aparelhos que emitiam bipes rítmicos, Kurenai repousava; ao seu lado, Asuma, que raramente se ausentava, a alimentava com uma paciência dedicada. O quadro de Kurenai era o testemunho vivo da brutalidade do Quarteto do Som, também culpados e responsáveis por ceifar as vidas de Ibiki, Kiba e do Sandaime; embora o risco de morte imediata tenha sido afastado, a situação permanecia crítica, a coluna danificada e uma gestação recém-descoberta formavam um quebra-cabeça médico de alta complexidade.
Ao ouvirem os passos pelo corredor sempre silencioso aproximando-se, o casal fitou a porta, e o rosto de Kurenai, ainda marcado por hematomas e feridas da luta, iluminou-se instantaneamente. Apesar de não haver laço sanguíneo, para Kurenai, Naruto e Hinata sempre seriam seus primeiros bebês, o fruto de um cuidado que transcendia o dever de uma mestra; eles eram, e sempre seriam, o seu maior orgulho. Quando entraram no quarto e avistaram seus olhos abertos, aproximaram-se com uma rapidez que não era ditada pela urgência do dever, e sim pelo amor puro; pela primeira vez desde o ataque e do retorno da missão de busca, viam-na acordada. Naruto ajoelhou-se prontamente ao lado da cama, retirando a máscara de raposa, revelando olhos marejados de alívio; Hinata tocou tremulamente o rosto machucado de Kurenai, como se quisesse ter certeza de que havia calor ali.
— Kurenai-sensei… — Com a voz arranhando a garganta, o Uzumaki chama-a com um carinho desbordante — Não nos assuste mais assim…
— Não vou, não se preocupem. — Kurenai promete, e mesmo fraca, afaga seus rostos preocupados com uma ternura infinita — Olhem só vocês… fiquei só uns dias sem vê-los e já cresceram tanto.
Com cuidado e lentamente, o Uzumaki e a Hyuuga abraçaram a mulher, escondendo o rosto em seus ombros, ouvindo o latejar ritmado de seu sangue a correr por suas veias, naquele instante, aquele som era a melodia mais preciosa do mundo, a melodia da vida; e apesar de cada existência ser imprescindível e única, para aqueles dois, Kurenai era única que fora sua luz, guiando-os para sair da escuridão, mostrando-lhes e ensinando-lhes a beleza do mundo e a força do amor. Após uns instantes, em que puderam tranquilizar-se, Hinata, verificou os sinais de Kurenai com gestos suaves, antes de se voltar para Tsunade.
— Lady Tsunade, estive analisando os prontuários e as lesões na base da coluna. — A Hyuuga disse, voltando sua atenção a razão de pedirem para Tsunade acompanhá-los — Li sobre uma técnica de regeneração por micro selagem de chakra em seus manuscritos. Se conseguíssemos estabilizar as vértebras usando um fluxo constante e suavizado de Iryo Ninjutsu, poderíamos evitar a paralisia sem sobrecarregar o sistema nervoso central dela? O que a senhora acha dessa alternativa?
Tsunade ergueu as sobrancelhas, genuinamente assombrada, aquela garota não tinha apenas lido os livros, ela dominava conceitos de bioregeneração avançada intuitivamente; a Senju analisou o quadro de uma ótica profissional, mas direta, dirigindo-se ao casal após fechar a pasta.
— Você tem um olhar clínico muito aguçado, Hinata. É uma proposta ousada. — Tsunade comenta, antes de olhar para Kurenai e Asuma seriamente — No entanto, há um fator complicado aqui. Kurenai, Asuma… vocês querem o bebê?
— Sim. Eu não abro mão dele por nada neste mundo. — Sem hesitar um instante, Kurenai respondeu sorrindo tanto, que parecia transbordar luz.
Ao lado dela, Asuma apenas concordava com veemência, enquanto tentava manter suas emoções controladas; suas mãos agarradas às dela, buscando forças, enquanto era apoio, demonstrando que acataria o que ela decidisse. Tsunade assentiu, voltando a analisar o quadro, ponderando cada ação e cada consequência; estava diante de uma família que ruiria de diversas formas possíveis, caso algo saísse minimamente de controle.
— Pois bem. Então, por agora, tomaremos apenas medidas preventivas e de contenção para que sua condição não se agrave. Uma cirurgia deste porte, ou qualquer intervenção radical nesta fase delicada, mataria o feto por privação de chakra e choque sistêmico. Vamos estabilizar o que for possível e esperar que o bebê ganhe força. — A Senju explica sua decisão e vê o alívio inundando quatro rostos diferentes.
Após alguns momentos, onde discutiram os detalhes dessa primeira intervenção, os três despediram-se, deixando os ex-senseis para que Kurenai pudesse descansar devidamente e com tranquilidade; seu destino dessa vez foi o centro de operações da ANBU, onde seus discípulos e os esquadrões aguardavam para ouvir suas últimas ordens antes de partir, assim como a documentação que validava a expedição, já estava pronta e aguardando pela aprovação da Godaime.
— Queremos que sejam extremamente cautelosos, todos vocês. — Naruto pousa seus olhos em cada rosto tenso presente com uma profundidade arrepiante.
— Lembrem-se, nesse momento, não basta ser cuidadoso com o alvo e o destino. — Hinata prossegue — Vocês deverão avaliar e considerar cada etapa do caminho, o mundo Shinobi pensa que Konoha está fraca, e, portanto, cada um de vocês terá um alvo nas costas.
— Vocês dois já sabem o que esperamos, não é? — Detendo seus olhos nos dois amigos, Naruto indaga.
— Sim, Tenentes! — A resposta conjunta vem imediata e óbvia.
— Então podem ir. — Hinata dá a ordem.
Ao instante eles partem, prontos e determinados a cumprir as ordens recebidas; Tsunade observara-os de princípio a fim, e em nenhum momento, vira qualquer traço de hesitação, qualquer sinal de temor em suas posturas, em nenhum daqueles jovens.
***
Nas ruas de Konoha, os habitantes ainda festejavam à sua maneira, alguns em churrascarias, outros em frente de suas casas mesmo, em rodas de amigos que falavam animadamente, faziam predições de futuro próspero; contudo, não muito distante dali, no prédio administrativo, três pessoas continuavam a trabalhar, mesmo com o sol já descendendo no horizonte. Tsunade estava exausta, aquele dia interminável fora uma série de protocolos e regramentos, uma agitação sem fim que deixara-a enervada, isso sem mencionar as pilhas de trabalho pendente que ainda tinha por ler e inteirar-se; e como se tudo isso não fosse suficiente, aqueles dois a estiveram arrastando para todos os lados a tarde inteira, sequer faziam uma pausa ou tomavam um respiro, e agora ainda queriam ter uma conversa privada.
— Pois bem, o que querem discutir? — Sentando-se pesadamente na cadeira do Hokage, Tsunade questiona.
Os dois, no entanto, não falam nada de imediato, seus olhos recaem em Shizune ali ao lado dela, e por um instante, parecem avaliá-la, como se medissem sua permanência na sala; por fim, ainda sem dizer nada, Hinata tranca a porta, e juntos, isolam o perímetro da sala.
— Gostaríamos de esclarecer a situação de Uchiha Itachi, Godaime. — Naruto inicia, e vê a Senju retesar-se.
Em outros tempos, Tsunade já teria afirmado exasperada que não havia nada a se dizer de um traidor, mas devido a tudo o que vira nos últimos dias, que aparentava uma coisa, e era o completo oposto, a mulher soube instintivamente que aquele tópico era outro segredo da Vila; Shizune ao lado dela, teve a mesma impressão, e até prendera a respiração, antevendo que teria outro choque de realidade.
— O que o mundo conhece como o Massacre do Clã Uchiha, foi, na verdade, uma operação de contenção orquestrada e comandada pelo Sandaime. — Hinata explica calmamente, abrindo em sua mesa, pergaminhos com relatórios dos arquivos secretos — Havia na época, uma conspiração insuflada e alimentada por Shimura Danzou e Uchiha Fugaku, visando a subjugação de Konoha a um novo poder, com muitos sacrifícios.
Tsunade passou os seguintes minutos, ouvindo em choque sobre a operação para conter a rebelião, a eliminação dos líderes das famílias que participariam do golpe, vendo as provas e evidências da aliança com Orochimaru e outras organizações criminosas, e as inúmeras atrocidades cometidas por Danzou e Fugaku, que no auge de sua ambição, conspiravam até mesmo concordando em entregar seus dois filhos, e o Jinchuuriki da Kyuubi como moeda para financiar sua ascensão; a revelação de que Itachi, Mikoto e Izumi camuflaram a operação como um massacre, para que pudessem infiltrar-se na Akatsuki e em Suna, elas com novas identidades, ele como um criminoso, e assim espionar em nome de Konoha, deixou as duas mulheres perplexas e atemorizadas.
— Por isso, para todos os efeitos, Mikoto e Izumi estão mortas e Itachi é um criminoso Rank S. — Naruto conclui — Eles nos mantiveram informados dos passos da Akatsuki e dos planos do Yondaime Kazekage durante esses anos, agora elas são parte do conselho de Suna, e garantem a segurança do Jinchuuriki do Shukaku, mantém nossa conexão segura com eles, além de proteger e antecipar qualquer conspiração contra Kankuro.
— Itachi-sensei retornou a Ame e continua monitorando e informando sobre os movimentos da organização. — Hinata conta e após um longo suspiro, prossegue — Isso nos leva ao seguinte passo, o que faremos para enfrentar a Akatsuki.
— Sabendo que eles visam capturar os Jinchuuriki’s das Bestas, e utilizar esse poder contra o mundo, formulamos um plano de ação. — Naruto agora abre outro arquivo, desta vez, com outras informações.
Tsunade coloca-se em pé num rompante, quando lê o arquivo, seus olhos arregalados fitando um, logo o outro, buscando algum sinal de que aquilo não fosse sério, mas a dupla manteve a postura séria e decidida.
— Vocês têm certeza? Sabem tão bem quanto eu que é quase impossível, não é? — A Senju pede, olhando as fotografias nos arquivos.
— Sabemos que será complicado, mas se isso falhar, ainda há a outra parte do plano. — Naruto mostra o mapa a ela, tocando um ponto específico — Tenho certeza de que o que há aqui, é a chave.
— Por que sinto que não estão pedindo permissão? — Tsunade os fita, agora com certeza.
— Porque não estamos, já temos a aprovação nos documentos oficiais, apenas queríamos compartilhar a informação! — Hinata explica, e até sorri contente, a Godaime era muito mais fácil de trabalhar, do que sua primeira impressão dissera.
— Bem, e quando será? — Com uma indignação divertida, a Hokage questiona, voltando a ler os arquivos.
— Calculamos para um ano, pode ser antes, se a Vila estiver segura. — O Uzumaki revela, e seus olhos brilhantes denunciam a expectativa — Teremos primeiro que estabelecer o local, e então, uma conexão, para podermos manter nossas funções e o contato.
— E o que farão com…? — Tsunade interrompe a pergunta, a resposta era óbvia — Sério, vocês são uns moleques metidos e audaciosos, pelos Deuses!
— Veja pelo lado bom, vovó, nesse tempo, não vou mais poder ganhar todas as partidas de Shogi. — Rindo pela primeira vez na tarde, Naruto provoca.
Tsunade soltou um riso anasalado, uma mistura de exaustão e rendição diante da petulância de Naruto, enquanto Shizune voltava finalmente a respirar após o turbilhão de revelações sobre o clã Uchiha; a tensão que antes tornava o ar gélido e opressor dissipou-se, dando lugar a uma leveza quase familiar.
— Vá embora, moleque audacioso, antes que eu me arrependa de não ter ficado em Tanzaku. — A Godaime murmurou com uma indignação divertida.
— Veja se usa esse tempo para treinar suas jogadas e não perder mais, vovó. — Naruto provoca uma última vez, enquanto se preparava para sair.
De volta ao complexo da Divisão, a imponência de Kitsune e Neko retornou apenas o suficiente para a organização final do dia, revisando as escalas de vigília, conferindo os relatórios das equipes de campo e garantindo que as patrulhas noturnas estivessem devidamente posicionadas para garantir a segurança; somente quando o último selo foi aplicado aos documentos, dirigiram-se ao vestiário compartilhado, envoltos por aquela redoma de constrangimento constante e por um cansaço compartilhado e satisfeito. As máscaras e os uniformes escuros foram guardados, dando lugar às roupas civis e à identidade de dois jovens que apenas desejavam o calor de casa; a caminhada até o clã Nara foi breve, e Yumi os aguardava com Konohamaru e Hanabi em um estado de agitação que denunciava uma longa noite de jogos até o sono chegar.
— Muito obrigado por tudo, Yumi-san, você nos salvou hoje. — Naruto agradece com um sorriso sincero, sentindo o peso do dia finalmente esvair-se.
O grupo seguiu pelas ruas de Konoha, que ainda vibravam com o eco das comemorações, havia barracas de espetinhos em pleno funcionamento, as lanternas estavam brilhando como estrelas, e os habitantes festejando euforicamente na praça; aquela vibração, aquele contentamento relaxado, contrastava absurdamente com a atmosfera melancólica de dias atrás.
— Naruto-nii, você viu como a praça estava cheia? — Konohamaru saltitava a sua frente, entusiasmando — E a música? Todo mundo cantando… foi a coisa mais legal do mundo!
Hanabi ria, concordando animadamente enquanto acompanhava o passo; apesar de que, seu saltitar parecer mais com um jogo de pular amarelinha, do que com um caminhar.
— Tinha comida gostosa para todo lado, só não era mais gostosa que a sua comida, nee-san. — A menina afirma animada.
Com um olhar rápido, a Hyuuga e o Uzumaki percebem como os menores estão voltando à sua alegria natural, voltando a brincar e sorrir sem espreitar preocupados para todos os lados; contudo, ao avistarem os portões do clã Hyuuga, Hanabi estacou, o velho temor das sombras daquela casa pareceu envolver seus ombros pequenos, e percebendo a mudança abrupta, Hinata ajoelhou-se à altura da irmã e segurou suas mãos pequenas.
— Olhe para mim, Nabi. — Sua voz sai suave — Prometo que nada nem ninguém vai te machucar aqui. Você está comigo, lembra?
— Só vamos ver os bebês e dar um oi para o Neji e seu tio. Depois, vamos direto para a nossa cabana e eu prometo fazer um jantar bem divertido, está bem? — Naruto promete, conseguindo fazer Hanabi relaxar.
Após passarem pelos portões, dirigiram-se para um local diferente ao que estava gravado nas memórias que Hanabi forçava ao esquecimento, foram recebidos por Neji na entrada da casa, segurando um dos bebês com uma reverência quase sagrada, os olhos claros refletindo um cansaço que ia além do físico.
— Que bom que vieram. — Neji sauda em um sussurro, abrindo espaço para entrarem — Papai está esperando.
— Como você está segurando as pontas, nii-san? — Hinata pergunta, sua voz carregada de uma empatia suave enquanto pousava a mão no braço dele — Soube que você quase não tem saído de perto deles.
— É o meu dever, e o meu único desejo agora. — Neji responde, olhando para o pequeno vulto em seus braços — Eles são a prova de que ela existiu, de que o amor dela não foi em vão. Às vezes, fico apenas ouvindo a respiração deles… é o único som que faz sentido.
Hizashi surgiu do corredor, esperando para recebê-los com a máxima hospitalidade que conseguiria naquele momento, os passos silenciosos e cautelosos de quem estava habituando-se a cautela de sua nova rotina familiar, seu olhar iluminando-se ao ver as sobrinhas e o jovem Uzumaki, e até mesmo, com certo carinho pelo pequeno Sarutobi, que o adotara naturalmente como tio.
— Hina, Naruto… obrigado por virem. — Hizashi abraçando-os para saudá-los, mas também por que precisava do calor. — Como estão? E vocês pequenos?
— Melhorando, tio, um passo por vez. — Hinata responde suavemente.
Era verdade, a cada manhã, tinham de renovar suas forças, lembrar as razões para seu esforço, e focar nas partes boas, deixando a dor esvair em choros silenciosos e abrindo espaço para a saudade.
— Viemos oferecer apoio e conferir como essas pequenas vidas estão florescendo. — Naruto diz, sua voz perdendo o tom expansivo habitual e tornando-se profunda e respeitosa.
Hizashi esboçou um meio sorriso, e conduzindo-os até o quarto onde o segundo bebê repousava, o ar ali cheirava a lavanda e incenso suave, e tinha uma atmosfera reconfortante e simples, uma leveza característica que somente novas vidas traziam; Hinata aproximou-se do berço, realizando um exame rápido com seu Ninjutsu médico, o brilho azulado de seu chakra envolvendo os recém-nascidos como um cobertor de luz.
— O fluxo de chakra deles é estável e as batidas do coração estão rítmicas e fortes. — Hinata constata, com um sorriso de alívio — Eles estão se desenvolvendo perfeitamente, tio. A tia Natsume ficaria orgulhosa.
Com uma mão sobre o peito, Hizashi permitiu que um suspiro de alívio, e de dor também, escapasse de seus lábios; quando os abriu novamente, viu algo que ia além de uma simples visita reconfortante e solidária, viu um fascínio encantado.
— Quer segurá-la, Naruto? — Hizashi pergunta, notando o brilho em seu olhar, enquanto fitava a pequena menina.
Naruto acomodou um pouco hesitante a pequena Natsu em seus braços com uma delicadeza absoluta, enquanto Hinata segurava o menino, Natsuki, estavam temerosos e nervosos, as mesmas mãos que durante a tarde conduziram um interrogatório, agora sustentavam criaturas frágeis e preciosas; era a primeira vez que os viam e podiam segurar, sem a tensão das lutas, sem o peso do luto, e o calor agradável daqueles corpinhos, o cheiro de leite e pureza, fez seus corações baterem ao ritmo das asas de um beija-flor. Foi nesse momento de contemplação que os pequenos, que até então observavam tudo com uma quietude rara, se aproximaram.
— Olha, Naruto-nii! Ela tem cheiro de biscoito de baunilha! — Konohamaru comenta, aproximando o nariz da cabecinha de Natsu com os olhos brilhando.
— O meu cheira a doce de leite, olha só! — Hanabi retruca, encantada com o pequeno Natsuki nos braços da irmã.
Hizashi observou a cena com um brilho terno no olhar, uma contemplação serena de um vislumbre futuro; talvez as coisas mudassem no mundo e sabia que era cedo para pensar nisso, contudo, não duvidava do que seus olhos viam, aquele tipo de amor, era eterno e se multiplicava.
— Vocês dois realmente levam jeito para cuidar de bebês. Parecem muito naturais nisso. — O Hyuuga mais velho comenta.
Isso bastou para disparar o alarme do radar infantil, movido por uma curiosidade infinita, inocência e nenhum senso ou trava na língua; Konohamaru e Hanabi trocaram um olhar cúmplice e imediatamente dispararam as perguntas mais inesperadas e até o momento, sem sentido.
— Já que vocês vivem juntos na cabana, isso significa que são casados, não é? — O pequeno Sarutobi pergunta a Naruto.
— Não é um casamento, mas sim, é uma relação. — Com calma, Naruto responde, sorrindo suavemente quando uma recordação antiga passa por sua mente.
— Então… vocês vão se casar? — Confusa, Hanabi pergunta.
— Um dia, no futuro. — Com as bochechas coradas, Hinata afirma.
Não estavam entendendo o rumo daquela conversa, mas tentavam responder e explicar tudo honestamente.
— Mas eu não entendo, por que não é um casamento? Pessoas que vivem juntas são casadas. — Konohamaru, no entanto, não estava satisfeito com aquilo.
— Bem, de certa forma, é um casamento. Só não teve nenhuma cerimônia oficial. — Tentando ajudar, Hizashi explica sem saber do perigo — Então, sim, Konohamaru, podemos dizer que estão casados.
— Então, nesse caso, quando é que o bebê de vocês vai chegar? — Alegríssima, Hanabi indaga, os olhos brilhando de expectativa.
Nesse instante, o rumo da conversa fica claro, a intenção das perguntas também, e Naruto sente os cabelos da nuca se arrepiarem e seu sangue gela, enquanto o rosto de Hinata atingia um tom escarlate profundo; Neji, ao lado, bufou uma nota de puro ciúme protetor.
— Não é assim que funciona, Nabi, leva muito tempo para casais terem bebês. — Buscando sua calma, Hinata esclarece, ainda que sua voz parecesse um chiado.
— Não leva não! — Hanabi rapidamente retruca, revelando o gênio imperioso que herdara da irmã — Nas histórias de contos, quando o príncipe e a princesa se casam, eles dão um beijo, e logo depois o bebê nasce. Vocês beijam, então logo um bebê vai nascer!
Petrificados e desarmados pela lógica e a exposição infantil, a dupla não consegue processar seus pensamentos coerentemente, nem formula uma explicação às afirmações da menina.
— Verdade, Nabi, será que já tem um bebê na barriga da nee-san? — De repente, Konohamaru solta, e ao instante, estão ambos fitando a cintura de Hinata.
Nesse momento, Hizashi ainda estava em estado catatônico, Neji continuava resmungando ameaças em lugar de focar e ajudar a resolver aquele impasse, é que a mente de Naruto volta a funcionar; o Uzumaki ouve os dois menores, para o seu desespero, já conversando com a barriga de Hinata, como se houvesse um bebê ali, e o chiado agudo da vergonha dela é o que o traz a realidade.
— Es-esperem, escutem… — Naruto os chama afobado — Não é assim que acontece, pensem bem, se fosse por um beijo, todo mundo teria bebês a todo momento! Não se preocupem, não é assim.
Sua lógica atraia a atenção dos pequenos, que concordam e aceitam muito bem os fatos, e os quatro mais velhos suspiram aliviados ao notarem, embora, a curiosidade infantil fosse algo imprevisível e avassaladora que eles logo descobririam.
— Mas, como os bebês surgem? — A pequena questiona com uma seriedade absoluta.
Em pânico, Naruto fita Hinata com seus grandes olhos de lua agora a ponto de saltar das órbitas, logo ele fita Hizashi, buscando auxilio, mas o homem sequer se recuperara do golpe anterior; Neji então, era uma torrente cacofônica interminável.
— Bem, Nabi… é que… os bebês vêm de uma semente de flores mágicas! — Hinata dispara, as mãos tremendo levemente enquanto ninava Natsuki.
— Isso! Exatamente! — Naruto pega o gancho, a voz subindo uma oitava — São sementes de flores raras que crescem no topo das montanhas mais altas de Konoha. E elas são entregues por um passarinho especial, um pássaro de penas de cristal que só voa quando o céu está bem limpo!
Os dois menores não pareceram satisfeitos, aquela informação entrava em conflito direto com a revelação anterior, e em suas cabecinhas, não fazia sentido que em um casamento, não tivesse nenhum bebê; contribuía também para a insistência deles, o fato de estarem deslumbrados com as novas vidas.
— E quando é que esse passarinho vai trazer a semente do bebê de vocês? — Konohamaru interroga numa postura exigente.
Os dois Hyuuga’s na sala já até esqueceram-se como se respirava, as bocas abertas numa expressão aparvalhada, seus rostos numa palidez incomum em vivos; num malabarismo mental impressionante, Naruto fazia seu cérebro altamente treinado buscar uma alternativa, precisavam de algo que desviasse a atenção dos dois e deixasse o assunto morrer.
— O passarinho só entrega a semente quando terminarmos de contar exatamente 3.652 dias! — Naruto declara com uma convicção teatral.
Apesar de perceberem ser um número imenso, Konohamaru e Hanabi não conseguiram quantificar a exatidão daquela cifra, e o fato de que a contagem significava que o tal passarinho viria, teve o efeito esperado: eles pararam de insistir e focaram na perspectiva do evento.
— Três mil, seiscentos e cinquenta e dois… — Hanabi repete, saboreando os números — Tudo bem! Vamos começar a contar, Kono!
— Isso! — O pequeno Sarutobi concorda, já fazendo planos — Vamos marcar os dias! E aí, quando o pássaro chegar, nós vamos ser os primeiros a ver a semente!
Hinata e Naruto finalmente soltaram o ar, aliviados e ainda trêmulos pelo bombardeio inesperado; a paz, enfim, parecia assentar-se sobre todos eles enquanto os pequenos se perdiam em planos para a longa contagem, sob o olhar divertido de Hizashi e a carranca de Neji que, embora ainda enciumado, não pôde deixar de sorrir com o absurdo da situação. A despedida do clã Hyuuga foi marcada por promessas de visitas frequentes e um silêncio reconfortante que finalmente parecia ter encontrado um lugar naquela casa; no entanto, assim que cruzaram os portões e iniciaram a caminhada sob o manto estrelado em direção à floresta, o peso do dia — e da conversa — começou a cobrar seu preço.
— Sinto como se tivesse acabado de lutar contra dez esquadrões da ANBU de uma vez. — Naruto confessa em um suspiro longo, passando a mão pela nuca enquanto observava a duplinha saltitante caminhar um pouco mais devagar à frente deles — Educar uma criança é muito mais perigoso do que eu imaginava, Hina.
Hinata riu levemente nervosa, ainda sentindo as bochechas quentes toda vez que a palavra “bebê” ecoava em sua mente.
— Eu estava pensando o mesmo… — A Hyuuga murmura, desviando o olhar para as copas das árvores — Em quantas saias justas será que metemos a Kurenai-sensei quando éramos pequenos? Lembro de fazermos perguntas tão… diretas.
— Nem me diga. — Naruto ri, balançando a cabeça — Coitada da Kurenai. A gente achava que sabia de tudo, e ela devia estar suando frio tentando inventar histórias de passarinhos e sementes mágicas para nós também. Agora entendo por que ela às vezes nos olhava com aquela cara de “socorro”.
Os pequenos, embora visivelmente exaustos, mantinham um murmúrio constante, como se estivessem conferindo cálculos mentais, em alguns pontos da caminhada eles agitavam-se absurdamente, gargalhando de algum plano mirabolante, em outros, o cansaço falava mais alto e os dois emudeciam; Hanabi, ocasionalmente tropeçava nos próprios pés, e Konohamaru já dava passos com os braços pendendo ao lado do corpo, como se os arrastasse. Entretanto, assim que a silhueta da cabana surgiu entre os troncos antigos, uma onda de adrenalina purificadora atingiu as crianças, seus rostos sonolentos iluminando-se, e um pico de energia repentina atingira-os; ao entrarem na casa, um frenesi atrapalhado e nervoso tomou conta, Konohamaru e Hanabi correram em direção ao grande calendário pendurado na parede da cozinha, quase atropelando as cadeiras no caminho.
— Onde está o giz? Onde está o giz?! — Konohamaru pede, tateando a prateleira com urgência.
Ao encontrar o pequeno pedaço de giz vermelho, ele fez uma marcação firme e vibrante sobre o quadrado do dia que se encerrava; Hanabi estava logo ao lado, os olhos brilhando com uma determinação que faria qualquer Jounin recuar.
— Menos um! — Os dois gritam em uníssono, chocando as mãos em um “high-five” sonoro que ecoou por toda a cabana.
— Faltam só três mil, seiscentos e cinquenta e um! — Hanabi anuncia com um sorriso vitorioso, olhando para o calendário como se estivesse encarando um inimigo a ser derrotado dia após dia.
Naruto e Hinata, parados no umbral da porta, trocaram um olhar de puro pânico silencioso; o Uzumaki engoliu em seco, percebendo que a mentira improvisada no desespero não seria varrida pelo tempo tão cedo.
— Eles não vão esquecer, não é? — Naruto sussurra, vendo os pequenos já discutindo quem riscaria o calendário na manhã seguinte.
— Eles são Hyuuga e Sarutobi, Naruto… — Hinata responde, cobrindo o rosto com as mãos, metade rindo, metade desesperada — Eles têm uma memória impecável e uma teimosia hereditária. Acho que vamos ter que aguentar essa história do passarinho por um longo tempo.
O pânico desesperado de constatar a possível constância daquela contagem regressiva logo dá lugar à coreografia bem ensaiada da vida a quatro, como se um selo de proteção fosse ativado, o ritmo da casa muda para o modo noturno, onde cada gesto é um fio de carinho tecido na rotina da pequena cabana de madeira, que agora cheira a resina de pinho e ao chá de jasmim que Hinata preparara; a Hyuuga conduz os pequenos para o banho, um rito de algazarra abafada onde o som da água batendo no fundo da banheira se mistura aos murmúrios sonolentos. Na cozinha, Naruto veste um avental, deixando de lado o peso das armas para assumir o preparo do jantar; o som rítmico da faca contra a tábua de madeira é a única música do ambiente enquanto ele pica os vegetais com precisão, focado em nutrir as crianças. Quando os pequenos retornam, estão envoltos em pijamas de algodão, com os cabelos ainda úmidos e o rosto corado pelo calor da água; o jantar é servido sob a luz suave de um lampião a óleo que faz as sombras dançarem nas paredes de toras.
— Naruto-nii… — Konohamaru murmura, a voz arrastada enquanto sua colher flutua incerta sobre a tigela — O passarinho… ele voa no escuro também ou ele dorme no topo da montanha?
O garoto pisca lentamente, lutando contra o peso das pálpebras, enquanto Naruto responde com um sorriso contido que o pássaro só voa se o jantar for terminado; ao lado, Hanabi apoia o rosto na mão pequena, os olhos idênticos aos da irmã fixos em um ponto invisível na mesa.
— Três mil dias é muito tempo, nee-san... — A menina reclama, a voz sumindo em um bocejo — Acho que vou precisar de um travesseiro novo até lá.
Hinata toca gentilmente o topo da cabeça da irmã, maravilhada com a facilidade com que as crianças transitam entre a insistência de suas mentes fantasiosamente férteis e a inocência pura do sono; o momento de colocá-los para dormir é um rito sagrado, Naruto os carrega, sentindo o peso relaxado e confiante de seus corpos pequenos, acomoda-os sob as mantas leves com uma delicadeza que contrasta com as cicatrizes em suas mãos. Sentado na poltrona entre as camas, ele narra a fábula do Grande Sábio e da semente da paz; embora, sequer tocasse as páginas, conhecia a história de cor.
— “E então, o Grande Sábio dos Seis Caminhos plantou a primeira semente de paz sob o luar…” — Naruto sussurra, sua voz baixando para um tom doce e rítmico.
Calmamente, observara o exato momento em que a respiração de Hanabi torna-se profunda e o braço de Konohamaru relaxa; então, permanece ali por alguns minutos em silêncio, apenas guardando o sono deles, sentindo a responsabilidade daquela guarda como um amparo para sua própria alma. Enquanto isso, no banheiro, Hinata finalmente permite que a armadura emocional caia, a água quente desliza por suas costas, relaxando os músculos que estiveram tensos desde a cerimônia de posse; era seu momento de sossego absoluto antes de enfrentar o doce martírio da convivência próxima, e mesmo que seu caminhar fosse despassado naquele sentido, as emoções e perturbações que sentia eram realmente desestabilizantes. Logo é a vez de Naruto, e o encontro no corredor estreito faz o ar parecer eletrificado, o calor da noite abafada parece prender e intensificar o aroma de sabonete floral e pele limpa que emana de Hinata, um estímulo olfativo muito potente e desconcertante; o perfume invade os sentidos do Uzumaki de uma forma avassaladora, e seus batimentos cardíacos descontrolam-se instantaneamente.
— Sua vez, Naruto… — Hinata murmura, as bochechas atingindo um tom escarlate que a penumbra não esconde.
— Obrigado, Hina. Eu… eu não demoro. — Sua resposta chega com uma voz falha em um chiado nervoso enquanto evita o olhar dela, entrando no banheiro com o coração martelando contra as costelas.
Minutos depois, eles se reencontram na varanda, o céu é um oceano de escuridão salpicado pelas estrelas daquela imensidão; sentados lado a lado nas cadeiras da varanda, com xícaras de chá fumegando em mãos e respirações sincronizadas.
— Você viu a cara do tio Hizashi? — Hinata rompe o silêncio com uma risadinha cristalina — Achei que os olhos dele fossem saltar.
— E o Neji? — Naruto ri baixo, um som rouco e relaxado — Ele parecia calcular quantos Tenketsus fecharia em mim antes que eu terminasse a história da semente.
Trocando confidências sobre o futuro dos pequenos, discutindo seu dia extenuante, os dois permanecem bons minutos entre conversas sussurradas para não acordar as crianças, até que o silêncio cai sobre eles, denso e carregado de um sentimento que a timidez já não consegue conter; Naruto pousa sua caneca e, vencendo o hesitar de seus dedos, envolve a mão de Hinata, puxando-a para mais perto.
— Sabe… — Naruto fala numa profundidade séria — No meio de toda essa confusão com conselhos e missões, estar aqui com você, cuidando deles… é o único momento em que sinto que tudo faz sentido.
— Sinto o mesmo, Naruto. É o nosso porto seguro. — Hinata, apreciando o calor da mão dele e, abandonando a reserva anterior, reclina a cabeça em seu ombro, entrelaçando seus dedos nos dele com firmeza.
O frio da madrugada finalmente os empurra para dentro, e após fechar seguramente a porta, e verificarem os pequenos uma última vez, eles finalmente seguem para o próprio leito; no aconchego da cama, sob as camadas de mantas tecidas a mão, o mundo exterior desaparece. Hinata murmura um boa noite, aninhando-se nos braços dele, buscando o calor seguro que só ele proporciona; Naruto a aperta gentilmente contra si, beijando o topo de sua cabeça e sentindo o coração finalmente encontrar o ritmo da paz antes que o primeiro brilho do amanhecer os convoque novamente para o dever.
***
O outono se instalava sobre Konoha com uma elegância melancólica, tingindo a clareira ao redor da cabana com tons de âmbar, ocre e carmesim, o ar, agora mais frio e carregado com o aroma de folhas secas e terra úmida, trazia a promessa de uma estação de recolhimento; entretanto, naquele primeiro domingo de reuniões desde o ataque, a atmosfera era de renascimento. A grama alta, levemente crestada pelo sereno da manhã, servia de tapete para o grande grupo que acomodava-se naturalmente entre as árvores e a varanda; Kurenai, o centro das atenções, estava acomodada em uma cadeira de rodas adaptada. Embora a imobilidade das pernas fosse um lembrete silencioso da batalha, sua face irradiava uma plenitude radiante; o ventre, agora visivelmente proeminente sob as mantas de lã, era o símbolo da vitória da vida sobre a destruição.
Ao redor dela, a clareira pulsava, Tsunade e Shizune conversavam em tons baixos com Jiraya, que gesticulava expansivamente, enquanto Kakashi e Gai dividiam um tronco caído com Sakumo e Anko; o casal exalava uma cumplicidade serena que não passava despercebida. Próximo a eles, Sakura observava atentamente enquanto Hinata explicava algo sobre a circulação de chakra, a Haruno segurando um caderno de anotações com a reverência de quem guarda um tesouro; Hizashi mantinha os gêmeos no colo, as crianças de quatro meses agora mais robustas, cujos olhos curiosos seguiam o movimento de Lee e Tenten, que ajudavam Chouji a organizar as grandes cestas de comida. Ino e Shino decoravam as mesas improvisadas com flores de outono, enquanto Asuma, sempre por perto de Kurenai, trocava palavras de gratidão com Ebsu e Madoka.
Por um breve momento, o silêncio pairou quando os olhares se cruzaram sobre os lugares vazios que Hiruzen, Ibiki e Natsume deveriam ocupar, a melancolia era uma névoa fina, que logo foi dissipada pela risada de Shikaku, que ao lado de Yumi, iniciou uma rodada de brindes; honrar os mortos, ali, significava celebrar a sobrevivência dos que ficaram. O almoço seguiu animado, uma sinfonia de talheres e risadas., Naruto e Hinata, sentados entre Shikamaru e Sai, discutiam em tons baixos e sérios sobre os novos protocolos de patrulha da Divisão, alheios ao movimento ao redor; a dinâmica de mestres e discípulos era evidente até na forma como Sai anotava as observações de Naruto. Subitamente, como se tivessem sido atingidos por um raio de urgência, Konohamaru e Hanabi saltaram de seus lugares na mesa; as cadeiras arrastaram-se com ruído e os dois correram em direção à cabana, os rostos iluminados por uma agitação febril.
— Rápido, Nabi! Quase esquecemos! — Konohamaru exclamava, atropelando os próprios pés.
— Já estamos atrasados, Kono! — A menina retrucava, desaparecendo para dentro da casa.
Ino, observando a cena com uma sobrancelha erguida, esperou que eles retornassem ofegantes, segurando um pequeno pedaço de giz vermelho que Naruto deixara na prateleira.
— O que é toda essa pressa, pequenos? — Ino pergunta com um sorriso divertido, atraindo a atenção de todos na clareira — Que tipo de missão ultrassecreta vocês têm lá dentro?
Os dois ainda estavam imersos na conversa com Shikamaru quando o desastre aconteceu; Konohamaru estufou o peito, exibindo um sorriso de orgulho sem igual.
— É a nossa contagem! — Konohamaru anuncia com uma felicidade radiante.
— É para o bebê da nee-san e do Naruto-nii nascer! — Hanabi completa com uma naturalidade avassaladora.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo som metálico de um talher caindo, a ambiguidade das palavras infantis atingiu o grupo como um golpe físico; Neji e Hizashi, que conheciam a ridícula história do “passarinho de cristal”, ficaram paralisados pelo constrangimento, as faces avermelhadas enquanto buscavam um buraco para se esconder, incapazes de intervir diante do choque geral.
— Um bebê?! — Kurenai pergunta, impactada, as mãos espalmadas sobre o próprio ventre enquanto olhava para os seus ex-alunos com os olhos arregalados — Hinata… Naruto… isso é verdade?
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Sim, Kurenai-sensei! — Hanabi confirma com vigor, saltitando — O Naruto-nii e a Hinata-nee disseram que ele já está vindo! Estamos marcando os dias no giz!
— Naruto é muito cedo para você seguir os meus passos dessa maneira tão… direta! Eu pretendia te dar “aquele” livro só daqui a alguns anos! — Jiraya, batendo a mão na mesa, levantou-se indignado, apontando para Naruto.
— Silêncio! — Tsunade vocifera, a voz fazendo os pássaros voarem das árvores próximas, encarando o casal com um olhar que misturava descrença e fúria pedagógica. — Naruto! Hinata! Dei a vocês aulas sobre anatomia e prevenção! Será que nenhum dos dois prestou atenção em uma palavra sequer do que eu ensinei?!
Eles, entretanto, pareciam estátuas de cera em choque térmico, o Uzumaki sentiu o mundo girar, a boca aberta sem que som algum saísse, enquanto Hinata atingiu um tom de púrpura tão intenso que parecia prestes a desmaiar; o pânico era tanto que o casal apenas trocava olhares de terror puro, sendo bombardeado pelas exclamações abismadas de Lee sobre “os frutos da juventude” e de Chouji já sugerindo nomes relacionados a comida. Neji, ao lado de um Hizashi igualmente constrangido, cobriu o rosto com a mão, murmurando algo sobre como a mentira do passarinho havia se tornado um monstro incontrolável; enquanto Konohamaru e Hanabi observavam tudo com orgulho, sem entender por que a notícia da “semente mágica” causara tamanha revolução entre os adultos de Konoha. Kakashi, que até então mantinha sua postura blasé, sentiu o livro Icha Icha escorregar de seus dedos; tentou ajeitar a máscara, mas sua mão tremia visivelmente.
— Alguém… — O Hatake gagueja, uma nota de pânico genuíno atravessando sua voz habitualmente calma — Alguém examine a Hinata! Agora! Precisamos de um diagnóstico imediato… um relatório completo… como isso foi acontecer?
Asuma levantou-se logo em seguida, a expressão endurecida por uma urgência protetora que beirava o militarismo; seus olhos fitando Naruto com uma indignação acusatória.
— Kakashi tem razão! — O Sarutobi reforça, olhando para os dois jovens como se esperasse que um bebê surgisse do nada ali mesmo — A saúde dela é prioridade máxima!
O pandemônio explodiu de forma incontrolável. Sakura e Ino levantaram-se de um salto, disparando perguntas perplexas sobre sintomas, meses de gestação e por que Hinata não havia dito nada durante os treinos; no meio da gritaria, Shikamaru, Sai e Sakumo já estavam com as cabeças juntas, ignorando o drama social para focar na logística da ANBU.
— Se a Tenente for para a licença médica, o setor norte fica vulnerável. — Shikamaru murmurava nervosamente, já sacando um pergaminho para rascunhar — Sai, você assume as vigílias dobradas a partir de amanhã. Sakumo, reorganize a escala de patrulha da Divisão imediatamente! A ausência dela será um desfalque crítico.
Do outro lado da clareira, Gui chorava desconsolado, soluçando dramaticamente sobre como “a chama da juventude havia se tornado uma fogueira de responsabilidade prematura”, enquanto tentava abraçar um Lee que também chorava de emoção; Anko, por sua vez, gargalhava tanto que chegava a perder o fôlego, batendo na mesa com força.
— Ah, isso é maravilhoso! — Sua voz retumbava com um brilho sádico nos olhos — Mal posso esperar para ver esse moleque trocando fraldas entre um interrogatório e outro! Ele vai estar um trapo em uma semana!
— Escutem! — Nesse instante, Naruto recuperou sua voz, que saiu potente, carregada de uma autoridade desesperadamente envergonhada, cortando a cacofonia como uma lâmina — Parem com isso!
O silêncio retornou, cauteloso e pesado, Naruto engoliu em seco, sua voz agora saindo quebrada e visivelmente envergonhada enquanto evitava o olhar de todos, especialmente o de Tsunade.
— O passarinho… o passarinho de penas de cristal só vem daqui a três mil, quinhentos e noventa e um dias. — Ele explica, as mãos tremendo levemente enquanto Hinata ao seu lado parecia querer se fundir à cadeira — E ele só entrega a semente das flores mágicas se a gente contar cada dia, um por um! Só depois disso a semente vira um bebê!
A explicação fantasiosa pairou no ar por alguns segundos, flutuando entre a seriedade da ANBU e o absurdo do conto de fadas, a voz envergonhada do Uzumaki e a história infantil finalmente fizeram os adultos compreenderem: era apenas o escudo lúdico que o casal criara para conter a curiosidade avassaladora dos dois pequenos; o alívio inicial transformou-se em um banquete de sarcasmo. Asuma, geralmente o mais contido, não conseguiu evitar a oportunidade, tragando seu cigarro apagado enquanto soltava uma risada rouca que fazia seus ombros balançarem.
— Três mil e quinhentos dias, Naruto? — Asuma provoca, cruzando os braços com um sorriso de canto — Se você demorar esse tempo todo para bolar cada estratégia na Divisão, a vila cai antes da semente brotar. Espero que, como Tenente, você seja mais ágil, na prática, do que é com esse pássaro místico.
Kakashi, recuperado do choque e agora com seu único olho visível brilhando em uma diversão perversa, inclinou a cabeça para o lado.
— Realmente… — O Jounin gagueja teatralmente, imitando o próprio pânico anterior — Eu quase convoquei o Conselho para discutir a sucessão do clã. Mas que estimativa conservadora, Naruto. Talvez você precise de todo esse tempo apenas para terminar de ler o manual de instruções que o Jiraya-sama quer te dar.
No entanto, o verdadeiro desastre ainda estava por vir, Konohamaru e Hanabi, que observavam as risadas sem entender a piada, voltaram para o centro da clareira com os rostos franzidos em uma concentração profunda; uma nova dúvida, mais sombria e técnica, havia surgido naquelas mentes inquisidoras.
— Mas Naruto-nii… — Konohamaru interrompe, e o silêncio volta a cair sobre o grupo como uma guilhotina — Se o passarinho traz a semente, como é que o bebê aparece na barriga da nee-san? E por onde é que ele sai para a gente brincar?
O grupo de adultos, em vez de oferecer uma saída honrosa, inclinou-se para frente em sincronia, Jiraya e Tsunade trocaram um olhar de pura maldade, enquanto Anko mordia um dango para esconder o riso.
— É, Naruto… responda ao garoto. — A Hokage instiga, a voz carregada de uma diversão maldosa — Como é que essa “mágica” acontece?
Naruto sentiu o suor frio escorrer pela nuca, enquanto Hinata cobria o rosto com as mãos, emitindo um som agudo de uma chaleira prestes a explodir; sob o escrutínio impiedoso de trinta pares de olhos ninjas, o Uzumaki buscou o último resquício de sua imaginação em colapso.
— É-é que… — Naruto gagueja, a voz subindo três oitavas enquanto ele gesticulava freneticamente para o céu — O passarinho… ele não entrega a semente na mão! Ele a transforma em um… em um raio de luar sólido! Isso! Um raio de luar que a Hinata tem que… que engolir com um chá de pétalas de estrelas!
— E o nascimento? — Ino pressiona, os olhos faiscando de malícia — Como a flor sai de dentro dela, Naruto?
— Ela… ela não sai! — Hinata dispara subitamente, a voz saindo em um chiado desesperado, tentando salvar o que restava de sua dignidade — Quando o tempo acaba… o bebê simplesmente… ele se materializa em uma nuvem de fumaça perfumada! Como um Jutsu de invocação reversa!
As gargalhadas que se seguiram abalaram as estruturas da cabana, Jiraya batia no próprio joelho, quase sem ar, enquanto Tsunade limpava as lágrimas de riso, balançando a cabeça diante da “anatomia poética” do casal.
— Invocação reversa? — Anko berra, apontando para o casal mortificado — Vou pagar para ver essa fumaça daqui a dez anos! Naruto, você é um gênio da ficção científica!
Até o discreto Shino soltou um pequeno ruído de diversão, enquanto Neji e Hizashi desviavam o olhar para o horizonte, fingindo que não pertenciam àquela família de contadores de histórias lunares; no entanto, agora que o pânico do “bebê imediato” fora substituído pela história fantasiosa, o grupo sentiu-se livre para transformar a tarde de domingo em um festival de mortificação para o jovem casal. Kurenai, que agora sorria abertamente enquanto Asuma ajustava o cobertor em suas pernas, inclinou a cabeça com diversão.
— Mas me digam uma coisa, meus queridos… — Ela começa, a voz carregada de um carinho travesso — Por que exatamente um passarinho de penas de cristal? E por que dez anos de espera?
— Foi… foi o desesperado, Kurenai-sensei — Hinata confessa, ainda tentando fundir-se a cadeira — Eles não paravam de perguntar… queriam saber exatamente como os bebês são feitos. Não sabíamos o que dizer.
A confissão foi o estopim para que as provocações se tornassem abertas e impiedosas, Jiraya gargalhou de tal forma que quase caiu do tronco, apontando para o afilhado com um brilho malicioso.
— Então o grande Kitsune foi derrotado por uma pergunta de biologia básica! — O Sannin provocou — Dez anos, Naruto? É esse o tempo que você acha que leva para criar coragem ou é o tempo que você precisa para entender como o processo realmente funciona na prática?
Tsunade, cruzando os braços, soltou um bufo que misturava escárnio e divertimento, seus olhos fixos na figura encolhida do Uzumaki.
— O que me preocupa é a escala dessa fantasia. — A Hokage interveio, elevando a voz — Dez anos de gestação mística? Naruto, se você continuar crescendo e se tornando esse monstro de chakra que está virando, o seu passarinho vai ter que ser do tamanho de uma fênix para conseguir carregar qualquer semente que venha de você! Vai precisar de um contrato de invocação só para o bicho conseguir pousar nesse telhado!
O comentário sobre o “tamanho da fênix” fez Naruto soltar um ganido de horror puro, enquanto Anko batia palmas de alegria sádica.
— Uma fênix! — A Jounin exclamou — Imagine o estrondo! Vai precisar de reforço estrutural na cabana para aguentar o peso da “semente” do guri!
Neji, vendo o estado deplorável da prima, tentou intervir com sua habitual austeridade, embora estivesse visivelmente constrangido.
— Já chega disso. É uma história para crianças, não há necessidade de transformarem isso em um espetáculo de vulgaridade. — Neji sentencia, cruzando os braços.
— Ora, ora, olhem só o cavaleiro de branco! — Mas Anko não perdeu o tempo de reação e virou o alvo para ele instantaneamente — Não tente defender os pombinhos, Neji, porque sei muito bem que você é outro que está doidinho para enviar o seu próprio passarinho de cristal para a casa da Tenten!
O silêncio que se seguiu foi quebrado por um “O quê?!” engasgado da Tenten, enquanto Neji ficava tão vermelho quanto Hinata, perdendo toda a sua pose de gênio do clã.
— Anko! — Neji rosna, mas já era tarde; ele acabara de ser jogado no mesmo balaio de gato.
— Isso mesmo! — Jiraya rugiu de rir — É uma epidemia de ornitologia mística em Konoha! Daqui a pouco vamos ter uma revoada de fênix sobre a vila!
Quando o sol começou a se despedir da clareira, mergulhando o céu de outono em tons de violeta e rosa, o que serviu de sinal para a pequena multidão iniciar o rito de partida; no entanto, se a dupla esperava uma saída silenciosa após o esclarecimento, foram rapidamente desenganados, cada convidado parecia determinado a deixar uma última “semente” de provocação antes de cruzar o limite da floresta.
— Dez anos passam voando, Kitsune! Quero estar na primeira fila para ver a fumaça perfumada! — Anko grita, já se afastando ao lado de Sakumo, enquanto acenava com um sorriso malicioso.
— Vou pedir para o pessoal da botânica estudar flores que brilham no luar. — Ino pisca para Hinata, que apenas acenou de volta com um sorriso congelado. — Afinal, a Hina merece o melhor “chá de pétalas de estrelas”!
— Boa sorte com o calendário, Naruto. Se precisar de dicas sobre como lidar com… hum… “fênix de cristal”, não me procure. Meu estoque de ficção já está saturado. — Até Kakashi, ao passar pela varanda, inclina a cabeça com uma calma irritante.
Jiraya e Tsunade foram os últimos, o padrinho de Naruto deu uma piscadela cúmplice, enquanto a Hokage apenas balançou a cabeça, murmurando algo sobre “consultar veterinários especializados em aves mitológicas” caso Naruto continuasse crescendo tanto; Neji e Hizashi despediram-se com uma reverência formal, mas os olhos de Neji agora carregavam um brilho de riso contido que ele se recusava a verbalizar, satisfeito por ver o amigo em tal apuro.
Finalmente, a clareira retornou ao seu silêncio habitual, o ritmo da casa mudou para o modo noturno, Naruto conduziu Hanabi e Konohamaru para o banho, ouvindo-os tagarelar sobre como o pássaro de cristal devia ter as asas brilhantes, e Hinata, ainda com as orelhas queimando, prepara rapidamente uma refeição rápida e leve, logo, veste-os com seus pijamas mais quentinhos. Eles acomodam os pequenos sob as cobertas pesadas e, com o mesmo carinho de sempre, alcançam-lhes xícaras de chá de erva-cidreira e tigelas de sunomono; enquanto Hinata vigiava, garantindo que eles se alimentassem corretamente e não houvesse bagunça, Naruto voltou-se para os contos, com a voz baixinha e rítmica, leu uma última história, que logo tornou-se o embalo deles, alimentados e quentinhos entre as cobertas a respiração dos dois pequenos soa profunda e compassada. Após o seu próprio ritual de cuidado pessoal, o encontro no corredor estreito foi marcado pelo mesmo constrangimento de sempre, intensificado pelo aroma de lavanda e pela calidez da casa fechada; mas, ao chegarem à varanda em todas outras noites, Naruto e Hinata desabaram nas poltronas de madeira, as pernas esticadas e as xícaras de chá fumegando entre as mãos.
— Hina… — Naruto quebra o silêncio, a voz rouca e carregada de um desespero cômico — Tive que inventar um raio de luar sólido na frente da Hokage. Nunca mais vou conseguir frequentar uma reunião de Jounins sem que alguém me peça uma previsão do tempo para pássaros.
— Foi o pânico, Naruto. — Hinata cobre o rosto com as mãos, os ombros sacudindo em um riso nervoso — Mas o que realmente me assusta é como vamos contar a verdade para eles no futuro. Em algum momento, teremos que educá-los sobre como a vida realmente começa… Imagine a cara do Konohamaru quando descobrir que não existe semente mágica nem passarinho de cristal! Ele vai achar que fomos nós que fomos enganados.
— Eu não quero nem pensar nisso agora. — Naruto suspira profundamente, enterrando os dedos nos cabelos — Como se educa alguém depois de dizer que bebês aparecem em nuvens perfumadas? Criamos um monstro pedagógico, Hina.
A descontração nervosa do frenesi vergonhoso foi, gradualmente, dando lugar a uma quietude doce, Naruto deixou sua xícara de lado e buscou a mão de Hinata, entrelaçando seus dedos com firmeza; puxou-a gentilmente, fazendo-a inclinar o corpo até que a cabeça dela repousasse em seu peito.
— Pelo menos ganhamos tempo. — O Uzumaki sussurra, beijando o topo da cabeça dela e sentindo o perfume que tanto fascinava-o — Vamos conseguir pensar na explicação. E, até lá, só importa que estamos aqui.
Hinata relaxou nos braços dele, sentindo o calor seguro de seu corpo, ela ergueu o rosto e Naruto encontrou seus lábios em um beijo casto e terno, que silenciou todas as zombarias do dia; ali, sob o manto de estrelas e o frio do outono, eles não eram Tenentes ou tutores desesperados, eram apenas dois jovens que, entre fênix imaginárias e sementes de giz, haviam encontrado o amor mais real de todos.
Fale com o autor