O Sol e A Lua
38 Redenção
Notas iniciais

Quatro meses transcorreram desde que os primeiros andaimes foram erguidos sobre as cicatrizes deixadas pela invasão, e Konoha já não exalava mais o odor acre de cinzas e desespero; o outono avançava com uma elegância gélida, tingindo as matas circundantes de um cobre profundo, mas o frio que começava a morder as manhãs era prontamente repelido pelo calor humano que transbordava das ruas reconstruídas. A Vila Oculta não apenas sobrevivera, como pulsava com uma vitalidade renovada, quase febril; o som das serras e martelos, outrora um ruído de urgência, tornara-se agora a trilha sonora de uma prosperidade resiliente. Mercadores vindos de terras distantes, atraídos pela estabilidade da nova gestão, formavam caravanas que serpenteavam pelos portões principais, trazendo especiarias e tecidos que coloriam o cinza do concreto novo; no epicentro desse renascimento, a Torre da Hokage erguia-se como um farol de autoridade inabalável, no Grande Salão de Reuniões, o ar era denso, saturado pelo peso das linhagens mais nobres e mentes mais letais do País do Fogo. Tsunade Senju ocupava a cabeceira, sua presença emanando uma soberania que não admitia contestações; ao seu lado, Naruto e Hinata permaneciam estáticos, sua postura refletindo uma prontidão que transcendia o militarismo comum. A atmosfera não era de subordinação cega, mas de uma coalizão estratégica; a Godaime governava em sintonia com os pilares que sustentavam a nova Konoha, e a dupla de ninjas de elite era peça fundamental nesse mecanismo de decisão.
Próximos a eles, Shikamaru e Sai observavam o recinto com uma atenção predatória, processando cada informação que circulava na mesa; o recinto era um mosaico de poder: Hyuuga Hizashi, mantendo uma postura aristocrática ao lado de Hiashi e de Neji, cujos olhos analisavam cada pergaminho com precisão. Uchiha Hiro exibia uma austeridade sombria, enquanto os líderes dos clãs Akimichi, Yamanaka, Nara, Aburame e Inuzuka — acompanhados por seus sucessores — formavam uma muralha de experiência e tradição; a presença de figuras como Hatake Kakashi, o lendário Jiraya, Sakumo e Shizune adicionava uma camada extra de intelecto e proteção ao conselho, além do próprio Capitão da ANBU.
— Os setores administrativos e habitacionais estão operando com 95% de capacidade. — A voz de Tenzou corta o breve silêncio, firme e desprovida de adornos — O monitoramento das divisas foi intensificado; as sentinelas não detectaram nenhuma incursão não autorizada nas últimas setenta e duas horas. Konoha está selada.
Tsunade assentiu, mas antes de ditar a próxima diretriz, inclinou-se levemente para o lado, buscando a validação visual de sua dupla de carrascos.
— A coalizão com Suna é nossa prioridade diplomática. — A Senju declara, seu tom ressoando pelas paredes de carvalho — Naruto, as rotas que você e Hinata propuseram no último relatório parecem ser as mais viáveis para evitar atritos com as Vilas menores. Estão prontos para oficializar esse corredor comercial?
— O mapeamento está concluído, Hokage-sama. — Naruto responde, sua voz carregando uma maturidade sólida que ancorava a discussão — Hinata e eu revisamos os pontos cegos das fronteiras. Se seguirmos por esse traçado, garantimos a segurança dos mercadores e mantemos a soberania de nossos postos avançados.
— O Kazekage já foi notificado através de nossos intermediários. Shikamaru e Sai asseguraram que os termos de Suna convergem com os nossos interesses de reconstrução. É uma simbiose necessária; não há espaço para falhas na logística de suprimentos médicos e infraestrutura. — Hinata, com uma serenidade fria, complementa o pensamento.
A reunião prosseguiu por horas, uma dança complexa de burocracia e estratégia, discutindo-se as novas rotas comerciais e como a presença constante de patrulhas nas estradas havia reduzido a criminalidade em níveis recordes; as decisões não eram impostas, mas lapidadas através do consenso entre a Godaime, os líderes de clãs e a elite operacional ali presente. No final do conclave, enquanto Jiraya e Kakashi trocavam observações sobre os movimentos de nações vizinhas, Tsunade observou o mapa de Konoha estendido sobre a mesa, sentindo a solidez do apoio que a cercava; a vila fervilhava lá fora, sob o crepúsculo de outono, enquanto ali a engrenagem de seu novo mundo girava com uma perfeição aterradora. A era da reconstrução estava chegando ao fim; a era da supremacia estava apenas começando.
***
O sol poente, como um ourives cansado, derramava seus últimos resquícios de ouro sobre a floresta, tingindo a cabana com tons de âmbar e ametista, que mesmo sem o florescer exuberante da primavera, seguia sendo um refúgio que exalava uma aura mística, uma solenidade que parecia emanar da própria madeira e do musgo que a abraçava; o ar outonal, agora carregado por uma umidade gelada que anunciava a proximidade do inverno, era filtrado pela chaminé, que cuspia uma fumaça branca e constante, prometendo o acolhimento que o mundo exterior já não oferecia. A transição do dia para a noite não era apenas uma mudança de luz, mas um rito de passagem para a celebração mais íntima e sagrada que aquelas paredes já testemunharam: o décimo quarto aniversário de Naruto; lá dentro, a atmosfera era uma sinfonia de sentidos. O estalar da lenha no fogão fundia-se ao som rítmico de facas batendo contra tábuas de madeira e ao borbulhar de caldos densos. Hinata movia-se pela cozinha com a suavidade de uma gueixa e a dedicação de uma sacerdotisa, orquestrando um banquete digno da realeza, o aroma de especiarias, carne selada e o doce perfume de bolos recém-saídos do forno preenchiam cada fresta, criando uma tapeçaria olfativa que aquecia a alma; ao seu redor, Konohamaru e Hanabi eram pequenos sóis de alegria, auxiliando com mãos trêmulas de empolgação em tarefas mínimas, mas executadas com uma seriedade adorável.
— Hanabi, cuidado com as ervas, não queremos que o sabor fique forte demais. — Hinata instruía-os com uma doçura que nem o cansaço de um dia exaustivo de trabalho conseguia abalar — Konohamaru, as flores precisam estar no centro, para o aniversariante poder vê-las de qualquer ângulo.
— Deixa comigo, Hina-nee! — O pequeno responde, ajeitando um arranjo de flores silvestres com a língua entre os dentes, concentrado.
Enquanto isso, no sofá da sala, Naruto era o retrato de uma transição física avassaladora, sentado entre pilhas de relatórios e escalas de vigília, o jovem Uzumaki parecia, de certa forma, “grande demais” para o móvel; suas roupas de frio, que até o ano anterior lhe serviam com folga, agora revelavam o crescimento impetuoso de seus quatorze anos. As mangas do casaco terminavam bem antes dos pulsos, e o tecido esticava-se perigosamente sobre os ombros largos e o tórax que ganhava a robustez de um homem; Naruto era uma força da natureza em expansão, mas seus olhos, que por vezes se desviavam da burocracia militar para o calor da cozinha, mantinham a pureza cintilante de quem redescobrira o significado de lar. Fora expulso da cozinha minutos antes por uma Hanabi autoritária que brandia uma colher de pau, alegando que “aniversariantes só trazem má sorte e dedos gulosos para perto do fogo”; Naruto riu baixo pela lembrança, e seu sorriso logo tornou-se terno ao encontrar o olhar de Hinata fitando-o de volta, uma conexão silenciosa que roubava seu fôlego, um carinho que não precisava de palavras para reafirmar que, ali, ele era amado acima de qualquer título ou máscara.
Embora a tranquilidade e afeto desbordantes no ambiente fossem sentidos e vividos em sua máxima verdade, aquele amanhecer deixara uma cicatriz leve em seu peito; era o primeiro aniversário sem o abraço áspero e o cheiro de tabaco de Hiruzen. A ausência do vovô era uma nota muda na melodia do dia, uma dor latente que o acompanhara desde o despertar; entretanto, Konoha não o deixara esquecer que ele era querido. Seu padrinho, fizera questão de envergonhá-lo diante de um esquadrão inteiro de ANBU’s ao entregar-lhe, com uma piscadela maliciosa, uma revista adulta “para sua formação como homem”; Naruto quase morrera de medo de que Hinata visse, mas o riso dos amigos e o olhar compreensivo de Kakashi e dos ex-senseis amorteceram o impacto. Asuma, com um sorriso que transbordava um orgulho paternal, entregara-lhe um embrulho pequeno com um conselho sussurrado: “É um barbeador. Você está crescendo, garoto. Comece a se cuidar como o homem que já é.”
— Naruto? — A voz suave de Hinata o trouxe de volta ao presente.
A Hyuuga aproximava-se com um passo leve que mal fazia ranger o assoalho, o rosto corado e os olhos cintilantes tão gentis que faziam o coração de Naruto entrar em arritmia, apenas por vê-la; imediatamente o rapaz largou os relatórios, a atenção totalmente voltada para ela. Os pequenos detiveram sua tarefa de pôr a mesa, ansiosos e expectantes, com sorrisos que mal cabiam em seus rostos miúdos; Hinata estendeu um embrulho volumoso, envolto em papel de seda.
— Sei que você já sabe… — Seu tom trazia uma pitada de diversão, as bochechas coradas — Obrigada por não insistir e... obrigada por continuar aqui, conosco, por sempre voltar.
Naruto sabia que aquelas palavras iam muito além de uma felicitação, elas transmitiam o medo e a esperança que colidiam dentro deles, a determinação ferrenha de sempre continuar, sempre, lutar, sempre avançar; afinal, era isso que fazia deles quem eram, pois tinham razões infinitas para sempre voltar. Com mãos trêmulas e um meio sorriso, ele abriu o pacote com uma reverência quase infantil, de dentro, surgiu um cardigã de lã vermelha, um tom vibrante que remetia ao seu próprio fogo interior; o trabalho de tricô era impecável, cada ponto firme e carregado de intenção, e Naruto gargalhou alto, um som vibrante, reconhecendo o projeto que ela tentara esconder tantas vezes sob o sofá.
— Então as “meias gigantes” da Nabi eram para mim? — O Uzumaki provoca, levantando-se e envolvendo-a em um abraço esmagador, tirando-a do chão e girando-a no ar — Eu já desconfiava, Hina, mas é perfeito. É a coisa mais linda que já ganhei.
— Ei, espera! Nós também temos que te entregar! — Konohamaru protesta, correndo para buscar seus tesouros.
O pequeno entregou-lhe um estojo de armamentos novo, de couro reforçado, enquanto Hanabi, com um ar de importância, deu-lhe um par de luvas táticas com reforço de metal.
— Economizamos a mesada da Vila. — Hanabi conta, a voz infantil carregada de uma seriedade comovente — Você precisa estar seguro quando sair para nos proteger.
— E fizemos estes desenhos! — Konohamaru estendeu folhas de papel coloridas, onde figuras de giz representavam os quatro em frente à cabana, sob um sol excessivamente amarelo — Somos nós, Naruto-nii. Nossa família.
Naruto sentou-se no chão para ficar na altura deles, pegando os desenhos com as mãos carregadas de calos de batalhas, levemente trêmulas de emoção, para aquelas crianças, ele não era apenas um Shinobi ou o Tenente; ele era a representação viva da segurança, o suporte que ocupava o vácuo deixado pelas perdas das figuras mais importantes e insubstituíveis — ou ao menos deveriam ter sido no caso de Hanabi — de suas vidas, tornando-se a referência que teriam, em muitos sentidos, paterna.
— Obrigado… obrigado por tudo. — Naruto sussurrou, a voz levemente embargada, enquanto puxava ambos para um abraço, sentindo o perfume de sabão e infância que eles exalavam.
— Venham, a comida vai esfriar e o protagonista da noite precisa estar bem alimentado. — Hinata chama, com os olhos de lua brilhando sob a luz das velas que os pequenos insistiram em incluir na decoração.
Sentaram-se à mesa, caprichosamente decorada com as flores silvestres e as melhores louças da casa, e naquela noite, a dor pela perda de Hiruzen e dos outros que partiram não desapareceu, mas foi acolhida por uma gratidão imensa por tudo que lhes deixaram; entre risadas, conversas sobre o futuro e o calor de um jantar feito com alma, o Uzumaki celebrou seus quatorze anos compreendendo que, embora o mundo lá fora pudesse ser gélido e exigente, dentro daquela cabana, havia construído seu próprio universo, e sob o manto das estrelas de outono naquela clareira, tinha todas as razões do mundo para sorrir. A noite avançou em uma onda crescente de calor familiar, enquanto o frio que arranhava as janelas de vidro era incapaz de penetrar o casulo de euforia que formara-se ao redor da mesa de madeira maciça; o jantar, embora esplêndido em sua execução — com o vapor das iguarias subindo em espirais preguiçosas sob a luz das velas — logo tornou-se apenas o prelúdio para o que Konohamaru e Hanabi consideravam a parte mais crucial e solene da celebração: a curadoria da “galeria real”. Com um orgulho quase exibicionista, que faria qualquer general invejar sua postura, Naruto buscou duas molduras de madeira escura, polidas até brilharem, guardadas para ocasiões de extrema importância; não pretendia apenas guardar os desenhos, pretendia imortalizá-los como os troféus mais valiosos daquela residência. O processo, no entanto, foi uma odisseia de instruções e ruídos, com o Uzumaki posicionado diante da parede principal da sala, e seus pequenos generais implacáveis e cheios de convicção, literalmente pendurados em seu pescoço; as pernas curtas de Konohamaru e Hanabi balançando contra as costas de Naruto, enquanto suas mãos pequenas apontavam, gesticulavam e ditavam ordens com uma autoridade cômica que ecoava pela sala.
— Mais para o lado, Naruto-nii! O sol do meu papel tá ficando escondido! — Konohamaru protesta, puxando levemente a orelha dele para orientar sua visão como se fosse uma ferramenta de precisão.
— Não escuta ele, Naruto-nii, tá torto! — Hanabi rebateu do outro lado, o rosto colado ao ombro do Uzumaki, os olhos estreitados em uma análise crítica e severa — Se colocar assim, a Hina-nee vai parecer que tá caindo do desenho! Sobe mais o braço!
Naruto gargalhava, os músculos dos ombros e braços — agora visivelmente mais robustos e largos sob o novo cardigã de lã — sustentando o peso extra daquelas duas vidas com uma facilidade impressionante, enquanto martelava com uma delicadeza exagerada, fingindo pavor diante das ordens táticas de seus “superiores”; cada golpe do martelo era acompanhado por um grito de direção dos pequenos, criando um ambiente de caos doce e vibrante.
— Sim, senhores! Ordens recebidas e executadas! — Naruto ria, batendo uma continência desajeitada assim que o último prego fora fixado com perfeição — A exposição de arte mais importante de todo o País do Fogo está oficialmente inaugurada!
Ao terminar a tarefa, o espírito travesso que sempre habitara as camadas mais profundas de sua alma, e que os meses de conflitos e reconstrução árdua haviam forçado ao silêncio, irrompeu com uma força avassaladora; antes que as crianças pudessem descer de seus ombros, Naruto agarrou as mãos pequenas de ambos, firmando-as para garantir que não caíssem, e começou a girar, no início, era um movimento lento, que logo tornou-se um redemoinho de cores, tecidos e gargalhadas agudas. No frenesi da brincadeira desgovernada, o calcanhar de Naruto atingiu a quina da mesa de centro, o impacto derrubou o pesado volume que Kakashi lhe entregara naquela tarde com um sorriso enigmático por trás da máscara: um tratado inédito e luxuoso sobre táticas avançadas e cercos bélicos; Naruto buscara por aquele livro durante meses, percorrendo cada livraria empoeirada e mercadores itinerantes sem sucesso, até que seu antigo sensei o surpreendera com o presente. O livro deslizou pelo chão de madeira, suas páginas valiosas se abrindo ao acaso, esquecido diante da magnitude absoluta daquele momento de felicidade pura.
— Naruto! O livro! As crianças vão acabar tontas! — Hinata interveio, aproximando-se com as mãos estendidas em um gesto de cautela, tentando agir como a voz da razão em meio ao caos que se instalara.
Mas aquilo era, na verdade, uma emboscada silenciosa, como se tivessem ensaiado aquela manobra de flanco por semanas, Konohamaru e Hanabi enroscaram as pernas com ainda mais firmeza no tronco de Naruto, liberando os braços dele para o ataque final; o rapaz lançou um olhar cúmplice e carregado de um brilho predatório e travesso para os pequenos, e avançou.
— Capturando a Hina-nee! — Naruto brada entre risos, a voz preenchendo cada canto da cabana.
Antes que Hinata pudesse recuar, o Uzumaki a envolveu pela cintura com um braço poderoso, erguendo-a do chão com uma facilidade que evidenciava sua força crescente, agora, girando com os três: a garota que era seu norte e seu mundo em seus braços, e as duas crianças servindo-lhe de capas vivas e ruidosas; gritos de puro deleite e gargalhadas que vinham do fundo da alma preencheram o ar, abafando o som do vento de outono que uivava do lado de fora. Era uma bagunça gloriosa de cabelos, o cheiro do sabão das roupas de Hinata e a energia elétrica da infância, um borrão de felicidade que parecia desafiar a gravidade, a dor e o próprio tempo; foi exatamente nesse instante de plenitude, enquanto o mundo parecia girar em torno daquele eixo de afeto inabalável, que uma voz cavernosa, carregada de um sarcasmo milenar e uma ressonância que vibrou em seus ossos, ressoou nas profundezas da consciência de Naruto.
— Francamente, moleque… durmo por algumas semanas para estabilizar o chakra e, quando finalmente acordo, descubro que você se transformou em um carrossel humano para pulgas barulhentas? — A voz rosnenta de Kurama o surpreende.
O coração de Naruto deu um salto violento que nada teve a ver com o esforço físico do giro, ao ouvir aquele tom implicante, zombeteiro e carregado daquela arrogância que o Uzumaki aprendera a decifrar como companheirismo.
— Bem-vindo de volta, raposa preguiçosa. — Naruto respondeu mentalmente, o peito estufando de um alívio que quase o fez perder o passo, enquanto seu sorriso tornava-se mais radiante e genuíno — Achou mesmo que eu ia deixar você dormir durante o meu aniversário? Você perdeu o banquete, mas chegou a tempo para a bagunça.
— Eu deveria ter ficado nas sombras. Ver você sendo comandado por uma Hyuuga de sete anos e um pivete que mal sabe amarrar as sandálias é humilhante para a minha reputação como a mais poderosa das nove bestas. Você amoleceu, Naruto. — Kurama segue com suas reclamações.
Naruto não conteve a gargalhada alta e sonora, que fez Hinata arquear as sobrancelhas e sorrir de volta, percebendo imediatamente que algo além da brincadeira, havia iluminado o semblante dele; com renovada alegria, o rapaz a apertou um pouco mais contra o peito, sentindo o calor de sua pequena família e a presença vibrante e eterna de seu hóspede rabugento. Ironicamente, no dia em que celebrava sua existência e a vida que construíra sobre as cinzas do isolamento, ele estava completo novamente. O peso da responsabilidade, as escalas de vigília e as cicatrizes de Konoha podiam esperar no limiar da porta; naquela noite, sob o teto da cabana mística e o brilho dos desenhos emoldurados, ele era apenas um rapaz que possuía tudo o que um dia ousou sonhar. Um pouco mais tarde, a quietude que seguiu-se à partida das crianças para o mundo dos sonhos era densa, quase palpável, quebrando-se apenas pelo estalar rítmico da brasa moribunda na lareira; o jovem casal cumprira o ritual diário com a solenidade de quem guarda um tesouro, lendo as fábulas sobre heróis esquecidos e florestas sussurrantes até que a respiração de Konohamaru e Hanabi se tornasse pesada e síncrona. Ao fechar a porta do quarto dos pequenos, a aura de “pais” e tutores dissolveu-se, dando lugar ao peso da realidade que carregavam sob a pele; Naruto sentou-se no tapete da sala, cruzando as pernas, logo desamarrando seu novo cardigã, expondo o abdômen onde o selo espiralado pulsava em um tom carmesim doentio. A última batalha contra Orochimaru exigira um preço alto: o Fuinjutsu Uzumaki, invocado em um ápice de desespero e fúria, agira como uma faca de dois gumes, ferindo não apenas o Sannin, mas desestabilizando a arquitetura metafísica que prendia Kurama; com os dedos trêmulos, o rapaz iniciou o processo de refazer a trama do selo, carregado de eletricidade estática.
— Demorou, moleque… — A voz de Kurama ressoou, desta vez sem o sarcasmo habitual, preocupada — Aquele selo… ele estava tentando devorar nós dois. A energia Uzumaki é um veneno doce quando usada daquela forma. Senti sua vida se esvaindo como areia entre os dedos, e o pior foi não poder estancar o sangue porque o seu próprio selo me via como parte da ameaça.
Naruto fechou os olhos, a testa franzida pelo esforço de canalizar o chakra azul para estabilizar as linhas negras da prisão.
— Fiz o que era necessário, Kurama. — Sua resposta veio sem hesitação.
— Eu sei. Mas você não viu o que vi. — A raposa continua, e havia uma nota de melancolia em sua voz — Enquanto você flutuava naquele abismo entre os mundos, eu vi o desespero de Hinata. Ela lutou contra o destino com uma ferocidade que me fez respeitar o sangue dela. Essa Hyuuga é teimosa e tão temerária quanto você!
Naruto sentiu um aperto no peito que não vinha do selo, e olhando para o lado encontrou Hinata aproximando-se silenciosamente, trazendo uma bacia com água morna e ervas medicinais, cujos aromas de sândalo e cânfora começaram a purificar o ambiente; ajoelhando-se atrás dele, suas mãos pequenas e frias tocando-lhe os ombros, ajustando e estabilizando sua rede de chakra com maestria.
— Kurama está reclamando de novo? — Hinata indaga com uma doçura triste, seus dedos subindo para a nuca de Naruto, massageando o ponto de tensão.
— Ele diz que você é teimosa. — Naruto conta, esboçando um sorriso fraco enquanto o brilho do selo finalmente se acalmava, voltando ao preto sólido sobre sua pele bronzeada — E que ele ficou com medo. Acho que é o máximo de honestidade que vamos conseguir dele por um século.
— Ele tem razão em estar preocupado. — Hinata sussurra, encostando a testa nas costas dele — A próxima etapa… a viagem… Kurama também pensa que é o único caminho, não é?
— Sim. — Naruto suspira, virando-se para encará-la — Precisaremos desse isolamento para avançarmos além das seis caudas em segurança. E lá poderemos colocar em prática nossos outros planos sem colocar a Vila em risco.
Eles permaneceram em silêncio por um longo tempo, apenas ouvindo a respiração um do outro, naquele momento, as máscaras da ANBU, a autoridade de Tenentes e o temor que seus nomes inspiravam nas fronteiras do mundo ninja pareciam pertencer a outra vida; ali, sob a luz bruxuleante da cabana, eram apenas dois adolescentes que haviam pulado etapas da juventude para carregar o peso de uma nação, mas que ainda guardavam a pureza de um primeiro amor.
— Sobre os preparativos… — Hinata rompe o silêncio, buscando a mão dele e entrelaçando os dedos — Estive organizando os pergaminhos de selamento. Como vamos nos estabelecer por um tempo considerável, precisamos levar mais do que o habitual. Com Konohamaru e Hanabi, o conforto é prioridade.
— Comida seca e pílulas não serão suficientes. Precisamos levar ferramentas reais para providenciar uma estrutura digna para eles. Roupas térmicas extras, já que o clima lá pode ser implacável, e medicamentos. Precisamos de tudo que for essencial para que eles se sintam em casa, mesmo longe de Konoha. — Naruto concorda, a expressão tornando-se prática.
— Eu já separei as mantas de lã, os utensílios de cozinha e os estojos médicos. — A garota conta — Também vou levar algumas sementes e ferramentas de jardinagem. Quero que eles tenham algo para cuidar, para que o lugar não pareça apenas uma base militar, mas um lar. E, claro, os livros de fábulas. Eles não dormirão sem as histórias.
— É engraçado, não é? Estamos planejando uma jornada sem fim que pode ser perigosa, e nossa maior preocupação é se as ferramentas para o conforto deles e os livros de histórias estão bem guardados. — Naruto ri baixo, uma sonoridade rica que aqueceu o ar.
Hinata sorriu, um gesto que lhe roubou o ar, e aproximou seu rosto do dele, um toque de lábios casto, um roçar de asas de borboletas que carregava anos de amizade e meses de um namoro florescido da união e companheirismo inerente de ambos; logo, o toque suave mudou, ganhou ritmo e certa pressão, despertando sensações e emoções — novas e antigas — e o beijo calmo do começo ganhou o peso da nova etapa que estavam adentrando, ainda transbordando sentimentos puros e genuínos, mas repleto daquele frio antecipatório que precede o desconhecido.
— Nós não somos apenas ninjas, Naruto. — Hinata sussurra contra seus lábios, as mãos subindo para emoldurar o rosto dele — Somos o lar um do outro. E um lar precisa de cuidado e paz, tanto quanto de estratégia e força.
Naruto a puxou para seu colo, envolvendo-a completamente em seus braços, sentindo o perfume de lavanda de seu cabelo; naquela noite de aniversário, ele percebeu que o verdadeiro milagre era o fato de que, em meio ao planejamento de uma jornada ainda incerta, eles encontravam tempo para serem, simplesmente, dois jovens aprendendo a caminhar de mãos dadas rumo ao seu destino.
***
A primeira nevasca do ano não chegou como um sussurro, mas como um manto gélido e autoritário que reivindicava a floresta para o inverno, transformando o mundo, reduzindo a paisagem a um cinza monocrático, onde os flocos de neve, densos e pesados, dançavam em redemoinhos furiosos antes de se depositarem sobre os galhos das árvores, que gemiam sob o peso do gelo; na cabana, porém, o cenário era quase um mosteiro de calor, o fogo na lareira estalava com vigor, lambendo as toras de carvalho que Naruto havia empilhado com zelo antes de partir e o aroma da madeira queimada misturava-se ao cheiro de chá de jasmim que fumegava sobre a mesa.
Era um dia de folga para a dupla, mas para Naruto, o repouso era uma oportunidade para a providência, e, portanto, o rapaz saíra ao alvorecer, desaparecendo na bruma branca antes mesmo que o sol opaco de inverno ousasse surgir; desta vez partira sozinho, sem a companhia de Hinata, visto que ambos decidiram que não poderiam recorrer a Yumi a todo momento para cuidar de Konohamaru e Hanabi, e, acima de tudo, não desejavam traumatizar ainda mais os pequenos com a visão da morte crua e visceral necessária para a subsistência. Sua lógica era pragmática e resultante de suas responsabilidades e autossuficiência prematuras: o inverno encarecia a proteína nos mercados da Vila a níveis exorbitantes, e eles, forjados na sobrevivência, sabiam como estocar o que a natureza oferecia.
A tarde descia sobre a cabana como um véu de chumbo, e o sossego da primeira nevasca só era interrompido pelo riscar rítmico dos lápis de Konohamaru e Hanabi sobre o papel, Hinata movia-se pelo ambiente com uma serenidade que camuflava a vigilância constante de seus sentidos, mantendo um olho nas lições dos pequenos e o outro na janela, onde os flocos brancos começavam a apagar as trilhas da floresta; Naruto estava fora há horas, e embora a garota fosse consciente de suas capacidades, estar distante naquela nevasca trazia ao seu coração uma inquietação instintiva, principalmente, para quem nunca esteve afastado mais que alguns passos durante praticamente toda a vida. Ver como o frio mordia impiedosamente e como a noite aproximava-se sorrateira, aumentava a preocupação da Hyuuga, que conhecia muito bem os perigos e intempéries que surgiam durante uma caçada naquele clima; movida por seu zelo infindável, Hinata já preparara roupas limpas e quentes, mantendo-as aquecidas por bolsas de água no banheiro, assim como a estufa que ligara para manter o cômodo cálido, aguardando o retorno dele.
O silêncio que antes acolhia o riscar rítmico dos lápis foi abruptamente estilhaçado por um estalo seco vindo da orla da floresta, o som de um galho vergado pelo peso excessivo da neve ou por um passo calculado demais para ser natural; em um átimo, a aura de serenidade de Hinata transmutou-se em uma letalidade gélida, e seus olhos, antes ternos sobre as lições das crianças, estreitaram-se em fendas de puro instinto.
— Para o ponto cego. Agora! — A ordem de Hinata saiu em um sussurro imperativo, desprovido de qualquer hesitação.
Konohamaru e Hanabi, treinados pela convivência e já habituados aos protocolos de segurança ensinados pela dupla, não questionaram; com movimentos rápidos e silenciosos, os pequenos deslizaram para trás do recuo da parede de carvalho, fundindo-se às sombras onde a luz das chamas não alcançava. Hinata, com as mãos já firmes sobre as empunhaduras de seus Tessen’s, posicionou-se diante da porta; sua respiração era um fio imperceptível, e cada fibra de seu corpo pulsava em uma prontidão predatória que evocava sua linhagem e seu posto na ANBU. As batidas na porta vieram em seguida, pesadas e rítmicas; Hinata não relaxou até que seus sentidos, aguçados pela necessidade de proteção, decifrassem o amálgama de chakras do outro lado da madeira.
— Pode baixar as armas, Hinata. Somos apenas nós. — A voz de Kakashi, carregada de uma fadiga complacente, atravessou a fresta.
A Hyuuga expirou lentamente, a tensão abandonando seus ombros gradualmente, embora seus olhos mantivessem a vigilância técnica, guardando os leques de guerra nas dobras de seu traje, logo abriu a porta; o frio cortante invadiu a sala, trazendo consigo o cheiro de pinho e o calor ofegante de seus visitantes com suas grossas capas cobertas de neve.
— Kakashi-sensei, Sakura. — Hinata cumprimentou, a voz recuperando a sobriedade habitual, embora seus olhos logo repousassem sobre a terceira figura, que permanecia envolta na penumbra da varanda.
Sakura entrou primeiro, trazendo consigo uma lufada de energia ansiosa, e ao seu lado, Akamaru, cujos pelos brancos estavam salpicados de cristais de gelo, soltou um ganido baixo; o cão logo buscou o contato com a Haruno, encostando o focinho úmido em sua mão, ansiando a estabilidade de seu elo invisível, uma herança dos sentimentos não confessados de Kiba que Akamaru parecia honrar com sua lealdade. Após o ataque e as fatalidades ocorridas, o cão deixara de alimentar-se, permanecendo quieto e definhando em silêncio no quarto de seu dono, levando Tsume a entregar a tutela do animal à Sakura; Akamaru era a recordação mais vívida de seu filho e a líder Inuzuka não permitiria que se perdesse em dor até não existir, portanto, mesmo que não chegasse a atingir todo seu potencial como cão Shinobi, preferia tê-lo vivo sob os cuidados da garota que sabia, era importante para o filho.
— Desculpe a hora, Hina! — Sakura fala, retirando o cachecol enquanto Akamaru sacudia o corpo, espalhando gotículas de água — Estávamos no campo de treinamento e o tempo virou muito rápido.
— Não se preocupe, Sakura. A casa está aquecida. — A Hyuuga responde, indicando a lareira — Kakashi-sensei, entre. Acabei de fazer um chá.
Os dois, como sempre, passaram pelo umbral da porta completamente a vontade, acomodando-se e retirando suas capas molhadas, aquecendo-se perto do fogo; o terceiro visitante, no entanto, estava dividido entre entrar ou esperar do lado de fora, consternado e coibido por tantas recordações e emoções que até seu rosto pétreo revelava seu tumultuo interno.
— Sasuke. — Hinata pronunciou o nome dele, mantendo a polidez que sua educação ditava — Por favor, entre. Não fique ao relento.
— Obrigado… Hinata. — O Uchiha murmura, a voz quase inaudível, movendo-se com uma retração que beirava a timidez.
Para Sasuke, cruzar aquele limiar pela segunda vez foi como um arrebato de realidade que o deixou sem fôlego, a calidez e a tranquilidade que emanavam daquelas paredes, repletas de recordações felizes e pequenos detalhes de uma vida compartilhada, o atingiram como um golpe físico; no passado, aquele mesmo aconchego fora o combustível de uma inveja corrosiva, que levara-o a desejar a vida do Uzumaki, cobiçara a devoção de Hinata como se fossem troféus de uma estabilidade que ele não possuía. Agora, sob o peso da verdade sobre Itachi e seu próprio desleixo arrogante, aquele desejo parecia-lhe uma prova de sua própria infantilidade; a vergonha o oprimia, e a presença de Sakura — agora livre daquela paixão pueril que antes o irritava, tratando-o com uma cordialidade neutra de companheira de equipe — apenas intensificava o sufocamento de sua culpa, tornando-o incapaz até mesmo de fitá-la nos olhos, como se aquele verde límpido fosse acusá-lo e lhe sinalizar as barbaridades que cometera.
— O Akamaru tá parecendo um urso de neve! — Hanabi riu, aproximando-se para abraçar o pescoço do cão, que retribuiu com uma lambida desajeitada.
Percebendo que não havia perigo, os pequenos deixaram o ponto cego, cheios de curiosidade e da alegria, que lentamente voltava a preencher seus dias de infância.
— Você gosta de biscoitos, Akamaru? — Konohamaru questiona o cão, tratando-o como as gatinhas.
— Naruto não está? — Kakashi pergunta, aceitando uma xícara fumegante que Hinata lhe alcançava.
— Ele saiu essa manhã para caçar, mas já deve estar retornando, Kakashi-sensei. — Hinata conta, terminando de distribuir o chá aos outros dois — Você tem pressa?
— Não, podemos esperar, se não for incômodo, é claro. — Kakashi afirma, atento a tensão existente entre os jovens.
— Não, pelo contrário, é sempre bom receber visitas. — Hospitaleira como somente ela seria, Hinata prepara biscoitos e outras guloseimas.
Durante bons minutos, seguiu conversando com o Hatake e a Haruno, que desde que tornara-se sua discípula, aproveitava toda e qualquer oportunidade para aprender e sanar suas inúmeras e infindáveis dúvidas; Sakura, talvez mais do que qualquer pessoa naquela Vila, era quem mais apreciava e estimava o perdão da dupla, e com base nessa sólida confiança, construía uma amizade forjada na empatia, honestidade e comprometimento.
— Sakumo esteve bem na vigília da noite? — Hinata lhe pergunta, tentando manter a conversa fluindo.
— Sim, apesar de que pela manhã já não vi ele. — A Haruno responde e sorri um tanto desanimada — Com certeza, Sakumo-nii foi para a casa de Anko-san.
Aquela era outra razão para a garota ter intensificado seus treinamentos, mesmo no inverno e mesmo tendo de habituar-se de certa maneira, forçadamente, a presença constante de Sasuke; ainda que limitasse suas inteirações, não poderia ignorá-lo constantemente, até porque deveriam trabalhar em equipe subordinados à Kakashi. Sasuke sentado em um banco mais afastado, observava a interação; ver Hinata tratar a todos, inclusive a ele, com aquela hospitalidade gentil e inerente, o fazia sentir-se ainda menor.
Olhando para as próprias mãos, as mesmas mãos que um dia agiram com violência contra Sakura naquele mesmo time, sentia o bloqueio em seu peito endurecer; para conseguir ser útil para sua família, para o irmão que sacrificava-se em silêncio por Konoha, necessitava evoluir dignamente, sem fiar-se cegamente de sua linhagem, precisava moldar suas habilidades e torná-las excepcionais. Contudo, o fantasma de suas ações e sua incorrigível postura o perseguia, seu vergonhoso comportamento, sua vil covardia eram muros intransponíveis em sua consciência, barrando o caminho que o Uchiha tentava trilhar; por isso, após o treinamento da tarde e após falhar novamente, Sasuke seguira e aceitara o conselho do sensei, e mesmo que tivesse de engolir seu orgulho e implorar, pediria ajuda a quem nunca imaginara que faria.
O ambiente, saturado pelo aroma de chá e preenchido pelas conversas banais alimentadas pela engenhosidade de Hinata para introduzir assuntos, e pela boa vontade de Kakashi de deixar sua apatia de lado, foi bruscamente atravessado por uma mudança drástica na pressão atmosférica; Hinata estancou o movimento de levar a xícara aos lábios, sua cabeça pendendo levemente para o lado e antes mesmo que o estalido da neve sob botas pesadas alcançasse os ouvidos apurados de Kakashi, ela já sabia.
— Kono, Nabi, vão brincar no quarto com o Akamaru e a Myuki. — Hinata ordena suavemente.
Hanabi, que mal piscara desde que ouvira a possibilidade do retorno de Naruto, sentiu o ímpeto de protestar, mas o olhar da irmã a deteve, a pequena Hyuuga, assim como o jovem Sarutobi, possuía um entendimento instintivo da natureza protetora de Hinata; sabia que aquela ordem era um escudo invisível para poupá-los da visão crua que a subsistência exigia.
— Vamos, Nabi. — Por sua natureza mais dócil e de certa forma, obediente que a de Hanabi, Konohamaru acata primeiro.
Quando os pequenos deixam a sala carregando o pequeno cão e a gata consigo, Hinata age rapidamente, estendendo sobre o assoalho de madeira uma lona grossa e longa, fazendo um caminho coberto até a cozinha e o banheiro; tudo estava a postos desde quando Naruto saíra pela manhã. No passado, quando eram apenas duas crianças vivendo sós e tendo que proteger-se e aprendendo a viver, descobriram a duras penas que manter certa ordem e procedimentos durante suas caçadas tornava o processo mais prático e menos engorroso; assim surgira o hábito de cobrir o chão de casa, de limpar o máximo possível a caça no local de abatimento, de deixar as ferramentas para desmembrar e guardar as carnes por peças a postos, tudo para ter mais eficiência e menos complicações.
Ao abrir a porta de casa antes mesmo que os passos pesados aproximassem-se mais, o vento gélido e violento triscou o rosto alvo de Hinata, trazendo para dentro uma onda fria que competia com o calor aconchegante do fogo; do lado de fora, a figura solitária e disforme de Naruto iniciava uma subida algo ofegante pelos degraus da varanda, deixando atrás um rastro vermelho de pegadas pela neve. Suas roupas de peles, utilizadas apenas para as caçadas de inverno, estavam mais escuras que o normal com o sangue quase totalmente seco, e o cheiro acre e ferroso fazia par com a fumaça do calor que abandonava as carcaças sobre seus ombros; o Uzumaki estava coberto de neve, seus cabelos e cílios brancos e seus lábios começavam a ganhar um tom azulado, sinal claro que nem o calor do seu abundante chakra poderia mantê-lo por mais tempo. A visão, que por si só já era intimidante e primitiva, tornou-se mais visceral quando Naruto deixou cair de um de seus ombros na mesa da cozinha um cervo jovem de galhadas imponentes, um javali de cerdas duras do outro; após fechar a porta e trancá-la novamente, com agilidade e a confiança da experiência, Hinata aproximou-se dele, retirando de suas costas os quatro faisões de plumagens agora maculadas, presos por uma amarração improvisada, e de sua cintura um cinturão algo mórbido, que pendia com pequenos troféus da caçada: coelhos, esquilos e marmotas.
— Você demorou. — A Hyuuga murmura, verificando sua temperatura e já desatando as tiras do poncho de peles, retirando-o de seus ombros sem cerimônia — Vá tomar um banho quente, deixei a estufa ligada no banheiro.
— Espera, Hina, ainda tenho que cortar mais lenha… — Ainda compenetrado nas funções que atribuíra-se como o provedor da casa, Naruto tenta impedi-la de retirar suas caneleiras.
— Tem o suficiente para durar até amanhã ao meio-dia, vá para o banho! — Com uma suavidade perigosa, Hinata volta a ordenar.
Sabendo-se incapaz de contrariá-la, Naruto acata, passando pela sala com passos pesados e cansados, e somente nesse instante, nota a presença de suas visitas, com Sakura de olhos esbugalhados diante de seu retorno tão espantoso, enquanto Sasuke sentia suas feições tão endurecidas quanto o gelo do lado de fora, diante daquela cena tão devastadora; estava encarando uma realidade completamente oposta e muito mais dura de tudo que vivera até o momento. Enquanto esteve protegido e cercado pela prosperidade de seu clã, recebendo por direito as comodidades e facilidades que seu nome e sua linhagem garantiam para uma vida sem escassez, o Uzumaki esteve desbravando matas e quilômetros de neve por seu sustento; o Uchiha sabia que, pelas leis da Vila, a dupla certamente recebera certo auxílio, antes de serem plenamente capazes, mas como ele mesmo sabia por sua experiência similar, esse “auxílio” sequer chegava ao final do mês, e se não fossem as senhoras do distrito, não teria crescido tão saudavelmente. Considerando esse fato, era certo deduzir que antes de seu trabalho como ninjas começar, aqueles dois tiveram de aprender a viver com o que a natureza tinha a oferecer por sua própria conta; o panorama tornava-se mais cruel quando analisava esses pontos sem as vendas da inveja e do despeito.
— Dia abundante, Naruto? — Kakashi, por outro lado, fitava o rapaz muito complacido com sua maturidade tão notória.
— Foi produtivo, Kakashi-sensei; tudo bem, Sakura? — Sua resposta simples quebrou a tensão que sua imponente presença causava, então seus olhos penetrantes fixaram-se no Uchiha, analisando-o detidamente — Sasuke.
Antes que a conversa pudesse se alargar, o som do cutelo de Hinata desmembrando o cervo sobre a mesa soou como um alerta, e bastou Naruto fitá-la para entender que para seu bem, era melhor deixar a conversa para depois; com um aceno desajeitado, o jovem dirigiu-se para o banheiro, deixando suas visitas sós por um momento, com suas presenças sendo brindadas pelo funesto som seco e metálico do cutelo partindo articulações, ossos e carne. O som da água correndo no banheiro era o único ruído que rivalizava com as batidas rítmicas do metal na cozinha e o crepitar da lenha sendo consumida, Sakura, sentindo o peso do olhar de Sasuke sobre si — um olhar que já não lhe interessava — levantou-se silenciosamente; a presença dele, carregada de um arrependimento que a garota não estava disposta a validar, tornava o ar da sala rarefeito. Com um passo firme, a Haruno se retirou para a cozinha, buscando a proximidade daquela que agora moldava sua força; Hinata não interrompeu o trabalho, o cutelo descia com uma precisão cirúrgica, separando tendões e ossos do cervo com uma facilidade que beirava o hipnótico.
— Observe a junção, Sakura. — A voz de Hinata era baixa, mas carregava a autoridade de quem domina a anatomia não apenas para curar, mas para subjugar — Se aplicar a força no ponto exato onde a fibra se encontra com o osso, a resistência deixa de existir. É assim na caça, e é assim no combate. Nunca force; apenas encontre a falha.
Sakura assentiu, absorvendo a lição técnica, sob a tutela da Hyuuga, aprendia que a eficácia não residia no alarde, mas na contenção e no conhecimento profundo do alvo; enquanto ensacava as peças de carne fria, a garota sentia uma segurança que a sala de estar, com suas inquietações e incertezas, jamais poderia lhe oferecer. Na sala, a atmosfera estava carregada, Kakashi permanecia sentado em uma poltrona lateral, a postura aparentemente relaxada, mas os olhos visíveis acima da máscara mantinham uma neutralidade gélida, observando seu aluno remanescente com uma apatia arrastada, de um mestre que conhece o peso dos erros, mas não se apressa em oferecer redenção.
Sasuke, por sua vez, sentia-se um intruso em solo inimigo, encarando o assoalho, as mãos cerradas sobre os joelhos, tentando formular as palavras que seu orgulho ainda tentava sufocar; a inimizade com o Uzumaki era uma ferida aberta e purulenta, e estar ali, naquela cabana que exalava uma eficiência que ainda não alcançara, era uma tortura silenciosa. Entretanto, sua consciência dizia-lhe que aquele era outro obstáculo que deveria vencer, se queria ir adiante, precisava aprender a finalmente deixar sua pessoalidade de lado quando necessário, precisava aprender aquela maturidade tão escancarada que existia ali naquela casa; com a mente perdida em um turbilhão de emoções que não sabia processar e ensaiando tudo que deveria e pretendia dizer, o Uchiha aguardava o retorno do rival que ironicamente, sempre fora a razão de ainda estar vivo.
— Se você quer um conselho, garoto. — Num sussurro confidente, Kakashi aproveita a cobertura que os ruídos da cozinha providenciavam — Deixe as velhas rusgas de lado, concentre-se no que é essencial, foque no que precisa e no que deve.
Sasuke não desviou os olhos do chão, mas seus dedos se enterraram nos tecidos da calça; o conselho do mestre soava menos como uma repreensão e mais como um mapa para um terreno desconhecido.
— Para caminhar em uma direção nova, é preciso, primeiro, aceitar a estatura de quem está diante de você. — Kakashi prosseguiu, o olhar fixo na porta por onde o Uzumaki desaparecera — Se você permitir que seus fantasmas ditem o ritmo do seu passo, nunca alcançará quem já aprendeu a correr sobre as próprias cicatrizes.
— Eu não vim… para disputar nada, Kakashi. — A voz do Uchiha falhou por um breve segundo, desprovida de sua habitual aspereza — Eu só não sei por onde começar a organizar o caos que deixei para trás. É como se, a cada palavra que tento formular, o peso do que fiz me sufocasse antes que eu possa dizer a primeira sílaba.
Kakashi observou o perfil do aluno, notando a sombra de uma derrota que não era física, mas existencial, compreendia que Sasuke estava paralisado pelo próprio trauma, e que a verdade que o Uchiha agora também conhecia, fora um choque muito mais intenso para ele do que seria para qualquer outro em seu lugar; na cozinha, Hinata trabalhava sentindo a presença do Uchiha às suas costas, uma vibração que outrora representara ameaça e desdém. Contudo, ao vislumbrar pelo canto do olho a figura estática de Sasuke, algo na intuição da Hyuuga transformou-se; não havia nele o brilho cortante da arrogância, o que restava era uma casca, alguém cujos olhos carregavam o desengano de quem já não encontra abrigo na própria altivez. Percebia que aquela visita era um ato de desespero contido, uma tentativa de redenção de um espírito que se via sem saída; com um gesto gracioso, Hinata indicou a Sakura onde posicionar os fardos de suprimentos, suavizando sua postura, não ofereceria hostilidade a quem já parecia desarmado pela própria consciência.
Minutos mais tarde, o som discreto da porta do banheiro cortou a quietude e uma onda de vapor quente escapou, preenchendo a sala com o aroma familiar de cedro e damasco que parecia acompanhar Naruto desde sempre; uma fragrância que Hinata reconheceria em qualquer lugar do mundo. O rapaz surgiu com os cabelos ainda úmidos, desalinhados de forma rebelde, mas o semblante trazia uma leveza rara, como se o banho tivesse dissolvido parte das tensões que o acompanhavam; vestia roupas confortáveis e quentes, o cardigã vermelho envolvendo-lhe os ombros largos com uma imponência juvenil, e, pela primeira vez naquela noite, sua aparência relaxada parecia equilibrar a jovialidade de sua adolescência com a maturidade precoce que o destino lhe impusera. Naruto ainda tentou seguir até a cozinha, atraído pelo movimento de Hinata, mas bastou um único olhar dela — firme, ainda que doce — para que recuasse com um sorriso resignado; sentou-se então pesadamente no sofá, diante de Kakashi e Sasuke, afundando no estofado como quem finalmente se permitia descansar, o calor da lareira refletia em seus olhos azuis, e por alguns instantes, a atmosfera perdeu o peso de inquietação.
— Você parece ter finalmente lembrado que tem quatorze anos. — Kakashi comentou, com aquele humor seco que se escondia atrás da máscara.
— Talvez eu esteja aprendendo a equilibrar as coisas. Mas não vou mentir, sensei… se pudesse, ficaria só com essa parte da vida. — Naruto riu, passando a mão pelos cabelos ainda úmidos.
— Aproveite enquanto pode. — Kakashi replicou, recostando-se no estofado — A vida não costuma dar muitas dessas pausas.
A conversa seguiu leve por alguns minutos, entre provocações e lembranças de missões passadas, até que o tom mudou, Kakashi, com a calma de quem sabia medir cada palavra, explicou sobre os bloqueios que vinham dificultando o avanço do treinamento deles, barreiras internas que não se resolviam apenas com disciplina ou força de vontade; Naruto ouviu em silêncio, e seus olhos logo se voltaram para Sasuke, que permanecia retraído, quase escondido na própria sombra.
— Que tipo de bloqueios você está tendo, Sasuke? — Naruto perguntou diretamente, a voz firme e objetiva.
O Uchiha hesitou, o olhar fugindo para o chão, como se cada palavra fosse uma batalha, os sons abafados da cozinha, onde Hinata e Sakura se moviam, tornava sua confissão ainda mais difícil; a simples presença dela, tão próxima e, ao mesmo tempo inalcançável, pesava como uma muralha.
— Existe… existe alguma forma de trancafiar recordações sem esquecê-las? — Sasuke ergueu os olhos, e sua voz saiu baixa, quase um sussurro, como se temesse ser ouvido além do necessário.
— Que tipo de memórias você quer conter? O que elas fazem com você? — Naruto franziu o cenho, curioso.
— As memórias da Floresta da Morte… elas me atormentam. Cada vez que o treinamento fica mais intenso, elas voltam, e eu perco o controle. Não quero esquecê-las. Quero mantê-las como um recordatório. Mas preciso evoluir. Preciso avançar. — Embora a vergonha lhe queimasse por dentro, Sasuke respondeu com honestidade crua.
A voz dele tremia, não de fraqueza, mas pelo peso que carregava e que agora que era consciente de sua existência, o sufocava absurdamente; queria desculpar-se, implorar o perdão de Sakura, porém sabia instintivamente que não seria perdoado apenas por um pedido, tampouco considerava ter direito a pedir-lhe desculpas e sabia que as mágoas que causara em Sakura iam muito além do ocorrido durante o exame Chunin. Também havia a questão de Kakashi o estar vigiando quase vinte e quatro horas por dia, Sasuke sabia que tanto pelo selo de Orochimaru quanto pelas questões psíquicas explicadas por Inoichi, deveria ser vigiado, mas isso não ajudava quando tentava iniciar um pedido de desculpas a Sakura; cada vez que ensaiava as palavras, cada vez que uma atmosfera propicia para essa conversa surgia, Kakashi estava lá, surgindo com um novo treinamento para ele, corrigindo alguma postura anterior dela, como uma barreira humana entre os alunos.
Naruto o observou com atenção, reconhecendo naquela confissão não apenas uma dor angustiante, também a coragem de enfrentar o próprio abismo; o fogo da lareira estalou, como se pontuasse o momento, e por um instante, o silêncio entre eles foi mais eloquente do que qualquer palavra. Após um instante eterno, Naruto recostou-se, ponderando a situação com frieza, o olhar azul perdendo a jovialidade relaxada para assumir a profundidade de um estrategista; nesse momento, Sasuke não era um desafeto que lhe dera muita dor de cabeça, ou um objetivo que deveria ser protegido, ele era uma ferramenta danificada e impossibilitada de desempenhar sua função. Desde pequeno, a natureza ensinara a Naruto que ferramentas cegas são inúteis e uma arma instável é mais perigosa para quem a empunha do que para o alvo, portanto, ajudar Sasuke não era um ato de caridade ou o início de uma amizade — conceito que Naruto mantinha guardado sob chaves muito mais pesadas — mas uma necessidade de Estado; para o Uzumaki, o potencial do Sharingan e a linhagem Uchiha eram ativos valiosos de Konoha que estavam sendo desperdiçados em espasmos de trauma e deixar Sasuke quebrar seria uma falha de gestão de recursos.
— Por que você está fazendo isso agora? Antes não parecia que você se importasse com essas coisas. Por que a mudança? — Ainda que estivesse decido sobre o que fazer, Naruto queria ter uma ideia clara do que estava acontecendo ao outro.
— Meu irmão… Itachi… — Era a primeira vez em anos que Sasuke nomeava Itachi assim, e como um menino assustado, ele se deteve um instante — Quero ser útil para Itachi, para minha mãe, não quero mais ser protegido pelo sacrifício deles, quero carregar parte da carga também.
Havia uma sinceridade dolorosa ali, uma dor estrujante que latejava e irradiava por toda sua alma, mas havia alivio também, quando finalmente admitiu o que sentia, o que queria, Sasuke sentiu um enorme alívio; vendo como a tensão em seus ombros esvaia-se, e suas pupilas mantiveram-se normais, Naruto soube que o Uchiha dizia a verdade, e isso era suficiente para que pudesse estar tranquilo quanto a problemática tarefa que Itachi lhe encarregara.
— Há um método. — Naruto fala, sua voz assumindo um tom didático que fez Kakashi erguer uma sobrancelha — Não é um apagamento, é um isolamento cinético. Vou aplicar um selo de contenção de fluxo em três pontos do seu sistema nervoso central. Ele agirá como uma barragem: a memória continuará lá, mas a descarga de adrenalina e o refluxo de chakra que ela provoca serão drenados para um compartimento selado antes de atingirem seus músculos.
Kakashi ouvia, genuinamente impressionado, o conhecimento que Naruto demonstrava sobre a complexidade dos Fuinjutsu e sua aplicação direta na rede de canais de chakra superava em muito o currículo padrão de qualquer Jounin; o rapaz não apenas memorizara símbolos, ele entendia a engenharia por trás da pressão espiritual.
— Você está sugerindo um Selo de Absorção Residual Adaptativo? — Kakashi interveio, a voz carregada de um novo respeito — Isso exige um controle de chakra quase microscópico para não romper os canais.
— Eu não o faria se não tivesse certeza da minha precisão. — Naruto replica, sem qualquer traço de arrogância, apenas a confiança de quem domina sua ferramenta — Sasuke manterá todas suas memórias, mas sem que elas se tornem uma barreira que impeça sua eficácia Shinobi.
Enquanto a conversa técnica se estendia para um momento mais explicativo e menos denso na sala, na cozinha, o ritmo mudava, enquanto Hinata limpava o sangue espalhado pela mesa, Sakura guardava os últimos sacos de carne separados por peças no congelador, contemplando quanto havia aprendido, mesmo em uma tarefa doméstica; Hinata, no entanto, estava tão habituada àquela rotina, que sequer se detinha muito em qualquer outra questão, que não fossem os seguintes passos dos processos, por isso, com uma rapidez desconcertante, ela concluiu a limpeza, recolheu as ferramentas e a lona do chão, e por fim, separou um bonito pedaço de javali que havia reservado, e passou a temperar a carne com ervas e especiarias. A Hyuuga, apesar de concentrada em sua tarefa, também esteve atenta ao fato de que Naruto estava exausto, que caminhara por horas no frio carregando peso, e que certamente, estaria faminto; Hinata também considerava que se ele iria trabalhar em Sasuke ainda aquela noite, precisaria de energia. Enquanto preparava e picava legumes com agilidade, seus ouvidos treinados captaram o burburinho vindo do quarto das crianças, sinal de que sua impaciência e anseio chegaram ao limite; captando a mudança nas vozes da sala, agora novamente relaxadas e simplesmente discutindo processos com tranquilidade, Hinata olhou para Sakura e indicou com um aceno a porta do quarto, a Haruno prontamente compreende e vai abrir.
— Ele voltou! — O grito de Konohamaru ecoou pela casa, enquanto o menino corria, passando por Sakura como um furacão.
Hanabi e o pequeno Sarutobi dispararam pelo corredor parecendo dois vendavais de energia reprimida e antes que Naruto pudesse sequer se preparar, ambos se lançaram sobre ele no sofá; Konohamaru agarrou-se ao seu pescoço, enquanto Hanabi se aninhava entre seu braço recostando-se nele e escondendo o rosto naquele calor que lhe transmitia segurança, ambos bombardeando-o com perguntas que transbordavam a inocência que a sala quase esquecera.
— Estava muito frio lá fora, Naruto-nii? — Com uma preocupação puríssima, Hanabi questiona, seus dedinhos tocando suavemente as bochechas de Naruto.
— Você conseguiu encontrar os caminhos na neve? — Konohamaru lhe perguntava, com um rosto iluminado de admiração.
Diante do ataque, a expressão de Naruto desmoronou em um sorriso largo e desarmado, por um instante, o ninja de elite, o mestre em selamentos e o provedor implacável deram lugar ao jovem que, apesar de tudo, ainda encontrava seu ancoradouro naquele afeto ruidoso; Sasuke e Kakashi observavam a cena, a imagem daquele “monstro” de eficiência soterrado por duas crianças servindo como o mais profundo lembrete de que a força de Naruto não vinha apenas do que ele podia destruir, mas do que ele escolhera proteger.
— Calma, calma, um de cada vez! — Naruto ria, ajeitando Hanabi em seu colo com uma doçura que fez Sasuke desviar o olhar, sem saber como processar o que via — Não tanto, Nabi, foi suportável, e eu trouxe bonitas penas para te fazer flechas novas. Quando você for maior, Kono, te ensino a encontrar os caminhos mesmo na neve, e amanhã, vamos fazer um punhal com as presas do javali.
Enquanto Naruto dividia-se entre manter a explicação técnica a Kakashi e Sasuke, e as dúvidas sem fim de Konohamaru, que já desenhava em um papel novo como imaginava seu primeiro punhal, Hanabi, decidiu ignorar momentaneamente as conversas e ajoelhou-se atrás de Naruto no sofá; com dedos miúdos e curiosos, a menina começou a mexer nos cabelos loiros dele, ainda úmidos do banho e ligeiramente compridos, tentando formar pequenas tranças, e como se tivesse sido ordenado, Naruto inclinou a cabeça levemente para trás para facilitar o trabalho dela, tratando-a com a reverência que se dedica a uma verdadeira princesa.
— Naruto-nii? — Konohamaru o chama, subindo no encosto do sofá — Agora eu também vou ser um homem crescido?
— Ter uma arma nas mãos não torne ninguém um homem crescido, Kono. — Compreendendo a origem daquele questionamento, Naruto responde ao menino com firmeza e seriedade, embora lhe sorrisse calidamente — Um homem de verdade é quem sabe exatamente o que deve proteger e quando usar sua força. Entendeu?
O pequeno assentiu, absorvendo a lição com uma seriedade adorável, Naruto então voltou-se para Sasuke, enquanto Hanabi continuava concentrada em separar as mechas loiras, ocasionalmente puxando um fio com uma careta de concentração.
— Há um risco, Sasuke, o selo exige manutenção. — Naruto prossegue, a voz voltando ao tom clínico — O chakra residual precisa ser drenado periodicamente, ou o compartimento pode sobrecarregar.
— Essa drenagem afeta a rede neural? — Kakashi questiona, inclinado para frente, tentando ignorar a cena que via e manter a seriedade — Existe o risco de uma síncope se o descarte for rápido demais?
— É como uma drenagem de um edema. — Naruto explica, mantendo a postura para não desfazer o trabalho de Hanabi — Se o sistema dele entrar em pânico durante uma missão, o selo absorve o choque. Na manutenção, essa “energia negativa” é retirada. Mas se a drenagem for negligenciada, a barreira racha. E se rachar, o trauma volta com o triplo da intensidade.
— Naruto-nii? — Hanabi interrompe, puxando levemente uma mecha para chamar sua atenção, interessada repentinamente no assunto — Esse moço está doente?
— Não, Nabi. Ele só está enfrentando um dragão difícil, mas eu e você vamos ajudá-lo a vencer, não é? Agora continue sua obra de arte. — Com uma voz que parecia um arrulho, Naruto respondeu à pequena.
Sasuke sentiu o rosto esquentar, desconcertado com a dualidade de Naruto, que conseguia explicar a física de um selamento de Rank-S enquanto respondia com paciência infinita às observações infantis; Kakashi, por trás da máscara, sentia uma melancolia profunda, vendo em Naruto o pai que o rapaz nunca teve, e que sem dar-se conta, estava tornando-se por puro instinto, era um reflexo do que Minato teria sido.
— Você falou sobre três pontos de ancoragem. — Sasuke disse, tentando focar na técnica para ignorar o aperto no peito ao ver Naruto tratando Konohamaru com a firmeza que Fugaku sempre transformava em frieza — Por que o plexo solar? O trauma não reside apenas no cérebro?
— O chakra nasce no centro, Sasuke. — Naruto responde, sério, enquanto sentia a menina prendendo as trancinhas com fios de lã, retirados do sexto de bordar de Hinata ao lado do sofá — O medo faz seu coração disparar e seu estômago contrair. Se eu selar apenas a mente, seu corpo ainda vai trair você. Preciso que sua alma inteira concorde com o silêncio do selo. É uma harmonia entre o sentir e o agir. Se um falhar, o Sharingan não servirá de nada.
Konohamaru, sentindo a seriedade do tom de Naruto, sentou-se comportado ao lado dele, imitando a postura ereta do Uzumaki, e Naruto, sem desviar os olhos de Sasuke, passou a mão pela cabeça do menino, um gesto de aprovação silenciosa que valia mais que mil elogios; ali, naquela sala, Naruto estava curando Sasuke, ensinando Konohamaru e protegendo Hanabi, tudo ao mesmo tempo, e com uma naturalidade que tornava sua autoridade inquestionável, enquanto permitia que seus cabelos fossem adornados pelas mãos pequenas daquela que ele via como sua maior responsabilidade.
Na cozinha, o calor do fogão embaçava o vidro da janela acima da pia, o frigir da carne na panela de ferro misturava-se ao cheiro de ervas frescas, espalhando um aroma convidativo através do vapor que subia ao teto, enquanto Hinata e Sakura trabalhavam em sintonia; a Haruno secava uma tigela de cerâmica com movimentos lentos, os olhos perdidos num ponto da mesa que terminava de pôr, e Akamaru, percebendo a melancolia da jovem, deitou-se sobre os pés dela, oferecendo seu calor como um consolo silencioso.
— Hina… — Sakura chama-a num sussurro, a voz carregada de hesitação — Posso te perguntar uma coisa?
Hinata parou de mexer a panela e olhou para Sakura aguardando com paciência genuína; por um instante, a Haruno fitou seus olhos na sala, trêmula e angustiada, temendo ser ouvida.
— Mais tarde, vou te mostrar aqueles pergaminhos especiais que te falei da última vez, então nós conversamos. — Entendo ao instante o que atemorizava a garota, Hinata intervém — Vocês terão de passar a noite aqui, de todo jeito, então teremos tempo.
— O quê? — Confundida pela afirmação repentina, Sakura até esquece suas dúvidas.
— A essa altura a neve já deve ter alcançado o telhado, é perigoso sair a noite com esse clima, aqui nessa parte da floresta há muitos declives e ribanceiras íngremes que se escondem debaixo da neve. — Tranquilamente, Hinata relata, voltando a concentrar-se nas panelas — Não se preocupe, nós temos tudo para o conforto das visitas nessa época do ano.
Serenamente, Hinata continua com o preparo do jantar com uma agilidade que faria inveja a Teuchi, salteando legumes na manteiga, acrescentando tofu frito, raiz de bardana, raiz de lótus e folhas de crisântemo ao caldo da carne, ao mesmo tempo, em que preparava uma sopa de missoshiru e arroz selvagem; assistindo-a deslizar pela cozinha e temperar aquela refeição com tamanha devoção e carinho, Sakura aprendia outra faceta da mestra, uma que poucas pessoas tinham o privilégio de conhecer, para além de sua identidade como Kunoichi letal e a rigidez autoritária de seu comando.
— Você o ama muito, não é? — Sem dar-se conta, Sakura acaba indagando, após captar o olhar afetuoso de Hinata em direção à sala — Desculpa, eu…
— Sim, amo muito. — Sem se importar e com as bochechas coradas, Hinata responde firme, e todo seu rosto iluminou-se nesse instante — Naruto e aquelas duas crianças que dependem de nós. Você está se sentindo solitária, não está?
— Não é como se eu não entendesse, Sakumo-nii um dia vai ter sua própria família e tudo que quero é que ele seja muito feliz. — Sakura confessa, impressionada por Hinata ter captado sua melancolia mais cedo — Mas é um pouco desgostante dividir a atenção da única pessoa no mundo para mim; apesar de que, agora, consigo me aproximar dos outros sem ser repelida como uma praga.
— Bem, você não está sozinha, somos amigas, e pelo que tenho visto das suas disputas com Kakashi-sensei, parece que ele te elevou também a esse nível, e um dia, Sakura, você terá alguém para amar, alguém que vai te ver como seu irmão te viu, como nós te vemos, então não se deprima e continue com esse excelente trabalho. — Hinata a encoraja e anima com uma gentileza desbordante.
Sakura estava feliz por ser ouvida, e por mais que estivesse um tanto cabisbaixa, ao menos agora, sabia que tinha pessoas queridas que a escutavam sem reservas, e que estavam dispostas a levantá-la nesses momentos de deriva.
— Ouvi meu nome e decidi verificar o que você anda fofocando de mim, Sakura? — Silenciosamente, Kakashi surge na cozinha, pregando um enorme susto na garota.
— Céus… deixe de ser enxerido, Kakashi-sensei! — Por pouco Sakura não derruba a vasilha no chão — Viu só? É por isso que te digo, não faça essas coisas, você vai espantar todas as suas pretendentes se continuar com essa mania de bisbilhotar conversas alheias! Já pensou como vai ser solitário, quando todos os seus alunos estiverem casados e só você continuar sendo um solteirão?
— Não estou solitário, Haruno. E estou ocupado garantindo que vocês se tornem Shinobis decentes. — Como havia virado costume, Kakashi retruca prontamente as alfinetadas dela.
Rapidamente, os dois se envolvem em uma disputa de troca de farpas, réplicas ácidas e previsões desastrosas sobre o futuro, apenas para implicar um com o outro, provando a Hinata o que acabara de dizer a Sakura: Kakashi elevara a garota ao mesmo nível de Guy; o mais irônico daquilo, é que nenhum dos dois deu-se conta disso.
— Eles começaram de novo? — Sentindo o cheiro de comida deliciosa, Naruto entra na cozinha, observando a pequena algazarra, e seu novo visual faz Hinata sorrir.
O Uzumaki estava com o cabelo repleto de trancinhas atadas por fios de lã coloridos, e parecia muito contente ostentando-as, enquanto ambas as crianças lhe seguiam os passos como se fossem sua sombra; atrás deles, o Uchiha os seguia com um caminhar rígido e dubitativo, perdido naquele ambiente caloroso e hospitaleiro. Minutos antes, quando a conversa técnica encerrou-se, Sasuke pensara que seria o momento em que Naruto faria o Fuin, mas contrariamente ao esperado, apenas o ouvira dizer que o jantar estava pronto, antes de deixar a sala; agora, assombrava-se com a percepção do outro, ao ver como a Hyuuga colocava a refeição na mesa.
— Que se pode fazer? — Rindo, Hinata encolhe os ombros, e acaricia o rosto das crianças, já ocupando seus lugares — Belo trabalho, Nabi. Vamos nos sentar pessoal?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Durante alguns minutos, tudo que ouviu-se foi o arrastar das cadeiras pelo assoalho, o tilintar dos hashis e da porcelana da louça, enquanto o aroma da comida misturava-se ao vapor da cozinha e o crepitar da lareira, criando uma sinfonia olfativa com o cheiro de fumaça e resina da lenha queimada; as criança, animadas e risonha, sentaram-se primeiro, sendo seguidas de Kakashi e Sakura, o mais velho com uma presença tão intrínseca quanto as próprias vigas que sustentavam o teto, a mais nova com uma familiaridade encantada, como quem ainda descobria o deleite mágico que aquela cabana propiciava. Sasuke, no entanto, sentou-se um tanto rígido, sem saber como reagir, o que dizer, como comportar-se diante daquele cenário lhe era tão singular, ao mesmo tempo, em que lhe era saudosamente conhecido; foram tantos anos, desde que tivera um jantar assim cheio de cor e vida, que as recordações de sua mãe e Itachi ao redor da mesa lhe atingiram violentamente, quando Hinata alcançou-lhe o missoshiru tão fragrante quanto o que Mikoto fazia, que o simples aroma formou um nó em sua garganta.
— Eu… sinto muito… — De cabeça baixa, sua voz saiu ainda mais quebrada e baixa, mas Sasuke soube que fora ouvido.
Embora temesse erguer seu olhar e encontrar as acusações de todos os erros que cometera, o Uchiha atreveu-se ainda assim, tinha de ser sincero, era o justo e correto naquela situação, ainda mais naquela mesa, composta principalmente, por pessoas que prejudicara e ferira com suas ações e arrogância; entretanto, o que encontrara foram olhares que o fitavam de volta com seriedade, sem nenhum atisbo de julgamento ou burla.
— Coma. Para evoluir, tanto a mente quanto o corpo devem estar sãos. — A voz de Naruto soou com a mesma civilidade com que estivera tratando-o a noite toda, e por alguma razão, isso foi o mais reconfortante.
Um sossego apreciativo caiu sobre a mesa, repleta daquele calor que alimentava tanto quanto protegia e por algum tempo, tudo que ouviu-se foram exclamações da mais pura satisfação, que logo transformaram-se em conversas paralelas e variadas, tornando o jantar num ambiente de tagarelice sem fim; o contraste era impressionante, era como se existissem várias frequências sintonizando naquela mesa simultaneamente, e longe de soar confuso e ininteligível, a atmosfera possuía uma clareza límpida.
— Vi Kurenai-sensei saindo de uma consulta ontem com Asuma-sensei. — Sakura comenta, o olhar fixo em Hinata — Parece que a primeira cirurgia vai ser logo, ela disse que você vai participar.
— Sim, agora que o bebê está mais forte, o procedimento será seguro, recebi hoje de manhã os últimos exames e os relatórios. — Hinata conta parecendo imensamente aliviada.
— Você está nervosa? — Sakura, por sua vez, parecia estar mais apavorada que a Hyuuga pelo assunto.
— Mentiria se dissesse que não, sempre há riscos, mas é para isso que estudamos e repetimos processos à exaustão. — Com uma serenidade que dizia o contrário, Hinata responde — Mas a Godaime vai estar lá, então creio que tudo ficará bem.
— Tenho certeza que vai ficar tudo bem, Hina! — Em um tom mavioso que só usava com ela, Naruto a reconforta e encoraja segurando-lhe a mão sobre a mesa.
— Como foi que você conseguiu um dia de caça tão proveitoso, Naruto? — Notando como seus alunos ficavam envergonhados com a demonstração de afeto flagrante do Uzumaki, Kakashi traz um novo tema, enquanto tentava não rir de suas expressões — Quando fizemos a escolta do último carregamento de suprimentos, não vi nenhum rastro pelo caminho, e nem havia nevado ainda.
— Basta saber onde os animas se escondem nessas épocas, sensei. — Concentrando sua atenção no Hatake, Naruto explica — Sempre há retardatários ou aqueles que não migram e acabam hibernando pela região, e com a armadilha certa, o esforço é mínimo.
— Você usou só armadilhas? — Assombrado, Sasuke não consegue evitar perguntar.
Iria manter-se o mais quieto possível, tanto por sua inaptidão para a interação social, quanto por não querer impor sua presença além do necessário, mas ouvir aquela informação, despertara sua curiosidade.
— Nessa época e durante a primavera, as presas grandes ficam mais agressivas, principalmente os machos. Então não se pode utilizar armas diretamente, você nunca conseguiria chegar perto, sem estressar demais o animal e acabaria estragando a carne. — Assumindo uma tonalidade diádica, o rapaz ensina prontamente.
— Por que na primavera também? — Outra vez Sasuke não pode conter sua língua.
Entendia que no inverno os animais hibernavam, mas não encontrara a razão em seus conhecimentos para a outra estação.
— Porque é época de acasalamento e os machos ficam terrivelmente irritadiços e territoriais. — Com a mesma intenção de ensinar, Naruto segue respondendo — Então, durante o inverno e a primavera, se utilizam armadilhas.
Contudo, o Uchiha, que estava absorvendo a informação nova atentamente, teve um sério engasgo com um pedaço de carne; primeiro, Sasuke tentara disfarçar, mas quando não conseguira voltar a respirar, não pode mais ocultar. Kakashi lhe alcançou uma xícara de chá com mãos trêmulas e ombros balançando-se, pelo esforço ferrenho para não gargalhar, o que só contribuíra para o aluno ficar ainda mais vermelho; ao lado do sensei, Sakura escondia o rosto entre as mãos, não sabendo se ria de Sasuke, ou da cômica situação criada pela seriedade instrutiva de Naruto. Indiferente ao colapso mental que causara no Uchiha, Naruto fixa seu olhar nas crianças, quietadas e comportadas demais durante todo aquele tempo, um sinal claro de alguma traquinagem; ao seu lado, Hinata os analisava com um sorriso discreto nos lábios, claramente já os havia flagrado e se divertia estudando até que ponto iriam. Com uma inocência fingida, Konohamaru e Hanabi deslizavam “secretamente” para debaixo da mesa, filetes generosos de carne a Akamaru e as gatas; a rigidez para manter seu bom comportamento era tanta, que ambos os encrenqueiros nem se olhavam, tentando manter a fachada de “não estou fazendo nada”.
— Vocês dois vão dividir a sobremesa também? — Com uma expressão que não denunciava nada, Hinata os faz saber que foram descobertos.
— Eles se comportaram hoje? — Numa tática quase infalível de desvio de foco, Naruto intervém.
— Sim, apesar de terem usado o que aprenderam nas lições para alcançar o pote de biscoitos antes do almoço. — A tática falha, ao fazer Hinata recordar outra travessura da duplinha.
Fitando-os como quem pedia para não aprontarem tanto num mesmo dia, Naruto tentava não delatar-se com o riso estrangulado na garganta, ao encontrar as expressões de culpabilidade deles; Hinata não estava zangada, mas entre o casal, era ela quem controlava o caos, portanto, sempre que a Hyuuga usava essa expressão séria, os três se congelavam.
— Bem, eles vão se comportar mais de agora em diante. — Usando um tom apaziguador, o Uzumaki afirma.
Ao fim do jantar, Hinata serviu para o deleite de Kakashi, Manju com recheio de castanha acompanhado de Hojicha, as conversas voltaram a fluir com a passividade de um rio, e ainda que o vento uivasse do lado de fora, aquela calidez relaxante inundava a todos, fazendo até mesmo o Uchiha estar cômodo mesmo sem a familiaridade de Sakura ou a afinidade de Kakashi; quando o sono começou a apoderar-se das crianças, elas foram levadas para a cama, após Hinata providenciar mudas de roupas aos seus visitantes — para Kakashi as vestes esquecidas de Asuma, para Sakura um conjunto seu, e para Sasuke peças de Naruto — dizendo-lhes para estarem à vontade. Antes de acompanhá-la em sua tarefa de pôr os pequenos para dormir, Naruto indicou a Kakashi o armário ao lado da estante da sala, onde guardavam futons e mantas extras.
— Naruto-nii… amanhã vamos à pradaria…? — Ainda lutando contra o sono, Konohamaru pede.
— Sim, Kono, amanhã. — Afagando os cabelos do menino, Naruto garante.
Na cama ao lado, Hanabi já ressonava com Myuki aos seus pés, enquanto agarrava a outra mão de Naruto, Hinata ajustou suas mantas e ligou a luminária — desde o ataque um item necessário para o sono tranquilo das crianças — menor antes de apagar as luzes; ao retornarem à sala, Sakura já estava sentada em um dos futons com Akamaru no colo, conversando com Kakashi ao lado. Quando Sasuke sai do banheiro, Hinata aproveita o momento que Naruto estaria ocupado com o Fuin para chamar Sakura até o quarto, para terem a conversa que não puderam antes em privado; enquanto via o rapaz desenhando runas e símbolos da equação num pergaminho limpo, Kakashi usava seu único Sharingan para aprendê-lo, pois segundo Naruto, seria necessário no futuro ou em casos de emergências.
— É uma fórmula simples, mas se não estiver milimetricamente no lugar, pode ter uma reação contrária ao esperado. — Naruto dizia ao passo que concentrava e condensava seu chakra.
— Então para a drenagem, é o reverso? — Kakashi questiona, sem desviar os olhos do pergaminho.
— Sim. — Ao terminar, com uma facilidade absurda, Naruto ergue o rosto — Fique em posição de meditação, Sasuke, e se concentre nessas lembranças que quer guardar.
Assim que o Uchiha senta-se sobre o futon, a gola do moletom de Naruto que vestia pende algo frouxa por seus ombros, contrastando uma diferença de estatura surpreendente visto que os rapazes tinham apenas dois meses de diferença; tranquilamente, sentou-se a frente dele e tocando suas têmporas, infundiu chakra em suas mãos, iniciando o Fuin. Sasuke sentiu um repuxo, como se um vórtice violento o estivesse engolindo, deixando-o nauseado e tonto a ponto de começar a suar frio, e no instante seguinte, a sensação desapareceu; Naruto se afasta nem bem transcorreram cinco minutos, revelando uma habilidade para Fuinjutsus além do nível normal.
— Já está, com isso deve bastar. — Sua voz soou um pouco desgastada, embora seu rosto não mostrasse nenhum sinal — Fique atento a qualquer sensação ou reação estranha que possa ter, teremos que monitorar por mais alguns dias, por precaução.
— Obrigado. — Aquelas palavras estranhas pesaram na boca de Sasuke como areia.
— Trabalhe direito e isso basta. — E como uma navalha que nunca perde o fio, Naruto retruca — Bem, vou dormir, fiquem à vontade. Boa noite!
Quando Naruto dirigiu-se ao quarto, Sakura já saia de lá, os ombros relaxados e a expressão sem qualquer traço das preocupações que tanto lhe incomodavam até o momento; praticamente arrastando-se para debaixo das cobertas, após fechar a porta e apagar as luzes o Uzumaki encontra o calor aconchegante de Hinata, trazendo-a para seu abraço, inspirando profundamente.
— Que dia. — Naruto comenta num sussurro.
— Parece que não precisaremos nos preocupar por um tempo. — Enterrando o rosto no peito dele, Hinata se acomoda.
— Isso é bom, estava pensando numa contramedida enquanto estivéssemos fora, mas acho que não vamos precisar. — Sentindo o corpo relaxar, Naruto fecha os olhos — Acho que mais gente vai se comportar de agora em diante.
Abraçados e confortavelmente envolvidos pela calidez que trocavam mutuamente, seus sussurros seguiram por uns minutos mais, agora mais leves e abordando temas distantes dos problemas da Vila, das obrigações e responsabilidades, eram sussurros de carinho, de cuidado compartilhado, pequenas declarações trocadas que renovavam a força e os sentimentos em seus corações; a nevasca do lado de fora seguia forte e ininterruptamente, enquanto o calor abundava naquele lar construído com dedicação e esforço, que parecia também ter se transformado em um templo de redenção.
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