O Sol e A Lua
39 Horizonte
Notas iniciais

— Que tal? — A voz gélida e abafada de Naruto quebra o silêncio.
— Não parece existir complicações. — Inoichi responde imediatamente.
Estavam em frente a uma enorme janela de observação, alguns metros abaixo no subsolo de Konoha, dentro daquela sala, Hinata fazia as últimas checagens médicas e averiguações, enquanto Naruto, Tenzou e Inoichi assistiam, ocultos pelo vidro; naquela manhã a garota resgatada da Floresta da Morte durante os exames Chunin acordara. Após uma primeira inspeção mental cuidadosa e à distância, o líder Yamanaka não encontrara nada fora do comum, nada que pudesse levantar novas suspeitas sobre a paciente, ou que acendesse novos alertas para o comando da Vila.
— Vamos. — Ao ver Hinata assentir, fitando o local onde estavam ocultos, Naruto se encaminha para a porta.
O “quarto” bem iluminado e amplo que a garota fora transferida ao acordar contrastava absurdamente com o corredor escuro e úmido do lado de fora, e graças aos aparelhos médicos apitando e dos diversos documentos e prontuários, nada denunciaria que aquela era uma sala de interrogatórios; devido ao esforço de Ibiki, já tinham uma noção da situação atual e da linhagem daquela jovem, mas para Naruto isso não era suficiente, portanto, a paciente só receberia “alta” quando estivesse confirmado com exatidão percentual, que não seria um risco para Konoha.
— Era você. — Sentada no leito hospitalar, a garota fixa seus olhos vermelhos em Naruto, assim que ele passa pela porta.
— Eu? Quando? — Com os braços cruzados e uma sobrancelha arqueada, o Uzumaki indaga, detendo-se ao lado de Hinata.
— Essa presença cálida e abundante que estive sentindo. — A garota responde com olhos brilhantes — Seu chakra deve ser igual, não?
— Você é uma ninja sensorial? — Impressionado com o potencial da garota, visto que esteve o tempo inteiro ocultando seu chakra e sua presença, Naruto inicia o interrogatório — Em qual delegação você veio para os exames?
— Sim, meu time é de Kusagakure. — Em comparação com os diálogos anteriores, suas respostas são simples e curtas.
— O que aconteceu na floresta? — Com calma, Naruto prossegue.
— Havia uma serpente enorme, os garotos estavam em confronto com ninjas da névoa. — Sem alterar-se, a garota conta — Tudo aconteceu muito rápido, eu disse que devíamos correr e abandonar aquela tentativa, quando ficamos encurralados, eles correram numa direção oposta à minha, eu só tentei me esconder o mais longe possível.
Analisando-a, Hinata deduzia o que o tom de voz e a postura da outra revelavam e que eles mesmos já suspeitavam, não foi apenas uma separação desastrosa entre os membros de uma equipe, ela havia sido abandonada à própria sorte pelo seu time; dirigindo seu olhar para Inoichi, quem prescrutava as memórias da jovem em silêncio, a Hyuuga confirma suas deduções ao vê-lo assentir suave e discretamente.
— Como você se chama? — Hinata pergunta docilmente — Você tem família em Kusagakure?
— Karin, me chamo Karin. — Com um suspiro de alívio, certamente pela mudança de tema, a garota responde — Eu tinha minha mãe, atualmente estou sozinha.
— E você sabe que é uma Uzumaki, Karin? Como você e sua mãe foram para Kusagakure? — Novamente, Hinata indaga com uma suavidade desarmante.
— Não lembro muito bem, eu era mais nova, lembro apenas que minha mãe recebeu autorização para refugiados para nós duas, desde que ela trabalhasse no hospital, curando os feridos. — Quando Karin revela o acordo com os lábios crispados e uma expressão dolorida, fica claro que tipo de acordo era — Minha mãe contou que éramos descendentes do clã, e que eu nunca devia dizer a ninguém, mas como você já sabe…
A garota dá de ombros, indiferente ao fato de que já sabiam de sua linhagem, após anos naquela incerteza e sem nenhuma garantia de segurança, não havia muito mais que pudesse fazer para sua proteção, havia apenas passado de um proprietário a outro; Karin tinha consciência de sua desvantagem e de como era questão de tempo até que outra grande Vila começasse a explorar suas inusuais habilidades de cura, sua mãe morreu por essa mesma exploração, talvez o tempo dela só tenha chegado mais cedo.
— O que são essas marcas? — Como se fosse para confirmar suas predições do próprio futuro, Hinata lhe questiona, tomando-lhe do pulso.
— Meu sangue tem propriedades curativas, pode ser um Kekkei Genkai, não sei… — Num fiapo de voz, Karin conta; sempre era menos doloroso admitir primeiro.
Ao escutar a resposta, todos os presentes sentem um arrepio tenebroso passar por seus corpos, quando a compreensão do que a jovem esteve vivendo lhes chega, e com uma sincronia que parecia ensaiada, todos fitaram Naruto ao mesmo tempo; a história oculta sobre o extermínio do clã Uzumaki não era nenhum segredo ali na Divisão, e descobrir a vida que os descendentes estiveram vivendo pelo mundo afora, reaviva as chispas daquele assunto enterrado.
— Você quer voltar? — O rosto de Naruto estava ensombrecido ao fazer essa pergunta, apenas seus olhos brilhavam terrivelmente.
— Posso ficar? — Abismada, Karin pergunta.
— Vamos te designar para um time, aqui terá abrigo, nossa única condição para te refugiar é o seu trabalho como Kunoichi. — Apesar da voz gélida e cortante, aquelas palavras tinham mais calor que o sol para Karin.
Quando a porta abre-se novamente, um recruta informa que Kakashi chegara, ao passo que uma enfermeira entra trazendo uma refeição quente e nutritiva.
— Coma, você precisa ganhar forças, esteve muito tempo em coma. — Com a mesma suavidade de antes, Hinata ajusta o suporte sobre o leito.
Deixando a garota sob os cuidados da enfermeira, o grupo deixa o cômodo, encontrando-se com o Jounin no corredor, em frente à mesma janela de observação, aguardando; improvisadamente naquele corredor escuro, uma pequena reunião começava.
— Você tem certeza disso, Naruto? Não seria melhor observar mais um pouco? — Preocupado, Inoichi questiona.
— O melhor método para descobrir sobre alguém é deixar o alvo livre para agir como quiser. — Sem deixar-se levar pela preocupação do Yamanaka, Naruto retruca — Logicamente, manteremos uma vigilância constante. É provável que Orochimaru também a estivesse rastreando como um objetivo, por isso, considero que o melhor seria integrá-la ao time sete, você concorda, Kakashi-sensei?
— De fato, como ainda não temos certeza sobre o que aconteceu ou o paradeiro de Orochimaru, o melhor seria manter todos os possíveis alvos juntos. — Apaticamente, beirando o desinteresse, Kakashi pondera — É um método arriscado, mas igualmente eficaz.
— E sobre a condição mental? Será possível uma integração normal e produtiva? — Tenzou questiona diretamente Inoichi.
— As capacidades cognitivas e intelectuais estão intactas, um único ponto de atenção seria a estabilidade psicológica, principalmente depois desse interrogatório. — Observando a garota através do vidro, Inoichi dá o seu parecer — Ao menos, as varreduras mentais não revelaram nenhuma incongruência nas memórias, nada plantado, nada alterado.
— Bem, então vamos resolver a parte burocrática e agilizar a documentação. — Com todos os pontos mais urgentes discutidos, Hinata finda a reunião.
A penumbra da tarde alongava as sombras no escritório, onde o ar denso e saturado pelo cheiro de pergaminho antigo e lacres de cera parecia pulsar conforme o trabalho avançava; Naruto e Hinata moviam-se com uma precisão coreografada, um fluxo contínuo de documentos passando de suas mãos para as de oficiais da ANBU e recrutas que entravam e saíam em um silêncio reverencial. Cada pasta entregue, cada diretriz de patrulha ou relatório de inteligência transferido, representava um fragmento do fardo que ambos carregaram por anos, uma transição que ocorria de forma tão fluida que a própria estrutura da Divisão parecia se reajustar organicamente sob o comando das novas mãos; a burocracia de registro de Karin como Kunoichi de Konoha foi finalizada com um carimbo seco e definitivo, enquanto Hinata organizava as últimas pilhas de transferências de cargos e delegações de obrigações que seriam distribuídas aos membros mais competentes, garantindo que a transição para as novas diretrizes de comando fosse isenta de qualquer distúrbio.
— Próximo. — A voz de Naruto, embora baixa, ressoava com a autoridade de quem moldara o destino daquela unidade nas sombras.
Dois vultos familiares cruzaram o limiar da porta, movendo-se com a agilidade silenciosa de predadores treinados: Karasu e Tora; as máscaras formando um corvo e um tigre pareciam mais cintilantes sob a luz difusa que passava pelas janelas.
— Relatório de prontidão? — Shikamaru indaga com sua habitual apatia calculada, embora seus olhos astutos notassem o vazio incomum nas prateleiras que antes transbordavam arquivos confidenciais.
— Mais do que isso, Shikamaru; a partir de agora, o peso deste escritório recai sobre vocês dois. — Naruto levanta o olhar, a frieza de sua expressão suavizando-se apenas o suficiente para denotar a confiança absoluta que depositava em seus discípulos.
— Sairemos em uma expedição no seguinte mês, será uma jornada mais longa, portanto, vocês assumirão como Tenentes interinos desta divisão. — Hinata complementa, sua voz gélida e cortante não ocultando a gravidade da tarefa que lhes entregava.
O silêncio que se seguiu foi absoluto; Sai, cujas reações eram sempre contidas, permitiu que um leve arquear de sobrancelhas denunciasse sua surpresa, enquanto Shikamaru processava a magnitude da responsabilidade, sentindo o peso invisível das obrigações que Naruto e Hinata carregavam há anos.
— E os pequenos? — Após alguns segundos de reflexão, Shikamaru indaga sobre a pedra angular dos amigos.
— Obviamente, irão conosco. — Sem titubear, Naruto afirma.
É quando o tabuleiro fica claro para Shikamaru e Sai, a expedição de limpeza era apenas uma cortina de fumaça oficial para uma saída segura e legítima da Vila, já que evidentemente, seus amigos não levariam duas crianças a uma de suas expedições de caçada; quando essa compreensão lhes chega simultaneamente, os rapazes sentam-se pesadamente nas poltronas em frente à grande mesa.
— Tá legal, o que está acontecendo? — Diferente de outros subordinados abaixo dos dois, o Nara tinha a liberdade que a amizade lhe concedera, portanto, questionara sem medo.
— Digamos que estamos nos adiantando ao futuro estipulado por outros. — Fornecendo um mínimo de informação, Hinata revela.
— Itachi enviou novas informações? — Tal como Shikamaru, Sai tinha um raciocínio estupendo.
— Teremos dois anos, a contar do seguinte verão. — Contente pela rapidez com que os amigos compreendiam a situação geral, Naruto confirma suas deduções — Iríamos somente no próximo ano, mas decidimos que seria melhor ter mais margem de tempo.
— Bem, suponho que o clima também é o ideal neste caso. — Shikamaru, que já sabia do plano para o ano seguinte, termina de analisar o plano de ação — Teremos uma central de comando de lá?
— Assim que nos estabelecermos, também pretendemos iniciar o plano B assim que a fase de moradia e segurança for estabelecida. — Tranquilamente, como se ignorasse os desafios vindouros, Hinata afirma — Vocês vão encontrar nesses documentos todo o detalhamento e diretrizes para isso, assim como os protocolos de controle e segurança para o primeiro contato.
— Neji sabe? — Mudando o enfoque para o lado pessoal, Sai questiona.
— Vocês são os primeiros a serem informados, logo diremos aos outros. Ainda estamos organizando a logística final da viagem, por quê? — Confundido com o novo tema, Naruto explica.
— Bem, ele vai entrar em colapso, no mínimo, quando a confusão se instaurar. — De uma forma um tanto zombeteira, Sai responde.
— Não entendo, sei que é surpreendente e gera preocupação que façamos essa viagem, mas não é nada novo no nosso entorno como Shinobis. — Focado apenas na razão lógica, Naruto comenta.
— O caso é, Naruto, que você vai levar Hinata para longe, para estabelecer moradia em um lugar distante e remoto; é diferente de sair em missões e retornar à Vila, vocês ficarão fora um bom tempo e os conservadores falam. — Pontuando apenas as partes relevantes para a observação de seu companheiro, Shikamaru fala — Nós sabemos, compreendemos e sinceramente, ninguém deveria meter o bedelho; mas a velharia de Konoha é diferente e o clã Hyuuga pode acabar envolvido e gerar conflitos devido à superproteção daquele idiota.
— Pensem bem, já estão muito interessados no fato de vocês ainda viverem juntos na cabana, não lembram da briga de Neji na semana passada com aquele Jounin? — Sai relembra o ocorrido.
Imediatamente, todos os problemas e sanções disciplinares que tiveram de ser aplicadas retornam à mente dos quatro, e os suspiros de frustração ecoaram pela sala ao mesmo instante; Konoha, agora recuperada e adquirindo uma supremacia econômica e política, voltava aos seus antigos costumes: a fofoca descontrolada e indiscriminada. Para uma porcentagem da população, parecia muito interessante, não em um sentido adequado, o fato de a dupla ainda viver juntos e afastados naquela floresta e como muitas senhoras pontuavam indignadas, nessa idade tão “perigosa”; a conversa de rua começara a ganhar força, quando o relacionamento amoroso da dupla, que antes era conhecido apenas pelo seu círculo mais íntimo de amigos e alguns membros da divisão, deu-se a conhecer aos civis de Konoha.
— Ah… — Um gemido desanimado escapou dos lábios de Naruto — O Neji é como uma armadilha de Rank-S ambulante.
— Basta ignorar, as pessoas perderão o interesse e logo vão encontrar outro assunto. — Serenamente, Hinata não resta muita importância ao tema.
— O problema é que o Neji não vai ignorar, Hina, ele vai reagir toda vez que ouvir algo e isso vai alimentar a fofoca, e sendo o legítimo herdeiro do clã, os conflitos futuros serão um problema. — Invejando a tranquilidade dela, Shikamaru retruca.
— Vou resolver isso antes da viagem. — Decidido, Naruto garante aos amigos.
— Certo, então vou eliminar a bomba Neji das preocupações. — Curioso sobre a providência que o amigo tomaria, mas seguro de que seria eficaz, Shikamaru volta-se a outras questões — Devemos continuar com as buscas e investigações sobre Orochimaru?
— Sim, enquanto não houver um corpo para decretar o óbito, as buscas continuam. — Estendendo um pergaminho aos dois, Hinata foca no assunto — Mapeamos as últimas expedições e investigações das equipes, aqui contém todas as possíveis localizações ainda não exploradas, para além daquelas fornecidas por Kabuto.
— E o que faremos com ele? — Sai indaga, conferindo as informações do pergaminho com suas próprias anotações sobre o caso.
— Kabuto será eliminado após a inspeção mental final de Inoichi, antes de partirmos. — Indiferente, Naruto sentencia — Precisamos que Sakumo volte a estar operante e não há muito mais que Kabuto agregue à investigação sobre os experimentos de Orochimaru.
Aquele final de tarde preencheu-se com informações trocadas, ordens extraoficiais dadas, entre padrões e diretrizes protocolares estabelecidos paras as mais diversas, impensadas e inusitadas situações; a dupla não preocupava-se com o previsível e corriqueiro da vida Shinobi, essas ocorrências comuns e quase cotidianas eles sabiam que seus discípulos ocupar-se-iam exemplarmente, o que lhes trazia insegurança eram as questões extraordinárias daquele meio, detalhes que às vezes a mente humana, limitada pela rotina e tranquilidade da paz, cegava-se.
***
O mercado aberto, como sempre, estava borbulhante de vida, as fragrâncias, bulícios e tilintares misturando-se aos sons das vozes exaltadas dos comerciantes, acompanhados por risos, conversas e o calor massivo que as multidões proporcionam; caminhando por entre os locais, os vendedores e as caravanas diversas, uma pequena e inusual família fazia suas compras tranquilamente, enquanto era seguida por olhares curiosos, assombrados e admirados em quantidade. Sobressaindo por entre uma parcela significativa dos transeuntes, Naruto caminhava com Hanabi tomada pela mão, enquanto trazia as compras na outra, mantendo os olhos fixos em Konohamaru à sua frente; adiante deles, Hinata verificava as texturas, os aromas e a cor de legumes, vegetais, grãos, temperos e mais um sem fim de produtos, acrescentando volumes às sacolas que o Uzumaki carregava como se fossem nada.
O que destacava, em verdade, para além das fofocas e rumores circulantes, era a absurda estatura que Naruto ostentava pela primeira vez desde o último outono entre os habitantes da Vila; aqueles que o viram esporadicamente durante o inverno notaram ao instante como o rapaz estava mais alto do que os jovens em sua mesma faixa etária, como seus ombros alargaram-se alarmantemente, e como seus músculos deixariam os Jounins adultos de Konoha com inveja. A diferença tornava-se mais notável quando o Uzumaki, movido por seu instinto protetor e solícito para com sua companheira, curvava-se diligentemente para ouvi-la, arqueando suas costas até que seu rosto estivesse à altura do de Hinata; e a Hyuuga, por sua vez, parecia que da noite para a manhã, transformara-se em toda uma dama, com um rosto fino e elegante com feições delicadas e refinadas, e um corpo maduro e curvilíneo que já agora fazia-se visível.
— Céus, Hinata, como você está linda. Fiquei apenas uns dias sem te ver e encontro uma pequena dama? — Sorridente, Shima, dona da tendinha de legumes, brinca — Que lindo yukata você veste hoje, é precioso!
— Obrigada, Shima-san. — Corando lindamente, Hinata agradece, enquanto todo o mercado parecia fazer silêncio para ouvi-la — O yukata foi um presente de aniversário de Naruto.
— Vejo que sim, linda menina, e você parece que vai explodir de orgulho, não é, Naruto? — Voltando seus olhinhos espertos para o Uzumaki, a velhinha continua com suas provocações.
— E como não estaria, Shima-san, se minha Hina é encantadora? — Entrando na brincadeira, Naruto faz um elogio verdadeiro, sorrindo tanto que seus olhos fecharam-se.
— Ah, vejam isso! Você era apenas um garotinho tropeçando nos próprios pés quando veio ao mercado pela primeira vez, agora é todo um rapazote galante! — Abanando-se freneticamente, a velhota retruca rindo.
— Que ele é um jovem fascinado pela Hinata, todos sabíamos antes dele; o que impressiona, Shima, são esses braços. O que você anda fazendo naquela floresta, Naruto? — Aproximando-se com um maço de ervas em mãos, Hiroshi, o comerciante de temperos, brinca.
— Eu corto lenha, tio, também caço e treino. — Rindo e sentindo-se um tanto lisonjeado pelo elogio velado, Naruto conta.
— Sim, aposto que sim! Também tenho certeza de que a comida feita pela sua Hina joga um papel importante nesse físico, não é, garoto? — Provocativo, Hiroshi lhes alcança mais temperos do que fora comprado.
— A Hina-nee não deixa ninguém levantar da mesa sem limpar o prato. — Alheio ao teor das provocações, Konohamaru revela — E o Naruto-nii sempre obedece a ela. É por isso que ele é tão forte?
— Claro que sim, e vocês dois devem sempre seguir o exemplo dele, sempre obedeçam Hinata. — Rindo, Shima afaga carinhosamente o rosto das crianças e logo lhes entrega uma sacola cheia de mikans.
— Vai deixá-los mal-acostumados, Shima-san. — Hinata protesta em seguida, quando Shima não aceita o pagamento, vendo as crianças agradecerem o mimo encantadas.
— Deixe disso, menina, é um gosto mimar crianças tão bem-educadas. — Sorrindo satisfeita, Shima retruca.
— Naruto-nii, podemos ir à pracinha depois? — Interrompendo aquele momento descontraído, Hanabi chama sua atenção.
— Sim, Nabi, mais tarde iremos. — Ternamente, Naruto consente à menina — Por que não se sentam um pouco? Logo terminamos as compras e iremos.
Durante a próxima hora, a dupla seguiu com suas compras, que não eram apenas pela necessidade de reabastecer as provisões da cabana, como também para suprimentos da viagem; com muita atenção, Hinata seguia analisando e escolhendo ervas para a conservação, raízes e brotos mais resistentes, assim como sementes variadas para o posterior plantio. Ao lado dela, cumprindo sua função de negociar preços e carregar os pesados volumes, Naruto mantinha sua atenção dividida entre a Hyuuga e as pequenas crianças sentadas em um banco perto dali; enquanto esperavam pelos mais velhos, Konohamaru e Hanabi deliciavam-se com as mikans que ganharam, entretidos visualizando o burburinho das vozes, o colorido das mercadorias e o vai e vem dos transeuntes que tornavam-se para as crianças uma aventura em si, e cada detalhe parecia digno de atenção.
Os comerciantes logo passaram a entregar-lhes pequenos mimos, o padeiro deu-lhes pão doce, a vendedora de tecidos ofereceu-lhes um punhado de balas envoltas em papel brilhante, e muitos outros repetiam o gesto, cada comerciante que passava e reconhecia ambos, lhes dava alguma guloseima; os pequenos, alheios a compreensão dos adultos ficaram surpresos e indecisos num primeiro momento, e rapidamente buscaram Naruto com o olhar e somente quando ele lhes acenou positivamente, passaram a aceitar os presentes e agradecê-los.
***
Com passos vacilantes, Karin acompanhava o Jounin que apresentara-se como seu novo sensei e capitão do seu novo time, seu coração comprimia-se no peito e a ansiedade prometia não dar-lhe sossego tão logo; havia recebido alta há dois dias, também recebera uma residência adequada e uma nova documentação vinculando-a como Kunoichi de Konoha. De verdade, não esperava que as condições que propuseram-lhe naquele quarto pudessem ser sérias, ou ao menos, não pensara que ocorreriam em seguida; quando muito, Karin considerara que a poriam imediatamente em algum lugar para estudá-la, ou lhe fariam trabalhar no hospital, curando feridos sem descanso, como Kusagakure fizera a sua mãe.
— Ah, que bom que já chegaram. — De repente, o Jounin deixa de andar e fala a dois jovens escorados, esperando — Sasuke, Sakura, essa é Karin, ela é uma Genin que será integrada ao nosso time a partir de agora. Karin, esses são Uchiha Sasuke e Haruno Sakura, e com ela, Akamaru, são seus novos companheiros de time.
— Bem-vinda. — A primeira a se pronunciar é Sakura, que logo é seguida por Akamaru, que ladra baixinho — Você quer cheirá-la, Akamaru? Desculpe, ele só irá gravar o seu cheiro.
Com uma paciência que vinha trabalhando desde que tomara um novo rumo, Sakura aproxima-se de Karin com o cão nos braços, como vira Kiba fazendo no passado, para que pudesse reconhecê-la no futuro; Sasuke, por outro lado, mantém-se quieto, simplesmente observando, entretanto, diferente de sua atitude anterior, indiferente e superior aos demais, acena levemente com a cabeça em direção à garota.
— Bem, não fique nervosa, hoje é apenas uma apresentação, para que você comece a se acostumar ao time. — Kakashi diz-lhe, com seu costumeiro sorriso oculto — Pode observar o treinamento de hoje, e lentamente, conforme se sentir confortável, trabalharemos suas habilidades. Também, se não se sentir bem, deve nos dizer de imediato. Lembre-se de que, até pouco tempo, esteve no hospital.
— Então, vou trabalhar um pouco mais distante hoje. — Falando algo pela primeira vez, Sasuke avisa, já distanciando-se alguns passos.
— Sim, lembre-se de que o Raiton necessita antes de tudo de estabilidade no chakra. — Indiferente, Kakashi instrui o Uchiha — Mais tarde, medirei seu progresso. E você, Sakura? O que quer trabalhar hoje?
— Estou com dificuldades no reconhecimento dos canais de chakra secundários, então vou repassar os exercícios que Hinata me passou antes. — Calma, a garota responde ao sensei.
— E você já conseguiu um objetivo? — Sentando-se em um dos troncos usados nos campos de treinamento padrão, o Hatake indaga.
— Já, Akamaru me ajudou antes. — Sakura então retira de detrás de uma pedra uma gaiola com um coelho preso — Hinata disse que o melhor seria começar com animais medianos e ir diminuindo, assim vou ter mais controle.
Pelas seguintes horas, Karin observou seu novo time trabalhando, enquanto mantinha-se quieta ao lado do sensei, que vez ou outra lhe dizia algo, ou lhe perguntava algo, em um lado do campo de treinamento, vira a garota abater o coelho e tratá-lo em seguida com Ninjutsu médico, reparando os canais de chakra secundários danificados pelo golpe; enquanto isso, do outro lado, vira o rapaz Uchiha disparar ataques Raiton contra alvos uma e outra vez, e a cada novo golpe, a extensão de seu alcance e dos danos iam aumentando. Após algum tempo, o sensei fez uma pequena simulação de batalha com seus alunos, primeiro separadamente, duelando primeiro com o Uchiha e logo com a Haruno, medindo e avaliando o progresso dos dois separadamente; por fim, os instruiu a atacá-lo juntos, cooperando e coordenando um trabalho de equipe, que apesar de ainda rígido e infrutífero devido ao passado, começava a moldar-se e ajustar-se.
— Você está se adaptando bem à Vila? — Após ser liberada para um breve descanso, enquanto Kakashi concentrava-se em Sasuke e seu Raiton incompleto, Sakura sentou-se ao lado de Karin.
— É diferente de onde vim. — Um tanto insegura, sem saber até que ponto sua situação seria conhecida, Karin responde.
— É melhor ou pior? — Em um tom de brincadeira, Sakura questiona, tentando suavizar o ambiente.
— Até o momento, muito melhor… — Ao instante, Karin afirma, e logo cala-se, temendo ter dito mais do que deveria.
— Isso é bom, gostar do lugar onde vivemos é o melhor incentivo. — Sorrindo-lhe, Sakura comenta — Com o tempo, vai ficar mais fácil.
Enquanto tomava coragem para perguntar algumas coisas a Haruno e ia suavizando a tensão em seus ombros, Karin sentiu novamente aquela presença cálida e aconchegante como um sol, e antes que os demais, virou o rosto para a direção onde a sentira; saindo da floresta, com uma calma felina, Naruto e Hinata aproximavam-se do campo de treinamento do time sete, trajando seus uniformes ANBU. Retornavam de uma patrulha ao norte e cientes de que naquele dia a jovem Uzumaki seria integrada, decidiram verificar a situação e avaliá-la; os outros dois alunos os avistaram depois, os únicos além de Karin a percebê-los foram Akamaru e Kakashi, quem já pensava em uma forma de treinar seus alunos para inimigos tão silenciosos e habilidosos em ocultar suas presenças quanto a dupla.
— Tarde produtiva, sensei? — Com um sorriso radiante, Hinata pergunta, pousando seus olhos de lua nas duas garotas sentadas lado a lado — Você fez progresso, Sakura?
— Alcancei a meta do dia, Hina. — Satisfeita com a própria evolução, Sakura conta.
— Ela está sendo modesta. Hoje, Sakura ultrapassou seus limites. — Kakashi a contradiz instantaneamente, aproximando-se com o Uchiha — Tudo bem nas fronteiras?
Apesar do sorriso e da expressão relaxada em seu rosto, o olfato altamente capaz de Kakashi captara o cheiro férreo de sangue que exalava dos dois e no colo de Sakura, Akamaru parecia ter percebido o mesmo, já que escondera-se imediatamente entre as roupas da garota; leva um instante a mais para os seus, agora três alunos, perceberem o mesmo, quando seus olhos fixam-se por um segundo nas pegadas rosadas gravadas na neve.
— Não foi nada alarmante, mas como poderia ser um vestígio dele, fomos pessoalmente. A situação está sob controle. — Com uma voz mais gélida que a neve daquele lugar, Naruto responde; então, seus olhos fixam-se em Karin, observando-a petrificada — E a integração?
— Por hoje, observação e apresentação, logo, vamos iniciar a adaptação, um passo por vez. — Preocupado que a nova aluna estivesse em estado de choque, Kakashi responde por ela.
— Bem, se precisarem de suporte, basta pedir. — Serenamente, Hinata oferece e então fala diretamente à garota — Lembre-se de começar com o básico, Karin, seu corpo ainda não suportaria um treinamento muito extenuante.
— Vamos, Hina? Ainda há trabalho por terminar. — Segurando-lhe pela mão, Naruto fala a Hyuuga, e diferente de antes, sua voz soa aveludada — Até, sensei, pessoal!
— Até. — Hinata se despede e eles somem num Shunshin.
— Ah…! Cada vez que eles aparecem assim, sinto que meu coração vai saltar pela boca! — No momento seguinte, Sakura desaba no chão gelado — A Hina é a mais aterradora, toda delicada e meiga…
— Pensei que você já estivesse acostumada, Sakura. — O Hatake comenta, apesar de compreender do que a aluna falava.
— Ninguém se acostuma a isso, sensei! Você também era assim? Nos seus tempos de ANBU? — Atrevidamente, a garota inqueri.
— Não creio que cheguei a ter tal presença. — Não querendo ser o foco do assunto, Kakashi desconversa.
— Não mente, Sakumo-nii disse que você era terrivelmente horripilante. — Imediatamente provocando-o, ao notar seu desconforto, Sakura retruca.
— Isso te assusta? Saber dessas coisas? — Contrariamente à réplica que ela esperava ouvir, Kakashi lhe pergunta seriamente, parecendo acuado pela ideia.
— Você está ficando velho e sentimental, sensei! — Zombando um pouco, para aligeirar o ambiente, Sakura sorri e logo prossegue — Se eu tivesse metade dessa presença, não precisaria medir cada passo, com medo e insegura de ser fraca demais para fazer meu trabalho.
Quase imperceptivelmente, Kakashi suspira, um suspiro de alívio inesperado, e logo relaxa os ombros, voltando ao seu costumeiro estado de apatia indiferente; ao lado de Sakura, Karin processava e tentava compreender a dinâmica de seu novo time, assim como as relações complexas que captara entre aquele grupo de pessoas. Atrás do sensei, Sasuke também captara a mudança sutil em sua postura, e apesar de não ser tão perceptivo ou conhecedor das muitas camadas emocionais das pessoas, pôde compreender a razão daquela tensão invisível; já Sakura, fingindo não ver o que ocorrera, engata numa conversa que mais parecia um interrogatório sem fim com Karin, tagarelando por minutos sobre coisas banais, trazendo novamente uma leveza energética ao campo de treinamento número três.
***
Os dias foram passando arrastados, e apesar de o frio ainda ser intenso, as nevascas foram diminuindo de frequência gradativamente; a neve espessa que antes cobria os telhados e caminhos começou a rarear, dissolvendo-se em pequenos filetes de água que serpenteavam pelas pedras e raízes expostas; o ar, ainda cortante, já não trazia apenas o peso do inverno, mas também um frescor úmido impregnado pelo cheiro da terra que despertava sob o degelo. Os galhos nus das árvores sustentavam agora tímidos brotos verde-claros, frágeis como promessas, enquanto o canto hesitante de alguns pássaros ecoava entre os bosques, testando a coragem de anunciar a nova estação; o céu, antes pesado e cinzento, abria-se em azuis mais límpidos, atravessados por nuvens leves que se dissipavam ao toque do sol. Era como se o mundo respirasse novamente, cada sopro trazendo a certeza de que a primavera aproximava-se, lenta, mas inevitável, tingindo de esperança o cenário que até então fora dominado pelo silêncio gelado do inverno.
Contrastando com a suavidade lenta com que a nova estação achegava-se em Konoha, a violência e intensidade que desenrolava-se no campo de treinamento sete assemelhava-se mais ao fogo do próprio inferno; executando uma sequência de Taijutsu complexa e altamente difícil, Neji golpeava e trucidava os alvos dispostos pela pequena campina com tamanha ferocidade, que os estilhaços eram arremessados a quilômetros. Seu peito subia e descia, seus ombros sacudiam-se em espasmos enquanto o Hyuuga buscava por ar em arfadas audíveis; e tão pronto como as recordações de certo jantar há quatro dias voltam à sua mente, seus olhos voltam a injetar-se de fúria, ganhando uma impressionante aura intimidante que nem seu Byakugan lhe conferira.
— Se você continuar assim, vai precisar de um campo de treinamento só seu. — Sem qualquer aviso, qualquer ruído, a voz de Naruto soa às suas costas.
— Que seja então. — Cerrando o maxilar, Neji grunhe e já preparava-se para iniciar outra sequência.
— Precisamos falar. Agora! — Como o Hyuuga parecia que o ignoraria, Naruto obriga-se a usar sua autoridade.
Ao instante, Neji retesa-se inteiro, passaram-se quase sete meses desde que sentira aquela energia pela primeira vez, inteira e em sua totalidade, durante a reunião do corpo Shinobi no subsolo de Konoha, horas antes daquele fatídico ataque à Vila, e como naquele dia, sua pele eriçou-se e formigou ao reconhecê-la; aquela energia tão maçante e opressora que não admitia réplicas nem resistências, não era um pedido entre dois amigos, era uma ordem entre um superior e um subordinado.
— Bem. — Virando-se a contragosto, Neji encara o Uzumaki.
— Você vai parar de causar confusão na Vila! — Seco e cortante, Naruto sentencia, uma expressão altiva dominando seu rosto enquanto um meio sorriso brincava em seus lábios — Não quero receber uma linha sequer sobre sua indisciplina durante nossa ausência; não quero ver Hinata preocupada com sua situação. Você vai se comportar como um herdeiro de um grande clã, com dignidade e responsabilidade, e não vai mais se envolver nessas arruaças de baixa categoria!
Naruto via como o amigo mordia os lábios e cerrava os punhos para não soltar-lhe todo tipo de insultos, e sinceramente, o compreendia perfeitamente, mas antes de oferecer o alívio que o Hyuuga necessitava, precisava garantir que Neji agiria como um Shinobi de Konoha, não como um indivíduo, como vinha fazendo; antes que a veia saltada em sua testa lhe levasse a um derrame cerebral, o Uzumaki relaxa a postura.
— Vamos, preciso falar com seu pai e seu tio. — Girando em seus calcanhares, Naruto o chama, sem dar mais detalhes.
Confuso e ainda remoendo aquela ordem irrefutável, Neji caminha rigidamente, mantendo-se dois passos atrás de Naruto, sua mente tumultuada dava voltas e tentava processar e organizar suas emoções descontroladas, e seus nervos já sensíveis a um nível absurdo, pareceram mais irritáveis e desestabilizados quando ambos alcançaram as ruas de Konoha; os habitantes e transeuntes que encontraram pelo caminho não perderam tempo, com uma avidez predatória começaram a sussurrar e apontar entre si, comentando e ressaltando falatórios e fofocas que Neji não queria ouvir. Caminhando à sua frente com uma calma desconcertante, Naruto mantinha um compasso relaxado, uma postura inabalável e, quando as pessoas lhe apontavam, apenas lhes devolvia o olhar com uma arrogância que os fazia encolher-se inteiros; nos portões do clã, a situação era um tanto parecida, a diferença consistia apenas em que os guardas sabiam manter seus olhos no chão e as bocas fechadas, ao menos diante deles. Como se estivesse em sua própria casa, Naruto seguiu pelos corredores de madeira que conduziam à nova residência de Hizashi, e só deteve-se ao estar diante do escritório do Hyuuga mais velho; quando ouviram a permissão para entrar, o sorriso do Uzumaki alargou-se um pouco mais, deixando Neji ainda mais confundido.
— Naruto? Neji? — Buscando entre os dois rapazes pelas sobrinhas e o pequeno Sarutobi, Hizashi os recebe — Hinata não veio?
— Hoje sou apenas eu, Hizashi. — Seriamente, Naruto senta-se à frente do Hyuuga — Vim porque precisamos conversar.
— Então, vou despachar esses documentos… — Recolhendo seus pergaminhos e já levantando-se para sair, Hiashi fala.
— O que tenho para conversar, preciso que também ouça, Hiashi. — Pousando seus olhos nele, Naruto o interrompe.
O mais velho dos irmãos estaca no lugar, uma mão trêmula esquecida a meio caminho de recolher o pergaminho restante, o coração aos pulos e um medo que arraigara-se em sua mente nos últimos meses nublando seus pensamentos, um medo que crescera ao ouvir os boatos sussurrados entre as paredes daquele clã; Hizashi fita o filho em busca da razão daquilo, ao que Neji apenas encolhe-se de ombros sem saber, parando-se em pé ao lado do pai, como seu tio fazia agora com uma palidez moribunda tomando conta de seu rosto. Naruto observa as reações dos três Hyuuga’s diante de si, percebia como a preocupação que dominava-os em aspectos era diferente e em outros, igualmente similar em sua origem; como era de seu feitio, não alastraria por mais tempo aquele assunto, nunca fora de rodeios ou protelações desnecessárias, não seria nesse momento que agiria desta forma.
— Vejam esse documento e me digam o que pensam a respeito. — Estendendo-lhes um pergaminho com o contrato que redigira diligentemente, Naruto lhes fala — Contudo, quero que saibam que vou proceder tal qual tenho planejado, com ou sem a compreensão de vocês!
— Naruto… isso…, isso é pelos boatos? — Perplexo, Hizashi questiona — Algo assim não se usa desde a Era Taisho…
— Como lhes explicamos há pouco, Hizashi, a nossa missão é de uma importância vital para Konoha, é complexa e não temos como prever quanto tempo levará. — Escorando-se no encosto de madeira da poltrona, Naruto continua — E, embora sejamos legalmente considerados responsáveis de nossas vidas, “adultos”, desde que nos integramos como parte do corpo Shinobi, parece que as leis militares estão entrando em conflito com a moral civil da Vila. É risível até, a hipocrisia desta situação!
Como se Naruto lhes tivesse golpeado fisicamente, os três Hyuuga’s encolhem-se instintivamente ao escutá-lo; o jovem Uzumaki não estava gritando e sua voz sequer subira de tom, mantendo uma sonoridade aveludada quase seduzente, e era aí que residia o perigo. Ao instante, Neji, Hizashi e Hiashi puderam notar a raiva borbulhante que a polidez digna de Naruto mal ocultava, evidente unicamente em seu olhar profundo, naquele azul frígido; facilmente puderam reconhecer a razão para sua irritação após ouvi-lo, Konoha os considerava plenamente conscientes e senhores de sua razão para lutar e morrer pela vila, mas precoces demais para a vida conjunta, como estiveram fazendo nos últimos dez anos.
— Te entendo perfeitamente, Naruto, mas sinceramente, para nós não há nec… — Hizashi pretendia dizer-lhe que não precisava chegar a tal extremo.
— Não é pelo clã ou qualquer dessas razões que tomei essa decisão, Hizashi! Optei por esta solução unicamente por Hinata. — Com um sorriso que não lhe chegava aos olhos, Naruto replica — Vou oficializar o lugar ao qual ela pertence, e então, terei o prazer de sancionar e responsabilizar a qualquer que se atreva a abrir a boca contra a dignidade dela! Estou informando a vocês, para estarem cientes e tranquilos sobre esse assunto, sei que estiveram preocupados e Neji andou causando confusão por isso, o que não é nada adequado para um sucessor.
— Isso… Hinata sabe…? — Titubeante, Hiashi arrisca uma pergunta.
— Não, decidi discutir o assunto com vocês primeiro, depois de tudo, ainda são parentes dela. — Honestamente, transitando nos limites entre o respeito e a ofensa, o Uzumaki lhe responde — Como disse antes, vou ir adiante, mas seria proveitoso para manter a ordem na vila, se o clã estivesse envolvido, isso demonstraria estabilidade e consenso entre as partes envolvidas, aquietaria os falatórios, e ainda nos revelaria quem possa estar instigando tudo por detrás de cena.
— Você acha que alguém começou tudo a propósito? — Com os olhos a ponto de cair no chão, Neji pede.
— Por que tudo parece que veio à tona agora, quando sempre foi de conhecimento público a nossa situação? Vocês não se fizeram esse questionamento? Não parece estranhamente oportuno que, de repente, ocorram conflitos entre Shinobis e civis, justo após um momento de fragilidade política e estrutural? E justo envolvendo um dos clãs que é símbolo da força da Vila. — Tamborilando os dedos ritmadamente no escoro da poltrona, Naruto os conduz ao que esteve considerando — Que me diz, Hizashi? Faremos uma peça juntos, ou Hinata e eu atuaremos sozinhos?
— Mas então… não vai ser real? — Atordoado pelo uso de palavras, Neji não logra entender a situação.
— Claro que é real, Neji, não vê a aprovação de Koji e da Godaime no final do documento? — Fitando o Hyuuga como se ele fosse uma lula, Naruto retruca, revirando os olhos — É exatamente por ser oficial e legítimo que ninguém poderá contestar nada; obviamente, só estou antecipando meus planos futuros. Pensei que você me conhecesse bem o bastante, para saber que sou perfeitamente capaz de usar minha vida pessoal como arma!
— Quando? — É tudo que Hizashi consegue perguntar, diante da magnitude daquela estratégia.
— Em cinco dias, estaremos partindo na seguinte semana, e hoje mesmo vou conversar com Hinata. — Recolhendo o pergaminho do contrato, Naruto levanta, pensando em passar na floricultura Yamanaka antes de ir à casa.
— Um momento…! — Mais alto do que pretendia, Hiashi detém o Uzumaki — Sei que não tenho lugar para protestar por algo, contudo, uma ocasião como essa pede um preparo adequado, não pode ser apenas uma formalidade… Hinata… Hinata merece…
— Não estou ignorando o que Hinata merece, Hiashi. — Ao interrompê-lo, Naruto parecia a burla em pessoa — Não mencionei nada, porque já tenho tudo preparado, ao ponto que seria possível proceder hoje mesmo, mas vamos evitar correria desnecessária. Hoje, só queria verificar se teremos a colaboração do clã.
Assim que as portas de correr se fecham, obstruindo a visão dos três das costas do Uzumaki, um suspiro coletivo e resignado preenche o escritório, Hizashi permanecia com as mãos abertas sob a mesa, como se ainda segurasse aquele pergaminho, sentindo o peso e aspereza do papel em seus dedos; Neji começava a processar toda aquela situação, abismado com a resolução ainda mais convencional que as próprias fofocas que o Uzumaki encontrara.
— Me sinto derrotado em tantos aspectos, que nem sei por onde começo a pensar. — O comentário de Hiashi soa transbordante de amargura.
***
A léguas da vila e sua balbúrdia fervorosa, comum entre as mudanças dessas duas estações em específico, o caminho até a clareira da cabana já não era completamente branco, as bravas e resistentes vegetações rasteiras erguiam-se do solo, pintando o limiar da trilha; após o abrir dos choupos e salgueiros, a luz cálida e a fumaça subindo aos céus tingidos de laranja e lilás pelo por do sol, indicavam que Hinata e os pequenos chegaram a casa primeiro e essa simples dedução abre um brilhante sorriso no rosto do Uzumaki.
— Bem-vindo! — Antes que Naruto pisasse a soleira da varanda, a porta abriu-se.
A visão de Hinata recebendo-o com um sorriso, rodeada alegremente por Konohamaru e Hanabi, dissipou a tensão que ainda residia em suas feições devido à conversa com os Hyuuga’s, seus olhos tornaram-se afetuosos e uma ternura indescritível apoderou-se de suas expressões; envolvendo Hinata em um abraço desajeitado de um braço só, Naruto entra na cabana, sendo atingido pelo aroma fragrante e delicioso de Chirashizushi recém preparado. Antes que a porta fosse fechada ou que as crianças o delatassem, Naruto revela o precioso buquê composto por flores tsubakis adornadas por fujis que escondia às costas, entregando-o a Hinata; apesar de que usaria aquele momento tão significativo como arma, o jovem Uzumaki não tinha intenção alguma de permitir que a verdade intrínseca naquele movimento estratégico fosse diminuída pela situação, ao contrário, exaltaria mil vezes mais quão importante e inquestionável eram os sentimentos que lhe fizeram tomar tal decisão.
— Estou esquecendo algum dia especial? — Atordoada, embora contentíssima, Hinata questiona.
— Não, sou eu que estou criando um. — Alargando seu sorriso em consequência do dela, Naruto responde — Precisamos conversar, Hina.
Pelos seguintes minutos, as expressões de Hinata variaram entre a surpresa, a perplexidade, e uma felicidade que transbordava em forma de lágrimas, e como Naruto disse-lhe, aquele singelo episódio de suas vidas seria recordado futuramente como um dia especial; e não apenas pelos dois, como também pelas crianças, que com sua energia infinita e uma engenhosidade admirável, reorganizaram o jantar comum de todas as noites em uma pequena festa comemorativa.
Cinco dias mais tarde, o pátio principal do clã Hyuuga estava primorosamente ornamentado e preparado, e um seleto grupo de pessoas encontrava-se presente, dividido entre a surpresa e a alegria genuína; como o Uzumaki afirmara a Hiashi, todo o necessário para a ocasião fora organizado antes mesmo dele ter obtido a resposta do Senhor Feudal, e agora os três Hyuuga’s viam o resultado de tal preparação ainda mais impactados do que no dia em que Naruto lhes informara de seus planos. Quando o sol esteve alto no céu, indicando as dez da manhã, uma liteira cerimonial parou diante dos portões abertos do clã, e ao instante em que os cochichos dos transeuntes começava a alcançar os ouvidos dos presentes, Hinata desceu altiva e tão belamente vestida, que arrancara suspiros; a Hyuuga trajava um Yukata azul oceano de seda com delicados bordados florais, seus cabelos que agora alcançavam metade das costas foram recolhidos num elaborado penteado, adornado por preciosos kanzashis em formato de flocos de neve. Contudo, o que encantava era seu rosto resplandecente, o rubor em suas bochechas e o brilho em seus olhos de lua prendiam o olhar de todos que a viam aproximar-se com tamanha serenidade; aguardando-a no arco cerimonial decorado com crisântemos e jasmim, Naruto permanecia estático, os olhos fixos em profunda admiração, como se estivesse enfeitiçado.
— Rápido, Sai, retrate a cara de bocó desse idiota. — De seu lugar, Shikamaru dizia ao amigo.
O Nara fora o único a verbalizar sua impressão a respeito da reação de Naruto, mas pelas risadinhas abafadas que espalharam-se entre os demais, não fora o único a pensar o mesmo; entre as garotas presentes, sonhadoras como sua juventude lhes permitia, os risos eram também de embevecimento. Entre os adultos, os antigos senseis e os familiares que viram a dupla crescer, havia uma espécie de assombro e admiração pela atitude tão honrosa de Naruto e os extremos que o rapaz era capaz de chegar para proteger Hinata; e entre o reduto familiar deles, Jiraya, Konohamaru, Hanabi e Kurenai choravam entre risos, emocionados demais para controlar-se, enquanto Neji, Hizashi e até mesmo Hiashi mordiam-se os lábios, para impedi-los de tremer e delatá-los. Presidindo e legalizando a cerimônia, a Godaime assistia em um silêncio solene, junto à Princesa Yona, representante e sucessora do Senhor Feudal; como as crianças e o Lendário Sannin, Yona também debulhava-se em lágrimas, recebendo tapinhas consoladores de seu agora marido, Kohaku.
— Bem, como todos os presentes foram comunicados, hoje celebramos o compromisso destes dois jovens e valorosos Shinobis. — Deferindo a devida importância ao evento, Tsunade inicia a cerimônia — Todos os presentes são testemunhas da legitimidade deste voto, e os familiares atestam o consenso irrevogável para esta união. Portanto, pergunto, Uzumaki Naruto, é de sua vontade e total responsabilidade fazer o Voto Perpétuo para pactuar o noivado com Hyuuga Hinata?
— Sim! — Tsunade mal havia fechado a boca, quando Naruto deu sua resposta.
— Hyuuga Hinata, você está disposta a aceitar esse voto, consciente de que uma vez pactuado, não poderá ser desfeito nem alterado, independentemente de adventos futuros? — Voltando-se para a garota, a Senju prossegue.
— Sim! — Igualmente decidida, Hinata responde.
— Muito bem. — Envolvendo as mãos unidas dos dois com uma faixa vermelha com gravuras de runas antigas, Tsunade continua o ato cerimonial — Naruto, recite o juramento do pacto.
— Eu, Uzumaki Naruto, neste dia uno meu destino ao de Hyuuga Hinata; declaro que este vínculo seja eterno, inquebrável. Que minha vida e meu nome sejam dela, assim como meu coração e alma. Desde este instante, Hinata é e sempre será parte inseparável de mim. — Quando Naruto recita os votos antigos, as runas na faixa começam a brilhar em dourado.
— Eu, Hyuuga Hinata, neste dia recebo o destino de Uzumaki Naruto como parte inseparável do meu; este vínculo será eterno, inquebrável. Nossas vidas e nossas almas estarão unidas. Desde este instante, Naruto é e sempre será parte inseparável de mim. — Com a voz embargada, Hinata recita o voto correspondente do pacto, enquanto uma segunda luz prateada surge das runas.
Ao instante, a luz dourada surgida do voto de Naruto une-se à luz prateada do voto de Hinata, vibrando como uma brisa da própria primavera, emitindo ondas de luz, formando um halo radiante que espalha-se ao redor dos dois; em suas mãos entrelaçadas e cobertas pela faixa, um calor formigante começa a irradiar, precisamente em seus dedos anelares direitos, confirmando ao casal que o pacto estava sendo gravado em carne, enquanto as runas pulsavam ritmadamente, como um coração vivo. Os halos de luz que subiam, entrelaçando-se em espirais, subindo e descendo como respirações sincronizadas, evocaram centelhas de chakra que igualmente uniram-se; passaram-se alguns segundos a mais, durante a conclusão do pacto, até que a luz diminuíra gradualmente, restando apenas a abrasadora sensação causada pelo Voto Perpétuo, que estendeu-se e envolvera inclusive as testemunhas presentes.
— Segundo as leis fundamentais dos homens, e as leis espirituais que regem a humanidade, declaro esse noivado formalmente selado. — Com profundo respeito, Tsunade encerra a cerimônia, desatando a faixa vermelha, que permanecia aquecida — Por favor, assinem a ata do contrato.
Repetindo a ordem anterior, Naruto assina primeiro o mesmo pergaminho com que informara Hizashi de sua decisão há cinco dias, que a eufórica e emocional Princesa Yona lhes estendia, e logo Hinata faz o mesmo; as caligrafias e as formas em que seguravam o pincel eram divergentes e únicas, entretanto, o sorriso que apoderara-se de seus lábios ao encontrar as runas negras e delicadas gravadas em seus dedos no momento da assinatura, foram similares, como o próprio juramento que dizia que suas almas eram uma só.
Quando os dois voltearam-se sorridentes e radiantes para suas testemunhas, encontraram um mar de lágrimas e soluços, alguns mais discretos, outros mais escancarados, mas principalmente, alegria genuína; talvez, a mais flagrante de todas aquelas pessoas que lhes queriam, era Kurenai, sentada ao lado de Asuma, a mulher ria e chorava abertamente, segurando seu ventre protuberante de oito meses. Seus olhos vermelhos embaçados pelas lágrimas pareciam ver nitidamente recordações antigas desenrolando-se vividamente diante dela; a antiga tutora via seus pingos de gente em seus pijamas coloridos, inocentemente perguntando sobre casamentos e família, via seus rostinhos rechonchudos tão sonhadores e ansiosos por amor indagando por sentimentos que não compreendiam, e que com o tempo, aprenderam a decifrar e dedicar-se mutuamente. Os demais senseis também estavam tomados pela nostalgia de ver as crianças que viram crescer, iniciando uma nova etapa de suas vidas, em uma medida igual e também diferente aos amigos que cresceram com eles; o pátio principal estava tão repleto de bons sentimentos e sinceras comemorações, que a vivacidade desbordava entre as mesas, mesmo entre os mais reservados e inegavelmente absoluta entre os mais inocentes.
Após receber as felicitações e aguentar valorosamente as brincadeiras e zombarias já aguardadas, o almoço caprichado planejado por Naruto para a celebração, foi servido seguindo aquele mesmo ritmo barulhento e agitado dos domingos na clareira que tanto lhes encantava, e que por ironia da ocasião, quebrava toda a rigidez protocolar do clã Hyuuga; na mesa das crianças, os pequenos Natsuki e Natsu com seus seis meses, tentavam acompanhar Konohamaru e Hanabi, que comandavam sua própria ideia de festim, enquanto as amas dos bebês tentavam sem sucesso controlar o caos. Espremida entre Jiraya e Tsunade, e a Princesa Yona e seu marido, Shizune enfrentava um tipo diferente de anarquia, e inclusive, um tanto mais barulhenta que a bagunça das crianças; e dividindo sua atenção com seus ex-senseis, seus amigos e familiares, a dupla mais radiante de Konoha nunca deixava de sorrir, mesmo nos momentos em que seus olhares detinham-se nos retratos daqueles que não estavam mais presentes fisicamente, mas que certamente, também os estavam abençoando de seu lugar de descanso.
— Então, garoto, de onde surgiu essa sua ideia? — Torcendo o nariz para as misturas incomuns que Kurenai fazia em seu prato, Asuma dirige-se a Naruto.
— Já era um dos meus objetivos, Asuma-sensei, só antecipei o evento. — Afastando a longa manga do seu Haori branco enquanto usava os hashis, Naruto revela.
— Mas se a ideia era um compromisso oficial, por que o Voto Perpétuo, Naruto? — Perspicaz, Kakashi ressalta o ponto.
— Um compromisso oficial, por mais legítimo que seja, pode ser rompido. — Neste instante, o Uzumaki não pode ocultar aquele matiz de astúcia que o delatava — Isso logo seria sinalado, falariam que foi uma desculpa para tranquilizar os falatórios. Bem, agora não há o que sinalar, não há o que romper! Assim, ninguém poderá questionar o que já está selado, nem tocar o que já está apartado.
Não precisou de mais nenhuma palavra, para os presentes compreenderem que aquele juramento, era o escudo mais eficaz e intransponível que o rapaz ideara para proteger sua companheira das más línguas; assim como quem conhecia Naruto desde sempre, como Shikamaru e Kakashi, que perceberam a dupla utilidade daquele compromisso extremamente ortodoxo, servindo como proteção e, em igual medida, como garantia.
— Você… você… — Neji ergue-se num rompante, um dedo trêmulo apontando para o Uzumaki, completamente boquiaberto — Sua raposa sem vergonha! Isso… isso é o mesmo que assinar uma ata matrimonial…
A perplexidade do Hyuuga intensificada por sua falta de tato ao verbalizar o que os demais apenas consideravam, caiu como uma pedra no meio da mesa, e por um instante, todos se entreolharam, alguns sufocando risadas, outros boquiabertos com a franqueza desmedida; o contraste entre o tom cerimonioso da ocasião e a acusação seca de Neji tornou a cena quase absurda. Naruto arqueou uma sobrancelha, tentando conter um sorriso, enquanto Hinata suspirava discretamente, já acostumada ao jeito inflexível do primo; Shikamaru murmurou um “troublesome…” abafado, e até Kakashi deixou escapar um riso curto por trás da máscara. O pátio, que antes estava carregado de solenidade, foi tomado por uma onda de risos contidos e olhares divertidos; e embora a acusação de Neji fosse verdadeira em sua essência, soava tão estoica e desajeitada que, em vez de gerar conflito, acabou servindo como alívio cômico.
— Muito bem, seus moleques abusados! — Batendo a mão na mesa, Tsunade sorri daquela forma maliciosa que faz qualquer um temer o que dirá — Se o Hyuuga diz que é uma ata matrimonial, então é! Considerem-se casados e nos poupem dessa burocracia.
— Hokage-sama! — O protesto de Neji soara como um ganido estrangulado.
Antes que os risos diminuíssem, alguém mais perigoso ataca com seu descaro, sem papas na língua.
— Exatamente! E como os declaramos casados… garoto, espero que esteja preparado para a vida conjugal, é necessária muita resistência! — Com uma piscadela inocente, Jiraya termina de horrorizar Neji, por pura pirraça.
Obviamente, o efeito devastador desse comentário atingiu os noivos também, enquanto Naruto afogou-se seriamente, Hinata tentava socorrê-lo, alcançando-lhe uma taça de suco, evidenciando que até mesmo seus dedos ficaram vermelhos; ao ver a reação dos dois, e o choque catatônico de Neji, uma onda de gargalhadas ruidosas toma conta da mesa, isso até a seguinte linha dita naquela celebração extenuante.
— Se… se o problema é resistência, não creio que nos compete. — Desejosa de defendê-los e revidar as provocações que já viraram rotina, Hinata retruca imperiosamente — Shinobis de alto rendimento não se desgastam facilmente…
Enquanto aquela pequena e delicada Hyuuga respondia ousadamente, empertigando seus ombros orgulhosamente, apesar do escarlate que cobria sua face e pescoço, um silêncio de assombro instaura-se entre a grande maioria; no entanto, sua afiada articulação de palavras de duplo sentido causa um abalo emocional nos três Hyuuga’s com quem compartia laços sanguíneos. Ao instante seguinte, uma cacofonia de risos descontrolados misturava-se a mais provocações, mesclando comentários sobre o poder da juventude por parte de Guy e Lee, dicas de pratos nutritivos de Chouji, e inúmeras zombarias que poderiam ser consideradas inocentes das garotas; durante aquele caos de risadas e vozes interpostas, Kakashi, Shikamaru, Kurenai e Asuma permaneciam divididos entre a vontade de instigar mais o ambiente e o divertimento, ouvindo como Sai passava a responder honestamente demais os comentários maliciosos de Anko, e Sakumo tentava detê-la sem sucesso. Como se estivesse alheio à balbúrdia generalizada, inclusive ao fato de Konohamaru agora estar com um guioza nos cabelos, arremessado certeiramente por Natsuki, Naruto mantinha seus olhos cintilantes e agitados em Hinata; seu coração contraía e expandia violentamente, fascinado por sua valente companheira.
***
Quatro dias depois, Hinata guardava diligentemente as últimas peças de roupas nas grandes mochilas de viagem, já havia selado em pergaminhos limpos a maioria dos utensílios e ferramentas que não seriam utilizados imediatamente, assim como organizara os mantimentos e suprimentos médicos por ordem de necessidade em kits fáceis de encontrar e usar; na tarde anterior deixaram suas gatinhas sob os cuidados e a tutela de Ino, que prometera que cuidaria também do jardim da amiga, Hinata inclusive solicitara especialmente à Godaime que supervisionasse o treinamento de Sakura em sua ausência, para que o progresso da garota não fosse afetado, e todos os protocolos e a delegação de funções na divisão estavam concluídos. Contudo, enquanto afivelava fechos e conferia se todos os sacos de dormir foram incluídos, se tinham suficientes mantas, um nó de tristeza formara-se em sua garganta, quando seus olhos passaram pelas paredes da cabana, agora despidas dos muitos quadros e fotografias que contavam sua história; naquela cabana que ainda cheirava a resina e terra, Hinata ganhara sua família, teve seu primeiro lar e encontrara o amor mais incondicional e extraordinário, por isso, era doloroso ter de fechar a porta do refúgio de sua infância, do relicário de suas recordações mais preciosas, e partir rumo ao desconhecido. Antes que a melancolia e o saudosismo pudessem apoderar-se dela, um som de rodas batendo contra o chão e risos contagiantes atraíram sua atenção, despertando-a daquele loop sentimental; ao sair pela porta aberta, encontrara Naruto retornando da Vila com as crianças, quem o rapaz havia levado consigo para que não tumultuassem a organização dela.
— Naruto, o que é isso? — De olhos arregalados, Hinata os vê aproximando-se, Konohamaru e Hanabi rindo a valer em cima de um dos carros de bois, enquanto Naruto conduzia com uma longa vara os dois bois que puxavam os carros.
— Bem, nós temos muitas ferramentas e bagagens que são essenciais, e duas crianças que vão se cansar muitas vezes, então achei melhor termos um meio de transporte resistente. — Sua explicação simplista desarma qualquer outro questionamento de Hinata sobre a ferocidade dos animais ou a segurança dos carros.
Naruto esteve considerando o conforto e bem-estar dos pequenos, além da praticidade para que pudessem transportar suas cargas mais imprescindíveis para aquela jornada e para sua posterior instalação; evidentemente era útil, eficiente e lhes garantia a mobilidade que não teriam tão facilmente em uma caminhada longa.
— Certo, então vamos carregar tudo, hoje precisamos nos recolher mais cedo. — Mordendo as bochechas para controlar suas emoções, Hinata pontua.
Durante as horas seguintes, eles estiveram carregando os carros de modo que também ficassem funcionais e por categorias, em um dos carros dispuseram todas as ferramentas e itens pesados, assim como suas bagagens, em outro carregaram com suprimentos e itens de acampamento e necessidade imediata durante o percurso, inclusive seus armamentos, cruciais para a segurança; nesse segundo carro a dupla reservara um espaço para as crianças poderem descansar suas pernas e até mesmo dormir confortavelmente durante o caminho. O jantar daquela noite foi silencioso e simples na cabana, ninguém vestiu pijamas ou recolheu-se nas aconchegantes camas, em lugar disso, montaram seu primeiro acampamento na sala que fora palco de inúmeras reuniões, tanto por trabalho, como para um singelo dia de laser e celebrações; antes que o orvalho da madrugada subisse aos céus, antes mesmo do piar do primeiro pássaro, a cabana estava definitivamente fechada por tempo indeterminado e a família já percorria as primeiras léguas de estrada.
A dupla optara por não contar a ninguém o dia de sua partida, informando aos amigos uma data posterior ao dia real, queriam evitar as despedidas emocionais que poderiam causar mais mal do que bem; sabiam que todos ficariam bem, sua Hokage era forte, o novo poder que instauraram em Konoha era absoluto, e os líderes a quem confiaram a gestão de sua casa eram os mais aptos e confiáveis. As melhores despedidas que poderiam desejar, foram aqueles dias de qualidade com os amigos, com os ex-senseis, com seus seres queridos, e aquele não seria um adeus definitivo; contribuía para sua decisão, a ideia de manter contato periodicamente, tanto pelo trabalho remoto que desempenhariam, como pela força dos laços construídos durante todos aqueles anos.
Em dada altura da estrada, quando o sol da manhã já elevara-se completamente nos céus, o vento primaveril ondeava as capas de viagem e trazia o cheiro de terra molhada e grama fresca, enquanto o horizonte estendia-se diante daquela diminuta comitiva; talvez pela fome, talvez pela claridade do dia, as crianças que dormiam tranquilamente enfiadas em sacos de dormir e cobertas por mantas, despertaram. Na seguinte meia hora, uma pausa rápida foi feita, um café da manhã nutritivo e reforçado preparado eficientemente, e um tempo dedicado à higiene e estabelecimento da rotina dos pequenos organizou-se; como faziam em casa, pelas manhãs, Konohamaru e Hanabi fariam suas lições e receberiam tarefas e ensinamentos teóricos de cima do carro de boi mesmo, de modo que seus estudos não fossem desatendidos e certa normalidade fosse mantida. Naquela primeira tarde, após o almoço à sombra da orla de uma floresta circundante, com os animais descansados e hidratados, a caminhada fora retomada mantendo um ritmo cadenciado e constante; nesse momento, os ensinamentos práticos iniciaram, plantas exóticas eram buscadas como tesouros e logo Hinata discorria sobre suas propriedades e utilidades, animais pelo caminho, paisagens, terrenos, fauna e flora, tudo era ensinado e abordado com pequenos jogos, garantindo o aprendizado e o interesse.
— Kono, Nabi, para cima do carro, agora. — Mesmo usando um tom suave, Naruto soava autoritário e sério o bastante para os pequenos não contestarem — Fiquem abaixados e quietos entre as bagagens.
Assim que ajudam as crianças a esconder-se e ativam uma barreira de isolamento em torno delas, o Uzumaki e a Hyuuga cobrem seus rostos com o capuz das capas de viagem, e ainda que continuassem em frente no mesmo ritmo anterior, suas mãos já empunhavam armas discretamente entre as vestes; mesmo durante aquela caminhada aparentemente descontraída, estiveram vigiando e atentos a cada palmo de terra, os instintos aguçados de quem caça sem deixar vestígio em estado de alerta. Cerca de quarenta quilômetros adiante, outra comitiva dirigia-se em sentido contrário ao deles, e como naquele mundo hostil não poderiam atestar a índole de ninguém numa estrada deserta como aquela, ser cautelosos nunca era demais; sabiam que poderiam encontrar perigos no caminho, e para isso criaram protocolos de segurança, tanto para ocorrências incertas como aquela, como para confrontos reais.
Afortunadamente, era apenas uma caravana comum, comerciantes nômades que percorriam as estradas do País do Fogo a vida inteira; o ranger das rodas de madeira e o som dos sinos pendurados nos arreios dos animais deles criavam uma cacofonia que contrastava com o silêncio disciplinado que Naruto e Hinata mantinham. Ao cruzarem, Naruto apenas inclinou levemente a cabeça, um gesto de cortesia comum entre viajantes, mas seus olhos azuis, ocultos pela sombra do capuz, não deixaram de mapear cada indivíduo, cada volume sob as lonas e a posição das mãos dos guardas de aluguel que acompanhavam os mercadores; Hinata, ao seu lado, mantinha o Byakugan fora de uso para não drenar chakra desnecessariamente, entretanto, seus sentidos sensoriais estavam expandidos ao limite, sentindo o fluxo de energia vital de todos ali, buscando qualquer assinatura que denotasse malícia ou o uso de quaisquer Jutsus.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Somente quando a caravana tornou-se um ponto distante na poeira da estrada é que Naruto relaxou visivelmente a postura, ainda que sua mão permanecesse segura sobre a empunhadura da katana; embora não houvesse nenhum sinal de outro grupo nos arredores e nem em áreas mais distantes, as crianças foram mantidas no carro de boi durante o restante da tarde, prevenindo que terminassem pegos com a guarda baixa após aquele encontro na estrada. Ao cair daquela primeira noite de viagem, Hinata encontrara uma pequena depressão na planície, rodeada suficientemente por árvores e rochas para mantê-los ocultos, e após encontrar e estabelecer uma rota segura até a fonte de água mais próxima, o acampamento e as barreiras protetivas foram erguidos; enquanto Naruto cuidava da fogueira e iniciava o preparo do jantar, Hinata improvisava o banho de Konohamaru e Hanabi. Naquela situação, estavam cientes de que algumas vezes, não seria possível manter o mesmo padrão de comodidade que tinham em casa, como justo naquela primeira parada para descanso; a seguinte grande fonte de água estava muito longe, então deveriam priorizar toda fonte potável que encontrassem para o consumo, para os animas, e para as refeições.
— Isso é tão legal. — Sem incomodar-se com esses detalhes, Konohamaru estava radiante — Quando vocês saem em missões, é assim, Naruto-nii?
— Quando vamos a um lugar distante, sim. — Impressionado com a adaptabilidade deles, Naruto responde.
— E se chover? Como é um acampamento com chuva? — Igualmente interessada, Hanabi questiona, esquecendo até do seu ensopado.
— Se chover, vamos buscar um lugar para abrigo, uma caverna ou gruta serve. — Pensando que a irmã estava preocupada com a imprevisibilidade do tempo, Hinata promete.
— Então, não podemos dormir na barraca se chover, Hina-nee? — Konohamaru, que compreendera a dúvida de Hanabi, indaga tristonho.
— Depende da chuva. — Rindo, ao entender a razão, Hinata explica — Se for um chuvisco calmo, podemos tentar, mas se for uma chuva forte, é melhor não.
Respondendo às perguntas admiradas e quase mais persistente que o cansaço da duplinha, aquele primeiro acampamento seguira seu próprio ritmo de leveza, regado a curiosa ansiedade infantil, expectantes por ver e descobrir aquele mundo novo; os mais velhos, no entanto, sabiam que em algum momento, a falta de casa, do conforto e das praticidades da vida na Vila, e o cansaço mesmo, poderiam amuar os ânimos dos mais novos, essa fora uma das razões que levara-os a escolher iniciar o longo caminho durante o começo da primavera, quando os dias ainda são amenos e apesar das noites serem frias, não mantinham o rigor do inverno. Quando o cansaço venceu a euforia, Konohamaru e Hanabi enfiaram-se em seus sacos de dormir e, como se soasse uma bigorna sob suas cabeças, adormeceram quase instantaneamente; após organizar os utensílios de cozinha e assegurar a lenha da fogueira para o restante da noite até o amanhecer, o Uzumaki e a Hyuuga também deitaram-se a descansar, como sempre fizeram em missões ou em casa, dividindo o mesmo leito.
— Suspeito que amanhã eles vão passar o dia no carro. — Antevendo dores musculares e protestos, Naruto fala baixo.
— Não sei, talvez durante a tarde, eles estão muito impressionados com tudo. — Fitando o céu noturno, Hinata responde, aninhando-se entre os braços de Naruto — Pode ser que depois de mais uns três dias, comece a ficar estressante.
— Quando der esse tempo, vamos estar perto do primeiro pequeno vilarejo, eles vão se distrair. — Calculando o ritmo da caminhada e a distância percorrida, Naruto afirma, então fixa o olhar no rosto de Hinata, analisando-a detidamente — Você está bem?
— Eu? Claro que estou, Naruto! Uma caminhada dessas não é nada para mim. — Confundida, Hinata retruca e ri um pouco, do absurdo que lhe soara que ele lhe perguntasse aquilo.
— Não fisicamente, Hina. — Parecendo ver-lhe a alma, Naruto esclarece — Você está triste, não está?
— Não! Quero dizer, claro, fiquei sentimental ontem, mas… — Hinata sempre desconcertava-se com a capacidade de Naruto de ver o que tentava ocultar — Realmente estou bem, o importante é estarmos juntos, onde for.
— Vou garantir que o difícil seja somente a caminhada, Hinata. — Intuindo que ela não reclamaria sequer se estivessem em dificuldades, Naruto assegura — Quando chegarmos lá, vou garantir que tudo seja igual era na Vila, tal qual, e assim você não vai sentir tanta saudade da nossa casa!
— Naruto, não é a cabana ou a vila, não é o lugar que sinto falta. — Profundamente tocada e enternecida, Hinata explica — É só que, quando me deparei com as lembranças, com tantos dias felizes que vivemos naquela clareira, me dei conta de que o tempo passou. Nós crescemos, estamos crescendo, estamos constantemente construindo um futuro, e a nostalgia que senti ao lembrar da simplicidade daqueles dias foi um pouco agridoce. Estou feliz por estarmos juntos, por sermos quem somos, mas recordar que um dia fomos como o Kono e Nabi, encantados pelo mundo, me faz pensar que talvez, só um pouquinho, eu gostaria que os momentos simples durassem um segundo a mais.
— Bem, então vou te dar todos os segundos simples que você desejar, até que nossas vidas estejam repletas de nostalgia. — Igualmente emocionado, Naruto faz outra promessa, um tanto mais especial que a anterior.
Durante aquela reveladora conversa aos sussurros, confortáveis no calor um do outro, os dois acabaram aproximando-se mais e mais, envolvendo-se entre braços tateantes buscando um local para repousar e mãos entrelaçando-se por puro hábito, até que seus rostos estiveram a um fôlego somente, para logo não haver mais espaço algum; os lábios sobrepuseram-se suavemente, sem qualquer atisbo de pressa, num carinho apreciativamente lento, uma docilidade afável que refletia-se também no afagar gentil de rostos. Estranha e abruptamente, aquele instante foi quebrado sem qualquer resquício da naturalidade com que iniciara, como se um choque de energia incomum os repelisse; ao segundo seguinte, estavam ambos em pé, em posição de batalha com as armas empunhadas, fitando uma terceira figura que detinha-se com as mãos para o alto.
— O que…? — Perplexo, Naruto não consegue processar aquela presença mais rapidamente do que sua aproximação.
— Então, você mente para todos, sai na calada da noite, e tudo para ficar namorando tranquilamente durante a viagem? — Repleta de indignação, a voz de Jiraya soa pelo acampamento antes que seu rosto seja iluminado pela fogueira — Naruto, seu sem vergonha safado!
— Padrinho, o que você está fazendo aqui? — Abismado demais para captar a provocação, Naruto foca na lógica.
— Seguindo meu afilhado desnaturado, obviamente! — Largando sua enorme mochila de viagem de qualquer jeito no chão, Jiraya retruca — Tem ideia de quantas pesquisas interessantes abandonei quando descobri que vocês saíram da Vila? Todo aquele material refinado, e você aqui, passando por uma lua de mel rústica!
— Você me seguiu? Mas pensei que fosse ficar em Konoha, com suas pesquisas… — Novamente ignorando a zombaria, Naruto replica — Com a Godaime…
— Pois pensou errado! Onde já se viu? Eu ia deixar vocês andarilharem sem mim? Não seja tonto, Naruto, vou junto! Estávamos iniciando seu treinamento, eu também conheço muito do local, e tem os piolhos, como vão cuidar desses dois pelas estradas? — Gesticulando nervosamente com as mãos, Jiraya ia pontuando e parecia muito irritado.
— Desculpe, eu só não queria te dar trabalho. — Sincero, Naruto confessa a razão para não ter cogitado chamar Jiraya: não queria ser um empecilho na vida do padrinho.
— Dar trabalho! Pois você me deu trabalho, me fazendo correr um dia inteiro para te alcançar, seu moleque atrevido! — Jiraya seguiu fazendo reclamações por bons minutos.
Não estava irritado de verdade, estava era preocupado, temia que ao não estar perto de Naruto, uma desgraça como a de seus pais pudesse acontecer-lhe, e jamais permitiria nada assim novamente.
— Suponho que não tenha jantado ainda. — Servindo-lhe um prato do ensopado ainda quente perto da fogueira, Hinata sorri, dando novo ritmo ao momento — Obrigada por vir, Jiraya.
— Viu só? Sua noiva tem bons modos e ouve os mais velhos. — Sem deixar as implicâncias, Jiraya volta ao seu costumeiro estado brincalhão.
Ao final daquela inesperada interrupção, um novo saco de dormir fora estendido junto à fogueira, e após ouvir mais alguma pirraça, pequenas informações sobre a Konoha que deixaram para trás, o primeiro dia daquela expedição finalmente encerrara-se.
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