Notas iniciais
Olá, meu povo, tudo bem?? Espero que todos estejam bem! Pessoal, esse capitulo é um dos mais grandes da fic, tanto em tamanho, quanto em significado. Essa etapa da história traz uma virada emocional e psicológica, agregando novas camadas a todo o contexto da narrativa, e retratando a evolução de Naruto e Hinata, tanto como indivíduos, quanto como casal. Também ressalto que está etapa será retratada de forma lenta e gradual, um progresso orgânico, então não esperem nada abrupto, mas sim sutil e suave. Bom, espero que gostem.

O vilarejo, perdido entre colinas e campos de cultivo, parecia viver em um tempo próprio, distante da prosperidade das grandes vilas Shinobi, as casas eram construções modestas de madeira e barro, com telhados gastos pelo vento e pela chuva, e as ruas estreitas de terra batida revelavam o esforço diário de seus habitantes; ali, a vida seguia em ritmo lento e árduo, homens e mulheres levantavam-se antes do sol para cuidar das plantações de milho e feijão, enquanto crianças carregavam baldes de água desde o poço central ou ajudavam a vigiar os animais. O comércio era pequeno e limitado: barracas improvisadas ofereciam legumes, grãos e tecidos simples, mas sempre em quantidade escassa; a dependência das caravanas que cruzavam a estrada era evidente, e a escassez fazia parte da rotina.

Apesar das dificuldades, havia uma atmosfera de solidariedade, os vizinhos compartilhavam o pouco que tinham, e cada sorriso trocado no mercado era uma forma de aliviar o peso das jornadas; ainda assim, a pobreza deixava marcas: roupas de trabalho remendadas, ferramentas enferrujadas e olhares cansados que refletiam a luta constante pela sobrevivência. Foi nesse cenário que a chegada de forasteiros trouxe inquietação, estranhos raramente permaneciam mais de uma noite, e ver viajantes instalados na pousada local por três dias consecutivos despertava curiosidade e desconfiança; as conversas no mercado tornaram-se mais baixas, os olhares mais longos e cautelosos, e alguns moradores até evitavam cruzar com os recém-chegados, outros apenas observavam de longe, tentando adivinhar suas intenções.

Durante a tarde do segundo dia, após presenciar como um senhor de idade avançada lutava por erguer o machado com braços frágeis e trêmulos, que um dos forasteiros oferecera-se e tomara seu lugar; o velho, desconfiado e alerta, recusara num primeiro momento, temendo cair em um golpe qualquer, mas o rapaz era mais forte e insistente, em um instante tomou-lhe o machado das mãos, e com uma impressionante habilidade, esteve horas sem fim cortando a lenha que seria compartilhada por todos no vilarejo. Quando o velho lenhador lhe perguntara o que queria em troca do trabalho, o rapaz sorriu-lhe e simplesmente disse ser dever dos mais jovens ser prestativos, depois daquele dia, o rapaz encarregara-se de cortar e estocar lenha de modo que o vilarejo a tivesse por muito tempo; o fato curioso, é claro, causara comoção e mais curiosidade do que a chegada deles, e enquanto alguns aldeãos espichavam seus ouvidos, o senhor tratava de interrogar o rapaz, durante o tempo em que estava trabalhando.

— Vocês são de muito longe? — Perguntava o velho.

— Não tão longe. — Evasivo, o rapaz respondia.

— E o que fazem num lugar tão miserável como esse? — Ainda mais desconfiado, o velho insiste.

— Nossa pequena adoeceu na viagem, é um resfriado de primavera, mas vamos esperar que se recupere antes de seguir. — Finalmente o rapaz conta-lhe algo concreto.

— Ah… então as crianças são suas? — Analisando o porte do rapaz, o velho começa a compreender a situação e os demais também.

Estiveram durante aqueles dois primeiros dias analisando e catalogando todos os problemas e dificuldades que aquele vilarejo tinha, ao final do terceiro, informaram a Hokage sobre a situação e destacaram um pedido de ajuda; sua expedição poderia ser para encobrir sua missão verdadeira, mas isso não significava que ignorariam este tipo de coisas quando as vissem, e por isso mesmo, Naruto esteve fazendo o trabalho braçal que os jovens do vilarejo não podiam por cuidar das plantações, enquanto Hinata encarregara-se de inspecionar os armazéns de grãos e medicina com a ajuda da filha do estalajadeiro. Hanabi levaria alguns dias para estar completamente saudável, e seu resfriado era apenas uma consequência da mudança abrupta de seu entorno, algo que já esperavam que ocorresse em algum momento da viagem; então eles usariam esse tempo para ajudar o máximo que conseguissem, cumprindo assim suas obrigações como Shinobis.

— Vovô, o senhor não deveria ser tão intrometido. O moço está ajudando, apenas agradeça. — Aproximando-se da lenheira com um filtro de barro, a neta do velho interrompe — Água?

— Obrigado. — Detendo o machado por um instante, Naruto aceita o copo.

Ao ouvir a jovem falando mansamente e ver a cena, seu avô balança a cabeça em negativa, entendia o que estava ocorrendo ali apenas com ver aquelas olhadelas de esguelha e os sorrisinhos tímidos de sua neta e das demais jovens do vilarejo; compreendia o alvoroço, não era fácil ver por aquela região um jovem tão bem-apessoado, e após poderem constatar que era uma pessoa de bem, certamente o interesse feminino crescera absurdamente.

— O senhor disse que o celeiro estava avariado, se tiverem os materiais, posso consertar. — Naruto oferece, enquanto tomava um breve descanso.

— Ah, você entende de marcenaria? — Antes que o lenhador respondesse, a jovem interrompe.

— Aprendi fazendo a manutenção da minha casa. — Indiferente àqueles olhos brilhantes e bochechas rosadas, Naruto responde.

Não estava realmente prestando atenção na roda de aldeões que formara-se a sua volta, curiosos e especuladores, seus olhos estavam fixos nos céus, depois que seus ouvidos captaram o pio de um falcão mensageiro, mas como não encontrava o pássaro por nenhum lado, provavelmente Hinata o interceptara; pensando em terminar aquele trabalho e ir encontrá-la rapidamente, Naruto devolve o copo a neta do lenhador, que em sua afobação juvenil por estabelecer um contato, o derruba no chão tão pronto o segura, espalhando estilhaços de cerâmica e ferindo-se acidentalmente.

— Céus, não seja tão estabanada, Miko-chan, desse jeito não vai arrumar marido! — Com uma risadinha forçada, a dona da pequena casa de chá, entre os curiosos que reuniram-se, fala sugestivamente.

— Deixe ver isso, Miko. — Preocupado, o velho lenhador abaixa-se, verificando os cortes nas pernas da garota.

— Não é nada, vovô… — Envergonhada, a jovem encolhe-se inteira, e seus agitados olhos marrons erguem-se de soslaio, buscando captar alguma reação do forasteiro.

Uma pequena roda de comentários e sugestões de tratamento iniciara, todos os que antes fingiam trabalhar por perto para ouvir a conversa do senhor Satoshi com o forasteiro, agora nem fingiam mais, aproximavam-se sem preocupação e agiam normalmente em sua presença; como um espectador, Naruto os via e ouvia, inerte em seu lugar, apenas aguardando que resolvessem o que fazer e afastassem-se para que voltasse a sua tarefa anterior e terminasse-a logo, sem compreender as intenções ocultas de todas aquelas sugestões ou por que o velho lenhador parecia cada vez mais envergonhado.

— Não, Miko-chan não deve se levantar, isso deve doer, se alguém pudesse levá-la… — Ia dizendo uma das amigas da jovem.

— É certo, Aoi-chan tem razão… — Outra das mulheres mais velhas tenta iniciar outra insinuação, mas é interrompida.

— Se vocês a levarem para limpar isso com água e aplicarem extrato de calêndula, vai resolver, não é profundo ou sério. — Impaciente com aquele jogo de palavras, para ele sem sentido algum, Naruto usa o mesmo tom de comando que usava em Konoha — Se puderem se afastar, preciso terminar aqui e podem saltar lascas de lenha.

Em um instante a roda se desfaz, o velho Satoshi leva sua neta e os demais dispersam-se rapidamente, preocupados de terem ofendido o forasteiro, ao mesmo tempo, especulavam se sua falta de reação devia-se a que Miko não despertara seu interesse; as intenções que começavam a ganhar força entre os moradores, alimentadas pelo encantamento das jovens e validadas pela esperança de seus pais de encontrarem um bom partido naquele lugar isolado, sem saber ainda que seus esforços seriam infrutíferos, e sequer desconfiando que o bom rapaz que fizeram de alvo, tinha apenas quatorze anos.

Durante os dias seguintes, Naruto consertara o celeiro e logo reparara os telhados das casas, tornando-se um verdadeiro mestre de obras, impressionando ainda mais os moradores; Hinata não esteve diferente, após catalogar todas as ervas medicinais da região, encontrara outras espécies que os moradores estavam usando parar tratar os animais, além de sementes que haviam trocado com os mercadores sem saber seu uso, e que se plantadas, o produto seria muito mais valioso tanto para o comércio, como para a alimentação. As crianças, após os primeiros dias onde o resfriado de Hanabi deixava-a enfraquecida e frágil, passaram a brincar com os menores do povoado, e Konohamaru atuava como um pequeno guardião, garantindo que Hanabi brincasse sempre na sombra e não se cansasse demais, como Hinata lhes ordenara como condição para permitir que saíssem do quarto; e como Jiraya tinha sua própria ideia de estadia, seus dias consistiam em estar na única taberna de beira de estrada perto do vilarejo, e como dizia, essa era sua forma de contribuir: enriquecendo a economia local e divertindo-se com suas pesquisas, enquanto coletava informações pertinentes e úteis.

— Você está correndo no sol, Hanabi? — Passando pelas crianças carregando algumas vigas nos ombros, Naruto “ralha” com a menina.

— Não, só vim buscar a bola. — A pequena rapidamente explica, já voltando para a sombra, temendo que lhe ordenasse se recolher mais cedo.

— Você sabe que se desobedecer à regra, nós três estaremos encrencados? — Sorrindo-lhe travesso, Naruto os fita, sabia que não cumpririam ao pé da letra, mas deveria garantir ao menos que não saíssem da linha — Não deixe mais ela sair daí, Kono.

Quando Naruto afasta-se, subindo no telhado que estava consertando no momento, em frente a pequena pracinha onde as crianças brincavam, os filhos dos moradores voltam a aproximar-se dos dois novos amigos; temiam aquele rapaz de aparência severa que todos os adultos falavam, principalmente porque era grande e forte, e tinha todas aquelas cicatrizes horripilantes nos braços.

— Seu otousan é muito bravo. — Uma menina diz a Hanabi.

— Não ele… — Hanabi começava a explicar sua situação familiar, quando uma nova compreensão revela-se diante de sua mente infantil — Ele não é bravo, nunquinha!

— Aquela moça bonita que te busca é sua okaasan? — Outra menina pergunta, curiosa — Você parece muito com ela.

— Vocês são irmãos? — Dessa vez é um garoto que pergunta a Konohamaru.

Para os dois, sendo bombardeados pelas perguntas dos companheiros, foi como se um mundo completamente novo abrira-se diante de seus olhos, e seus pequenos corações, constantemente aflitos por tantas mudanças, pareceram sossegar quando ouviram aquelas palavras; não era difícil para eles compreenderem a situação, quando colocada de forma tão simples e verdadeira pela lógica infantil. Todas aquelas crianças ali tinham pais, eram cuidadas e protegidas por seus pais e Konohamaru e Hanabi viram isso durante aqueles dias, também presenciaram situações assim em Konoha, e eram inteligentes o bastante para compreender a diferença entre laços de sangue e o significado de família; então, quando depararam-se com esses questionamentos, em suas recordações a imagem de Naruto e Hinata sempre cuidando-lhes, protegendo-os e principalmente, amando-os genuinamente, inundaram seus pensamentos, opacando qualquer outra composição familiar.

— Sim. — Com muita confiança e orgulho, Konohamaru responde, segurando a mão de Hanabi.

— Espera um pouco aí. — Outro garoto, um pouco mais velho e, portanto, mais maduro, intervém — Então eles são casados? Isso significa que a moça bonita é a okaasan dos dois, e o moço bravo também?

— Sim. — Recordando uma conversa com o tio Hizashi, e a recente cerimônia, Hanabi afirma — O padrinho disse que essa é uma viagem de lua de mel.

Alvoroçadas, as crianças passam a fazer inúmeras perguntas aos dois, comparando o que ouviam com o que viam da convivência dos seus próprios pais, como se quisessem comprovar os fatos; de cima do telhado, Naruto via a agitação das crianças, que soltavam exclamações barulhentas e até gargalhavam sem saber que estavam a discutir sua vida, e supondo que nada sério acontecia, visto que os pequenos pareciam bem relaxados e acompanhavam os demais naquela bagunça, decide concentrar-se no trabalho. Sorrindo mais tranquilo, o Uzumaki volta-se para sua tarefa e assim permanece por horas sob o sol, que mesmo sendo de primavera, ainda era escaldante; em algum momento da tarde, seus ouvidos treinados captaram o ranger dos degraus da velha escada de madeira que utilizara para subir, e sequer teve de deter as marteladas para saber o que era.

Como estivera ocorrendo nos últimos dias, alguma aldeã estava ali para entregar-lhe água — desnecessariamente, já que trazia seu cantil — ou algum prato feito recentemente, oferecendo-lhe algo de sua culinária típica, alegando ser bom para isto ou aquilo com sorrisos tão grandes, que seria possível que caíssem daquelas alturas, por não ver onde pisavam; quando ocorreram essas primeiras situações, Naruto não importara-se, estava consertando o celeiro e logo fora a vez do curral dos animais, entretanto, nos telhados a chance de acontecer um acidente grave aumentava e de fato, já lhes advertira que parassem com aquela imprudência, não entendia porque seguiam fazendo ouvidos surdos.

— O dia está mais quente hoje, não? — Como esperado, uma jovem assoma a cabeça a beira das abas — A okaasan fez kusa mochi e pediu para te entregar.

Radiantemente, a jovem deposita sobre o telhado uma pequena cesta, e parecia realmente expectante por ver a reação do forasteiro a — como diziam todos na vila — boa culinária de sua mãe.

— Obrigado, mas não vou parar agora. — Sem deter-se, Naruto responde — Você pode levar para a Hina, ela adora mochi, vai ficar contente.

Imediatamente, a jovem murcha como um lírio sob o sol de verão, suas esperanças sendo estilhaçadas e até mesmo a sua última centelha de persistência, que dizia-lhe que se tentasse uma estratégia diferente teria sucesso, é apagada com algo que a praça inteira escuta a seguir.

— Otousan? — O grito agudo daquele chamado atrai a atenção de Naruto antes que ele compreenda o que fora dito, quando identifica a voz de Konohamaru — Nós vamos entrar agora.

Os pequenos sempre tinham o cuidado de avisar a Naruto ou Hinata de seu paradeiro, algo aprendido e gravado em suas mentes, e com seu protocolo de segurança cumprido, o menino segura a mão de Hanabi e caminha até a pousada do outro lado da rua; inusitadamente, o aviso naquele fim de tarde fora completamente diferente, e o Uzumaki, pego desprevenido, quase cai do telhado, o que o salvara foram seus hábeis reflexos ANBU, do contrário, estaria estatelado no chão no segundo seguinte.

Ah, isso foi ótimo, você deveria ver sua cara de pânico! — Gargalhando até seu corpozarrão cair, Kurama debocha em seu inconsciente.

O que faço, Kurama? — Assustado, Naruto pergunta à raposa.

A verbalização te assusta? — Desde que seu vínculo com seu Jinchuuriki fortalecera-se mais, a Bijuu passara a decifrar melhor suas emoções.

Não é isso, eu só… pode ser complicado no futuro, e se acabarem feridos emocionalmente? Sou realmente capaz? — Naruto sabia, se Konohamaru verbalizara, Hanabi logo faria.

Garoto, você só precisa agir naturalmente, como sempre. — Com uma sabedoria que raras vezes sua zombaria deixava vir à tona, Kurama aconselha — Afinal, é exatamente por isso que chegamos a isso.

Um pouco mais tranquilo, Naruto até sorri timidamente, saboreando a sonoridade daquela palavra que sempre usara para referir-se a alguém mais, mas que nunca fora usada para designá-lo, seu coração descompassado enche-se de um calor diferente e seus olhos lacrimejam discretamente; enquanto o jovem reorganizava seu emocional, na praça um burburinho começava a espalhar-se como fogo, e as jovens euforicamente esperançadas entram numa espécie de estado de negação.

— Ele pode ser pai solteiro, não é? — Dizia uma delas.

— Só menino o chamou, então a menina não deve ser. — Outra pontua, receosa ao recordar a semelhança entre a menina e a moça forasteira.

Durante aqueles minutos de agitação prolongados entre os moradores que presenciaram o ocorrido, os trabalhadores do campo retornam após um dia produtivo e especialmente marcante para o povoado, que com os ensinamentos das técnicas de cultivo inovadoras que Hinata lhes demonstrara, entrariam em uma era de prosperidade; o grande grupo retornava para descansar e refrescar-se a sombra depois da longa jornada laboral, e a Hyuuga entre eles, notando a ausência das crianças na praça e avistando a figura de Naruto ainda no telhado, resolve verificar seu paradeiro e sobe aquela precária escada de madeira. Ao ouvir o ranger novamente, Naruto desperta de sua contemplação silenciosa e antes que fique exasperado pela frequência da abordagem daquelas jovens, reconhece aquela presença cristalina que sempre lhe trazia paz; sequer vira seu rosto e um enorme sorriso toma conta de suas expressões, enternecendo-as como se estivesse a vislumbrar uma visão do paraíso.

— Naruto? As crianças estão na pousada? — Chamando-o, Hinata surge a beira das abas da casa.

— Sim, eles entraram tem uns minutos. — Agora um tanto inquieto, Naruto aproxima-se de Hinata e com muita seriedade, lhe conta — Hina, o Kono acabou de me chamar otousan!

— Oh, e como você se sente a respeito? — Igualmente séria, mas inesperadamente sem qualquer indício de surpresa, Hinata questiona.

— Acho que estou bem, quero dizer, foi um susto, mas não muda nada. — Considerando adequadamente a pergunta, Naruto responde — Realmente estamos cumprindo esse papel, e de verdade, não importa qual nome a gente dê, vamos sempre ser família. Só me preocupo de que isso cause confusão neles mais tarde, e também tem a Nabi, ela provavelmente vai agir igual e isso me leva a outra questão, como fica a relação de vocês duas?

— Não acho que será complicado, eles são crianças inteligentes, se conversarmos apropriadamente e deixarmos tudo esclarecido, vamos ficar bem. — Com a confiança de quem previa o futuro, Hinata pontua.

— E você vai ficar bem com isso? Quero dizer, fui nomeado otousan, significa que logo você será okaasan. — Nesse instante, os olhos de Naruto brilharam de uma forma que nada tinha a ver com o ocorrido daquele dia.

— Claro que sim, Naruto! Como você disse, não muda nada. Você já terminou por hoje? — Sem conseguir decifrar aquele matiz pretensioso em suas expressões, Hinata muda de assunto, até seus olhos avistarem a cesta deixada sobre o telhado — O que é isso?

— Uma moça da vila trouxe, é kusa mochi. — Absolutamente desinteressado, Naruto conta — Falei para ela levar para você, mas simplesmente deixou aqui. Você me espera terminar aqui? Só falta um ajuste.

— Por que ela te trouxe doce? — Sentando-se sobre o telhado, Hinata analisa a cesta cuidadosamente preparada.

— Não sei, parece que todo dia uma mãe desta vila está fazendo um prato novo. — Naruto comenta, alinhando as vigas — Quando as crianças estão perto, elas comem.

— Então isso aconteceu todos os dias? — Sem denunciar nada, Hinata segue interrogando normalmente.

— Acho que sim. — E Naruto sequer se dá conta do perigo — Elas sempre aparecem com alguma coisa boa para isto ou aquilo.

Hyuuguinha, esse idiota não sabe de nada. — Inesperadamente, Kurama, vendo a enrascada que seu hospedeiro metera-se, intervém — Ele nem percebeu nada, é tão néscio socialmente, que nem presta atenção.

— Então você sabe o que aconteceu, Kurama? — O ar em volta de Hinata decaiu uns quantos graus.

Parece que esses humanos estúpidos estiveram tentando atrair esse idiota. — Especialmente divertido com a situação, Kurama explica, apesar de que também gostaria de ver um bom espetáculo — Só que ele é tão denso quanto a tudo que não seja você e aquelas pulgas, que deve ter frustrado muita gente.

— Obrigada por me contar, Kurama. — Fitando a cesta de mochi como se fosse um inimigo mortal, Hinata sente aversão pelo doce que amava pela primeira vez na vida.

Você é um traidor, por que não me avisou antes? — Em seu inconsciente, Naruto discutia com a raposa, profundamente temeroso, após ouvir a conversa dele com Hinata.

E perder a chance de te ver metido em problemas? — Zombeteiro, Kurama sorri maliciosamente — Pelo olhar dela, você vai ter trabalho para apaziguar a fera!

— Estúpido Kurama, eu te odeio! — Indignado, Naruto lhe xinga uma última vez, abandonando seu estado mental em desespero, enquanto escuta aquela gargalhada ecoar as suas custas — Hi… Hi-Hi-Hina… eu juro que não sabia… não fiz nada…

— Silêncio, Naruto! — Pausadamente, Hinata fala, seus olhos de lua faiscando intensamente — Termine isso logo, quero ir descansar!

Enquanto aquele pequeno incidente — onde o Uzumaki seria ignorado friamente por algumas horas — iniciava, em algumas casas do vilarejo as famílias já recolheram-se e reuniam-se ao redor de suas mesas para jantar, e o assunto não seria outro que o ocorrido de mais cedo na praça; algumas mães pareciam desoladas com a descoberta, mais até que as próprias filhas, e os pais pareciam até resignados com aquele desfecho, afinal, estiveram vendo a atitude desinteressada do rapaz durante aqueles dias, chegando inclusive a desencorajar suas esposas e filhas. Para os homens de mente simples, enxergar a indiferença e o trato formal era mais fácil do que para as mulheres tenazes, portanto, aquele clima melancólico em suas mesas, era algo esperado e considerando que poderiam ter um problema maior em mãos se o jovem ofendesse-se com as ações das mulheres da vila, era até afortunado; indiferentes a atmosfera tristonha em suas casas, as crianças seguiam suas rotinas normalmente, apenas escutando aqui e acolá as discussões lastimosas dos mais velhos.

— Não consigo acreditar. — Dizia a dona da casa de chá, sentada desanimadamente — É um dos melhores partidos que tivemos em anos.

— Talvez seja solteiro, okaasan, talvez seja pai solteiro… — Aoi, amiga da neta do lenhador, consola a mãe como fizeram as demais jovens mais cedo.

— Não sei, a menina é muito parecida com a moça. — Desconsolada, a mulher pontua.

— Sim, mas isso não significa que também seja filha dele, talvez ainda… — Aoi retruca, agarrando-se a mínima possibilidade.

— Nabi disse que o moço é o otousan dela, a moça é sua okaasan e ela e o Kono são irmãos. — Levando para o túmulo os muitos “e se” que a irmã poderia pontuar, o caçula da casa conta o que ouvira na tarde — Disse que estão em uma viagem de lua de mel, o que é isso, otousan?

— É como um passeio que casais fazem depois do casamento, eles provavelmente só puderam fazer agora que os filhos estão crescidos. — Lançando a mulher e a filha um olhar de aviso, o homem explica — E agora que tudo foi esclarecido, espero que vocês passem a se comportar dignamente e com respeito, não envergonhem nosso vilarejo pagando a bondade com atos inescrupulosos.

Na pousada distante daquela residência, um episódio de uma tensão um tanto diferente desenrolava-se, pela primeira vez desde sua chegada, o casal optara por ter o jantar no quarto, longe dos olhares curiosos e dos cochichos intermináveis que cercara-os desde que retornaram ao final da tarde; após verificar que Jiraya não retornaria aquela noite em função de suas “pesquisas” e atender as crianças durante o banho, um jantar aparentemente tranquilo — dividido entre o silêncio cansado das crianças e a tensão palpável entre a dupla — é desfrutado quase sem muito empenho por parte dos quatro.

— Kono, Nabi, venham aqui. — Falando pela primeira vez desde sua descoberta da tarde, Hinata os chama, buscando manter uma disciplina entre seus sentimentos e suas responsabilidades — Precisamos conversar seriamente. Naruto me contou o que aconteceu hoje e gostaríamos de ouvir vocês e entender o que está acontecendo.

— Vocês estão bravos comigo? — Inseguro, Konohamaru sente os olhos ardendo.

— Não! Claro que não, Kono! — Rapidamente Naruto garante, e sorrindo aproxima-se do menino, afagando seus cabelos — Só estamos preocupados e precisamos conversar a respeito, ok?

— Você não fica feliz se a gente te chamar de otousan? — Um tanto trêmula, Hanabi pede num fiapo de voz, apertando suas mãos nervosamente.

— Claro que fico! Fiquei tão feliz que quase cai do telhado. — Naruto esclarece com a verdade, aproximando ambos e sentando-os em seu colo — Mas precisamos saber se vocês entendem que, biologicamente, não sou seu otousan, para que isso não confunda ou magoe vocês mais tarde. Mas independente disso, nossa família será a mesma.

— Também precisamos que vocês compreendam suas origens, isso ninguém pode negar ou apagar. — Hinata complementa, mantendo aquele tom dócil que tranquilizava — Vocês entendem que nasceram de outras pessoas? E que mesmo que mudem de ideia depois, ainda seguiremos cuidando, protegendo e amando vocês?

Ao mesmo tempo, os pequenos assentem com uma veemência decidida, e encorajados pelas palavras tranquilizadoras, expõem seus corações.

— É por isso… eu sei que meu papai e minha mamãe me amaram…, mas não lembro muito mais deles, só sei o que vejo nas fotos… o que vocês me contaram. — Konohamaru fala, os lábios tremendo enquanto traduzia em palavras aqueles sentimentos confusos, escondendo o rosto entre o braço de Naruto — O que eu lembro é de quando vocês me cuidam desde sempre, quando me colocam para dormir e contam histórias…

— Os outros papais que vi em casa e aqui fazem isso… papais e mamães sempre cuidam e protegem… — Hanabi completa, igualmente emotiva, buscando imediatamente o olhar da irmã — Não batem como pessoas malvadas, nem implicam como irmãos mais velhos…

Como se fosse um acordo mutuo e sutil, durante toda a explicação, os pequenos pareciam resolutamente decididos a não referir-se aos dois como costumeiramente faziam: Hina-nee e Naruto-nii; percebendo aquela obstinação, o jovem casal troca um olhar rápido e significativo, optando por aprofundar a conversa e pontuar seguramente todas as variáveis.

— Então, é uma decisão que vocês tomaram por nossa forma de cuidar dos dois? — Colocando de forma simples, Naruto pergunta, sentindo o peito apertar.

— Isso. — Aliviado por serem compreendidos, Konohamaru concorda — É errado pensar assim? Sei que tive papai e mamãe…, mas sinto que também tenho agora…

— Não é errado, Kono. — Comovida, Hinata garante, limpando as lágrimas fujonas que escorriam pelas bochechas de ambos — Se vocês se sentem assim, tudo bem! Queremos apenas que saibam e entendam o que estão dizendo, e que isso não anula nada do que já passou, só acrescenta.

— Então podemos te chamar de otousan? — Fixando seus olhinhos cintilantes em Naruto, Hanabi pergunta.

— Claro que sim, Nabi. — Com o coração aos pulos, Naruto concede, sentindo um orgulho indescritível invadi-lo.

— E você pode ser nossa okaasan, mesmo sendo minha nee-san? — Volteando o olhar para Hinata, a menina toca outro ponto de preocupação em sua mente inocente.

— Claro, Nabi, posso ser os dois. — Tentando controlar as lágrimas, Hinata assegura.

— E... e quando o passarinho de cristal trouxer a semente do bebê? Ainda vai ser assim? — Um medo natural recorda ao pequeno Sarutobi a missão de contagem que eles empreendiam ainda durante aquela viagem.

— Bem, vai mudar um pouco, porque nesse caso vocês vão ser os irmãos mais velhos que implicam. — Rindo um pouco, ao imaginar aquela cena futura, Naruto explica e por fim os dois sorriem.

Ao vê-los relaxando diante daquela afirmação, Naruto os abraça, envolvendo-os em seus braços a ponto de que ambos ficam completamente ocultos, não lhe importava se algum dia os dois recuariam de sua decisão e voltariam a chamá-lo Naruto-nii, importava-lhe apenas que era nele que aqueles pequenos depositavam sua confiança, independentemente de título ou laço e, portanto, seria o que eles quisessem e necessitassem; quando seus olhos nublados pelas lágrimas fixaram-se em Hinata à sua frente, igualmente emocionada e tentando conter o choro, encontrara a mesma determinação em seu olhar, não significava nada a definição que o mundo lhes outorgasse, tudo que lhes interessava era aquele amor genuíno que cabia em um abraço. Naquela noite, pela primeira vez ao colocá-los para dormir, ouviram um entusiasmado “boa noite, otousan!” e “boa noite, okaasan!” que lhes derreteu por dentro como não esperavam, e para surpresa de ambos, era absolutamente agradável e gratificante de ouvir; contudo, a atmosfera cálida e terna de antes, logo é substituída por uma tensão, que para Naruto era angustiante como nada na vida. Sentado no futon compartido em posição seiza, o Uzumaki observava calado Hinata deambular pelo quarto fingindo não vê-lo enquanto guardava alguns pertences nas mochilas e organizava outros; via os cabelos dela ainda úmidos do banho e ansiava-se pela Hyuuga não ter-lhe permitido secá-los como de costume, temendo que ela também terminasse resfriada.

— Hina, por favor… — Incapaz de aguentar mais a situação, Naruto suplica — Juro que não sabia!

— Você diz que não sabia, então como é que esteve aceitando tudo? — Cética, movida pelo ciúme, Hinata finalmente fita-o.

— Justamente por que não sabia, e para ser honesto, disse uma e outra vez que não queria e não precisava, nem cheguei a provar nada, as crianças… — Apelando para a lógica sincera, Naruto explica-se, torcendo para Hinata entendê-lo.

— É igualmente ruim, não bastava ficar aceitando presentinhos, ainda deu essas coisas a eles! — Como se aquilo fosse uma ofensa pessoal, Hinata retruca sem ceder.

— Eu não aceitei nada, Hina, simplesmente me empurravam pratos disso e daquilo e não achei correto desperdiçar comida. — Usando toda sua suavidade e paciência, Naruto segue com seu esclarecimento — Quando disse que não queria nada e continuaram acontecendo situações assim, pensei que era a forma das pessoas daqui de agradecer pelo trabalho que…

— Ah, sim! — Novamente enfurecida, Hinata o corta — Elas estão muito agradecidas! Francamente, Naruto, não venha com essa de que você não viu sorrisinhos e olhadinhas, você não é cego!

— E não vi mesmo! De verdade, Hina, eu não presto atenção nesse tipo de comportamento se não vier de você! — Intuindo que ela recuaria, Naruto continua — Você sabe que é verdade, Hinata, desde sempre, só olhei para você, não há um dia da minha vida que não tenha sido seu! Por favor, me desculpe, prometo que vou prestar atenção e isso nunca mais vai acontecer!

— Não é para prestar atenção! — Desarmada por aquela sinceridade e um tanto constrangida por sua irracionalidade, Hinata replica corando intensamente enquanto finalmente se aproxima dele — Prefiro que você não saiba. E se você, Uzumaki Naruto, olhar um milímetro sequer para os lados…

— Não preciso olhar para lado nenhum, Hina, só preciso de você! — Passando os braços pela cintura dela, Naruto garante, escondendo o rosto na curvatura do pescoço de Hinata para ocultar seu sorriso.

Sabia que se Hinata percebesse que estava contente com seu ciúme, enfrentaria outra pequena guerra, e apesar de adorar a deliciosa sensação proporcionada por momentos assim, não seria bom extrapolar os limites da paciência dela; quando pode controlar suas expressões e ocultar sua felicidade, Naruto fez com que a Hyuuga se sentasse à sua frente e de costas para ele, e por longos minutos, entretivera-se ao secar-lhe os cabelos. Ao concluir a tarefa desempenhada com esmero e carinho, o Uzumaki permanece alguns segundos passeando seus dedos lentamente por entre os fios negros dela, como se estivesse penteando-os, inalando gratamente o perfume que desprendiam; aquele aroma peculiar de narcisos e lavanda, sempre lhe remetia os momentos mais marcantes de sua infância, como o dia em que vira Hinata pela primeira vez, tão pequena e delicada como uma boneca de porcelana e seda. Aquela aura etérea ainda permanecia, constante e encantadora, mas já não pertencia a uma fada das florestas que trouxera magia aos seus dias solitários; agora, diante dele revelava-se uma ninfa dos rios, que por vezes fazia suas emoções ebulirem com a violência das corredeiras, para logo tranquilizarem-se como as águas plácidas de uma foz. Antes que seu coração errasse outro compasso, Naruto afasta-se minimamente, encerrando a tarefa e concentrando-se em ordenar o futon e as mantas para descansarem; quando acomoda-se confortavelmente, age com naturalidade, puxando-a gentilmente para os seus braços, acomodando-a em seu peito como fizeram em todos aqueles anos compartilhados. Ao ser envolvida tão familiarmente, Hinata relaxa ao instante, sentindo o calor reconfortante do corpo dele irradiar pelo seu, enquanto os dedos de Naruto traçavam os mesmos círculos tranquilizantes de todas as noites por seus ombros; a tensão da insegurança e o ceticismo originado pelo ciúme já não se viam por lugar algum, ali naquele aconchego habitual existia apenas eles, os sentimentos surgidos da mais verdadeira amizade, cultivados e fortalecidos com carinho, dedicação e respeito.

— Desculpe. — Hinata murmura, escondendo o rosto no abraço dele — Não deveria ter reagido assim, eu só…

— Eu sei. — Beijando-lhe a testa marcada pelo losango diamante do selo, Naruto tranquiliza-a — Sei que para nós, Hinata, que vimos tanta desgraça e temos vivido no limiar de dois mundos distintos, preservar, monopolizar e reivindicar o que nos é precioso e insubstituível, também tem um lado brutal e primitivo. É inerente de todo ser humano, mas talvez, nós dois sejamos mais intensos que a maioria.

— Ainda assim, não devo ser inflexível, estamos bem como sempre estivemos, não há e nunca houve razão para agir assim. — Refletindo sobre o ocorrido, Hinata analisa-o com a frieza de sua outra persona.

— O que acontece, Hina, é que você está mais fragilizada emocionalmente do que antes. — Virando-se de lado, de modo a estar de frente para ela, Naruto faz uma análise diferente da situação e como sempre, vê aspectos dela, que às vezes nem Hinata conhecia — Estamos numa jornada que pode apresentar perigos inevitáveis e com duas crianças no meio, nos adaptando a uma rotina nova, muito instável e inconsistente nessas estradas. Também, quem te disse que ciúme é racional? Quantas vezes estive agindo como o primeiro Homo sapiens? Isso considerando o tempo de namoro, se contar desde que nos conhecemos, dá para encher um pergaminho de invocação. E, além disso, você está estressada, cansada e sentindo cólicas faz dois dias.

— Quê? Não! Não estou não. — Hinata, que até então ouvia sua análise lógica, rapidamente foca nessa última informação, tentando encontrar os sintomas em seu corpo.

— Está sim! Percebi só ontem, você esteve desconfortável o dia todo e apertava a barriga com frequência. Não deve ter percebido devido à mudança. — Com calma, Naruto afirma, revelando a extensão do quanto era observador com Hinata — Hoje você esteve mais calma pela manhã, depois de tomar o chá de erva-doce.

Profundamente impactada e tocada, Hinata o fita ininterruptamente por vários segundos, decifrando e absorvendo a compreensão que lhe invadira, sobre como Naruto gravara-se em tantos aspectos de sua vida, como se sua presença fosse uma continuidade dela mesma; no passado, era um símbolo de segurança e calidez sem igual, o primeiro vínculo que estabelecera ao abandonar sua sombria vida, e agora, considerando a evolução do que sentira sendo uma menina, a consciência abrangente e elaborada naquela relação, diziam-lhe que Naruto era parte fundamental de sua própria existência. Sem interromper a conexão entre seus olhares, como se aquele azul tão profundo a mantivesse presa, Hinata ergue uma das mãos até o rosto de Naruto e com muita suavidade, traça com a ponta dos dedos as marcas em suas bochechas, antes de acariciar propriamente sua face; sua mão, deslizando sem pressa por aquele rosto que preenchia uma infinidade de suas lembranças, começa formigar levemente, ao notar o contraste entre a suave pele perto de seus olhos e a aspereza presente na linha do maxilar. Quando Naruto, impulsionado pelo carinho recebido a despertar-lhe sensações que mal podia reconhecer e administrar, segura-lhe o pulso delicadamente e beija-lhe a palma da mão, o coração de Hinata falha uma batida e um ofegar brusco escapa-lhe dos lábios; seus olhos de lua arregalam-se nervosamente, e sua mente capta e reconhece como aquele formigar espalha-se por seu braço e espinha, acompanhado de um frio enervante que atormenta-a.

Durante aquele instante suspenso entre a realidade e a imaginação, imerso buscando compreender esse sentir tão conhecido e tão distinto em causa e intensidade que o desestabilizava, Naruto pode perceber detalhes além de sua própria comoção, como o pulsar acelerado sob seus dedos, uma respiração mais pesada que acompanhava a sua, um ruborizar que certamente também apresentava, e sobretudo, aquele olhar repleto de surpresa e reconhecimento; conhecia cada olhar de Hinata, cada semicerrar de pálpebras, cada união de suas sobrancelhas, sabia o que cada nuance em seus olhos significavam, e naquele segundo interminável, a agitação de suas íris peroladas e a dilatação de suas pupilas indicavam que ela estava surpresa, contudo, o brilho intenso também dizia que ali havia compreensão e reconhecimento. Quando o pânico ameaçava substituir a onda eletrizante que aquele toque espalhara por sua pele, outro movimento suave desperta-o daquela aflitiva perturbação; munida de uma confiança deliberada, Hinata entrelaça suas mãos enquanto um pequeno sorriso revela-se em seus lábios, e agora todo seu rosto denunciava um entendimento desconcertante. Como sucedera desde que recordava-se, houve naquele instante onde palavras não cabiam e nem alcançariam descrever correta e verdadeiramente o momento, o sentimento, uma conversa silenciosa que, irônica e absurdamente, era muito mais ruidosa; foi quando Naruto soube que estava tudo bem, e que, ao mesmo tempo que muitas coisas mudavam e transformavam-se, tudo permaneceria igual, constante, e isso era o que tornava tudo tão especial. Com um suspiro longo, carregado de uma liberdade concedida com tanta indulgência, Naruto volta a envolver Hinata em seu abraço, aproximando-se novamente dela, memorizando a importância e o significado daquele momento, que ensinara-lhe o que nem todas as conversas instrutivas puderam prepará-lo; a confiança, o respeitar o outro e valorizar os detalhes mais ínfimos, era o que determinaria como adaptar-se-iam, como tratariam e reagiriam ao sentir e constatar as sutilezas de uma vida compartilhada em cumplicidade, um reflexo natural do amor que construíram.

***

— Sabia que estariam aqui. — Como a personificação do tédio, Shikamaru surpreende as três garotas.

— Shika! — Ino lhe chama ferozmente — Pode parar com esse costume de aparecer do nada?

— Por que está brigando só comigo? O Sai está bem do teu lado agora mesmo. — Indiferente a nova onda de sustos que a informação causaria, Shikamaru retruca.

Como esperado, as três voltam a surpreender-se e Ino praticamente salta em cima de Sakura, quando vê Sai sentado ao seu lado tão calado e imóvel como uma estátua, Tenten, por sua vez, olha em várias direções, buscando mais alguém que ameace sair das sombras daquela forma; para alívio delas, ninguém mais surgira daquela maneira que mais se assemelhava a de um predador espreitando, contudo, um a um seus amigos começaram a despontar pela trilha entre choupos e salgueiros que desembocava na clareira. Como se tivessem combinado aquela reunião, o grupo foi aproximando-se e encontrando um lugar para sentar-se em troncos cortados, dispostos no local em que sempre faziam os churrascos na floresta; os últimos a chegar foram Chouji acompanhado dos recém integrados ao grupo, Shino e Madoka, e a garota trazia uma tímida e retraída Karin enganchada de seu braço, que logo arregalara seus olhos vermelhos, ao ver aquele lugar tão belamente encantador.

— Então, o que estão fazendo? — Fitando como Lee falava algo aos sussurros com Neji, como se tentasse acalmá-lo, Shikamaru volta a questionar as garotas.

— Prometi a Hina que ia cuidar do jardim dela. — Voltando a podar as hastes dos crisântemos, Ino responde — Por isso combinamos de vir aqui alguns dias na semana. E o que vocês estão fazendo?

— Acabamos de sair de uma reunião com o capitão. — Deitando-se preguiçosamente ao lado dela na grama, Sai conta — Precisamos do nosso refúgio mental.

— Ah, Sakumo-nii disse que o último decreto de sanções autorizado por Naruto está sendo complicado. — Revelando o pouco que sabia a respeito, Sakura comenta distraidamente, espalhando adubo pelos canteiros.

— Sim, é complicado aplicar disciplina Shinobi a civis, mas o desafio é fazer cumprir o decreto sem deixar margens para serem usadas contra as novas leis da Vila. — Medindo suas palavras, Shikamaru explica — Estamos operando em um sistema minimalista, para evitar um efeito contrário desfavorável.

— Aquele idiota irresponsável! — Finalmente, Neji, que esteve apenas resmungando durante a conversa, explode em desgosto mal contido, fazendo Lee suspirar — Sabia que isso aconteceria, e ainda assim, saiu com ela da Vila sem dizer nada a ninguém! De que adiantou fazer tudo aquilo? Agora estão dizendo que fugiram juntos…

— Ah, por favor, Neji! — É Tenten quem exaspera-se com o companheiro — E se tivessem fugido? Quem tem o direito de dizer algo? Estão comprometidos e todo o corpo Shinobi sabe que foram para uma missão! O que mais você queria que Naruto fizesse? Abandonasse seu dever só para calar a boca de quem não move um dedo para proteger essa Vila? Já basta que eles tenham que ficar dando explicações e solucionando a boa moral podre desse povo que se beneficia da dedicação e do trabalho deles!

— O que você não entende, Neji, é que Naruto decidiu partir dessa forma, escondido e longe das vistas de todos, justamente para fazer as bocas se soltarem. — Calmamente, Shikamaru intervém, dando uma explicação que ninguém ali esperava — Ele agiu legal e honradamente, dando a Hinata seu lugar de direito oficial, dessa forma, já não deveria haver qualquer falatório sobre isso. Então, ao sair assim, Naruto forneceu a isca perfeita, para que os causadores detrás de todo o problema, voltassem a instigar as massas.

— Você está dizendo que Naruto saiu assim de propósito, Shika? — Embasbacado, Chouji questiona.

— De que outra forma poderíamos estar investigando a fundo esse assunto? Se os rumores não voltassem, como iríamos poder encontrar os culpados? — Sai responde sem nem mesmo erguer-se do gramado — As pessoas são covardes, principalmente quem gosta desse tipo de história, se não houver um início, não há fofoca. Com o compromisso dos dois, ninguém mais deveria falar algo, então, por que continuam? É óbvio que há uma intenção maliciosa por trás, e não tem nenhuma relação com falar da vida alheia por esporte.

— Eu te disse, Neji, o Naruto tem suas razões. — Lee fala ao companheiro, como os outros, estava perplexo, mas já desconfiava — Você já deveria saber disso.

— O Lee tem razão, Neji, ainda mais nós dois, somos amigos deles há quanto tempo? — Shikamaru não queria continuar discutindo aquele problema, mas sentia que era seu dever fazer o Hyuuga entrar em razão — Quando vimos Naruto agir ou decidir algo sem que Hinata concordasse? Você sabe tão bem quanto eu, desde molequinho, o Naruto orbita em um mundo regido pelas vontades de Hinata. A outra razão para terem partido assim, seguramente foi porque a Hina não queria despedidas, você também sabe como ela é sensível.

— Ouvi dizer que ele fez um tal de voto perpetuo na cerimônia, é verdade? — Shino, quem raramente falava e ainda estava habituando-se às relações daquele grupo, resolve perguntar.

— Sim, Naruto fez. — Ino afirma com olhos brilhantes pela recordação — A Hina estava tão linda, tudo foi muito lindo!

— Os mais velhos do clã estavam dizendo que quem faz esse juramento morre, se ele não for cumprido. — Chegando ao ponto que queria discutir, o Aburame conta, impactando a todos.

— O quê? — Levantando-se com o rosto lívido, Neji externaliza a reação dos demais.

— Não vai acontecer nada com a Hina, então senta, Neji! — Antes de explicar algo, Shikamaru garante ao Hyuuga, antes que ele saísse correndo pelo País do Fogo buscando pela prima — E sim, se o juramento não for cumprido, a sentença é a morte. Por isso chama-se Voto Perpétuo.

— Mas… o que isso significa, Shikamaru? — Preocupando-se pelos amigos, Tenten pede, querendo entender antes que o medo nublasse seu juízo.

— Vocês viram a ordem da cerimônia, não? Viram como foi realizada e o que aconteceu. Não foi somente um noivado normal, e aquelas runas representam o selamento do pacto; por isso, é algo que não pode ser quebrado. — Shikamaru detalha os pontos principais — Os votos de Naruto diziam claramente que ele dedica seu destino, sua vida e sua alma à Hinata, enquanto os votos dela eram simplesmente de aceitação. Em resumo, Naruto prometeu ser dela pela eternidade, e Hinata o recebeu, esse é o teor do juramento. Neste contexto, vocês já podem ver porque foi ele quem iniciou a cerimônia e ela encerrou.

— Você está dizendo que a Hina é livre de não cumprir o pacto? — Chocada, Ino tenta acompanhar a lógica do amigo.

— Não, eles juraram e assumiram o compromisso, mas se ela decidir que quer seguir com apenas um noivado o resto da vida, vai estar cumprindo sua parte do pacto. — Dessa vez é Sai quem explica, revelando aos amigos o segredo por trás daquela prática — Já o Naruto, ele jurou dedicar todo seu ser a uma única pessoa, se não cumprir o que prometeu, o Voto Perpétuo vai cobrar um preço. Naruto basicamente assumiu diante de ritual ancestral que em todo mundo, apenas Hinata ditaria seu destino, e ele não pode nunca se desviar disso, diferente da Hina, que se decidir no futuro que seu coração mudou, é livre até certo ponto.

— A Hina provavelmente não sabe desse detalhe, não é? — Surpreendida como os outros, Sakura pergunta.

Sabia que a Hyuuga jamais concordaria com algo que pudesse representar um risco para Naruto, não porque pensasse que ela mudaria, mas porque naquela vida que levavam, quando ou como conseguiriam cumprir tal juramento, era muito incerto.

— Duvido que Naruto tenha explicado dessa forma para ela, mas também sei que ele tem toda a intenção de cumprir. — O Nara sabia quão astutamente seu amigo poderia agir, e recordando outro assunto, foca sua atenção no Aburame e na Tsurugi — Por falar nisso, vocês já providenciaram tudo para sua saída amanhã?

— Sim, apesar de que vai ser a primeira vez que vamos sair sem a Kurenai-sensei, creio que vamos ficar bem. — Madoka conta um tanto nervosa, desviando sua atenção dos canteiros por um momento.

Quando chegaram junto aos demais, Karin e ela aproximaram-se das outras garotas, naturalmente tomando pequenas tarefas e integrando-se silenciosamente a pequena missão levada pelas demais de cuidar daquele jardim; a Tsurugi e o Aburame, como companheiros de equipe de Sai, já estavam um pouco mais habituados aos assuntos e o agir daquele grupo, e a Uzumaki começava a estar mais à vontade também, graças a que as garotas eram muito receptivas.

— Hayate vai acompanhar vocês, vão fazer a missão em conjunto com o time dele, já que dessa vez não posso estar. — Sai, que captara a preocupação na voz da companheira, explica para tranquilizá-la — Tanto o nosso time, como o time do Asuma-sensei estão desfalcados de um capitão, em outra situação, Shika e eu poderíamos assumir o comando tranquilamente como Jounins responsáveis, mas pelo momento, não podemos deixar a divisão a ninguém mais.

— Que missão é essa? — Curioso, Lee pergunta.

— A Hina e o Naruto solicitaram ajuda para um vilarejo pequeno há cerca de uma semana de caminhada daqui. — Sai divide a informação com todos — Parece que Hanabi ficou resfriada e eles fizeram uma parada, depois de ver a precariedade do lugar, decidiram aplicar uma reestruturação.

— Hanabi está doente? — Como esperado, Neji foca nesse ponto específico.

— Um resfriado de primavera, mas pelo último relatório enviado essa manhã, já está recuperada e eles vão seguir viagem daqui a dois dias. — Ignorando a nova reação dele, Shikamaru conta e então foca sua atenção em Sakura — Antes que me esqueça, Tsunade-sama disse que você deve comparecer amanhã.

— Ah, bem, estarei lá. — Sem erguer os olhos das roseiras, a garota concorda.

— Ah…! — Suspirando tão alto como conseguia, Chouji também deita-se no gramado — Que saudade dos bolinhos da Hina!

— Verdade, a essa hora ela já estaria passando uma fornada recém assada. — Sorrindo enquanto ajustava as bandagens em suas mãos, Lee comenta.

— E pensar que só uns dias atrás, a gente estava aqui fazendo churrasco e rindo com eles. — Com lágrimas ameaçando cair de seus olhos, Ino recorda melancólica — Essa clareira parece tão comum agora.

— O melhor que podemos fazer agora, é esperar que voltem cumprindo a nossa parte também, fazendo nosso melhor pela Vila como eles sempre fazem. — No mesmo estado de ânimo, Tenten incentiva.

Como se tivessem aberto uma capsula do tempo, o grupo passa a trazer à tona inúmeras lembranças compartilhadas naquele refúgio, histórias da infância que tiveram o privilégio de viver, pequenos pedaços de um passado que unira a todos os presentes, mesmo que alguns em maior medida que outros, mas inegavelmente, todos pela mesma razão: a profunda amizade com as duas pessoas que levara-os a buscar a silenciosa cabana em sua tarde de descanso; todos sentiam saudade, todos tinham alguma lembrança especial, e por algum instante, imaginavam ver aquela porta abrindo-se, revelando os donos daquela casa mágica que conectava-os.

***

Na Vila, a reunião no gabinete da Hokage seguia outra diretriz, ajustando junto ao capitão da ANBU as novas adaptações feitas para o regimento de Jounins de Konoha, assim como os protocolos estabelecidos para os Chunins e as seleções para os instrutores da Academia para aquele ano; passando os olhos pelos documentos, Tsunade não consegue ocultar um sorriso de satisfação. Era impossível não perceber o toque deles naquela estruturação, e constatar que mesmo longe, ainda mantinham um controle excepcional nos assuntos de gestão, através de seus braços mais competentes, fazia a Senju sonhar cada vez mais alto com o futuro da Vila; assinando gratamente cada plano, a Godaime já idealizava como proceder em seguida, que ações tomar, para que aquelas medidas fossem cem por cento efetivas e convergissem com os interesses estabelecidos anteriormente.

— Parece que a ausência realmente não afeta a engrenagem maior. — Tsunade comenta, devolvendo os pergaminhos para Tenzou.

— Eles não se atreveriam, se tivessem a mínima desconfiança que não andaríamos corretamente. — Igualmente satisfeito, o ANBU replica.

— Você parece muito orgulhoso disso, não? — Perspicaz, Tsunade capta o tom escondido naquelas palavras.

— Sendo o responsável por mandá-los uma e outra vez a cumprir missões que ninguém mais poderia executar, naturalmente, sinto uma enorme satisfação ao ver o trabalho deles ser tão frutífero. — Sinceramente, Tenzou afirma, antes de retirar-se.

***

Dois dias mais tarde, novamente abrindo passo por estradas de paisagens inconstantes, a pequena comitiva seguia seu caminho após terem deixado para trás o vilarejo, e como ocorrera em Konoha, partiram antes do amanhecer, evitando qualquer olhar indesejado sobre o rumo que tomariam; o único diferencial desta vez fora na pousada, onde o estalajadeiro não quis receber o pagamento de sua estadia, como um agradecimento por toda ajuda que a dupla dispensara ao povoado. Assim que o sol despontara em uma luz alaranjada pelos céus, fazendo a terra sob seus pés ver-se tingida de vermelho, o grupo já estava há muitas léguas de distância, e seus rastros pelo chão batido misturavam-se a inúmeros mais; o som ritmado das rodas dos carros de bois abafavam o som dos passos dos três que caminhavam, enquanto as crianças dormiam embaladas pela cadência da peregrinação, protegidas por mantas que as ocultavam do vento gélido que erguia-se junto ao orvalho da manhã.

— Pretendem alcançar a Ponte de Pedra hoje? — Entre um bocejo, Jiraya pergunta.

— Se for possível. — Naruto queria ultrapassar aquele ponto antes que a temporada de festivais atraísse ladrões de emboscadas, contudo, com os pequenos, estabelecer metas era um tanto complicado.

— Se hoje mantivermos esse ritmo, alcançaremos o outro lado até amanhã, considerando as paradas e outros imprevistos. — Compreendendo o que lhe preocupava, Hinata afirma.

Como previsto, a caminhada daquele dia seguiu as paradas programadas para descanso, alimentação e antes que o sol se insinuasse no horizonte, um chuvisco tímido fez com que buscassem abrigo sem que o anoitecer sequer houvesse despontado suas primeiras estrelas; após Hinata inspecionar a caverna que encontrara ao sopé de uma colina íngreme em busca de perigos adjacentes, animais ou outros viajantes, a Hyuuga permanecera com as crianças organizando o acampamento daquela noite, enquanto Naruto ocupara-se de buscar lenha seca junto a Jiraya nos arredores para não distanciarem-se muito.

— Pensei que você ia querer ficar no vilarejo até a unidade de Konoha chegar. — Pondo mais gravetos bons para iniciar o fogo no cesto em suas costas, Jiraya comenta — Perfeccionistas como são, achei que iriam querer garantir que o trabalho seria feito devidamente.

— Não tenho por que fazer isso, todos sabem como devem trabalhar. — Coletando um bocado de seiva de uma árvore frondosa, Naruto retruca sem deter-se muito naquele tema — Temos que terminar essa jornada e nos estabelecer antes do verão.

— Não é como se não tivéssemos tempo de sobra. — Suspirando ao recordar da taberna, Jiraya murmura.

— Não foi sua última oportunidade, padrinho, nem de longe. — Compreendendo de onde vinha aquele desanimo de sua parte, Naruto implica — Assim que estivermos perto de outro vilarejo, você vai farejar outro lugar daqueles há quilômetros de distância.

— Alguém tem de ser o espírito livre desse grupo, não acha, garoto? Já que certa pessoa se colocou um cabresto antes mesmo de poder descobrir os prazeres da vida. — Usando o mesmo tom provocativo, Jiraya devolve-lhe.

— Deixe a Hina te ouvir falar assim e dessa vez eu não te defendo. — Naruto avisa-lhe, antes de replicar inesperadamente — E você pensa que sabe tudo, só por que vive assim, mas estar preso também pode ser muito divertido.

— Moleque sem vergonha! O que você anda fazendo? — Perplexo, Jiraya reconhece aquele brilho travesso no olhar dele.

— Eu? Nada! — Com uma firmeza que dizia que aquele não era um ponto de discussão, Naruto responde — Vamos voltar logo, a chuva está aumentando e lenha molhada não serve.

Com os dois cestos cheios de lenha e gravetos, eles retornam pela trilha colina acima, a chuva começava a tornar-se torrencial quando alcançaram a entrada da caverna e lá dentro, Hinata já havia preparado o local da fogueira e organizava uma espécie de cozinha sob uma pedra mais ampla e plana, enquanto Konohamaru e Hanabi pareciam divertir-se ao tratar os bois já livres da canga dos carros; constatando que a Hyuuga antecipara-se com os animais, Naruto dirige-lhe um olhar de pura desaprovação que a garota devolve e sustenta como se o desafiasse a dizer-lhe algo. Sabendo que não poderia vencer sua teimosia típica, Naruto suspira em rendição, decidindo que na próxima parada, libertaria os animas antes de sair coletar lenha e antes que Hinata assumisse tarefas que não gostava que se encarregasse; o Uzumaki sabia e conhecia sua força melhor do que qualquer um, em suas missões ao longo da vida, confiara em Hinata de olhos fechados, mas na domesticidade de sua vida pessoal, odiava dividir qualquer tarefa que lhe demandasse o mínimo esforço, sentia que falharia como seu companheiro, se permitisse que Hinata assumisse funções que cabiam-lhe como o provedor daquela família, mesmo ciente de sua plena capacidade. Concentrando-se em acender a fogueira, tanto para aproveitar os últimos momentos de luz do dia, como para distrair sua mente da teimosia desafiante de Hinata, Naruto organiza primeiro gravetos finos e um pouco de palha seca e cascas de árvores, lambuzando tudo com seiva; interessados no processo, os pequenos abaixam-se um de cada lado, observando curiosamente.

— O que é isso, otousan? — Apontando para a seiva, Hanabi pergunta.

Atrás deles, Jiraya esteve limpando uma pequena área onde poderiam estender os sacos de dormir e havia detido a tarefa para beber água, acaba afogado cuspindo por todos os lados, com água saindo até pelo nariz; seus olhos negros fitam Naruto com um espanto gritante, ao que o rapaz apenas lança-lhe um olhar de “falamos depois” despreocupado.

— Isso é seiva de árvore, Nabi, ajuda a acender o fogo quando a lenha está um pouco úmida. — Naruto explica, ensinando-lhes algo novo.

— Mas e se a lenha estiver muito encharca, dá certo igual, otousan? — Curioso, Konohamaru inclina-se, os olhos fixos na chama que começava a nascer.

— Nesse caso, Kono, primeiro devemos deixar a lenha secando, e utilizamos qualquer outro material inflamável que mantenha a chama por certo tempo, como as tochas feitas com trapos de algodão, por exemplo. — Com a mesma paciência utilizada com Hanabi, Naruto ensina-o.

— Então, cuidar do fogo é igual cuidar da gente? — Hanabi possuía desde muito jovem, uma capacidade para analisar situações de ângulos completamente inesperados.

— Sim, Nabi. — Rindo de sua comparação inusitada, Naruto concorda — Cuidar do fogo exige paciência, atenção e dedicação.

— Tudo que decidimos fazer nesta vida, tudo que assumimos a responsabilidade, temos a obrigação de tratar com paciência, nos dedicar e ter atenção. — Aproximando-se da fogueira já acessa devidamente com as panelas de legumes e carnes, Hinata complementa fitando-os com carinho — Por menor que seja a tarefa, se vocês aceitam, vocês devem cumpri-la até o final, entendido?

— Sim, okaasan! — A resposta soa conjunta e forte, ecoando pelas paredes de pedra.

Como se aquela conversa sobre responsabilidade tivesse despertado algo novo nos pequenos, ou fosse apenas sua vontade de mostrar que entenderam, Konohamaru recorda que não haviam concluído as lições teóricas naquela manhã, e agindo como o impulsor de Hanabi, senta-se com a menina sobre seus sacos de dormir, abrindo seus pergaminhos e livros com uma seriedade comovedora; do lado de fora, as trovoadas e o som da chuva abafavam qualquer ruído externo, e a força e imprevisibilidade da natureza mudava o cenário que horas antes era claro e límpido, tornando-o agora de um cinzento opaco. Ao terminar de erguer as barreiras de proteção e instalar as armadilhas de segurança, Naruto volta para perto da fogueira, sentando-se ao lado de Hinata e Jiraya; as panelas desprendiam um aroma de molhos espessos temperados com cuidado e exatidão, misturando-se a fragrância do matcha preparado para acompanhar a refeição, impregnando em pouco tempo toda a caverna com diferentes notas olfativas.

— Pensei que teria de viver uns quantos anos mais, para te ver ser chamado de otousan. — Sem desviar o olhar do fogo, Jiraya aborda o tema — Você acha que está pronto para isso?

— Não sei, de verdade, pode ser impulsivo concordar e pode ser apenas um capricho deles, uma projeção para suprir esse lugar vazio. — Observando como os dois discutiam aos sussurros uma resolução de um problema sob a luz do lampião, Naruto responde sinceramente — Mas também, nunca estive “pronto” para muita coisa na minha vida, quando me tornei um ANBU, a realidade e o treinamento eram como dois mundos distintos, me parece que agora não é muito diferente.

— Bem, é inegável que já agiam como os pais deles, isso sempre foi muito óbvio, e não me preocupa se vão fazer um bom trabalho. — Tentando não pesar demais seu ponto de vista, Jiraya o expõem — O que me preocupa é como será, se isso mudar novamente no futuro, como vocês se sentirão, entende? Eles dois são crianças, superarão tudo com uma facilidade extraordinária, mas e vocês? Vocês dois já estão num ponto de não retorno, não são mais adolescentes, são adultos em mentalidade e responsabilidade e estão sempre assumindo mais do que deveriam. Se um dia, Konohamaru e Hanabi decidirem que vão voltar a chamá-los Hina-nee e Naruto-nii? Como vocês ficam?

— Então voltaremos a ser somente a Hina-nee e o Naruto-nii. — Com sua serenidade inerente, Hinata responde — Nossa função é criá-los, protegê-los e amá-los, independente do título que usem para nos chamar. Isso nunca definiu quem somos ou a importância que temos na vida deles.

— Bem, vejo que vocês têm suas prioridades bem claras e não estão ignorando a seriedade do assunto. — Voltando a sua costumeira postura relaxada ao extremo, Jiraya encerra a conversa séria — Kushina deve estar se mordendo ao te ver ser pai antes da maioridade, espero que você eduque melhor esse moleque, para não cometer o mesmo “erro”.

Rindo nervosamente de sua ridícula piada, que inusitadamente era uma verdade, Jiraya parece repentinamente necessitado de algo forte e capaz de anuviar seus tumultuosos pensamentos, portanto, o Sannin abandona sua xícara de matcha, trocando-a por seu cantil de saquê; durante toda sua vida errante, havia encontrado por seus caminhos, inúmeros jovens precoces em tantos aspectos que mal podia recordar, embora, aquela era a primeira vez que via algo que dava-se involuntariamente ao mesmo passo em que era genuíno e consciente. E longe de julgá-los inconsequentes e irresponsáveis por tal escolha, apesar de encontrá-los mais maduros do que o esperado quando comparados a outros jovens, Jiraya conseguia ver e compreender de onde aquela decisão viera, como essa transição pode ocorrer tão tranquila e organicamente; do mesmo modo que Konohamaru e Hanabi projetaram em Naruto e Hinata as presenças que lhes eram essenciais e imprescindíveis, o jovem casal projetara nos pequenos suas versões passadas, suas infâncias e os sentimentos de ausência que eles mesmos experimentaram ao não ter essas figuras que agora esforçavam-se tanto por ser. Após o jantar enclausurado ao redor daquela fogueira reconfortante em muitos sentidos, o cansaço comum e natural depois do primeiro dia de retomada da caminhada, com o som do vento uivante e da chuva estrondosa como canção de ninar, as crianças adormeceram rapidamente, antes mesmo de suas histórias de contos; Jiraya tampouco esteve mais tempo desperto, logo de estar saciado, o calor aconchegante do fogo e entorpecimento proporcionada pelo álcool fizeram seu trabalho.

— Ele vai ficar bem. — Ajustando o shalw de tricô sobre seus ombros, Hinata garante, ao o olhar preocupado de Naruto.

— Estou pensando que amanhã ele vai estar mais implicante que o normal. — Prevendo as desastrosas consequências de uma ressaca, Naruto estremece, fitando como seu padrinho dormia agarrado ao saco de dormir, em lugar de cobrir-se.

— Já separei o mel e temos algumas kinkans. — Intuindo quais eram seus temores, Hinata revela sua estratégia antirressaca.

— Você é a mestre em evitar desastres, Hina. — Agradecido, Naruto passa os braços pelos ombros dela, abraçando-a e trazendo-a para mais perto — Por favor, me lembre de nunca cair nesse tabu. Nesse e nos jogos de azar.

— Somente esses dois? — Estreitando-lhe os olhos, Hinata indaga fazendo um grande bico — Que eu saiba, são três tabus: álcool, jogos de azar e mulheres!

— Felizmente, este último eu caí irremediavelmente aos quatro! — Dramaticamente, Naruto afirma em tom confessional, deixando-a perplexa, e antes que Hinata revide ou se afaste, acrescenta sorrindo astutamente — Mas se pode considerar um tabu ninja, se for apenas uma mulher, e não mulheres? Acho que o correto é dizer que é meio tabu, Hina.

Inclinando levemente a cabeça para o lado, o silêncio de Hinata durou apenas o tempo de um suspiro, e com uma expressão neutra que sempre precedia o caos emocional de Naruto, aproximou seu rosto a milímetros do dele, até que suas respirações misturassem-se; o seu reflexo naquelas íris azuis agitadas sempre lhe remetiam a sensação de ser arrastada pelas correntes escondidas nas profundezas das ondas do mar.

— Meio tabu? — Com uma inocência calculada, Hinata vagueia seus olhos pelas sombras ondulantes nas paredes da caverna, e então os volta a fixar no Uzumaki, que percebe tardiamente um brilho ardiloso entre o perolado — Bem, se pensamos que Kunoichis também tem suas versões dos tabus, e considerando sua lógica, da próxima vez que cruzarmos algum vilarejo e eu acabar atraindo gentileza extra, se for condescendente por unidade… ah, sim, desta forma não quebraria tabu nenhum, não acha?

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O efeito daquelas palavras foi instantâneo, enquanto os braços de Naruto que antes a envolviam num carinho relaxado tencionavam-se, seu maxilar travava com tamanha força que o som do ranger de seus dentes fora ouvido; seu olhar, antes quente e brincalhão tornou-se gélido com um brilho cobalto perigoso, e seu sorriso, apesar de permanecer sem decair um micrômetro, teve seu matiz de astúcia substituído por uma densidade rígida. Com uma fluidez rápida impregnada pela urgência de refutar aquela lógica, as mãos de Naruto, que estiveram desenhando círculos tranquilamente pelos ombros de Hinata, subiram ao seu rosto, enquadrando-o suavemente; como se buscasse apagar o que ouvira, com o polegar da mão direita — a mesma com a gravação rúnica de seu compromisso em seu dedo anelar — o Uzumaki traça o contorno dos lábios de Hinata do início ao fim, enquanto com sua outra mão traça o contorno da mandíbula dela, até alcançar o ponto pulsante próximo a sua orelha, onde acomoda uma mexa desalinhada de cabelo.

— A aritmética é interessante, não é, Hinata? — Com um tom vibrante, como um ronronar baixo e arrastado, alternando aquele olhar profundamente abissal entre os lábios e os olhos de lua dela, Naruto replica — Mas você esqueceu um detalhe: eu não sou bom em divisão, nem mesmo em hipótese. Essa lógica funciona somente para a soma da nossa unidade, o resto do mundo sequer entra nessa conta. Bom, sempre é possível diminuir variáveis desnecessárias para os resultados, e sei fazer isso perfeitamente bem.

Retribuindo o toque, com suas mãos espalmando-se sobre o peito dele, sentindo o latejar frenético de seu coração crescer sob seu tato, enquanto as desliza para cima, até envolver e entrelaçarem-se ao redor do pescoço de Naruto, Hinata percebe fascinada um novo traço de sua personalidade aparecer diante de seus olhos; o calor expansivo daquela presença protetora ainda estava ali, mas havia um novo magnetismo de uma gravidade eletrizante, surgido do reconhecimento e da liberdade concedida noites antes, e parecia ser saborosamente tentador.

— Que interessante! — Satisfeita a um nível quase perverso, Hinata retruca, aproximando novamente seus rostos, roçando deliberadamente seus lábios nos dele ao falar, enquanto seu olhar perspicaz capturava cada nuance de suas expressões — Que interessante que variáveis desnecessárias não entrem na equação, por nenhum flanco. E... ainda bem que sou consciente do meu único tabu.

Ao captar a inteligente jogada utilizada para desestabilizá-lo, Naruto lhe entrecerra os olhos, claramente sentindo-se derrotado diante daquela partida, mas estranhamente, eufórico e complacido; Hinata, por sua vez, contemplava alegremente como seu domínio crescia e expandia-se.

— Você tem um talento perigoso, okaasan, joga muito bem com as palavras. — Obviamente, Naruto possuía e sabia utilizar suas próprias armas — Que bom que sou especialista em ler o que não é dito.

Movendo suas mãos do rosto dela novamente para os pequenos ombros, Naruto traça sinuosa e lentamente com a ponta dos dedos a linha da clavícula, deliciando-se ao presenciar o rubor subir por seu delgado pescoço e espalhar-se por suas bochechas.

— Vamos dormir, okaasan, pressinto que nosso dia vai ser muito agitado. — Sorrindo amplamente, Naruto encerra o divertido jogo.

Durante os dias seguintes da viagem, a pequena comitiva esteve em transformação gradual em muitos aspectos, estabelecendo limites e novos traços que redefiniam e agregaram as camadas já existentes de seu núcleo, e essa metamorfose manifestava-se e afetava diferentes níveis; havia uma aceitação e estabilidade muito mais poderosa e significativa embutida na responsabilidade parental verbalizada pelas crianças, e essa clareza psicológica, ideológica e emocional era o que tornava a transição tão impressionante. Absolutamente todo o contexto evolutivo da nova estrutura familiar estava sendo tratado séria e cuidadosamente, validando e reconhecendo inseguranças, administrando e trabalhando a conexão anterior sem anulá-la ou esquecê-la, dando a cada laço sua devida importância e coerência; ao ampliar o paradigma, a dinâmica da mudança teve reflexos nas camadas de vínculo e pertencimento entre Naruto e Hinata, potencializados pela evolução progressiva desde a perspectiva individual até a percepção unitária que compunham.

Esta reestruturação torna-se evidente externamente quando alcançam o último vilarejo antes de seu destino, parada obrigatória para reabastecer-se de suprimentos e organizar e definir a logística da seguinte etapa do percurso; com uma eficácia catalogada por prioridades, o grupo dividiu-se em funções e tarefas, buscando um melhor desempenho. A compra de mantimentos, tanto alimentícios como médicos, fora concluída sem demora, a aquisição de ferramentas essenciais assim como o novo transporte ainda estava em andamento, e nesse sentido, a espera deveria ser bem aproveitada; não sabiam quando teriam tempo novamente, nem quando haveria a oportunidade de garantir as demais comodidades que o cronograma da viagem não permitira antes.

— Naruto? — Interrompendo sua análise para a escolha das grosas cordas de sisal, Hinata o chama — Vou até a loja de tecidos ali adiante, depois vou à papelaria.

— Ah, então deixe a papelaria comigo, também preciso ir até lá, meus manuscritos estão acabando. — Prontificando-se, Jiraya desce do barril utilizado como banco — O que precisam?

— Pergaminhos, manuscritos e material de escritura. — Catalogando o necessário para o trabalho e os estudos dos pequenos, Hinata solicita.

— Posso ir também, okaasan? — Antes que o Uzumaki responda, Konohamaru pede, já inquieto e entediado por estar esperando.

— É para caminhar ao lado, não correr na frente e nem sair de perto de Hinata, entendido, Kono? — Seriamente, Naruto concede, instruindo o menino após uma rápida troca de olhares com a Hyuuga, então foca sua atenção na menina sentada ao seu lado — Você quer ir também, Nabi?

Apesar de saber que permitir que os dois a acompanhassem aumentaria consideravelmente o nível da vigilância e cuidado a se ter, Naruto e Hinata sempre mantiveram uma política igualitária com os pequenos.

— Não, otousan, estou cansada. — Hanabi, no entanto, estava mais interessada em permanecer quieta, observando a tarefa de Naruto.

— Nós já retornamos. — Ajustando o chapéu do menino antes de saírem da sombra das barracas do comércio aberto, Hinata promete.

Quando os três se afastam por entre os transeuntes, Naruto ainda mantém seu olhar sobre eles até não poder mais ver suas silhuetas, para só então voltar a conferir as cordas e carretilhas de cobre que esteve considerando comprar; sentada em barris como Jiraya antes, Hanabi continua observando curiosamente como ele testava a resistência dos materiais, balançando distraidamente suas pernas no ar.

— Família grande, chefe. — Após ver e ouvir a conversa anterior, o comerciante de ferramentas navais comenta, tentando estabelecer uma abordagem mais amistosa com o cliente — A menina é idêntica à patroa.

— É sim. — Num reflexo orgulhoso, Naruto concorda, detendo sua tarefa apenas para afagar o rosto de Hanabi.

— Ter meninas é uma dádiva, eu tive quatro, por isso te digo, aproveite bem essa fase, elas crescem mais rápido que meninos. E agitado como teu guri pareceu, o tempo das travessuras dele vai durar mais. — Um tanto nostálgico, o comerciante desata a dar conselhos e fazer previsões para Naruto, sentindo-se imediatamente próximo ao constatar a ternura evidente em seu trato com Hanabi.

— Tomara que sim, para os dois, quero que o tempo das travessuras dure muito! — Com uma gravidade que não tinha relação com a ansiedade pelo crescimento natural dos pequenos, Naruto retruca.

Queria, sim, que os dois crescessem seguramente, e queria mais do que tudo, ter a capacidade de assegurar o caminho deles, assim como para conduzi-los a serem pessoas de bem, justas e honestas, queria vê-los vivendo digna e felizmente; em contrapartida, aos seus desejos genuínos, Naruto estava disposto a ser o que fosse necessário para que Konohamaru e Hanabi fossem apenas crianças travessas sempre, sem a imposição de crescer, sem perder a pureza sonial que ele e Hinata tiveram de abrir mão ao iniciar o caminho Shinobi tão precocemente. Graças a uma percepção sensitiva que parecia ser genética, Hanabi reconhece a força daquela afirmação, apesar de não distinguir nem decifrar o conteúdo oculto que carregavam; e com a docilidade inerente da infância, segura a mão de Naruto, puxando-o suavemente até que entenda sua intenção e abaixe-se nivelando suas alturas, e sem qualquer cerimônia, praticamente lhe enfia uma bala na boca.

— Viu só? Te disse, chefe, meninas nos desarmam. — Rindo daquela cena que lhe evocava tantas recordações, o comerciante brinca — Mas vendo como sua pequena é quietinha e decidida, parece que é o mundo que vai ter que se adaptar a ela. Você está criando um lírio da montanha mais inalcançável.

Enquanto o comerciante, animado pela proximidade originada pelo sentimento de camaradagem entre pais de meninas, oferece mais ferramentas a Naruto, algumas essenciais para a manutenção de uma casa e de outras ferramentas, e até algumas para a confecção de brinquedos, Hanabi volta a balançar suas pernas no ar, assoviando tranquilamente a melodia que Hinata lhes cantava ao pô-los na cama; é nesse instante que o burburinho de uma comoção começa a crescer e tornar-se mais audível pela praça do mercado, atraindo a atenção de muitos comerciantes, transeuntes e viajantes. Naruto continuava separando e testando o que compraria, quando seus ouvidos treinados captaram e reconheceram a voz de Hinata sobressaindo aos cochichos; este é o detalhe que lhe sinaliza que algo está errado e que o faz deter-se e buscar imediatamente a causa e seu paradeiro. Hinata nunca elevava a voz, poderia estar borbulhando de raiva, seu tom seguiria sendo o mesmo de sempre, a menos que estivessem em missão em pontos opostos e tivesse de gritar para lhe falar, mas até nessas situações seu tom sereno permaneceria; por isso, captar aquela mudança drástica e incoerente coloca Naruto em um estado de alerta instantâneo.

Ao buscá-la, virando-se na direção do som, o Uzumaki avista o equivalente a uma provocação direta a sua irracionalidade, e precisa apenas alguns segundos para processar e decifrar a cena; Hinata e Konohamaru já retornavam, o menino trazia felizmente prestativo uma das sacolas de compras, enquanto caminhava tomado pela mão na maior expressão do vínculo atribuído à Hyuuga. Jiraya não estava com eles, provavelmente ainda comprava na papelaria, e talvez a falsa fragilidade que os dois sozinhos representavam fora o atrativo que induzira os perpetradores a atuar; antes que alcançassem o local onde Naruto fazia suas compras finais, um grupo de baderneiros locais acostumados a intimidar e extorquir os viajantes desavisados os cerca.

— Moça bonita, na nossa vila temos o costume de cobrar “pedágio” de beleza. — Abordando-a com um sorriso ladino que buscava parecer atrativo, um dos homens fala.

— Enquanto estou sendo civilizada, digo para se afastarem. — Imediatamente escondendo Konohamaru atrás de seu corpo, Hinata avisa, as feições endurecidas, a voz tingida de aversão.

— Que bonitinha, a queridinha está sendo civilizada? — Zombando, outro retruca ceticamente, fazendo os demais rirem mais alto.

— Beleza, sendo assim de pequena, deve aprender a ficar calada, posso te ensi… — O terceiro baderneiro tenta aproximar-se mais, e ergue a mão para tocá-la.

Ao momento seguinte, a mão do homem é repelida com um estalo seco que indicava alguns ossos quebrados, acompanhando um ganido de dor e palavras chulas.

— Eu disse: se afastem! — Em postura combativa, Hinata aumenta o tom de voz, que acompanha a feroz letalidade de seu golpe.

A surpresa e desorientação atinge não apenas os agressores, como também os espectadores que ainda não haviam conseguido processar ou formular uma intervenção, já que diferente de uma reação de medo e defesa comum em civis, o que presenciaram foi uma demonstração de força equiparável a violência infligida; enquanto essa constatação desestabiliza os agressores, que perdem o controle da situação ao passo que tentam socorrer o comparsa ferido e incapacitado no chão, uma segunda movimentação acontece, fluida e silenciosa como a morte. Após indicar a Hanabi com um único olhar que deveria permanecer onde estava, Naruto caminha até o centro do alvoroço calmamente, e a ausência de som nos seus passos e sua “repentina” aparição causam uma nova onda de choque; como se estivesse testemunhando um sacrilégio, o Uzumaki toma a mão que Hinata utilizara para defender-se e suavemente, passa a “limpá-la” com um lenço de bolso. Testemunhar como sua Hinata teve de ouvir palavras tão insultantes, teve de ter contato com seres tão desprezíveis, lhe era extremamente aversivo e desagradável, de uma maneira tão intensa que Naruto sentia todo seu âmago a revirar-se; essa sensação aversiva sempre ameaçava tomar-lhe conta, e ao menos durante suas missões de assassinato, sua frustração era compensada pelo fato de que os alvos seriam eliminados, mas naquela situação que envolvia civis, suas capacidades cognitivas estavam enfrentando um colapso ao catalogar as prioridades.

— Vá para junto de Hanabi. Fechem os olhos e tapem os ouvidos. — Fixando seu olhar em Konohamaru atrás dela, Naruto lhe fala com um último esforço por manter um tom neutro.

Quando o menino obedece, indo até Hanabi correndo para a mesma direção de onde Naruto surgira, uma drástica mudança atmosférica ocorre ao instante em que o rapaz volteia-se para os homens, os espectadores ao redor instintivamente afastam-se, quando sentem o ar carecer de oxigenação; a pressão inquietante daquele aproximar silencioso causam reações físicas e fisiológicas evidentes nos agressores, agora completamente estarrecidos ao estar de frente para aquele jovem de estatura e presença opressoras como ninguém que tenha cruzado aquelas terras. Com uma frieza inumana, Naruto pisa simplesmente o ombro do terceiro agressor, ainda caído no chão urrando de dor por seu braço quebrado; seu pé, revestido pela bota tática parece escavar as articulações e ligamentos, rompendo-os e separando-os até que o osso estale e separe-se da cavidade, inutilizando aquela mão que ousara erguer-se em direção a Hinata.

— Desgraçado…! — Um segundo tarde, o segundo agressor arremete contra Naruto, num atisbo de sobrevivência.

Antes que o homem pudesse tocá-lo e sem deter sua “escavação” no ombro do terceiro que gritava em desesperada agonia enquanto se debatia tentando salvar-se, Naruto agarra-o pelo rosto com uma única mão, impondo em seu agarre a força de um torque hidráulico, justamente na região da boca que esteve zombando depreciativamente do aviso de Hinata; metodicamente, Naruto estava punindo-os na ordem regressiva de suas participações no cerco e conforme o crime que cometeram, e essa percepção atinge o instigador da agressão que iniciara o assédio primeiro, ao mesmo instante em que ele sente aqueles olhos cintilando em fúria cravando-se em seu rosto. Quando os gritos de agonia do segundo agressor juntam-se aos do terceiro, enquanto sente os ossos do seu rosto estalar e partirem-se, arranhando e debatendo-se freneticamente contra aquele braço e aquela mão que o estavam a erguer do chão, o instigador assistindo à punição dos seus comparsas, preso ao chão por uma mão invisível, começa a hiperventilar descontroladamente como se estivesse tendo um choque anafilático; os espectadores ao redor, os poucos que ainda permaneciam no local, por não conseguir dar um passo fora de suas posições, entram finalmente em colapso e desmaiam, outros vomitam e convulsionam agachados ao chão. No momento em que Jiraya, ao ter concluído sua tarefa, retorna esperando já estarem prontos para partir, encontra aquela cena visceralmente oposta a tranquilidade que deixara antes, sua primeira reação instintiva é deter o afilhado, mas o toque sutil e tranquilizante de Hinata em seu braço lhe indica que a situação está controlada; Naruto estava consciente e operando numa frequência aterrorizante que o padrinho não conhecia, nunca vira, era um estado inusual onde a irracionalidade exercia poder sobre a razão como uma epifania destrutiva que ironicamente, o Uzumaki controlava perfeitamente. Assim que “termina” com os dois últimos, descartando-os como uma carcaça vazia, seus passos deliberados alcançam o primeiro agressor, em pânico catatônico, parado sob uma poça de urina; um único golpe é desferido, atingindo a origem daquela malicia perversa que causara aquele e, certamente, muitos outros assédios, e quando o corpo cai inerte no chão com um baque que é o eco do soco em sua cara, a tensão parece esvair-se.

— Naruto… — Sem saber o que dizer ou como processar o que vira, Jiraya o chama em um estado de confusão mental.

— Pode levar Hinata e as crianças para o barco, padrinho? Já conclui as compras e os carros de boi e bagagens estão a bordo. — Comedido como o aço, Naruto pede, enquanto limpa calmamente suas mãos — Vou esperar a força de segurança local, eles não devem demorar.

Sem questionar seu pedido ou estranhar sua atitude gélida e indiferente, Hinata “puxa” Jiraya pelo braço, conduzindo-o até onde as crianças ainda aguardavam sem saber que o “lado feio” de Naruto já havia ido embora; a Hyuuga sabia que, assim como seu companheiro fora racional em sua irracionalidade enquanto castigava seus agressores, Naruto também tinha plena consciência de que esteve tratando com civis comuns e que jamais em suas vidas sonhariam em presenciar a letalidade, ainda que controlada, de um Shinobi de elite. Por isso, Hinata compreendia sua postura de aguardar a chegada das autoridades locais, tanto para esclarecer a situação como para garantir que não se produzam efeitos colaterais de suas ações que possam se interpor em seu caminho futuramente, como pela legalidade de aplicar as punições civis aos envolvidos; o seu silêncio indiferente após a resolução do problema era o mesmo que lhe inundava após o abate da presa durante suas caçadas, era o momento em que Naruto costumava contemplar suas seguintes ações e encontrava seu ritmo, quando o pulsar errático da adrenalina abandonava-o.

Muitas horas mais tarde, quando a noite bochornosa e sem estrelas recaiu sobre o vilarejo portuário, na cabine da embarcação ancorada na marina, Hinata detinha a leitura do conto do lenhador ao perceber como Konohamaru e Hanabi ressonavam tranquilamente, entregues ao cansaço e agitação do dia; iria até o convés aguardar pelo retorno de Naruto, quando o viu passar pelo umbral da porta da cabine. Apesar de um grande desgaste estar evidente em sua postura e expressões — consequência da longa jornada deles até ali — nada mais parecia fora do comum, nem persistiam indícios de seu estado emocional anterior; ao fixar seu olhar em Hinata com o livro em mãos, uma suavidade terna transpassara o azul de seus olhos, e intensificou-se ao focar nas duas crianças dormindo aconchegadas na cama.

— Você está bem? — Aproximando-se dela, Naruto pergunta, analisando seu rosto detidamente.

— Não se preocupe, não foi nada. — Tranquila, Hinata responde — Como foi?

— Vão estar presos um bom tempo, são reincidentes. — Sentando-se pesadamente numa cadeira, Naruto conta — As pessoas que estavam no local estão bem, só um pouco chocadas.

— O que está te incomodando, fora o óbvio? — Conhecendo-o tão bem, Hinata percebia nuances no estado de espírito de Naruto que mais ninguém poderia decifrar.

— Nós passamos sete anos da nossa vida caçando e exterminando Nukenins da pior espécie, nos dedicamos a isso como Shinobis, mas o mundo não é composto apenas por ninjas. — Revelando um novo aspecto de suas preocupações, Naruto expõem o pensamento que esteve martelando sua mente desde o episódio da tarde — O que diferencia aqueles bastardos, dos Nukenins que eliminamos, é somente a condição de civis, a malícia e a maldade são as mesmas. Hoje foi você que foi insultada e agredida daquela forma, Hina, você que sabe e é perfeitamente capaz de se defender. Mas e se fosse uma menina como Hanabi? Isso me faz pensar que é nesse mundo torto que ela está crescendo e nós não vamos estar sempre por perto. Um dia, Konohamaru e Hanabi irão ter suas próprias vidas…

— Desde sempre, as nações utilizaram Shinobis como ativos de capitalização, é uma parcela significativa da humanidade, e talvez por esse potencial rentável, a possibilidade de civis comuns também representarem perigos, tenha sido ignorado. — Compreendendo de onde vinha sua inquietação, Hinata considera o que ouvira, enquanto envolve-o em um abraço reconfortante — Então, talvez, neste momento em que as mudanças serão constantes, seja o momento de revermos esses pontos também. Assim garantimos que o mundo em que Hanabi e Konohamaru crescerão seja melhor, um pouco de cada vez.

— Hinata… — Como se o nome dela fosse um mantra, Naruto o sussurra, passando os braços envolta de sua cintura, ocultando seu rosto em seu peito — Eles deram trabalho?

— Não, estavam cansados. — Passando os dedos por entre seus fios loiros, Hinata responde.

— E o padrinho? — Relaxando gradualmente à medida que o carinho prolonga-se, Naruto prossegue com a conversa, atraindo Hinata para mais perto.

— A essa altura já deve estar dormindo também. Os marujos lhe deram vinho quente para provar. — Recordando a embriaguez imediata de Jiraya, Hinata ri levemente — O capitão disse que vamos ter de ficar atracados até depois de amanhã, que leva esse tempo até a embarcação menor chegar.

— Bem, então vamos usar esse tempo para consertar algumas coisas. — Com a naturalidade construída por anos de convivência e reforçada durante os últimos dias, Naruto ergue-se sem se afastar e beija-lhe rapidamente os lábios — Vou me lavar e já retorno.

Por alguns instantes, Hinata permanece fitando suas costas enquanto ele se afasta em direção ao pequeno banheiro da cabine, e como havia virado um hábito seu recentemente, retirando a camisa de malha negra antes mesmo de passar pela portinhola; do lado de fora o som das ondas quebrando-se no casco da embarcação cria uma sinfonia rítmica, como uma canção de ninar, e o cheiro salgado do mar fazia par com o óleo queimado da lamparina que iluminava o cômodo. Após conferir que Konohamaru e Hanabi estavam bem cobertos e confortáveis, a Hyuuga passa a preparar a cama deles, estendendo mantas que trouxeram de casa e esticando lençóis, e logo, prepara-se para descansar também; como no primeiro vilarejo por onde passaram, ao terem um quarto propriamente para dormir, Hinata permitira-se o seu hábito de usar seus pijamas, inclusive as crianças voltaram a esse costume que aprenderam com ela. Talvez fosse uma necessidade sua, manter essa característica quando possível, como se isso fosse um sinal de normalidade em sua vida, algo raro e apreciado; por isso, quando retornara do banheiro descalço e vestindo apenas a camiseta de algodão e a bermuda que despira naquela manhã, Naruto a encontrara usando um de seus conjuntos, um com estrelas e corações estampados.

— Onde estão os coelhos? — Abraçando-a pela cintura e escorando o rosto em seu ombro, Naruto questiona, notando que Hinata usava apenas as pantufas do conjunto.

— Está apertado. — Terminando de por uma fronha no travesseiro, Hinata responde.

— Apertado? Mas você nem subiu de peso, Hina. — Nesse sentido, Naruto tinha certeza, Hinata continuava pesando quarenta e cinco quilos.

— Bem, mas está apertado. — Sentindo suas orelhas latejando, Hinata volta a afirmar — Vamos dormir? O dia vai ser cheio amanhã.

— Tudo bem, tenho certeza que encontramos outro nessas lojas. — Embora estivesse curioso a respeito, Naruto não insiste mais.

Quando deitam-se, automaticamente seus braços acomodam-se em um abraço que significava refúgio, suas mãos entrelaçam-se ao instante e seus corpos, ao estarem juntos, relaxam envoltos por aquele calor tão conhecido.

— Estive pensando, talvez seja melhor optar por janelas maiores. — Brincando com uma das mãos dele, Hinata comenta.

— Está bem. — Imediatamente Naruto concorda.

— Então vou fazer cortinas maiores. — Satisfeita, Hinata passa a visualizar formas e padrões.

Rápida e facilmente, o embalo do barco os transporta para o mundo dos sonhos, repletos de planos e idealizações futuras, onde puderam contemplar por algumas horas, um mundo que não era torto; durante os dois dias seguintes, a pequena comitiva esteve ocupada buscando os materiais faltantes, antes de sua partida do porto. Obviamente, graças a sua tenacidade e teimosia, Naruto encontrara em uma das últimas lojas do comércio, um novo pijama de coelhos para Hinata, que mesmo alegando que não era necessário perder tempo com algo assim, esteve encantada; no final da tarde do segundo dia, os dois barcos atravessavam as águas daquela imensidão azul. O convés da embarcação maior, onde estavam, fora dividido de forma prática: uma área para alocar os bois e seus carros, e suas rações, outra para alocar as bagagens da comitiva e materiais adquiridos; ao ver que tudo que o grupo carregava esteve devidamente acomodado em seu barco com sobra de espaço, o capitão não pode evitar sentir curiosidade.

— Diga, chefe, para que a segunda embarcação? — Após ter estado discutindo a rota com Naruto, o homem carrancudo pergunta.

— Não podemos depender da sorte, em um lugar que não está na rota comum, capitão. — Considerando a verificação do histórico do homem, enviado por Shikamaru dias atrás, Naruto não encontra razões para evadir a pergunta — Ainda mais com duas crianças pequenas, devemos ter um transporte próprio.

— Ah, então era isso? Não me admira que você esteja tão interessado em navegação. — Com um raro sorriso, o capitão entende a situação.

Esteve preocupado de que seu contratante esteve cercando-os durante aquele tempo, por desconfiar deles, ou por estar descontente com seus serviços, e com sua presença intimidante e os boatos do ocorrido no mercado, seus marujos estavam pisando em ovos; claro, sendo um homem do mar e de índole, o próprio capitão teve seus enfrentamentos com aqueles baderneiros e compreendia muito bem a situação, por isso prosseguira com o serviço, mas seus homens estiveram se deixando levar pelo ocorrido, sem considerar a motivação.

— Otousan, olha o que consegui fazer! — Nesse instante, Hanabi corre até eles, trazendo nas mãos uma corda com um nó, sorrindo animada.

— Muito bom, Nabi, está perfeito. — Abaixando-se para falar-lhe e testando o nó que ela aprendera, Naruto a elogia.

Na outra ponta, perto da proa, Konohamaru ouvia atentamente um dos marujos a explicar-lhe sobre milhas náuticas, Jiraya estava próximo, esparramado em um enorme rolo de cordas de sisal, escrevendo algo em seus novos manuscritos, e debruçada sobre o balaústre, Hinata fitava o horizonte distraidamente; o vento que impulsionava as embarcações, desalinhava seus cabelos, obrigando-a a prendê-los, expondo a curvatura sinuosa e delgada do seu pescoço. Essa imagem dela, serena e bela, sempre evocava-lhe emoções diversas e distintas, assim como provocava-lhe um revirar violento de sensações enervantes; aproximando-se e parando ao seu lado, após dedicar mais alguma atenção a Hanabi, Naruto toma-lhe a mão direita, que ultimamente, parecia-lhe muito mais formosa, ao estar adornada pelas runas de seu compromisso.

— O capitão disse que faltam poucas milhas. — Naruto lhe informa, fixando seu olhar no por do sol ao longe — Mantendo essa velocidade, estaremos lá em três dias.

— Você está nervoso? — Percebendo a pulsação acelerada dele, Hinata pergunta.

— Não ainda, talvez quando desembarquemos. — Quando Naruto responde assim, Hinata passa imediatamente a medir seu pulso e fitá-lo sugestivamente — Oh, isso é sua culpa, Hina! É você que me faz ficar assim.

Sua revelação honesta em demasia causa uma oleada de reações em Hinata, do embaraço habitual à satisfação escancarada, tudo torna-se evidente em suas feições delicadas, para o deleite do Uzumaki, que amava vê-las; buscando recompor-se, Hinata volteia seu olhar para as crianças, agora ambas entretidas em fazer nós navais em uma pequena competição instigada por Jiraya. Como previsto, durante os dias seguinte puderam manter o ritmo e avançaram sem imprevistos, e a metade do quinto dia navegando, avistaram a costa montanhosa ao longe; conforme as embarcações aproximavam-se, as correntes violentas agitaram o timão, e a passagem segura só fora possível graças aos mapas antigos que Naruto herdara. Ao passarem pela baia, as águas do mar chocavam-se e misturavam-se com as águas das nascentes, as montanhas e colinas verdejantes tornaram-se maiores, assim como as ruínas, que vistas à distância, eram irreconhecíveis; a areia branca na encosta avançava para dentro da mata circundante, e o musgo cobrindo rochas, pedras, pedregulhos e destroços de construções antigas aumentava a sensação de abandono e destruição.

— Tem certeza que querem ficar aqui, chefe? — Preocupado ao finalmente vislumbrar o destino desabitado que seu contratista indicara, o capitão confere.

— Sim. — Com os olhos percorrendo cada centímetro, Naruto responde.

Ao seu lado no balaústre, Hinata aperta levemente sua mão, Konohamaru e Hanabi fitavam as densas matas com olhos brilhantes e curiosos, já impacientes por desbravar cada rincão; parado ao lado direito do Uzumaki, Jiraya dá-lhe alguns tapinhas no ombro, suspirando profundamente.

— É isso aí, garoto, essa é Uzushiogakure! — Com voz solene, que não condizia com seu espírito, Jiraya fala.