Notas iniciais
Olá, meu polvo!! Todos bem?? Todos preparados para enjoar de chocolate?? Bem, aqui segue minha páscoa para vocês, espero que gostem e aproveitam, porque tem muita coisa acontecendo nesse capitulo. Até! Bjusss!

Naquele final de primavera, Konoha estava agitada e mais calorosa do que normalmente estaria, talvez por ser o primeiro festival sob o novo comando da Godaime, havia uma certa expectativa pairando no ar; também contribuía para o rebuliço das pessoas, as recentes sanções disciplinarias aplicadas aos fofoqueiros de plantão. Não foram realmente punições propriamente, considerando que tratava-se de civis, mas o ser humano é realmente simples de compreender, e mais do que o prazer de falar desenfreadamente da vida alheia, um de seus pontos frágeis é o monetário; bastou que a ANBU enviasse aos envolvidos em espalhar os boatos, notificações de cobrança especificando multas por perturbar a ordem pública, que ninguém mais ousou dizer qualquer palavra sobre fuga.

— Onde estamos indo, nii-chan? — Confundida, Sakura tenta acompanhar seu irmão pelas ruas movimentadas.

— É uma surpresa. — Sakumo responde, segurando firme sua mão, para não perdê-la no meio da multidão — Agora que as coisas vão ficar mais tranquilas, pensei que era hora de organizar nossa vida.

Por mais alguns minutos, Sakumo seguiu guiando Sakura pelas ruas, até que alcançam uma das áreas residenciais de Konoha, parando diante de uma pequena casinha branca, com as janelas de vidro quadriculado; estava mais afastada das demais casas e tinha um pequeno cercadinho na frente, separando o pátio da calçada.

— O que estamos fazendo aqui? — Sakura pede, assustada por ver Sakumo entrando na casa de outra pessoa.

— Você gosta? — Sakumo pergunta-lhe, abrindo a porta — Tem um espaço maior nos fundos.

— Nii-chan…? — Dessa vez Sakura estaca.

— É nossa nova casa, Sakura, vamos viver aqui de agora em diante. — Sakumo conta sorridente — Você vai fazer quinze daqui a uns dias, então mantive segredo para fazer surpresa.

— Mas… você… — Dividida entre o choque e a nova perspectiva para sua vida, a garota busca ordenar seus pensamentos.

Sakura queria mais do que tudo sair da casa dos pais, e se esta virada tivesse ocorrido alguns meses atrás, teria ficado feliz de imediato, contudo, na situação atual, com o irmão em um relacionamento, sua nova consciência social dizia-lhe que estaria invadindo um espaço privado; a Haruno não queria ser um atrapalho na vida de Sakumo, e por essa questão, estava um tanto coibida.

— Haruno Sakura, você deve se apresentar imediatamente, o time sete recebeu uma missão especial. — Aparecendo num Shunshin, um ANBU lhe informa.

— Ah..., vou já. — Aliviada por ter mais tempo para pensar, Sakura responde, e então volta-se para o irmão — Preciso ir, nii-chan.

— Claro, tenha cuidado. — Com sua costumeira calma, Sakumo a despede.

Voltando pelo mesmo caminho, Sakura retorna a casa, prepara seus equipamentos e parte em direção ao prédio administrativo, e quase não percebe quando Karin passa a caminhar ao seu lado, de tão atribulados que estavam seus pensamentos; na sala de distribuição e catalogação de missões, as duas garotas encontram Sasuke e Kakashi já aguardando-as junto a Godaime, Shikaku e Inoichi.

— Que bom que foram rápidos. — Sem preâmbulos, Tsunade começa — Como devem ter notado, estamos apenas nós aqui. A razão é que a missão que vocês vão receber, é altamente secreta.

— Recebemos informações da nossa unidade externa. — Shikaku explica — A Akatsuki fará um movimento em breve, e como sabem, é necessário um nível de ocultamento perfeito, para seguirmos recebendo informes.

— Isso quer dizer que há sinais de desconfiança no meio? — Astuto, Kakashi começa a compreender a situação.

— Parece que depois do último atentado, mesmo com as preparações, eles ergueram a guarda e estão limitando informações. — Inoichi complementa — Por isso, e para manter uma cortina de fumaça, vocês vão interceptar e repelir esse movimento.

— Manter uma cortina de fumaça? — Não compreendendo de pronto o que aquilo significava, Sakura questiona.

— Com a reconstrução pós ataque, não estivemos “empenhados em capturar nossos Nukenins”. — Surgindo das sombras, Tenzou responde sugestivamente — E como os poucos que sabem da real situação estão com as mãos cheias no momento, vocês são nossa opção mais segura.

— Entendido, temos que fazer ser real. — Tranquilo, Kakashi aceita o pergaminho com as instruções.

— Se estão prontos, podem partir. — Tsunade ordena.

***

Muito, muito longe de Konoha e as estratégias aplicadas para reestruturar o tabuleiro, outra operação, um pouco mais despassada estava em andamento, e de igual importância para o futuro; sobressaindo o som das marteladas, o pio de um falcão mensageiro atrai a atenção, detendo por um momento o fluxo de trabalho. Do alto das vigas e treliças que sustentariam o telhado, colocadas naquela manhã, Naruto ergue um braço, recebendo a mensagem; a poucos metros da estrutura em construção, naquela grande área aberta recentemente na floresta, Hinata detém sua tarefa, desviando seus olhos dos canteiros que esteve adubando para o plantio das sementes que trouxeram dos vilarejos por onde passaram.

— Tudo foi organizado. — Naruto fala alto, escrevendo uma rápida resposta com o lápis que usava para fazer marcações na madeira, lançando a ave de volta aos céus.

— Bem, como estamos adiantados no cronograma, logo vamos agir também. — Elevando seu tom natural, Hinata responde.

— O que vamos fazer, okaasan? — Voltando sua atenção ao assunto, Hanabi deixa de se divertir com sua importante tarefa: fazer pequenos buracos nos canteiros.

— É uma missão que Naruto e eu teremos em breve. — Sem dar muitos detalhes, Hinata responde.

— Nós vamos ir também, okaasan? — Konohamaru também deixa de fazer buracos.

— Não, durante essa missão, precisaremos que vocês fiquem em segurança. — Voltando a espalhar adubo, Hinata responde — Mas vamos voltar logo.

Estabeleceram-se em Uzushio fazia uma semana, num primeiro momento, a prioridade fora a construção e o plantio, tanto para estabelecer uma moradia funcional e cômoda, como para sua subsistência; em segundo plano, estava a exploração gradual que faziam do local, mapeando e identificando cada trilha, cada área da extensão da floresta e qualquer perigo oculto que a ilha pudesse guardar, além de servir para encontrar caça e outros alimentos que nascessem naturalmente ali, frutas, raízes, ervas. Nos primeiros dias, para acelerar a construção, Naruto esteve usando clones, e funcionou perfeitamente para esse propósito, mas após o uso, a exaustão o deixara algumas horas esgotado; considerando que poderia atrasar seu trabalho e que já havia progresso suficiente, o Uzumaki passara a trabalhar em solitário.

Desde seu novo “posto de observação”, Jiraya observava a formação daquele novo lar, a cabana que agora tinha forma e presença era maior que a anterior, muitas vezes, os canteiros feitos após os bois ararem a terra, também indicavam uma plantação muito maior e extensiva do que a que mantinham na clareira em Konoha; aos poucos, o local deixava de ser ruínas e desolação, tampouco mantinha aquela atmosfera de acampamento deserto, agora um moinho foi instalado para conduzir a água com mais força pelos encanamentos, e o gerador logo seria instalado, substituindo as lamparinas a óleo. Tudo estava sendo construído rapidamente, mas com um cuidado e atenção aos detalhes, que não deixava a desejar em qualquer aspecto; vendo como Naruto terminava a estrutura de sustentação do telhado, Jiraya podia prever que na próxima semana, os sacos de dormir seriam substituídos por camas quentes e as refeições teriam lugar à mesa.

— O que falta por hoje? — Aproximando-se dele, ao redor da mesa improvisada para serraria, Jiraya pergunta.

— Vou colocar o telhado, e com sorte, amanhã o forro interno. — Naruto responde, verificando o corte e a espessura das tábuas que usaria.

— Certo, vou montar a polia com as cordas e carretilhas. — Encerrando seu descanso, Jiraya prontifica-se — Depois vou pegar o barco e verificar as gaiolas de pesca.

— Deixei uma cesta de caranguejos perto daqueles corais maiores de manhã. — Agradecido, Naruto aponta a direção dos rochedos enegrecidos ao leste.

Nos próximos minutos, os dois trabalham no chão, improvisando um sistema para transportar as telhas de barro até o telhado, de forma rápida e prática, e com um pouco de engenho, funciona perfeitamente; na sua estação de trabalho, Hinata terminara de adubar a terra, e antes de iniciar o plantio, decide distribuir por entre os canteiros, alguns metros de mangueiras resistentes e duráveis para a irrigação.

— Vou ir até a fonte, quero que os dois fiquem aqui onde podem ser vistos, entendido? — Conectando todas as pontas e junções em um único ponto, Hinata reúne os metros que levaria até o moinho.

— Sim, okaasan! — Prontamente, os pequenos respondem juntos.

— Naruto? — Ela o chama alto e quando consegue sua atenção, sinaliza em direção ao profundo da floresta — Estou indo até a fonte.

— Já desço, só um instante. — Imediatamente, o Uzumaki detém-se e já iniciava uma descida na escada.

— Não, tudo bem. Só vou levar isso até lá. — Mostrando a grande mangueira em seus braços, Hinata dispensa — Kono e Nabi vão ficar.

— Bem. — Apesar de que gostaria de assumir todas as tarefas, Naruto sabia que a divisão elevava a eficiência e economizava o tempo precioso que tinham para administrar tudo.

Antes de voltar a colocar as telhas em seu lugar, Naruto ainda observa alguns instantes, a trilha que Hinata toma pela floresta, e durante os minutos seguintes, mantém seus olhos alternando entre o trabalho e o local onde as crianças estavam brincando; abrindo passo pela trilha, Hinata seguia tranquila, apreciando aquela bonita paisagem, repleta de verde, marrom e cores vibrantes da flora nativa. Aos poucos, caminhos mais abertos iam formando-se naquela floresta, surgidos de acordo com a frequência e necessidade da cruzada; às vezes uma trilha pequena, pelos passos em fila indiana enquanto a mata era explorada, às vezes uma trilha grande e espaçada, criadas pelos carros de boi, quando iam encher os barris de água.

Com seu caminhar tranquilo, Hinata ia desenrolando a mangueira pelo costado do caminho, prosseguindo durante alguns metros, até alcançar a enorme cachoeira onde instalaram o moinho; a queda d’água media a simples vista, mais de quarenta metros de altura, e ainda não puderam ir até a nascente verificar, tampouco puderam inspecionar completamente a área em que decidiram construir a moradia e por isso, mantinham um alerta constante. Enquanto o barulho estrondoso da água chocando contra os rochedos e a própria superfície da corredeira que formava-se logo abaixo da cachoeira ecoava nos ocos das paredes de pedra, Hinata conecta o final do sistema de irrigação que montara num dos conectores deixados prontos no moinho; após regular a pressão da água para que a frequência fosse constante, mas com a força controlada para não ser uma vasão, sua tarefa fora concluída.

Com isso resolvido, ela começa a dar os primeiros passos de retorno pelo caminho por onde viera, pensando em levar algumas biwas que avistara em seu caminho, a Hyuuga refaz sua trilha; durante a coleta das frutas, uns minutos depois, Hinata encontra entre a vegetação rasteira, uma pequena placa de madeira, provavelmente arremessada àquela distância durante a batalha que exterminou Uzushio. A placa trazia entalhada o símbolo Uzumaki, e apesar de estar exposta à intempérie todos aqueles anos, estava bem conservada; ao alcançar o limiar entre a densa mata e a área onde decidiram construir sua nova casa, Hinata pode ouvir os risos e vozes de Konohamaru e Hanabi a fazer alguma travessura, que certamente, fora incentivada por Jiraya, que provavelmente já retornara após verificar se a pesca do dia fora boa.

— Okaasan, você voltou! — Correndo até ela, Konohamaru e Hanabi lhe abraçaram juntos.

— Eu disse que não demorava. — Sorrindo-lhes, Hinata devolve o abraço, e descobre o que era tão engraçado: eles estavam brincando com os caranguejos — Parece que a pesca foi muito boa.

— Fazia tempo que não encontrava caranguejos tão grandes. — Contente, Jiraya comenta, terminando de tirá-los da cesta — Ei, piolhos, venham cá. Ainda não terminamos de limpar esses peixes.

— Vocês vão querer kani nabe ou nizakana hoje? — Indo em direção da área do acampamento que fizeram de cozinha, Hinata separa os ingredientes que usaria.

— Nizakana, os caranguejos ainda vão estar frescos mais uns dias. — Surpreendendo-a, Naruto para ao seu lado, começando a carregar os utensílios que sabia, ocupariam — O que você trouxe?

— Achei perto dos pés de biwas. Deve ter sido uma placa de alguma casa. Achei que ficaria bonito em cima da lareira. — Vendo-o deter-se e analisar a placa antiga, Hinata explica e passa a prestar atenção no seu estado — Você terminou por hoje?

— Sim, cobri metade do telhado, amanhã termino e começo a colocar o forro. — Sorrindo, orgulhoso do seu feito, Naruto responde e então, uma expressão atrevida revela-se em seu rosto — Essa noite já vamos poder ocupar os quartos, ao menos.

— É por isso que você esteve concentrado em terminar aquele lado primeiro? — Lendo-o perfeitamente, Hinata indaga, sem deixar que o rubor e aquela enervante sensação atrapalhasse-a, continuando a separar temperos — Essa astúcia ainda vai te colocar em problemas, Uzumaki!

— Onde você vê problemas, eu vejo recompensa, okaasan. — Baixando a voz para que somente ela ouvisse, Naruto retruca e logo se afasta, indo ajustar a trempe que sustentaria as panelas na fogueira.

Com o coração dando solavancos, Hinata permaneceu por alguns instantes apenas observando como Naruto acendia e ajustava a fogueira, ao longe o som das ondas quebrando nos corais, e as gargalhadas de Jiraya e as crianças fazendo bagunça serviam como um metrônomo a calcular o som desafinado de seus batimentos; era impossível ignorar o magnetismo que ele exalava sob a luz do crepúsculo. Hinata o observava e via como o fogo encontrava um espelho perfeito em suas íris azuladas, um brilho indomável que refletia a mesma vontade que o trouxera até ali. Sua pele, agora mais bronzeada pelo sol de Uzushio, brilhava sob uma fina película de suor que o trabalho braçal gravara em seus ombros, e que nem a brisa do entardecer fora capaz de secar; havia algo hipnotizante em vê-lo mover-se daquela forma: relaxado e confiante, transitando pelo acampamento com uma vitalidade que parecia fundi-lo à paisagem que ele mesmo moldava.

Desde metade da viagem até ali, aquela atmosfera semelhante ao nervosismo e expectativa que causa frio na barriga e pernas bambas de início de namoro, instalara-se entre eles; contudo, apesar de provocar as mesmas sensações já conhecidas, havia um traço único naquela perturbação, talvez fosse a intensidade diferente, talvez fosse o fato de estarem numa frequência que apenas os dois interceptavam.

— O capitão deve estar por chegar com as portas e janelas, não? — Conseguindo recompor-se o suficiente para começar a cortar os legumes, Hinata muda o tema para algo mais cotidiano.

— Provavelmente, se tudo correu bem, o carpinteiro deve ter terminado há três dias, como combinado. — Naruto retorna para junto dela, e com muita paciência, lava e separa o arroz em vasilhas — Estive pensando, Hina, acho que vamos precisar de mais de um barco. Seria complicado e talvez, até perigoso, manter só um. Enquanto estamos fora, o padrinho pode precisar, ainda mais com aqueles dois.

— Sim, também penso isso. Devemos ter dois. — Focando sua mente na questão, Hinata considera — Podemos deixar essa para que eles usem, se precisar, e conseguir um menor ainda. Seria o ideal em algumas situações, e já que nossas rotas não apresentam nenhum mar mais bravio do que o de Uzu, será suficiente.

Por alguns instantes, permaneceram concentrados apenas em iniciar o caldo a base de shoyu, saquê, mirin e dashi, e para quando Jiraya trouxe os filés de merluza limpos, o arroz já estava borbulhando na pequena panela de barro, e a vagem e o gengibre em tiras já estavam separados, para serem branqueados posteriormente; com tudo encaminhado, todos sentaram-se ao redor do fogo, nos troncos de abetos dispostos ali desde o primeiro dia de acampamento. Jiraya reclamava que o saquê culinário não tinha a mesma presença, e queria adicionar um pouco do seu saquê ao caldo, Konohamaru tentava fazer figuras entalhadas em pedaços de madeira, como vira Naruto fazer antes, e Hanabi conferia novamente sua nova coleção de conchas; corrigindo o sabor, acrescentando cebolinhas e bardana, Hinata ia terminando de preparar o jantar, enquanto ouvia as histórias fantasiosas — e reduzidas para ouvidos infantis — de Jiraya, que rapidamente eram contestadas curiosamente pelas crianças, ou desacreditadas por Naruto.

Mais tarde, após o jantar animado, como costumeiramente, a Hyuuga banhou-os com o mesmo carinho cotidiano, no tempo em que o Uzumaki esteve encarregado de montar suas camas — seladas em pergaminhos — e prepará-las no quarto destinado às crianças; Jiraya, que dissera precisar de um espaço tranquilo para escrever e afastado da balbúrdia que seria aquela casa, instalou-se no mezanino, mais afastado dos quartos do segundo andar e dos corredores. Quando pôr fim os pequenos foram colocados na cama, e após terem montado e preparado sua própria cama, Naruto e Hinata turnaram-se para o banho, naquele chuveiro externo, por ora ainda utilizado, cercado por sarrafos finos como parede e a céu aberto; Hinata terminava de misturar homogeneamente num recipiente pequeno, uma pasta de aroma refrescante, quando Naruto retorna ao quarto que agora ocupariam, ainda vazio e sem porta ou janela, ou qualquer outra mobília, mas tão deles, como se sempre tivesse sido.

— Venha cá. — Suavemente, Hinata o chama.

— Vai ser um despertador eficiente. — Sentando-se a beira da cama, Naruto fitava o céu estrelado através do arco da porta, infiltrando a luz da lua pela metade incompleta do telhado.

— Quando a primeira etapa estiver pronta, vamos descansar um momento. — Hinata não estava perguntando, estava afirmando que assim o fariam, e o contraste de sua voz firme com a suavidade de suas mãos a espalhar Aloe vera por seus ombros queimados era notável — Precisamos iniciar a expedição, mas também precisamos investigar esse lugar, o momento é perfeito.

— Ganhamos tempo com a missão do time sete. Com certeza eles vão recuar... hmmm... — O aroma da cânfora intensificou-se mais, quando Hinata passara massagear seus ombros, pescoço e braços.

— Bom, tudo está funcionando como devia. — Pressionando os pontos certos com precisão, Hinata seguia — Você está proibido de tirar a camisa enquanto estiver no telhado. Suas costas parecem um daqueles caranguejos. Logo vão estar descascando.

— Faz calor, Hina... — Naruto protesta.

— De camisa, Naruto. — Pressionando um ponto especialmente tenso e rígido, Hinata o faz arfar e concordar freneticamente.

Entretanto, ao final do tratamento daquele dia produtivo, com a privacidade reconfortante obtida entre quatro paredes e sem plateia — diga-se Jiraya e suas implicâncias — o Naruto travesso, e agora relaxado, ataca novamente; rapidamente o Uzumaki toma o recipiente das mãos de Hinata, largando-o em algum canto, antes de puxá-la envolvida por seu abraço, empurrando-a com um puf macio no colchão. A mudança repentina ocorrera tão inesperadamente, que Hinata surpreendera-se e riu baixinho, ainda mais, quando Naruto ergueu-se minimamente para olhá-la, e gotículas d’água de seus cabelos caíram sobre o rosto dela; agora, esses contatos repentinos já não espantavam, apenas causavam-lhe aquela sensação crescente e magnetizante, como quando era criança, e balançava-se até o topo da cerejeira, quase voando.

— Sua manobra de imobilização não é muito boa, sabe? Ainda mais comigo. — Com uma expressão jocosa e provocativa apoderando-se de suas feições, Hinata ergue uma mão, acariciando o rosto dele.

— Não estou tratando de vencer, okaasan. — Com aquele tom mavioso que usava apenas com ela, Naruto retruca, substituindo aquela expressão petulante e travessa, por um olhar afetuoso hipnotizante — Estou tratando de adorar você.

— Sério, Naruto, ondo você aprende essas coisas? — Tentando manter o controle de suas reações, embora seu coração estava a ponto de saltar pela garganta, Hinata o sente beijando-lhe a testa como sempre.

— Não sei, só digo o que sinto. — Honestamente sincero, Naruto detém-se um instante para responder-lhe — E é tão agradável te ver assim.

Hinata sabia que deveria estar vermelhíssima, podia sentir suas orelhas latejando e até mesmo o ar impregnado por salitre, ervas medicinais e marchetaria, pareceu-lhe insuficiente por um momento; era como se tudo desacelerasse, como se o som das ondas, da brisa noturna, dos pequenos insetos cantando suas canções, sumisse, naqueles instantes que precediam o tocar de seus lábios. Quando o espaço entre eles tornou-se inexistente, a hesitação que outrora marcava presença nesses momentos não encontrava-se por nenhuma parte; em seu lugar, havia um arrepio convidativo conduzindo o ritmo, uma exploração delicada e profunda, reconhecendo sensações e principalmente, o toque. O contraste absoluto entre mãos calejadas e pele suave, que irradiava em descobertas singulares, lábios como pétalas movendo-se numa carícia despassada e paciente; o carinho, que antes era cotidiano e conforto, agora traduzia outra linguagem, igualmente bela e valiosa, e em lugar da efemeridade anterior, agora se repetia e repetia continuamente, emoldurado por estrelas e luar.

— Amo você, Hina. — Apertando-a suavemente em seus braços, Naruto sussurra, repetindo o mesmo beijo inicial em sua testa, enquanto seu coração procurava o compasso.

***

Em outro acampamento distante dali, sem a mesma domesticidade e nada reconstrutivo, o time sete organizava sua primeira noite de missão, era a primeira que fariam tão longe em muito tempo, e devido à região ser uma completa incógnita, o cuidado era redobrado; Kakashi mantinha seus sentidos apurados funcionando ao cem por cento, e graças às habilidades sensoriais de Karin, puderem estabelecer um perímetro seguro maior. Desta vez, a divisão das tarefas ocorreu de forma orgânica e implícita em seu time, o que por si só já era um feito inédito, comparando com como a equipe trabalhara no passado; Sasuke encarregara-se das barreiras de segurança, Sakura e Akamaru instalaram armadilhas fora do perímetro seguro, e Karin estabeleceu a cobertura do acampamento, tendo especial cuidado para que a fogueira ficasse oculta e não os denunciasse, e tudo isso, sem que o sensei tivesse que dizer uma palavra.

Enquanto as chamas consumiam mais agressivamente a lenha, o time reuniu-se com suas tarefas concluídas, sentando-se a descansar pelo restante daquele dia, naquela missão específica deveriam ser pontuais, nem antes e nem depois, para ter o efeito planejado; portanto, diferente de outras vezes, que Kakashi os fizera continuar noite adentro, tanto pela urgência do trabalho, como para ensinar-lhes como proceder em situações adversas, esta missão teria períodos de descansos regulares e normais. Infelizmente para Sasuke, isso seria um martírio que ele teria de suportar, antes, quando o Hatake lhes permitia descansar quando seus corpos já não respondiam cognitivamente, o descansar era somente isso; contudo, desta vez, o Uchiha estava consciente demais para conseguir não pensar, quando fitava Sakura conversando tranquila com Karin, o rosto dela ferido por sua culpa, sua agressão, sobrepunha-se ao agora. Quando via Akamaru dormindo perto da fogueira, recordava-se de Kiba de quem ele tanto zombara, mas que no momento de necessidade, quando Sasuke falhara, foi aquele companheiro de time insignificante quem segurou as pontas, que teve mais coragem ao ponto de não estar mais entre eles; ainda que essas recordações perturbadoras já não causassem um descontrole emocional, ou o incapacitassem quando necessitava agir, elas ainda estavam lá, bem guardadas no fundo de sua mente, lembrando-o de todas as suas falhas, do seu egoísmo e covardia.

— Você está bem? — Discretamente, Karin questiona Sakura.

Mesmo sendo o membro mais jovem do time, em questão de integração e convivência, a garota percebia as tensões e incomodidades silenciosas que os outros faziam o possível por ignorar e manter a normalidade; a Uzumaki sentia o remorso crescente emanando do Uchiha, assim como detectava uma resignação e indiferença da Haruno, e isso bastava para Karin entender que havia um conflito emocional soterrado entre os dois. Mas naquela noite, Sakura trazia uma camada mais forte de preocupação anuviando suas emoções, e diferente de como ocorria quando se reunia com os outros jovens Shinobis de Konoha, com Sakura, Karin era mais livre para falar; apesar de os demais a terem recebido e aceitado em seu meio sem questionamentos ou reservas, a garota temia não controlar seus impulsos de sempre “ler” os demais, e acabar sendo invasiva ou intrometida, e por consequência, ser vista como estranha naquele novo lugar que tentava encaixar e pertencer.

— Sim. — Sakura afirma, mas logo percebe que Karin deve ter percebido sua estranha relação com o Uchiha, e que a mudança no padrão silencioso estabelecido deve ter preocupado a outra — Estou indecisa sobre algo. Sakumo nii-chan comprou uma casa e quer que eu vá morar com ele.

— Mas..., isso é bom, não é? — Karin sempre notava como as emoções de Sakura resplandeciam límpidas quando falava do irmão.

— É, é sim! Eu amaria aceitar... — Envergonhada por expor aquilo, mas confiante de que seria compreendida, Sakura conta — Mas o nii-chan está namorando, como posso ser insensível e aceitar?

— Boba. — Inesperadamente, é Kakashi quem responde, intrometendo-se e num gesto implicante, dando-lhe um peteleco de mentira na testa — Acha mesmo que Sakumo não considerou tudo? Sim, seu irmão tem uma relação agora, mas você ainda é a prioridade dele. Além disso, Anko tem sua própria casa e digamos que ela é um espírito livre. Você acha que relações convencionais combinam com aquela maluca?

Kakashi não queria intrometer-se, o momento pertencia somente as suas alunas, e deveria permitir que descobrissem sozinhas as respostas para seus problemas, ou era isso que o antigo Kakashi pensava ser o certo; no entanto, desta vez, o impulso de dar a resposta certa o vencera, e o Hatake ainda não encontrava a razão disso. Julgando que talvez, sua afinidade de anos com Sakumo, convivendo na ANBU, a proximidade em suas idades e o fato de que agora ensinava a irmã dele, o tenham levado a agir, Kakashi tranquiliza-se; sempre tivera o cuidado de não ultrapassar a linha que dividia o trabalho da pessoalidade, e surpreendera-se ao perceber que estava fazendo exceções a sua regra com frequência.

— Kakashi-sensei, sabe que está chamando Anko-sensei de maluca? — Impactada com a despreocupação de Kakashi, Sakura ressalta o fato — Não teme que ela te pregue peças depois? Ou que fique te azucrinando? Sakumo-nii disse que ela estava “torturando” um recruta semana passada, pelo mesmo motivo.

— Você está sendo boba outra vez, todos chamam Anko de maluca, até na frente dela. Se ela estava “torturando” alguém, é porque deve ter encontrado uma pobre alma vulnerável para atazanar. — Indiferente ao “perigo Anko”, Kakashi retruca — Francamente, nunca pensei que Sakumo fosse um masoquista.

Imediatamente, Kakashi se arrepende de ter dito aquilo, estava tão acostumado aos momentos descontraídos de implicâncias e zombarias trocadas com Sakura, que nem se dera conta de que seu uso de palavras era inadequado diante de duas jovens; afortunadamente, tanto Karin como Sakura, não pareciam ter percebido a conotação oculta naquela pequena frase, somente Sasuke parecia um pouco rígido demais — além do seu normal — para alguém inocente ao significado do que fora dito.

— Você acha que Anko-sensei... tortura meu nii-chan? — Desgraçadamente, a preocupação fraternal de Sakura, coloca Kakashi numa grande enrascada por sua língua descontrolada.

— Não...! — Agora foi a vez de Kakashi ficar rígido demais — Você sabe... é uma relação saudável... eu só quis dizer...

— Anko é uma selvagem, Sakura, é isso que significa. — Repentinamente, é Sasuke quem se pronuncia, vendo como o Hatake não destravava — Ela é como uma tormenta, e todos sabem disso. Até alguém denso como eu.

Muito mais tarde naquela noite, após organizarem sua escala de vigílias por turnos, Kakashi mantinha-se quase imóvel durante seu quarto de hora, praticamente fundindo-se a rocha usada como escoro naquela escuridão; o único sinal de que o Hatake não fazia parte da paisagem inanimada, eram suas mãos movendo-se silenciosamente, polindo kunais e shurikens com um tecido de algodão já desgastado.

— Devia descansar mais. — Sem deter sua enfadonha ocupação, ele murmura — Sabe que essa missão vai exigir mais de você.

— Não vou cair no erro de antecipar uma situação que nunca experimentei, não de novo. — Com seu típico tom seco, Sasuke retruca — Talvez eu não consiga operar como deveria, e talvez seja melhor considerar isso. Estando ciente, sei o que acontece.

— Bem, você que sabe. — Kakashi não interviria, a menos que fosse necessário para a missão — Só faça parecer real, o mais que conseguir.

— Eu vou. Ajudará que exista uma disparidade de níveis. — Com uma dolorosa constatação, Sasuke afirma, e então entra num campo ainda irreconhecível — O que foi aquilo?

— Aquilo, o quê? — Não abrindo espaço, Kakashi indaga.

— Nada, só... — Incerto, Sasuke recua — Vou assumir agora.

— Não considere nenhuma anormalidade, me chame. — Antes de afastar-se, Kakashi instrui.

Na manhã seguinte, antes que o sol despontasse no céu, Karin despertara a todos pontualmente, esteve de vigília no último quarto de hora, justamente por sua vastidão sensorial, já que os demais, naquela altura da madrugada, não seriam eficientes e nem teriam a mesma percepção alerta que ela; no entanto, Karin ainda era uma garota e não uma garota qualquer, era uma jovem Kunoichi que estava formando laços, descobrindo a vida e aprendendo constantemente. Por isso, apesar da disciplina ninja e da seriedade da missão, a Uzumaki ainda não controlava inteiramente traços de picardia que aos poucos, deixava evidentes naquele time que estava transformando-se no primeiro vínculo definitivo de sua vida, após sua mãe; então, por pura pirraça, enquanto confiava a vigilância a sua técnica sensorial, Karin esteve cerca de meia hora antes do horário acordado para chamá-los, “fazendo um penteado” diferente em Sakura.

— Karin!!! — Sakura esqueceu-se até mesmo do sigilo, seu grito ecoando na floresta e espantando pássaros, no momento em que ela viu-se refletida na água do córrego.

Agora entendia por que Sasuke a encarava literalmente com a boca aberta, e Kakashi dobrava-se de rir apoiando-se em uma árvore, e a sem vergonha da Karin, assoviava inocente e estrategicamente longe dela; Sakura teve seus fios rosados fixados com algo que ela tinha até medo de saber o que era, de modo que ficaram espetados para cima, como um porco-espinho que levou choque.

— Karin... o que... você fez...? — Entre risadas descontroladas e respirações ofegantes, Kakashi pede a garota.

— Vocês estão na mesma sintonia, então achei melhor terem o mesmo penteado. — Pirracenta, Karin não intimida-se ao responder seu sensei assim, e nem considera o que diz, apenas implica.

— O que você usou no meu cabelo? Karin, como você acha que vou lutar assim? Quem me levaria a sério? — Preocupando-se com a missão, Sakura tentava baixar as mechas endurecidas.

— Podemos te usar como tridente, vão te levar a sério quando forem espetados. — Focando na zombaria, Kakashi ignora a pirraça de Karin.

— Você é o primeiro que vou espetar, sensei, e sendo um velhote, não vai nem poder correr. — Enfurecendo-se de novo, Sakura retruca.

Ainda petrificado em seu saco de dormir, Sasuke começava a processar aquela ridícula cena, enquanto via Kakashi e Sakura trocando farpas sem reservas e Karin provocando-os simultaneamente, aumentando o caos; aquela cena, que não seria nunca normal em um acampamento durante uma missão, era tão oposta ao que o Uchiha estava habituado, que sua reação ao momento, teve a rapidez de um caracol.

— Estou em um Genjutsu... tenho que me libertar... — Sasuke murmura, beliscando-se em seguida, tentando quebrar a ilusão.

Ao vê-lo naquele estado catatônico hilário, os três que participavam ativamente da zombaria matinal, silenciam-se por instantes, olham-se seriamente e então, explodem em gargalhadas descontroladas, ao ponto de perderem as forças nas pernas.

— Por Rikudou, Sasuke, você precisa urgentemente ver o mundo além do Shinobi. — Recuperando algo de compostura, Kakashi comenta, e então foca em sua aluna porco-espinho — Sakura, vá lavar isso, tenho certeza que sai com água. Karin, você se encarrega da parte de Sakura, por sua travessura. Vamos pessoal, vamos levantar acampamento.

Quando o sol indicava sete horas, o time estava novamente na estrada, ainda dentro do cronograma, mesmo com o “tempo perdido” em brincadeiras, e Sakura, apesar de não ter conseguido retirar tudo o que quer que Karin usou nos seus cabelos, ao menos já era um consolo não os ter na vertical, mesmo que ainda percebesse os olhares divertidos do sensei; Sasuke, por sua vez, teve sua atenção desviada, antes totalmente voltada para remorso ou a complexidade emocional que a missão impunha a ele, seu foco agora estava cinco por cento direcionado ao temor de que Karin pudesse fazê-lo a sua próxima vítima.

***

Sob o sol escaldante da manhã, mesmo com a luz do dia, aquelas capas não perdiam aquela aura intimidante, talvez fosse até mais aterrorizante encontrar tais predadores as claras; cansada e já sem forças para continuar fugindo, a garota decide tentar resistir. Estava assustada, jamais imaginara que terminaria assim e não queria aquele fim injusto, as lágrimas desciam por seu rosto sem controle; mas não eram apenas de angústia e temor, eram de ira e revolta, nublando seus olhos e impedindo-a de ver muito além. Os boatos de bar, sussurrados e passados de boca em boca, avisavam para ter cuidado, desde que o ocorrido com Yonbi e seu portador espalhou-se; se ao menos tivesse tido mais prudência.

— Que interessante mudança de postura. — Um dos homens fala, ao alcançá-la — Você vai lutar?

— Por que estão fazendo isso? — Tentando ganhar tempo considerar suas opções, a garota questiona.

— Não é nada pessoal, garotinha, apenas recebemos ordens. — Sacando aquela enorme espada da funda, o mesmo homem responde.

— Vamos logo com isso. — Num tom impaciente, o outro determina, torcendo internamente por um desfecho diferente.

Trêmula e instável, a jovem saca suas armas, buscando desesperadamente por uma abertura, algo que pudesse usar, algo a seu favor; é quando acontece, uma grande muralha de pedra ergue-se entre ela e os dois homens.

— Itachi!!! — O chamado continha mais urgência do que fúria, e felizmente, as duas coisas poderiam confundir-se.

Relapso e travado como nunca fora em sua vida, Sasuke tentava fazer os selos de mãos corretamente, e quando finalmente forma o Katon, um segundo tarde, pergunta-se se agora que conhecia a verdade, conseguiria levantar uma kunai contra o irmão; intuindo o conflito do Uchiha mais jovem, Kakashi atua como um maestro de orquestra, direcionando Sakura para tratar a jovem garota, ferida e cansada — provavelmente lutara desgarradoramente para chegar até ali sem saber que estava sendo conduzida por um dos seus inimigos — e transmitir-lhe a mensagem da missão oculta, enquanto ele e Karin sustentavam uma luta contra o segundo individuo, para ocultar a inconsistência nos ataques de Sasuke.

— Seu tolo. — Itachi murmura, mantendo sua imagem — Não evoluiu nada.

— Você vai pagar pelo que fez... — Travado, Sasuke tenta retrucar, mas sua voz soa arranhada.

É nesse instante que o Sharingan de Itachi brilha intensamente, e como se tivesse atacando o irmão mais novo, o Uchiha utiliza do subterfúgio garantido por suas habilidades, para reorganizar a ação.

— Você tem que me atacar seriamente, Sasuke. — Dentro do Genjutsu, Itachi lhe instrui.

— Eu sei... eu sei... mas é difícil... — Transtornado, Sasuke responde.

— Preciso que você faça isso, Sasuke. — Com calma, Itachi pede-lhe.

— Não quero te machucar, nii-san... — Honesto pela primeira vez em anos, Sasuke externaliza o que lhe perturbava tanto na missão — Já machuquei tanta gente, mas você...

— Sasuke, vou me machucar mais se você não for crível. — Apesar de compreender seu abalo, Itachi alerta-o, mas notando como Sasuke estava a um passo de entregar o jogo, sugere — Desta vez, vou te fazer lutar. Só desta vez. Esteja forte quando nos vermos novamente, Sasuke.

Na realidade, tudo não passou de segundos, enquanto Kakashi e Karin mantinham Kisame longe dos dois irmãos, Sakura cumpria seu papel médico, Sasuke e Itachi pareciam ter passado minutos numa conversa só deles; como planejado, Itachi faz com que Sasuke “o ataque”, e com essa nova agressividade que explorava os pontos fortes do mais jovem, a luta entre o time sete e os dois Nukenins torna-se mais visceral e transforma a paisagem a sua volta.

— Você entendeu? — Terminando de tratar a garota perplexa e imóvel até para reagir a sua presença, Sakura questiona — Entendeu qual é o local?

— Por que estão me ajudando? O que querem de mim? Nem conheço vocês! — Tardiamente, a jovem recua diante do toque médico e da presença da Haruno, espantada ao reconhecer as bandanas de Konoha.

— Ninguém vai te obrigar a nada. É sua escolha ir até lá. Mas posso te garantir que é o único lugar que vai estar segura. — Com uma seriedade que intensificava o verde dos seus olhos, Sakura dizia — Estou quase terminando, quando terminar, você me empurra e foge daqui. Se vai ir a outro lugar ou seguir as coordenas, é sua decisão.

— O que eu digo...? — Confundida por aquela ajuda inesperada, mas sentindo que seria a única que receberia, a garota confere.

— Quem você é, isso basta. Agora. — Sakura responde ao mesmo tempo que o chakra verde sessa.

No momento seguinte, a Haruno quase é atingida por um golpe no plexo solar, que desvia por reflexo; Sakura não tenta perseguir a garota, nem tenta detê-la, apenas volta-se para sua “missão original de capturar os Nukenins”. Quando a Haruno junta-se a sua equipe, usa toda a letalidade transmitida e doutrinada por Hinata em cada um dos seus ataques, seja enquanto cobria a retaguarda de Kakashi e Karin, ou quando encenava ataques brutais contra Itachi; depois de todos aqueles exaustivos meses sob o jugo de uma Tenente ANBU, Sakura performara-se como uma Kunoichi versátil em batalha, com uma ofensiva destrutiva e uma defesa sólida. Isso fica claro, quando Kisame a subestima — talvez por que diferente dos demais, Sakura estava com as mãos vazias e não realizava qualquer Jutsu — por um instante, abrindo a guarda e acaba atingido por um soco que certamente, lhe rompeu umas costelas; o impacto desse golpe, com um efeito aparentemente pequeno, é o que desestabiliza o Nukenin, que usava sua Samehada para manter Kakashi e Karin longe, e com sua percepção obstruída pelo combate intenso contra os dois, não quantificou corretamente a ameaça daquela garota.

Percebendo a brecha, Itachi deixa sua escalonada de Katon’s e chocar de Katanas contra Sasuke, e usando um Amaterasu como barreira, arrasta seu parceiro para longe do combate; não precisavam mais estender a luta, todos os objetivos daquele confronto foram alcançados, ainda que alguns de forma inusitada, o que importava era manter seu disfarce e principalmente, ganhar tempo para a ofensiva. Quando eles somem de vista, Sasuke cai ofegante e pesadamente no chão, as mãos trêmulas, os olhos esbugalhados, a expressão aterrada de alguém que esteve preso na própria mente, enquanto assistia seu corpo funcionar como se fosse uma marionete; captando o estado dele, Karin aproxima-se com cuidado, e com uma delicadeza silenciosa que raramente mostrava, infunde Ninjutsu médico nas têmporas do Uchiha, não para curá-lo fisicamente, mas para tranquilizar seus pensamentos.

— Deixe ver isso. — Próxima aos dois, Sakura analisava o braço esquerdo de Kakashi, sangrando profusamente.

— Foi um raspão. — Sendo obrigado a mostrar o ferimento, Kakashi recuperava o fôlego.

— Um raspão causado por uma espada daquelas. Tem sorte de ainda ter o braço. — Firme, Sakura replica já o tratando.

Enquanto as duas Kunoichis cumpriam a verificação tática da equipe após o confronto, e realizavam curas distintas, mas igualmente importantes, o pequeno Akamaru aproximava-se daquele terreno acidentado de beira de estrada, que fora palco da encenação mais realista da história ninja; o cão havia sido deixado em segurança, antes que o time chegasse perto o bastante para ser notado, já que Sakura não tinha a intenção e nem a técnica para usá-lo como cão ninja, como seu antigo tutor.

— Viu só? Um raspão. — Quando o tratamento estanca o sangramento e ela começa a envolver o braço dele com bandagens, Kakashi decide suavizar o momento e a expressão sisuda do rosto dela — Na verdade, isso foi culpa sua.

— Como? — Imediatamente preocupando-se e repassando o embate mentalmente, buscando onde falhara, Sakura retesa-se.

— Sim, a recordação do seu cabelo estiloso passou pela minha mente no momento. — Relaxado daquela forma que chegava a ser irritante, o Hatake brinca despreocupado.

— Você... não posso acreditar... — Perplexa, Sakura sequer consegue manter um raciocínio coerente diante disso.

— Tudo pronto aqui? — Interrompendo o que seria uma grande enxurrada de reclamações, Karin aproxima-se com Sasuke.

O Uchiha já voltara ao seu habitual silêncio, contudo, desta vez, um sutil traço de cansaço dominava suas expressões, e num gesto genuíno para agradecer o sensei por encobri-lo durante a luta, Sasuke joga a mochila de Kakashi sobre seus ombros.

— Vamos. Vamos parar em algum lugar para passarmos essa noite. Ninguém está em condições de fazer vigílias. — Sentindo que agora seu braço corria verdadeiro perigo, enquanto Sakura apertava mais e mais aquelas bandagens, Kakashi decide.

***

Muitas horas mais tarde, em uma terma pouco movimentada de Tanigakure, o time sete recuperava energias, antes de retornar definitivamente a Konoha, já era tarde da noite, os corredores da pousada já tranquilos, tornaram-se silenciosos, quando os demais hospedes recolheram-se aos seus quartos; deitado em seu futon por horas, Sasuke revirava a última conversa com o irmão dentro daquele Genjutsu. Esteve tão introspectivo, recolhido dentro de sua consciência, que não ouvira o convite de Kakashi — mesmo que por educação — para ir às termas, não ouvira quando o sensei saiu do quarto, ou quando a camareira levou-lhe o jantar; agora, sobressaltava-se ao ouvir o som das portas de correr chocando-se, e ao sentar-se apressado, encontrava Kakashi retornando ao quarto, despojado de sua costumeira aura de Jounin, os cabelos úmidos e vestindo um yukata.

Antes que Sasuke possa assimilar o que está acontecendo, Kakashi caminha até a janela do quarto, encontrando a razão para ter interrompido o Hanafuda quando estava ganhando, e prova de que seus sentidos estavam certos; do lado de fora, um falcão mensageiro de Konoha estava empoleirado na barricada da sacada.

— Vem. Precisamos falar com as garotas. — Após ler aquela mensagem, uma resposta do informe que enviara durante a tarde, depois do confronto, Kakashi chama Sasuke.

Sem esperar e constatar se o Uchiha estava acompanhando-o ou se sequer entendera que deveria acompanhá-lo, o Hatake volta a sair do quarto, e caminhando até o final do corredor com cuidado para não despertar mais ninguém, toca duas vezes uma porta.

— Sakura? Karin? Estão acordadas? — Kakashi as chama num sussurro audível e aguarda.

Seus ouvidos apurados captam a movimentação no interior do quarto, os passos contidos e um suave farfalhar de tecidos, até que a porta se abre e as duas aparecem apressadas; atrás do sensei, Sasuke sufoca um grito de espanto. Nenhuma delas usava yukata, vestiam pijamas normais, mas isso não era o problema, o que causara o impacto de Sasuke, foi Karin com as pernas de fora; a garota usava o que parecia mais uma camiseta de um adulto, do que um pijama, que mal lhe alcançava os joelhos, e para o Uchiha e sua rigidez, isso era uma exposição sem precedentes, ainda mais considerando que sempre as via em seus uniformes ninjas.

Quando escuta o rapaz quase sufocando atrás dele, Kakashi vira-se para Sasuke sem processar nada do que estava acontecendo, pois sua mente estava direcionada na estratégia da nova missão, indagando-o com um olhar de pura incompreensão diante daquela reação; ao captar a normalidade do sensei diante do que ele via como uma cena espetaculosa, Sasuke passa a gesticular desenfreadamente para as pernas expostas de Karin, e até mesmo Sakura termina entrando em seu surto pudico, quando ele cataloga em sua mente colapsada que a garota usava uma blusa de alcinhas.

Percebendo primeiro as orelhas vermelhas cintilantes e o rosto quase derretido de vergonha de Sasuke e logo seguindo seu gesticular frenético e trêmulo, Kakashi encontra a razão de seu surto de acanhamento, enquanto o rapaz passa a encarar os próprios pés; nesse instante, é o sensei quem sente uma súbita vontade de gritar, Kakashi chega a sentir-se sufocado como nunca na vida pela máscara que sempre usara, e igual Sasuke, desvia o olhar para o chão.

— Poderiam... vestir mais peças... nós esperamos... — Tentando não envergonhá-las, enquanto ele mesmo estava embaraçado, Kakashi fala sugestivamente.

— Não precisa, sensei. — Karin, que não compreendia por que os via e os sentia envergonhados, termina de abalar Sasuke, ao erguer a barra daquela blusa, para evidenciar — É conjunto inteiro.

— G-hah! — Um som estrangulado escapou da garganta de Sasuke, e ele deu um solavanco para trás, chocando as costas contra a parede do corredor.

Seus olhos — que erguera ao ouvi-la falar tão tranquila — se arregalaram, fixos na ação de Karin, projetando um infarto iminente... apenas para voltar à vida, arquejante, quando vê que a garota usava uma bermuda quase tão grande como a camisa por baixo; atrás de Karin, Sakura colocava um casaco leve sobre os ombros, para alívio dos dois; na sonolência de quem quase entrava no mundo dos sonhos, elas ouviram o chamado, processaram que deveria ser importante, e apenas abriram a porta, sem ater-se a qualquer detalhe.

— O que aconteceu, sensei? — Tentando ignorar Sasuke, ainda encarando Karin como se ela tivesse três cabeças, Sakura pergunta.

— Como...? Hã... espera, só um segundo... — Infelizmente, Kakashi não estava em tão melhor estado — Ah, sim! A Godaime respondeu. Precisam de uma equipe em Suna, e como estamos mais próximos, geograficamente, vamos adiar a ida para casa. Saímos em algumas horas.

— Está bem. — Tentando esconder a frustração, por ter de recolher todas as suas coisas em tão pouco tempo, Sakura concorda.

— Descansem. Iremos somente quando amanhecer. É perigoso entrar no País dos Ventos a noite. — Pensando em como ajustaria o cronograma, Kakashi encontra um meio-termo que cumpre a nova missão, e garante ao menos um pouco de descanso a sua equipe.

Quando as portas do quarto delas se fecham com um boa noite arrastado, Kakashi e Sasuke retornam ao próprio quarto quase que automaticamente, girando-se nos calcanhares e caminhando pelo corredor como fantoches; quando seus corpos cansados encontram a calidez e conforto dos futons e o agradável aroma de lençóis limpos, o sono que deveria vir facilmente, parecia fugir a léguas deles.

— Kakashi... garotas são alienígenas... — Ao escutar um suspiro quase exasperado vindo do Hatake, o Uchiha externaliza o pensamento que estava ocupando lugar em sua mente tumultuada.

— Eu te disse, Sasuke, você precisava ver o mundo além do Shinobi. — Com uma voz sumida, Kakashi retruca olhando fixamente o teto, como se ali estivesse escrito o maior segredo do mundo ninja.

***

Dias mais tarde, as areias brancas da praia circundante a baia de Uzushio estavam repletas de pegadas novas, ressaltando o caminho do novo trapiche construído para atracar as embarcações e fazer os descarregamentos com maior estabilidade; na trilha que conduzia da areia até a área aberta na floresta para a construção da cabana, marujos e dois marceneiros iam e voltavam, carregando janelas e portas recém confeccionadas, além de armários feitos sob medidas para a cozinha e quartos.

— Quando você me disse para esperar uma encomenda grande, não pensei que seriam móveis e portas, chefe. — Vistoriando aquela confusão organizada, o capitão comenta — Quanto mais que vocês construiriam uma casa desse tamanho durante alguns dias.

— Estabilidade, capitão, precisamos de estabilidade em tudo na vida. Até para o descanso. — Sem revelar mais do que deveria, Naruto responde — Sobre o acordo que sugeri da última vez, você pensou a respeito?

— Bem, se envolve apenas transportar objetos e às vezes pessoas até aqui, não vejo razões para recusar. — Sem a retração de antes, o capitão pondera — Mas se em algum momento, houver algo ilícito...

— Não haverá! — Categórico, Naruto afirma — Mas como te expliquei antes, essas idas e vindas são segredo absoluto. Ninguém pode saber dessa rota, capitão, nem mesmo sua família, e isso é para própria segurança deles e de sua tripulação.

— Se não é ilícito... — Voltando a desconfiar, o velho Daiki recua.

— Porque esse lugar será um forte de proteção. É tudo que posso te dizer! — Seriamente, Naruto revela o suficiente para que o capitão possa tranquilizar-se.

Considerando o que via, o pouco que sabia daquele grupo que deixara ali há quase um mês, e as vantagens justas do contrato do acordo, Daiki pondera sua decisão baseando-se em no fato de que ninguém que estivesse mal-intencionado, exporia suas vulnerabilidades assim; e para ser justo, seu pragmatismo estoico havia encontrado igualdade naquele rapaz reservado, podia-se dizer que era quase como um sexto sentido, avisando-lhe que podia confiar.

— Otouzan! — Como se fosse para confirmar a intuição do capitão, um grito infantil quebrou a tensão e seriedade do momento.

Diante dos olhos daquele velho lobo do mar, a transformação daquele jovem que estava discutindo táticas secretas num instante, para um pai preocupado e zeloso no outro, foi como ver o mundo sob duas óticas; o grito da menina não continha nenhuma nota de medo ou denunciava qualquer perigo, e ainda assim, Naruto virou-se completamente em sua direção e com passadas largas, capturou a pequena que corria até ele.

— O que aconteceu, Nabi? — Verificando e buscando qualquer ferimento nela, Naruto pergunta.

— Oia fo, meu tente caiu. — Fanha, Hanabi tentava falar com a boca aberta, mostrando o espaço vazio entre os dentes.

— Uau, Nabi! Que legal! Você guardou o dente? Sabe que precisa trocar por moedas, não? Sem o dente, a fada não vem. — Validando aquele momento único para ela, a troca do primeiro dente de leite que tanto assustara-a dias atrás, Naruto reforça sua proteção com Hanabi no lúdico também.

— Xim, a okaaxan gua’tou. — Felicíssima, Hanabi conta.

Como Naruto transformara aquilo num evento histórico grandioso para que ela perdesse o medo, a menina logo desce do seu colo, indo até os marujos, empolgadíssima mostrando a todos sua “Porteirinha”; vendo-a exibir-se orgulhosa por estar banguela, Naruto abre o sorriso mais radiante que dera naquela manhã.

— Desde que os vi, me perguntava isso. — Um tanto dubitativo, Daiki entra no tema que toda sua tripulação sentia curiosidade — Desculpe perguntar isso, mas com que idade vocês... sabe, se tornaram pais, chefe?

— Aos quatorze. — Sincero, Naruto revela a verdade.

— Céus! Muitas coisas fazem sentido agora. — Em choque, o capitão fita Naruto como um espécime raro.

Naruto disse-lhe a verdade, porque antes de Konohamaru e Hanabi passarem a verbalizá-los como pais, eles eram os irmãos mais velhos, e isso foi apenas recentemente, durante aquela viagem; mas para Daiki, que não os conhecia, não conhecia sua história, aquilo era um feito extraordinário. Para quem os via de fora, considerando sua maturidade física e comportamental, que não condizia com nenhum adolescente de quatorze anos comum, e todo o contexto do que estavam fazendo ali, Naruto e Hinata eram visualmente, pais jovens com no máximo vinte anos, levando em conta o tamanho daquelas crianças, construindo um lar; a escala da percepção alheia apenas ganhava novas camadas de certeza, quando os via sendo pais.

Antes que Daiki pudesse processar a informação que respondia às dúvidas de fofocas entre seus marujos, Hinata retorna com Jiraya e Konohamaru pela trilha que levava ao pomar selvagem algumas léguas adiante do local onde construíram a cabana; o Sannin trazia nos braços um cesta maior carregada de frutas, e Hinata trazia algumas flores silvestres, as usaria para decorar o interior como fazia em Konoha, e Konohamaru, emburrado e de braços cruzados a frente do corpo, entrou direto em casa como um furacão.

— Onde está a tampinha? — Empolgado, Jiraya deixa a cesta de frutas na varanda e busca por Hanabi.

— Se exibindo como banguela por ali. — Apontando a direção em que a menina fora, Naruto conta.

— Como vai, capitão? — Aproximando-se dos dois, Hinata cumprimenta-o.

Atrás dela, Jiraya saia em disparada procurando Hanabi, depois de entrar em casa e buscar sua máquina fotográfica, sua nova compulsão incomum.

— Muito bem, senhora. — Formal, Daiki responde cordialmente.

A primeira vez que fora chamada assim por estranhos, Hinata quase teve uma síncope, e ainda agora, apenas conseguia manter um sorriso polido e rígido quando ouvia tal palavra referida a ela; isso porque, havia racionalizado que, quando as pessoas ouviam e viam os pequenos chamando-os de pais, automaticamente faziam aquela relação entre ela e Naruto.

— O que aconteceu? — Percebendo o desconforto cômico dela, Naruto muda seu foco de atenção, ao mesmo tempo que averiguava o comportamento de Konohamaru.

— Kono também quer trocar dentes, está triste porque não tem nenhum por cair. — Rindo daquela pequena confusão infantil, Hinata conta.

— Ah, eu falo com ele. — Solidário com a injustiça sentida pela criança, Naruto decide mediar a situação antes que brigas surgissem.

Enquanto observavam os últimos móveis sendo carregados para dentro da cabana, enquanto os marceneiros continuavam sua tarefa de instalar todas aquelas portas e janelas, o Uzumaki discutia os últimos pontos do acordo com Daiki; e fazia o possível para não perder a compostura e gargalhar de seu padrinho extasiado, batendo fotografias que com certeza, seriam hilarias de Hanabi desdentada.

— Chefe, aqui estão as promissórias que o dono da marcenaria entregou com as encomendas. — O imediato, que todos chamavam de Tripa, lhe entrega, quando a tarefa dos marujos é concluída.

— Obrigado. — Conferindo as notas, Naruto as guarda no bolso da bermuda; providenciaria a outra metade do pagamento depois — Vocês vão descansar aqui hoje, não é capitão?

— O quê? Não... nós temos que... — Confundido com o convite inusitado, Daiki não consegue reagir com coerência.

— Eu não aconselho que voltem hoje. — Revelando aquele lado perceptivo que somente quem o conhecia como Tenente ANBU sabia da existência, Naruto diz, apontando para o céu a quilômetros de distância — Estão vendo ali, ao norte? São nuvens de tempestade, e as tempestades de Uzu são as mais violentas. Podem ficar e partir quando a tempestade passe. Temos espaço.

Daiki e seus marujos eram homens rústicos do mar, acostumados com a vida dura e os perigos de velejar constantemente, e por isso mesmo, reconheciam quando o mar não está para peixe, e aquelas nuvens tenebrosas que já irradiavam rajadas de ventos zunantes desde aquela “lonjura”; era óbvio que se fossem pegos por aquilo, seu navio encouraçado viraria papel em instantes. Portanto, acanhados e retraídos, ele e seus homens aceitaram o convite, entrando naquela casa recém erguida e ainda um tanto desorganizada, quando a ventania fez-se mais violenta do lado de fora; aliviados de que o cronograma fora cumprido, e que desde as primeiras horas daquela manhã, as tão esperadas portas e janelas estiveram sendo instaladas, Naruto e Hinata viam a primeira tempestade que viveriam em Uzushio aproximar-se. O último a entrar em seu santuário, foi o imediato Tripa, encarregado de ancorar melhor seu navio, para precaverem-se contra as correntes fortes, e juntando-se aos outros homens, via com mais atenção, impressionado, os detalhes daquela construção; a cabana, apesar de parecer rústica, tinha delicadeza e aconchego irradiando de paredes, com pequenos entalhes decorativos feitos nos umbrais das portas.

— Hoje é o dia perfeito para kani nabe. — Acendendo o fogo no grande fogão de pedra, Hinata comenta.

Naruto soube, apenas pelo resplandecer do seu rosto, enquanto admirava a cozinha, ainda que desorganizada e com os armários amontoados num canto, sem cumprir devidamente suas funções, que Hinata estava contente com o resultado; o mais interessante, é que aquela validação e alegria contida dela, era o que fazia a felicidade de Naruto ser plena. Apesar de todas as dificuldades que ainda enfrentariam, das tempestades vindouras, e de todo o esforço que a vida ainda exigiria deles, aqueles momentos que para alguns poderiam ser pequenos e insignificantes, para Naruto, eram a realização de uma vida; não uma fortuna exorbitante, não o reconhecimento frágil que dependia sempre de uma condição, era aquilo ali, mesmo no meio do nada, diariamente, que valia o universo inteiro.

***

O trabalho estava tornando-se cada vez mais maçante, havia tantos protocolos por cumprir, tantas diretrizes que deveriam ser mantidas, e principalmente, papeis que não terminavam mais, esses aspectos da função que desempenhavam, faziam Shikamaru sentir saudade das expedições de limpeza; na outra mesa, Sai estava em estado de contemplação da fadiga, escorado na cadeira, com um pincel preso entre o nariz e o lábio superior, ou era isso que Shikamaru pensava.

— Sai, vamos terminar de protocolar esses documentos logo, quero encerrar por hoje. — Chamando-o de volta ao trabalho, o Nara tenta prosseguir com o dever.

— Ino me beijou. — Em lugar de responder com seu costumeiro sarcasmo, Sai revela.

— Sim, eu entendo, Ino te bei... espera! Ino o quê?! — Perplexo, Shikamaru até derruba o tinteiro.

— Disse que ela me beijou. Ontem. O que isso significa? — Agora a razão para Sai ter estado disperso toda manhã fica clara.

— Como assim, o que significa? Uma garota não vai beijando qualquer um por aí, Sai. — Exasperado com a falta de reação natural dele, Shikamaru ressalta.

— Sim, mas ela fez isso e saiu correndo. O que quer dizer? Ino se arrepende? Você a conhece há mais tempo, deve saber. — Chegando ao ponto que lhe gerara dúvida, Sai esclarece.

— Não, não se arrepende. Ino provavelmente ficou envergonhada. Deve estar esperando uma atitude sua. — Finalmente compreendendo o que incomodava seu parceiro, o Nara analisa a situação com calma — O que vai fazer? Você gosta dela?

— Me sinto atraído, isso é fato. Gosto da presença, das conversas. É o bastante? — Incerto, Sai pondera.

Desde quando fora resgatado, e deixara de ser um experimento nas mãos de um lunático, Sai esteve reaprendendo sobre a sua humanidade, e em vista de como era no princípio, como uma máquina sem filtro, agora, depois de três anos, já se podia considerar suas capacidades sociais suficientes; no entanto, em momentos como aquele, que geravam um grande conflito emocional interno, consequência do trauma de infância, Sai regredia alguns passos.

— Se não fosse, Ino não teria agido, Sai. Tenha certeza, para ela, você é o bastante. — Honesto como só seria com pessoas que confiaria sua vida, Shikamaru afirma.

Imersos naquele momento de virada social, Shikamaru e Sai terminavam o trabalho do dia, com Sai finalmente voltando ao seu rendimento habitual, embora em momentos o Nara percebia sua mão detendo-se por alguns instantes; quando estavam por encerrar o turno, mesmo sem atingir a meta do dia para não gerar atrasos, com todos os documentos urgentes e importantes processados, uma batida suave na porta lhes interrompe.

— Entre. — Sai concede, notando como Shikamaru estava indisposto a falar.

No instante seguinte, uma pequena comitiva invade a sala dos Tenentes interinos, e o momento de convergência não poderia ter sido mais perfeito, afinal, a dupla tinha entregas a fazer a membros de cada time; para Shikamaru, era uma bênção que os times de Kakashi e Guy chegassem juntos, essa coincidência garantiria que ele não tivesse que se desviar do seu caminho por uma entrega, e que não tivesse em sua posse por tanto tempo, pertences alheios que poderia perder ou esquecer.

— Ah, como foram? — Deixando de lado a apatia de final de turno, o Nara retorna ao pragmatismo de sua função, questionando diretamente os dois Jounins.

— Os suprimentos médicos foram entregues ao setor e vão ser distribuídos amanhã. — Entregando seus relatórios, Guy toma a frente — Também garantimos a qualidade da carga.

— Bom, Shizune-san poderá continuar com as pesquisas e treinamentos da unidade. — Riscando aquela pendência de sua lista, Sai organiza os próximos passos das diretrizes.

— Quanto a nós, a primeira missão teve o efeito esperado, se continuarmos com essas incursões que levam a confrontos “acidentais” esporádicos, teremos um recuo. — Economizando em palavras pela exaustão, Kakashi inicia as explicações das missões de seu time — E Suna fez um pedido interessante, Kankuro quer implementar nosso modelo de treinamento especial na sua unidade de elite, e em troca, nos darão um treinamento avançado sobre venenos. Parece que Hinata esteve organizando esse ponto com eles antes de irem para a missão externa.

— Ah, sim. A Hina nos enviou a diretriz disso. Por isso, quando você informou que cumpriram a missão, decidimos enviá-los a Suna, para iniciar as conversas sobre o assunto. — Buscando o formulário em suas pilhas de papéis, Shikamaru o entrega a Sakura e Kakashi — Hinata nos instruiu a prosseguir com isso assim que Suna contactasse. Essa é a nova etapa do seu treinamento, Sakura, Hinata quer que você tenha uma especialidade que nos dá mais vantagens táticas. E você, Kakashi, com sua experiência como ex-Capitão ANBU, é perfeito para dirigir o projeto do Kazekage.

— Mas o time vai ficar desfalcado, Sasuke é Chunin, mas Karin ainda é Genin. Concordo que somos a melhor escolha e temos a mobilidade para ir e vir, mas não concordo em deixar o time a deriva. — Ponderando aquela decisão, Kakashi pontua os detalhes problemáticos — Quem se responsabiliza pela equipe na minha ausência?

— Tenzou. — Sai revela, e o simples nome faz Sasuke e Sakura arrepiarem-se — Como estamos, tecnicamente, dividindo o trabalho entre quatro Tenentes, conosco no interno e Naruto e Hinata no externo, a parte do Capitão está mais “leve”, digamos assim.

— E considerando que não podemos deixar qualquer Jounin responsável por dois indivíduos que podem se tornar alvos, ainda mais sem pistas concretas sobre Orochimaru, vamos ser precavidos dessa vez. — Shikamaru complementa.

— E por falar em coisas que a Hina enviou, Neji, isto é para você. — Misturando o sério com o cotidiano, Sai lhe alcança um grande envelope lacrado.

— Para mim? — Contente e emocional, Neji abre o envelope, encontrando cartas e para sua surpresa, fotografias.

— Sakura, Sakumo está fora, ele partiu faz dez dias para uma missão longa, e como vocês se desencontrariam, nos pediu para te entregar isso. — Querendo dar privacidade ao Hyuuga a beira de lágrimas, Shikamaru chama a garota e lhe entrega um molho de chaves — Ele disse que já cuidou de toda a mudança.

Suspirando diante da tenacidade teimosa do irmão, Sakura aceita as chaves, aliviada de que ao menos, suas missões continuas e às vezes desencontradas, lhe daria a lacuna de tempo, para dar e ter espaço, sem ser um empecilho na vida de Sakumo; com os relatórios entregues, os primeiros detalhes discutidos e os ajustes mais urgentes daquela nova estratégia, as equipes foram dispensadas recebendo seus pagamentos, e num acordo tácito e silencioso, cada um dirigiu-se a sua casa, ansiosos por descanso.

A noite já caia sobre Konoha, quando um afoito Neji irrompe no escritório de seu pai, impactando Hizashi, que não o via tão energético desde que a partida das sobrinhas junto a Naruto; o mesmo ocorre com Hiashi, e este sim, nunca vira o sobrinho revelar uma emoção tão genuína em toda sua vida.

— Pai, a Hina mandou uma carta! — Alegre, Neji conta, já despejando o conteúdo do envelope na mesa de Hizashi — E fotos, olhem isso!

Pelos próximos minutos, os três estiveram entretidos e divididos entre ver as fotografias, inclusive as recentes de Hanabi banguela, das etapas da construção da nova cabana, de Uzushio, e até mesmo, algumas de Hinata distraída, tiradas provavelmente por Naruto; visualizavam aquelas imagens tentando sanar uma parcela da saudade, enquanto liam trechos da extensa carta, onde Hinata contava histórias da viagem, dos lugares por onde passaram, dos acampamentos e das maluquices de Jiraya. A Hyuuga também perguntava deles, dos gêmeos, fazia recomendações e recordava o tio sobre manter as vacinas dos bebês em dia, e surpreendentemente, também fez uma pequena pergunta sobre Hiashi que lhe retalhou o peito; Hinata parecia ter antecipado que o seu genitor leria a carta junto ao tio, e por boa educação e para manter a cordialidade, fez uma menção a Hiashi, e ainda que seu trato para com ele fosse frio e a distância permanecesse a mesma, havia gentileza genuína naquela pergunta.

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... Assim, de acordo ao projeto em andamento, a inspeção que discutimos antes, está prevista para os seguintes meses. Por isso, vou compartilhar algo profundamente complexo que aconteceu... — Hizashi ia lendo as linhas finais da carta da sobrinha, e conforme lia, os três Hyuuga’s entravam em choque — ... Sei que entre os membros da equipe, já escalada por Shikamaru, Sai, o capitão e a Godaime, estão inclusos Neji nii-san e Hiashi-sama, então achei prudente esclarecer essa questão com vocês antes...

— O que...? É uma piada? — Tomando a carta das mãos do pai, Neji passa seus olhos rapidamente pela escrita elegante de Hinata — ... Pensamos que devido ao trauma da perda e do sequestro, eles sentiram-se intranquilos, sem uma estrutura formal que os protegesse. Então nos atribuíram verbalmente essas funções, que tecnicamente já estávamos cumprindo. Talvez isso mude no futuro, talvez Konohamaru e Hanabi só queriam segurança física e emocional. Bem, para nós, não faz diferença, daremos nosso melhor por eles. Espero que estejam bem. Logo escrevo novamente.

Por longos e pesados minutos, ninguém atreveu-se a dizer nada, na verdade, até mesmo as respirações estiveram contidas, como se os suspiros pudessem quebrar a lucidez necessária para que compreendessem aquelas palavras; Hiashi foi o primeiro a reagir, e sinceramente, parecia que já esperava algo assim, mesmo que inconscientemente, e quando as palavras de Hinata confirmaram suas suspeitas, para além de sentir que perdera seu lugar definitivamente, sentiu certo alívio. Nunca fora um bom pai para Hinata, e falhara ainda mais com Hanabi, saber que alguém estava consertando as lacunas deixadas por seus erros, reduzia a parcela de culpa que atormentava-o todas as noites; talvez, pela primeira vez na vida, estava agindo como um pai, aceitando e torcendo para que esse arranjo inusitado funcionasse e mantivesse-as seguras.

— Aquele Naruto...! — Neji estava tão chocado, que sequer conseguia organizar suas ideias.

— Neji, por favor. — Com a calma de um monge eremita, Hizashi detém o filho — Você sabe que Hinata e Naruto jamais encorajariam isso. É óbvio que partiu das crianças, por tudo que eles viveram e experimentaram. E de verdade? Podemos refutar a lógica deles?

— Eu sei, droga, é claro que sei! — Resignado, Neji cai suspirando numa poltrona — Já estou vendo a confusão que vai ser quando eles voltarem.

— Então teremos que assumir nosso papel como família e dar apoio. — Ressaltando a atitude natural neste contexto, Hizashi coloca aquele tema em espera, e com muito cuidado, volta sua atenção ao irmão — Você está bem?

— ...Acho que... já esperava por isso. — Apesar de suas expressões permanecerem indecifráveis, a voz de Hiashi soara quebrada — Vai levar tempo... acostumar...

***

Como sempre ocorria durante a transição da primavera para o verão, as chuvas torrenciais tornavam-se frequentes, e em Uzushio não eram refrescantes como em Konoha, as chuvas sempre deixavam um abafamento, úmido e expeço, quase sufocante, apesar de que em sua duração eram frescas; essa mudança brusca de temperatura com a troca das estações, foi algo que estavam considerando, mas não tinham certeza. Em Konoha, sua casa ficava no centro de uma clareira na floresta, por isso, as primaveras ainda eram frias e os verões frescos em comparação com a vila sem a proteção térmica do verde; contudo, mesmo que em Uzushio tivessem aberto uma nova clareira, ainda estivessem cercados por sombras frescas e vegetação, os dois meses de primavera foram quentes, e o primeiro mês do verão estava sendo escaldante, e isso indicava também que as demais estações poderiam ser extremos violentos.

— Quando o vento parar, vou subir até o moinho. — Assistindo a água caindo continuamente do telhado, Naruto apreciava a vista em sua cadeira na varanda — Precisamos garantir que nenhum galho ou folhagem tranque a engrenagem.

— Vamos juntos, quero ver se as pequenas estufas estão no lugar. — Relaxando absurdamente, Hinata afirma, sentindo suas pernas enrijecidas formigando sob a pressão aplicada.

Suas plantações estavam vingando e crescendo belamente, tanto nos canteiros para alimento, quanto nos canteiros medicinais e no seu novo jardim, agora já tão colorido como o que deixara aos cuidados das amigas em Konoha; o único problema de cuidar de plantações extensas assim, mesmo com ajuda, era o desconforto que estar acocorada por horas arrancando ervas daninhas causava. Suas pernas enrijeciam e Hinata tinha câimbras terríveis, que nem os dias de vigílias durante suas expedições causaram, e mesmo com sua resistência física acima da média, o cansaço cumulativo da viagem até ali, da reconstrução e todo o trabalho que envolvia, impôs uma carga de desgaste na Hyuuga; felizmente, agora concluídos três meses que estabeleceram-se, o ritmo pode ser reduzido um pouco, com mais dias tranquilos — até por causa do clima — onde o foco por vezes podia estar cem por cento no operacional tático e administrativo trocado com a Vila.

— Aperta um pouco mais atrás dos joelhos. — Sentindo os músculos literalmente afrouxando, Hinata pede.

Quase devocional, Naruto atende seu pedido, soltando suas panturrilhas por um momento, subindo as mãos para a linha dos joelhos dela, e os suspiros satisfeitos de Hinata, revelam-lhe que a pressão e o local da massagem estão ideais; enquanto conversavam banalidades, envoltos pelos sons da natureza os cercando, os roncos e palavras ininteligíveis de Jiraya do lado de dentro causavam risadas cumplices. Após o almoço, o Sannin e as crianças entraram numa bagunçada e lamacenta guerra na chuva, com direito a tombos, escorregões e alguns arranhões superficiais; cansados e doloridos, os três estavam dormindo embolados no mezanino de Jiraya, porque segundo Konohamaru e Hanabi, era divertido, como um ninho de passarinho.

Estavam assim, quando avistaram o navio do capitão ultrapassar as corredeiras, através da trilha, agora completamente aberta e espaçada que conduzia até a praia; deixando de lado suas xícaras de chá e vestindo capas de chuva, o casal dirigiu-se até o trapiche para recebe-lo com sua tripulação. Desta vez, no entanto, Daiki não transportava apenas suas recentes encomendas, trazia a bordo também a equipe enviada por Konoha para a missão de inspeção mais profunda da ilha; e entre eles — como esperado — estavam Neji e Hiashi, além de Ino e Shino.

— Chefe!! Como estão? — Jogando pela proa um grosso cabo de amarração, o imediato Tripa grita a Naruto, e logo se dirige a Hinata — Cadê os pequenos, okaa?

— Estão dormindo, fizeram muita bagunça. — Já mais habituada a ser tratada como a matriarca da família, Hinata responde naturalmente, ajudando Naruto a prender o cabo ao trapiche.

Esse pequeno diálogo, no entanto, causa uma comoção sem precedentes nos Hyuuga’s presentes, Neji especialmente, sente um estremecimento que não tinha relação com a chuva, enquanto Hiashi petrificava-se como uma estátua de sal.

— Trouxemos uma equipe, as encomendas, uma caldeira... — Daiki ia informando, descendo pela rampa sendo seguido pelos demais, e por marujos que já descarregavam tudo, habituados com aquela rotina em Uzushio — E tem também, uma daquelas cargas especiais...

— Hina! Sua desnaturada! — Como um furacão emocional, Ino interrompe o capitão, correndo até a amiga e abraçando-a aos prantos — Como você nos deixa assim?

— Você sabe que o tempo é precioso, Ino. — Reconfortando-a com abraços e carinhos, Hinata responde.

— Você está bem, nee-chan? — Avaliando-a com olhos de falcão, Neji pergunta, e então dirige-se ao Uzumaki — Ela emagreceu, Naruto!

— Nossa viagem foi mais desgastante que o estimado, e somente de uns dias para cá, conseguimos desacelerar um pouco, Neji. — Naruto responde, revirando os olhos minimamente, então estende uma mão a Hiashi — Como vai, Hiashi-sama? Obrigado por terem vindo. Você também, Shino.

— Estou muito satisfeito com minha inclusão. A vastidão deste lugar é vibrante. — Já em modo explorador entomologista, Shino retruca, sequer importando-se com a chuva.

— Se podemos ajudar, estarei satisfeito. — Ainda rígido, Hiashi responde, tentando agir normalmente, e então dirige-se a filha — Seu tio enviou algumas coisas, Hizashi queria muito vir, mas como sabe... é difícil.

— Eu entendo, vamos entrar? Tenho certeza que estão cansados, é por aqui pessoal, nii-san, pai. — Esta última palavra traz a boca de Hinata a sensação de comer areia, mas como estavam diante de estranhos, ela optara por manter o mínimo das relações formais familiares.

Enquanto ela guiava os quatro pela trilha até a casa, Naruto orientava os marujos sobre onde colocar as encomendas e a caldeira; naquele espaço de tempo, após a construção da cabana e as plantações terem sido concluídas, Naruto construíra um pequeno celeiro e um curral.

— Caramba chefe, sogro e cunhado marcando em cima, não me admira que você seja tão perfeccionista. — Daiki, que esteve muito interessado na troca anterior, comenta.

— Para você ver, capitão, mas o mais problemático é aquele cunhado. — Risonho, Naruto brinca com a nomenclatura, imaginando como Neji cairia duro ao ouvir, mesmo que fosse verdade.

— Você é o autocontrole em pessoa, chefe. Quando eu interagia com a família da minha esposa, sempre atropelava alguma palavra. — Com profunda admiração, Daiki compara, sem saber das complexas relações escondidas naquelas trocas — A propósito, a carga especial. Ei, venha!

Quando Daiki ergue a voz e chama mais alguém, e os marujos não respondem ao chamado, Naruto deduz que faltava mais alguém para descer do navio e é exatamente isso que acontece; com passos incertos e olhares puramente avaliativos, uma garota de cabelos verde azulados e olhos laranjas caminha pela rampa. Braços passados ao redor do corpo, postura arredia, completamente na defensiva; tudo nela indicava que ao menor sinal de perigo, iria sair correndo.

— Essa mocinha disse que recebeu instruções para vir aqui. — O capitão explica — Como ela sabia informações precisas, eu a trouxe.

— Obrigado, capitão. — Naruto não entra em detalhes com Daiki, apenas aprova sua atitude — Diga aos rapazes que teremos hiyashi chuka a noite.

Deixando que Daiki se encarregasse dos seus marujos, Naruto caminha com cuidado até a garota, sem movimentos bruscos e sem uma aproximação precipitada; segundo os relatórios de Kakashi enviados por Shikamaru, a situação escalonou muito, antes da interferência deles.

— Foi um time de Konoha que te enviou aqui, certo? — Afirmativamente, Naruto lhe fala — Prazer. Sou Uzumaki Naruto, um dos responsáveis por esse abrigo.

— Por que... por que me ofereceram abrigo? — Na defensiva, ela pergunta.

— Por que queremos impedir a Akatsuki. — Primeiro, Naruto revela o óbvio, e então aprofunda a razão — Também sou um Jinchuuriki, Fuu, eu carrego a Kyuubi, assim como você carrega o Nanabi.