Notas iniciais
Olá pessoas! Todos bem?? Segue o primeiro capítulo do ano dessa fic, espero que gostem! Bjuss!

— Vocês... — O Sannin sibilou, num êxtase temerário — Magníficos espécimes.

Orochimaru não esperou. Sua mandíbula deslocou-se de forma inumana, liberando o Sen'eijashu, e centenas de serpentes que brotaram como um chicote vivo. Naruto rugiu, um som que não era humano, não apenas usando o Doryūheki, mas literalmente socando o chão, fazendo a muralha de pedra irromper com tal violência que estilhaçou o crânio das primeiras dezenas de répteis.

Hinata moveu-se como um espectro. Enquanto o fogo do seu Gōkakyū no Jutsu incinerava o restante das serpentes em um estalo de carne queimada, ela infiltrou-se na guarda de Orochimaru usando o Jūken modificado; seus golpes não buscavam apenas fechar os tenketsus; eles carregavam a força bruta do chakra médico invertido, rompendo tecidos musculares a cada toque.

Orochimaru sacou a Kusanagi. O metal lendário zuniu, cortando o ar, e Naruto interceptou a lâmina com suas Ninja-tōs envoltas em Raiton: Gian. Faíscas azuladas iluminavam as faces suadas e determinadas. Naruto não recuou; ele avançou, utilizando um chute giratório carregado de chakra que lançou Orochimaru contra uma coluna.

O Sannin, no entanto, era fluido. Ele usou o Nanjō Kaizō para alongar seus membros, tentando enroscar-se em Naruto como uma jiboia. Hinata interveio com um Suiton: Suiryūdan no Jutsu. O dragão de água colidindo contra o teto e desabando sobre Orochimaru com o peso de uma tonelada. O salão tornou-se um caos de lama, sangue e gelo quando Hinata, sem hesitar, transmutou a água em estacas através do Hyuton: Tsubame Fubuki.

— Fuuton: Shinkuugyoku! — Naruto disparou esferas de ar comprimido como balas de canhão, cada uma arrancando pedaços das paredes e da carne de Orochimaru.

O Sannin ria, uma risada gutural enquanto seu corpo se contorcia, desfazendo-se em peles de cobra para escapar dos projéteis.

— Suiton: Suishōha! — Hinata reagiu instantaneamente, batendo as palmas no chão e invocando uma onda circular de água maciça que colidiu com a forma instável de Orochimaru, forçando-o a se solidificar.

A luta era uma tempestade de elementos. Naruto utilizava o Doton: Doryūheki para criar plataformas de ataque, saltando nelas com uma agilidade animal, enquanto seus punhos brilhavam com o Raiton, descarregando voltagem pura cada vez que suas Ninja-tōs cruzavam com a resistência viscosa do inimigo. Hinata, por sua vez, era o equilíbrio letal; ela alternava entre o Katon: Hōsenka no Jutsu, disparando pétalas de fogo que rastreavam o cheiro do Sannin, e o Hyuton, congelando a umidade do ar para criar lâminas invisíveis que cortavam as extensões ofídicas de Orochimaru.

O ar dentro da caverna tornou-se irrespirável, saturado pelo cheiro de ozônio, enxofre e o odor metálico de sangue que escorria pelas paredes. Orochimaru, percebendo que não enfrentava apenas duas crianças, mas dois carniceiros treinados no cerne da ANBU, soltou um grito inumano. Sua mandíbula se deslocou, e de sua garganta emergiu uma nova forma, viscosa e coberta por um fluido fétido, regenerando-se parcialmente para o combate real.

— Vocês acham que conhecem o inferno? — Orochimaru sibilou, lançando-se contra eles com uma velocidade que desafiava a física — Eu sou o arquiteto dele!

O Sannin estendeu seus braços, que se transformaram em centenas de serpentes gigantescas. Naruto, com o rosto banhado em um suor frio, mas os olhos fixos como os de um predador, cruzou suas Ninja-tōs.

— Fuuton: Shinkuudaiken! — O Uzumaki girou as lâminas, infundindo-as com vácuo puro.

O movimento criou lâminas de vento invisíveis que fatiaram a massa de cobras em pedaços de carne pulsante antes que o toque delas pudesse envenená-lo. Naruto avançou para o corpo a corpo, um borrão de movimentos pretos. O som do metal colidindo era constante: clang, clang, clang. Suas espadas dançavam contra as lâminas que Orochimaru fazia brotar de seus punhos. Era uma exibição de Taijutsu de alto nível; Naruto utilizava a agilidade de um felino, esquivando-se de botes mortais por milímetros, sentindo o hálito podre do Sannin em seu pescoço. Cada vez que suas lâminas se cruzavam, Naruto descarregava o Raiton: Raigeki, enviando pulsos elétricos através do metal para fritar os nervos do oponente. Ao seu lado, em uma sincronia que beirava a telepatia, Hinata flutuava pelo campo de batalha. Ela era a tempestade silenciosa. Enquanto Naruto mantinha a pressão frontal, ela utilizava seus Tessen’s como extensões de seus próprios braços.

— Hakke Kūshō! — Hinata disparou uma rajada de vácuo com a palma da mão esquerda, desviando um ataque lateral de Orochimaru, enquanto a mão direita fechava-se em um golpe de Juuken diretamente nas costelas do Sannin.

O impacto não foi apenas físico. O chakra de Hinata penetrou como agulhas de gelo, visando fechar as válvulas de Chakra do coração de Orochimaru. Ela combinava o estilo suave dos Hyuuga com a brutalidade sofisticada de uma assassina, usando Suiton: Suigadan para criar redemoinhos de água afiados que brotavam do chão, forçando o Sannin a recuar constantemente.

A batalha atingiu o ápice quando Orochimaru, em um ato de desespero, convocou os Portões de Rashōmon. O impacto do contra-ataque de Naruto fez a montanha acima deles gemer. A luta tornou-se tão intensa que a estrutura da caverna começou a ceder. Orochimaru, furioso por ser acuado por adolescentes, realizou selos rapidamente.

— Manda! — Ele não invocou a cobra inteira, mas uma manifestação de sua força. Uma cauda colossal irrompeu do teto, esmagando as vigas de sustentação.

A montanha acima deles soltou um rugido de agonia. O teto desabou, e a explosão de Chakra dos três rompeu a terra, arremessando o combate para a superfície, no meio da floresta densa que rodeava o esconderijo. Árvores centenárias foram arrancadas como gravetos pela onda de choque.

Na claridade do novo dia já amanhecido, a destruição era absoluta, crateras fumegantes marcavam onde Jutsus de Doton de Naruto haviam erguido pilares de pedra para esmagar Orochimaru, apenas para serem derretidos pelo Katon devastador que Hinata lançava para impedir o avanço das cobras remanescentes; o medo de falhar com sua família era o que alimentava sua vitalidade, cada movimento era preciso, calculado em anos de missões suicidas na ANBU. Eles não lutavam por glória; lutavam por retribuição.

Orochimaru, no entanto, não fora um dos pilares de poder de Konoha sem razão, ele avançou novamente, sua forma alongada e grotesca ziguezagueando pelo chão como um borrão de pele e escamas. Naruto interceptou-o com uma combinação de Taijutsu de alto nível, uma variação do seu próprio estilo de luta, que misturava força bruta com o impulso e a velocidade natural dele, somado ao poder maçante do Chakra de Kurama; seus punhos colidiam contra a carne regenerativa do Sannin em estalos secos, cada impacto enviando ondas destrutivas que ecoavam no silêncio da floresta.

Ao seu lado, Hinata era a personificação da elegância mortal. Ela utilizava o Jūken, mas seus dedos não apenas tocavam; eles perfuravam. Com um giro de corpo, ela evadiu a Kusanagi, lançada contra seu peito repentinamente, e desferiu um golpe de palma aberta no peito de Orochimaru, injetando uma carga de Chakra tão densa que os órgãos internos do inimigo começaram a liquefazer-se. A urgência em seus olhos era clara: eles não tinham tempo para uma guerra de atrito. Precisavam ser letais. Precisavam ser o fim.

Orochimaru, exausto e perdendo a coesão de seu corpo, viu a abertura e lançou a Kusanagi outra vez. O movimento foi mais rápido que a luz. Foi quando o tempo pareceu desacelerar para Naruto. Ele viu o movimento. Orochimaru, em um último esforço de malícia, projetou a Kusanagi em um ângulo impossível. Naruto abriu a boca para gritar, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado, mas o som morreu em sua garganta ao ver os olhos de Hinata. Havia uma calma terrível neles. Ela não estava sendo pega de surpresa; ela estava escolhendo o impacto. A lâmina atravessou-a. O som metálico perfurando carne e músculo ecoou como um trovão no silêncio da alma de Naruto.

— Hinata!!! — O grito de Naruto dilacerou o silêncio da floresta.

O desespero em sua voz era a nota mais alta de uma sinfonia fúnebre, enquanto o sangue quente dela ensopava seu uniforme negro, o medo de perdê-la sendo uma dor mais física do que qualquer corte. Naruto queria correr até ela, queria afastá-la do perigo, queria protegê-la em seus braços; e, no entanto, permanecera onde estava, prosseguindo com o que deveria fazer, continuando o segundo ato do esforço dilacerante dela. Seu coração em frangalhos imbuia mais ferocidade aos seus movimentos, seus ombros sacudiam-se em fúria incontrolável.

— Um sacrifício inútil. — O Sannin zombou.

Orochimaru sibilou em triunfo, regozijando-se com o abalo emocional do garoto. Ele puxou a espada de volta, trazendo Hinata junto, pendurada na lâmina como um troféu macabro. Quando ela estava a centímetros de seu rosto ofídico, o Sannin esperava ver os olhos dela se apagando. Em vez disso, ele encontrou um sorriso tingido de escarlate.

— Minha vez. — Ela disse, a voz imponente, sem um traço de fraqueza.

Sob as roupas rasgadas da ANBU, linhas negras geométricas serpentearam como chamas escuras por seu abdômen e braços, convergindo para um losango de brilho diamante em sua testa, agora visível sob a franja desalinhada. O Sōzō Saisei: Byakugou no Jutsu estava ativo; o Chakra acumulado por anos explodiu, fechando a ferida da Kusanagi em segundos enquanto a lâmina ainda estava dentro dela.

Com um rugido de força sobre-humana, Hinata agarrou a lâmina da espada com as mãos nuas e a quebrou, o metal lendário estilhaçou-se como vidro comum; antes que Orochimaru pudesse processar a impossibilidade do que via, ela o atingiu com um soco imbuído de Chakra de nível desastroso, quebrando o esterno do Sannin e o pregando contra o chão, que rachou em um raio de dez metros.

— Agora, Naruto! — Hinata gritou, mantendo o Sannin imobilizado sob sua pressão titânica.

Naruto não hesitou, estava pronto. O pânico de vê-la ferida foi transmutado instantaneamente em uma determinação fria e precisa que parecia irradiar de seu corpo em ondas chicoteantes de ira; quando aterrissou sobre o corpo de Orochimaru, os dedos moveram-se em uma velocidade que deixava rastros de luz no ar.

— Fuinjutsu: Kokuō no In! — Naruto clamou, batendo as palmas no plexo solar do Sannin.

Cadeias de chakra com inscrições ancestrais do clã Uzumaki irromperam do solo, enrolando-se em Orochimaru. O selamento não visava a morte, mas algo pior para um ser que buscava a eternidade: ele começou a arrancar sistematicamente a capacidade de regeneração celular do Sannin. As células de Hashirama e os Jutsus de troca de corpo começaram a ser selados em um vácuo espiritual, tornando o corpo de Orochimaru mortal, frágil e sujeito ao tempo.

— Seus... pequenos... demônios... — Orochimaru vomitou uma massa negra de sangue, sentindo sua imortalidade escorrer por entre os dedos enquanto as marcas do selo Uzumaki queimavam sua pele.

Sabiam desde o princípio que não o venceriam por completo, não um ser como aquele, não enquanto ainda não estivessem ao nível de um Sannin, mas arriscaram tudo para garantir que não pudesse erguer-se contra Konoha outra vez; naquele momento, sob o brilho do Byakugou e a força do selamento Uzumaki, o Sannin soube que Konoha tinha novos guardiões, e que eles eram impiedosos com quem ameaçava sua paz.

A mata ainda rangia e estalava, protestos remanescentes perante a violência ali sucedida, vários focos de fumaça ainda subiam aos seus, foi quando Naruto sentiu o alto preço que usar um Fuinjutsu que não dominava totalmente infligia ao seu corpo; ofegante e com os pulmões a rasgar-se a cada respiração entrecortada, sentia o sangue inundando-os, produzindo um horrível chiado enquanto tentava inalar e expelir o oxigênio. O Uzumaki caiu de joelhos, com charcos de sangue escorrendo de sua boca e nariz, sufocando-o, desta vez o dano estava sendo maior e mais imediato do que o quando usara o Fuinjutsu removedor no selo de Neji e Hizashi; as correntes vermelhas e douradas crepitavam e ricocheteavam, drenando seu chakra e seu sangue, exigindo seu pagamento, e enfraquecido pelos danos físicos, Naruto já não as controlava e nem conseguia fazê-las retroceder.

Quando o Byakugan de Hinata captou o que estava passando-se atrás dela, um segundo mais tarde, seu coração errou uma batida num solavanco violento, e meio milésimo de segundo depois, a Hyuuga já havia feito sua escolha; em lugar de manter Orochimaru submetido por seu agarre e exterminar definitivamente com a ameaça a Konoha, Hinata escolhera golpeá-lo na origem dos problemas, suas mãos habilidosas em demasia para o proibido, retorcendo-as como papel ao ponto de deixá-las inutilizáveis. No instante seguinte, a garota soltara-o, orando para que aquele pequeno ato fosse suficiente, e com um medo horripilante dominando-a, segurou os ombros convulsionantes de Naruto; seu peito nu, com tiras de sua camisa negra pendendo em frangalhos, estava escorregadio de suor e sangue, e quando Hinata passa a aplicar o Ninjutsu médico, imbuindo em suas mãos também suas reservas do Byakugou, com suas linhas obsidianas ainda formando padrões em seu corpo, um estremecimento aterrador percorre-lhe a espinha, ao sentir os sinais vitais dele esvaindo-se.

Não era simplesmente o dano por não dominar completamente o Fuinjutsu, era também o dano causado pela regeneração acelerada pelo chakra potente e maçante da Bijuu em seu interior, que nesse momento, com Naruto enfraquecido, fora afetado pela vasão da vitalidade dele, e com sua conexão quebrada, iniciara o processo de cura; os danos pelo Fuinjutsu e a cura de Kurama eram como polos opostos entrando em conflito, um drenando e o outro repondo a uma velocidade que o corpo mortal de Naruto não conseguia acompanhar. Instantes depois, o primeiro dano crítico ocorrera, o selo já enfraquecido e testado muitas vezes, dera o primeiro sinal de rompimento, liberando uma absurda onda de chakra que aniquilou tudo em seu caminho; a floresta a volta deles estalou em agonia, a ventania varria tudo para longe, inclusive o corpo enfraquecido e inerte do Sannin, jogando-o a uma distância impossível de calcular.

— Por favor, Naruto... fique comigo... — Hinata suplica agoniada, as ondas de chakra rasgando sua pele, enquanto ela lutava por manter-se agarrada a ele — Kurama, retroceda!

O rugido de Kurama ecoou produzindo mais destruição na área, aquela pequena parte dele que não haviam dominado por completo, reverberou em seu âmago, tomando posse de sua consciência e assumindo o controle de sua existência; como Naruto, Kurama sofria em sua jaula, lutando contra si e contra sua natureza ressabiada e modificada pela maldade humana.

— Kurama... você é nosso amigo... por favor... — Dolorosamente, Hinata fez os selos para a contenção de emergência, fazendo as marcas do seu Byakugou intensificarem-se devido ao esforço.

O grito de agonia de Naruto seguiu o de Kurama, mais sufocado e gorgolejante pelo sangue em sua garganta, quando sua coluna vertebral estendeu-se para fora de seu corpo, rasgando sua carne, sua musculatura, sua pele; as correntes douradas e vermelhas vibraram, em seu braço direito uma espiral negra gravou-se em sua pele, acompanhando suas tatuagens ANBU. Entre lágrimas, Hinata o mantinha estável ao mesmo tempo que tentava retroceder sua transformação, e a dor dele dilacerava seu coração, seus gritos agoniados enquanto seus ossos estalavam abandonando seu corpo contra sua vontade; a Hyuuga teve um momento de alivio, quando o selo de emergência começou a surtir efeito, foi quando ela soube que Kurama voltara a controlar-se e agora detinha a cura acelerada, e retrocedia a transformação, ajudando Hinata.

Hyuuguinha, cure-o agora, seu coração vai explodir! — A voz rosnenta de Kurama avisa em desespero.

A carga da cura acelerada impusera mais sobrecarga em seu coração, e agora que Kurama a detivera, o órgão entrara em colapso, não era um infarto, não era arritmia, o coração simplesmente não havia conduzido corretamente o sangue pelas artérias, e agora que batia a um ritmo inumano, estava prestes a literalmente explodir; desesperada, Hinata colocou suas duas mãos no peito dele, infundindo o chakra verde ali, e quando seu Byakugan constata que não funciona, Hinata sente o pavor gelar seu corpo.

— Perdão... perdão... vai passar... prometo... — Entre soluços, ela insere suas mãos pelas feridas abertas das costelas dele, que ainda estavam saltadas para fora.

Com uma mão atravessando a carne onde o esterno deveria estar e a outra no lugar da décima costela do lado esquerdo, Hinata agarrou o coração de Naruto, ouvindo seus gritos agonizantes acentuarem-se mais, revelando um nível de dor que nenhum ser humano poderia suportar; a cura ali começou e graças ao Byakugou, o efeito foi imediato, o coração dele passou a conduzir o sangue normalmente, ao menos o normalmente naquela situação dolorosa. Aproveitando-se de seu ato desesperado, Hinata curou por dentro os pulmões dele, para que Naruto pudesse voltar a respirar, e assim que o faz, ele expele uma absurda quantidade de sangue já coagulado pela boca; os ossos da coluna e da caixa toráxica começam a retroceder lentamente, indicando que Kurama já estava completamente no controle da transformação, liberando Hinata para focar apenas na cura.

Foi desta maneira, naquela cena horripilante e digna de uma carnificina, que Jiraya encontrara os dois, ele havia seguido Orochimaru, buscando-o em todo canto da vasta floresta, e ao avistar a quilômetros os sinais de destruição ali, correra naquela direção; logo atrás dele, Itachi também aproximava-se, havia deixado sua mãe e Izumi responsáveis pelos pequenos e retornara para ajudar seus pupilos. Outro grupo também aproximou-se deles, era a equipe de resgate, que após derrotar o Quarteto do Som, correra para encontra-los, também com a intenção de ser suporte naquela importantíssima batalha; Kakashi, Sakumo, Sai e Shikamaru chegam primeiro, logo Gai, Sakura e Sasuke. Asuma, Chouji, Shino, Madoka e os irmãos Sabaku’s — principalmente para que Gaara pudesse estabilizar finalmente — haviam retornado a Konoha, acompanhando e protegendo a escolta de Kiba e Akamaru, feridos e ainda inconscientes devido ao ataque inesperado dos gêmeos grotescos, Sakon e Ukon.

Jiraya sente o coração rasgar-se ao meio quando vê seu afilhado naquele estado, Kakashi, Itachi e Gai preocupam-se de morte pelos ex-pupilos, Sakumo, Shikamaru e Sai ficam em choque, ao encontrar seus Tenentes, supondo quão intensa fora a batalha que os colocara naquele estado; Sakura, movida por sua lealdade e amizade recém cultiva, corre em direção aos dois sem hesitar, mesmo com os vórtices cortantes de vento ainda cortando tudo em seu caminho, e sem perguntar, passa a usar Ninjutsu médico como Hinata lhe ensinara, os olhos verdes esbugalhados em pânico. Sasuke, mais atrás do grupo e ainda recuperando-se de um baque emocional, assistia aquela cena de pesadelos com o estômago embrulhados, os gritos agonizantes do Uzumaki fazendo seus tímpanos protestarem, enquanto um medo absoluto pelo garoto raposa impregnava-se em sua alma; seu Sharingan também capta a pequena Hyuuga, com suas mãos recuando de dentro do corpo dele, ensanguentadas e com traços negros pintando sua pele, e a cada corte que os vórtices de vento faziam nela, a cura acontecendo ao instante seguinte, sem dar tempo da ferida sequer manchar-se muito de vermelho.

— Naruto, por favor, desfaça o Fuinjutsu... — Hinata pede-lhe, quando nota um atisbo de consciência em seu corpo cansado.

Erguendo braços espasmódicos, Naruto luta por juntar suas mãos, e grunhindo em aflição, faz selos de mãos lentamente, ao momento seguinte, as correntes que estiveram serpeando ao redor dele, já grossas como vergalhões por serem alimentadas tão vastamente por sua força, retrocedem e vão desintegrando-se aos poucos; assim que o Fuinjutsu sessa, a vitalidade dele deixa de ser tragada, e a cura do Ninjutsu médico passa a ser mais efetiva. Com estalos secos e enjoativos, os ossos da coluna e da caixa toráxica se reacomodam, ocupando seus devidos lugares, arrancando grunhidos cansados dele; a ajuda de Sakura contribui para que Hinata consiga terminar de curá-lo mais rapidamente, e quando seus olhos garantem-lhe que não há uma única célula sem atenção, as marcas de seu Byakugou retrocedem ao losango sob sua franja.

— Vamos levá-los daqui. — Ajudando Sakura a apoiá-los e sustenta-los, Kakashi decide.

Tensos e preocupados, os demais concordam, vendo-os desabar no limite de suas resistências, Sai imediatamente passa a fazer vários pássaros de tinta, e Shikamaru e Sakumo assumem o lugar de Sakura, sustentando o peso de Naruto, enquanto o Hatake sustentava sua delicada companheira; Jiraya e Itachi buscam por sinais de Orochimaru, tencionando sair em seu encalço, mas não encontram nada, nem vestígios de chakra ou sinais de fuga.

— Vocês não vão saber que direção tomar, é um desperdício de energia, ao menos, até que eles estejam em condições de nos contar. — Gai interfere, deduzindo por seus rostos sérios, o que pensavam.

— Também precisamos retornar a Konoha, as notícias do ataque devem ter-se espalhado já, teremos de estar atentos aos oportunistas. — A experiência de anos sob o comando deles, faz com que Sakumo saiba exatamente o que eles iriam decidir naquela situação.

O grupo parte então, montando os pássaros de tinta de Sai, deixando para trás o cenário de devastação, prova incontestável de uma batalha feroz de vida e morte que nunca se apagaria de suas lembranças; em algum ponto daquele voo silencioso e tenso, a dupla de Tenentes recupera a consciência, Naruto, por sua resistência e força física de sua linhagem, Hinata, graças ao Selo das Mil Forças, que agora agia em seu corpo como o próprio coração, com uma função definida.

— Hi... na... — Ainda rouco pelo esforço sobre-humano, Naruto a chama, os olhos azuis fundos em seu rosto.

— Estou aqui. — Rapidamente, Hinata abraça-o, trêmula de medo e cansaço.

Jiraya, quem estivera sustentando-os no pássaro, os abraça também, permitindo que uma onda de alívio o inunde, sentindo o ar entrando mais facilmente em seus pulmões.

— Hinata, sei que está cansada, mas precisamos saber o que aconteceu, e Orochimaru? — Um tanto receoso, Kakashi interrompe-os.

— Nós lutamos e conseguimos pôr em prática nosso plano. — Com uma lentidão compreensível, Hinata explica — Naruto conseguiu usar o Fuinjutsu nele, arrancando-lhe a imortalidade e todas as habilidades roubadas, e creio ter inutilizado suas mãos por um bom tempo.

— Então o era o que vimos? Onde ele está? — Abismado, Jiraya pergunta.

— Naruto ainda não domina esse Fuinjutsu, é muito antigo e os relatos sobre são muito relapsos, o que aconteceu foram os danos por uma execução imprecisa, e por conta do consumo de vitalidade, a regeneração de Kurama entrou em conflito com o descontrole do Fuinjutsu, como dois polos magnéticos opostos. — Hinata conta, entre uma lufada de ar e outra — Quando ativei o protocolo de emergência, o corpo de Orochimaru foi lançado longe pela explosão do selo, não vi em que direção foi, mas está tão enfraquecido, que duvido que volte a ter a força de antes tão cedo, se sobreviver...

— Então, aquelas não eram as Correntes Adamantinas? — Confuso, Kakashi questiona.

Sabia que a Hyuuga estava cansada e queria mais do que tudo repousar, mas havia pontos naquela situação que deveriam entender de imediato, até para que pudessem auxiliá-los, caso necessário; e ainda havia a questão médica, que deveria ser detalhada minuciosamente, para que não houvessem danos colaterais e nem sequelas.

— Não, aquilo era o Fuin Kokuō no In, As devoradoras. — Já mais firme, Hinata revela — É um selamento ancestral do clã Uzumaki, as correntes funcionam basicamente como o Ceifeiro, devorando e se alimentando, em Orochimaru, devoraram sua habilidade para trocar de corpos, seus Jutsus proibidos, seus roubos de anos. O problema é que, ao não ter mais o que devorar no alvo, ou no caso de hoje, ao não serem controladas ferrenhamente, elas devoram a vitalidade do usuário, até o fim. É difícil anulá-las, os primeiros usuários padeceram, segundo os relatos, porque não se desfazem após cumprirem seu objetivo, o usuário deve desfazê-las, ou será consumido.

— Isso será catalogado como mais um Fuinjutsu proibido de Naruto, não? — Imediatamente, Shikamaru pede, deduzindo o caminho a ser seguido.

— Sim, apesar de que... isso pode mudar..., se eu dominar completamente... — Agora um pouco mais recuperado, Naruto é quem responde.

— Você está caminhando para superar o Nidaime Hokage, sabia? — Admirado, Kakashi pergunta num tom descontraído — Embora, a área seja diferente; parece que teremos um Mestre em Fuinjutsus muito em breve.

— Se isso mantém Konoha segura. — Inesperadamente sério, Naruto replica.

Os pássaros de tinta de Sai alcançaram os limites da Vila rapidamente, e assim que ultrapassaram as divisas dos selamentos de segurança, as marcas do ataque fizeram-se visíveis em todos as direções, as chamas da batalha, os resquícios de resistência ainda presentes por todos os lados; corpos de Nukenins espalhavam-se pelas ruas, incêndios secundários persistiam em alguns pontos, alguns bunkers já haviam sido abertos, após a divisão ter dado o sinal verde, informando que os inimigos foram derrotados. Entre as comoções de reencontros, a tensão da busca de entes queridos e o alívio da constatação de bem-estar, Konohagakure voltava a pulsar, viva, inteira, vencedora; existiam baixas, é claro que existiam, mas diante da magnitude do ataque que sofreriam, a bravura e a lealdade de seus sacrifícios correspondiam a cinco por cento do todo.

Quando os pássaros pousaram a entrada da sede, Ino os aguardava, ansiosa e temerosa, ainda assimilando tudo que ocorrera, seus olhos verdes varreram seus senseis, seus companheiros, seus amigos, e detiveram-se em Sai, com um dos braços, torto a um lado, resultado da batalha contra o Quarteto do Som; com mãos trêmulas e incertas, a Yamanaka aproximou-se dele, os olhos arregalados, lágrimas descontroladas descendo por sua face, e um coração angustiado comprimindo-se contra o peito. A garota, sequer nota Shikamaru, seu companheiro de time, com um corte profundo no abdômen, e parecia agonizar entre a iniciativa de curá-lo e o medo de causar-lhe dor com seu toque; vendo o estado terrorífico dela, Sai sorri daquele jeito que oculta tudo que sentia, e assumindo sua máscara protetiva, aquela que sempre utilizava para esconder seus sentimentos, tenta acalmá-la.

— Está tudo bem, Ino, meus braços só decidiram trocar de lado. — Com um sarcasmo mórbido, Sai tenta.

— Você é idiota? Quem te disse que podia voltar assim? — Gritando-lhe como nunca na vida, Ino retruca enfurecida — Se você é o temido Tora, então volte inteiro, caramba! Eu te proíbo, Sai, te proíbo! Volte inteiro!

O choro sentido dela soa ininterrupto, enquanto a jovem Yamanaka passa a curar Sai ali mesmo, em frente à entrada da sede da ANBU, ela que havia excedido e ultrapassado o marco de todos os Yamanaka’s anteriores, incluindo seu pai, sentia seu coração contrair e apequenar, ao descobrir o segredo oculto em seu dilacerante sofrimento; antes que alguém mais pudesse dizer algo, as portas de pedra da sede se abrem, e inesperadamente, é Temari quem passa pelos batentes, os olhos verdes, tão iguais e tão diferentes aos do seu irmão mais novo varrem o grupo, e com uma ferocidade ameaçadora, focam-se em Shikamaru entre eles; o Nara, durante a luta contra o Quarteto do Som, havia terminado gravemente ferido ao protegê-la, quando um dos demônios Doki iria atingi-la, com uma coragem estúpida e temerária, Shikamaru interpusera-se, recebendo o ataque que garantira-lhes a vitória, já que esse movimento permitira que a flauta de Tayuya fosse finalmente partida e as defesas dos Nukenins, desmanteladas.

— Idiota estúpido! — Sem dizer mais nada, Temari o puxa pela mão, arrastando-o para dentro da sede com uma fúria que não deveria ser usada com um convalescente.

— O que há com elas? — Impactada, Sakura não compreende suas reações.

— Parece que o cupido andou trabalhando muito em Konoha. — Ao lado dela, auxiliando Sakumo a apoiar Naruto, Kakashi fala baixo.

— Que forma mais estranha de demonstrar. — Sakura faz uma careta assim que as palavras abandonam seus lábios.

Não pelas garotas, por ela que, algum tempo atrás, tinha uma forma ainda mais absurda e muito questionável de demonstrar seus sentimentos, e como se soubesse o que a pequena Haruno acabara de pensar, ao ver o jeito como crispava os lábios, o Hatake solta uma diminuta e contida gargalhada; Sakura sente seu rosto arder ao ouvi-lo, e murmurando um: “não diga nada, sensei”, entra na sede, ainda apoiando Hinata, para que sua mestra tivesse suporte se precisasse. Os demais logo a seguem, e conforme vão passando pelos corredores escuros, as conversas, os relatórios vão inundando seus ouvidos, assim como encontram vários membros do corpo Shinobi indo e vindo de todas as direções, recebendo novas ordens, entregando pareceres de suas missões imediatas, após a batalha; como a nova ordem em Konoha, concentraria sua força bélica na divisão, a inteligência rapidamente organizou e instruiu os grupos de Jounins, Chunins e Genins sobre como e onde reportar-se.

— Tenentes! — Mahi, que vinha comandando um grupo para a retirada de destroços, corre até eles ao vê-los.

— Pode continuar, Mahi, está tudo bem agora. — Querendo evitar encontros desastrosos, Hinata dispensa a cadete.

Havia muito por fazer, muito por organizar e perguntar, e havia sua família que certamente os esperava no centro médico, e foi para lá que o grupo dirigiu-se, com os dois Tenentes guiando o caminho e desviando a atenção, sendo apoiados e amparados pelos dois Haruno’s e o Hatake, enquanto Gai e Jiraya usavam sua presença notável, para ocultar um Uchiha que não deveria revelar-se ali, não ainda; caminhando mais atrás, seguindo-os em um silêncio confuso, Sasuke via como o grupo mascarava a presença de seu irmão diante dos narizes de todos, e essa atitude reforça aquele sentimento de ter vivido uma mentira que vinha apoderando-se dele. Se fosse apenas o Uzumaki e a Hyuuga, Sasuke até pensaria que os dois estavam acobertando Itachi por simples carinho, um respeito arraigado e uma devoção cega ao seu ex-sensei; contudo, Kakashi e Gai não agiriam assim, mesmo que Itachi tenha sido companheiro dos dois como Shinobi de Konoha, a lealdade e dedicação que tinham pela Vila, não permitiria que aceitassem aquela situação tão tranquilamente.

Os pensamentos do Uchiha menor são interrompidos, ao passarem por um corredor mais escuro e estreito, como uma passagem secreta, que logo abriu-se em um grande salão, e então, eles passam por uma porta dupla, entrando no que parecia ser uma enfermaria; lá dentro, muitas figuras mantinham-se em silêncio, aguardando expectantes e ansiosos, e uma delas cantarolava baixinho, para manter dois pequenos tranquilos. Fora assim que Sasuke reencontrara sua mãe, confirmando que aquilo não era um sonho, aguardando-os regressar junto aos demais que voltaram primeiro; entre os presentes, Kankuro e Gaara ajudavam a entreter as crianças, desajeitados e perdidos, mas funcionava. Chouji, Shino e Madoka discutiam algo aos sussurros em um canto, mais atrás, em uma outra sala conectada àquela, era possível ver através de uma grande janela de vidro, Asuma ao lado de um leito, onde Kurenai estava ligada a muitos aparelhos, inconsciente. Ocupando outros leitos daquela ala especial, enquanto médicos corriam e trabalhavam sem parar, Ibiki, Kiba, Akamaru e Hiruzen eram atendidos em caráter de urgência; observando-os seriamente pelo vidro, Anko sequer movia-se, seus olhos castanhos brilhando com uma frieza agourenta. No mesmo instante em que os recém chegados atraem a atenção dos que aguardavam, os outros quatro que separaram-se na entrada, passam pelas portas; Temari estava tão furiosa, que perdera-se no caminho, e até que Shikamaru conseguisse fazê-la ouvi-lo e acompanhá-lo, passaram-se bons minutos, já Ino e Sai dirigiram-se diretamente ali, após a Yamanaka tê-lo tratado.

— Naruto-nii, Hinata-nee! — Choroso, Konohamaru corre até eles, indeciso sobre quem abraçar primeiro, aterrado pelo estado dos dois.

Adiantando-se a ele, Hanabi agarra-se a sua irmã, ainda estava em pânico, seu pequeno corpo tremia-se e a garota mal conseguia sustentar-se direito, os olhos esbugalhados que giravam para todos os lados ao menor sinal de um ruído mais forte, finalmente fecham-se; com uma mão ainda debilitada e sem forças, Naruto acaricia os cabelos do pequeno Sarutobi, sorrindo amavelmente e isso basta, mesmo que seu estado tornasse seu sorriso horripilante, Konohamaru sentiu-se seguro outra vez. Com a ajuda dos outros, os dois sentam-se com os pequenos agarrados a eles, e ao instante seguinte, Izumi e Mikoto passam a limpá-los o melhor que podem, avaliando-os eficientemente, enquanto os demais tomam lugares, acomodam-se e aguardam; sempre trabalhando mesmo quando deveriam deter-se, sempre pondo suas obrigações acima de tudo, e por isso, todos sabiam que naquele instante, iriam alinhar-se e discutir o ocorrido, além de definir seus seguintes passos.

— O vovô? — É o primeiro que Hinata pergunta.

— Ainda não deram um parecer do Hokage, nem de Ibiki e Kiba. — Anko responde, permanecendo em seu lugar de vigilância — Kurenai está fora de risco, mas sua reabilitação será longa e problemática.

— Qual é o quadro? — Com o coração apertado, Naruto pede.

— A coluna foi comprometida e... — Voltando seus olhos a eles, decidindo como explicar, Anko busca por palavras — Talvez, ela não volte a andar; Kurenai está grávida, eles não sabiam.

Um silêncio pesado e sufocante envolve a todos, mordendo os lábios furiosamente, Naruto e Hinata forçam suas emoções tumultuosas a estabilizarem-se, lutando por manterem-se focados, ainda que seus corações estivessem partindo-se; antes que passem ao próximo tópico, Neji entra na sala, acompanhado de Lee e Tenten, os olhos fundos e opacos no rosto detendo-se na prima e logo em Naruto; o Hyuuga soube ao vê-los que tudo havia terminado, de algum modo, soube que aquela dor não seria em vão. Em silêncio, Naji sentou-se ao lado de Hinata, que conhecendo-o, segurou uma das mãos dele sem dizer-lhe nada, num amparo mudo; eles sentiriam aquele luto profundamente por muito tempo, mas mesmo na dor, sua família se reergueria e iria em frente.

— Os grupos estão divididos em cinco focos principais, atendimento médico, vigilância e proteção, desobstrução e reparos, inventários e financeiro, e coleta de informações. — Sabendo que eles logo questionariam, Sakumo adianta-se — Esse último está um tanto desorganizado, sem Ibiki...

— Assumirei o comando dos interrogatórios. — Com um tom gélido, Hinata informa.

— Precisamos focar também na diplomacia. — Naruto ressalta, seu olhar dirigindo-se aos irmãos Sabaku’s — Agora que Rasa não está, precisamos de alguém de confiança liderando Suna.

— O conselho vai se reunir e escolher o seguinte Kazekage entre os mais indicados, quando as notícias se espalharem, provavelmente vão nomear alguém do meio deles, alguém fácil de controlar. — Kankuro explica, já antecipando os problemas vindouros.

— Você não entendeu, Kankuro, estou dizendo que você será o Godaime Kazekage. — Naruto fala claro, fazendo os três irmãos sobressaltarem-se — Não se preocupem com o conselho, as coisas irão como planejamos; você tem a idade e a experiência adequada para sustentar a nomeação, e é capacitado, e o ponto principal, precisamos de alguém que manterá Gaara seguro, e com Temari e ele como seus conselheiros, ninguém terá suficiente base para ir contra.

— Como assim o conselho não vai interferir? É o primeiro que farão, Baki não está mais, mas os outros são tão terríveis quanto ele! — Não vendo como aquilo funcionaria, Temari replica.

— O conselho fará o que nós decidirmos, agora que podemos nos mover livremente, sem Rasa e Baki, tudo será questão de controle. — Mikoto é quem fala, pela primeira vez desde que todos reuniram-se — Izumi e eu estivemos infiltradas em Suna nos últimos seis anos, sabemos tudo sobre cada um deles, sabemos o que usar em cada um deles.

— Vocês estiveram...? — De olhos arregalados, Temari indaga, perplexa.

— Izumi e Mikoto-san eram os espiões que plantamos em Suna, com identidades falsas e atuando como membros do corpo Shinobi, agora vão retornar como parte do conselho, e ajudarão a fazer a proteção de Gaara, assim como serão nosso elo seguro de comunicação. — Hinata explica, deixando alguns dos presentes em choque — Foi através delas que soubemos tudo sobre vocês, tudo sobre os planos que Rasa tinha.

— Quantos espiões Konoha pode dispor? — Indignado, Kankuro pede.

— Ainda há alguns. — Fitando Itachi, Sakumo insinua — Kirigakure será um problema, e Otogakure fará retaliações.

— É por isso que você tem carta branca para conversar com seu hospede. — Com uma voz tranquila, que não condizia com o que estava subintendido em suas palavras, Naruto lhe ordena.

— O que você vai fazer? — Perguntando-lhe diretamente, Jiraya fala a Itachi.

— Vou esperar uns dias, criar algumas evidências e retornar. — Itachi informa, com seu pragmatismo inabalável — A “expedição” termina em uma semana, se volto cedo demais, perguntas surgem.

— Precisamos de alguns rastreadores, seria bom verificar a área do covil. — Kakashi pondera, aquele ponto precisava de atenção.

— Ainda não encontramos. — Sai responde, e quando os mais velhos o olham interrogativamente, explica — Antes de virmos, deixei pequenos informantes buscando, ainda não há sinal dele.

— Desde quando seu alcance expandiu tanto? — Impressionada com a distância que o rapaz mantinha o Jutsu, Anko questiona.

— Desde que entrei, eu tive bons carrascos. — Com seu típico humor inadequado, Sai responde.

Ouvindo todas aquelas informações, inteirando-se pela primeira vez de coisas que sequer suporia, Sasuke dá-se conta da magnitude de tudo aquilo, das camadas complexas e intermináveis que estiveram ocultas pela superfície tranquilamente pacífica de Konoha; o grupo permanece ali, reunido e aguardando, mesmo com o cansaço consumindo-os, mesmo com a angústia rondando-os, naquelas horas arrastadas.

Em algum momento da espera, enquanto a equipe médica dava seus primeiros pareceres dos pacientes, alguns deles dispersaram-se indo cumprir algum mandato, verificar se os planos traçados estavam indo como o esperado, outros apenas foram encontrar suas famílias, certificar-se de que estavam bem, após ouvi-los; então, quando o relógio marcava quatro da tarde, naquela sala de espera, depois de convencer Neji de voltar para casa e descansar, apenas permaneceram, Jiraya, Naruto e Hinata com os dois pequenos, que não saiam de perto deles nem um segundo, e os quatro Uchiha’s silenciosos.

— Você... é um infiltrado...? — Finalmente, sufocado pela quietude no local e as dúvidas borbulhantes em sua mente, Sasuke questiona Itachi.

— Sim. — A resposta soou monótona.

— Mas e quanto ao massacre? Por que você fez aquilo? — Sasuke sente a raiva espalhar-se como sangue por seu corpo, apenas por recordar aquilo — O pai...

— Fui eu quem matei seu pai, Sasuke. — Inesperadamente, é Mikoto quem responde, deixando o mais jovem num estado catatônico — Seu pai, que estava se aliando com os inimigos de Konoha, vendendo inocentes, planejando massacrar dezenas, incluindo você e seu irmão; escolher o que fazer foi fácil.

— Naquela época, ele e Danzou estavam conspirando contra a Vila, eles influenciaram muitos, atraindo-os para sua rebelião, estavam trabalhando com Nukenins, com Orochimaru, e ele entregaria você em troca da força e poder para dar um golpe. — Revelando a verdade, Itachi conta uma versão reduzida dos fatos — Izumi, eu e nossa mãe agimos sob as ordens do Sandaime, mas fizemos parecer que fui eu, que era um massacre, para que pudéssemos nos infiltrar em segurança, atualmente, Uchiha Izumi e Uchiha Mikoto constam como mortas nos registros da Vila, e eu sou um Nukenin procurado, desta forma, somos livres para fazer o que precisa ser feito.

Impactado, Sasuke gira seus olhos de sua mãe a Itachi uma e outra vez, processando e decifrando o que acabara de ouvir, sua respiração entrecortada, uma dor lancinante rasgando-lhe o peito; o pai que que idolatrara, que era seu ideal de força para seguir, o exemplo de tudo que queria ser, o vendeu por poder. Nesse instante, Sakura retorna à sala com Ino, trazendo vários obentô’s em seus braços; as duas garotas sabiam que ninguém ali teria ânimo ou fome, mas era importante que ao menos ingerissem algo, principalmente os menores. É quando Sasuke, já abalado emocionalmente, cai de joelhos segurando a cabeça entre as mãos, sua mente perturbada perdendo-se em fragmentos de uma memória que não poderia ser sua; os eventos que inundam sua mente não seguem uma ordem ou coerência, e são tão irreais e assustadores, que Sasuke não acredita ser possível.

— Sakura... — No momento seguinte, o Uchiha está em pé, segurando a garota pelos ombros, fitando-a desesperado — O que eu fiz...?

Imediatamente, Sakura retesa-se inteira, seu rosto ficando lívido, os batimentos acelerados e a respiração irregular, todos sinais de um pânico profundo; Sakumo e Kakashi, que retornavam com mais informações, reagiram ao mesmo tempo que Naruto, e juntos, os três afastaram Sasuke de Sakura. O momento não durou mais do que dez segundos, mas fora suficiente para todos os envolvidos compreenderem que o Genjutsu rompeu-se; Itachi, continha Sasuke, que perguntava aos berros, o que era aquilo, completamente afetado pelas recordações desfocadas.

— Faça-o dormir. — Preocupada, Hinata pede.

Assim que Sasuke está inconsciente, a Hyuuga fita Ino sugestivamente, e a Yamanaka rapidamente entende e passa a examinar a mente do Uchiha, com precisão e cuidado, verificando as fronteiras do selo e o estado de suas memórias; após longos minutos, Ino finalmente conclui sua varredura.

— O selo está intacto, o Genjutsu ainda está alterando boa parte das memórias daquele dia, ele recuperou apenas alguns fragmentos, só sobre Sakura. — Ino conta, fitando a Haruno com preocupação.

— Reforçaremos os limites então, mas por enquanto, vamos deixa-lo assim, seria perigoso mexer em sua mente agora. — Considerando o que seria o melhor no momento, Hinata decide e então fita Sakura, ainda congelada onde detivera-se — Você está bem?

— Sim... — Ela afirma num fiapo de voz.

Obviamente, ninguém naquela sala acreditara em sua resposta. Logo de providenciarem um alojamento seguro para que Itachi e Mikoto pudessem vigiar e cuidar Sasuke, e de ouvirem as informações que Kakashi e Sakumo foram compartilhar, o Uzumaki e a Hyuuga voltaram a estar sós, velando pelo sono profundo e cansado de Konohamaru e Hanabi, que não despertaram nem com o tumultuo anterior, tão esgotados física e emocionalmente estavam; Jiraya os fitava ininterruptamente, vendo-os ancorar-se um no outro, enquanto buscavam manter-se firmes, enquanto tentavam ser amparo, ser líderes infalíveis, ignorando seus próprios corações machucados.

— Por que não vão trocar-se, tomar um banho? Eu fico com os piolhos. — Ele sugere, tentando soar animador — Vocês sabem que quanto maior a espera, melhores são as notícias, então podem ir tranquilos; Hiruzen-sensei não gostaria de vê-los assim.

Naruto não queria sair dali, queria estar por perto e aguardar pelos seguintes informes de Hiruzen, mas também recordava como seu estado assustara Konohamaru antes, e nesse momento, quando Asuma estava inteiramente focado em Kurenai que também era sua preocupação, a única família que restara para amparar e ser a fortaleza do pequeno, eram ele e Hinata; em seus ombros, o peso de ser sempre forte, começava a ganhar espaço. Ao seu lado, Hinata toma-lhe pela mão, o conhecia a vida toda, para saber o que Naruto decidiria; com passos pesados e cansados, eles dirigem-se para fora da sala de espera, passando por corredores e equipes apressadas em todo caminho, ignorando os ruídos intermináveis. Quando o afilhado deixa o local, Jiraya solta um suspiro cansado, seu olhar tornando-se vago, enquanto as lembranças inundavam sua mente, dividindo espaço com a preocupação e a angústia; Naruto e Hinata eram a imagem viva de Minato e Kushina diante dele, carregando fardos que não deveriam, assumindo responsabilidades que não deveriam ser somente deles, naquela manhã, ao encontrá-los naquela cratera, Jiraya vira com pavor, dois jovens que deveriam rir e se divertir com leveza, sendo adultos.

O vapor denso preenchia o ambiente, criando uma névoa esbranquiçada que transformava o banheiro privativo da ANBU em um refúgio surreal e abafado, o sol lá fora já começava a declinar no horizonte, lançando sombras longas sobre a destruição que a manhã testemunhara; Naruto e Hinata ocupavam extremidades opostas do recinto, mantendo uma distância respeitosa que o pudor de seus treze anos exigia, mesmo que a exaustão extrema tivesse drenado quase toda a energia para formalidades. Entre eles, o silêncio era preenchido apenas pelo som da água quente e o peso das lembranças de uma batalha que desafiara a própria física.

Naruto observava, através da cortina de vapor, o contorno vago da figura de Hinata, o desejo de atravessar aquele espaço e abraçá-la era uma força quase magnética, não por malícia, mas por uma necessidade visceral de confirmar que ela não era um espectro ou uma ilusão criada por seu desespero; sua mente ainda repetia, em um loop torturante, o som do metal de Orochimaru perfurando a carne dela e o grito que morrera em sua própria garganta.

— Você escolheu o impacto. — Naruto sussurrou, a voz ainda rouca, falhando pelo esforço de ter expelido tanto sangue coagulado — Você sorriu enquanto o metal te perfurava.

— Era o único modo de garantir que ele ficasse ao nosso alcance. — Hinata respondeu, sua voz soando abafada pela umidade e pelo cansaço — Eu não estava apenas aceitando o dano, Naruto; eu estava comprando a nossa vitória com o tempo que o meu corpo podia regenerar através do Byakugou.

O Uzumaki sentiu um tremor percorrer seus ombros, não de frio, mas da compreensão do risco que correram; ele pensou em Hiruzen, o "vovô" que representava o único laço de família que conhecera por tanto tempo, agora deitado em um leito hospitalar.

— Estou com medo, Hina. — Sua confissão vulnerável quebrando a máscara do Tenente impassível — O vovô...

Naruto sequer consegue pôr em palavras, temendo que ao pronunciá-las, tornaria tudo real, e embora quisesse dizer a si mesmo que tudo ficaria bem, sentia-se cansado demais, cansado de manter-se em pé, cansado de lutar, cansado de desfazer-se inteiro; valia a pena, Naruto sabia que sim, quantas vidas foram poupadas, quantas famílias agora voltavam as suas casas em segurança. Mas e quanto a eles? Quanto mais teriam de dar? Nunca chegaria o momento em que pudessem ser apenas “normais”? Na outra ponta, com a água quente de um dos chuveiros caindo sobre seu rosto, Hinata permitira que as lágrimas que contivera diante de todos, caíssem livremente; ela já sabia, seu Byakugan não a enganara, desde que o encontraram naquele bunker, Hinata soube, ela apenas torcia, orava para terem mais tempo, que aquele coração cansado fosse forte por mais algum tempo.

— Eu quero tanto... tanto, voltar lá e encontrar uma boa mudança... — Seus lábios trêmulos quase não foram capazes de articular as palavras.

Eles permaneceram ali, separados pelo espaço físico e pelo vapor, mas unidos por uma agonia compartilhada, sabiam que a imortalidade de Orochimaru fora arrancada e suas mãos inutilizadas, mas o preço pago fora o refúgio de sua inocente infância, que salvara-os quando mais ninguém o fez; no fim daquela tarde sangrenta, restava-lhes apenas a esperança de que os sacrifícios da manhã não tivessem sido o prelúdio de um luto ainda maior.

Longe dali, sobre as imponentes muralhas de Konoha, o crepúsculo tingia o céu de um laranja melancólico, despedindo-se daquele dia de vitórias amargas. Kakashi e Sakumo haviam recebido ordens diretas de permanecerem em vigília, acompanhados por Anko, cujos olhos castanhos brilhavam com uma frieza agourenta enquanto monitorava o horizonte. Sakura também fora enviada ao posto; a decisão visava tirá-la do ambiente saturado da ANBU e da presença perturbadora de seu agressor. Durante as batalhas contra os Nukenins, fora fácil para a Haruno esquecer-se de Sasuke, agindo em equipe e focando na sobrevivência; contudo, quando o Uchiha a fitara na enfermaria com aquele mesmo olhar da Floresta da Morte, Sakura sentiu o pavor gelar seu corpo, vendo-se novamente em extrema vulnerabilidade. Compreendia racionalmente que, naquela ocasião, ele não estava em seu juízo perfeito devido à marca da maldição, mas o peso da dor e do medo instintivo permaneciam. Ao seu lado, Kakashi não desviava o foco, observando-a com uma insistência silenciosa, enquanto, metros à frente, Sakumo e Anko trocavam sussurros inaudíveis; o Haruno mais velho parecia tenso, os ombros rígidos revelando que ele também carregava seus próprios demônios. Sakura, incomodada por ser o alvo do escrutínio do sensei, forçou um sorriso pálido e quebrou o silêncio.

— Eu estou bem, Kakashi-sensei. — Afirmou, embora sua voz tivesse uma leve vibração — Aquilo lá embaixo... foi apenas um instinto de medo, uma reação do corpo. Mas já recuperei o controle. Sou dona das minhas ações outra vez.

Kakashi permaneceu em silêncio por alguns segundos, o único olho visível analisando cada traço do rosto da sua aluna; sabia que o trauma não era algo que se "controlava" tão depressa, mas respeitou a barreira que ela erguera.

— Então está bem. — O Hatake replicou finalmente, com um meio sorriso por baixo da máscara, desviando o olhar para o horizonte.

Sakura suspirou, querendo desesperadamente afastar o peso do assunto "Sasuke". Ela indicou com um movimento sutil de cabeça a interação entre o irmão e a examinadora especial.

— Sakumo-nii e Anko-san... eles estão juntos? — Sakura pergunta, com uma curiosidade genuína.

Kakashi soltou uma risada curta e anasalada.

— Você também percebeu, não foi? — Ele a fitou de soslaio, o tom tornando-se mais leve — Por que a pergunta? Está com ciúmes do seu irmão, Sakura?

— Não, só fiquei impressionada. — A Haruno confessa, permitindo-se um pequeno riso sarcástico — O nii-chan tem gostos... selvagens. E... bem maduros.

O silêncio retornou por um breve momento, mas a mente de Sakura continuava a divagar sobre as conexões que mantinham as pessoas unidas em tempos de guerra; talvez fosse sua forma de ignorar a densa atmosfera de medo que apoderara-se de todos, focar em detalhes normais e simples da vida.

— Sensei... você já amou alguém? — A pergunta saiu direta, sem rodeios — Digo, alguém que tenha sido importante, fora as suas... famosas relações passageiras?

O Hatake pigarreou, visivelmente desconfortável, ajeitando o protetor de testa, buscando palavras que raramente saíam de sua boca.

— Bem... eu cheguei a gostar de alguém, na minha adolescência. — Kakashi confessou, recordações que muito não visitava, inundando seus pensamentos — Mas a garota era apaixonada pelo meu amigo. Então, nunca passou disso. Depois daquela época... eu nunca mais senti nada parecido.

— Ah, então é por isso que agora o meu sensei vive como um conquistador. — Sakura brincou, tentando dissipar a melancolia que se instalara.

— Você anda muito insolente, sabe disso? — Kakashi retrucou, mas seus olhos curvaram-se no formato de dois arcos, o sinal claro de que ele estava a sorrir e a divertir-se com a audácia da garota; logo, porém, sua expressão tornou-se séria novamente — Mas por que tantas perguntas sobre sentimentos, Sakura? Encontrou alguém que despertou esse tipo de interesse?

— Não. — Sakura respondeu de imediato, e o brilho nos seus olhos escureceu — É que, depois de passar tanto tempo a observar aqueles dois... eu vi o que é o amor verdadeiro. A curiosidade acendeu, eu admito. Mas sei que não há chance de nascer frutos em terra infértil.

— Por que fala de ti mesma dessa forma, Sakura? — Kakashi franziu o cenho, virando o corpo inteiramente para ela.

— Porque eu não sinto que possa ser amada. — A garota fala, a voz agora um fiapo, carregada de uma tristeza originada pela sua conturbada e inadequada relação familiar, e pela desilusão sofrida — E nem sinto que sei amar da forma correta. Às vezes penso que ter o meu irmão por perto, mesmo que eu tenha de o dividir com outra pessoa, já seria o suficiente para mim. Eu não espero mais do que isso.

— Não seja boba, Sakura, você ainda é jovem, não precisa se preocupar com isso agora. — Kakashi retruca em um tom leve e brincalhão; sabia de onde vinha aquilo — E um dia, alguém vai precisar do teu coração exatamente da forma que ele é. E nesse momento, não vai existir maneira certa ou errada de sentir. Vai ser apenas o encontro de duas pessoas destinadas a ser. Não viu como foi com aqueles dois? Você já deve conhecer toda a história de Hinata, e veja como as coisas são, ela também encontrou alguém que queria seu coração.

Absorvendo e assimilando as palavras de seu sensei, Sakura permanece quieta por uns bons minutos, talvez tenha ficado sim com ciúmes de seu irmão, pelo receio de que agora, Sakumo não estaria mais cem por cento disponível para ouvi-la e ampará-la, e esse pensamento, levou-a a descoberta de que agora, essas mudanças tampouco seriam ruins; ela já não era a mesma Sakura que invejava as relações alheias, sozinha e desesperada por um pouco de atenção. Tornara-se uma nova Sakura, com amigos, com pessoas boas que estavam ensinando-lhe tanto, e tinha também seu sensei, que apesar de parecer desinteressado, escutava suas divagações com seriedade e sempre respondia com sinceridade; ao constatar isso, Sakura sentiu que poderia ser mais aberta sobre outras coisas igualmente, Kakashi ouviria.

— Sensei, e... se eu cometi algum erro? Digo, quando tratei do Kiba..., não tenho a mesma experiência da Hina, e se esqueci de alguma coisa? Pode ser por isso que ele não melhora? — A voz dela soa esganiçada, sufocada em angústia e temor.

Kakashi, que vira a evolução dela de perto, vira o quanto Sakura adquirira um brilho próprio sob o comando ferrenho de Hinata, sabia que não havia possibilidade disso, embora compreendesse a insegurança dela; mas aquela garota magricela, que podia ser arremessada com um braço só, havia atuado durante todo o confronto com coragem e determinação, e não hesitara nem nos instantes de crise, demonstrando sua valia.

— Claro que não foi isso, Sakura, se fosse o caso, as pílulas regenerativas de Itachi teriam feito efeito. — Ressaltando pontos importantes, para fazê-la ver as coisas racionalmente, Kakashi afirma — A condição de Kiba, provavelmente, está sendo causada por algo que não sabemos, dos Jutsus daqueles gêmeos estranhos.

A análise lógica de Kakashi, devolve um pouco de paz a Sakura, que sorri fraquinho assentindo, voltando a observar o horizonte, onde a noite e as primeiras estrelas tomavam seus lugares nos céus; o cheiro acre e a fumaça ainda pairavam no ar de Konoha, mas o barulho da Vila reerguendo-se sem descanso as costas deles, era um claro sinal de sua força e determinação.

De volta na sede, o vapor do banho ainda parecia impregnado na pele de Naruto e Hinata quando as portas duplas da ala hospitalar da ANBU se abriram; fora um momento em que puderam reestruturar-se, encontrar forças para manter-se firmes. O corredor, antes imerso em um silêncio cirúrgico, agora era o palco de uma sinfonia de dor; o primeiro som que os atingiu não foi o dos aparelhos médicos, mas o lamento agudo e visceral de Hanna e Tsume Inuzuka.

Ambas estavam desoladas, amparando-se mutuamente enquanto as lágrimas lavavam o rosto marcado pela batalha. O anúncio dos médicos fora um golpe de misericórdia: Kiba não resistira. Os traumas causados pelos Jutsus dos gêmeos iam além do que sabiam, não encontraram causa, e nada do que fizeram pode reverter o quadro; os danos haviam sido devastadores demais, mesmo para a vitalidade de um Inuzuka. Naruto parou no meio do corredor, o ar subitamente pesado, sentindo um frio que nenhuma água quente poderia dissipar.

Dentro da ala de emergência, o caos era absoluto, enquanto uma equipe tentava estabilizar o Morino, cujos aparelhos disparavam em um ritmo frenético e irregular, outra concentrava-se em Hiruzen; a percepção da força do Quarteto do Som agora tornava-se uma evidência sangrenta, eles não haviam apenas lutado, eles haviam mutilado a estrutura de comando de Konoha. Horas se passaram em uma agonia arrastada. Quase de madrugada, o silêncio lúgubre retornou por um motivo terrível: a equipe médica recuara diante dos leitos de Kiba e Ibiki; Konoha perdera seu rastreador mais promissor e seu maior mestre em interrogatórios. Restava apenas o Sandaime.

Houve uma súbita estabilização nos sinais vitais de Hiruzen, o velho Hokage recuperou a consciência, mas o brilho nos olhos dos médicos não era de esperança, e sim de uma triste resignação; era a "melhora da morte", o último sopro de vida que o corpo concede para as despedidas. Entendendo o sinal, a equipe permitiu que o círculo mais íntimo entrasse. Naruto e Hinata entraram primeiro, seguidos por Konohamaru e Hanabi, que se agarravam às vestes dos Tenentes como se o mundo estivesse desmoronando, Jiraya vinha logo atrás, o semblante carregado de uma dor que nenhum de seus livros poderia descrever; Asuma chegou por último, com os olhos vermelhos após deixar Kurenai sob sedação e a vigilância de uma enfermeira. Naruto aproximou-se do leito e segurou a mão cálida e enrugada de Hiruzen; o aperto do velho Hokage era fraco, mas carregava o mesmo calor de quando visitava-o na cabana.

— Vovô... — A voz de Naruto quebrou, a dor dilacerante subindo pela garganta.

Hinata, do outro lado, acariciou o rosto do homem que, anos atrás, a resgatara da frieza do clã Hyuuga para lhe dar um propósito, lhe dar um lar e uma família; suas lágrimas caíam silenciosas sobre os lençóis brancos.

— Pai, aguente firme... — Asuma suplicou, a voz saindo quebrada — Fique bem. O senhor precisa conhecer mais um neto. A Kurenai... ela vai precisar do senhor.

— Eu o conhecerei, Asuma..., mas em outro plano. Não peça para um velho soldado ignorar o chamado do descanso. — Hiruzen sorriu, um movimento lento e pacífico.

— Naruto... quando eu encontrar Minato e Kushina, direi a eles o quanto fui feliz ao seu lado. Direi o quanto me orgulho do neto precioso que eles me deram. — Os olhos baços do Hokage focaram em Naruto.

Ele tossiu levemente, mas seu olhar vagou para os pequenos, Konohamaru e Hanabi, que abraçavam as pernas de Naruto e Hinata; com um esforço final, ele acariciou os cabelos de Hanabi e buscou a mão de seu neto biológico.

— Não fiquem tristes... não se prendam a essa dor. Vivam para o futuro. Jiraya... — Hiruzen olhou para o aluno, um brilho de travessura ainda restando na agonia — Você foi o aluno mais travesso que já tive. Cuide deles.

Jiraya soltou um riso triste, limpando as lágrimas com as costas da mão; Hiruzen então olhou para o teto, como se visse a luz de uma nova manhã que ele não alcançaria.

— Konohamaru... agora você está sob os cuidados de Naruto. Sejam a vontade do fogo um do outro. — Eram suas últimas palavras arrastadas.

Com um último suspiro, suave como o vento nas folhas de outono, a mão de Hiruzen relaxou; o Sandaime Hokage partira, deixando para trás uma vila ferida, mas protegida por aqueles que ele mesmo moldara. O quarto, que minutos antes era preenchido pelo som rítmico e artificial dos aparelhos, mergulhou em um silêncio sepulcral; a mão que Naruto segurava perdeu o restante do calor que a vida ainda sustentava, tornando-se um peso inerte e pálido entre seus dedos trêmulos.

O grito não veio de imediato, primeiro, foi um soluço seco, um engasgo de ar que parecia rasgar os pulmões de Naruto, então, o desalento transbordou, o Uzumaki desabou sobre o leito, enterrando o rosto no peito do velho Hokage, as mãos agarrando a vestimenta hospitalar com uma força que buscava, desesperadamente, trazer o sopro de volta para aquele corpo; ele chorava como a criança solitária que Hiruzen encontrara anos atrás, um pranto cru, desarmado de qualquer patente ou título. Konohamaru, ao sentir que o abraço do avô não retornaria mais, soltou um urro de dor infantil, jogando-se ao lado de Naruto, o pequeno apertava o corpo sem vida do Sandaime, escondendo o rosto nas cobertas, enquanto seus ombros sacudiam em espasmos violentos; eram dois netos — um de sangue, outro de alma — unidos pela mesma orfandade devastadora.

A poucos passos dali o impacto da perda derrubou a última linha de defesa de Asuma, o Jounin, conhecido por sua postura inabalável, desmoronou em frangalhos no chão frio da ala médica; suas costas bateram contra a parede e ele escorregou até que seus joelhos tocassem o solo, as mãos cobrindo o rosto para abafar os gemidos de um homem que acabara de perder o pai no momento em que se tornaria um. Hinata, cujas pernas fraquejaram, não se permitiu cair totalmente, sentira o tremor de Hanabi contra seu corpo e, num instinto de proteção, envolveu a irmã mais nova em um abraço esmagador; diferente de Naruto, o sofrimento de Hinata era uma maré silenciosa e profunda, as lágrimas corriam sem som, molhando o topo da cabeça de Hanabi, enquanto fechava os olhos e encostava a testa na da pequena. Para Hinata, Hiruzen não fora apenas o Hokage ou seu querido vovô; fora o homem que enxergara valor nela quando seu próprio pai a descartara como um erro. A dor era uma pressão insuportável em seu peito, uma agonia que ela guardava para si para que pudesse ser o pilar da irmã, mesmo que por dentro sentisse que a estrutura de seu mundo acabara de ruir. Jiraya permanecia estático ao fundo, as sombras do quarto escondendo seu olhar, mas o brilho das lágrimas que escorriam por suas marcas vermelhas no rosto era inegável. Konoha agora estava acéfala, e o silêncio daquela madrugada era o prelúdio de um inverno que nenhum deles estava pronto para enfrentar.