Notas iniciais
Oi, meu povo, todos bem? Gente, agradeço de coração a todos que estão acompanhando, comentando, favoritando; é muito gratificante escrever e publicar minhas ideias e ter esse apoio, obrigada a todos, de verdade!! Espero que gostem deste cap. e aproveitem, logo volto com mais um, que está no forninho ainda. Até minha gente, se cuidem e bjuss!

O amanhecer sobre Konoha não trouxe o brilho habitual do sol; em vez disso, um manto de nuvens pesadas e acinzentadas cobria a Vila, como se os próprios céus estivessem em luto; o cheiro de incenso e terra molhada pairava no ar, misturando-se à fumaça das piras funerárias, o cemitério principal estava lotado por uma massa de civis e Shinobis vestidos de preto. No centro da multidão, Naruto e Hinata permaneciam imóveis, as feições exauridas em dor silenciosa, rígidos, como se cada respiração fosse um martírio; já não usavam suas máscaras ou os uniformes cinzentos da ANBU, apresentando-se apenas como Jounins, mantendo suas identidades de Tenentes ocultas do público civil, mas a aura de autoridade e a dor contida em seus olhos azuis e perolados lembravam ao olhar treinado do corpo Shinobi quem eles realmente eram.

No memorial, os retratos de Morino Ibiki, Inuzuka Kiba, Hyuuga Natsume e do Sandaime Hokage presidiam o silêncio, acompanhados de outros rostos que encontraram seu fim naquela emboscada; havia também, aqueles que padeceram antes da emboscada, quando Orochimaru chegara a Konoha disfarçado, e entre os retratos de civis, os rostos de Moegi e Udon e de suas mães tornavam a perda de Konohamaru e Hanabi ainda mais profunda. Akamaru, enfaixado e debilitado, gemia ao pé da foto de seu dono, um som dilacerante. Sakura observava a cena com o coração em frangalhos, a mente fugindo para as horas que antecederam aquele momento; lembrava-se vividamente de quando retornara à divisão e a notícia da morte de Kiba a atingira como um golpe físico. Lembrava-se de Hinata ter permitido que participasse da autopsia e juntas elas limparam o corpo, e mesmo naquele estado de dor e sofrimento, já cansada daquele interminável momento, Hinata ensinara-lhe como fazê-lo, talvez para manter-se lúcida; dizia-lhe como e por onde abrir um corpo, e quais os cuidados a se ter, o que buscar, o que analisar, assim como ensinara-lhe sobre o respeito de preservá-lo o máximo possível, para que a família pudesse despedir-se.

Mesmo mergulhada no luto, a Hyuuga não permitira que a morte de Kiba fosse envolta em dúvidas, e com mãos ainda trêmulas, liderara o procedimento para dar uma explicação adequada a Inuzuka Tsume. Kiba fora um herói trágico; apunhalara o próprio corpo com uma kunai para repelir Ukon, o gêmeo parasita que o possuía. Contudo, em seu ato final de malícia, Ukon liberara parasitas microscópicos diretamente na corrente sanguínea do Inuzuka, drenando-lhe a vida por dentro; nada do que fora feito funcionara, nem as pílulas regenerativas de Itachi, nem o tratamento dos médicos, e nem o Ninjutsu médico dela, tudo fora drenado e absorvido. Sakura ainda sentia o cheiro do laboratório e o peso do silêncio de Hinata enquanto fechavam o corpo do companheiro; a Haruno soube então, que sua mestra fizera aquilo por ela também, para que não houvesse culpa em seus ombros.

Diante do retrato de Ibiki, Naruto e Hinata deram um passo à frente em sincronia perfeita; antes de serem os Tenentes temidos, eles haviam sido moldados sob o olhar implacável e a disciplina de ferro do mestre de interrogatórios, que lhes ensinara que a mente era o campo de batalha mais perigoso e que a resistência à dor era a maior arma de um Shinobi. Com os rostos rígidos, ambos executaram uma reverência solene e profunda, os troncos curvados em um ângulo exato de respeito; era um agradecimento silencioso ao homem que os ensinara a suportar o peso da escuridão para que pudessem ser quem eram, sem os ensinamentos de Ibiki, o fardo de suas patentes já os teria quebrado.

Um pouco mais afastados, o clã Hyuuga exibia suas próprias cicatrizes, Hizashi parecia ter definhado, seu corpo erguia-se tão pequeno e tão indefeso, segurando um pequeno embrulho nos braços, como se fosse sua âncora, ao seu lado, Neji segurava outro, seus olhos cansados e nublados fixos no retrato de sua mãe; Natsume não morreu por lâmina, mas ainda assim, receberia as honras fúnebres como uma Kunoichi, Neji não entendera quando foram informados naquela manhã por um jovem ANBU enviado ao clã, e quase não conseguira suportar estar em pé ao ouvir a explicação, e mesmo agora as palavras dele ecoavam em sua mente: “A senhora Natsume deu a vida por vidas, foi o que nossa Tenente disse”. Sua valente e amorosa mãe agira como uma Kunoichi, enfrentando a morte sem temor, por duas vidas, e isso era tão honorável quanto entrar em confronto; atrás deles, Hiashi mantinha-se em silêncio, estava aprendendo a ser apoio, aprendendo a caminhar na estrada correta. Seus olhos, por vezes vagueavam até suas filhas, esteve surpreso ao ver como Hanabi crescera, e sentiu-se oprimido ao constatar a dor dilacerante de Hinata; Hiashi a vira lutando, a vira comandando, a vira trazendo seus sobrinhos ao mundo, mas ainda não havia visto seu sofrimento. Durante aquele tempo de mudanças no clã, esteve algumas vezes na cabana, Hinata permitira-lhe que visse Hanabi, mas quando aproximava-se, a pequena menina gritava e chorava, associando-o a Hiromi, e por isso passara a vê-la apenas de longe; agora, o peso de sua culpa parecia mais infindável ainda, ao vê-las e não poder ser o que finalmente entendia, um pai deveria ser, o que Hinata merecia desde sempre, o que Hanabi precisara: proteção, carinho, abrigo.

— A Vontade do Fogo não se apaga com a morte. Ela se transforma em cinzas que adubam o futuro. O sacrifício de Hiruzen, de Ibiki, de Kiba, de Natsume, de todos que perdemos é o alicerce sobre o qual reconstruiremos nossa casa. — Jiraya falou alto, sua voz grave ecoando pelo local.

Antes que a cerimônia se encerrasse, Asuma deu um passo à frente, o Jounin parecia ter envelhecido anos em uma única noite; seus olhos estavam injetados e a mão, sem o habitual cigarro, tremia levemente ao tocar a pedra fria do memorial. Ele inclinou a cabeça, os ombros subindo e descendo em uma respiração pesada enquanto sussurrava sua despedida final.

— Desculpe por ter sido tão difícil, velho… — A voz de Asuma era um fio quebrado, audível apenas para os que estavam mais próximos — Vou cuidar de tudo aqui. Vou garantir que seu neto saiba exatamente quem foi o avô dele. Descanse em paz… pai.

Naruto, mantendo Konohamaru firme ao seu lado, deu o passo seguinte para prestar sua última homenagem; não olhou para trás, mas sua voz carregava a força de um juramento que fez a terra parecer vibrar sob os pés dos presentes.

— Você me deu um lar quando eu não tinha nada, vovô. — Sussurrou ele, os punhos cerrados — Juro, pelo meu sangue e pelo meu nome, que manterei Konoha viva. Cada rua, cada criança, cada sonho que você protegeu… agora são meus. Eu não deixarei essa chama apagar. Nunca.

Ao afastar-se, a mão de Hinata tocara a sua; o toque era gélido, mas o aperto era uma promessa compartilhada. O Sandaime partira, mas os generais que ele moldara estavam prontos para a guerra que viria.

***

A atmosfera na sala de reuniões do alto escalão de Konoha era tão gélida quanto o cemitério que acabavam de deixar, o cheiro de incenso ainda impregnava as roupas escuras dos presentes, e o peso da cadeira vazia do Hokage projetava uma sombra sobre a longa mesa de carvalho; ao contrário de tempos passados, em que os antigos anciãos depostos Koharu e Homura, já estariam fazendo complôs e articulando suas seguintes marionetes, desta vez, uma nova formação que privilegiava a força militar e o sangue dos clãs que sustentavam a Vila decidiria seu futuro. Tenzou permanecia imóvel, ladeado por três ANBU’s de elite cujas identidades permaneciam ocultas por máscaras de porcelana: Itachi, Mikoto e Izumi. Não participavam da sessão, mas suas presenças garantiam que nenhum movimento em falso fosse dado naquele ambiente de incertezas, como uma sentinela sombria atrás dos dois Tenentes, enquanto Naruto e Hinata estavam sentados lado a lado; para os civis lá fora, eram apenas Jounins prodígios, mas para os líderes ali presentes — que conheciam a verdade por trás das máscaras de raposa e do gato — eles eram a mão armada que mantinha a ordem.

Hizashi mantinha-se rígido, seu sucessor ao seu lado, enquanto Hiashi, agora seu assessor, permanecia um passo atrás, contrastando a linha entre a nova liderança e a antiga; Tsume, com as marcas de lágrimas ainda visíveis sob as pinturas faciais, mantinha os punhos cerrados sobre a mesa, uma fúria contida em cada respiração. Ao lado deles, Uchiha Hiro, o atual líder do clã, observava a sala ir enchendo-se algo tenso, mas com a prudência de quem sabia que a sobrevivência de seu clã dependia da estabilidade que aquela reunião deveria gerar. Entre os presentes, Asuma, que mantinha um cigarro apagado entre os dedos por puro hábito, olhou para Naruto e Hinata, vendo neles a mesma expressão que seu pai costumava ter em tempos de crise: uma calma terrível; Naruto espalhou uma série de pergaminhos técnicos sobre a mesa, seus olhos azuis eram agora duas lâminas de gelo, focados no mapa estratégico da Vila.

— Vamos pular as formalidades de pesar. O tempo é o único recurso que não podemos recuperar. — Naruto iniciou, sua voz cortando o murmúrio da sala — Hiro-san, o clã Uchiha já finalizou o levantamento estrutural? Precisamos da confirmação de que os selos de contenção subterrâneos não foram comprometidos pelas vibrações das explosões.

— O setor leste sofreu danos em 40% das habitações. A barreira está sendo mantida por turnos, mas o consumo de chakra está no limite. — O Uchiha responde num sobressalto; não esperando ser o primeiro a ser questionado — Sobre os selos subterrâneos, meus homens detectaram fissuras no Nível 3. Se não reforçarmos as inscrições nas próximas doze horas, corremos o risco de vazamento de energia residual.

— Entendido. — Hinata rapidamente pensa numa contramedida, abrindo um relatório financeiro e de recursos — Hizashi-sama, o clã Hyuuga precisará ceder parte de seu contingente de rastreamento para auxiliar os Uchiha’s nessas inspeções. Falando em recursos, o relatório indica um congelamento de ativos nos fundos de emergência devido à falta da assinatura do Hokage. Como os clãs pretendem garantir a liquidez para os suprimentos médicos?

— O conselho dos clãs pode autorizar um fundo fiduciário temporário, mas isso exigiria a abertura das contas privadas dos clãs para o tesouro central. É um risco de privacidade que muitos não aceitarão. Muitos temem que isso exponha segredos de linhagem. — Hizashi trocou um olhar tenso com os outros líderes.

— A transparência é o preço da sobrevivência. — Hinata rebate friamente — Não estamos auditando técnicas, estamos auditando vidas. Sem esses fundos, as rotas de suprimento do País dos Medicamentos serão cortadas até o fim da semana.

— O problema não é apenas o ouro, é a informação. — Shikaku traz outro ponto, enquanto Shikamaru observava o pai com uma expressão de raro foco — Recebi os reportes de missões das equipes externas. Equipe 8 e Equipe 10 relatam movimentações anômalas nas fronteiras com o País do Som. Eles estão recuando, mas deixando armadilhas de selamento de longo prazo. Se não enviarmos especialistas em desativação agora, ficaremos cegos em nossa própria fronteira.

— Já analisamos esse informe, Sakumo, Kakashi, Anko e Sai estão neste momento, mobilizando-se. — Naruto compartilha a informação, então dirige-se a Tsume junto a Hanna — Tsume-san, o clã Inuzuka é responsável pelo perímetro norte. O relatório de vigilância indica fadiga nas unidades de faro. Qual a real condição de prontidão dos seus cães após o confronto?

— Meus cães estão no limite. — Tsume rosnou, a dor pela perda de Kiba ainda latente em sua voz — O olfato deles está saturado pelo cheiro das bombas, enxofre e veneno. Precisamos de apoio para as patrulhas de longo alcance.

Ao redor da mesa, Inoichi e Ino, Choza e Chouji, e Shibi com Shino acompanhavam cada detalhe, os jovens viam nos Tenentes, seus pares de idade, uma autoridade que transcendia os anos; eles viam líderes operando em meio ao desastre, decidindo sobre a alocação de feridos leves para tarefas administrativas, e assim liberando os Jounins para a linha de frente.

— Konoha não pode ficar acéfala. — Shibi Aburame ressaltou o ponto principal do dia, sua voz calma, mas firme — Jiraya-sama, você é a escolha óbvia do Conselho para assumir o chapéu e unificar esses reportes.

— Eu não nasci para o escritório, Shibi. Minha lealdade é com a Vila, mas não como seu Hokage. — Jiraya, encostado na parede, soltou um suspiro pesado.

— Então que seja Asuma. — Hizashi sugestiona — Ele tem o sangue e o respeito dos Jounins.

— Eu não posso. Preciso dedicar cada minuto da minha vida à reabilitação da Kurenai e à segurança do meu filho que está por vir. Ela perdeu a mobilidade e o bebê corre riscos; minha prioridade é minha família agora. — Asuma declinou ao instante, fez uma pausa, fitando a dupla — Além disso, estamos todos fingindo não ver o que está bem diante de nós. O que temos ouvido aqui, nesta última hora, não são relatórios de Genins. Estamos vendo e ouvindo dois líderes que mantiveram esta Vila de pé quando o caos se instalou.

Um silêncio de reconhecimento caiu sobre a sala. Os líderes de cada clã, agora conhecedores de suas identidades e as proezas dos Tenentes na ANBU, testemunhas de como geriram toda aquela operação desde o princípio, assentiram em uma validação silenciosa e unânime; estavam prontos para aceitar a autoridade oficial da dupla.

— Somos soldados de campo e inteligência. Nossa força reside na mobilidade e na capacidade de agir nas sombras. Precisamos de alguém que permaneça na Vila, alguém que não corra os riscos constantes que corremos. — Naruto, porém, manteve-se pragmático.

— Alguém capaz de fazer frente às demais nações sem ser subestimado. — Completou Hinata — Alguém cujo nome, por si só, impeça que Iwa ou Kiri tentem tirar proveito da nossa fraqueza. Precisamos de alguém que cure a Vila, física e politicamente.

Jiraya sorriu de canto, sabendo exatamente para onde aquela lógica apontava.

— Vocês estão falando da Tsunade. — Conclui o Sannin.

— Exatamente. — Naruto confirma — Vamos estabilizar o caos interno, auditar os relatórios de inteligência e preparar-nos para a possível retaliação do Som ou de qualquer outra nação oportunista; então vamos trazê-la. Konoha não precisa apenas de força; precisa de um símbolo de cura e autoridade absoluta.

Inoichi, cujas mãos estavam cruzadas sob o queixo, inclinou-se para a frente, trazendo o tópico que pairava como uma nuvem de tempestade sobre a diplomacia da Vila.

— Precisamos falar sobre o elefante na sala: o País dos Ventos. — A voz de Inoichi era calma, mas carregada de urgência — Suna quebrou o tratado de paz. Seus ninjas participaram ativamente do cerco às nossas muralhas. A inteligência indica que o Yondaime Kazekage desapareceu, e o exército deles está em frangalhos e desorientado. Se não agirmos rápido, Iwa ou Kumo podem tentar anexar o território de Suna, o que nos deixaria cercados por inimigos em uma posição de vantagem geográfica desastrosa.

Um murmúrio de concordância percorreu os líderes dos clãs. Shikaku Nara tamborilava os dedos na mesa, calculando mentalmente as perdas de uma possível guerra em duas frentes. Foi quando Hinata, com uma elegância gélida e autoridade inquestionável, tomou a palavra.

— Suna não é mais uma ameaça. — A garota afirma, e algo em seu tom fez até mesmo Choza arregalar os olhos — Na verdade, Suna agora é nossa maior linha de defesa externa.

— Como pode afirmar isso? — Shibi Aburame questionou, as lentes de seus óculos brilhando sob a luz da sala — Sei que os irmãos Sabaku’s colaboraram dando informações importantes para a operação, mas isso não muda o fato de que os Shinobis deles disfarçados na delegação, participaram do ataque.

— A traição foi orquestrada por Orochimaru em conjunto com o Yondaime Kazekage, que depois foi assassinado, o Sannin logo se infiltrou no comando. Nós já antecipamos esse vácuo. — Hinata revelou, fazendo um sinal para Tenzou, que entregou um pergaminho selado com a insígnia oficial do País dos Ventos — Estabelecemos uma aliança direta com a linhagem real de Suna antes mesmo do início dos exames Chunin. Ontem, após nosso retorno, Kankuro, o filho mais velho do Kazekage, foi nomeado como o Godaime Kazekage. Ele é, para todos os efeitos, um aliado estratégico sob nossa tutela.

Um silêncio chocado tomou conta da sala. Hanna, ao lado da mãe, arregalou os olhos; a magnitude do movimento político daqueles dois era aterrador e brilhante.

— Você está dizendo que Konoha instalou o novo líder de uma das Grandes Nações? — Hiro perguntou, a voz tingida de um respeito relutante.

— Não apenas isso. — Naruto interveio — O Conselho de Suna foi reestruturado. Nossos espiões da ANBU já estão infiltrados como membros permanentes do corpo consultivo deles. Além disso, a guarda pessoal de Gaara, o Jinchuuriki do Uma Cauda, agora é composta parcialmente por agentes nossos disfarçados. Suna está pagando sua dívida de guerra tornando-se o nosso escudo ocidental.

— Inoichi-san, vou precisar do auxílio imediato do clã Yamanaka. Quero que sua equipe de elite verifique minuciosamente a condição psíquica e a estabilidade mental de Gaara. Precisamos garantir que não haja fissuras emocionais que possam ser exploradas pela Besta antes que Naruto proceda com o reforço definitivo dos selos nele. — Hinata então voltou-se diretamente para Inoichi.

— Assim que vocês confirmarem a viabilidade mental, eu reestruturarei o selo do Shukaku para que ele responda ao comando de Kankuro e de Konoha; abrindo a possibilidade de, posteriormente, Gaara conseguir trabalhar com o Shukaku, como tenho feito por anos com Kurama. Somente após essa estabilização poderemos partir em segurança para buscar a Senju. Isso estabelecerá o poder de coalizão de Konoha de forma incontestável perante as outras nações. Não seremos apenas uma vila em reconstrução; seremos o centro de um novo eixo de poder. — Naruto assentiu, completando o raciocínio.

— É um xeque-mate. Vocês transformaram um inimigo em um protetorado e uma arma de dissuasão sem disparar um único selo explosivo fora dos muros. — Shikaku Nara soltou um suspiro, um sorriso de lado surgindo em seu rosto cansado.

— Exatamente. — Naruto confirma — Queremos garantir que o Jinchuuriki de Suna seja um aliado funcional.

A atmosfera na sala de reuniões mergulhou em um silêncio tático após a revelação sobre Suna, mas a calmaria foi interrompida por Choza, o líder do clã Akimichi, conhecido por sua natureza afável, era extremamente rigoroso com a logística e o tesouro da Vila, franziu o cenho ao analisar um anexo específico nos relatórios de inteligência.

— Há uma inconsistência aqui. — Choza pontuou, a voz grave ecoando pela sala — Os relatórios das expedições ao País do Ferro mostram um aumento significativo nos gastos operacionais nos últimos seis meses. Qual a razão desse dreno financeiro em uma região teoricamente neutra?

Naruto trocou um olhar significativo com Hinata antes de se inclinar sobre a mesa, cruzando os dedos sobre os pergaminhos.

— Esse investimento não é comercial, Choza-san. É vigilância de contenção. — Naruto revelou, sua voz endurecendo — Estamos monitorando os seguidores remanescentes de Shimura Danzou. Mesmo após a queda da Raiz, as sementes daquela ideologia não foram totalmente erradicadas. Eles estão tentando reerguer suas forças longe do alcance imediato de Konoha, utilizando o País do Ferro como escudo.

Um murmúrio inquieto percorreu os líderes, o nome Shimura ainda carregava o peso de décadas de operações sombrias; Naruto e Hinata já monitoravam a facção dissidente há três anos, mas a urgência de preparar a Vila para o ataque de Orochimaru impedira que avançassem para a neutralização. Agora, os fatos eram expostos: o alvo era Shimura Yato.

Yato, pai de Shimura Kenta, que fora colega da dupla durante o último ano na Academia e um dos Genins ativos de Konoha, descontente com a liderança do irmão mais velho, Shimura Hazo, que como os Uchiha’s restantes, estava sob constante vigilância de Konoha, e por isso mesmo, adotara uma postura pacífica pela preservação de sua família; no entanto, para o mais jovem dos filhos de Danzou, família e autopreservação eram temas que sequer mereciam atenção, e buscando um poder que pudesse erguê-lo acima de Hazo, acima de Konoha, tentava reerguer a organização de seu pai.

— Yato tem feito viagens frequentes às fronteiras sob o disfarce de comércio de tecidos e minérios. — Hinata completou — Na verdade, ele está recrutando mercenários e desviando fundos para criar uma base de operações externa. Nós os monitoramos há três anos, mas a urgência de nos prepararmos para o ataque de Orochimaru nos impediu de avançar para a fase de neutralização. Não podíamos lutar duas guerras internas ao mesmo tempo.

— Então temos uma facção dissidente dos Shimura tentando se tornar uma nova Raiz fora dos muros. Isso explica a movimentação de capital. — Shikaku suspirou, massageando as têmporas.

— Sim. — Naruto confirma — Agora que Orochimaru foi repelido, não permitiremos que Yato capitalize sobre a nossa fragilidade momentânea. O aumento nos gastos refere-se à compra de informantes no País do Ferro e à instalação de selos de barreira móveis para cercar as rotas de fuga dele.

Nesse momento, uma compreensão súbita e coletiva tomou conta dos líderes presentes. Todos entenderam, finalmente, o porquê de Shimura Hazo ter sido enviado em uma missão diplomática informativa até Koji imediatamente após o ato funerário. A ausência do líder oficial do clã naquela reunião não fora um acaso; os Tenentes haviam orquestrado sua partida para garantir que a cúpula decidisse o destino dos dissidentes sem interferências familiares ou vazamentos de informação. Todos os cabos soltos — desde o envio de Hazo até os gastos anômalos no País do Ferro — foram conectados e detalhados com uma precisão absoluta.

— Shikaku-san. — Naruto finalizou, fitando o estrategista dos Nara — Quero que o departamento de inteligência feche o cerco nas rotas de comunicação de Yato. Inoichi-san, após validarmos a condição de Gaara, sua divisão deverá iniciar a triagem das mensagens criptografadas interceptadas. Se houver simpatizantes dele dentro destas muralhas, nós os encontraremos.

— Inoichi-san, prepare sua equipe de elite. Precisamos ter esses tópicos operantes hoje ainda, antes de partir em busca da Senju. — Hinata levantou-se, sinalizando o fim da sessão.

A reunião estava encerrada, mas o peso das decisões tomadas ecoava como o prelúdio de uma nova era, onde nenhuma traição, interna ou externa, passaria despercebida.

***

À medida que as portas pesadas da sala de reuniões se fechavam atrás dos Tenentes, um silêncio denso e reflexivo tomou conta dos líderes de clãs, o som dos passos rítmicos de Naruto e Hinata, seguidos pela guarda silenciosa de Tenzou e pelos três ANBU’s cujas presenças emanavam uma pressão fora do comum, ecoava pelo corredor como a marcha de um novo exército; sob as máscaras de porcelana, Itachi, Mikoto e Izumi mantinham a cadência perfeita, sombras de um clã que se recusava a cair em desgraça, agora servindo ao novo eixo de poder. Jiraya, que até então manteve-se nas sombras, desencostou-se da parede com um suspiro carregado de admiração e uma ponta de receio; conhecia o peso de um título, contudo, o que acabara de presenciar era algo diferente: a autoridade exercida por natureza.

— Eles não estão apenas liderando. — Shikaku murmura, quebrando o silêncio enquanto trocava um olhar cúmplice com Shikamaru — Eles estão reescrevendo o tabuleiro. Hiruzen-sama não criou apenas soldados; ele forjou arquitetos de uma nova era.

Asuma permanecia estático, olhando para a cadeira vazia onde o pai se sentara por décadas, sentia um nó na garganta, mas também um alívio inesperado. Como Jounin e como filho, ele via naqueles dois jovens a concretização da “Vontade do Fogo” em sua forma mais pura e técnica. “Você estava certo, velho”, pensou Asuma. “Eles não precisam do chapéu para serem os donos do destino desta Vila.”

Hizashi observava a porta fechada com um orgulho solene, ao seu lado, Neji mantinha o olhar fixo no rastro deixado pela prima. O carinho profundo que sentia por Hinata, e o desejo instintivo que sempre alimentara de protegê-la das crueldades do mundo ninja, transformavam-se agora em uma reverência silenciosa. Percebera que Hinata não precisava mais ser protegida; ela era o escudo da própria Vila.

Atrás de Hizashi, Hiashi mantinha-se em uma penumbra de arrependimento, ver a filha comandar os líderes dos clãs com tamanha gélida competência trazia-lhe um peso no coração pelo pai que não soubera ser; no entanto, aquele sofrimento competia com um consolo amargo: o de constatar que, de alguma forma, suas atitudes erradas e o afastamento forçado haviam conduzido Hinata para um lugar melhor. Longe da rigidez sufocante do clã, ela pudera brilhar com uma intensidade que ele jamais imaginara ser possível.

Hiro mantinha-se pensativo, embora os ANBU’s estivessem mascarados, o instinto do líder Uchiha captara algo familiar naqueles guardas; percebera então qual era a aliança que mantinha seu clã a flote, e por consequência, dando-se conta da sandice cometida por Yoruichi, ao ir contra aquele poder emergente. Tsume, mesmo mergulhada na dor da perda, assentiu levemente para Hanna; a agressividade de Naruto em proteger Konoha e a frieza de Hinata em lidar com Suna deram-lhe a única coisa que um Inuzuka buscava: a certeza de que a matilha tinha líderes que não recuariam.

— Eles são terrivelmente eficientes. — Inoichi comenta, já organizando mentalmente a equipe para a missão com Gaara — É como se estivessem três passos à frente de cada ameaça, prontos para cada desastre.

— O “vovô” sabia exatamente o que estava fazendo. — Jiraya finalmente caminhou até a mesa, olhando para o mapa de Konoha, sorrindo tristemente — Ele não nos deixou órfãos. Ele nos deixou sob a guarda de dois lobos que aprenderam a sorrir para as ovelhas, mas que nunca esqueceram como caçar no escuro.

***

O ambiente na divisão especial da ANBU não lembrava em nada o que ocorria entre aquelas paredes alguns andares abaixo, era uma sala ampla, de tons sóbrios, iluminada por uma luz suave que banhava os irmãos; Gaara estava sentado no centro, mantendo uma postura que, embora rígida por anos de vigília forçada e pelo recente descontrole da Besta, demonstrava uma centelha inédita de entrega. Ao seu lado, Temari e Kankuro — o novo Kazekage — permaneciam como guardiões silenciosos, trocando olhares de ansiedade e esperança; não estavam ali como diplomatas, e sim como irmãos que ansiavam pelo fim de um pesadelo que durara uma vida inteira.

A dupla entrou no recinto, seguidos por Inoichi e sua equipe de elite. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado pela consciência do que estava prestes a acontecer; Naruto aproximou-se de Gaara, e por um momento, as duas metades de uma mesma moeda se encararam.

— Chegou a hora, Gaara. — Naruto fala, sua voz num tom de confidência que só aqueles que carregavam o fardo de uma Besta poderiam entender — Prometi que você não teria mais que lutar contra ele sozinho. Hoje, o Shukaku vai entender que você é quem manda nessa casa.

Inoichi posicionou-se atrás de Gaara, colocando as mãos sobre as têmporas do rapaz; sob a supervisão atenta de Hinata, que mantinha o Byakugan em uso para monitorar qualquer flutuação perigosa de chakra, o processo começou.

— Iniciando incursão mental. — Inoichi começa.

A cena tornou-se etérea, enquanto a equipe Yamanaka estabilizava as barreiras psíquicas para garantir que o ódio de Shukaku não transbordasse para a mente consciente de Gaara, Naruto colocou a mão espalmada sobre o selo no abdômen dele; o chakra alaranjado de Kurama começou a fluir, não como uma arma, mas como uma âncora dourada. Gaara fechou os olhos como fizera no dia de sua chegada à Konoha, o dia que mudara seu destino; pela primeira vez em anos, não sentira a areia agitar-se em pânico.

Naruto fechou os olhos, projetando sua consciência para o espaço liminar onde o selo residia, lá viu as grades que prendiam o Uma Cauda e a areia movediça que tentava tragar a sanidade de Gaara; com uma precisão técnica que deixaria seu pai orgulhoso, Naruto começou a retraçar as fórmulas do selo original, sobrepondo-as com uma variante do Selo de Oito Pontas, ajustada para permitir que Gaara utilizasse o chakra da besta sem que sua vontade fosse suprimida.

— Fuin! — o sussurro de Naruto ecoou na sala física e no subconsciente de Gaara.

No mundo real, o corpo de Gaara arqueou-se levemente, uma onda de choque silenciosa de chakra azul e dourado percorreu o ambiente, fazendo as vestes de todos balançarem; lentamente, as marcas escuras ao redor dos olhos de Gaara pareceram suavizar, não porque desapareceram, mas porque a tensão constante que as mantinha ali se dissolveu. O silêncio que se seguiu foi o mais profundo que Temari e Kankuro já haviam experimentado, Gaara soltou um longo suspiro, seus ombros relaxando de uma forma que parecia impossível, minutos atrás; olhou Naruto, e o brilho de insanidade que costumava assombrar suas pupilas fora substituído por uma claridade vítrea e grata, havia surpresa naquele olhar também, surpresa pela ausência de dor e dificuldade, como fora na primeira vez.

— Eu não sinto… o grito. — Gaara sussurra, tocando o próprio peito — Ele está em silêncio.

— Ele não pode mais te alcançar agora. — Naruto respondeu, sorrindo de forma leve e genuína — O selo agora é seu, Gaara. Ele é uma ferramenta, não um mestre.

Temari cobriu a boca com as mãos, as lágrimas finalmente escapando, enquanto Kankuro apertou o ombro do irmão com uma força que dizia tudo o que as palavras não conseguiam expressar; Gaara, finalmente, desde o seu nascimento, sentiu as pálpebras pesarem, a exaustão de anos sem dormir naturalmente o atingiu como uma onda mansa.

— A condição psíquica é estável. Deixem que ele descanse. Ele precisa desse sono para que a alma se cure. — Hinata fez um sinal suave para os médicos.

Naruto observou o amigo ser amparado pelos irmãos enquanto era conduzido a um leito de repouso ali mesmo na divisão; a promessa estava cumprida. Konoha e Suna agora não estavam unidas apenas por pergaminhos e tratados, mas por uma dívida de vida que nenhum exército poderia quebrar.

***

A ala de segurança da ANBU mantinha o mesmo padrão de sobriedade e vigilância daquela onde Gaara descansava, Sasuke estava acomodado em um leito confortável, mas cercado por selos de supressão que brilhavam levemente nas paredes; o Genjutsu que Shikamaru e Sai implantaram anteriormente servira como um anteparo emocional de emergência: as memórias da Floresta da Morte haviam sido alteradas para que Sasuke não recordasse do interesse predatório de Orochimaru, nem do momento em que, sob a influência da marca, atacara violentamente sua própria companheira de equipe. Detendo-se diante do leito com uma expressão cansada, quase doentia, após mais de 48 horas ativo, Naruto observava o Uchiha com uma lucidez que nem mentes descansadas possuíam; seu trabalho consistia também em antever e remediar problemas futuros, e Sasuke e sua condição instável era exatamente isso.

— Não podemos mais manter esse véu, Hina. — Naruto explica ao olhar interrogativo dela — Se ele descobrir de outra forma, o trauma será o combustível para um desastre maior. Antes, tomamos essa rota pela urgência da situação, mas agora é diferente.

Com uma paciência que desafiava seu estado físico e a animosidade entre os dois, Naruto sentou-se à beira do leito e fazendo selos de mãos, lentamente, dissolveu as camadas de ilusão; as memórias reais inundaram a mente do Uchiha como uma enxurrada de água gelada: o terror na Floresta da Morte, o pescoço sendo mordido pelo Sannin e, o mais devastador, a visão de si envolto em chamas roxas, atacando Sakura com tanta impiedade, que sequer reconhecia-se.

Ao despertar e ouvir o relato calmo de Naruto sobre a emboscada e o que ele fizera, Sasuke sentiu uma ânsia de vômito violenta, e inclinara-se para fora do leito com o corpo sacudindo por espasmos de horror puro; aquela sensação incomoda de que algo faltava dissipando-se, a incompreensão dando lugar a um horripilante asco.

— A marca da maldição está selada, no momento não vamos removê-la, não sabemos como isso te afetaria e precisamos estar preparados para qualquer consequência. — Naruto explicava seriamente — Isso que você recorda agora, é a verdade sobre aquele dia.

— Não… eu fiz isso? — Sasuke limpou a boca com as costas da mão, os olhos injetados.

As recordações agora claras e ordenadas complementando as ações estranhas de todos à sua volta, a estranheza de Sakura, a proteção exacerbada de seu sensei com ela, o medo que via nos olhos dela; o Uzumaki explicara-lhe que suas ações violentas foram causadas e amplificadas pelo selo, mas a dor causada a Sakura não provinha de um acidente.

Foi nesse momento de vulnerabilidade total que Itachi e Mikoto deram um passo à frente, Izumi permaneceu junto a Tenzou na entrada, garantindo a privacidade daquele acerto de contas; Mikoto abriu um pequeno baú de sândalo que esteve guardado junto aos segredos de Estado de Konoha, revelando provas e evidências físicas: registros contábeis de desvios de fundos para mercenários e pergaminhos criptografados onde Fugaku detalhava as intenções de usar os próprios filhos como peões em um golpe de estado que resultaria no extermínio de inocentes na própria Vila.

Sasuke leu as palavras do pai, vira sua caligrafia fria aceitando a possibilidade de “descartar” membros recalcitrantes do clã para atingir o poder absoluto; a idolatria que Sasuke cultivara durante anos — o desejo amargo de ser o herdeiro que o pai sempre quis — transformou-se em cinzas. O ressentimento que ele sentia agora era uma faca de dois gumes, que lentamente transformava-se em ódio ao pai, pela traição à Vila e à família, mas odiava-se ainda mais por perceber que, na Floresta da Morte, ele agira com a mesma falta de escrúpulos que Fugaku pregava; o ataque contra Sakura era, para o Uchiha, o reflexo do sangue de Fugaku correndo em suas veias.

— No fim… acabei sendo exatamente igual. — Sasuke murmurou, os olhos fixos nas evidências.

— Você não é ele, Sasuke. — Mikoto disse, segurando as mãos trêmulas do filho — O fato de você sentir esse horror agora, de você sentir essa dor, é a prova de que você falhou em ser o que ele queria. E essa é a sua maior virtude.

— Nós escondemos isso para protegê-lo, mas Naruto está certo. A verdade é a única coisa que pode impedir que você se torne o próximo Fugaku… ou o próximo Orochimaru. — Itachi colocou a mão sobre o ombro do irmão.

Sasuke encostou a cabeça na parede, fechando os olhos enquanto as lágrimas de pura frustração e luto pela imagem do pai caíam. O trauma era imenso, mas a venda havia caído.

***

O retorno para a cabana na clareira foi uma jornada silenciosa por caminhos que agora pareciam estranhos, apesar de familiares, Naruto e Hinata caminhavam à frente, as sombras projetadas pela lua desenhando a silhueta de dois jovens que carregavam o peso da liderança, cujos passos pesavam como os de órfãos; logo atrás, Konohamaru e Hanabi caminhavam colados um ao outro, carregando nos braços as gatas que haviam buscado no abrigo, pequenos seres vivos que ofereciam um calor silencioso e um resquício de normalidade em meio ao caos.

Quando as urgências da Vila finalmente deram lugar ao isolamento da floresta e o ranger da porta de madeira selou o mundo exterior, o impacto da realidade os atingiu como uma nevasca; a luz suave da sala revelou um cenário parado no tempo. Ali, sob uma das guardas do sofá, o cinzeiro de pedra que Hiruzen sempre utilizava permanecia exatamente onde ele o deixara no último domingo; estava cheio, as últimas cinzas de seu tabaco de cereja ainda ali, um vestígio físico do homem que fazia daquela sala seu verdadeiro refúgio. Sobre a mesinha de centro, os pergaminhos de estratégia e inteligência que Ibiki trouxera para discutir com seus pupilos permaneciam abertos, com anotações firmes e objetivas.

As recordações inundaram a mente da dupla com uma força devastadora, trazendo ecos das tardes de domingo, dos almoços agitados e barulhentos, das risadas e tardes de jogos sem fim; chegaram a ouvir a voz de Ibiki a instruir-lhes com um novo método de interrogatório, era a sua “parabenização” por vencerem mais uma etapa de treinamento, sua forma dura e simples de dizer que confiava neles. Nas paredes de madeira, os retratos pareciam gritar: a tia Natsume, com seu sorriso doce que Hinata tanto amava; o grupo de seus senseis reunidos; Kurenai radiante e saudável, Ibiki com sua postura imponente e o amado vovô no centro. O abalo pela situação de Kurenai era um espinho profundo; ela fora, durante a primeira infância deles, o mais próximo que tiveram de uma figura materna. Saber que ela lutava pela vida e pela mobilidade, enquanto os outros haviam partido, deixava um vácuo sufocante.

Naquela noite, a rotina na cabana foi quebrada como raras vezes ocorrera, os mais velhos sabiam que Konohamaru e Hanabi não conseguiriam dormir sozinhos no quarto que agora dividiriam; o trauma da violência que testemunharam, o terror do sequestro e a sensação dilacerante de que a segurança do mundo havia ruído eram monstros grandes demais para serem enfrentados em camas separadas. Com um cuidado meticuloso, a dupla os levou para o seu próprio quarto, acomodaram os pequenos na cama grande, colocando-os entre os dois, deitaram-se nas extremidades, cercando as crianças com seus corpos, criando uma barreira física de proteção; naquele momento, na quietude da noite, ocorreu uma metamorfose silenciosa: perceberam que precisariam deixar de ser apenas os irmãos mais velhos, uma nova e mais significativa responsabilidade recaia sob seus ombros. Enquanto os pequenos finalmente cediam ao sono, sentindo o calor e o ritmo da respiração deles, a dupla ainda permanecera desperta por um longo tempo, os dedos entrelaçados por cima dos lençóis que protegiam as crianças; o sentimento que tomara conta de seus corações era visceral, a perda de Hiruzen, o vazio deixado por Ibiki, a saudade de Natsume, e o medo por Kurenai formavam um peso no peito que dificultava a respiração.

— Não vai passar, não é? — Hinata pede, a voz sumindo na penumbra do quarto.

— Não. — Naruto responde, a sinceridade crua de quem já conhecia a perda desde o berço — Mas a gente não quer que passe, Hina. Se passar, a gente esquece como era.

Seus pensamentos vagaram para as cinzas ainda sob a guarda do sofá, constatando que nunca teria coragem de descartá-las; aqueles restos de tabaco, eram a última evidência física do calor de Hiruzen naquela cabana. Constataram então, entre lágrimas silenciosas e rodeados por retratos que imortalizavam sorrisos que nunca mais se repetiriam, que aquela dor imensa nunca os abandonaria, ela não era uma visita, e sim uma inquilina permanente, ela caminharia ao lado deles em cada decisão política e em cada pesadelo noturno; aceitaram que o luto seria a sombra inseparável do amor imenso que sentiam por aqueles que partiram, e que a melhor forma de honrá-los seria garantir que tudo que deixaram em vida, seus legados, seus ensinamentos, sua calidez, não cairia no esquecimento.

O sol da manhã os encontrara timidamente, filtrando-se por uma névoa espessa que parecia querer ocultar as cicatrizes de Konoha, dentro da cabana na clareira, o ar estava impregnado com o cheiro do chá e o silêncio pesado daquelas primeiras horas; a dupla, desperta desde antes que os pássaros entoassem seus cantos, não movera-se até que os pequenos abrissem os olhos; mantiveram suas posições de sentinelas, cercando Konohamaru e Hanabi em uma muralha de calor humano contra os fantasmas do sequestro e da violência, guardando seus sonhos infantis. Na mesa da cozinha, o café da manhã era uma formalidade cumprida como um protocolo, consumido por pura obrigação; Konohamaru, que mal tocara em sua comida, olhava fixamente para o cinzeiro de pedra sobre a mesa de centro, onde as cinzas de tabaco de Hiruzen permaneciam como um monumento à sua última tarde ali.

— Naruto-nii… — A voz do menino era um sussurro rouco, carregado de uma vulnerabilidade que partia o coração — O vovô… você acha que ele agora está junto dos meus papais?

Naruto parou o movimento da xícara e olhou profundamente para o garoto; deixando de lado a postura de Shinobi, ajoelhou-se ao lado de Konohamaru e colocou as mãos em seus ombros gentilmente.

— Eu não acho, Kono. Tenho certeza. — Naruto afirmou com uma convicção que não deixava margem para dúvidas — O vovô foi para o lugar reservado às almas mais nobres que já caminharam sobre esta terra. Certamente estão juntos agora, e ele está contando aos seus pais como você foi corajoso. Ele se foi, mas nos deixou um ao outro. Agora, essa cabana é o nosso forte, e nós nunca, jamais, deixaremos você ou a Nabi sozinhos.

Hinata, sentada ao lado de Hanabi, puxou a pequena para um abraço lateral, beijando-lhe o topo da cabeça enquanto afagava carinhosamente seus frágeis braços; seus olhos embaçados encontraram os de Naruto, igualmente cintilantes, cheios de uma dor e um pesar infindáveis, e também de um amor transbordante por aqueles pequenos, que desejavam desesperadamente ver voltar a sorrir.

Após aquele primeiro amanhecer doloroso — o primeiro de muitos que ainda teriam — os quatro aprontaram-se para as obrigações do dia, que sabiam seriam muitas e extenuantes; a viagem de volta à Vila foi marcada pela melancolia e suspiros sentidos que escapavam às vezes dos menores, tentando arduamente portar-se como os maiores, que com sorrisos tristes e reconfortantes transmitiam-lhes a segurança que necessitavam. Antes de iniciar propriamente o trabalho, passaram na antiga mansão Sarutobi para recolher o essencial e algum pertence de Hiruzen para manter como recordação; Konohamaru não voltaria a morar ali, e a cada brinquedo ou peça de roupa guardada era um lembrete do elo perdido. Logo de deixarem os menores sob a tutela da mãe de Shikamaru — que prontificara-se com um carinho maternal que Kurenai, em sua condição debilitada, não poderia oferecer — a dupla dirigiu-se à Divisão ANBU.

O dia na Divisão foi uma sinfonia de logística e estratégia interminável e denso; receberam os informes das patrulhas de fronteira e confirmaram que os planos da reunião anterior estavam em pleno vigor. E compenetrados em resolver as seguintes questões imediatas da Vila, o tempo ia passando, transcorrendo como se a tragédia que fazia seus corações latejar e sangrar a cada batida, nunca houvesse sucedido; em algum ponto da tarde, receberam o informe de que o que restara da delegação de Suna estava aprontando-se para partir. O grupo, sob a liderança recém outorgada a Kankuro, tinha pressa de estabelecer suas novas diretrizes, ajustar e calibrar suas forças para seu novo propósito.

— Entre. — Naruto ergue a voz, dando acesso após uma batina na porta de sua sala.

— Nos chamaram? — Diante deles, Shikamaru e Sai apresentam-se.

— Como está a recuperação dos ferimentos de vocês? — Deixando de lado o inventário que lia, Hinata pergunta.

— Completamente curados. — Sai garante.

Sabiam que deveriam dizer a verdade, tanto por obrigação e lealdade, quanto pelo fato de que, se a dupla pedia a respeito de sua integridade física, significava que tinham uma missão para os dois discípulos; e no meio deles, sair em missão feridos, era o mesmo que sentenciar o fracasso.

— Bem, então preparem-se para sair em uma hora, vocês vão fazer a escolta do grupo de Suna. — Naruto informa, e por um instante, capta um crispar de lábios no rosto de Shikamaru.

Cerca de uma hora e pouco mais tarde, no portão sul da Vila, o grupo estranhamente confuso e inusitado reúne-se para as despedidas.

— Seja cauteloso, meu filho. Sua jornada ainda é longa e as sombras são traiçoeiras. Não se perca nelas. — Já em seu disfarce, Mikoto segura Itachi pelos ombros, fitando os olhos sob a máscara fria.

Surpreendentemente, Sasuke também estava presente, fora informado aquela manhã sobre a partida do grupo, e querendo fitar o rosto de sua mãe mais uma vez, apresentara-se um tanto coibido entre os que permaneceriam na Vila; com o mesmo carinho gentil que ele recordava-se, sua mãe fixara seu olhar nele, tocando-lhe levemente o rosto.

— Sasuke, não permita que o ressentimento consuma o homem que você pode ser. Melhore, cure-se e, acima de tudo, não repita os mesmos erros. — A voz dela era doce e carregada de carinho, fazendo-o ter de morder os lábios para manter-se firme — Tudo isso logo terminará, tudo ficará bem outra vez.

Enquanto isso, Izumi caminhou até Itachi, em meio ao caos de suas vidas, o breve toque de mãos e o olhar compartilhado eram o único fragmento de normalidade que possuíam; a distância, o perigo de suas missões, os anos de suas juventudes esvaindo-se, e ainda assim, eles permaneciam fiéis ao seu propósito, agarrando-se unicamente ao vislumbre do dia em que não teriam mais que separar-se daquela maneira.

— Volte para mim, Itachi. Tenha cuidado. — Ela sussurrou, uma súplica suave que ressoou no peito do prodígio Uchiha.

— Konoha e Suna não são mais apenas aliadas por papel. Somos irmãos de armas. Farei com que essa união seja o pilar deste continente. — Kankuro, assumindo a postura de um líder que amadurecera anos em poucos dias, despediu-se com um aperto de mão firme.

Temari, ao lado, ajeitava o leque gigante com uma irritação mal disfarçada, fitando Shikamaru bocejar ao fundo; a ideia de passar dias sendo escoltada por aquele intrometido parecia afetar seu orgulho, embora houvesse um respeito silencioso entre os dois estrategistas. Por fim, Gaara aproximou-se de Naruto e Hinata. O Jinchuuriki do Uma Cauda parecia uma pessoa diferente; o peso do ódio havia sido substituído por uma gratidão solene.

— Vou me esforçar. — Gaara afirmou — Vou honrar o que fizeram por mim. Suna terá um Kazekage e um protetor.

Naruto e Hinata entreolharam-se, naquele instante, as máscaras de Tenentes da ANBU, a rigidez do dever e a frieza do comando foram despidas; avançando simultaneamente, envolveram Gaara em um abraço coletivo, sólido e genuíno. Ali, os três compartilharam o calor humano que lhes fora negado por tanto tempo; o calor que Naruto e Hinata precisavam para suportar o luto, e que Gaara precisava para entender que o mundo não era mais seu inimigo.

— Cuide-se, Gaara, nós manteremos contato. — Hinata garante-lhe — Nunca esqueça que antes de aliados políticos, nós somos amigos, e isso vale para vocês também.

O olhar gentil que ela sempre mantinha, voltou-se e estendeu-se para os outros dois Sabaku’s, assim como varreram os rostos altruístas das duas Uchiha’s corajosas que partiam para mais uma eternidade longe de casa, ignorando suas vidas por um bem maior.

— Garantam que eles cheguem seguros, vocês têm carta branca para agir contra qualquer ameaça. — Dirigindo-se aos dois amigos, fixando suas conhecidas máscaras do corvo e do tigre, Naruto lhes dá uma última instrução — Voltem para casa em segurança.

— Sim, chefe. — Shikamaru tenta soar descontraído.

— Vai ser até divertido. — Sai comenta, claramente com intenções obscuras dirigidas ao seu companheiro.

***

O sol que se punha no horizonte de Konoha não trazia o alívio do dever cumprido, mas sim a tonalidade de feridas abertas que se recusavam a cicatrizar, e no âmago da base ANBU, o escritório ocupado por Naruto e Hinata era um santuário de sobriedade e urgência, onde o aroma metálico de equipamentos limpos se misturava ao cheiro de pergaminho antigo e ao perfume suave, quase imperceptível, de incensos de lavanda que Hinata usava para manter a mente focada; a luz das luminárias de mesa projetava sombras longas sobre os mapas estratégicos, onde cada marcação em tinta vermelha representava uma baixa ou um ponto crítico de reconstrução. Naruto estava debruçado sobre a mesa, os dedos manchados de tinta e o rosto marcado por olheiras que nem mesmo sua linhagem Uzumaki conseguia dissipar, enquanto Hinata, ao seu lado, movia-se com uma elegância gélida, selando relatórios de inteligência com a precisão de quem não se permitia desmoronar.

A porta do escritório rangeu levemente, interrompendo o silêncio técnico que os envolvia, Jiraya entrou no recinto com passos pesados, desprovido da costumeira exuberância que o definia como o “Ermitão Tarado”; seus olhos, que já haviam visto décadas de guerras e perdas, suavizaram-se ao pousarem no afilhado, caminhando até a mesa, observou a postura rígida de Naruto, que mal erguera a cabeça para reconhecer sua presença.

— Padrinho… — A voz de Naruto saiu rouca, um som que carregava o cansaço de mil batalhas e a dor de um neto que acabara de enterrar sua bússola moral.

O Uzumaki finalmente empertigou-se, buscando nos olhos de Jiraya o conforto que as responsabilidades da ANBU lhe negavam.

— Você precisa parar um pouco, Naruto. — Jiraya disse, sua voz grave ecoando com um carinho que rompia a barreira da autoridade militar daquele ambiente — O velho não gostaria de ver você se consumindo dessa forma, como uma vela que queima pelas duas pontas.

Hinata parou o que estava fazendo, seus olhos de lua transbordavam uma tristeza contida, seu olhar analítico e perscrutante repousando em Jiraya, reconhecendo o peso que ele também carregava como o último dos grandes pilares daquela geração; Jiraya suspirou, aproximando-se e colocando uma mão pesada sobre o ombro do rapaz, sentindo a tensão muscular que parecia pronta para quebrar.

— Localizei o paradeiro dela. Tsunade foi vista perto da Vila de Tanzaku. — O Sannin informou, e o nome da última Senju pairou no ar como uma promessa e uma maldição. — Mas ouçam bem: ela não é mais a mulher que vocês encontram nos livros de história. A dor a transformou em algo cínico, algo que foge do próprio nome.

— Nós a traremos de volta, padrinho. — Naruto afirmou, as mãos cerradas sobre a mesa com tanta força que os nós dos dedos empalideceram — Konoha precisa de um rosto elevado para o mundo. Jurei ao vovô que não deixaria a chama apagar, e não vou começar falhando agora.

A jornada preparatória culminou em uma madrugada gélida na cabana da clareira, onde o ar ainda guardava o perfume fantasmagórico do tabaco de Hiruzen, o ranger da porta de madeira, geralmente um som de boas-vindas, soou como um gatilho para os pequenos que dormiam em um sono inquieto; quando ambos guardavam as últimas porções de rações nas mochilas sob a luz bruxuleante das velas, Konohamaru e Hanabi surgiram no corredor, os rostos inchados e os pés descalços contra o assoalho frio. O pânico nos olhos de Konohamaru foi imediato ao notar as bandanas ajustadas e os mantimentos prontos; para o neto do Sandaime, aquela partida noturna era o presságio de um abandono final.

— Naruto-nii, não vai! Por favor, não vai! — Konohamaru implorou, as lágrimas escorrendo sem controle enquanto se agarrava desesperadamente às pernas de Naruto — Se vocês saírem por aquela porta agora, vocês não vão voltar nunca mais… igual ao vovô! Todo mundo que sai de noite não volta mais!

Ao lado dele, Hanabi tremia convulsivamente, as mãos pequenas apertando a barra do vestido enquanto se escondia atrás de Hinata.

— As pessoas do mal… elas vão voltar se vocês não estiverem aqui. — A menina soluçava, a voz falhando pelo terror das memórias do sequestro recente — Vão levar a gente de novo. Não deixa a gente sozinho no escuro, mana!

Ajoelharam-se simultaneamente, a dupla envolve os pequenos em um abraço que era, ao mesmo tempo, um escudo e uma promessa, tranquilizando-os e transmitindo o conforto que seus coraçõezinhos necessitavam; com uma paciência infinita, Naruto segurou o rosto de Konohamaru, limpando as lágrimas com o polegar.

— Olha para mim, Kono. Juro que a gente volta. A gente só vai buscar uma pessoa para nos ajudar a manter as pessoas más longe da Vila. — Naruto explicou com uma sinceridade que acalmou o batimento cardíaco frenético do menino — Por isso precisamos ir agora, para voltar rápido, e não precisar mais ficar longe de você ou da Nabi.

— Você pode ser um pouco mais corajosa, minha flor? Não precisa ter medo, nossos amigos estão protegendo a casa, ninguém vai levar vocês, eu prometo. — Hinata fala docemente a Hanabi, como se estivesse mostrando-lhe o mundo pela primeira vez.

Hinata beijou os rostinhos assustados dos dois, sussurrando promessas de proteção enquanto explicava que Yumi, cuidaria deles em sua ausência, e garantindo que não demorariam a voltar; somente após garantirem que a cabana estava selada por barreiras impenetráveis e que nada no mundo os manteria longe, é que os menores cederam, exaustos, aninhando-se no colo de Yumi, que os aguardava com um olhar de compaixão maternal.

Já nos limites da Vila, sob o manto protetor da névoa matinal, Itachi Uchiha aguardava o grupo, sua máscara de porcelana ocultando a dor de mais uma partida, acompanharia os três por parte do caminho, antes de retornar à sua perigosa e indeterminada missão. Tomara o cuidado, é claro, de executar seu último ato de encenação estratégica; com uma precisão assustadora, produzira evidências incontestáveis de um “intento falido” de capturar a Kyuubi durante o caos da invasão de Orochimaru, garantindo que sua cobertura como traidor perante o mundo permanecesse intacta. Inesperadamente, um vulto surgiu entre as árvores: Sasuke apresentara-se para a despedida. Sem as vendas das mentiras do passado, o jovem Uchiha parecia menor, sentia-se outra vez como uma criança ingênua, os ombros caídos sob o peso do remorso por desprezar o irmão e por cada uma de suas ações, principalmente, o sucedido na Floresta da Morte; Sasuke fitou Itachi timidamente, a vergonha de sua própria ignorância impedindo-o de sustentar o olhar por muito tempo.

Itachi, no entanto, sentiu um alívio profundo ao ver o irmãozinho tolo finalmente trilhando um caminho de verdade; aquele vislumbre de redenção nos olhos de Sasuke deu ao primogênito a força necessária para conseguir desaparecer na escuridão rumo à sua missão de espionagem. Ao chegarem nos portões, os três que vinham pelo limiar da floresta, evitando o centro da Vila, detiveram seus passos, ao depararem-se com aquela conversa muda entre os dois Uchiha’s; quando os viu, Itachi murmurou um “preciso ir” ao irmão, que com um nó formando-se na garganta, apenas ergueu uma mão trêmula num aceno constrangido. O grupo partiu num piscar de olhos, tão silenciosos como a noite, deixando Konoha para trás, uma ferida aberta, rumo ao desconhecido e carregando o destino de milhares em seus ombros cansados.

O silêncio da floresta além das fronteiras de Konoha era interrompido apenas pelo som rítmico das sandálias dos Shinobis atingindo os galhos úmidos; a névoa, densa como o luto que carregavam, agia como um manto que ocultava a partida dos viajantes do olhar curioso de possíveis espias. A dupla mantinha-se um passo à frente de Jiraya e Itachi, movendo-se com uma fluidez mecânica, as mentes operando em dois planos distintos: o tático, que analisava cada sombra e ruído da mata, e o emocional, que ainda repassava o som do choro de Konohamaru e Hanabi ao serem deixados na cabana.

A jornada para Tanzaku não era apenas uma missão de recrutamento, mas uma travessia pelo purgatório pessoal de cada um ali presente, Jiraya observava as costas de seu afilhado, notando como a postura de Naruto não mais refletia a impulsividade da juventude, mas sim a rigidez de um homem que aceitara o peso de uma coroa de espinhos antes da hora; o Sannin pigarreou, sua voz rompendo a quietude matinal com uma gravidade que contrastava com o ambiente gélido.

— Vocês estão pensando neles, não estão? — Jiraya indagou, sem precisar especificar nomes; o vínculo que unia aquela nova e fraturada família era evidente em cada olhar trocado entre os dois.

— O medo de Konohamaru é racional, padrinho. — Naruto respondeu sem desviar os olhos do horizonte acinzentado — Para ele, a noite tornou-se o cenário onde as pessoas amadas desaparecem. Prometi que voltaria, mas a verdade é que o cheiro de incenso do memorial ainda não saiu das minhas roupas. Como posso garantir o amanhã se continuo enterrado no ontem?

— A segurança não é um estado de espírito, Naruto, é uma construção de barreiras e vontades. — Hinata interveio, sua voz soando como um cristal fino, porém inquebrável — Selamos a cabana, deixamos nossos melhores amigos na guarda e confiamos a Yumi o que temos de mais precioso. Agora, nossa única forma de protegê-los é garantindo que Konoha tenha um coração que bata forte o suficiente para afastar qualquer predador. E esse coração atende pelo nome de Senju.

Quando as fronteiras do País do Fogo começaram a dar lugar às terras neutras, Itachi deteve-se. O vento soprou seus cabelos negros, e seus olhos ônix encontraram o azul tempestuoso de Naruto e o pérola resiliente de Hinata.

— Meu caminho volta-se para Amegakure agora. Preciso continuar minha missão. — A voz de Itachi era um sussurro de autoridade e melancolia.

— Tenha cuidado, Itachi-sensei. — Hinata deu um passo à frente, abraçando-o como sempre fez — Seja prudente, por favor, não se arrisque mais do que já está fazendo.

— A Hina tem razão. — Naruto cruzou os braços, um lampejo de gratidão cruzando sua expressão rígida — Não queremos perder mais ninguém.

Itachi permitiu que um leve, quase imperceptível, sorriso surgisse. Um ato de raríssima expressividade que desarmou a tensão do momento.

— Terei prudência. — Itachi afirmou, fixando o olhar em ambos — Observar vocês dois… ver a postura que assumiram nessa crise… confesso que estou orgulhoso. Meus pirralhinhos cresceram de uma forma que supera qualquer previsão. Fiquem tranquilos. Isso não é um adeus, é um até logo.

Com um último aceno, ele desapareceu em um turbilhão de corvos, deixando apenas o eco de sua confiança.

***

A chegada em Tanzaku, dias depois, foi um choque de realidade, a cidade fervilhava com a decadência típica de um refúgio de jogadores, com armadilhas para os jovens desavisados a cada esquina; sujeitos cheios de lábia abordavam os transeuntes com promessas de fortuna fácil, em outros pontos eram mulheres bonitas que abordavam os rapazes ingênuos e com uma energia juvenil fervorosa, atraindo-os ao instante.

— Ei, que tal nos divertirmos um pouquinho? — Um grupo cercou-os em uma rua.

— É melhor você nem pensar nisso. — Naruto rosnou com uma lâmina já pressionando um ponto vital dela.

Com olhos arregalados e as pernas trêmulas, a mulher imediatamente deixou de tentar bater sua carteira e afastou-se com suas companheiras; ao lado dele, Hinata também já estava pronta, e seus olhos vigiavam cada passo que deram, certificando-se que não trariam comparsas até eles. Após as primeiras horas de buscas, os três decidiram separar-se, e enquanto Jiraya dirigia-se a um daqueles bares de procedência duvidosa, para coletar informações à sua maneira, a dupla seguira pelas ruas, entrando e saindo sorrateiramente por becos e encruzilhadas; coletavam informações também a respeito de como as notícias do ataque a Konoha espalharam-se, e os rumores que captaram os fez estremecer. Os boatos não falavam apenas da morte do Sandaime; falavam de uma “Otária Lendária” que dissipava fortunas em mesas de azar. Ao ouvirem as descrições da conduta de Tsunade Senju, o medo pela saúde financeira de Konoha tornou-se um contrapeso naquela balança. Como poderiam confiar o tesouro e o moral de uma vila em reconstrução a alguém que parecia ter perdido o próprio norte?

Agindo como se estivesse sob suas máscaras de Neko e Kitsune, seguiram com suas buscas, poderiam pensar em formas de prevenção mais tarde, o mais imprescindível no momento era encontrá-la; desta forma, quase na metade da tarde, pela descrição minuciosa da inteligência, reconheceram Shizune, esgueirando-se apressada pelos fundos de uma casa de jogos, encurralada por três cobradores de aparência bruta em um beco estreito. Sem trocar uma palavra ou denunciar sua presença, eles agiram em perfeita sincronia; em um borrão de movimento, os cobradores foram atingidos em pontos vitais, caindo inconscientes antes mesmo de entenderem quem os atacara.

— Por favor, eu não tenho mais nada! — Shizune recuou contra a parede horrorizada, protegendo Tonton.

— Acalme-se, Shizune-san. — Hinata disse, sua voz fria e autoritária — Somos Jounins de Konoha. Viemos em missão oficial. Leve-nos até Tsunade. Agora.

Sem escapatória e temendo a presença daqueles dois, Shizune os guiou até um bar há umas léguas dali, era um lugar mais depravado que o que viram Jiraya entrar, sem qualquer protocolo ou medida para impedir que menores de idade entrassem, como constataram perplexos; faria sentido que os cobradores não as encontrassem, quem esperaria que duas mulheres de nomes e famílias prestigiosas estariam num antro como aquele? Encontraram-na em uma sala privativa, onde o cheiro de saquê era sufocante, misturando-se com o odor nauseabundo do local; após enviarem um sinal a Jiraya, a dupla apresentou-se formalmente como enviados diplomáticos, e Tsunade sequer dignou-se a levantar o olhar.

— Jounins? Konoha enviou bebês para fazerem o trabalho de homens? — Ela riu, um som carregado de cinismo — Aquela Vila é uma piada. Um amontoado de regras inúteis e sacrifícios sem sentido. Vocês estão subestimando minha inteligência se acham que voltarei para aquele buraco.

Suas palavras fluíram como veneno, e seus insultos seguiram atacando a persistência deles, a fragilidade da diplomacia de Konoha e, finalmente, atingiu o nervo exposto.

— E o velho Hiruzen… morreu como viveu: um tolo sentimental que não soube proteger nem a própria sombra. Um fracassado que deixou a Vila se tornar essa carcaça que vocês tentam salvar. — Tsunade dizia cheia de desrespeito petulante.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Naruto sentiu o limite de sua sanidade estalar. O luto pelo avô que o criara, a imagem do caixão sob a chuva… tudo colidiu.

— Cala a boca. — Naruto sibilou, os olhos azuis faiscando — Vamos, Hina, farei a inteligência rever os conceitos de referência. Uma bêbada viciada e desrespeitosa jamais estaria qualificada para ser Hokage. Você é uma vergonha para o sangue que carrega.

Imediatamente Tsunade explodiu, a mesa entre eles foi reduzida a pó quando se pôs em pé repentinamente, e seu punho carregado de chakra devastador mirava o rosto Naruto que não moveu um músculo diante do ataque; Hinata ao lado dele moveu-se fluidamente, com uma rapidez fantasmagórica, interceptou o golpe, e suas palmas colidiram com o punho da Sannin em um estrondo que trincou as janelas e fez o prédio vibrar. Shizune tentou intervir, saltando para ajudar sua mestra, mas a Hyuuga, sem desviar o olhar de Tsunade, desferiu um chute lateral com uma força sobre-humana, arremessando a assistente contra a parede oposta; o vento da colisão revelou o losango de chakra sob a franja da garota e as marcas negras de seu selo espalhando-se por seu rosto.

Antes que Tsunade pudesse recuperar-se do choque de ser bloqueada por uma garota, grossas correntes douradas — as Correntes Adamantinas — irromperam do corpo de Naruto, serpenteando pelo ar com uma vontade própria, envolvendo a Senju e a Inuzuka com uma precisão aterradora, prendendo-as e subjugando-as contra o solo e a parede, anulando qualquer fluxo de chakra físico; a tensão era hostil, quase palpável, quando a porta se abriu e Jiraya entrou, seu semblante relaxado sumindo no instante em que viu a Sannin presa e a dupla em postura de combate total, exalando uma intenção assassina que ele raramente vira.

— O que diabos aconteceu aqui? — Jiraya questiona abismado.