Notas iniciais
Olá meu povo!!! Todos bem??? Obrigada, como sempre, por acompanharem e comentarem, e espero que gostem!! Bjuss e até o próximo.

O silêncio que se seguiu à pergunta de Jiraya foi preenchido apenas pelo som metálico e rítmico das correntes de Naruto, que vibravam levemente, pulsando com o chakra denso e furioso do Uzumaki; a Sannin das Lesmas, imobilizada contra o chão, arquejava; seus olhos, antes nublados pelo álcool, agora estavam arregalados, fixos nas correntes douradas que brilhavam com uma herança que ela reconhecia de um passado doloroso.

— O que aconteceu, padrinho? — Naruto sibila, sua voz rouca carregava o peso de anos de solidão e o luto recente — É que acabamos de confirmar que o título de Sannin não compra caráter.

Quando deu um passo à frente, as correntes se apertaram um milímetro, o suficiente para fazer o ar escapar dos pulmões de Tsunade; Naruto inclinou-se sobre ela, o rosto a poucos centímetros do dela. Foi nesse instante que o mundo de Tsunade pareceu oscilar; de perto, sem a distração do conflito, a semelhança era devastadora. Aqueles olhos, a estrutura do rosto, a determinação inabalável que queimava nas pupilas azuis… Era como se os fantasmas de Nawaki e Minato tivessem colidido em uma única presença física à sua frente; o choque a desconsertou de uma forma inesperada, atingindo-a mais profundamente do que qualquer golpe físico.

— Viemos oferecer um fardo e uma honra. — Naruto dizia, sustentando o olhar dela com uma intensidade que a fez desviar o rosto, incapaz de encarar aquela imagem — Mas recebemos o escárnio de alguém que cospe na memória daqueles que deram a vida para que ela pudesse ter o luxo de se tornar essa… carcaça embriagada.

Hinata, ao lado dele, não relaxou a postura, o selo em sua testa pulsava em um ritmo sombrio, e a aura que emanava dela não comparava-se com a de qualquer Kunoichi que as duas mulheres já tenham conhecido, ela era uma arma forjada no autocontrole e na proteção absoluta de seu companheiro; seu olhar faiscante desviara-se friamente para Shizune, que tossia contra a parede, e depois voltou-se para o padrinho de Naruto.

— Ela insultou o Sandaime-sama, Jiraya. — Hinata declarou, a voz cortante como uma lâmina de gelo — Chamou-o de tolo. Chamou nossa casa de buraco. Não permitiremos que o sacrifício do vovô seja diminuído por quem não tem coragem de carregar sequer o próprio nome.

Jiraya sentiu um calafrio percorrer a espinha, conhecia a força daqueles dois, mas vê-los ali, subjugando uma das Shinobis mais poderosas da história com tamanha eficiência e frieza, era um testemunho perturbador de quão longe haviam ido.

— Naruto, Hinata… soltem-nas. Agora. — O tom de Jiraya era firme, mas havia uma nota de súplica — Tsunade é... difícil. Mas precisamos dela.

— Precisamos de um Hokage, padrinho. — Naruto retruca, soltando finalmente o fluxo das correntes, que recolheram-se para o interior de suas costas como serpentes obedientes — O que vejo aqui é apenas uma mulher fugindo de fantasmas, usando o azar como desculpa para sua covardia. Se ela quer ser uma civil, que viva como uma. Mas se abrir a boca para falar do vovô novamente…

Ele não terminou a frase. O vácuo deixado pela ameaça implícita era mais aterrorizante do que qualquer palavra. Tsunade levantou-se lentamente, limpando o rastro de sangue no canto da boca, o coração ainda disparado pelo impacto da semelhança física do garoto; o choque do Juuken de Hinata ainda ressoava em seus canais de chakra, um lembrete físico de que o mundo não havia parado enquanto ela se afogava em garrafas de saquê. A Senju olhou para o rapaz — para as correntes que eram a imagem viva de Kushina — e, por um instante, o cinismo vacilou, dando lugar a uma dor crua e antiga.

— Vocês têm muito fogo para quem mal saiu das fraldas. — Tsunade murmurou, embora a arrogância anterior tivesse sido substituída por uma exaustão profunda e um visível desconcerto.

— Esse fogo é o que mantém a Vila acesa enquanto você aposta o resto das nossas esperanças em dados viciados. — Hinata rebateu, não usava mais o Byakugan e as marcas do Byakugou recolheram-se ao losango diamante em sua testa; contudo suas mãos seguravam firmemente seus Tessen’s.

O clima no bar estava saturado de uma melancolia hostil. A dupla de jovens deu as costas para a Sannin, dirigindo-se à saída com a dignidade de quem já não esperava nada daquele encontro.

— Estaremos na estalagem ao norte até o amanhecer. — Naruto disse sem olhar para trás — Decida-se, Senju. Se quer continuar sendo a “Otária Lendária” ou se o sangue do Shodaime ainda serve para algo além de ser derramado em brigas de bar.

Nenhum dos três que permaneceram moveu um músculo, após a porta bater, ficaram presos na densidade sufocante deixada pela dupla, com aquela energia eletrizante ainda pairando no ar, crepitando e sibilando como agouros; Tsunade permanecia estática, os dedos ainda trêmulos não apenas pelo esforço físico de resistir às correntes, mas pelo tremor na alma que aquele olhar azul lhe causara. Shizune, recompondo-se com dificuldade, aproximou-se da mestra, mas a Sannin a afastou com um gesto brusco, voltando seus olhos cor de mel para Jiraya.

— Quem… — Tsunade começou, a voz falhando antes de ganhar uma nota de exigência desesperada e exasperada — Quem diabos são aqueles pirralhos, Jiraya?! Que tipo de monstros você trouxe até mim? Aquele garoto… aquela força… e aquelas correntes…

Jiraya suspirou profundamente, caminhando até o que restara da mesa e pegando uma garrafa de saquê que, milagrosamente, não havia quebrado; serviu-se sem pressa, pensando detidamente como explicar tudo aquilo, o semblante carregado de uma gravidade que raramente mostrava.

— Você sentiu, não foi? — Jiraya fitava o líquido transparente, como se visse algo dolorosamente aterrador — O choque de realidade dói mais que o soco daquela garota.

— Não mude de assunto! — A mulher rugiu, avançando um passo — Ele me chamou de covarde, aquele moleque me olhou como se eu fosse um nada... e ele se parece tanto com...

— Ele é o filho do Minato, Tsunade. Filho de Minato e Kushina. — As palavras de Jiraya caíram como marretadas no ambiente — O nome dele é Uzumaki Naruto. Ele é meu afilhado. A criança que, naquele terrível desastre, acreditamos ter morrido junto com os pais naquela noite há treze anos. Hiruzen-sensei o escondeu do mundo, temendo pela segurança dele, por ser filho de quem é, e por ser o novo Jinchuuriki da Kyuubi.

Tsunade cambaleou, as costas encontrando o apoio da parede. O rosto de Minato, o sorriso de Kushina... tudo convergia para aquele jovem que acabara de ameaçá-la.

— E a garota? — Shizune perguntou, a voz trêmula — Ela... ela me atingiu antes mesmo que eu pudesse formular um selo.

— Hinata. Filha de Hyuuga Hiashi. — Jiraya tomou um gole longo — Excomungada pelo clã aos quatro anos por ser considerada “fraca demais” pela linhagem principal. O Sandaime a acolheu sob sua proteção pessoal desde então. Ela e Naruto cresceram juntos, não como crianças comuns, mas sendo forjados, lapidados e quebrados pela elite dos Jounins de Konoha sob ordens diretas de Hiruzen.

Jiraya deixou a garrafa de lado e encarou Tsunade com uma seriedade mortal, via a incompreensão nos olhos dela, mas não tinha outra forma de fazê-la entender, se não dizendo a verdade nua e crua.

— Oficialmente, para os registros civis e para o mundo lá fora, eles foram promovidos a Jounins recentemente. São o Time Deltha do Hokage. Mas a verdade que apenas os líderes de clãs e o alto escalão conhecem é muito mais sombria. Eles são os temidos Tenentes da ANBU, codinomes Neko e Kitsune. — Jiraya conta, esperando que ela já esteja lúcida o bastante para compreender.

— Tenentes? Aquelas crianças comandam os esquadrões de assassinato de Konoha? — Tsunade soltou uma risada nervosa, quase histérica.

— Eles não apenas comandam, Tsunade. Eles são a arma definitiva da Vila. — Jiraya cruzou os braços — Quando Orochimaru atacou, eles já tinham toda uma operação de contramedidas, já sabiam e inclusive, tomaram um dos aliados dele. Eles foram o muro que repeliu o Sannin das Cobras enquanto a Vila sangrava. Se Konoha ainda respira hoje, é porque aqueles dois “bebês”, como você os chamou, estavam dispostos a manchar as mãos de sangue desde que mal aprenderam a andar sem cair.

Naqueles instantes, após as palavras de Jiraya morrerem na quietude daquela sala malcheirosa, a atmosfera tornou-se pesada, Tsunade olhou para as próprias mãos, as mãos da maior ninja médica do mundo, que agora pareciam pequenas diante do peso daquela revelação; a imagem de Naruto sibilando “Cala a boca” ecoava em sua mente como um julgamento.

— Eles não vieram aqui por nostalgia, Tsunade. — Jiraya afirma, sendo realista — Eles vieram por dever. E, honestamente? Depois do que você disse sobre o velho... eu duvido que eles te perdoem, mesmo que você aceite o chapéu.

Tsunade soltou uma risada ríspida, um som carregado de uma incredulidade defensiva, como se tentasse desesperadamente manter os restos de seu mundo cínico intactos; agarrando-se à mesa quebrada, os olhos faiscando, uma negação muda e contundente.

— Tenentes da ANBU aos treze anos? — Tsunade sibilou, a voz subindo de tom — Você está delirando, Jiraya! Aquelas duas raposas velhas, Homura e Koharu... eles jamais permitiriam tal heresia. Eles controlam o conselho com mãos de ferro há décadas. Eles nunca endossariam a posse desses pirralhos em cargos de tamanha influência, muito menos permitiriam que o legado do Shodaime fosse entregue a crianças doutrinadas.

Jiraya soltou um suspiro pesado, olhando para ela com uma mistura de pena e decepção, não havia mais nenhum traço da mulher que fora um dia; com um passo lento em sua direção, sua sombra se alongou sob a luz bruxuleante do bar.

— Você não esteve ouvindo nada do que eu disse, não é, Tsunade? — O tom dele era gélido — Você fala de Homura e Koharu como se eles ainda fossem uma autoridade. Mas a verdade é que as duas raposas foram depostas, julgadas e condenadas por traição.

Tsunade congelou. Shizune soltou um suspiro de horror audível atrás dela.

— Como? — A Sannin murmurou, a voz perdendo a força.

— Aqueles dois não foram apenas treinados para lutar; eles foram educados para governar das sombras. — Jiraya explicou, sua voz ressoando com um orgulho sombrio — Eles foram instruídos por cada mestre que Konoha tinha a oferecer. Aprenderam a arte da quebra psicológica e da extração de verdade com Ibiki; absorveram as nuances da política e da estratégia de Estado com Ebsu e Asuma. Quando entraram para a Divisão ANBU, aos sete anos, eles não se tornaram apenas assassinos. Eles se tornaram investigadores silenciosos.

Jiraya aproximou-se ainda mais, o semblante endurecido, sempre sentia um profundo remorso quando tocava no passado do afilhado; queria que Naruto tivesse sido a criança mais feliz e segura do mundo.

— Durante anos, Neko e Kitsune coletavam cada prova, cada desvio de fundo, cada negligência e cada segredo obscuro que os conselheiros escondiam nos porões da Vila. Eles montaram um dossiê impecável, uma armadilha política da qual não houve escapatória. No momento certo, eles desferiram o golpe. Os velhos não caíram por força bruta, Tsunade; eles caíram pela inteligência superior de duas crianças que decidiram que Konoha não seria mais um joguete de burocratas covardes. — Ele fez uma pausa, deixando o peso daquela nova realidade assentar — Atualmente, a estrutura de Konoha mudou. O poder agora é uma tríade absoluta, arquitetada e instaurada por eles: o Hokage, o conselho dos Líderes de Clãs integrados à Inteligência, e a ANBU, que agora detém a responsabilidade sobre todo o corpo Shinobi. Acima deles na Divisão, existe apenas o Capitão, e ele lhes dá carta branca total. Eles têm autonomia para agir como bem entenderem, porque a eficácia deles é absoluta. Essa é a nova ordem de Konoha, Tsunade. Uma ordem que não tem espaço para as fraquezas do passado.

Tsunade sentiu o chão sumir sob seus pés, aquela Vila que ela tanto desprezava em seu luto não era mais a mesma carcaça de antes; havia sido transformada por mãos jovens, impiedosas e brilhantes.

— Eles não vieram pedir seu favor. — Jiraya finalizou, caminhando para a saída — Eles vieram avaliar se você é digna de ser a peça que falta nessa nova engrenagem. E, pelo que vi hoje, acho que já tiraram a conclusão deles.

Tsunade permaneceu estática, a mão direita ainda cravada na madeira estilhaçada da mesa, o som dos passos de Jiraya desaparecendo no corredor ecoava como uma sentença de morte para a sua negação; Shizune, ao fundo, abraçava Tonton com tanta força que o animal soltou um ganido baixo, mas a assistente mal percebeu, seus olhos estavam fixos na mestra, transbordando um terror que não vinha apenas da força física dos jovens, mas da implicação política do que acabara de ouvir.

— Homura e Koharu... — Tsunade sussurrou para o vazio, a voz trêmula — Aqueles dois... as relíquias do tempo do meu avô... derrubados por crianças.

Ela olhou para as próprias mãos. O sangue que corria nelas era o de Senju Hashirama, mas pela primeira vez em décadas, esse sangue pareceu pesado demais, uma herança que ela não mais honrava, enquanto dois órfãos — um deles carregando o legado proibido do Yondaime — haviam reconstruído os alicerces de uma nação inteira; seu desconcerto era total, a imagem de Naruto, com aquelas correntes de ouro e o olhar de gelo, sobrepunha-se a cada memória de Minato que ela guardava. Ela não fora apenas desafiada; ela fora declarada obsoleta.

— Shizune. — Tsunade chamou, a voz subitamente rouca — Prepare as coisas. Não vamos fugir desta vez.

Enquanto isso, na estalagem ao norte, o ambiente era de uma calma clínica e profissional, desprovida de qualquer traço da explosão emocional ocorrida no bar; os dois jovens não descansavam, a mesa da pequena sala estava coberta por pergaminhos de criptografia avançada e mapas táticos. Naruto estava sentado com a coluna ereta, o olhar focado em um pequeno pergaminho de invocação que acabara de chegar via falcão mensageiro, o brilho azul de seus olhos, outrora nublado pela fúria, agora era uma luz analítica e fria; suas mãos, as mesmas que quase esmagaram a Sannin com correntes adamantinas, moviam-se com precisão ao decodificar as mensagens da Inteligência de Konoha.

— Relatório de progresso da reconstrução do setor leste. — Naruto murmurou, a voz destituída de qualquer cansaço — Shikaku informa que os suprimentos de ferro do País do Vento chegaram sem intercorrências. O cronograma está três dias adiantado.

Hinata, sentada à sua frente, operava com a mesma eficiência silenciosa, mantendo um selo de privacidade ativo ao redor do quarto, garantindo que nem mesmo o som de suas respirações vazasse para o corredor; a Hyuuga finalizava a análise de um relatório da ANBU e o estendeu para Naruto.

— Sakumo enviou os resultados dos interrogatórios dos remanescentes de Suna. Nada que comprometa a nova aliança, mas ele sugere vigilância redobrada nas fronteiras do Norte. Kabuto continua em privação sensorial. — Ela fez uma pausa, seus olhos perolados encontrando os de Naruto — E a situação do Shimura?

— Monitorada. — O Uzumaki respondeu secamente, fechando o pergaminho com um estalo — Inoichi relatou que já estão interceptando todos os seus meios de comunicação.

O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo som do pincel de Hinata deslizando sobre o papel enquanto redigia as diretrizes que enviariam de volta à Vila antes do amanhecer, mesmo a quilômetros de casa, a pulsação de Konoha ainda dependia do ritmo daqueles dois, de sua capacidade de estabelecer os padrões e conduzir as engrenagens, para que então, tudo andasse perfeitamente; Naruto olhou pela janela, para a lua que iluminava Tanzaku, e por um breve segundo, a máscara de Tenente vacilou, revelando o luto profundo pelo Sandaime que ainda queimava em seu peito.

— Ele teria orgulho da Vila agora, Hina. — Sua voz rompeu o sossego, subitamente mais suave, humana — Todos estão sendo tão fortes e resilientes.

Hinata parou de escrever e tocou a mão dele sobre a mesa, um gesto breve de conforto absoluto antes de ambos retornarem à frieza de suas responsabilidades.

— O vovô teria orgulho de você, Naruto. Agora, vamos terminar isso. Quero voltar logo para casa, com ou sem a Senju. — Hinata diz, incentivando-o, como sempre fizera.

Ao dia seguinte, o sol ainda não havia vencido completamente a névoa matinal de Tanzaku quando Jiraya conduziu Tsunade e Shizune pelo corredor da estalagem, o silêncio do Sannin era pesado; ele sabia que as próximas horas definiriam o futuro de Konoha. Tsunade, por sua vez, exibia olheiras profundas, passara a noite em claro, oscilando entre a negação e o peso das revelações de seu antigo companheiro de equipe; ao pararem diante da porta de carvalho, Tsunade sentiu um aperto involuntário no peito. No fundo de sua mente, ela esperava encontrar uma cena que fizesse sentido para a idade daqueles dois: um quarto bagunçado, um momento de guarda baixa, uma descontração típica compatível com a idade deles. Jiraya bateu duas vezes; um código rítmico específico.

— Entrem. — A voz de Hinata ecoou, clara e desprovida de sono.

Quando a porta se abriu, a expectativa de Tsunade foi estilhaçada por uma realidade gélida e funcional. Não havia adolescentes ali; havia uma unidade de comando. O quarto havia sido completamente reorganizado, a cama de casal estava intocada, as cobertas esticadas com precisão militar; o centro do aposento fora dominado por uma mesa circular improvisada, coberta por dezenas de pergaminhos abertos, mapas táticos marcados com tinta vermelha e preta, e pequenos frascos de tinta de secagem rápida. Naruto e Hinata estavam sentados lado a lado, mas a proximidade entre eles não exalava sentimentalismo; exalava eficiência. Naruto estava com um fone de comunicação sutil em um dos ouvidos, analisando uma planilha financeira detalhada, enquanto Hinata finalizava a selagem de um pergaminho bélico destinado à fronteira do País do Raio.

— Vocês... vocês dormiram? — Shizune perguntou, chocada com o volume de trabalho processado.

— Dormir é um luxo que a reconstrução de uma Vila não permite em larga escala, Shizune-san. — Hinata respondeu sem levantar o olhar, sua voz mantendo o tom de autoridade que usara no bar — Recebemos três informes de inteligência e dois relatórios do Tesouro durante a madrugada.

Tsunade caminhou lentamente para dentro do quarto, sentindo-se uma intrusa em um território que deveria ser dela por direito de sangue, estendeu a mão para um dos relatórios espalhados; era um balanço detalhado sobre as reservas de grãos e a realocação de verbas dos clãs civis para a reforma do hospital central.

— Isso é... — Tsunade começou, os olhos varrendo os números com precisão — Vocês estão gerindo a economia de guerra da Vila daqui? Deste quarto de estalagem?

— Estamos garantindo que não haja vácuo de poder até que um sucessor oficial seja nomeado. — Naruto disse, levantando finalmente o olhar para ela; e mesmo sem a máscara de ANBU, sua expressão era igualmente impenetrável — Konoha não para porque o Hokage caiu. Somos o suporte que mantém a estrutura de pé.

O Uzumaki apontou para um pergaminho específico, dourado com o selo do Clã Senju.

— Deixamos este separado para você. É o inventário médico e a lista de casos críticos que ainda não puderam ser tratadas pela equipe atual. Se você decidir que sua vida em mesas de azar é mais importante do que essas vidas, sinta-se livre para sair por aquela porta. — Era uma provocação clara.

Tsunade sentiu a face arder. Ali, naquele ambiente saturado de trabalho e dever, a “Otária Lendária” sentia-se pequena, fitando aqueles dois, e percebendo que a conexão entre eles era forjada no fogo da responsabilidade compartilhada; e era algo muito mais inquebrável do que qualquer união já vista.

— Vocês realmente não são crianças, não é? — Tsunade murmurou, pegando o pergaminho médico com uma firmeza que não exibia há anos.

— O tempo de ser criança morreu há seis anos. — Hinata declarou, levantando-se e batendo as mãos para limpar o pó de giz — Agora, Senju-sama, o café está na mesa ao lado. Coma. Temos uma Vila para salvar e pouco tempo para discussões inúteis.

O ambiente no quarto mudou de imediato, não houve cerimônia ou protocolos vazios. Tsunade, instigada pelo desafio de Naruto e pela urgência nos olhos de Hinata, puxou uma cadeira e mergulhou nos relatórios médicos; por horas, o som predominante era o de pergaminhos sendo desenrolados e o sussurro constante de trocas de informações.

A Sannin ficou impressionada, a organização dos dados era impecável, as prioridades cirúrgicas estavam listadas por gravidade de trauma e compatibilidade de chakra, algo que facilitaria o trabalho de qualquer ninja médico em campo; e enquanto traçava estratégias de contenção de danos para o hospital, via Naruto coordenar a logística de suprimentos com uma frieza matemática e Hinata revisar relatórios de segurança das fronteiras, antecipando movimentos de vilas rivais que pudessem tentar se aproveitar da fragilidade de Konoha. A eficácia deles era assustadora. Eles não apenas coletavam dados; eles os transformavam em soluções antes mesmo que o problema escalasse.

— Por que facilitar tanto o meu caminho? — Tsunade perguntou subitamente, sem tirar os olhos de um balanço financeiro — Depois de tudo o que eu disse... vocês estão me entregando as chaves do reino de bandeja. Estão me dando a localização de cada peça no tabuleiro e a honestidade absoluta sobre os pontos cegos da Vila. Por que não manter o controle para vocês, já que parecem gerir tudo tão bem?

Naruto parou de escrever e recostou-se na cadeira, encarando-a com uma serenidade que contrastava com a fúria da noite anterior; parecia um adulto com décadas de vida, preso em um corpo jovem.

— Se você aceita o chapéu, Tsunade-sama, você aceita ser o símbolo absoluto de força que Konoha necessita. — Ele respondeu, sua voz firme e ressonante — A Vila precisa de uma figura que inspire esperança e temor em partes iguais. Se você estiver disposta a carregar esse peso, sempre terá a nossa lealdade. Mas entenda: essa lealdade segue a nova estrutura de poder. Estaremos ao seu lado, servindo como sua lâmina e seu escudo, sempre e quando nenhuma decisão sua seja prejudicial para o futuro de Konoha.

Hinata, que selava um último informe, levantou o olhar perolado, complementando com uma lucidez cortante; não era o tipo de atitude ou postura que uma garota tão delicada deveria ter.

— Não confunda nossa colaboração com esquecimento. Nossas desavenças pessoais e as ideologias divergentes que surgiram ontem no bar ainda existem. — Ela afirmou, o selo em sua testa brilhando levemente sob a luz da manhã — No entanto, fomos treinados para ser ferramentas de Estado antes de sermos indivíduos. Aprendemos a separar o trabalho do pessoal há anos, sob as ordens do Sandaime. Fizemos isso enquanto limpávamos o rastro de traidores e faremos o mesmo com você. Para nós, a sobrevivência de Konoha está acima de qualquer mágoa.

Tsunade sentiu um arrepio, a honestidade deles era desprovida de bajulação; era uma aliança pragmática, forjada em aço e dever. Ela viu em Naruto não apenas o filho de Minato, mas um estrategista que entendia o valor de um ícone. Viu em Hinata a disciplina de alguém que sobreviveu à própria família e se tornou algo maior.

— Uma estrutura de poder que me vigia enquanto me apoia... — Tsunade deu um sorriso de canto, uma centelha de sua antiga chama voltando aos olhos — Hiruzen realmente criou monstros, Jiraya. Mas talvez sejam os monstros de que precisamos para enfrentar o que vem por aí.

Ela fechou o relatório médico e levantou-se, a postura agora ereta, emanando a autoridade que o sangue Senju lhe conferia.

— Terminem de organizar esses informes. Vamos para casa. Quero ver pessoalmente o que esses “Tenentes” fizeram com a minha Vila. — Sem notar, sua voz soou até expectante.

A viagem de volta para Konoha não se assemelhava em nada às peregrinações caóticas que Tsunade e Shizune costumavam fazer entre uma casa de jogos e outra, o ritmo era imposto por Naruto e Hinata: uma marcha constante, precisa e silenciosa. O caminho que seguiam já havia sido previamente inspecionado por clones usados como batedores; cada curva da estrada e cada densidade da floresta pareciam estar sob o controle absoluto da dupla. Shizune observava, boquiaberta, como a comunicação entre eles e a Vila continuava mesmo em movimento. As informações que passavam para Tsunade eram precisas e concisas: logística de suprimentos, o estado de saúde dos pacientes críticos e a movimentação das fronteiras. Nada de fofocas, nada de rodeios. Era a eficiência pura de uma máquina de guerra.

A primeira noite de acampamento em campo aberto trouxe consigo uma atmosfera que as paredes de pedra da estalagem não permitiam, após selecionarem uma clareira estratégica, protegida por uma fonte de água cristalina que corria entre rochas musgosas, Naruto e Hinata agiram como uma extensão um do outro; em poucos minutos, selos de proteção e barreiras de ocultação foram erguidos, isolando o grupo do resto do mundo. Sentados sobre uma raiz exposta, os dois Tenentes terminaram de processar os relatórios que haviam chegado com o último raio de sol; o semblante era o de sempre: analítico e rigoroso. No entanto, ao abrirem o último pergaminho enviado por Shikaku, a rigidez militar que os definia simplesmente evaporou, não era um relatório bélico, nem uma planilha financeira; era um desenho feito à mão, com traços infantis e cores vibrantes, feito por Konohamaru e Hanabi. Na nota anexa, Shikaku explicava que os pequenos não paravam de perguntar por eles; para acalmá-los, Yumi tivera a ideia de pedir que desenhassem algo para enviar aos dois.

— Olha só isso, Hina... — O sussurro de Naruto quebrou o silêncio da noite, mas sua voz não era mais a do ANBU; era doce, carregada de uma ternura que fez Tsunade parar o que estava fazendo — O Kono desenhou até o cachecol dele.

Hinata soltou um riso baixo, uma melodia pura que iluminou seu rosto de uma forma que o Byakugan jamais conseguiria; seus dedos traçaram o desenho de Hanabi com um carinho devocional.

— Ela desenhou o jardim de casa, Naruto. Veja, ela nos desenhou de mãos dadas perto do balanço. — Hinata transbordava carinho em suas feições e voz.

Naruto levantou-se e caminhou até Jiraya, com o pergaminho em mãos e um sorriso que parecia o de uma criança no dia de sua graduação.

— Padrinho, olhe! Eles desenharam você também. — O Uzumaki disse, apontando para uma figura alta e descabelada no canto do papel — O Kono disse que é para você não se perder no caminho de volta.

Jiraya riu, uma risada rouca e emocionada, enquanto a dupla guardava o desenho em um pergaminho de armazenamento especial, manuseando-o com mais cuidado do que se fosse um segredo de Estado; logo daquele instante, onde eles despiram-se de seu lado ninja, o trabalho finalmente fora encerrado e os pontos críticos e urgentes revisados, dando lugar ao cansaço da caminhada e das noites insones que finalmente cobrou seu preço. Com a mesma naturalidade de quem respira, Naruto estendeu uma manta grossa sobre o solo macio e dispôs suas mochilas para servirem de escoro; não houve hesitação, não houve a coibição ou a timidez atrapalhada que se esperaria de jovens daquela idade. Ao deitar-se, Naruto puxou Hinata para o seu lado, aconchegando-a em seus braços como fazia em casa, em seus momentos de privacidade; a garota acomodou-se contra ele sem demora, encaixando-se perfeitamente em seu abraço, buscando o calor e a segurança que só o corpo dele oferecia. As mãos se entrelaçaram com carinho sobre o peito de Naruto, e os sussurros íntimos entre eles — palavras suaves sobre a Vila e os pequenos — tornaram-se um murmúrio rítmico que serviu de canção de ninar até que o sono os alcançasse. Tsunade, que estava prestes a levar a garrafa de saquê aos lábios, parou no meio do movimento, ficando estática, observando o par adormecido. A imagem daquelas duas “armas de guerra” transformadas em dois jovens que buscavam paz um nos braços do outro a impactou profundamente; o cinismo que ela carregava como escudo pareceu rachar diante daquela pureza.

— Jiraya... — A mulher esqueceu-se completamente da bebida na mão e inclinou-se para o companheiro aos cochichos — Eles são... eles são um casal? De verdade?

Jiraya, que mantinha o olhar fixo no fogo com uma expressão de quem finalmente via uma promessa ser cumprida, assentiu quase imperceptivelmente.

— Eles são tudo o que restou um ao outro, Tsunade. — Ele cochichou de volta — Aquilo ali não é apenas romance adolescente. É sobrevivência. É o único lugar no mundo onde eles não precisam ser Tenentes. Onde eles podem apenas... ser.

Tsunade voltou a olhar para eles, sentindo um nó na garganta, pela primeira vez, ela não viu neles apenas o legado de Minato ou a dor de Hiruzen; via o motivo pelo qual Konoha ainda valia a pena ser salva.

A manhã seguinte chegou com a luz pálida e cinzenta que antecede o amanhecer, antes mesmo que o primeiro pássaro cantasse, o grupo já estava de pé. Tsunade, impactada pela revelação da noite anterior, não desgrudava os olhos dos dois nem por um segundo; agora que o véu da incredulidade fora removido, as sutilezas daquela relação pipocavam diante dela como chispas em uma fogueira. Ela observava a forma como Naruto, ao organizar as mochilas, tocava brevemente o ombro de Hinata; um gesto de ancoragem física que dizia “estou aqui”. Notava como os olhos dele a seguiam, cintilantes e embevecidos, perdendo a frieza de Tenente sempre que ela sorria para um pensamento distante. Hinata, por sua vez, exibia um cuidado devoto; ela ajustava as bandagens de Naruto com um esmero que beirava o sagrado, um zelo que Tsunade poucas vezes vira em sua longa vida.

Um pavor diferente, porém, igualmente aterrorizante, começou a se apossar da Senju, ver uma relação tão profunda, íntima e visceral em jovens de treze anos acendeu um alerta máximo em sua mente de médica; somando aquilo à informação de Jiraya — de que moravam sozinhos em uma cabana isolada na floresta — a conclusão de Tsunade foi imediata e clínica. Aproveitando a marcha, ela desacelerou o passo, deixando que Jiraya e Shizune seguissem mais adiante; quando a distância foi considerável, ela se posicionou entre os dois jovens, iniciando o que parecia um interrogatório técnico inocente.

— Me digam... — Tsunade começou com voz neutra — Vocês aprenderam como funcionam as autópsias em seu treinamento com a Inteligência?

— Sim. — Hinata respondeu prontamente, embora sua voz carregasse um leve pesar — Ibiki-sensei nos ensinou como desmembrar e conduzir uma autópsia do começo ao fim.

— Entendo. Então vocês sabem como o corpo humano é por dentro? — Tsunade insistiu, olhando para Naruto.

— Sim, nós sabemos. — Naruto afirmou, desconfiado com o rumo da conversa, embora mantivesse a cortesia.

— Bom. Então vocês conhecem as diferenças físicas e biológicas. — Tsunade parou de rodeios; seu tom mudou bruscamente para uma instrução médica autoritária, instrutiva e preocupada — Já que vocês moram sozinhos e são o que são um para o outro, vamos falar sobre sexo, prevenções e riscos.

O choque foi imediato, Naruto quase tropeçou em uma raiz exposta e Hinata sentiu o sangue subir para o rosto com tanta força que seus ouvidos zumbiram; Tsunade, porém, ignorou os murmúrios embaraçados de que “Kurenai já havia dado a teoria” e avançou com a crueza de uma cirurgiã.

— Kurenai é uma puritana! Ela fala de flores e abelhas. Eu falo de mecânica e fluidos. O coito, crianças, não é um aperto de mãos. É uma fricção rítmica e intensa que busca o ápice do prazer através da penetração profunda. — Ela juntou as mãos, simulando com os dedos um encaixe rítmico e vigoroso que fez Naruto desviar o olhar para o chão, mortificado — O pênis, quando ereto pela excitação que a proximidade de vocês causa, busca o canal vaginal, que se expande e lubrifica para recebê-lo. Se não houver proteção, o sêmen é depositado diretamente no colo do útero, e com o vigor que vocês dois têm, a concepção é quase garantida em uma única noite.

— Tsunade-sama... por favor... — Hinata sussurrou como um bule de chá chiando.

— Ouçam e aprendam! — Tsunade continuou, implacável, descrevendo com precisão anatômica as zonas de prazer — Não se trata apenas do ato final. A estimulação do clitóris e das glândulas é o que prepara o corpo da mulher para a distensão necessária. Sem isso, a força física de um Shinobi como você, Naruto, pode causar lacerações internas graves. E por isso, garoto, você precisa controlar esse fluxo de chakra; uma descarga involuntária no momento do espasmo muscular do orgasmo pode literalmente estourar os vasos sanguíneos dela se você não estiver consciente.

Neste ponto, Tsunade parou a caminhada por um instante, obrigando-os a encará-la. Ela retirou de sua bolsa de suprimentos médicos um pequeno invólucro de látex fino e um frasco de óleo medicinal.

— Prestem atenção na parte prática da prevenção. — A Senju ordenou, enquanto demonstrava com as mãos como desenrolar a proteção sobre uma superfície cilíndrica improvisada, com uma agilidade técnica impressionante — O uso deve ser contínuo do início ao fim da fricção. Qualquer contato prévio com o fluido pré-ejaculatório pode conter gametas masculinos. E você, Hinata, deve sempre verificar se o receptáculo não rompeu devido à intensidade do movimento. Se romper, você tem exatamente doze horas para ingerir a infusão de raiz de maca que vou lhes entregar.

Tsunade gesticulou novamente, detalhando posições e os riscos de lesões por excesso de força física, considerando que ambos eram Shinobis de alto nível.

— Se forem fazer, e eu sei que vão, usem as ervas que ensinei ou os métodos de barreira adequadamente. Não quero a minha melhor unidade de combate fora de serviço por nove meses porque decidiram explorar a anatomia sem cautela. — Ela olhou para os atributos de ambos uma última vez, balançando a cabeça — Com esse seu tamanho, Naruto, e a receptividade da Hinata, vocês são uma bomba relógio biológica. Entenderam? O suor, o contato pele a pele e a troca de fluidos criam um vínculo químico que vicia o cérebro; se não tiverem cuidado, estarão um em cima do outro em cada beco de Konoha. A higiene pós coito também é vital para evitar infecções no trato urinário, Hinata; certifique-se de que ele se limpe adequadamente antes e depois.

Naruto e Hinata não ousaram trocar um único olhar, e seu trajeto, que antes era marcado pela eficiência silenciosa, agora estava carregado por um constrangimento tão denso que poderia ser cortado com uma lâmina; Tsunade, satisfeita com seu “dever cumprido”, acelerou o passo para alcançar Jiraya, deixando para trás dois jovens ninjas de elite que, pela primeira vez na missão, sentiam-se completamente desarmados e nus diante daquela autoridade. O silêncio que se seguiu à saída triunfal de Tsunade era tão pesado que o som das botas dos dois na terra batida parecia ensurdecedor, por quase dez minutos, nenhum deles levantou a cabeça ou desviar o olhar do rastro deixado pela Sannin; Naruto sentia as orelhas queimarem em um tom de vermelho que rivalizava com os cabelos de sua mãe, enquanto Hinata parecia estar operando em um estado de choque catatônico, o Byakugan firmemente fora de uso para evitar ver qualquer “detalhe anatômico” involuntário ao redor. Foi Naruto quem quebrou o transe, com um longo suspiro, uma lufada de ar que parecia carregar todo o peso do constrangimento do mundo.

— “Bomba relógio biológica”? — Ele repetiu, a voz saindo em um tom agudo e incrédulo — Ela realmente... ela realmente usou as mãos para... Hina, eu acho que uma parte da minha alma acabou de ser selada para sempre.

Hinata parou de caminhar, cobrindo o rosto com as mãos, um som abafado escapou entre seus dedos; não era um soluço, mas uma pequena risada nervosa que ela tentou desesperadamente conter.

— Naruto... ela falou sobre a... a “distensão necessária”. — Hinata murmurou, a voz trêmula de vergonha, mas também de uma histeria crescente — Eu sou uma Tenente da ANBU. Eu já encarei ninjas renegados de Rank-S sem piscar..., mas eu nunca quis tanto ser atingida por um Genjutsu de esquecimento na minha vida inteira.

Naruto olhou para ela, vendo como seus ombros sacudiam-se nervosamente, e então, a imagem de Tsunade demonstrando como desenrolar o látex com aquela agilidade cirúrgica passou por sua mente novamente, e a barreira da timidez finalmente ruiu; era uma crise de histeria nervosa, um colapso em seus neurônios que nem Momochi Zabuza fora capaz de causar.

— E a coitada da Kurenai-sensei? — Naruto soltou uma gargalhada alta, genuína e carregada de indignação — “Ela é uma puritana que cora ao ver um peitoral!” Eu tentei dizer que a gente já sabia da teoria, mas ela simplesmente me ignorou como se eu fosse um Genin que ainda acredita que bebês vêm de cegonhas!

Hinata não aguentou mais, aquele momento seria sempre recordado como a maior vergonha de sua vida, e não pelos ensinamentos da Senju, que eram perfeitamente profissionais e preventivos, mas por eles mesmos, que sequer tinham essa espécie de pensamentos. Mesmo que estivessem em uma relação real, não tinham essa classe de “intenção”; talvez pelo treinamento intensivo ao que se submeteram desde sempre, talvez pela sua falta de maturidade nesse sentido, ou por que simplesmente estavam bem como estavam. Mas fato era, que não tinham desenvolvido esse aspecto de sua relação ainda, e embora Hinata soubesse que os meninos operavam em uma frequência diferente, ela também sabia que Naruto não tinha esses impulsos; tudo nele gritava proteção e cuidado, o que dava-lhe segurança para não preocupar-se com esse ponto específico de sua relação. Hinata também não era tola, sabia que esse momento um dia chegaria, e depois de tantas missões e estudos, sabia o que acontecia, fosse por luxúria ou amor, já conhecia os segredos do ato carnal; apesar de nunca terem tocado no assunto, havia uma certeza que dizia-lhe que esse passo seria dado naturalmente, sem preocupações fora de lugar, e por isso mesmo, a delicada Hyuuga gargalhou cristalinamente, dobrando o corpo para a frente.

— “Peitos enormes”, Naruto! — Ela exclamou, as lágrimas de riso começando a surgir — Ela fez uma previsão médica sobre o meu corpo em uma estrada no meio do nada! Eu estava esperando ordens sobre táticas bélicas e de contenção, e recebi uma aula sobre higiene pós coito e espasmos de chakra!

— “Estatura acima da média”! — Naruto retrucou, gesticulando dramaticamente para o próprio corpo enquanto acompanhava a risada dela — Vou ter que usar uma placa dizendo “Sou um Shinobi, não um garanhão hormonal” para ver se ela para de me analisar como se eu fosse um cavalo de raça!

Eles ficaram ali, no meio do caminho, gargalhando alto sob o sol da manhã, a densidade da vergonha se dissipou no ar, substituída pela cumplicidade de quem acabara de sobreviver a uma tortura psicológica sem precedentes; era uma frustração engraçada, uma indignação pura por serem bombardeados com informações que, embora tecnicamente soubessem, nunca esperaram ouvir de forma tão crua e performática.

— Sabe o que é o pior? — Naruto disse, limpando uma lágrima de riso enquanto recuperava o fôlego — Ela é a nossa nova Hokage. A gente vai ter que olhar para a cara dela todo dia no escritório sem lembrar da aula prática de hoje.

Hinata respirou fundo, recompondo-se, embora o sorriso ainda brincasse em seus lábios, aproximou-se de Naruto e segurou a mão dele, entrelaçando seus dedos com firmeza.

— Pelo menos agora sabemos que, se algum dia decidirmos seguir as “previsões” dela... temos o selo de aprovação médica da Godaime. — A Hyuuga brincou, tentando recuperar sua serenidade natural.

Naruto sorriu, puxando-a para um abraço rápido e protetor, sentindo o calor dela acalmar o resto do seu embaraço.

— É... mas acho que vou preferir o nosso jeito. Sem demonstrações de mãos, de preferência. — O Uzumaki garantiu, com um leve rubor persistente.

Com a tensão dissipada, eles retomaram a marcha, o rosto de Tenentes voltou gradualmente conforme os portões de Konoha começavam a surgir ao longe, mas o brilho divertido em seus olhos dizia que, apesar de tudo, nada no mundo — nem mesmo as aulas explícitas de uma Sannin — poderia abalar o que eles construíram.

Os grandes portões de Konoha erguiam-se imponentes contra o céu azul, mas a atmosfera que os cercava não era a de uma vila em luto, e sim a de uma potência que se reencontrava com sua força; a recepção era uma visão sem precedentes: a elite política e militar de Konoha estava perfilada em uma guarda de honra silenciosa e poderosa.

À frente, a linhagem Hyuuga marcava presença com uma complexidade única: Hizashi, o atual líder, mantinha uma postura impecável ao lado de seu sucessor, Neji, e de Hiashi, o ex-líder que agora atuava como assessor, observando com olhos atentos; ao lado deles, a tríade Ino-Shika-Cho original e seus herdeiros: Nara Shikaku e Shikamaru, com sua inteligência estratégica, Yamanaka Inoichi com a jovem Ino, e Akimichi Choza com Chouji. Aburame Shibi e Shino permaneciam como sombras estoicas, enquanto Inuzuka Tsume e Hanna contendo a energia vibrante de seus companheiros caninos. Uchiha Hiro e Shimura Hazo completavam o conselho de clãs, ladeados pelos Jounins de elite: Hatake Kakashi, Sarutobi Asuma, Maito Gui, Haruno Sakumo, Mitarashi Anko, Sai e o enigmático Tenzou, o Capitão da ANBU que mantinha a ordem absoluta; embora, entre os Inuzuka’s e Hyuuga’s e o Sarutobi presentes, uma braçadeira branca em seus braços esquerdos denunciasse o luto de suas famílias, suas posturas não eram menos solenes e respeitosas. No entanto, o protocolo rígido e a tensão diplomática que cercavam a chegada da futura Godaime foram subitamente quebrados; Yumi, que acompanhara o marido e filho, mal conseguira segurar as duas pequenas figuras que fervilhavam ao seu lado, e no instante em que as silhuetas de Naruto e Hinata cruzaram o arco do portão, o controle ruiu.

— Naruto-nii! Hinata-nee! — O grito de Konohamaru ecoou, rasgando o silêncio solene enquanto ele disparava como uma flecha em direção ao Uzumaki.

— Eles voltaram! — Hanabi não ficou atrás, correndo com os braços estendidos.

A transformação na dupla foi instantânea e absoluta, a frieza calculista, a postura de combate e a aura intimidadora da ANBU simplesmente desapareceram, Naruto soltou as alças de sua mochila e agachou-se no momento exato em que Konohamaru se chocou contra seu peito; o Uzumaki o ergueu no ar, gargalhando e bagunçando os cabelos do pequeno com uma doçura que fez aqueles que conheciam apenas seu lado Shinobi trocarem olhares surpresos. Ao seu lado, Hinata ajoelhou-se na terra batida, recebendo o impacto do abraço de Hanabi, envolvendo a irmã com um desespero protetor, beijando-lhe o topo da cabeça e sussurrando palavras de conforto que apenas as duas podiam ouvir; a "Neko" impiedosa que havia subjugado Shizune dias antes dera lugar a uma garota cujo coração batia exclusivamente pela segurança daqueles que amava. Tsunade, parada logo atrás deles, observava a cena em silêncio; enquanto Naruto abraçava as duas crianças simultaneamente, puxando-as para o calor de seus braços enquanto Hinata se apoiava em seu ombro, formando um círculo familiar impenetrável no meio da estrada principal.

— Eles quebraram o protocolo. — Shizune sussurrou, impressionada com a audácia e a humanidade da cena.

— Não, Shizune. — Tsunade corrigiu, sua voz carregada de uma nova compreensão — Eles acabaram de definir o novo protocolo. Konoha não é feita de pedras e selos, mas disso aí.

Jiraya aproximou-se de Yumi e Shikaku, trocando um olhar cúmplice enquanto os jovens permaneciam no chão, cercados pelas crianças, alheios à autoridade dos líderes que os observavam; ali, sob o sol de casa, Neko e Kitsune não eram armas, eram o porto seguro de uma nova geração.

— Bem-vindos de volta, Tenentes, Jiraya-sama. E bem-vinda ao lar, Tsunade-sama. Como podem ver, a Vila estava ansiosa pelo retorno de seus guardiões. — Shikaku deu um passo à frente, um sorriso de canto escondido pela barba.

Naruto levantou o olhar, ainda mantendo Konohamaru firme em seu braço esquerdo enquanto estendia a mão direita para ajudar Hinata a se levantar com Hanabi no colo; o brilho azul e o perolado encontraram-se, compartilhando um triunfo silencioso: eles haviam cumprido a promessa. Konoha estava salva, e a família estava reunida.

A transição entre o calor do abraço familiar e a frieza do dever foi quase instantânea, mas carregada de uma promessa silenciosa. Naruto beijou a testa de Konohamaru e Hinata apertou Hanabi contra si uma última vez antes de entregarem os pequenos aos cuidados de Yumi.

— Comportem-se com a Yumi-san. — Naruto murmurou, com um sorriso que ainda retinha um pouco do brilho humano — Mais tarde, o tempo será só nosso. Eu prometo.

Konohamaru e Hanabi, treinados desde cedo a entender os olhares daqueles dois, assentiram com seriedade; os pequenos sabiam que, embora estivessem diante de seus irmãos, naquele momento, Konoha também precisava deles.

O grupo dirigiu-se à sala de conferências do alto escalão. Tsunade caminhava ao lado de Jiraya, tentando processar a atmosfera da Vila. Ao entrarem, o choque da Sannin foi quase impossível de ocultar. Não houve o silêncio obsequioso que lembrava-se; em vez disso, viu aqueles líderes orgulhosos dos clãs mais prestigiosos de Konoha acenarem para Naruto e Hinata com o respeito genuíno reservado a iguais; a geração futura, com Neji, Shino, Ino, Hanna e Chouji, observava tudo das laterais, aprendendo a nova engrenagem do poder.

A reunião começou sem delongas, a dupla assumiu seus lugares ao lado da Hokage, e assim que isso ocorre, todos os presentes o fazem, com suas próprias atas e relatórios preparados, prontos para uma discussão longa e com o senso de urgência que o momento pedia; Shikamaru e Sai, embora não usassem títulos formais com a dupla devido à proximidade pessoal, revelavam uma disciplina absurda, mantendo a postura ereta e os relatórios organizados com uma precisão que apenas o treinamento rigoroso daqueles dois poderia ter forjado.

— Sai, Shikamaru. — Naruto chamou, sua voz voltando ao tom metálico — Relatório sobre a missão em Suna.

— A coalizão foi selada sob os termos que vocês estabeleceram. Kankuro foi intitulado Godaime Kazekage. Nossos espiões infiltrados no conselho garantem que qualquer dissidência será detectada antes de ser formulada. A limpeza foi cirúrgica, como ordenado. — Shikamaru entregou o mapa imediatamente.

— E quanto à resistência dos anciãos remanescentes que tinham vínculos com Orochimaru? Foi confirmada a neutralização total ou há células dormentes? — Hinata, analisando os papéis, questionou com perspicácia.

— Neutralização total. — Sai respondeu com um sorriso gélido e disciplinado — Não sobraram pontas soltas que comprometessem a nova ordem de Kankuro.

— A integração entre os Jounins e os esquadrões da Divisão está em 95%. Estamos prontos para qualquer retaliação externa. — Tenzou tomou a palavra para informar sobre o corpo Shinobi.

— Sakumo. — Naruto virou-se para o Haruno — E o interrogatório de Kabuto?

— Continuamos alternando a privação sensorial total e os estímulos de chakra — Sakumo respondeu prontamente — Já estamos avançando sobre os esconderijos secundários.

— O clã Hyuuga já enviou batedores para as áreas indicadas por Sakumo. Estamos em sincronia com a inteligência. — Hizashi afirma em seguida.

— O clã Inuzuka também está com as patrulhas caninas em alerta máximo. — Tsume acrescentou — Ninguém entra ou sai sem ser farejado.

— A Força Policial está reorganizada. A ordem pública foi restaurada e o monitoramento interno também. — Hiro relata em seguida, ansioso para mostrar serviço.

— Meus insetos detectaram flutuações anormais de chakra nas fronteiras do Norte. Pode ser apenas movimentação de mercenários, mas recomendo cautela. — Shibi toma a palavra.

— Enviaremos um grupo especializa. — Hinata ressalta o ponto em suas anotações.

Seu tom de voz não indicava nada, mas os presentes sabiam o que aquilo significava: quem quer que fosse, não avançaria mais um passo além da fronteira norte.

— As reservas de alimento foram repostas. A logística para uma possível guerra de longa duração está pronta, caso as outras nações tentem testar a nova liderança, assim como o comércio e as rotas estão reestabelecidas e seguras. — Choza entrega os novos acordos comerciais.

— A barreira psíquica da Vila foi recalibrada. Qualquer assinatura de chakra desconhecida é enviada imediatamente para o departamento de inteligência. — Inoichi garante.

— O orçamento para o rearmamento foi aprovado por Koji-sama, sob a condição de que a supervisão direta permaneça com os Tenentes. — Hazo entrega os resultados de sua missão diplomática.

A satisfação de Tsunade cresceu, o que no passado levaria dias para ser resolvido e decidido, estava fluindo diante de seus olhos com máxima eficiência, sem desperdício de tempo, sem desgastes em contendas inúteis, com a precisão e assertividade que uma potência requeria.

— A cerimônia de posse ocorrerá em três dias. Até lá, mantenham o estado de alerta. Naruto, Hinata, quero um plano de contingência para o caso de uma tentativa de assassinato pública durante o meu discurso. — A Senju tomou a palavra para as diretrizes finais.

— Já está em andamento, Godaime. — Hinata respondeu com calma — A segurança perimetral e a proteção imediata estão sob nossa responsabilidade direta.

Algumas horas mais tarde, na cabana, o aroma do refogado de legumes com carne de caça que Naruto preparava preenchia o ar, misturando-se ao som de risadas infantis e ao som da brisa noturna passando pelas janelas, acompanhando os sons da floresta ao redor da clareira; uma que outra coruja piava, saindo de suas tocas para caçar, os grilos cantando, enquanto as copas das árvores rangiam. O refúgio na floresta, outrora ausente de sons humanos, pulsava com uma vida vibrante que reencontrava seu caminho na tranquilidade do lar; Hinata, com uma paciência que beirava o angelical, terminava de dar banho nos pequenos, sentados em banquinhos de madeira, aproveitando cada segundo do cuidado devoto dela.

Com cuidado, Hinata cortava as unhas deles e penteava seus cabelos, enquanto ouvia atentamente cada relato sobre os dias que estiveram longe, sobre os jogos que Konohamaru aprendera na casa dos Nara’s ou sobre as flores que Hanabi havia prensado para os novos quadros da cabana, tal qual a mais velha fazia; Naruto, da cozinha, intervinha com comentários divertidos, sem nunca tirar os olhos do que fazia, mas com os ouvidos sintonizados em cada sílaba. Para os pequenos, eles eram os pilares de sua existência, sua segurança e a família que ainda tinham que havia voltado para casa; para Naruto e Hinata, aquelas vozes eram a âncora que os impedia de se perderem na escuridão de suas funções.

Há léguas dali, o escritório da Hokage estava mergulhado em uma penumbra cortada apenas pela luz de um candeeiro, Tsunade sentia o peso de cada papel em suas mãos, como se as folhas estivessem impregnadas com o sangue e o suor de Naruto e Hinata; mais cedo, após instalar-se devidamente, a curiosidade e o interesse fizeram com que buscasse tudo sobre eles, quando fez a solicitação pensara que negariam ou que haveria algum protocolo que deveria ser seguido para obter as informações, e surpreendera-se ao ver o Capitão da ANBU entrar em sua sala com Jiraya e entregar-lhe pilhas e pilhas de documentos confidenciais, onde os relatórios dos senseis estavam arquivados sob selos de nível S.

Um relato de Ibiki dizia: “Aos sete anos, o desapego de Kitsune em relação à dor física é alarmante. Ele não apenas suporta a tortura; ele a estuda enquanto ela acontece. Neko, por outro lado, possui uma precisão cirúrgica para encontrar o limite psicológico do adversário. Eles não interrogam; eles desmontam o espírito.” Os de Anko pareciam os mais destrutivos: “O treinamento de resistência a venenos foi brutal. Ambos ingeriram doses letais e foram forçados a lutar um contra o outro para manter a circulação ativa. Vi neles uma determinação que beira a insanidade. Eles prefeririam morrer a deixar o outro falhar.” Itachi acendera um alerta: “O domínio do Genjutsu neles é voltado para a quebra da percepção. Eles aprenderam a viver em realidades fragmentadas. O risco de psicose é alto, mas a conexão entre os dois serve como uma âncora constante.”

Tsunade soltou um suspiro trêmulo e abriu o diário de Hiruzen. As páginas estavam marcadas por anos, uma cronologia de dor e esperança; Shizune ao lado dela já não continha as lágrimas.

Ano 3: “Hoje, Teuchi me chamou ao Ichiraku, visivelmente perturbado. Ele percebeu que a mulher que designei para cuidar de Naruto o deixava passar fome e o trancava em um armário escuro por dias. Encontrei o menino com três anos, encolhido e com olhos desprovidos de luz. A raiva que senti quase me fez destruir aquele setor da Vila. Ele foi transferido imediatamente para uma cabana isolada na floresta. Designei Kurenai para cuidá-lo.” Ano 4: “Retirei Hinata da custódia direta do clã Hyuuga hoje. Hiashi, em sua rigidez cega, permitia que os anciãos a submetessem a punições físicas. Ela tinha marcas de queimaduras de selos nas costas e hematomas nos braços e no rosto. Era noite quando cheguei à cabana com ela nos braços. Naruto estava recém-saído do banho, vestindo seu pijama de sapinhos. No instante em que me viu com a menina, ele se tornou risonho e expansivo; puxou-a pela mão, convidando-a para brincar e dizendo, com toda a pureza do mundo, que ela era ‘linda como uma boneca’. Naquela noite, Kurenai contou que dormiram juntos, protegendo-se de um mundo que os odiava.” Ano 5: “O treinamento oficial começou. Kakashi e Asuma relatam uma evolução prodigiosa. Mas temo. Quando estão com seus senseis, eles são estátuas de gelo. Mas ontem, ao visitá-los sem aviso, vi-os rindo enquanto tentavam capturar mariposas com as mãos. Eles guardam sua humanidade um para o outro, como um tesouro proibido.” Ano 10: “Eles já são assassinos eficientes. O brilho nos olhos de Naruto tornou-se um azul frio de aço. Hinata move-se como uma sombra letal. Mas a relação deles... floresceu. Não é apenas companhia; é um amor devoto. No entanto, continuam tão puros que sequer notaram a diferença. Eles cuidam das feridas um do outro com um esmero que me faz chorar. Transformaram-se em armas para que o outro não precise sangrar sozinho.” Ano 13: “Estou tão orgulhoso; eles unificaram os poderes da Vila e estão se preparando para o ataque de Orochimaru, prontos para proteger a todos. Minhas crianças cresceram, e apesar da culpa que sinto pela dor que impus a eles, sei que é isso que os manterá vivos nesse mundo quando eu não estiver mais aqui. Sinto-me doente, mas não contei nada para não preocupá-los. Sei que, se algo me acontecer, Konoha, Konohamaru e eles — que já são fortes o suficiente para enfrentar o mundo — estarão seguros. Eles são o que de mais puro e mais terrível esta Vila já produziu.”

Tsunade fechou o diário com as mãos trêmulas, o estômago revirado pela brutalidade do treinamento e o coração apertado pela história de abandono e superação, encarando as fotografias nos arquivos sobre a mesa, com os olhos ardendo e uma pressão devastadora preenchendo seu peito, ao fitar aqueles rostos inocentes, com suas bochechas rechonchudas de bebês ainda, quando foram tiradas; de repente, Tsunade sentiu realmente, que não merecia aquele posto, e que deveria, de alguma maneira, pagar-lhes por todo aquele sacrifício.

— Jiraya, leve-me até lá, eu quero vê-los! — Levantando-se bruscamente, Tsunade ordenou.

O caminho até a cabana foi feito em um silêncio denso, interrompido apenas pelo som do farfalhar das capas contra o vento noturno, Jiraya não questionou; ele conhecia aquele olhar de Tsunade, era o olhar de quem acabara de vislumbrar o abismo que sustentava as fundações de Konoha. Quando emergiram da floresta, Tsunade e Shizune estancaram os passos, maravilhadas, a cabana não era um alojamento militar frio; era uma visão quase mística com seus canteiros de flores raras, cujas pétalas brilhavam sob o luar, cercavam a estrutura de madeira, enquanto trepadeiras carregadas de flores silvestres escalavam as paredes até o telhado, como se a própria natureza abraçasse o refúgio.

A porta rangeu antes mesmo de Tsunade bater e Naruto estava parado ali, os pés descalços no assoalho de madeira, vestindo uma camiseta simples e bermuda, mas foi o avental de Hinata amarrado à sua cintura que fez o coração de Tsunade falhar uma batida; por um microssegundo, a penumbra e a pouca luz à porta pregaram-lhe uma peça: a postura relaxada, o sorriso acolhedor e o avental trouxeram uma recordação idêntica, quase espectral, de Minato em seus raros momentos de paz doméstica. Era como ver o Relâmpago Amarelo despojado da guerra, vivendo a vida que lhe fora roubada.

— Godaime? Shizune-san? Padrinho? — Naruto inclinou a cabeça, os olhos azuis piscando em surpresa — Aconteceu alguma coisa? O plano de contingência precisa de ajustes?

— Não, Naruto. Entrar em alerta a essa hora seria um pecado. — Jiraya sorriu, embora seus olhos estivessem úmidos.

— Então entrem! Por favor, acabei de passar o chá. — Naruto deu passagem com uma hospitalidade genuína.

Ao entrarem, o choque de Shizune e Tsunade aumentou, o interior exalava um calor que nenhuma lareira poderia prover; havia cortinas bordadas com delicadeza em cada janela, capas de almofadas feitas à mão e quadros espalhados por toda parte: flores prensadas, desenhos infantis e retratos de momentos felizes, todos repletos de sorrisos que transbordavam amor. Entretanto, o que as deixou atordoadas foi o contraste, as prateleiras não guardavam apenas recordações, mas estavam lotadas de uma quantidade absurda de livros e pergaminhos técnicos e os brinquedos espalhados não eram triviais; eram jogos de raciocínio, estratégia e lógica avançada. No centro do tapete, as crianças tentavam montar um enorme quebra-cabeças de mil peças; o mesmo que, anos atrás, Naruto e Hinata montavam em suas noites de isolamento.

— Padrinho! — As vozes de Konohamaru e Hanabi ecoaram quando eles abandonaram o jogo e correram para os braços de Jiraya, que os recebeu com uma gargalhada ruidosa.

Nesse momento, Hinata surgiu do corredor, acabara de sair do banho, os cabelos úmidos caindo como seda negra sobre um vestido solto de verão; estava descalça e exalava um frescor que contrastava com a imagem da “Neko” que Tsunade acabara de ler nos arquivos.

— Por favor, acomodem-se. — Hinata disse com sua doçura habitual, indicando as cadeiras ao redor da mesa de madeira robusta.

Naruto, com uma eficiência doméstica que hipnotizava Shizune, serviu o chá em xícaras de porcelana pintadas à mão. Tsunade aceitou a bebida, sentindo o aroma floral acalmá-la.

— Esta casa... — Tsunade inicia, passando a mão pela superfície lisa da mesa, tentando processar a dualidade daquele lugar — É impecável, Naruto. O chá tem um equilíbrio perfeito de ervas. Vocês construíram um mundo inteiro aqui dentro, não é?

— Foi o único mundo que nos permitiram ter por muito tempo, Tsunade-sama. — Naruto respondeu, sentando-se ao lado de Hinata e pegando a mão dela naturalmente sobre a mesa — Então decidimos torná-lo o melhor possível.

Tsunade olhou para as mãos dadas, para as crianças rindo com Jiraya e para a biblioteca de estratégia militar que servia de pano de fundo para aquela cena de família; o suspiro que ela soltou foi longo, carregado do peso dos documentos que deixara no escritório.

— Eu li os relatórios. — Tsunade disparou, a voz subitamente rouca. — Li sobre o treinamento, sobre antes disso aqui. Eu li tudo.

O silêncio caiu sobre a mesa, mas os dois não se encolheram, nem desviaram o olhar; houve apenas uma aceitação profunda, a calma de quem já sobreviveu ao inferno e não teme mais o calor das chamas. Naruto deu um pequeno gole em seu chá, o olhar fixo no vapor que subia da xícara, enquanto Hinata apertou levemente os dedos dele. O silêncio que se seguiu não era de desconforto, mas de uma clareza que apenas quem enfrentou a morte inúmeras vezes poderia possuir.

— Houve momentos em que o medo era tudo o que sentíamos. — Naruto começou, sua voz baixa, mas firme — No armário escuro, na floresta sob o frio, ou quando o treinamento de Anko-sensei parecia que ia nos rasgar por dentro. Muitas vezes nós nos assustamos, nós recuamos... houve noites em que a gente só conseguia chorar escondido um no outro.

— Mas nós sempre íamos adiante. Porque, no início, era muito simples: era ele por mim, e eu por ele. Não tínhamos mais ninguém. Se um de nós falhasse, o outro ficaria sozinho em um mundo que não nos queria. Precisávamos ser fortes para que o outro sobrevivesse. Essa era a nossa única motivação. Era a nossa única verdade. — Hinata completou, com um brilho de resiliência no olhar.

Tsunade sentiu um nó na garganta. Shizune, ao seu lado, apertava um lenço contra os lábios, ouvindo a confissão daqueles que a Vila chamava de “máquinas”.

— Mas então. — Naruto continuou, sorrindo suavemente enquanto olhava para Konohamaru e Hanabi no tapete — As coisas começaram a mudar. Ganhamos a Kurenai-sensei, que nos deu o primeiro vislumbre de um carinho materno. Tivemos os nossos senseis, que nos ensinaram que nossa força tinha um propósito. Tivemos o vovô, que nos deu este refúgio. E, finalmente, ganhamos esses pequenos.

— Nós ganhamos uma família. Fizemos amigos. O que era apenas sobrevivência se transformou em vida. De repente, não era mais apenas sobre não morrer; era sobre proteger o sorriso do Konohamaru, as flores da Hanabi, a paz desta cabana. Tudo valia a pena. Hoje, temos muito em nossas vidas para proteger, Tsunade-sama. E para nós, isso basta para sermos fortes. É de onde vem nossa maior potência. — Hinata sorriu, observando Hanabi tentar encaixar uma peça difícil do quebra-cabeça.

Tsunade olhou para os dois, sua mente vagando pelos relatórios de “insanidade” e “psicose” que Itachi e Ibiki mencionaram; o que eles chamavam de risco, Tsunade via agora como uma conexão transcendental que os manteve humanos.

— Vocês sofreram o que dez gerações de ninjas não sofreram juntas. — Tsunade afirma, a voz embargada — Se pudessem voltar... se houvesse uma escolha...

A dupla então olhou-se. Não houve hesitação, nem dúvida. Foi uma resposta sincronizada, nascida de duas almas que batiam no mesmo ritmo.

— Se tivéssemos a opção de voltar e escolher qualquer outro caminho. — Naruto fala, voltando seus olhos azuis para a Hokage com uma intensidade que a fez recuar — Mesmo sabendo de cada cicatriz, de cada noite de fome e de cada gota de sangue... nós escolheríamos exatamente este caminho. Faríamos tudo igualmente outra vez.

— Porque foi esse caminho que nos trouxe um ao outro. — Hinata concluiu, encostando a cabeça no ombro de Naruto — E foi ele que nos deu a força para proteger o que amamos. Não mudaríamos nada.

Tsunade sentiu um choro angustiado acumular-se em sua garganta, pronto para estalar, fora até ali para oferecer redenção ou talvez pedir perdão em nome da Vila, mas percebera que não precisavam de nada disso; já tinham tudo. Ali, naquela cabana cercada por flores e preenchida por jogos de lógica e risadas infantis, Naruto e Hinata construíram seu próprio paraíso sobre as cinzas do que o mundo lhes tentou impor.

— Vocês são... — Tsunade parou, buscando a palavra certa — … as pessoas mais ricas que já conheci.

— Eu disse a você, Tsuna. Eles são o que de mais puro e mais terrível esta Vila já produziu. Mas hoje... acho que a pureza venceu. — Jiraya, que observava tudo encostado no armário da cozinha, deu um sorriso de lado e limpou discretamente o canto do olho.

O clima de reverência e melancolia que pesava sobre a mesa foi subitamente quebrado por um som que Tsunade não esperava: uma risada vibrante, anasalada e genuína; Naruto inclinou-se para trás na cadeira, o avental de Hinata ainda amarrado à cintura, balançando a mão no ar como se espantasse fantasmas.

— Ah, chega de conversa triste! O vovô já dizia que remoer o passado estraga o gosto do chá. E falando em gosto... — Naruto levantou-se num salto, os olhos brilhando com uma malícia travessa que desarmou Shizune instantaneamente — Eu ouvi dizer por aí, em algumas fofocas de taberna, que a lendária Sannin é imbatível em apostas, mas que nos jogos de raciocínio... bem, a sorte dela costuma tirar férias.

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Tsunade arqueou uma sobrancelha, o desafio atingindo em cheio seu orgulho, cruzando os braços sobre o peito, projetou o queixo com uma infantilidade que fez Shizune suspirar.

— “Sorte de férias”? Escuta aqui, seu moleque atrevido, eu posso ter um azar histórico nos dados, mas minha mente é um arsenal de guerra! — A Senju apontou o dedo para o avental dele e soltou uma risadinha debochada — E você? Vai me enfrentar usando esse modelito? O que foi, Naruto? Já está tão treinado que obedece a qualquer ordem da Hinata só para ganhar um elogio?

Naruto nem piscou. Ele deu um nó mais firme nas alças do avental, exibindo um sorriso de canto que lembrava demais a confiança de seu pai.

— O avental é tático, vovó. Ajuda a manter o foco enquanto eu limpo o tabuleiro com a sua cara. — Ele puxou o Shogi para o centro da mesa — E sobre a Hina... bem, se ter uma garota tão linda e inteligente ao meu lado me torna um bom aluno, eu não vejo problema nenhum. Quem sabe se você ouvisse mais o padrinho, pararia de apostar dinheiro em cavalos mancos, não é?

— Ora, seu...! — Tsunade bateu na mesa, os olhos faiscando de diversão — Vou te massacrar nesse jogo! Shizune, traga meu saquê, eu preciso de combustível para humilhar esse moleque abusado!

Jiraya, que até então observava o encontro com o coração apertado, temendo que a hostilidade do primeiro encontro deles ainda deixasse cicatrizes, sentiu um alívio imenso inundar seu peito; via nos olhos de Naruto algo que ia além da força bruta: a virtude do perdão. Naruto, que já havia sangrado para proteger aqueles que o odiavam, não via motivo para guardar rancor de uma mulher que carregava o arrependimento nos ombros; estava estendendo a ela não apenas um convite para jogar, mas um convite para pertencer àquela paz. A tensão dissolveu-se entre provocações e o som de peças de madeira batendo no tabuleiro; o que começou como um “desafio” logo se tornou uma cena que ninguém em Konoha acreditaria se visse.

— Xeque-mate, vovó. — Naruto anunciou, movendo a peça de ouro com um estalo seco.

— Isso foi sorte! — Ela bufou, empurrando as peças — Você me distraiu. Admita, você é o Shinobi mais disciplinado da história porque tem medo de levar um pito da sua “capitã” aqui!

— Na verdade, Tsunade-sama. — Hinata interveio com um riso doce, colocando uma tigela de sopa na frente da Hokage — Ele só não é assim tão obediente quando quer dormir até tarde nos sábados. Preciso quase usar um Suiton para ele sair das cobertas.

— Viu só? Um dorminhoco preguiçoso! — Tsunade provocou, rindo alto enquanto roubava um pedaço de carne da tigela de Naruto.

— Antes dormir até tarde em um sábado de paz do que fugir de cobradores de dívidas na segunda-feira! — Naruto rebateu na mesma hora, arrancando gargalhadas até de Shizune.

A cabana, com sua aura mística e cheiro de madeira e alecrim, operava sua magia, aquele refúgio sagrado tinha o dom de alentar as almas mais cansadas, e dentro daquelas paredes repletas de retratos de sorrisos, Tsunade permitiu-se, pela primeira vez em décadas, ser apenas uma mulher cercada por família, e não a líder de uma nação em guerra; o jantar transcorreu entre risadas, implicâncias e o som reconfortante de talheres contra a porcelana. As duas mulheres e o velho mestre, que haviam chegado ali com o peito apertado pela brutalidade do passado, viam-se agora envoltos por um calor que nenhum fogo de lareira poderia igualar; aqueles dois jovens não eram apenas sobreviventes, eles eram curadores, eles transformaram a dor em hospitalidade e o isolamento em um lar onde até a mais endurecida das Sannins encontrou um motivo para sorrir. Ao final da noite, com as crianças já bocejando e a lua no topo do céu, Tsunade olhou para Naruto — que agora discutia com Jiraya sobre quem comera o último pedaço de carne — e sentiu que a dívida que ela pensara ter com eles nunca poderia ser paga com dinheiro ou cargos; seria paga ali, na amizade, na proteção mútua e na promessa de que aquela luz nunca se apagaria.