Notas iniciais
Olá, minha gente!!! Todos bem?? Espero que sim. Como disse antes, esses últimos capítulos estão focando um pouco mais no desenvolvimento psicológico, importante narrativamente para a evolução e maturidade emocional. Neste em específico há uma expansão de universo, sentando as bases para os eventos futuros e explorando alguns pontos que gostaria de ter visto (e acredito que vocês também) no anime. Agradeço de coração a todos que acompanham, comentam e curtem a fic, obrigada mesmo! Desculpem se demoro um pouco a atualizar, minha vida anda um pouco corrida (adaptação da escolinha da bebê, as aulas), e sou um pouco perfeccionista, gosto de retratar tudo (mesmo que seja uma fanfiction de anime) com o máximo de verossimilhança e realismo. Mas eu adoro e fico extremamente feliz com os comentários, que me dão uma noção da percepção de vocês da estória, então muito obrigada! Bem, espero que gostem, daqui uns dias volto a atualizar, bjuss e até!

— Falhou… — A voz monótona cortou o ar saturado.

O ar naquele lugar não se movia, não era ausência de vento, nem calmaria natural, era como se o próprio espaço recusasse circulação, pesado demais para permitir qualquer fluxo; a umidade não vinha da chuva, mas da própria pedra, das paredes frias e escuras que pareciam transpirar umidade antiga, estagnada há anos. O som mais alto ali era o silêncio, quebrado apenas por respirações contidas e pelo leve arrastar de tecido quando alguém se movia o mínimo necessário; sombras projetadas por uma única fonte de luz vacilante distorciam as formas humanas ali reunidas, alongando membros, ocultando rostos, fragmentando presenças, não era um encontro, era uma convergência.

A palavra ainda pairando na penumbra não foi dita com raiva, não havia elevação de tom, nem acusação direta; ainda assim, ecoou pelas paredes, como se tivesse peso próprio, assentando-se sobre todos os presentes. Por um instante, ninguém respondeu, não por medo imediato, mas porque todos ali compreendiam o que aquela única palavra carregava: implicações, consequências, reavaliações; o tipo de falha que não se media apenas pelo resultado, mas pelo que ela revelava.

— Não completamente. — Outra voz se manifesta, baixa, controlada, quase irritada — O contato foi estabelecido. Houve combate. Houve dano.

— E ainda assim… — A primeira voz retorna, agora mais próxima, mais nítida — … o alvo escapou.

Um leve deslocamento de ar acompanha o movimento de alguém na penumbra; não era inquietação, era cálculo.

— Isso sugere planejamento ou interferência por acaso? — Alguém questiona, analisando e verbalizando o que alguns já concluíram.

— Acaso. — Com movimentos calculados e um pragmatismo consistente, as bases de ruptura começam a ser plantadas — Estavam em maior número. Contidos durante o confronto.

— E o que isso significa? Não importa… — O mais impaciente perde a compostura.

— Importa. Significa que não esperavam nos encontrar, mas que agora tem a capacidade de revidar. — Sem perder o tom, Itachi interrompe, conduzindo com cuidado aquele debate — Konoha não é mais frágil e desestruturada. Eu disse. Orochimaru foi repelido sem muitas baixas.

— E quanto ao alvo? — Outro volta a pontuar a gravidade da falha.

— Vai se esconder por um tempo, e quando se sentir seguro, volta ao radar. O ideal é um recuo estratégico. — Chegando ao ponto crítico, o Uchiha fala com o mesmo desinteresse de sempre — Era o segundo. Com este cenário, ou caçamos com força total, ou aguardamos. Mas o ideal seria o recuo, para não alertar os demais alvos com o padrão.

O silêncio que paira após aquelas palavras é sufocante e ameaçador, uma respiração fora de lugar e tudo seria exposto, qualquer intenção que não fosse completamente oculta pelo pragmatismo e eficiência do objetivo, significavam a morte; outro movimento suave rompe a quietude, ecoando como uma bigorna.

— É prudente. A balança de força está mudando. Precisamos estudar, observar. — Finalmente, a decisão é tomada.

***

A chuva parecia ter intensificado, agora, junto a constância anterior, uma força estrondosa acompanhava o aguaceiro caindo, criando vácuos de sons abafados e intermitentes, espalhados pelo pátio onde os marujos descarregavam as cargas no celeiro; os passos pela trilha até a varanda soando como um chlap-chlap ritmado, logo transformam-se num tump-tump ao impor peso sob as tábuas do assoalho novo.

O vento, que antes era um sussurro agitando discretamente as folhas das árvores, começou a engrossar, com rajadas mais firmes que faziam os galhos gemerem, estalando enquanto entrechocavam-se; o assovio prolongado do vento enroscava-se pelas frestas do celeiro, embocando pela varanda, arrastando o que encontrasse pelo caminho, fazendo companhia à chuva, compondo uma sinfonia da natureza que competia com a presença humana.

— Hina? — Escorregando a capa de chuva por seus ombros, Naruto a chama pela porta aberta da cabana, sem entrar em casa todavia.

Leva alguns instantes, até os sons de passos suaves serem ouvidos aproximando-se, e então ela surge a sua frente, já sem a sua capa de chuva, mas com as roupas e os cabelos um pouco úmidos, e apesar da serenidade em suas expressões e postura, seu olhar transmitia as perguntas que apenas Naruto sabia ler; atrás dele, ainda encolhida e considerando seriamente se seria uma boa ideia ter ido ali, e até considerando um erro ter se deixado levar pela fragilidade e o medo, e ter acompanhado aquele desconhecido, Fuu fita a outra garota com interessada avaliação.

— É a Jinchuuriki do Nanabi que o time sete interceptou mês passado. — Calmo, Naruto explica sucintamente.

Os olhos de Hinata repousam sobre Fuu por um breve instante a mais do que o necessário; não havia julgamento ali, mas avaliação — leitura silenciosa, precisa — antes de qualquer palavra.

— Você quer entrar? Vestir roupas secas? — Captando a desconfiança da garota, Hinata oferece, deixando por sua conta a decisão.

Analisando a situação e aqueles dois, Fuu pondera todo o cenário, e após comparar o agora com sua fuga desesperada durante todos aqueles dias, podia sentir que não havia hostilidade alguma neles; embora, percebesse uma força equilibrada emanando de suas presenças.

— O que vocês são? — Depois de tudo, era melhor ser cautelosa.

— Shinobis. Uma dupla especial, na verdade. — Simples, Hinata sintetiza tudo que eram.

Contudo, talvez por ser uma Jinchuuriki, talvez por que seus instintos estavam hiper estimulados desde a perseguição, Fuu captava algo mais, mais profundo e certamente, mais poderoso do que a afinidade tática entre Shinobis; era uma sinergia expansiva compartilhada que fluía de um para o outro.

— E o que mais? — Sem poder definir se aquilo era bom ou ruim, Fuu volta a questionar.

— Hinata é minha companheira, minha noiva. — Recordando a sensibilidade de Gaara, quando o conheceram, Naruto compreende que a pergunta de Fuu originou-se desta sensibilidade Jinchuuriki, ao avaliá-los — Se quiser ficar, Hina te mostrará um quarto.

Fitando-o por mais alguns instantes, vendo-o retirar as botinas no carpete de entrada e pendurar a capa de chuva ao lado de outras na parede externa, Fuu considera a oferta, e então seu olhar foca-se na garota, Hinata, numa serenidade absurdamente oposta ao vento arrastando tudo do lado de fora; com o coração aos pulos, com seu lado mais ressabiado gritando-lhe para dar meia volta e fugir, Fuu repete o gesto dele, e retirando seus calçados na porta, dá o primeiro passo em direção ao interior da cabana.

Ao cruzar o umbral da porta, o contraste de temperatura foi o primeiro que sentiu, ali o calor agradável irradiava desde o interior até o corredor de entrada, logo, um cheiro característico de marchetaria, ervas, biscoitos e fumaça alcançou seu olfato; o detalhe mais significativo, porém, foi o visual, os entalhes delicados na madeira, quadros e fotografias nas paredes, as cortinas nas janelas feitas à mão, tudo traduzia aconchego e lar. Passando pela sala, com Hinata guiando-a até as escadarias, Fuu avistou os ninjas de Konoha que vieram no mesmo navio, reunidos ali, e encolheu-se automaticamente por um momento; percebendo aquele mínimo gesto de retração, Hinata move uma mão suavemente até suas costas, sem tocá-la propriamente, e com a outra, indicava a escadaria, num gesto sutil.

— Quando estiver confortável, se você quiser, pode conhecê-los. — Utilizando o mesmo tom com que explicava coisas complexas a Konohamaru e Hanabi, Hinata afirma — Aqui, você é nossa convidada. Ninguém te fará mal.

Vendo-as subir ao segundo piso, Naruto, que vinha logo atrás, dirige-se à sala onde os demais aguardavam, e antes que qualquer palavra fosse dita, parou um instante, apreciando a surpresa estampada nos rostos de todos; estava contente principalmente com a reação de Neji e Hiashi, literalmente abandonando suas posturas aristocráticas, examinando abertamente cada aspecto da estrutura e dos móveis.

— Por que não se sentam, pessoal? — Naturalmente, Naruto indica as poltronas, fazendo o mesmo.

— Vocês construíram tudo isso em três meses? — Direto, Neji pergunta abismado.

— O mais difícil é erguer as paredes, Neji. — Respondendo ao amigo, Naruto contém o riso.

— Se os fofoqueiros vissem o palácio que você construiu para a Hina, parariam de dizer que vocês fugiram. — Irreverente como sempre, Ino comenta — Embora as sanções estejam funcionando.

— Se ainda há fofoca, é porque estão funcionando. Logo teremos resultados. — Com aquela calma analítica, Naruto avalia.

— O que nós vamos fazer, exatamente? — Um tanto desconfortável com o tema, Hiashi questiona.

— Precisamos de uma varredura extensiva do território. Quero saber exatamente o que tem aqui, na superfície e no subsolo. — Focando na operação principal, Naruto explica — Começamos a inspecionar, mas teríamos que trabalhar por etapas, por conta da missão, e permitir que Hinata faça a varredura sozinha imporia uma carga perigosa demais sobre ela.

— Então vocês montaram uma equipe com sensoriais táticos para a varredura? — Chegando ao ponto, Shino verifica.

— Exato. — Satisfeito com a rápida compreensão, Naruto concorda — Claro, não será simples, pode demorar e pode ser arriscado. E não se trata apenas de uma varredura, inclui muitas outras etapas, por isso, durante a escalação do time, solicitamos que viessem aqueles que estivessem dispostos a permanecer em Uzu por um tempo.

No momento em que Shino parecia querer formular pergunta, uma batida quase tímida na porta aberta atrai a atenção, e ao focar na direção do corredor, Naruto vê Daiki e seus marujos parados ali, ensopados; sinalizando aos quatro, pedindo um momento, Naruto ergue-se e caminha até eles.

— Por que estão parados aí? Entrem logo, ou querem fazer Hinata ficar brava com todos? — Num tom casual, Naruto fala aos homens — Já sabem o caminho, vão logo. Vou pôr a mesa.

— Com licença, chefe. — Sentindo as orelhas esquentarem, o capitão toma a frente.

Com Daiki e seus homens passando pelo corredor, dirigindo-se ao banheiro ao lado da área de serviço, Naruto caminha até a cozinha aberta, colocando as chaleiras no ponto mais quente da chapa do fogão a lenha, e retirando do forno grandes travessas de biscoitos de baunilha; como previram que o navio chegaria naquela tarde, prepararam tudo com antecipação, desde o chá de gengibre e limão, até a fornada de biscoitos de acompanhamento. Enquanto Naruto movia-se com fluidez pela cozinha, Hiashi voltou a passear seus olhos claros pela sala, encontrando ali a mesma calidez da cabana onde Hinata vivera em Konoha, com algumas distinções; seu olhar detém-se um momento na placa sobre a lareira, claramente um destroço das ruínas, mas parecia ter sido restaurada e agora era usada como decoração, uma placa com o símbolo Uzumaki.

Hiashi permanece ali por mais algum tempo, reconhecendo padrões, como as capas de almofadas artesanais ou os quadros de flores prensadas nas paredes, e encontrando novidades, como a cornija da lareira encrustada de pequenas conchas brancas, formando desenhos, todas tratadas com tanta delicadeza, que nenhuma rachou; esteve tão entretido fitando retratos novos e antigos, que nem percebeu caminhar em direção à cozinha, só viu quando já estava diante da grande mesa de abeto.

— Eu li a carta… — Já que estava ali, sozinho com Naruto, Hiashi decide resolver aquilo.

— Ah… bem… — Buscando pelas palavras certas, Naruto esquece por um instante a escolha das louças — Achamos que seria correto informar.

— Eu sei. — Com um suspiro cansado, Hiashi expõem — Confesso que… senti alívio…

Olhando-o com mais atenção, Naruto não encontra nenhum vestígio do homem que excomungou a filha pequena, descartando-a como uma ferramenta quebrada, para depois tentar recuperá-la recorrendo à violência; havia sobretudo remorso, cansaço e um envelhecimento maior do que os dez anos que se passaram desde então.

— Sabe que Hanabi pode voltar atrás no futuro, não é? — Deduzindo que esse era o maior desconforto de Hiashi, Naruto pontua — Ela é uma criança que estava buscando segurança após um trauma, não significa…

— Para ser sincero, Naruto, não me preocupa a verbalização de Hanabi. É simplesmente verdade. — Honesto como não havia sido em anos, Hiashi replica — Meu erro com ela foi não a ter protegido do sistema do clã, isso é grave, mas não se compara… a... a ter renegado… por isso senti alívio. Elas estão seguras.

— Se esse é o ponto, use esse tempo para consertar isso, mesmo que não funcione. — Voltando a pôr pires e xícaras na mesa, Naruto instiga — Principalmente, diga a ela.

Antes que Hiashi possa retrucar ou absorver aquele inusitado conselho, leves passos apressados soam pelo assoalho, aproximando-se rapidamente, e no instante seguinte, Hanabi surge na cozinha quase saltitando; a menina vestia um pijama de sapinhos e calçava meias grossas até as canelas, estava descabelada, com o rosto inchado e vermelho, indicando um sono pesado.

— Otousan! — Hanabi praticamente grita, agarrando o braço de Naruto — Essas vozes são dos marujos? O tio Tripa está aqui?

— O que já falei sobre correr nas escadas, mocinha? — Imediatamente assumindo um tom sério, ainda que suave, Naruto a repreende — Também já conversamos sobre boas maneiras.

Por um instante, os olhos de Hiashi fixam-se nas mãos da menina, agarrada ao braço de Naruto, enquanto o seu chamado ecoa por sua mente; então, Hanabi apruma-se e volta sua atenção para Hiashi, rigidamente parado ali, e diferente de como ocorreram tantas vezes quando esteve diante dele, Hanabi não chora e nem se encolhe, apenas o fita com curiosidade infantil. Da sala, se escutam passos indo naquela direção, indicando que Neji e os outros estavam se aproximando, das escadarias mais passos soavam, e as vozes dos marujos já podiam ser ouvidas atravessando o corredor; com um movimento tranquilo que lembrava muito Hinata, Hanabi curva seu pequeno corpo em uma reverência respeitosa, antes de tudo.

— Olá, boa tarde. — Sua voz fina soa clara.

— Olá, Hanabi. — Tentando manter a naturalidade, Hiashi devolve a saudação.

— Você parece com o tio Hizashi. — Direta, Hanabi comenta e então pergunta — Como você se chama, tio?

Neste instante, Neji — que já reunira-se com Ino e Shino ao redor da mesa — Naruto e Hiashi entreolham-se, e sincronizados como nunca estiveram, uma única compreensão cruza por suas mentes: o trauma sucessivo, somado ao estresse do sequestro e da mudança abrupta em seu entorno, causaram uma seletividade de memória; não significava que ela esqueceu o pai, afinal, reconhecia semelhanças familiares nele, mas sua mente, querendo proteger-se do que lhe recordava da mãe e das agressões dela, “apagou” tudo associado à Hiromi.

— …Hiashi… me chamo Hiashi, Hanabi… — Apertando os punhos atrás do corpo, Hiashi se apresenta, as palavras parecendo emboladas em sua garganta — Sou o irmão do tio Hizashi…

Considerando o que mais poderia dizer, como explicar sem causar danos, Hiashi olha para Naruto, como se buscasse ajuda, e aquele pequeno gesto dele pareceu tão estanho para ambos; interrompendo o pensamento caótico que ocorria em sua cozinha, Hinata desponta ao pé da escadaria, trazendo Konohamaru pela mão — o menino ainda resmungando algo sobre querer dormir mais — e Jiraya, igualmente sonolento, vinha atrás dela. Obviamente, Hinata os despertou, para evitar que ficassem acordados durante a noite, após acomodar Fuu e dar-lhe espaço para instalar-se; quando capta a tensão pairando na cozinha, a Hyuuga detém seus passos por um momento, seus olhos passando por cada rosto sério ou desconfortável ao redor da mesa, buscando compreender a essência da situação.

— O que aconteceu? — Investigando, Hinata questiona Naruto.

— Okaasan, você sabia que esse tio é irmão do tio Hizashi? — Interrompendo qualquer resposta, Hanabi pergunta a Hinata, aproximando-se dela.

Ao ouvir a menina, Hinata começa a entender o que estava acontecendo e a razão para a criança ser a única agindo espontaneamente ali.

— Sim, Nabi, eu sabia. Ele não é um tio, ele é nosso… — Hinata ia dizendo, abaixando-se e acariciando o rosto dela, então, interrompe a explicação correta, que a julgar pela situação, poderia complicar mais — Ele é meu pai, Nabi. Irmão do tio Hizashi… e meu pai.

Hinata sabia que Hanabi entenderia o que estava subintendido na explicação, já que a menina era consciente de que elas eram em realidade, irmãs; mas ao ver como Hanabi estava se comportando, faria mais dano impor uma relação que ela claramente estava evadindo.

— Então… pai da okaasan… — Com olhinhos arregalados, Hanabi analisa — Então é o vovô?

A sentença ressoa tão estrondosa como a chuva do lado de fora, e como se tivessem acordado aquilo, todos os olhos deixam de fitar a menina curiosa e voltam-se para Hiashi, abrindo e fechando a boca, como se mastigasse as palavras; o mísero intervalo entre a pergunta de Hanabi e o olhar em Hiashi, é o tempo que o homem leva para compreender que talvez, aquela seja sua melhor e última oportunidade.

— É isso… isso… eu sou o vovô… Hanabi. — Impressionando os envolvidos, principalmente Hinata, Hiashi afirma.

Houve um instante em que a quietude daquela cozinha parecia retumbar os decibéis mais potentes, enquanto todos absorviam aquelas palavras e o que significavam; e então, com a naturalidade que somente um ambiente seguro proporciona, Hanabi pega Konohamaru pela mão e o puxa junto, abraçando as pernas de Hiashi.

— Que bom que veio ver a gente, vovô. — A menina diz, repetindo aquilo que para eles, era tão comum naquela família: abraçar.

Paralisado, Hiashi processava aquela situação, enquanto o frágil calor daquela proximidade irradiava através de suas vestes; olhando de Naruto para Hinata como quem via um enigma difícil de decifrar, o Hyuuga tentava compreender o que deveria fazer, quando uma recordação de como Hizashi tratava Neji — e agora os gêmeos — em momentos assim, lhe cruza a mente.

— Também acho, Hanabi, também acho. — Com mãos trêmulas e rígidas, fazendo algo que não se permitiria no passado, Hiashi afaga os cabelos das duas crianças.

Aquilo não doía, não incomodava e não era difícil, e agora, Hiashi não conseguia entender porque antes parecia tão impensável, um gesto tão simples, que poderia ser muito, poderia ser suficiente; ele soube disso, quando sentiu o olhar de Hinata sobre eles, um olhar que claramente dizia: era somente isso que precisava.

É nesse instante, que os marujos e Daiki retornam, todos já vestindo roupas secas e exibindo uma aparência renovada, e apesar de serem sempre barulhentos e falantes, na cabana os homens mantinham um nível moderado; desde que aquela cooperação iniciara, o capitão sempre ressaltou que deveriam ter profundo respeito com Naruto e sua família, e quando a hospitalidade e gentileza deles se estendeu aos marujos, os bons modos rústicos dos homens, fizeram-se mais precisos.

— Vamos nos sentar, pessoal? Fizemos chá de gengibre com limão, nessa chuva, todos precisam. — Antes que a estranheza do momento atraísse atenção externa, Naruto convida a todos — Hina, nossa convidada vai descer?

— Talvez. — Voltando seu foco ao que podia e devia controlar naquela situação, Hinata responde — Se ela não se sentir confortável, mais tarde levo um lanche até lá.

— Então, até que ponto vocês já conseguiram inspecionar? — De olhos fixos em Konohamaru apoiando Hanabi para subir na sua cadeira, Neji pergunta, tendo que elevar um pouco a voz, para sobressair ao som de cadeiras arrastando e o tilintar das louças.

— Até a cachoeira do moinho. Como o mais importante num primeiro momento, era a construção e a plantação, priorizamos todo o tempo nisso. — Esfriando o chá das crianças, Naruto responde.

— Vi de relance que tem um curral perto daquele celeiro, foram construídos agora? — Curiosa, Ino começa a destrinchar, ainda que não pessoalmente, aquele lugar.

— Temos os bois. Foram essenciais no transporte e para arar a terra. Também temos umas dez galinhas, chegaram mês passado e já estão pondo. — Prática, Hinata pontua as necessidades, enquanto passa geleia de nêspera nos biscoitos dos pequenos — Logo teremos mais alguns animais.

— Por falar em chegada, chefe, na próxima semana aquela outra encomenda estará pronta. — Apreciando o descanso, Daiki informa, limpando farelos de biscoitos do rosto.

— Bem a tempo. Vamos precisar dele logo. — Satisfeito, Naruto alcança a xícara servida a Hinata.

— Tio Tripa? — Cortando o fluxo de conversas sérias e estratégicas, Hanabi chama o imediato empolgadíssima — Ontem o padrinho levou a gente para pescar, eu e o Kono-nii pegamos uma merluza grandona assim, oh!

Abrindo os braços o mais que sua estatura permitia, Hanabi exemplifica com um exagero típico; ao lado dela, Konohamaru suspira e até perde a sonolência, deixando de prestar atenção em seu lanche.

— Não era merluza, Nabi, era uma corvina. — Com aquele mesmo tom paciente que Naruto usava com eles, Konohamaru a corrige.

— Isso, uma corvina enorme! — Sem perder a pose, Hanabi repete.

— Viram só? Eu disse, se vocês praticarem, vão ser grandes pescadores. Vão acabar tomando meu lugar nesse ritmo. — Divertindo-se com a dinâmica infantil, Tripa entra na conversa deles, segredando-lhes truques de pesca infalíveis.

Jiraya, que até então desfrutava do calor do chá e da algazarra, soltou uma risada abafada que fez seus ombros largos sacudirem.

— Se o Sandaime visse o neto discutindo espécies de peixes com um marujo em vez de decorar manuais de Jutsu, ele teria um ataque… ou cairia na risada. — O Sannin comentou, lançando um olhar de soslaio para Hiashi — É um tipo diferente de treinamento, não acha, “vovô”?

Hiashi, que ainda parecia estar se acostumando com o novo título, observou Hanabi rindo das histórias de Tripa, notando que a alegria dela não era a euforia nervosa que costumava demonstrar no clã para agradar os superiores, mas algo genuíno, que vinha de dentro.

— É... um treinamento para a vida. — Hiashi admitiu, a voz ainda baixa, mas firme — Também essencial.

Durante a algazarra de risadas e conversas cruzadas, embaladas por um tilintar constante e aromas que abraçavam, onde até mesmo o mais deslocado encontrava espaço, um leve ranger soa da direção da escada; parada ali, sem saber como aproximar-se, como agir, Fuu fitava aquela mesa farta e cheia de gente.

— Você gosta de geleia de nêspera ou de mel? — Com simplicidade, Hinata lhe pergunta, indicando discretamente um lugar vago à mesa.

Dando um passo que paralisa antes mesmo de tocar o chão, Fuu passa os olhos pela mesa novamente, pelos rostos nela, e logo localiza as saídas mais próximas; contudo, o calor agradável, o cheiro delicioso e a calidez daquelas roupas folgadas, largas demais para ela, fizeram com que ela terminasse de caminhar até a mesa. Quando a garota se senta entre Ino e Hanabi, Hinata lhe alcança uma xícara fumegante, e os outros, experientes que eram com essas adaptações, passam a colocar diante do lugar dela, as travessas de biscoitos e os condimentos com naturalidade, continuando com suas conversas; já tiveram tantos novos integrantes em seu círculo, que já se tornara habitual para todos, como acolher sem pressionar.

***

A umidade que antes pesava nas roupas desapareceu, substituída por um ar tão seco que cada inspiração parecia roubar a umidade das gargantas, deixando um rastro de sede imediata; o grupo avançava com os rostos cobertos por panos ásperos, o único escudo contra o hálito quente do deserto que soprava de forma constante, carregando um sedimento fino que penetrava nas frestas dos uniformes e rangia entre os dentes.

À medida que subiam a última duna, a imensidão ocre revelava sua arquitetura bruta, não havia árvores para dobrar com o vento, apenas formações rochosas esculpidas por milênios de erosão, erguendo-se como sentinelas de terracota contra um céu de um azul tão pálido que parecia quase branco; o sol, um disco implacável no zênite, não apenas iluminava, também castigava, fazendo o horizonte tremular em ondas de calor que distorciam a realidade.

Detendo-se diante de uma fenda colossal na rocha, uma cicatriz natural que servia de passadiço, onde o som mudava, filtrando o uivo do deserto nas paredes de arenito, transformando-se em um sussurro abafado; as sombras projetadas pelas muralhas naturais eram longas e frias, um contraste violento com a luz cegante do lado de fora. Ao cruzarem a entrada estreita, o eco dos passos em solo endurecido ressoava como um aviso: ali, a vida não era um presente da natureza, mas uma conquista diária arrancada da austeridade da terra.

— Finalmente, bem-vindos. — Ao final do passadiço, encontraram a comitiva de Suna esperando-os — Fizeram uma boa viagem?

— Tranquila, considerando a previsão do tempo. — Respondendo ao Kazekage com seu humor único, Kakashi aperta a mão estendida de Kankuro — Aproveitei essa oportunidade, para repassar algumas coisas com os outros integrantes do meu time. Espero que não se importe. Não houve tempo para avisos.

— Absolutamente, temos lugar para todos. Vamos entrar? — Passando os olhos pelo Uchiha e a garota ruiva presente, Kankuro os convida — Gaara estava ansioso por sua chegada, Sakura. E Temari, bom, sabem como ela é.

— Por mim? Por quê? — Paralisando por um mínimo instante, Sakura indaga.

— Ele quer saber se você vai chorar de alívio depois desse treinamento. — Rindo, Kankuro segreda a curiosa obsessão do irmão em estudar as emoções, sem saber que acaba de instalar um pequeno caos.

— Depois de passar pelo treinamento de Hinata? Não sei se veremos Sakura chorar de alívio, Kankuro. — As palavras de Kakashi compõem uma breve piada, mas o tom não acompanhava.

Atrás do sensei, Karin levanta o olhar por um momento, analisando-o por um segundo quase infinito e então, sorri de lado, voltando a caminhar; ao lado dela, Sasuke nota sua pequena ação e munido de suas novas habilidades sociais — ainda sendo aprendidas — lhe faz um sinal de “o que foi isso?”, que Karin responde com um olhar de “depois te conto”.

— É mesmo? Veremos o que a vovó Chiyo vai achar disso. — Entrando na brincadeira séria, o Kazekage comenta, e logo acrescenta — Mas só um aviso. A velhota gosta de se fazer de morta e pregar peças.

Guiando-os até o prédio onde se hospedariam, Kankuro vai explicando a logística e a programação para aquele primeiro encontro de treinamento, e dizendo-lhes que alguém os buscaria para o jantar mais tarde, se despede.

— Ah, quase esqueci. — Dando meia volta quando já alcançava a porta, desta vez Kankuro fala a Sasuke diretamente — Nossa conselheira se aloja no quarto no final do corredor. Já que foi improviso, é uma boa surpresa.

Dito isso, finalmente o Kazekage os deixa acomodar-se e descansar, antes que aqueles dias intensos e desgastantes iniciassem, marcando a nova etapa da coalizão de Suna e Konoha.

***

— Será que já chegaram? — Organizando uma pilha de documentos, Shizune pergunta, vendo a noite cair sobre Konoha através da janela.

— Qual dos grupos? O que partiu para Uzu ou o que partiu para Suna? — Com um bufo de impaciência, que era nada mais que costume, Tsunade retruca.

— Creio que… os dois… — Um tanto incerta, Shizune responde — Se consideramos que os que foram para Uzu saíram antes, também já devem ter chegado.

— Então já tem sua resposta. — Carimbando o último orçamento do dia, Tsunade ressalta — Quero só ver o que vão voltar contando, dos dois lados. Bom, talvez aqueles dois perfeccionistas enviem relatórios antes do retorno da equipe.

— Hizashi-sama disse que eles ficaram mais controladores, depois do ataque. — Desta vez, a voz de Shizune soa com notas de pesar.

— Quem não ficaria? Depois de anos de preparo, ainda tiveram baixas, e baixas importantes, na família. — Sabiamente, como raras vezes externalizava, Tsunade analisa — Ainda é muito recente. A ferida continua aberta, e o trabalho contínuo e exaustivo foi a forma que Naruto e Hinata encontraram de conviver com o luto, sem que ele lhes tire a vida.

Enquanto Shizune ajudava Tsunade a guardar documentos e lacrar pergaminhos, uma batida consistente na porta do escritório faz a Senju ranger os dentes, e sua exasperação aumenta, quando vê os indivíduos invadindo sua sala tranquilamente.

— Ah… pelos Deuses! Deem meia volta, já encerrei por hoje! — Apontando o corredor com um braço estendido imperiosamente, ela ordena.

— Nós também, Hokage-sama. — Indiferente ao comando, Shikamaru senta-se pesadamente à frente de sua mesa.

— Então o que querem? Se não vieram me trazer mais trabalho, vão embora. — Desconfiada, Tsunade fita um, logo o outro.

— Trazer informação. — Com a mesma irreverência do seu companheiro, Sai responde — A Inteligência recebeu um informe de Suna: o time sete chegou bem e inteiro. Também, um falcão mensageiro chegou faz alguns minutos: a equipe de varredura chegou a Uzu pouco depois do meio-dia de hoje.

— Isso podia esperar até amanhã, não? É só atualização tática. — Ainda temendo que eles surgissem com alguma reunião extraordinária, Tsunade reclama.

— Fomos doutrinados a não deixar para depois, Tsunade-sama, nossos carrascos trabalham com informação em tempo real. — Daquele jeito incomum de falar, até para os padrões cínicos de Tsunade, Sai replica.

— Eles sabem que você os chama assim? — A Senju indaga Sai um tanto incrédula, então foca em Shikamaru, quase inerte na cadeira — Por que você sempre deixa que ele fale? Vão acabar tendo problemas com essa comunicação exótica dele.

— Sai precisa praticar sua socialização em campo. — Indiferente, Shikamaru retruca — E acredite, ele precisa muito. Já eu, gosto de observar apenas.

— Praticar socialização, sei… — Tsunade bufou, recostando-se na cadeira e cruzando os braços — O que vocês querem dizer é que o Naruto e a Hinata deixaram um exército de pequenos autômatos obcecados por relatórios aqui em Konoha.

— É o que acontece quando se deixa a Inteligência da Vila nas mãos de quem não dorme. — Shikamaru levantou-se, para alívio de Tsunade — Amanhã o dia será longo. Se a varredura em Uzu encontrar o que Naruto suspeita, nenhum de nós vai querer estar com sono.

— Ah, mais uma coisa. — Deixando o mais interessante para o final, porque segundo estudos, aumentaria a resposta cognitiva, Sai informa — A missão do time sete no mês passado deu resultados. Uzu já tem um protegido.

Com isso, os rapazes deixam a sala da Hokage tão tranquilamente como chegaram, indo por fim descansar, antes que mais uma tonelada de dados tivesse que ser processada.

***

A porta aberta parcialmente lançava uma luz mais forte sobre o corredor, ofuscando a opaca luz das poucas lâmpadas nas paredes, e o rosto que se assoma do interior logo transforma-se, de uma indiferença pragmática, para uma surpresa emocional.

— Sasuke? Céus… meu filho… — Puxando-o para os seus braços, Mikoto quase não consegue falar, e por um instante, Sasuke não reage, como se o corpo precisasse lembrar como responder àquele gesto — O que você está fazendo aqui? Espere, entre… céus.

— Estamos em missão. Bom, dois membros da equipe estão. — Entrando no quarto, Sasuke explica — Estivemos aqui mês passado, mas não ficamos. O Kazekage me disse que você estaria aqui.

— Oh, Temari-chan comentou que uma equipe de Konoha esteve em Suna. Izumi e eu estávamos inspecionando a fronteira sul no deserto. — Mikoto conta, e seus olhos negros agitam-se absurdamente, fitando o rosto do filho — Vocês vão ficar por quanto tempo?

— Isso vai ser decidido ainda. Mas Kakashi disse que enquanto a equipe não tiver uma missão designada a parte, Karin e eu estaremos vindo a Suna com ele e Sakura. — Sasuke sentia como se tivesse voltado a infância na presença da mãe, e isso refletia-se no tanto que estava falante — Eu vi o nii-san. Nossa missão era criar uma cobertura para o disfarce dele.

— Deve ter sido difícil, para os dois. — Pela forma como Sasuke falou, Mikoto soube que isso lhe tirou o sono.

— Era necessário. — Evadindo a parte complexa, Sasuke pontua, e então, um pouco dubitativo, questiona — Enquanto estiver aqui… posso vir te ver, okaasan?

— Sasuke, claro que sim, meu filho! Que pergunta! Eu ficaria furiosa se você estivesse em Suna e não passasse tempo comigo. — Mikoto reconhecia aquela hesitação, mas não a confronta; sabia que o convívio normal voltaria passo a passo — Venha, me conte como tem passado? Da última vez, estivemos todos envolvidos com o pós ataque, que não pudemos ter tempo de qualidade.

Durante a próxima hora, Mikoto esteve conduzindo Sasuke lentamente numa conversa que na maior parte do tempo, evitava temas complexos de seu mundo Shinobi, ela simplesmente perguntava e ouvia o máximo que podia sobre aqueles sete anos em que estiveram separados; e como se uma comporta estivesse sendo aberta, despejando litros de água de um reservatório saturado, Sasuke foi contando períodos de sua vida, e sem perceber, ia deixando escapar detalhes peculiares de si, informações aparentemente irrelevantes, mas que contavam mais do que as palavras traduziam.

No momento em que foram chamados para o jantar, ele e sua mãe juntaram-se a Izumi, Kakashi, Sakura e Karin, e ao encontrarem os irmãos Sabaku’s lhes aguardando, a mesa de jantar tornou-se para a jovem Uzumaki um campo de batalha sensorial; havia muita coisa acontecendo ali, de decepção e frustração, a alegria, alívio, e muita expectativa.

— O que há? — Vendo como Karin apertava as têmporas, Sasuke pergunta.

— Estão muito barulhentos. — Suspirando, Karin responde.

— Kakashi disse que você precisa aumentar a estabilidade disso. — Como um recordatório para que ela suportasse, o Uchiha replica.

— Eu sei. — Bufando, Karin lhe dá uma cotovelada nas costelas — Você é o pior. Pare de se preocupar, sua mãe está feliz por te ver.

— Poderia não fazer essas coisas? — Massageando as costelas, Sasuke pede.

Nunca entendia porque Karin agia daquela forma, pregando peças e sendo tão tátil, às vezes até com certa agressividade como acabava de acontecer, principalmente, Sasuke não sabia dizer o que era tão divertido em pôr os outros desconfortáveis.

— E perder essa sua cara de palerma? Nunca! — Detendo seu caminhar e parando diante dele, Karin aproxima-se o suficiente para fazer Sasuke arregalar os olhos, sorrindo amplamente — Você é como um peixe fora d’água, e é aí que você fica interessante.

— Ei, eu não sou paler… — Sasuke ia protestando, mas Karin tampa sua boca com uma mão.

— Shiiu! Veja isso. Se prestar atenção, até você consegue. — Como um cão farejador, Karin “fareja” os integrantes da mesa de jantar.

De um lado, Kakashi conversava com Kankuro, Izumi e Mikoto; do outro, Sakura respondia alguma pergunta de Temari, enquanto Gaara orbitava as duas como uma lua inquieta.

— Aqueles são os irmãos do Kazekage? — Karin pergunta a Sasuke, num sussurro.

— São. O que isso tem a ver com… — Sasuke já não conseguia seguir o raciocínio de Karin.

— Observe como o nosso sensei se comporta. — Karin instrui, os olhos vermelhos brilhando como uma joia.

— Ele está como sempre. Entediado. E com as mãos tremendo para pegar aquele livro. — Revirando os olhos, Sasuke avalia rapidamente.

— Bem se vê que você é socialmente inapto. — Karin retruca, como se fosse óbvio, e então agarra o rosto dele, forçando-o a encarar a cena — Você tem que analisar as sutilezas, Sasuke. Pense que isso é uma missão… e observe.

Obedecendo ao comando, Sasuke foca sua leitura analítica como se aquilo fosse uma missão — o que, por si só, já fugia de seus padrões — e, estreitando os olhos, observa melhor a cena como um todo.

Do outro lado da mesa, Kakashi parecia relaxado e alheio a tudo que não fossem as três pessoas com quem conversava; entretanto, seus ombros enrijeciam e relaxavam numa sequência irregular, e seu olho visível movia-se pela sala formando um padrão reconhecível após alguns instantes: porta, Sasuke e Karin, arranjos de flores, mesa de jantar, Sakura e os dois irmãos Sabaku’s… para então retornar ao Kazekage e às mulheres Uchiha.

— Ele está… vigiando? Por quê? — Genuinamente confuso, Sasuke sussurra.

— Pelos céus… tenho que te ensinar muita coisa, peixinho. — Indignada, Karin retruca.

— Quem é o peixinho? — Antes que Sasuke pudesse protestar sobre o apelido, a voz ferina de Temari lhes alcançou.

— Sasuke. Ele é um peixinho dourado. — Debochada, Karin responde, vendo ambas aproximando-se, com aquela “lua” junto.

— Sakura disse que você é uma Uzumaki. E uma sensorial. Correto? — Avaliativa, Temari inicia — Como funciona isso, nesse momento?

— É desnorteante. Ainda estou expandindo sem as restrições. — Direta, Karin explica, e resolve fazer uma demonstração — Mas é útil na maioria do tempo. Você, por exemplo, parece decepcionada com algo que está relacionado conosco, mas não necessariamente aqui.

— Caramba… — Desviando o olhar por um segundo, Temari se sente aliviada por ser apenas aquele time de Konoha ali, daquela vez.

— Que interessante… você lê emoções. — Gaara comenta, observando Karin com atenção — Eu tento entender o que as pessoas fazem com elas.

— Bem, você está com vantagem então. Tem gente que complica só para não admitir o óbvio. — Karin comenta, quase distraída.

***

O barulho do chuvisco mais tranquilo caindo sobre as telhas de barro fazia par com o retinir suave das louças sendo lavadas; vindo da sala, uma conversa baixa e despassada alcançava os dois anfitriões na cozinha. Após o jantar, reprogramado pela mudança de temperatura, substituindo o hiyashi chuka por tempurá, com misoshiru e gohan como acompanhamentos, algo mais adequado ao clima frio e chuvoso, os marujos recolheram-se ao navio. O som da água correndo na pia preenchia os intervalos entre as palavras não ditas; Naruto enxugava uma das tigelas com um pano limpo, enquanto Hinata organizava as louças já secas no armário, silenciosa como sempre.

— Você percebeu… — Naruto começa, sem terminar de imediato, os olhos ainda na peça que segurava.

Hinata não responde de pronto; apenas desloca uma kobachi alguns milímetros para alinhar com as demais antes de falar.

— Hiashi-sama. — Não era uma pergunta.

— Comparado com o passado… — Escorando o quadril na bancada, Naruto comenta, num suspiro entre riso e preocupação.

— É… nunca o vi tão pequeno. — Fechando o armário com cuidado, Hinata parece se ancorar ali por um momento.

— Você está incomodada? — Alcançando as mãos dela, Naruto a puxa gentilmente para perto, abrigando-a entre seus braços.

Envolvida por aquele calor familiar, Hinata fita a grande janela sob a pia, o vidro salpicado por gotículas d’água, enquanto as sombras indistintas das árvores ao longe dançavam ao ritmo do vento; quando volta seu olhar para ele, o vinco entre suas sobrancelhas já não estava lá.

— Não. Só estou processando. — Hinata responde, com calma — Na verdade, é uma sucessão de detalhes. Desde quando Hanabi foi entregue a nós. Desde o ataque. É um processo que começou lá atrás… e só agora está vindo à tona.

Com uma das mãos subindo até o rosto dela, Naruto alisa lentamente seus longos fios negros, notando como a franja que ela mantinha sempre cortada reta, começava a alcançar as bochechas, dividindo-se e emoldurando seu rosto; ali em sua testa, não mais oculto, o losango diamante do Sōzō Saisei resplandecia, sereno, como ela.

— Vou levar o chá e pôr as crianças para dormir. — Beijando o topo da testa dela, logo acima do selo, Naruto deixa que Hinata tenha o seu tempo — Termino aqui depois, vá descansar.

Pegando a chaleira sobre o fogão, Naruto verte o chá de maçanilha nas xícaras, colocando-as sob uma bandeja e dirige-se para a sala, onde seus convidados tentavam manter certa normalidade, enquanto Konohamaru e Hanabi desenhavam no tapete, e Jiraya escrevia em seus manuscritos perto da lareira.

— Chá de maçanilha para dormir. — Distribuindo as xícaras, Naruto vê Hinata subindo discretamente as escadarias — Kono, Nabi, deem boa noite, subam e escovem os dentes. Já estou indo. Escolham a história.

— Cadê a okaasan? — Imediatamente, Konohamaru pontua a ausência dela.

— Subiu primeiro. — Sem detalhar, Naruto responde e indica com um aceno, os lápis e folhas espalhados pelo chão.

— Está tudo bem com a nee-chan? — Vendo as crianças recolher seus desenhos, Neji pede, preocupado.

— A Hina estava com câimbras a tarde. — Com uma verdade suficiente, Naruto encerra o assunto.

— Estive observando antes, o que há no terceiro piso, Naruto? — Com sua costumeira bisbilhotice, Ino questiona.

Quando chegaram e viram o tamanho da casa por fora, ficaram impressionados, mas seus instintos investigativos acenderam quando Hinata os conduziu aos quartos do segundo piso; Ino percebeu que as escadarias continuavam por mais um lance; até o momento, havia visto a sala ampla, a cozinha aberta, tivera um relance da área de serviço e o banheiro, e o segundo piso formava um pequeno corredor com um parapeito de onde dava para ver a sala lá embaixo, e toda sua extensão compreendida por quartos dos dois lados.

— Bem… — Naruto apoia a bandeja na mesa por um instante — A gente pensou na casa para aguentar movimento.

Um mínimo movimento nos outros, indica que também estavam prestando atenção na conversa, apesar de fingirem que não.

— Embaixo ficou o que todo mundo usa: sala, cozinha, despensa, lavanderia… o banheiro também é coletivo. — Ele aponta com a cabeça, naturalmente, indicando o espaço.

— Faz sentido. — Ino murmura, já conectando os pontos.

— O segundo andar é todo de quartos. — Naruto continua — Quando vocês chegaram, a Hina já levou direto para lá.

— E lá em cima? — Ino cruza os braços, satisfeita, mas nem tanto.

Naruto solta um meio sorriso, quase antecipando a curiosidade dela.

— O terceiro é mais… nosso. — Ele responde, simples — O mezanino do padrinho fica lá, os quartos das crianças… e o nosso.

Jiraya solta um riso baixo, recostando-se relaxado na poltrona, detendo sua escrita frenética, os olhos negros cintilando com o pensamento afiado de sempre; varrendo os rostos presentes com deliberada lentidão, o Sannin estuda-os, apoiando o queixo numa das mãos.

— “Nosso”, é? — Jiraya repete, saboreando a palavra, o olhar passando um momento pela escadaria, por onde as crianças acabavam de sumir, antes de prosseguir — Interessante… bem pensado. Separou direitinho: convidados embaixo… família no meio… e lá em cima, o que ainda vai crescer.

Conforme as palavras de Jiraya foram sendo ouvidas, absorvidas e por fim, compreendidas, os demais reagiram a elas de maneiras distintas, mas precisas: Ino teve uma sede repentina, tomando goles generosos do chá ainda quente, Neji parecia ter encontrado a mesa na cozinha muito interessante, os insetos de Shino zuniam numa frequência incomum, e até Fuu, sentada mais afastada, arregalou minimamente os olhos; contudo, a reação mais ansiada por Jiraya, e também a mais significativa, foi a de Hiashi, com o olhar perdido no líquido escuro em sua xícara, e com um suspiro quase inaudível, maneia a cabeça, como um aceno afirmativo.

— Estrutura de longo prazo. — Sorrindo de canto, satisfeito, Jiraya conclui, levando a xícara aos lábios — Fundamental… quando se pretende evitar surpresas.

Fitando a sala iluminada apenas pelo fogo baixo da lareira e uma pequena lamparina a óleo, Naruto foca seu olhar nas paredes repletas de retratos contando uma história, passa pelos desenhos emoldurados evidenciando a nova responsabilidade que assumiram, e então para em sua mão direita segurando a xícara; ali, naquela penumbra, as runas negras do compromisso em seu dedo anelar, pareciam ganhar um brilho distinto, sob a profundidade do seu olhar.

— Tudo na vida tem ordem, padrinho. Há ordenação estratégica… e há ordenação natural. — Com uma voz baixa, estável, Naruto responde, o polegar passando de leve sobre o anelar — Cabe a nós compreender em que momento cada uma se impõe.

Ao ouvi-lo, Jiraya bufa retrucando baixo um “astuto sem vergonha”, que todos escutam perfeitamente, e como antes, Hiashi repete o mesmo gesto afirmativo, impactando Neji e fazendo Ino rir baixinho; antes que os neurônios do padrinho encontrassem uma nova inspiração para provocações, Naruto deposita a xícara vazia na bandeja e levanta-se.

— Bem, está tarde. Sintam-se em casa, todos. Boa noite! — Mantendo a cordial hospitalidade, ele se despede.

O Uzumaki ainda ouve respostas um tanto atrasadas quando já sobe as escadas, e tem a impressão de ouvir mais alguns suspiros ecoando junto ao estalar da lenha na lareira; chegando ao terceiro piso, no quarto que Konohamaru dividia com Hanabi, embora a menina tivesse o seu próprio — que, no tempo certo, passaria a ocupar — Naruto os encontra deitados e aconchegados em suas camas, à sua espera. O livro da noite estava sobre a cadeira entre as camas, e a lamparina no criado mudo fora ajustada, deixando apenas uma luminosidade tímida, só o suficiente para a leitura; quando o veem, Konohamaru sorri amplamente e Hanabi relaxa sob as mantas, deixando de apertá-las.

— Kaguya-hime? — Naruto confirma, abrindo o livro — Está bem. “Há muito tempo, um velho cortador de bambu, pobre e sem filhos, estava trabalhando na floresta quando viu um talo de bambu brilhando com uma luz misteriosa…”

O restante da história se dissolve em voz baixa, até que as palavras passam a existir apenas para ele; entre uma frase e outra, a respiração das crianças encontra um ritmo estável, profundo, e o leve virar de páginas torna-se o único som no quarto. Quando ergue os olhos, Konohamaru já dormia com um dos braços caído para fora da cama, e Hanabi, enroscada nas mantas, tinha o rosto parcialmente escondido, tranquila.

Naruto fecha o livro com cuidado, marcando a página com um gesto automático, e por um instante apenas observa os dois, como se confirmasse algo que não precisava mais ser dito. Ajusta o braço do menino para dentro da cama, puxa levemente a manta de Hanabi até o queixo e, depois de apagar a lamparina, permanece alguns segundos na penumbra, ouvindo; ao sair do quarto, fecha a porta sem ruído e segue pelo corredor onde a luz é ainda mais escassa.

A casa, naquela quietude, parece maior, mais funda; o som distante da lareira no térreo sobe pelas estruturas de madeira, misturando-se ao sopro contínuo do vento do lado de fora; chegando ao banheiro no final do corredor, alinhado com os dos andares inferiores — uma solução simples, pensada desde o início, que concentrava o encanamento e evitava excessos desnecessários — Naruto parece despir, junto das roupas, todo o cansaço daqueles dias, e quando a água quente — graças a caldeira instalada no final da tarde — toca seus ombros enrijecidos, a tensão “desamarra”.

Com vapor ainda emanando de sua pele e os fios claros um tanto úmidos, Naruto atravessa o pequeno trecho até a porta entreaberta, ouvindo os sussurros e passos contidos do andar de baixo indicar que os outros também estavam se recolhendo; minimizando ainda mais seus movimentos ao entrar no quarto, praticamente às escuras, com uma opaca luz vindo de uma lamparina pequena, lançando sombras sobre os contornos difusos da cama.

— Te acordei? — Quando deita ao lado dela, Hinata, que estava virada para a janela, vira-se para ele.

— Desde quando durmo sozinha? — Aconchegando-se mais a ele, Hinata replica — Eles estão bem?

— Dormindo como pedras. Você teve câimbras de novo? — Passando um braço por baixo dos ombros dela, Naruto abraça-a.

— Não, só precisava relaxar. — Traçando linhas invisíveis pelos braços dele, ela conta — Jiraya parecia contente durante o jantar… não acha?

— Contente é pouco. Ele está nas nuvens por ter mais gente para provocar. — Rindo, Naruto antevê muitas situações embaraçosas.

Um riso suave escapa dos lábios de Hinata, ao decifrar o que a expressão de Naruto significava, enquanto os dedos dela seguiam desenhando linhas aleatórias sobre a pele marcada por cicatrizes; em algum ponto entre uma volta e outra, o toque dela subiu até a linha da clavícula exposta na gola da camisa de algodão, e junto ao arrepio espalhando-se, os braços de Naruto tensionaram-se em volta dela.

Diferente de outrora, essa mudança de frequência não causa um recuo, pelo contrário, instiga mais proximidade, e com a confiança construída, o natural vem sem hesitação; os rostos inclinando-se minimamente, os lábios a sobrepor-se, tocando-se vagarosamente, transformando respirações ritmadas em suspiros descompassados, levemente ofegantes. As mãos acomodaram-se distintamente ao começo, enroscando-se timidamente entre mechas de cabelo, repousando com mais incisão na curvatura da coluna, enquanto pernas entrelaçavam-se tateantes; e quando as superfícies já reconhecidas se tornam insuficientes, uma pausa nervosa acontece, revelando uma pequena flexão emocional.

— Hina… posso… posso tocar em você? — Num sussurro contido e um tanto assustado, Naruto pede.

Fitando-o com olhos brilhantes e enevoados, Hinata respira profundamente por um instante; há um breve silêncio entre eles — uma consciência reveladora — e então, com um movimento lento, ela entrelaça os dedos nos dele. Sem desviar o olhar, guia a mão de Naruto até sua cintura, repousando-a primeiro sobre o tecido leve do pijama, onde o calor da pele já se fazia sentir mesmo através do algodão fino.

— Pode… — a resposta sai baixa, quase um sopro.

Por um momento, suspendido por respirações desacelerando e um pulsar marcando o compasso, tudo que há é um entendimento pairando entre os dois olhares, a assimilação silenciosa da importância daquele instante; e então, com uma cautela quase devocional, a mão de Naruto ultrapassa a barreira do tecido, sentindo a textura macia e a curva suave da cintura. O primeiro contato é um choque térmico, um contraste vibrante entre suavidade e aspereza que faz ambos ressoprarem, assimilando o contato, e assim Naruto prossegue, seus dedos contornando sinais de cicatrizes — como o ferimento de Katana logo abaixo das costelas — ou a linha firme de um músculo sob a pele; naquela conversa silenciosa, onde as mãos fazem perguntas e os suspiros dão as respostas, aquelas marcas eram como um mapa precioso, um testamento de sobrevivência.

Quando a mão dele alcança o limite entre suas costelas e a elevação do seu peito, Naruto a detém e espalma ali, e mesmo que nenhuma palavra tenha deixado seus lábios, Hinata soube que ele estava a sentir o bater de seu coração acelerado; o peso e o calor daquele toque foi mais intenso do que qualquer outro, e dizia mais do que qualquer declaração verbalizada. Naruto a queria — e, como suas mãos vinham revelando — a queria com suas cicatrizes, sobretudo, queria seu coração; sorrindo suavemente, ele começava a afastar seu toque, mas Hinata o detém, os olhos marejados e um reboliço em suas emoções, fazendo com que permaneça exatamente onde estava, e o abraça apertado.

— Podemos ficar assim? — Num fiapo de voz, ela pede.

— É claro. — Ternamente, ele concede, ajustando o abraço ao redor dela, mantendo-a ali.

***

O primeiro som que alcançou seu despertar não foi a chuva, já transformada em um chuvisco quase mudo, mas um impacto surdo e cadenciado; vinha de longe, abafado pelas paredes de madeira da casa, um tum… tum… rítmico que parecia vibrar no travesseiro antes mesmo de ser ouvido. Então o lampejo de consciência veio com a claridade difusa atravessando as frestas da janela, um brilho pálido que espalhava-se pelo quarto de hóspedes; Hiashi demorou alguns instantes para reconhecer o teto de madeira clara, e o cheiro suave que impregnava o ambiente.

Ao mover-se sob as mantas, percebeu a textura irregular do tecido, feito à mão, cada ponto costurado com paciência e esse detalhe, tão simples, trouxe-lhe uma estranha sensação de cuidado; o aroma dos lençóis limpos, impregnados de ervas secas utilizadas para conservar, completava a impressão de que aquele lugar fazia mais do que abrigar. Por um instante, a desorientação o fez pensar que ainda estava em Konoha, mas o silêncio diferente, a ausência dos sons familiares do clã, logo lhe devolveram a consciência do lugar; sentando-se devagar, os pés tocando o assoalho frio, Hiashi respirou fundo, ajustando o manto sobre os ombros.

Com o corpo ainda pesado pela noite, mas a mente já desperta, deu alguns passos até a janela, onde a luz da manhã se insinuava tímida, lá embaixo naquele pátio aberto para a construção, próximo à orla da floresta, Hiashi encontra a origem do som que o despertara; com um vigor abundante, Naruto brandia um machado contra troncos densos de kashi, partindo-os até serem apenas lascas. Hiashi manteve-se imóvel à janela, os olhos perolados fixos na figura que dominava o pátio; Naruto estava sem camisa, a pele bronzeada exposta ao frio da manhã, e o vapor subia de seus ombros conforme o calor do corpo encontrava o ar úmido.

O movimento era cíclico e brutalmente eficiente, Naruto posicionava um novo tronco de kashi sobre o cepo com uma mão, enquanto a outra já buscava o cabo do machado, a cada golpe, Hiashi decifrava a cadeia cinética do movimento: a força não nascia nos braços, mas nos pés plantados no solo, subindo pelas coxas tensas e explodindo na rotação do quadril; no ápice, o peso do aço parecia suspender Naruto por um milésimo de segundo antes de descer com uma descarga de peso absoluta. O som era um tack seco, ensurdecedor, e a madeira densa do carvalho abria-se em metades perfeitas, rendendo-se sem resistência.

Ao observar a musculatura desenhar-se sob a pele como cordas de um arco esticado, Hiashi chegou a um entendimento silencioso, aquela estatura corpulenta, incomum e muito além da média para um adolescente de quatorze anos, não era apenas genética ou o efeito do chakra da Raposa; era o resultado direto de uma disciplina bruta e ininterrupta, a largura dos ombros e a densidade física do rapaz eram forjadas ali, naquele trabalho braçal exaustivo tratado com a mesma solenidade de um treinamento de elite.

Afastando-se da janela com um último olhar para o pátio, Hiashi deixa o quarto, cruzando o corredor até o banheiro, e como em um ritual já enraizado, asseia-se e alinha suas vestes com cuidado; ao estar pronto, a passos lentos seguiu até a escadaria, onde o aroma quente do chá começava a subir, misturado ao leve dulçor do arroz recém preparado, ao descer, o som discreto de utensílios em movimento o guiou até a cozinha. Hinata estava ali, de costas, o corpo inclinado suavemente sobre a bancada, tão leve — tão diferente da postura imperiosa que a vira assumir no comando da ANBU — que por um instante pareceu outra pessoa; com movimentos precisos, ela batia o chasen no chawan, dissolvendo o pó verde do matcha em espuma delicada, enquanto ao lado, pequenas tigelas já alinhadas aguardavam o café da manhã.

O vapor subia em espirais finas, e o cheiro fresco do chá misturava-se ao aroma reconfortante do gohan aquecido, fazendo Hiashi deter-se por um instante na soleira, observando em silêncio; o cuidado dela estava em cada gesto: na ordem das tigelas, na firmeza tranquila das mãos, na atenção aos detalhes que transformavam tarefas simples em atos de acolhimento. E foi nesse instante, antes mesmo de qualquer palavra, que Hiashi compreendeu que aquela cozinha não era apenas um espaço de preparo, mas um lugar onde se costurava, dia após dia, a vida que agora, tardiamente, tentava reencontrar.

— Bom dia. — A voz soara suave, sem que ela interrompesse sua tarefa.

— Bom dia… — Nervoso, Hiashi responde, os olhos vagando em busca de algo banal para dizer, logo avistam através da janela o trapiche ao longe, vazio — Os marujos?

— Eles sempre saem cedo. O capitão não fica se não for necessário. — Focando no mesmo ponto, onde as ondas quebravam, Hinata responde, separando duas xícaras e servindo o matcha.

O som da porta dos fundos se abrindo suavemente interrompeu por um instante o silêncio contido da cozinha, e Naruto entrou vindo da área de serviço, o torso ainda banhado em suor, os fios claros colados à pele pela umidade, e nos braços uma braçada de lenha; o cheiro áspero da madeira misturou-se ao frescor do matcha e ao dulçor do arroz, criando uma atmosfera singular, de trabalho e de lar. Com passos firmes, ele atravessou o espaço até a caixa de lenha ao lado do fogão, onde depositou os troncos com cuidado, o impacto seco ecoando baixo pelo ambiente; endireitando-se, respirou fundo, e por um instante o vapor que ainda emanava de seus ombros pareceu se dissolver no calor da cozinha.

— Bom dia. — Seus olhos recaindo um momento em Hiashi parado indeciso perto da mesa, logo fixam-se em Hinata, o encarando com evidente desaprovação pela ausência da camisa — Hina, vou até o moinho verificar se a chuva não deixou nada obstruindo a roda. Você quer algo de lá?

— Quero que você vista a camisa, ou quando estiver com dor de garganta, o seu chá vai ser o mais amargo. — Era uma ameaça contida, que prometia bem mais que chá forte — Traga akebias, vou fazer mais geleia.

Naruto solta um riso baixo pelo nariz, balançando a cabeça diante da autoridade dela, e sem pressa, puxou a camisa de algodão presa ao cinto e a vestiu; o tecido aderiu por um instante à pele úmida antes de ele ajustá-lo sobre os ombros, enquanto lançava a Hinata um olhar rápido, de soslaio, carregado de uma densidade silenciosa.

— Entendido. Não quero que nada estrague o gosto da manhã. — Sua voz baixa e calma não denunciava nada, e o peso daquela última palavra se perde, quando Naruto vira-se para Hiashi numa sobriedade calculada — Estarei de volta para os mapas em trinta minutos.

Vendo-o caminhar tranquilo de volta para os fundos carregando um cesto debaixo do braço, Hinata lhe estreita os olhos, indignada com a picardia velada de Naruto; suspirando minimamente, ela volta a prestar atenção em Hiashi, completamente perdido naquela situação.

— Sente-se, o matcha é o melhor para esse clima. — Numa cortesia contida, Hinata lhe fala, indicando a cadeira à sua frente.

— Sim. Dias úmidos e matcha combinam muito bem. — Agarrando aquela oportunidade, Hiashi considera como iniciar, sentindo como as palavras pareciam atar sua língua, enquanto o conselho de Naruto ecoava em sua mente — Faz um tempo… Eu estava errado sobre muitas coisas. Principalmente… sobre você, Hinata.

Hiashi iria explicar, justificar — mesmo sentindo que era injustificável — mas prefere admitir a culpa antes de tudo, e querendo ser sincero desde as palavras até a postura, mantém o olhar direto, a cabeça erguida — ainda que quisesse se encolher de vergonha — sustentando aquela mirada serena e inabalável; ao ouvi-lo, Hinata encontra aquela mesma ansiedade de quando Hanabi o abraçara, as pupilas agitadas, a respiração entrecortada, e a voz quebrada como jamais ouvira dele.

— Te impus o mesmo que impuseram a mim, para ser um líder… confiando naquele sistema, sem considerar o quanto ele era falho… — Percebendo que era ouvido, Hiashi tenta continuar, mas o peso daquilo era sufocante — Acreditei numa casa… que já tinha roubado minha humanidade. E quase fiz o mesmo…

— Ter me entregado ao Sandaime, foi a melhor graça que você poderia ter me dado, mesmo que daquela forma torta. — Sem qualquer rancor na voz, Hinata afirma, quando Hiashi parece incapaz de prosseguir — E parece que para você também, já que está liberto daquela doutrina. Não volte para aquele ponto.

Hiashi ainda assimilava o que ouvira, quando o som de passos ecoou na escada, e no instante seguinte, Neji surgia na sala, acompanhado de Ino e Shino, e logo atrás deles, já parecendo menos arredia, Fuu; ao encontrar a prima e o tio juntos, sozinhos à mesa, Neji teme que tenha ocorrido um confronto, mas ao analisar a postura de Hiashi, os ombros caídos de uma forma que gritava muitas coisas, mas principalmente alívio, o Hyuuga compreende que não foi um retrocesso, e sim um reinício.

— Bom dia, tio, nee-chan. — Aproximando-se, Neji lhes fala, testando o ambiente — E Naruto?

— Bom dia, nii-san, pessoal. Espero que tenham descansado. — Respondendo com sua habitual calma, Hinata levanta-se e termina de colocar a mesa, com os pratos que mantivera no fogão para conservar aquecidos — Naruto foi inspecionar algumas coisas, já retorna. Sentem-se.

— Ah, Hina… — Suspirando daquela forma que dizia o quanto estava empolgada, Ino se joga numa das cadeiras — Você está brilhando, sabia?

— Brilhando? Do que está falando, Ino? — Batendo os ovos num chawan limpo, Hinata questiona, achando curiosa aquela observação.

— Eu não sei, antes você sempre exalava essa serenidade. Mas agora, parece mais, sei lá… — Sem conseguir explicar de onde aquilo veio, Ino divaga, servindo-se uma xícara de chá — Você está simplesmente brilhando!

— Pensei isso também, quando cheguei. — Inusitadamente, Fuu entra no assunto, reforçando a observação de Ino.

— Talvez seja a estabilidade do Sōzō Saisei. — Fitando com seriedade o diamante na testa da prima, Neji comenta tecnicamente.

— Também devemos considerar a estabilidade emocional e a conexão com Naruto. — Elevando o nível da discussão, Shino intervém com suas próprias pontuações — Meus insetos captaram uma sinergia sólida nos chakras de vocês.

— Oh, pelos céus… — Sem palavras, Hinata até esquece de virar os tamagoyakis na frigideira.

Antes que a Hyuuga pudesse dizer aos amigos que deixassem de analisar sua estabilidade emocional, a porta dos fundos se abre novamente, trazendo a brisa fria da manhã e o aroma de terra úmida; com passadas tranquilas e relaxadas, Naruto retorna à cozinha, carregando em um braço um cesto cheio de akebias, ainda salpicadas por gotas de orvalho, e na outra mão, um ramalhete desajeitado — amarrado com tiras de capim-pangolão — de margaridinhas amarelas. Seus olhos passeiam pela cozinha cheia, fixando-se em Hiashi parecendo mais tranquilo do que quando saíra, e então recaem em Hinata — ruborizada e tentando ignorar as risadinhas de Ino — captando a ausência de intranquilidade em seus gestos; sorrindo aliviado, Naruto deposita as akebias na bancada, e naturalmente, retira uma flor do ramalhete, acomodando-a como ornamento nos cabelos dela.

— Apesar do vento, o moinho está intacto. — Estendendo-lhe as flores, ignorando a plateia, Naruto saboreia a reação de Hinata — E o chuvisco vai ceder antes de sairmos.

Ouvindo as provocações de Ino, sobre “ter encontrado a razão do brilho”, a mesa de café da manhã finalmente está completa, repleta de risos e conversas aleatórias, e apesar de tentar manter certa sobriedade, um sorriso traidor surgia incontrolável, afetando as feições de Hinata; ao lado dela, Naruto voltava ao seu modo bom anfitrião, discutindo assuntos sérios e complexos com Neji, Shino e até Hiashi, como os descontraídos e zombeteiros de Ino, quem parecia ter alcançado certo nível de afinidade com Fuu.

— Então, você vai estabelecer um perímetro, e catalogar a fauna e flora. Terminando este, recomeça em outro. — Naruto dizia a Shino, por fim explicando o plano de ação — Veremos como funciona, e se precisará ser adaptado.

— A mim me parece eficiente. — Shino responde, contente com a praticidade.

— Na teoria, mas é uma terra que está desabitada por muito tempo, podem existir espécimes novos e talvez até mutações. Você mesmo disse, Shino, é vibrante de vida. Mas como essa vida se manteve isolada aqui? Precisamos ter cautela. — Abrangendo mais do que a simples exploração, Naruto alerta a todos para a possibilidade de novas descobertas.

— E quanto a mim? — Empolgando-se ao perceber que não seria uma operação conjunta, mas sim dividida por setores, Ino questiona.

— Precisamos que você estabeleça uma barreira sensorial, um escudo permanente. — Trazendo uma segunda chaleira de chá do fogão a mesa, Hinata explica, voltando a sentar-se — Não podemos manter barreiras de quatro pontas o tempo inteiro, e precisamos manter esse lugar o mais “invisível” que pudermos.

— Mas, para isso, uma equipe precisaria manter um rodízio constante. — Preocupada, Ino aponta o problema principal — Um escudo assim, pede uma manutenção e sentinelas…

— É onde entra o trabalho do Byakugan. — Tranquilo, Naruto revela, sorrindo daquela forma travessa que profetizava algo imprevisível — Este lugar inteiro está repleto de ruínas com runas e inscritos antigos de proteção, com a fórmula correta, aplicada à técnica Yamanaka, o escudo se torna autossuficiente.

— Então, nós vamos buscar pelas runas? — Começando a entender a logística, Neji indaga — Você já tinha isso planejado antes de vir, não é?

— Também. Mas o que preciso encontrar é diferente. — Num tom relaxado, que não condizia com a expressão séria em seu rosto, Naruto conta — Estudei os registros antigos, e os documentos que a okaasan me deixou para chegar a essa resposta, Neji. Não adiantaria vir até aqui, construir tudo isso, se esse ponto não estivesse resolvido antes de chegarmos. E acredite, teremos muito que manter oculto.

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— Então, presumo que o que buscaremos, só será encontrado após o escudo estar estabelecido? — Hiashi começava a compreender por que o Uzumaki lhes dissera que aquela era uma operação em etapas.

— Por isso vocês foram escolhidos a dedo, e por isso, nos registros de Konoha, seus times estão atualmente, em missões internas, com vocês. — Elevando o nível de complexidade, Hinata ressalta.

Enquanto os envolvidos compreendiam a magnitude daquela missão, sons de passos leves e apressados e portas batendo nos andares acima, indicavam que o tempo de discutir estratégias abertamente terminou; alguns minutos depois, Konohamaru e Hanabi descem as escadarias, saltando os degraus de dois em dois, descalços e com expressões que diziam que ainda estavam no mundo dos sonhos.

— Bom dia. — Hanabi murmura, esfregando os olhos, sentando-se numa lentidão preguiçosa.

— Bo… ham… b... — Konohamaru tenta, mas sua voz quebra, e fazendo uma careta, o menino leva as mãos a garganta.

— O banho de chuva deixou um presentinho. — Aproximando-se e verificando a temperatura dele, Hinata constata — Não tem febre. Gengibre, limão, anis e mel basta.

— Moído ou em pedaços? — Atrás dela, Naruto já separava na bancada os ingredientes para o remédio caseiro.

— Em pedaços. — Conduzindo Konohamaru a mesa, Hinata responde, focando seus olhos em Hanabi e suas bochechas coradas — Você está com dor de garganta também, Hanabi?

— Não, okaasan. — Repetindo a negação com a cabeça, Hanabi responde.

— Dois, para prevenir. — Naruto, que virara-se, focando na menina quando ouviu a pergunta de Hinata, decide, e logo corrige — Melhor três. O padrinho não deve ter tomado cuidado com a aragem da madrugada, enquanto escrevia.

— Com certeza. Tomem o misoshiru por enquanto, vou preparar okayu. — Colocando as tigelas fumegantes diante dos dois, Hinata os acalenta — Já vai passar.

Observando a desenvoltura deles, dividindo a bancada, dosando ingredientes, Ino — quem, como Shino, ainda estava processando a surpresa e o impacto sentido ao chegar ali, e encontrar seus amigos assumindo ambas as crianças que anteriormente, eram seus irmãos mais novos — capta uma energia diferente fluindo neles; não era óbvio, mas ocorria um latejar mais evidente na jugular de Naruto, a cada vez que Hinata inclinava-se para alcançar o saleiro, ou a respiração mais lenta — quase um suspiro — dela, a cada vez que ele cruzava às suas costas, indo mexer a pequena caçarola de cerâmica no fogão.

— Hum! — Sorrindo amplamente, Ino beberica seu chá, escorando o rosto numa das mãos.

— O que foi? — De frente para ela, Neji nota apenas suas feições de puro deleite.

— Nada. — Ino retruca, vagando seus olhos pela mesa, e encontra Hiashi fitando a mesma cena — Oh, o senhor também vê?

— O quê? — Agora mais curioso que antes, Neji gira seus olhos do tio, que apenas assente em silêncio, para Ino.

— O ciclo natural. — Evasivo, Hiashi murmura, tentando fazer o tema morrer.

— Ciclo natural? De quê? — Interessada, Fuu pede, instigada por aquela atmosfera envolvendo a cozinha, e ao lado dela, Shino inclina-se minimamente para frente.

— Da vida. — Travessa, Ino responde, indicando a cena atrás deles com o queixo antes de prosseguir — Parece que os dois pequenos, logo, logo, serão três ou quatro. A sincronia ali está gritante.

Assim que escutam essas palavras, que a Yamanaka fizera questão de que soassem mais altas, Naruto detém a mão que segurava a colher, apertando o cabo de madeira com força demais, e a concha com que Hinata servia o okayu paralisa no ar, antes de alcançar a panela, enquanto os ombros dela empertigavam-se; estreitando os olhos para os dois, Neji finalmente alcança enxergar o que Ino vira.

— Não sabia que o sensorialismo Yamanaka já fazia projeções tão avançadas, Ino. — Colocando canecas fumegantes com o espesso sumo de remédio diante das crianças, Naruto “brinca”.

— Nunca disse que a expansão que Jiraya-sama comentou ontem, ocorreria exatamente agora. — Abandonando a sutileza, Ino retruca — Disse que há sincronia para isso. Por que está na defensiva, Naruto? Até seu sogro reconhece a naturalidade.

— São interpretações… precipitadas. — Naruto responde, num tom neutro demais para ser casual, evitando fazer contato visual com Hiashi.

Aproximando-se com duas tigelas de mingau aromático, Hinata as deposita com cuidado diante das crianças, adicionando as ameixas em conserva e misturando os ovos, antes de entregar as colheres a eles; esses pequenos gestos dela, repletos de carinho, e a maneira como Naruto acercava as cadeiras deles à mesa, para evitar acidentes, eram observados por todos, mas com muito mais profundidade e atenção por Hiashi.

— Se essa é... a base do futuro… — Com uma voz contida, quase inaudível, o Hyuuga começa, como se ainda testasse o peso das próprias palavras — Então… ele será sólido.

Imediatamente, como se buscasse estabilidade, Hiashi procura a alça de sua xícara, levando-a aos lábios e sorvendo os resquícios já frios do matcha.

De onde estava — posição que agora lhe oferecia a visão dos três pontos daquele “conflito” — Neji esboça um leve sorriso, já considerando escrever ao pai sobre aquilo mais tarde. Ao seu lado, Fuu e Shino pareciam, enfim, ter alcançado a mesma compreensão que os demais. Diante deles, Ino mantinha um orgulho silencioso pelos resultados de sua provocação.

As crianças, alheias a tudo que permanecia subentendido naquela conversa, limitavam-se a esfriar o mingau, intercalando colheradas com goles contrariados do remédio.

Já o casal encontrava-se num estado distinto, um misto de surpresa e perplexidade pouco comum. Hinata ainda processava a atitude de Hiashi, tão distante de tudo que conhecia dele; Naruto, por sua vez, confirmava para si que a humanidade jamais seria apenas boa ou má, e que as pessoas passam a vida inteira aprendendo a viver… sem jamais aprender tudo.