Notas iniciais
Olá minha gente, todos bem?? Espero que sim!! Eu demorei essa vez um pouco mais, mas em compensação, fiz o maior capitulo que já publiquei nessa fic. E espero que vocês gostem, de coração, principalmente, do novo casal que se forma, e que inclusive, vinha dando sinais sutis ao decorrer dos capítulos passados. Gente, muito obrigada por todo carinho, por todo o tempo que vocês dedicam a acompanhar e comentar a fic, de coração, muito obrigada! Sei que ultimamente não tenho respondido vocês, mas leio todos os comentários e fico imensamente feliz; desculpem pela demora, e por não responder, estou numa correria danada, mas assim que possível, volto a responder a todos! Mais uma vez, muito obrigada, e prometo voltar com outro capitulo escrito com muito carinho para vocês, bjuss!!!

A superfície do lago rompeu-se em convulsões.

Não havia calmaria, apenas uma violência contida que agora buscava vazão sob a pressão das águas, erguendo-se em colunas pesadas, despedaçando o reflexo do céu de chumbo, enquanto a carapaça colossal da besta emergia do abismo, e cada movimento seu deslocando toneladas de líquido como se o espaço ao redor fosse irrelevante; o ar saturou-se instantaneamente, carregado por uma pressão que esmagava o som e impunha o peso de uma presença ancestral sobre as margens úmidas.

Kisame avançou primeiro, a Samehada abrindo-se em fendas vivas sob suas mãos, sibilando enquanto suas escamas eriçavam-se para devorar o chakra que transbordava da criatura; o corpo do Nukenin parecia fundir-se ao ambiente, comandando correntes que se fechavam em espirais densas e gélidas, e o lago respondia como uma extensão de sua vontade rústica, transformando-se simultaneamente em muralha de contenção e cela líquida.

Acima das formações rochosas, Deidara moldava a argila explosiva com uma precisão quase ritualística, os dedos movendo-se em uma dança frenética e criativa, cada detonação sendo mais que um espetáculo visual, um cálculo estratégico: os impactos colapsavam rotas de fuga e forçavam a Bijuu a recuar contra a própria inércia; o espaço ao redor de Isobu diminuía, comprimido em círculos cada vez mais estreitos, onde o calor das chamas encontrava a frieza absoluta das águas profundas.

Itachi apenas observava, e no instante em que seus olhos se estreitaram em um escarlate vívido, o mundo pareceu retrair-se por um milésimo de segundo; o rugido da besta perdeu o fôlego e o movimento frenético das águas desacelerou em uma inércia artificial.

— Agora. — A voz de Itachi se manifesta, baixa, plana, sem a necessidade de elevar o tom para ser ouvida acima do caos.

Kisame respondeu com a rapidez de um predador que finalmente encurrala a presa, correntes invisíveis de chakra, densas como grilhões de ferro, fecharam-se sobre a carapaça espinhosa, prendendo a criatura ao leito do lago; Isobu reagiu, liberando ondas de choque que distorciam a realidade ao redor, mas cada tentativa de resistência era absorvida, desviada ou simplesmente silenciada pela fome insaciável da Samehada.

O lago deixou de ser território, transformando-se em cárcere, quando Deidara sorriu de canto, lançando a sequência final de argila que pairou no ar como pássaros de mau agouro antes de mergulhar, então as detonações comprimiram o vácuo em torno da criatura, forçando-a contra as amarras invisíveis; o impacto reverberou como um trovão subterrâneo que sacudiu as entranhas da terra, contudo, não houve desordem, houve apenas controle absoluto.

A quietude que seguiu-se não pertencia à letargia do repouso, era a pressão do domínio, Isobu ainda agitava-se, um rastro de fúria contida sob a superfície, mas sua força já não moldava o ambiente ao redor; o lago, antes selvagem e soberano, tornara-se estático e opaco, como se mãos gigantescas o pressionassem de todos os lados até torná-lo uma tumba líquida. Kisame inclinou a cabeça, os traços faciais endurecidos em uma satisfação sombria enquanto apoiava a espada no ombro.

— Encontrado. E contido. — O espadachim comenta, o tom carregado de um pragmatismo cruel.

Itachi não respondeu de imediato, seus olhos permaneciam fixos na besta, as pupilas lendo as correntes de energia como se já enxergassem além daquele instante, no rastro de consequências que o destino ainda deixaria para trás; naquele momento, sob o céu pálido, a Akatsuki não apenas cumpria uma etapa, eles redesenhavam o mapa de forças do mundo.

***

— … Chiyo-obaasan…? — Ressabiada, Sakura chama a mestra dos venenos, tocando suavemente seu ombro.

Fazia duas semanas que estavam em Suna, e pela sua contagem mental, aquela deveria ser a terceira vez naquele dia, a Haruno podia ouvir os risinhos de Karin e Temari atrás dela, unidas pela diversão de ver sua frustração, e o olhar insistente de Gaara — em sua missão pessoal de estudar as emoções — e Sasuke, arrastado ali por Karin e forçado a participar de algo que fazia sentido apenas para a Uzumaki; com um esforço quase doloroso para não ser desrespeitosa e revirar os olhos diante do pessoal de Suna, Sakura toca novamente o ombro da velhota, sentada inerte com a cabeça pendendo para frente.

— Brincadeirinha!… Estava me fingindo de morta! — Como esperado, Chiyo reage repentinamente, com sua costumeira piada.

Diante das duas, o irmão mais novo de Chiyo, Ebizo apenas suspira massageando as têmporas, o pobre velho acreditava cada vez e preocupava-se genuinamente, de forma que a cada brincadeira da velhota, era uma provação para ele; tentando ser profissional, Sakura ignora o recente episódio de “fingir de morta” e foca na aula, que andava a passo de caracol, por conta dessas travessuras. No primeiro dia, Chiyo resistiu a ensinar seus conhecimentos a alguém de Konoha, e chegou a se esconder, fazendo com que Kankuro a buscasse por horas; quando o Kazekage finalmente a encontrara, Chiyo atacara Kakashi, confundindo-o com seu falecido pai.

Agora, após muitas conversas e explicações sobre a paz e aliança entre Suna e Konoha, e certa medida de persuasão emocional, ressaltando que através das guerras, não apenas Suna foi vítima de Konoha, mas a aldeia da folha também foi vítima da aldeia da areia, Chiyo cedeu e passou a ensinar Sakura; embora, sua pirraça tenha se tornado mais frequente e desordenada, como sua única forma — e talvez a mais segura — de demonstrar seu desagrado ao acordo.

— Agora, moleca, vamos à aula principal de hoje. — Voltando a seriedade, Chiyo fala, destampando um recipiente lacrado sobre a mesa — Numa situação de ataque, o caos é regra, e o seu paciente envenenado não vai estar quieto. Às vezes, o que mata não é o veneno mortal, mas a dor excruciante que um veneno simples causa.

Na pequena plateia improvisada, as risadinhas somem e um silêncio tenso toma conta do grupo, a porta da sala se abre e Kankuro surge com Kakashi, ambos conversavam sobre a demonstração técnica no campo de treinamento, mas também aquietam-se ao perceber a atmosfera da sala.

— Com um paciente que não para quieto para o tratamento e sem equipe de suporte, o que você faz? Como decidir se é um veneno mortal que o matará em minutos, ou a dor de um envenenamento que vai se dissipar com Ninjutsu médico? E mais, como saber se você não vai agravar um quadro comum, com o tratamento errado? — O cenário hipotético montado por Chiyo abrangia não apenas os complexos casos que viram durante a manhã, mas traziam um foco que Sakura ainda não considerara.

— Um exame para identificar pode demorar, e isso deixaria o paciente com sequelas, mesmo com um veneno comum… — Avaliando a situação, Sakura pondera.

— Exato. Numa situação assim, o ideal é que o médico saiba identificar o veneno pelos sintomas que apresenta no paciente com precisão. Embora pareça impossível, é uma arte que os antigos provadores possuíam e dominavam. — A voz pastosa e arrastada de Chiyo nunca soara tão tenebrosa para Sakura.

— A senhora quer que… — Atrás delas, até Temari esteve assustada com a insinuação da velha.

— Conhecendo o que se sente, a equação fecha sem perda de tempo. — Sakura, no entanto, observava clinicamente o recipiente com enormes vespas voando agitadas — Qual a retração da resposta muscular e cognitiva?

— Varia de pessoa a pessoa, mas é perfeitamente possível aplicar o Ninjutsu médico. — Abrindo espaço para a garota estudar e decidir, Chiyo se afasta da mesa.

Com seus olhos verdes tão frios como uma pedra malaquite, Sakura aproxima-se mais da mesa, observando o comportamento das vespas, medindo o ferrão e calculando mentalmente a intensidade, baseando-se na quantidade contida no recipiente; então, suspirando profundamente, a Haruno fecha os olhos com força, buscando por sua força, doutrinando sua mente. Ela aproxima sua mão esquerda da abertura de segurança, e detém por um instante, mordendo os lábios, e por fim enfia completamente dentro da caixa, sendo atacada imediatamente; ainda na porta, Kakashi sente o ar fugir de seus pulmões, finalmente compreendendo de quê as duas conversavam, e no segundo seguinte, o Hatake estava ao lado de Sakura, puxando-a de perto da mesa, o corpo todo espasmódico e grunhidos angustiados saindo de sua boca cerrada até esbranquiçar-se.

— Sakura…? — Com seu único olho visível arregalado, Kakashi tentava segurá-la, enquanto Sakura se debatia; às suas costas, os outros já reuniam-se em choque, quando o Hatake ordena — Karin, cure-a!

— Não…! — Um grunhido mais feroz escapa dos lábios de Sakura, enquanto ela finalmente consegue mover sua mão direita irradiando chakra médico até a mão esquerda.

A dor cegante que parecia escaldar sua mão, estagna naquele latejar insistente, como se seu sangue estivesse concentrado todo ali, fervendo e desintegrando a pele, os espasmos vão diminuindo conforme o chakra médico começa a surtir efeito, e com maior controle sobre seu corpo, Sakura consegue trabalhar melhor; como Hinata ensinara-lhe, a Haruno passa a decifrar os componentes da toxina, e o que cada um deles causa isoladamente, para gerar uma reação metabólica e física tão intensa e dolorosa. Quando o tratamento imediato finalmente termina, com sua mente mais clara e coerente, Sakura sente Kakashi ainda amparando-a, e os demais formando um semicírculo à sua volta, fitando-a com expressões de espanto; sua mão, agora apenas manchada de vermelho e salpicada de picadas que pareciam pequenas crateras, já não lateja, mas continua muito sensível e inchada.

— O que diabos você tem na cabeça? — Finalmente, percebendo que ela voltava ao seu estado racional, Kakashi ralha, incapaz de controlar-se.

— É um processo lógico, sensei… sentir, identificar, decifrar, tratar… — Mesmo respirando pesadamente, Sakura responde.

— Vovó Chiyo… isso… — Alarmado, Kankuro começa, sem saber como organizar a ordem das coisas, se iniciando pela imprudência, ou pelo problema diplomático que poderia gerar.

— Foi um êxito! Não se preocupem, eu tinha o antidoto pronto, caso algo desse errado. — Com seus olhinhos negros aguados transbordando malícia, Chiyo retruca, e logo acrescenta — Gostaria de conhecer essa tal de Hinata, finalmente me enviaram alguém que vale a pena ensinar. Moleca, nossas próximas aulas serão privadas. Por hoje é só!

Ignorando a conversa técnica que acontecia, Karin ajoelha-se ao lado de Sakura, e com muito cuidado, analisa a mão dela, os olhos vermelhos brilhando enquanto analisa a extensão de danos, e o chakra de Sakura voltando a estabilizar-se; atrás dela, Sasuke, Temari e Gaara observavam a cena ainda estáticos, enquanto ao fundo, podiam ouvir o Kazekage sussurrar coisas a velhota, palavras abafadas sobre moderação e cuidado.

— Não é grave como parece, você quer que eu… — Karin iria oferecer sua cura, mas detém-se ao recordar que não estavam sozinhos ali, e como fora instruída por Naruto e Hinata, sua condição especial deveria ser segredo.

— Não, tudo bem, um curativo simples e lavando com Alfazema e Hamamélis vai resolver, amanhã estarei curada. — Voltando a respirar normalmente, Sakura responde e tenta levantar-se, mas sua musculatura ainda debilitada pelos espasmos, não concorda com a mente.

— Eu cuido disso. — Erguendo-a com facilidade, Kakashi assume aquele tom que não admitia réplicas, voltando a ser o Jounin de autoridade inquestionável, e dirige-se a Kankuro — Se já acabou, vou levar minha colega para descansar.

Sem esperar que alguém diga algo, Kakashi deixa a sala com passadas largas e firmes, vendo-o se afastar, Karin sorri minimamente, mas mesmo aquele gesto micro, não escapa aos olhos analíticos de Sasuke, quem descobrira nos últimos quinze dias, ser alguém absurdamente curioso, algo até inconcebível para se admitir.

— Isso é parte do “estudo”? — O Uchiha pergunta baixo, aproximando-se de Karin, embora Gaara e Temari tenham ouvido e se aproximado junto.

— Ah… peixinho, isso é oitenta por cento do material. — Sorrindo travessa, Karin responde.

— Você não vai parar… de me chamar assim? — Vermelho como raramente se viu, Sasuke reclama, a voz falhando de vergonha.

— Enquanto for divertido, não! Mas parabéns, você está começando a encontrar o caminho, peixinho, continue nadando. — Deixando-o mais vermelho ainda, Karin saltita para fora da sala, assoviando contente.

Fitando por mais alguns segundos a porta por onde os três saíram, Sasuke considera as peças do quebra-cabeças, ainda que sem a segurança para montá-lo realmente, estava começando a ver os caminhos que Karin tanto lhe dizia para observar; já distante dali, na área designada para eles hospedarem-se em Suna, Kakashi girava a maçaneta do quarto de Sakura, e colocando-a sentada na borda da cama, passa a deambular pelo quarto com a segurança que faltava a Sasuke, buscando nos equipamentos médicos dela as ervas e compressas, e preparando água limpa para aquecer e fazer a infusão.

— Qual a temperatura ideal? — Sua voz soa baixa e fria, enquanto moe as ervas no chawan de madeira.

— 35 °C a 37 °C. — Com seu raciocínio letárgico pela situação anterior, e pela improbabilidade das atitudes de Kakashi, Sakura responde mecanicamente, e logo recobra o sentido — Sensei… posso fazer isso, por isso utilizei a mão esquerda…

— Parada aí. Sua musculatura continua espasmódica pelo choque. Você sequer vai conseguir puxar os ferrões sem abrir mais as feridas. — Sério, Kakashi retruca, o rosto parecendo um mármore frio.

Enquanto a Alfazema e a Hamamélis foram deixadas em repouso num recipiente com água morna, Kakashi arrastou uma cadeira e sentou-se diante de Sakura, abrindo o estojo dela, e com uma tranquilidade e precisão que somente os anos como ANBU tratando as próprias feridas ensinaram, passa a retirar os ferrões das picadas com uma pinça; à medida que o estalo baixo e continuo do metal segurando e puxando os ferrões, e o leve bater na pequena cuba de metal perdura, o silêncio prolongado passa a crescer em densidade, causando uma opressão de distintas nuances entre os dois. Sakura não sabe como lidar com o cuidado eficiente de Kakashi, carregado por aquele distanciamento tajante que não existia até aquela manhã; antes, a Haruno sabia, já teria ouvido alguma piada ou implicância, e a falta disso estava começando a incomodá-la, não era o padrão normal construído, e Kakashi, por outro lado, mantinha uma fachada de calmaria, enquanto internamente, considerava aquela última meia hora, buscando a lógica costumeira.

— Você vai fazer isso novamente, não vai? — Finalmente o Hatake volta ao seu tom habitual.

— É o padrão de aprendizagem mais eficiente. — Sakura responde, vendo como a mão dele que movia-se sob a sua, detém-se por meio segundo — Também provei venenos com a Hina…

— Os venenos de Hinata eram dosagens mínimas que não te impediam de se mover! — Inesperadamente, Kakashi a corta, sua voz saindo mais gélida do que pragmática — Tampouco eram aplicados direto da fonte. Você não terminava ferida nas aulas de Hinata.

— Mas a Chiyo-obaasan está certa, sensei, no meio de uma batalha, posso não ter o privilégio de ver um frasco de veneno rotulado, e a Hina sempre pontuou isso comigo: o caos da luta nunca deve interferir no tratamento. — Focando no didático daquilo, Sakura justifica.

— Você não vai recuar nem sob uma ordem minha, não é? — Estreitando-lhe o olho visível, Kakashi indaga, quase mordendo os lábios ao intuir a resposta.

— Sinto muito, sensei, recebi essa missão de uma Tenente ANBU. — Encolhendo os ombros, Sakura dribla certeiramente a autoridade de Kakashi como capitão da equipe.

— Então espero que sua paciência seja tão grande como sua teimosia, Haruno, porque vou inspecionar cada um desses experimentos pessoalmente, e isso não é questionável! — Firme e tão decidido quanto ela, Kakashi direciona sua falta de controle da situação.

O semblante impassível de Kakashi volta a concentrar-se em tratar a mão de Sakura, e o Hatake passa os minutos seguintes, limpando as feridas das picadas, submergindo a mão dela na infusão de ervas, para depois vendá-la; nesse meio tempo, Sakura processa a discussão, pontuando mentalmente as dissonâncias constatadas, e enquanto fita o sensei vendando sua mão com cuidado, uma pequena agitação muda o tom de malaquite de seus olhos, antes que a pacificidade habitual seja obrigada a inundá-los. Pelos seguintes quinze dias que restavam daquele primeiro mês de treinamento, Kakashi mudou sua forma de operar, com uma reestruturação que não perdia a eficiência, ele concluía suas lições à elite de Suna mais cedo, e com um rumo certo, aguardava; após os primeiros três dias que o encontrara parado diante da porta de seu quarto, Sakura deixou de surpreender-se, e compreendera que o Hatake esteve falando sério sobre inspecionar as lesões do seu treinamento. A dinâmica daquele dia das vespas repetiu-se consistentemente, mudando apenas o tratamento posterior das feridas causadas, conforme o veneno testado; se fossem corrosões causadas pelas toxinas de rãs venenosas, peixes, polvos, Cicuta d’água, Ricina, ou mesmo serpentes, tudo era ministrado com o máximo cuidado e atenção, repetindo dia a dia, aquela situação, que aumentava a tensão de uma forma nova e buliçosa.

— Sensei… hoje é um pouco… — Naquela tarde, no entanto, Sakura reagiu diferente ao ver Kakashi aguardando para tratá-la.

— Estamos perdendo tempo, Sakura, você está mais pálida hoje. — Com seu, agora rotineiro, tom glacial, Kakashi não espera explicação, apenas a conduz para dentro do quarto e prossegue — Qual o tratamento de hoje?

— Já apliquei o soro… só preciso descansar… — Evadindo a pergunta, Sakura explica, sentando-se na cama com dificuldade.

— O que aconteceu? — Preocupando-se imediatamente com aquela debilidade inusitada, Kakashi a examina, buscando pelas feridas de picadas nos braços, mãos ou pernas, e alarmando-se quando não encontra nada — … Sakura?

— Aplicação direta… em órgãos… — Respirando com dificuldade, com suor frio brotando de seu rosto, Sakura conta.

Leva um instante profundamente longo e carregado, para Kakashi compreender a implicação da lição do dia, e com um pavor crescente, ele abandona a neutralidade autoimposta ou qualquer consideração sobre o espaço pessoal, e sem hesitação, puxa a blusa de malha dela, retirando-a; Sakura sequer consegue protestar ou reagir, e o que Kakashi vê, lhe atinge como um golpe físico sem precedentes. Espalhadas pela pele alva dela, várias e diversas pequenas picadas pintavam-na com cores horrorosas em pontos que ele rapidamente reconheceu; na região do fígado, estendendo-se como uma ranhura arroxeada pelos vasos sanguíneos, lateralmente, na base das costelas onde os pulmões ficavam, perto do busto coberto pelo top, onde o coração pulsava a um ritmo irregular que a jugular dela denunciava.

— … Mas que droga é essa?! — A voz de Kakashi soa num tom baixíssimo e perigoso, enquanto a cor fugia de seu rosto.

— O soro já… surtiu efeito… mas o processo… da dor… sequelas… — Entre lufadas de ar espaçadas, Sakura tenta informar.

— Me importa uma vírgula o processo! — Com mãos trêmulas, Kakashi busca por compressas, embebendo-as em iodo, limpando as picadas para evitar infecções e necrose — Vou escrever a Hinata, a partir de hoje, esse treinamento está restrito ao estudo tradicional. Se você ousar aplicar mais qualquer toxina em si mesma, a aliança será rompida!

— Sensei… eu consigo… — Franzindo o cenho, ela tenta argumentar.

— Não, Sakura! — Rispidamente, Kakashi a corta, mas a visão do rosto pálido e das feridas dela, retêm parte de sua frustração raivosa, e com um suspiro cansado, denunciando uma fragilidade excepcional, ele prossegue — Claro que consegue, sei disso, eu vi toda a evolução, esqueceu? Mas por favor… não faça mais isso… é doloroso…

Naquele instante suspenso, o rosto de Sakura recupera algo de cor, os olhos arregalam-se, e sua respiração detém-se num resfolegar seco e brusco, como um engasgo doloroso e perigoso; desviando o olhar para a janela do quarto, onde através do vidro via-se uma gigantesca tempestade de areia açoitar o prédio, Sakura morde os lábios trêmulos, impondo um catalisador às suas reações cognitivas.

— Tudo bem… — Ela murmura, cedendo de uma forma inesperada.

Ainda tratando-a, Kakashi acena afirmativamente, um gesto rigidamente mecânico, acompanhado de um suspiro muito mais longo e carregado, e um engolir frenético que indicava um desconcerto inusual; seus olhos — já que ele passara a usar o Sharingan para verificar o estado do sistema circulatório dela — o obsidiano e o carmim focando-se nas picadas agora manchadas de iodo, adicionando um contraste às cores tenebrosas. Durante aquela hora longa e interminável, Kakashi tratou as picadas, com um cuidado extremo, em um silêncio gritante, e quando vendou cada região, seus dedos frios pelo susto da ocasião, encontravam a pele febril e arrepiada de Sakura, causando-lhes um choque térmico; com as feridas limpas e os curativos adequadamente fixados, Kakashi busca na mochila dela — sem qualquer pedido ou palavra — por uma blusa confortável, que não roçasse nas feridas ou fosse apertada.

— Já retorno. — Num sussurro, Kakashi fala, quando encontra apenas as blusas de malha que ela estivera utilizando durante dias e um pijama revelador.

Deitada na cama, com a taquicardia cedendo, e os calafrios controlados pelas pastas de ervas nas bandagens, Sakura aguarda sem questionar nada, não havia mais o que ser oculto ou resguardado, e sinceramente, não encontrava necessário; não era o momento e tampouco uma ocasião que pedisse um pudor desnecessário, e isso estava implícito no zelo profundo daquela situação. Instantes depois, Kakashi retorna ao quarto dela, trazendo consigo uma de suas próprias blusas de malha, grande o suficiente para não apertar ou incomodar as regiões feridas e sensíveis; ele veste a blusa em Sakura, tendo o cuidado de arremangar os pulsos, deixando suas mãos livres, e então mede a temperatura dela.

— Obrigada. — Sakura sussurra, quando a mão dele afasta-se de sua testa.

— Vou pedir um caldo leve. Fique deitada. — Kakashi fala, deitando-a e cobrindo-a com uma manta leve, antes de levantar-se e sair novamente do quarto.

Vendo-o afastar-se, deixando a porta entreaberta, Sakura fixa seus olhos no teto, e o verde de sua íris logo torna-se desfocado e distante, como se estivesse a ver algo além do tom arenoso daquele cômodo; quando aquela sequência interminável de detalhes antes ignorados — ou quase isso — retornam à sua mente, deixando-a perturbada, ela fecha os olhos com força, logo cobrindo-os com um braço. Era um gesto corriqueiro seu, quando pensar cansava-a, usava um braço para “descansar” os olhos, mantendo o rosto naquela curvatura perfeita que formava o cotovelo; no entanto, daquela vez esse hábito não trouxe-lhe qualquer alívio mental, em lugar de desacelerar sua mente frenética, quando o aroma de cedro, mel e incenso lhe chega ao nariz, seus pensamentos triplicam-se num frenesi atordoante.

— Sakura? — Inesperadamente, aquela voz soa, sobressaltando-a.

Afastando o braço minimamente, Sakura constata que Kakashi voltou, trazendo uma bandeja com uma tigela fumegante, e agradecida pelo cuidado eficiente, ela volta a sentar-se, um tanto lenta e hesitante, pelas pontadas dolorosas; percebendo como lhe resultava difícil, Kakashi deixa a bandeja sobre o criado mudo e ajuda-a, ajustando os travesseiros às suas costas, e ao se afastar uns poucos centímetros, nota como o estado fisiológico sobrecarregado em calafrios, e o sensorialismo desorientado de Sakura traíra-a.

— Você está com febre? — Já verificando a temperatura enquanto questiona, Kakashi a analisa.

Incapaz de falar e mortificada por intuir o que era, Sakura apenas nega, baixando os olhos, sem desconfiar que durante aquele pequeno instante, o efeito aumenta consideravelmente, tornando qualquer explicação desnecessária.

— É de frango. — Focando seu olhar naquela sopa quase incolor, Kakashi informa.

Sua mente, já afetada pelo perigo naquela imprudência durante o treinamento, ganha uma nova camada de inquietação, havia tantas implicações, uma descomunal disparidade entre o que era e o que deveria ser — que em qualquer outro tempo lhe constrangeria até a morte — no entanto, sua mente dava voltas e mais voltas, incapaz de sair daquele ciclo infinito; numa quietude reservada, um único gesto inicia lentamente, um processo automático que garante a segurança do pensar, entre uma colherada e outra, duas mentes disparavam uma maratona analítica que faria um Nara invejar.

— …Vamos voltar… — Quando o som da última colherada tocando o fundo da tigela ressoa, Sakura quebra o silêncio, a voz falhando, tentando parecer firme — … A Konoha amanhã?

— Não. — A resposta vem baixa, um fôlego estrangulado — Você não está em condições de atravessar o deserto.

— Acho que… ao menos para isso, sou suficiente. — O murmúrio chocho dela parecia amplificado naquela quietude.

Kakashi finalmente ergue o olhar, e quando o foca no rosto dela, encontra o não dito, e a compreensão foi excruciante, e originava-se da trajetória até ali, do passado, do momento atual, e tudo mais que mudaria e expandiria; o Hatake sabia o que era, a busca pela suficiência vinha do mesmo lugar que ele habitava, temendo perder outra vez, escondido naquela pele perfeccionista e desinteressada, e pior, o mais real que mesmo agora, naquela incerteza e o impasse de tudo que desestabilizava, o que não poderia jamais abrir mão.

— Sakura… — Kakashi chama, mas as palavras não saem, ficam presas, atravessadas em sua garganta.

Tudo era complexo, desmedido e apavorante, cruelmente apavorante, mas quando visto isoladamente, de uma simplicidade desarmante, e qualquer explicação lógica, qualquer palavra vinda do racional, trairia essa essência virtuosa daquela improbabilidade; o temor do depois, o peso da convenção e o choque com a realidade, desapareceu diante disso.

— Sempre foi suficiente! — Sua voz saiu carregada de uma clareza temerária.

Por um momento infinito, os olhos de Sakura permaneceram arregalados como pratos, antes que a vasão finalmente rompesse as comportas de tudo que esteve segurando numa frágil barreira de contenção.

— Eu não… isso é... há tanto erro aqui… — Incapaz de conter aquela atribulação que espalhava-se com a força de um tsunami, Sakura dubitava, limpando freneticamente as lágrimas com a mão enfaixada — Sei lá o que sou, Kakashi! Falta tanto… já errei tanto…

— Sakura… — Hesitante, Kakashi a chama, e num gesto completamente oposto às inúmeras dúvidas, limpa as lágrimas dela, para surpresa de ambos — Eu sei, já disse, eu vi tudo isso acontecendo. Os erros, a evolução, tudo o que era, e agora também vejo tudo que é. E..., foi exatamente isso… contra isso, não há defesa.

— … Complicado… em tantos níveis… — Sakura murmura, buscando sua lógica de horas antes, quando esteve permitindo-se receber picadas de aranhas-armadeiras, e contraditoriamente, segurando a mão dele entre as suas.

Um suspiro longo, carregado de tudo que precisava ser considerado, escapa dos lábios de Kakashi, e então, inesperadamente, seus ombros começam a sacudir-se, e logo, um riso baixo — contido, quase incrédulo — rompe aquele peso; quando os olhos de Kakashi encontram os de Sakura novamente, há ali um brilho travesso, familiar, o mesmo das ocasiões onde suas trocas de farpas escapavam ao controle.

— É complicado. — Um sopro quase irônico escapa, e agora sua mão envolve a dela — E eu tenho a impressão de que você já fez uma lista mental disso tudo.

Sakura pisca, atordoada com a mudança brusca de tom; por um instante, não consegue processar o que vê — ouve o riso, vê o brilho — e nada daquilo combina com o que ela esperava: um ajuste rígido, uma repreensão, qualquer coisa que colocasse limites claros naquela situação.

— E você ri? — Indignada, Sakura questiona, buscando onde estava a piada.

— O que mais há senão rir? — Kakashi confessa, seu rosto parcialmente coberto iluminando-se mais, embora haja algo de exausto ali — Acabei de perceber que eu mesmo causei isso.

— Como? — Confundida, ela insiste.

— Sim… — Inclinando levemente a cabeça, Kakashi a observa com atenção antes de prosseguir — Te ensinei que não existe maneira certa ou errada de sentir, Sakura.

Durante aqueles segundos, a tensão do momento pareceu dissipar-se, não deixava de existir e não anulava todo o resto, mas a leveza do caminho percorrido, da amizade construída, da cumplicidade que formou-se inesperadamente, pareciam desatar um pouco as amarras.

— Quando acontece… — Num tom mais baixo agora, Kakashi fala, quase puxando a lembrança para o presente.

— …É apenas o encontro de duas pessoas. — Sakura completa ao mesmo instante, sua mente encontrando a dele naquele mesmo ponto.

— Obviamente, já considerei tudo que implica, Sakura. Sua lista também é minha prioridade. — Apesar do sorriso e da expressão relaxada, não havia qualquer troça em sua voz — Mas também sei… que não cabe mais fingir.

— Você não vai… se afastar, não é? — Sentindo o coração martelar contra as costelas, Sakura pede.

— É o que você quer? — Com o tom voltando a ser neutro, Kakashi devolve.

— Eu não quero que… depois… — Sakura hesita, a voz falhando — …Tudo vire bagunça… ou que, “passe por que não era para ser…”, ou “porque não era o que eu queria…”, ou eu só me… confundi…

As palavras saem truncadas, desalinhadas, como se Sakura tropeçasse nelas antes de conseguir organizá-las, e sem conseguir sustentar o olhar de Kakashi, com as bochechas ardendo e lágrimas insistentes retornando, ela baixa os olhos; não era projeção, era memória, era o eco de um coração que já fora rejeitado, e que aprendera — com esforço quase doloroso — a sustentar a própria felicidade sozinho. Dar um passo agora, naquele território desconhecido do sentir… era aterrorizante; e mais aterrorizante ainda, a possibilidade de que no fim, aquilo — o que ela era — não fosse o suficiente.

— Sakura… eu não sei do futuro… — Com uma calma que ele não sentia, Kakashi escolhe as palavras com cuidado — Essa situação agora… o que está acontecendo… já é prova disso.

Ele faz uma breve pausa, organizando o próprio pensar, encontrando o tom, as palavras, a forma de dizer, tudo que deveria traduzir a verdade, sem margem para erros.

— Mas sei quem eu sou. — Sua voz baixa ganha firmeza — Comprometimento sempre foi o alicerce de tudo para mim. Uma vez tomada uma decisão… eu não fujo. Não recuo. Eu enfrento.

Outro instante de quietude, uma respiração agitada buscando encontrar o ritmo num suspiro que escapa, e o olhar dele mantém-se nela, processando reações ao mesmo tempo que oferecia firmeza.

— É isso que posso te prometer. — Essas palavras, ecoam por longos segundos, reverberando a colisão dos acontecimentos das últimas horas pelas paredes daquele quarto.

***

Como habitualmente, o escritório da Godaime parecia impregnado com aquela energia vibrante, o cheiro de pergaminhos e tinta nanquim que nunca abandonava aquela sala, que ultimamente ganhara notas do aroma de ervas medicinais; o espaço inteiro exalava uma aura de tradição histórica e continuidade que mesmo após as reformas logo do ataque há quase um ano e meio, mantinha sua mesma imponência.

— Vou marcar para daqui a duas semanas. — Tsunade dizia a Asuma, mantendo os olhos nos prontuários e exames — A recuperação do pós parto foi boa e o bebê vai ter completado quatro meses, a fase difícil da adaptação já passou. Mas mantenha a dieta dela regrada e os exercícios de fortalecimento muscular.

— Quais as chances? — Com o coração aos pulos, Asuma questiona.

Desde o ataque, aquela seria a terceira cirurgia que Kurenai seria submetida, a exceção da do parto de seu filho, o pequeno Hiruzen — nome dado em homenagem ao avô — que estava por cumprir quatro meses; como Tsunade explicara-lhes, e antes dela, Hinata mesmo, cirurgias na coluna eram complexas e devido à região de alto risco, as chances de recuperação completa eram mínimas.

— Desta vez, alcançamos os 65%, e vai variar ainda. — Honesta, a Senju responde, deixando os papéis de lado para focar naquele homem imponente, e ao mesmo tempo, tão imensamente pequeno — Devemos considerar o pós operatório, como a reabilitação vai influenciar nos resultados. Mas, francamente, quando olhamos para a extensão das lesões, nosso número não deveria ter alcançado nem os 30%.

Sentindo o peso em seus ombros cederem um pouco, Asuma suspira, numa mistura de alívio e resiliência, pensando que mais precisava considerar para a preparação nos dias que antecediam a operação, e faria essas perguntas, quando uma batida suave na porta o interrompe; quando a permissão para entrar é concedida, Sakumo passa pelo umbral da porta, e seu uniforme oficial da ANBU indicando que acabava de retornar de uma missão.

— Hokage-sama. — O jovem Haruno apresenta-se com todo rigor que lhe definia.

— Que bom que veio rápido. — Tsunade diz, e volta a fitar Asuma — A outra razão para o adiamento, é esta, Asuma. Como sabe, estou supervisionando o treinamento de Sakura, e no cronograma alinhado com Hinata, é momento de colocar a garota na sala comigo.

— Então, a senhora me chamou para avisar que minha irmã vai ficar mais tempo em missão? — Rapidamente acompanhando e decifrando as informações daquele diálogo, Sakumo indaga — O treinamento em Suna foi estendido?

— Não, o treinamento foi concluído exitosamente. Mas parece que houve alguns contratempos. Kakashi informou que decidiu postergar o retorno deles. — Tsunade explica, e estende a Sakumo um pequeno pergaminho lacrado — Ele pediu para te entregar isso.

— É seguro adiar, Tsunade-sama? — Preocupando-se por aquele ponto, Asuma pergunta, enquanto ao seu lado, Sakumo lia o pergaminho com uma intensidade palpável.

— Não, eu teria estabelecido esse prazo de qualquer forma. Não se preocupe, temos estabilidade para isso. — Tranquila e confiante, a Godaime afirma.

— Tsunade-sama… — Com uma voz gélida e trêmula, mal contendo as turbulentas emoções, Sakumo chama — Sakura esteve aplicando…

Sakumo sequer conseguia conceber a informação, e o fato de Kakashi ter se obrigado a intervir, como relatava, significava que a gravidade da situação ia além dos padrões estipulados nos acordos.

— Sim, parece que os métodos da anciã de Suna não são nada ortodoxos. — Ainda despreocupada, Tsunade confirma sem preâmbulos, apesar de saber que abalaria as estruturas daquele irmão super protetor — Mas não escalonou tanto como parece e tudo foi controlado e resolvido. E, Sakumo, apesar de não concordar com a forma, considero que a evolução e a eficiência são inegáveis. Além de que, Sakura é plenamente capaz de decidir e ponderar suas próprias escolhas.

***

O som das ondas quebrando ao longe, uma canção constante que variava apenas em intensidade, e o cheiro inconfundível de maresia a se misturar com o de vegetação fresca sendo pisoteada e terra, já impregnara-se nos narizes de todos, inclusive entre o grupo que chegara há pouco; gradualmente, a paisagem transformara-se, moldara-se a presença de pessoas naquele pedaço de mundo há muito desabitado. As trilhas entre a floresta estabelecera caminhos consistentes e agora, identificáveis, e as construções essenciais estavam finalmente prontas e funcionais; Uzushio funcionava, estava operando com autossuficiência, mesmo quando não poderia valer-se do comércio como qualquer vilarejo menor, em surpreendentes cinco meses desde o primeiro dia.

Erguendo seus olhos analíticos dos mapas e pergaminhos antigos espalhados sobre a mesa externa no alpendre, Neji focou no céu, o pio alto de um falcão sobressaindo à canção interminável do mar, que o vento constante dali fazia questão de tocar; era impressionante, de uma maneira que chegava a ser vertiginosa quando compreendida. Durante aquele primeiro mês em que chegaram para a missão complementar de Uzushio, o Hyuuga percebera como sua prima e o Uzumaki mantinham constantemente o contato com Konoha, trocando informações, estabelecendo diretrizes com o comando e tomando decisões como se nunca tivessem saído da Vila.

— Quando foi que você aprendeu isso? Quero dizer, é possível entre o treinamento da divisão? — Voltando o olhar para Naruto, que transcrevia hieróglifos e runas com precisão, no pergaminho que estabelecia os limites da barreira da ilha.

Na primeira semana, enquanto ouviam Naruto dar instruções a Ino sobre como utilizar suas habilidades para conseguir formar a barreira sozinha, Neji, Hiashi e Shino descobriram que a barreira que ele projetara não serviria para ocultar Uzushio, o arquipélago não sumiria do mapa simplesmente, apenas continuaria “inabitada por vida humana” como sempre esteve desde a guerra; os limites estabeleciam uma frequência única, que poderia ser percebida por quem conhecesse os códigos, além de alarmes de invasão.

— Desde sempre, o objetivo do vovô não foi que fossemos somente ANBU’s letais. — Sem deter seu trabalho, Naruto responde — Entender sobre o mundo, sobre física, sobre história, política…, são habilidades que aumentam nossas capacidades e nossas chances.

Naruto parou um momento, uma expressão divertida e nostálgica inundando seu rosto, como se a conversa trouxesse algo muito especial à sua mente, e logo, um sorriso que fazia seus olhos brilharem travessos, formou-se em seus lábios.

— Também, a Hina tem o hábito de ler, e desde criança, fui arrastado por isso, e terminou se tornando meu hábito. — Naruto conta, seu sorriso alargando-se — Ela era tão mandona e imperiosa, eu sempre sabia que havia perdido, quando suas sobrancelhas se uniam num vinco profundo, desde os quatro. Então, descobri o que me interessava e não nos limitamos apenas aos conhecimentos e estudos de um Shinobi.

Ao lado de Neji, Hiashi ergueu os olhos dos papéis, deixando de fingir não prestar atenção na conversa dos dois jovens, como sempre acontecia quando Naruto comentava detalhes pequenos — embora gigantes em significado — de como havia sido sua infância com Hinata, a caminhada deles naqueles anos; esses momentos, apareciam com maior incidência ultimamente, geralmente durante os jantares naquela mesa rústica, ou quando sentavam-se em frente a lareira da sala com xícaras fumegantes em mãos. Jiraya brincava e implicava dizendo que o afilhado estava ficando sentimental como um velho de oitenta, agora que escolhera ser um pai aos quatorze; Naruto ria e não contradizia nada, às vezes retrucava que era nostalgia de ver Konohamaru e Hanabi crescendo como eles, mas sem o peso que carregaram, sendo apenas crianças. Contudo, Hiashi percebia algo escondido naquelas ocasiões, uma gentileza sutil e inesperada que ele não julgava merecer; a cada vez que o Uzumaki contava essas histórias, Hiashi sempre notava como os olhos dele encontravam os seus, e soube, Naruto estava relatando-lhe com cuidado, tudo que sua arrogância arraigada o fez perder.

— Por isso há tantos. — Antes que pudesse conter, Hiashi murmura, referindo-se a enorme estante na sala, repleta de livros.

Com um pequeno aceno, Naruto concorda, voltando a escrever nos pergaminhos, mantendo aquele brilho nos olhos, que somente recordações de tempos felizes traziam, continuando seu trabalho com leveza saudosa; um pouco mais afastados de onde os três estavam, Konohamaru e Hanabi corriam pelo pátio rindo, brincando com Fuu, com quem descobriram uma compatibilidade que os anos de diferença etária não determinavam, e a jovem Jinchuuriki adaptara-se completamente ao lugar e às pessoas, segura e aliviada, pertencendo.

No interior da grande cabana, Shino e Jiraya ocupavam a sala, decodificando as mensagens que chegaram de Konoha, de Suna, e de outros postos estratégicos mantidos pela dupla, chegados no dia anterior; na cozinha, Ino detinha uma confidência dita baixinho à Hinata, quando a Hyuuga interceptou a mensagem presa a perna do falcão. Os olhos — aquele pérola prateado que parecia fragmentos de luz do luar — cintilaram ao ler a mensagem, e um sorriso suave, tão satisfeito, brincou em seus lábios; embora o semblante de Hinata não delatasse quase nada, a perspicácia de Ino para certas coisas, era mais aguçada do que a de outras pessoas.

— O que é? — Ino indaga, quase pulando da cadeira de tanta euforia.

— Parece que você não é a única que está avançando. — Aumentando o sorriso em seus lábios, Hinata estende o pequeno pedaço de papel a Ino.

— Pelos céus…! — Passando os olhos pelas letras escritas apressadamente, Ino quase grita e então foca seus olhos astutos em Hinata com nova compreensão — Você já sabia?

— Ela me contou. Estava apavorada e ansiosa, sobre tudo, mas principalmente pelo depois. — Hinata fala, a recordação daquele dia no último inverno passando diante de seus olhos.

— Você acha que vai ficar tudo bem? — Como se ansiedade mencionada tivesse sido transferida para ela, Ino questiona.

— Vai… devagar, mas vai. — Com uma calma absoluta, Hinata afirma, porque era verdade.

Poderia ser difícil e complexo, mas quando havia comprometimento, qualquer um poderia sair adiante, e mais se eram dois batalhando com um mesmo propósito, dois sem as amarras do preconceito, das futilezas e leviandades, encarando o quadro completo com respeito, firmeza e coragem; Hinata sabia desde cedo, esses eram os alicerces que separavam os que duravam, daqueles que seriam passageiros, foram os mesmos que definiram o que ela e Naruto seriam e ainda eram suas medidas para tudo.

— Agora, voltando a você. — A sobriedade de Hinata era tão magnética a esta altura, que Ino sente seus ombros relaxarem consideravelmente — Não pode apenas agir e esperar que Sai decifre camadas escondidas. Você precisa dizer, porque ele não vai saber o que fazer. Assim como ele não entende as camadas, também é cheio delas, como uma cebola, trancadas e endurecidas.

— Ele me escreveu ontem. — Assentindo em concordância, Ino conta, apertando a xícara entre os dedos — Disse que entendia. O que significa?

— Shikamaru. — Hinata revela, e a Yamanaka arregala os olhos, as bochechas tingindo-se de vermelho quando a compreensão chega meio segundo depois — Não se preocupe, Sai realmente está ciente e, de acordo com as econômicas explicações de Shikamaru, para ele, é igual.

— Acho que… vou escrever de volta…, direta. — Em um estado de confusão e euforia mal contida, Ino abandona seu chá, erguendo-se apressada.

O sorriso de Hinata aumenta, radiante e expressando um contentamento juvenil refrescante, um contraste notável com a serenidade inerente dela — coisa de pessoas com muito mais invernos vividos — e talvez uma das razões para a Hyuuga ter-se tornado uma espécie de refúgio para as ansiedades de suas amigas, isso e o seu estável e duradouro relacionamento com Naruto; um cantarolar baixinho escapava dos lábios dela, enquanto recolhia as xícaras da mesa, e alimentava as brasas no fogão a lenha, mantendo o almoço aquecido.

Hinata terminava de lavar as vagens para o edamame, ainda ouvia as conversas técnicas vindas da sala — a voz contida e monótona de Shino, e a trovejante e expansiva de Jiraya — discutindo sobre quais caminhos percorrer durante a varredura daquela tarde; o olhar fixo no caminho aberto desde a praia de areias brancas, as ondas que formavam correntes fortes quebrando-se na enseada, criando espuma borbulhante contra rochas negras. A Hyuuga percebeu primeiro, antes que qualquer outro sentido despertasse, aquele calor abrasante, febril, parado às suas costas, depois o aroma de eucaliptos, ipês, e damascos; não havia como identificar os sons dos passos, nunca, eles aprenderam desde cedo a ser silenciosos como a morte quando queriam, e durante missões e vigílias, quando não poderiam permanecer no campo de visão um do outro, desenvolveram um sentido apurado para identificar suas presenças.

— Você não cantarola desde que deixamos Konoha. — Naruto comenta, sorrindo ao perceber que fora identificado, escorando o queixo no ombro dela, enquanto lhe envolve a cintura.

— Recebi muitas boas notícias ultimamente. — Relaxando o corpo sob aquele toque, Hinata conta, continuando a tarefa — Aperte dos planos e estratégias.

— Sobre Kurenai-sensei? Sobre o que Asuma-sensei escreveu ontem? — Naruto pergunta, a voz tingida de alegria e um alívio imenso.

— Também, o pequeno Hiruzen nasceu saudável, Kurenai-sensei está progredindo e… — Hinata parou, virando-se para olhá-lo diretamente — … E, mudanças estão se consolidando.

— Oh, os segredos de garotas? — Captando as nuances ocultas naquele tom, Naruto relembra certa conversa, onde Hinata não lhe disse nada abertamente, apenas insinuações contidas.

— Sim, os segredos de garotas. — Rindo, um som de sinos cristalino, Hinata concorda — Dois deles tiveram progressos importantes.

— Vocês e sua rede de contraespionagem secreta. — Provocando-a, Naruto lhe estreita os olhos, e com ternura, beija-lhe a ponta do nariz — Quantos segredos mais você guarda, Hina?

— Alguns. — Divertida, Hinata interpreta uma expressão de mistério, franzindo as sobrancelhas daquela forma imperiosa — Tente decifrá-los.

— Isso é um desafio? — Arqueando uma sobrancelha, Naruto finge uma grande ofensa, aproximando-se mais — Você sustenta as consequências, Hina?

Uma de suas mãos sobe vagarosamente até a linha da clavícula dela, exposta através da gola da blusa de algodão, revelando uma pele leitosa com pequenas pintinhas marrons escondidas pelo tecido; os dedos calosos percorrendo aquela região com lentidão deliberada, desfrutando de um território já conhecido e explorado, reivindicado durante suas madrugadas de descobertas lentas e mútuas.

A proximidade, o inclinar no ângulo exato, e finalmente, o toque de lábios sobrepostos, movendo-se com suave lentidão, era tão natural como respirar, tão simples que poderia ser confundido com insignificância; no entanto, a ausência de urgência descontrolada, da sofreguidão costumeira, não traduzia a imensidão da profundidade de um lago de águas profundas e escuras.

— Hum-hum… — O pigarro zombeteiro veio antes das palavras — Devemos voltar mais tarde?

Com aquele sorriso repleto de malícia — que mais parecia uma possessão de algum demônio milenar de tão arraigada — Jiraya provoca, os olhos negros brilhando com o que Naruto já sabia identificar: era inspiração; ao lado dele, Neji e Fuu — um com uma expressão acusatória impassível, a outra com pura diversão ilimitada — agiam como filtros de pureza, tapando os olhos e ouvidos de Konohamaru e Hanabi, enquanto Ino voltava ao seu estado natural: implicância sem filtros e pudor. Shino parecia estar em meio a uma análise clínica da situação, enquanto Hiashi estava interessadíssimo em uma viga da estrutura principal que sustentava a escadaria; embora o momento fosse embaraçoso, Naruto não se desculpou, não procurou justificativas plausíveis, apenas endireitou os ombros, sorriu largo e manteve-se próximo à Hinata.

— Esqueci o que vinha dizer. — Ele murmura, como se não estivesse com o rosto em brasa, e então beija a testa dela, se afastando e vai até o armário com as louças — Sentem-se, pessoal, estamos pondo a mesa.

O almoço passa naquela atmosfera de troça e implicâncias, e um coro de apreciação unânime pela perícia das mãos de Hinata — e o mais interessante, eram as mesmas mãos letais que interrompiam as sinapses cerebrais com um Senbon envenenado — na dosagem dos temperos, e todos sabiam e sentiam: cozinhavam com um carinho que não alimentava apenas o corpo, a alma também; com Jiraya e Fuu incentivando as traquinices, que antes já eram hiper estimuladas, a bagunça de Konohamaru e Hanabi tornara-se mais caótica, mas espantosamente, não era descontrolada, era direcionada e deliberada.

— Tomaremos a rota ao norte. — Naruto respondia a Hiashi, observando as crianças pirraçando Neji.

— Eles não são menos hostis que Kiri. — Hiashi observa, preocupado com a travessia em terras de Kumo.

— Não, mas não agem precipitadamente como Kiri. Tampouco pretendemos ser vistos. — Hinata complementa, e lança um olhar que dizia claramente “parem” às crianças, antes de prosseguir — Contornar pelo País do Fogo levaria mais tempo, perderíamos o timing.

— Quanto tempo estimam? — Forçando-se a não rir do amuo dos pestinhas, como os chamava agora, Jiraya indaga.

— Duas semanas, talvez três. — Incluindo no cálculo os possíveis imprevistos, Naruto conta.

— Vocês vão sair? — É quando as crianças são atraídas a conversa, e Konohamaru se preocupa imediatamente — Não podemos ir junto? Quem vai ler nossas histórias, otousan?

— Quero ir junto, okaasan! — Hanabi prontamente reforça, um leve traço de pânico passando por seu rosto.

— Ei, nós já conversamos sobre isso, não? Vocês sabem que precisamos trabalhar para manter nossa casa segura, não? — Desta vez é Naruto quem os controla, embora sua voz saísse firme, seu semblante trazia a mesma ternura a que ambos estavam acostumados — E tenho certeza que o padrinho pode ler as histórias, as das crianças. E também, o vovô Hiashi, ele gosta muito de ler.

Naruto havia pousado seu olhar no padrinho, numa advertência clara sobre os conteúdos, e logo o pousara em Hiashi, considerando se deveria dizer aquilo; apesar de estar ali todo um mês, o Hyuuga ainda retraía-se quando Hanabi chamava-o vovô e quando Konohamaru passara a fazê-lo também, às vezes o viam empalidecer. Todos compreendiam a delicadeza da situação, e assim como ele, estavam adaptando-se à nova estrutura familiar, com paciência e muita conversa, não permitindo que a complexidade daquilo fosse traduzida como algo banal, ou brincadeira de criança; Naruto principalmente, tinha certa empatia por Hiashi, apesar de tudo, deveria ser devastador ser redefinido como avô por sua filha, enquanto ouvia a menina chamando outro de pai, e tudo isso, enquanto buscava reaproximar-se da filha mais velha. O esforço do homem era visível e verdadeiramente sentido, tanto em participar da nova vida de Hanabi, como em não ser como em seu passado para Hinata; por isso, esteve tendo “surtos de nostalgia”, deixando escapar coisas importantes e significativas, uma espécie de ajuda para Hiashi ter um caminho seguro ao tratar com Hinata.

— Ham. Exato… gosto de ler… — Tão estranho como poderia ter soado, a voz de Hiashi valida a afirmação de Naruto — E sei alguns contos que não constam nos livros.

— Kono. Nabi. Nós sempre voltamos, lembram? Desta vez, só vai demorar um pouco mais. — Tranquilizando-os com sua promessa mais importante, a de sempre voltar, Hinata contorna o medo ainda rondando suas mentes, com uma pequena estratégia que lhe faz corar minimamente — Que tal isso? Vocês podem usar o calendário do passarinho de cristal, e com outra cor de giz, marcar quantos dias levamos para voltar.

— O passarinho não vai ficar chateado se a gente riscar o calendário dele de outra cor? A semente do bebê ainda vem? — Desconfiada, Hanabi recua, alternando os olhos repletos de astúcia infantil entre Hinata e Naruto — Não sei, não, okaasan!

— É, okaasan, se a gente risca de outra cor, o passarinho vai se perder. — Konohamaru rapidamente entende a lógica dela, e protesta também.

Neste momento, Jiraya e Ino já torciam-se de tanto rir, enquanto Fuu questionava Shino sobre o que era o calendário do passarinho de cristal, e desastrosamente, Hiashi perguntava o mesmo a um Neji rígido e vermelho; a Jinchuuriki interessada em saber que segredo era aquele, e o Hyuuga mais velho apenas não queria ser pego em alguma tradição noturna das crianças, sem saber o que era.

— Então, por que não montamos um calendário só para isso? — Tentando evitar ter de explicar a Hiashi e Fuu sobre a fábula inventada, Naruto sugere, voltando ao controle da situação — Montamos um calendário para vocês marcarem os dias que estamos fora, um bem colorido e diferente.

— Se for assim, tudo bem, otousan. — Desfazendo aquela expressão imperiosa, idêntica a de Hinata, Hanabi responde — Não queremos que o passarinho pense que não esperamos mais pelo bebê.

— Isso, estamos tão perto, quase alcançamos os dois mil dias! — Konohamaru comenta eufórico, claramente saltando muitos números da contagem.

É nesse instante, que aquela conversa sobre passarinhos de cristais e calendários começa a fazer sentido para Hiashi, que entende porque Neji acabava de dizer a Konohamaru para “não pular números da contagem”, como se o menino tivesse cometido uma enorme trapaça; e quando seus olhos pousam em Hinata, tentando manter sua serenidade, com as orelhas vermelhas, e Naruto fingindo que não ouvia Jiraya a fazer piadas de duplo sentido, o Hyuuga empertiga os ombros, e considera a situação por um instante.

— Então era isso? — Hiashi murmura para si, e de soslaio capta como o Uzumaki retesa-se inteiro, pela primeira vez desde que o conhecera, ainda um molequinho vivendo na floresta com sua filha, e uma incontrolável e tentadora vontade de instigar aquilo surge em seu âmago — Quando eu seria informado sobre o planejamento para me dar mais netos?

— Quando o planeja… o quê?! — Por cerca de dois segundos, Naruto processa o que ouve, e então entra em pane, as duas mãos agitando-se e negando freneticamente, atropelando palavras — Hiashi-sama, não, não, não é... isso… céus, temos quatorze e consciência responsável! Não é...

Completamente satisfeito por desestabilizar aquele rapaz, que sequer tremia diante dele, nem quando defendera Hinata do clã Hyuuga inteiro sendo apenas um menino, nem quando tomara agência sobre o futuro deles assumindo um compromisso sendo apenas um adolescente; agora Naruto estava ali, em pânico, tentando explicar uma situação que ele obviamente, não devia explicações a ninguém, muito menos a Hiashi.

— Hum, pensei que… bem, está bem. — Soltando um bufo, metade indignação fingida, metade risada contida, Hiashi fala, tentando manter a linha dos lábios rigidamente reta.

Durante aquela tarde, enquanto coordenava a varredura do perímetro oeste da ilha, Naruto teve a séria impressão de ter visto Hiashi lhe lançando olhares divertidos e zombeteiros por vezes, Neji por sua vez, resmungava sobre uma nova forma de tortura; no pátio central ao redor da grande cabana, Shino havia ficado responsável por auxiliar Ino com sua tarefa de iniciar as demarcações do escudo, e Jiraya interceptaria e receberia as mensagens que chegariam, mantendo um olho em Konohamaru e Hanabi, já que Fuu provavelmente não mediria as proporções das traquinices deles e participaria em tudo.

— Se você reagir assim toda vez, ele vai continuar. — Hinata comenta, mantendo o passo suave ao lado dele, em sua trilha estabelecida.

— Não pensei que ouviria isso dele. — Com uma careta de pura incompreensão, Naruto replica, observando Hiashi mais adiante.

— Nem eu. — Ela confessa, o Byakugan pulsando mais intenso, quando as emoções atribuladas e contraditórias da situação retornam à mente naquele instante — É completamente diferente do que lembro, e ainda assim, igual.

— E como você se sente? — Detendo seus passos, Naruto pede, fitando-a profundamente.

— Estranhamente, o que passou, não me afeta. Talvez porque já estivesse resolvido para mim, talvez porque conversamos antes de tudo. — Sincera e firme, Hinata revela — Realmente, não guardo rancor por ser abandonada, como disse a ele, foi a maior bênção que já recebi. Eu só estou… tentando processar esse último mês. Talvez por que sei que foi verdadeiro.

— Você não precisa seguir padrões, Hina, faça como achar melhor, como te deixa confortável, o que importa é o que você sente. — Entrelaçando sua mão na dela, como fazia desde menino, natural e espontâneo, Naruto pondera — É um eixo de dois retornos, e quando um lado não gira simultâneo ao outro, se faz a manutenção. Embora, nesse caso, penso que ambos os lados estão desencontrados.

Como ocorria sempre, Hinata relaxa os ombros, não estava negando, não estava presa, e principalmente, podia continuar caminhando com a mesma confiança de antes, adaptando o agora ao que ela já era e isso não apagava nada, não era esquecer, era apenas ressignificar; esteve durante aquele mês dividida entre o próprio conselho a Hiashi, sobre não retornar ao ponto anterior — a desumana e cruel diretriz de criação do clã — e abrir espaço justamente para a consequência disso em sua vida, temendo que pudesse estar atenuando o passado ou invalidando sua própria dor.

— Naruto? Veja isso! — Antes que ela pudesse externalizar o que pensara, Neji chama do outro lado.

Caminhando com Hinata até ele com passadas tranquilas, embora rápidas, o rapaz observa o que Neji encontrara, ouvindo como Hiashi aproximava-se também, parando ao lado deles; com dedos um pouco hesitantes, Naruto toca a inscrição na pedra já quase completamente enterrada ao solo, escondida entre a vegetação alta.

— É isso. — Com o coração aos pulos e o azul dos seus olhos ganhando aquele tom de cobalto perigoso, Naruto murmura — É aqui.

— Mas não há nada… — Confundida, Hinata afirma, observando aquele ponto do chão.

— Há uma barreira, precisa de uma chave. — Mal contendo a excitação, Naruto explica o que estivera ocultando para não gerar expectativas que seriam frustradas se tudo desse em nada.

— E suponho que você tenha a chave. — Perspicaz, Hiashi pontua.

— Sim, quando Ino concluir o escudo, vamos poder abrir. — Sorrindo largo, Naruto continua desenterrando o restante da inscrição, retirando musgo e raízes da rocha, percorrendo as runas com uma emoção desgovernada.

Naquele anoitecer, quando os quatro retornam à casa, encontrando Jiraya, Ino, Fuu e Shino os aguardando com as crianças no alpendre, com sucos, chás e biscoitos, e os dois menores empenhados em construir um calendário do zero, usando o antigo como modelo, colorido e repleto de pequenas conchas da coleção de Hanabi coladas às folhas; os dois grupos reúnem-se e conversam sobre seus progressos, que para alívio de Naruto e Hinata — pelo tempo que corria sem esperar que estivessem preparados — estavam sendo eficientes e adiantavam-se ao cronograma.

Após o jantar e por os pequenos para dormir pela última vez em alguns dias, prometendo voltar o mais rápido possível e garantindo que nada aconteceria, eles aprontam-se em silêncio no quarto, as roupas negras sem nenhuma insígnia, os equipamentos selados e os armamentos imediatos ao alcance das mãos; fixando suas Ninja-tō's no suporte às costas, enquanto Hinata ajustava o cinto com os Tessen’s, Naruto pega suas novas — e temporariamente — máscaras de porcelana sem padrões, ocultando suas identidades como ninjas de Konoha, ocultando suas temidas posições como os Tenentes ANBU’s, Neko e Kitsune. Carregando as mochilas, eles descem as escadarias silenciosamente, como se ao vestir as roupas de carrascos, seus corpos transformassem-se em máquinas de caça de predadores natos; Fuu congela com uma xícara a meio caminho da boca, sentada perto da lareira, era a primeira vez que os via daquela forma e seu corpo inteiro arrepiou-se.

— As rotas para a saída de emergências, o caminho depois da porta do porão. — Estendendo um pergaminho a Jiraya, Naruto explica, seco, gélido, preocupado — Se houver qualquer anormalidade, coloque os dois dentro da barreira, não espere confirmação.

— Os selos de ativação são simples: tigre, boi, dragão. — Hinata complementa, a voz tão séria e cortante como a de Naruto — Mas se o perigo for maior do que a proteção, vocês saem daqui sem esperar. Os abrigos nas fronteiras estão seguros. Nós os encontraremos.

— Vocês vão estar… “caçando” também? — Ainda um tanto incômodo com a conotação da palavra, Neji pergunta, avaliando como os estojos de armas são maiores do que os de qualquer outro compartimento.

— Se os assassinos especiais de Konoha simplesmente somem, coincidindo com a data em que deixamos a Vila para uma missão prolongada, olhares que não queremos nos marcam. — Naquele tom que causava arrepios até em Jiraya, Naruto responde.

— De tempos em tempos, faremos “limpezas” como se Neko e Kitsune estivessem operando desde Konoha, para isso servirão as rotas mais longas também, elas formam uma trilha que passa longe daqui. — Percebendo como a compreensão abala o primo, Hinata sorri de uma maneira que faz o coração de Ino apertar — Tentaremos manter o cronograma, se algum imprevisto ocorrer… Shikamaru vai acionar os protocolos, neste caso.

Com um último olhar ao primo, os amigos, Jiraya, e até mesmo ao pai, ela sai para a escuridão já acomodando a máscara fria no rosto, Naruto, no entanto, permanece onde estava; notara o leve tremor nas mãos de Hiashi agarrando os joelhos, de modo que suas vestes enrugam-se amarrotadas.

— Vou trazer ela para casa. Em quinze dias. — A ninguém especificamente, o Uzumaki afirma, acomoda sua máscara e sai para a noite escura.

Para além do trapiche utilizado como porto improvisado que eles construíram, na enseada rochosa onde as ondas quebravam-se com mais violência, a segunda embarcação que Daiki lhes trouxera uma semana após a chegada do grupo de Konoha, desta vez a motor, pequena o bastante para não ser notada e rápida, mas suficiente para duas pessoas, balançava-se, flotando oculta pela pedra negra; minutos mais tarde, graças ao vento que dera uma breve trégua, o grupo na sala ouviu pela janela aberta, como o som das ondas foi cortado pelo de um motor forte e contínuo, como o de uma serra a combustível.

O clic do trinco da porta da frente fechando-se vagarosamente, empurrada pelo eco vazio do alpendre escurecido, sobressalta Ino, e Fuu quase derruba a xícara ainda a meio caminho da boca; Shino solta um suspiro quase cansado, e Neji fecha os olhos, tentando não pensar. Contrário aos estado de confusão dos jovens, Jiraya assume uma expressão de seriedade absoluta, e enquanto murmura um “vamos ao trabalho”, vai abrindo aquele pergaminho, tencionando decorar os caminhos e saídas das rotas; Hiashi mantinha o olhar no mar através da janela da cozinha, vendo como a água revoltosa oscilava, as mãos ainda tremendo e a mente num estado ainda pior.

— Padrinho? Vovô? — A voz fina e sonolenta de Hanabi faz todos voltarem-se para as escadas.

— O otousan e a okaasan já foram? — É Konohamaru que pergunta o que o sono não permitiu a menina fazer.

Incapaz de dizer uma palavra amena, sem fazer com que aquelas expressões de choro estalassem na ação propriamente, Hiashi apenas concorda, e espantosamente, seu lábio inferior tremia tal qual o do menino; ao lado dele e vendo como estava travado ao enfrentar aquilo pela primeira vez, assim como os jovens, Jiraya endireita a postura.

— Eles voltam em quinze dias. Então, a partir de amanhã, comecem a riscar aquele calendário, piolhos. — Naquele tom que só usava com eles, Jiraya pisca, e dá uma nova ordem — Precisamos contar direito, vamos fazer uma surpresa para recebê-los de volta!

***

Finalmente, uma semana de cansaço e uma dura caminhada, e finalmente o árido do deserto começava a ceder lugar às florestas refrescantes e ventos mais suaves do País do Fogo; desafortunadamente, a sensação enervante da areia fazendo dentes ranger e pesando nas bainhas das roupas, deixando aquela porosidade sob a sola dos pés, não cederia tão cedo, ou ao menos, não até o primeiro banho decente.

A caminhada que já era desgastante, difícil e perigosa, tornara-se um tanto mais extenuante para Sakura, recuperando-se de ferimentos e com o corpo letárgico pela intoxicação causada pelos vestígios dos venenos que testara; contudo, mesmo que respirar ainda fosse doloroso e que sua pele estivesse extremamente sensível na região das picadas, a Haruno obrigou-se a manter o ritmo do grupo, recusando até mesmo as sugestões de Karin — sabia que a Uzumaki as fazia com boas intenções — de pararem mais vezes para que ela pudesse descansar.

O resultado disso, foi terem alcançado os limites da fronteira em tempo normal, mesmo quando foram pegos por uma tempestade de areia no meio do deserto, que obrigara-os a simplesmente abaixar-se e improvisar uma proteção com suas capas e mantas de viagem, e esperar passar para seguirem caminho; fora nesse momento, quando estavam sentados no chão, protegendo-se e tentando impedir que a ventania arrancasse-lhes das mãos sua única proteção, que Sakura percebera um leve retraimento em Kakashi.

Num primeiro momento, julgara que era pelo pouco espaço, afinal, estavam sentados lado a lado tentando não ser enterrados em metros de areia e nem um abrigo de Doton poderia ser feito; entretanto, aquilo começara a repetir-se, quando iam beber água, quando estiveram juntos observando rotas alternativas nos mapas, porque a atual estava estranhamente alterada e não queriam entrar em conflitos com bandidos naquele momento. Sakura percebia aquele enrijecer de ombros cada vez mais presente, e aquela distância de dois passos precisos que antes não existia, ou os olhos vagando para longe no momento menos indicado; ao sentarem-se naquele anoitecer ao redor da fogueira baixa do acampamento, uma convicção um tanto amarga formara-se em sua mente e como se já esperasse e aceitasse tal resultado, a garota apenas resignara-se, revelando uma expressão melancólica e um tanto endurecida, os olhos verdes tão frios como um jade falso.

— Você está sentindo dor? — Sentando-se ao lado dela, enquanto Sasuke sentava-se perto de Karin, como se aquele arranjo fosse habitual, Kakashi pergunta, notando aquela estranha quietude.

— Não. — Sakura responde, claramente uma mentira, afastando-se no cepo sutilmente, os mesmos dois passos — Só estou cansada.

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Estreitando os olhos, ao ver aquele gesto que não esteve ali quando sentou-se ao lado dela naquela manhã, a mente de Kakashi dispara em suposições, buscando pela mais plausível no momento; contudo, não havia nada que explicasse aquilo.

— Não, Karin, não coloque o meu. — Quando desvia o olhar, não querendo mais ser estudada daquela forma descaradamente óbvia, Sakura vê a outra pondo no fogo as latas de ensopado de todos e a detém — Não estou com fome, na verdade, vou só deitar e descansar, quando for meu turno você me chama?

— É claro… — Duvidosa, Karin queria perguntar o que acontecia, mas percebia a ansiedade de Sakura ebulindo, e por isso apenas concorda.

— Sakura, você precisa… — Kakashi ia dizendo, tencionando mencionar seu estado fragilizado.

— Estou bem, sensei! — Mas é interrompido antes de conseguir pronunciar, e o seguinte tom de voz dela, confirma que tudo estava errado — Quero só parar…

Vendo-a levantar-se e ir em direção a sua mochila, arrastando-a até o canto mais afastado e ajustando-a embaixo de um salgueiro onde pretendia deitar-se, os nervos de Kakashi finalmente assumem o comando da razão que esteve operando ao longo de toda aquela semana, quando deixaram Suna; fazendo um sinal de “fiquem e vigiem” a Karin e Sasuke, o Hatake caminha a passos decididos até Sakura, e como havia aprendido que poderia ter, age com certo nível de impulsividade, segurando o pulso dela e guiando-a para mais longe por entre as árvores.

— Precisamos conversar. — Ele fala simplesmente, ao vê-la começar a protestar.

Com mais alguns passos, eles param num espaço cercados por choupos com inúmeras pequenas samambaias rodeando-os pelo chão, longe o bastante para terem privacidade, perto suficiente para reagir em caso de um ataque; ali, sem a pouca iluminação da fogueira, apenas com a tímida lua ascendendo aos céus, Kakashi observa atentamente o rosto de Sakura, os olhos fixos nos dela, buscando por qualquer sinal. Entretanto, diferente daquele fim de tarde há quase dez dias, quando tudo fez-se nítido desconcertantemente, não havia nada; nada de bochechas coradas, nada de olhos brilhantes e muito menos, daquela energia similar crepitando entre ambos.

— O que está acontecendo? — Não querendo supor nada e muito menos dizer algo sem qualquer indicação, Kakashi questiona, mantendo uma calma frágil.

— Nada. — Sem olhá-lo diretamente, Sakura responde — Já disse, estou cansada.

— Então, porque isso parece mais um recuo? — Incapaz de continuar naquele impasse de perguntas e respostas vagas, Kakashi pontua precisamente.

— Hrrmph! Recuo, você diz! — Exasperada, Sakura parecia morder as palavras, sibilando-as tão baixo que pareciam um soprar arrastado — Eu recuei? Ou foi você que se arrependeu e agora está tentando manter sua imagem de sensei compreensivo?

— Sensei compreensivo? Nunca fui compreensivo, complacente ou qualquer coisa do tipo, Sakura! — Atraído por um segundo por aquela definição tão mirabolante, Kakashi deixa-se levar, então detém-se, respira profundamente e foca no que realmente deveria — Quando eu disse qualquer coisa sobre arrependimento?

— Está implícito! Cada distanciamento. Aprendi a ler sinais com Hinata, Kakashi. — Num tom controlado, Sakura solta cada palavra respirando pesadamente, e desviando os olhos para um ponto qualquer, escondendo qualquer emoção que pudesse surgir ali, prossegue — Não precisa explicar nada, já entendi, e não vou causar problemas… só me deixe quieta… e tudo volta ao lugar de sempre…

Levam cinco segundos para Kakashi decifrar as camadas de toda aquela frase, cinco segundos onde sua cautela naqueles dias voltam ao pensamento, o cuidado silencioso, as medidas para manter a equipe funcional, a antecipação de possíveis problemas colocada acima do que estava sentindo; mas principalmente, preservar aquela garota teimosa e insolente que praticamente rosnava seu nome enquanto estava brava, detalhe que em outro momento teria lhe arrancado um sorriso, mas ali, apenas fazia-o reconsiderar tudo com um temor crescente.

— Te deixar quieta? — Num tom de indignação e desafio, Kakashi retruca — Já disse que não fujo, Sakura! Não há recuo. Não há arrependimento. Nenhuma das minhas ações foi sobre isso, foi apenas… cautela.

Quase simultaneamente, Sakura revira os olhos, claramente não cedendo ou acreditando, mantendo o olhar longe, focado num pequeno arbusto carregado com amoras selvagens; percebendo a postura impassível dela e sabendo que não chegariam a lugar algum com meias palavras, Kakashi quebra a diretriz dos últimos dias e aproxima-se, segura o rosto dela entre as mãos, virando-o para fitá-lo.

— Você mesma considerou isso, naquele dia. — Kakashi relembra, usando aquela voz neutra para ocultar quanto estava nervoso — Então considerou que sou mais velho, e que cada gesto meu pode induzir um comportamento seu? Eu não quero isso Sakura, existem etapas na vida que devem ser vividas, não atropeladas por influências externas.

— E você não considerou que isso deveria ser conversado? Dito? Não considerou que o silêncio é ambíguo e contraditório? — Por fim, Sakura volta a falar-lhe, pontuando questões que Kakashi não alcançara considerar, deixando-o tonto com a verdade daquilo — E, francamente, Kakashi, sou plenamente capaz de sustentar minhas próprias ações. É hipócrita decidir que sou mentalmente capaz para lutar, ir à guerra, mas não madura o suficiente para isto!

Leva outro meio segundo para Kakashi compreender o que acontecera, a causa de tudo e que seu modo de ser razoável, quando não dito abertamente, traduzia arrependimento e não cuidado; a única outra pessoa que o desarmara mentalmente daquela forma, fora seu falecido pai, quando disse-lhe com uma convicção que Kakashi nunca soube de onde viera, que Maito Guy seria um ninja excepcionalmente forte, e de fato, isso confirmou-se alguns anos depois.

— Desculpe. — Honestamente, Kakashi pede, deixando-se ver naquele estado de vulnerabilidade diante dela pela segunda vez e volta a afirmar — Não é recuo, eu só não administrei corretamente.

— Talvez por que isso é tarefa para dois, Kakashi. — Com uma expressão de contrariedade mal resolvida, Sakura retruca — Somos dois perdidos tentando achar um caminho seguro, mas se você decide tudo unilateralmente, ninguém caminha!

Num gesto que nunca teria considerado adequado antes daquela noite, Kakashi solta o rosto de Sakura, e então abraça-a lentamente, testando a proximidade, a reação, o contato; ouve o arfar surpreso dela, e relaxa quando Sakura não afasta-se ou demonstra estar assustada, realizando profundamente que aquilo era, realmente, uma caminhada de dois.

— Isso é... aceitável? — Sua voz soa quase inaudível, abafada pelos sons da floresta.

Após uma breve consideração — não por sua indecisão, e sim porque sabia que Kakashi ralharia dizendo que sequer pensara direito — Sakura assente afirmativamente, ocultando sua tentadora vontade de gargalhar; aquieta-se também, ao perceber como suas emoções estiveram flutuantes naquelas últimas horas, indo de um extremo a outro — embora tivesse controlado muito que bem seus impulsos — como não ocorria em muito tempo.

— Agora que penso nisso… — Sentindo-a corresponder o abraço suavemente, e captando como estava à beira de gargalhar, Kakashi repassa mentalmente toda a conversa, apenas para ter certeza do que ouvira — …Em apenas uns minutos, você me chamou de “sensei compreensivo”, claramente sem essa definição. De volúvel, quando afirmou que eu me arrependi. E para fechar com chave de ouro, de hipócrita. Há mais camadas ocultas em suas palavras, Sakura?

— As pistas superavam as informações, foi um diagnóstico de sintomas, não de causa latente. — Dando de ombros, Sakura tenta sair pela tangente.

— Sua insolência está alcançando um nível espantoso. — Finalmente, o som da risada de Sakura ecoa, obviamente, divertida com a leitura de Kakashi.

Ao retornarem ao acampamento, após mais alguns instantes dentro daquele primeiro abraço, Kakashi não se afastou como antes, e diferente de antes, quando conduzira-a pelo pulso, agora a trazia pela mão; não era um entrelaçar ferrenho e completo de mãos, mas havia dedos suspendidos, levemente cruzados, presos uns nos outros. Quando Sakura volta a sentar-se no mesmo cepo de antes, logo de receber um olhar de Kakashi que parecia gritar “você não dorme sem uma refeição”, Karin imediatamente ocupa o lugar ao lado dela, durante o momento em que o Hatake ocupava-se com ajustar o fogo e pôr a quarta lata de ensopado na trempe; orbitando perto das duas, recolhendo gravetos próximos, embora longe o bastante para não ser invasivo, Sasuke fingia não prestar atenção na conversa que seguiria.

— Então…? — Suave como uma bigorna, Karin indaga.

— Então? — Sakura pisca confusa, ainda estava processando os últimos minutos.

— Não faz a tonta. — Revirando os olhos impaciente, Karin retruca e desata a tagarelar abertamente — Quero saber se vocês estão juntos!

— Karin! — Sakura quase engasga de susto.

— O quê? Era segredo? Mas é tão nítido que até o peixinho percebeu. — Karin conta, deixando Sakura num estado catatônico.

— Karin! — Desta vez foi Sasuke quem guinchou o nome dela, chegando a derrubar os gravetos que juntara, num misto de vergonha e perplexidade sem igual.

— Sim. — Mas foi Kakashi quem respondeu, ainda de costas para eles, mexendo os ensopados, e acrescenta numa tranquilidade resoluta — A ordem da informação foi invertida, mas é igualmente importante. E não se preocupem, não interfere no grupo, como vocês puderam perceber ao longo desses dias.

Neste momento, Sasuke derruba os gravetos que recém juntava novamente, e não parecia capaz de juntá-los uma terceira vez, tamanho era seu choque, seu Sharingan parecia a ponto de ativar-se de puro susto.

— O quê?! — Sua voz ecoa esganiçada pelo acampamento, e por alguns instantes, o Uchiha foca seu olhar em Karin e uma Sakura com as orelhas vermelhas, e volta a Karin — Você não disse que era uma “sinergia diferente”?

— E o que você pensou que era a tradução, peixinho? — Incrédula com a disparidade de compreensão de Sasuke, Karin zomba.

— Sei lá… um melhor trabalho de equipe… — Agora roxo de vergonha, Sasuke obriga seus olhos a focarem-se em Kakashi, ouvindo Karin pirraçando entre gargalhadas com um “trabalho de equipe, certamente!” — Kakashi… não consigo nem começar a enumerar...

— Não precisa. Já sabemos. — Naquele tom que dizia “o assunto foi encerrado”, e que escondia algo mais, Kakashi corta, voltando para perto de Sakura com duas latas de ensopado em mãos, estendendo-lhe uma seriamente — Coma, e você sabe que precisa, mesmo que não queira.

Com uma careta que era sua marca maior de zombaria e insolência, Sakura esquece até do embaraço anterior, murmurando reclamações ininteligíveis baixinho, esforçando-se ao máximo para não deixar-se afetar pelas reações de Sasuke e Karin; cerca de cinco dias mais tarde, o time sete chega a Konoha, exaustos e profundamente tranquilos — o que era surpreendente — apesar dos temores de Sasuke com respeito ao equilíbrio funcional do grupo. Acontece que, mesmo após a afirmação de Kakashi, a dinâmica da equipe seguia a mesma, a eficiência, a distribuição de funções, os tratamentos, não havia diferenciação que denunciasse favoritismos ou quebra da logística; diante disso, o Uchiha esteve considerando que o descabelado anúncio do Hatake não passava de uma brincadeira, uma pirraça com eles, fora o detalhe da proximidade que estava ignorando deliberadamente.

— Como enviei os relatórios prévios antes de sairmos de Suna, podemos descansar até amanhã, antes de relatar verbalmente à Godaime. — Kakashi instrui, detendo-se a entrada da vila.

— De verdade? Nossa, obrigada, capitão! Preciso desesperadamente de um banho decente. — Cantarolando de tão feliz, Karin comemora.

Os quatro trocam uma breve saudação, antes de iniciar uma caminhada por ruas diferentes, movimentadas, coloridas e buliçosas como sempre, talvez ainda mais naquele verão; entretanto, o caminhar de Karin e Sasuke — com suas casas na mesma direção por parte do caminho — para abruptamente, ela ao captar algo, ele porque Karin parou. Quando a garota sorri travessa fitando um ponto atrás deles, Sasuke volta a caminhar, intuindo que não deveria querer ouvir, ao menos, não através das palavras pirracentas de Karin, que seguramente o fariam interpretar algo errado novamente; já lhe bastava todos os motivos que dera-lhe para implicar com sua incapacidade social em Suna.

— O que você está fazendo? — Sakura pergunta finalmente, após Kakashi seguir caminhando ao seu lado por mais de cinco minutos, quando claramente, deveria ter tomado outra direção na primeira esquina.

— Bem, tudo na vida segue protocolos, e não pretendo ignorar nenhum. — Numa calma ensaiada, ocultando o nervosismo da ansiedade, Kakashi responde, mas ao perceber que Sakura não reconhece de que falava, explica melhor — Não compactuo com nada às escondidas, Sakura, nem nas questões onde há um irmão mais velho no meio.

— Não, não, não…! — Apavoradíssima, Sakura entra em colapso — Sakumo-nii é seu amigo, e isso tem noventa por cento de chance de terminar mal.

— Sakura, não pretendo agir como um ladrão, roubando na calada da noite. E depois, essas são as consequências, já sabíamos. E depois da equipe, seu irmão e o alto escalão são os únicos interessados, por assim dizer, não há mais nenhuma satisfação a ser dada. — Num pragmatismo que Sakura não saberia dizer se era loucura ou responsabilidade, Kakashi enumera — Não se preocupe, conheço Sakumo há cinco anos, sei como conversar com ele. Bem, sendo sincero, espero que a explosão não termine com meu rosto na direção do punho dele.

— Você não pode estar falando sério. — Com um aperto desconhecido no peito, Sakura sussurra, os olhos quase saltando das órbitas.

— Não? Pensei que era esse o tipo de conversa aberta que você queria. — Um tanto sarcástico, Kakashi devolve, com aquele único olho negro visível brilhando em provocação.

— Era, claro que era! Mas nunca pensei que a conversa seria momentos antes da ação! — Exasperada, Sakura gesticula freneticamente com as mãos no ar — Não falta… hum… sei lá, planejamento?

— Digamos que também fui influenciado por Naruto, como você foi por Hinata. — Daquela maneira que fingia desinteresse, quando obviamente estava analisando reações e estudando o panorama, Kakashi brinca — Sakura, não existe nenhum crime sendo julgado e nenhuma vergonhosa relação ilícita acontecendo. É como você disse, desde que Shinobis se formam na Academia, são considerados sujeitos autônomos e responsáveis, embora com limitações operacionais estabelecidas por patentes. Então, pessoas que operam nesse nível de precisão todos os dias, não podem saber, mesmo com evidentes diferenças, que vida querem viver?

— Podem… claro que sim… — Impactada pelo peso das próprias palavras, Sakura pondera e então revela a abrangência do que sentia — Mas não quero que meu egoísmo distancie quem me importa!

— Não é egoísmo, é escolha. E não se preocupe, não vai. — Parando em frente ao portão da casinha branca onde ela passara a viver com Sakumo, Kakashi assegura — Vamos?

Passando pelo portão, com o caminho de pedras parecendo ranger sob suas pisadas ao mesmo ritmo de seu coração, Sakura dirige-se até a porta da frente, e quando insere a chave no ferrolho, a encontra destrancada; Sakumo devia estar em casa, ela pensa, mordendo a parte interna das bochechas, para conter a ansiedade.

— Nii-chan? — Sakura chama, e embora capte a voz abafada dele, não consegue ouvir o que diz — Nii-chan, Anko-sensei está aqui?

Chegando à sala com Kakashi caminhando apenas a um passo de distância, Sakura estanca, os olhos verdes perdendo qualquer resquício de preocupação ou o brilho juvenil que vinha impregnando-os; Sakumo andava de um lado a outro, passando as mãos pelos cabelos rosados, o mesmo gesto exasperado dela, enquanto sibilava rispidamente algo a um indesejado visitante.

— Você entendeu? Ouse propor algo assim novamente, e nem Rikudou… — Sakumo detém a frase ao meio, virando-se para a entrada da sala, os olhos azuis ganhando um brilho de ternura — Sakura… oh, você chegou! Como está?

Sakumo abraça-a, ignorando completamente o homem parado atrás deles, logo afasta-a um pouco e analisa-a com olhos nervosos, angustiados, buscando sinais das lesões descritas nos relatórios, ou qualquer outro ferimento.

— Que maluquice foi aquela, Sakura? Que droga você estava pensando? — Então, ao não encontrar nada visível, Sakumo ralha por fim.

— Estou bem, nii-chan, não existiu risco algum. — Sakura tenta conter o riso, ao encontrar semelhança naquela reação, fingindo não ouvir o pigarro de Kakashi atrás dela, e logo, foca o olhar em Kizashi, observando-os estranhamente — O que está acontecendo?

— Nada. Por que não vai deixar suas coisas e logo me conta como foi em Suna? — Rapidamente, Sakumo organiza a situação, uma expressão neutra no rosto, que indicava claramente que havia algo — Kizashi já estava de saída. E você, Kakashi?

— Eu vim falar com você, também. — Percebendo a estranha maneira de praticamente enxotar o pai dali, e somando ao estado de Sakumo quando chegaram, Kakashi começa a suspeitar.

No momento em que Sakumo sai para o corredor, “escoltando” Kizashi até a saída, Sakura aproxima-se de Kakashi num frenesi trêmulo e desesperado, puxando a manga da blusa dele até se abaixasse o suficiente para ela conseguir sussurrar ao seu ouvido.

— Não é um bom momento. — Sakura dispara de imediato — Kizashi aqui significa problemas, o nii-chan vai estar o cão hoje.

— Sakura, tudo bem. Eu sei como conduzir isso, fique calma. — Fitando o rosto dela sem voltar a sua posição original, daquela forma mesmo, Kakashi sorri, tentando tranquilizá-la.

— Então, o que queria me… — Eles não ouviram os passos do retorno de Sakumo, ao menos ela não.

Parando a entrada da sala exatamente como Sakura antes, Sakumo estreita os olhos, captando muitas coisas ao mesmo tempo, e tentando organizá-las num padrão conhecido, antes de dizer qualquer palavra; no entanto, o que seu olhar registrara não cabia em qualquer definição que sua mente pudesse idealizar.

— Sua mensagem dizia que deveríamos conversar, sobre o que era? — A voz de Sakumo soa tão gélida que causa arrepios.

— Que mensagem? — Perdida diante da nova informação, Sakura pergunta, os olhos alternando de um a outro.

— Escrevi ao seu irmão um dia depois do seu último… teste. — Incapaz de conter o impulso, o semblante de Kakashi demonstra um profundo desgosto, ao pronunciar a última palavra.

Sakura arregala os olhos, impactada ao descobrir que Kakashi tinha intenção de fazer aquilo desde antes de saírem de Suna, antes do mal-entendido; e talvez Sakumo tenha notado alguma nuance durante aqueles segundos, já que ajusta a postura, tornando-a mais pesada.

— Sakura, Akamaru está no seu quarto. Hanna o trouxe hoje de manhã, parece que está sentindo sua falta. — Sakumo induz deliberadamente que ela deixe a sala novamente, apelando para sua preocupação genuína com o pequeno cãozinho.

Todavia, desta vez a tática não parece funcionar, na verdade, deixa a garota mais ansiosa ainda, dividida entre verificar Akamaru e permanecer ali, mediando o que quer que resultasse daquela conversa; é somente quando o olhar de puro pânico dela encontra o de Kakashi, que lhe acena afirmativamente, que seus pés movem-se do lugar, subindo as escadas com as pernas parecendo ser de gelatina. Esse outro detalha também não passa despercebido a afiada percepção ANBU de Sakumo, que agora cruzava os braços à frente do corpo, apertando as mãos com força; antes de sumir no corredor, Sakura olha para trás um instante e quase volta correndo quando sente a tensão, mas o sinal que recebe — o mesmo das missões, o sinal de recuar — a detém e ela termina o percurso até o seu quarto.

— Então? — Arqueando uma sobrancelha, Sakumo testa a ansiedade, e quando Kakashi não entra no jogo, prossegue com a pergunta — O que é tão importante, que você precise conversar comigo em casa? Não na divisão. Não no escritório administrativo. Em casa. E melhor, me avisando com quase quinze dias de antecedência!

— Algumas circunstâncias mudaram a minha ordem de prioridades. — Iniciando pelo fácil, Kakashi fala — Sendo honesto, não percebi até ter que confrontar, foi quando tomei consciência. E como disse a Sakura…

— Fffhhhnnn! — O som que o interrompeu saiu prolongado, como o de uma mangueira de gás quando escapa, um esforço evidente de contenção — Não percebeu? Você? E agora veio me dizer com a cara mais limpa que colocou os olhos na minha irmãzinha?!

— Não foi assim! — Imediatamente, Kakashi nega, preparando-se para uma longa explicação, que não justificava, mas ao menos não restariam dúvidas sobre o antes e o agora — Você sabe que não foi, ou já esqueceu quem te enviava os relatórios sobre ela enquanto esteve fora da vila? Tudo que escrevi naqueles anos, era verdade, era como eu a via. Inconsequente, dependente emocional, com sérios problemas sociais…

— E o que mudou? — Interrompendo-o novamente, Sakumo senta-se, mantendo as mãos sobre as têmporas e os cotovelos apoiados nos joelhos.

— Sakura. Cresceu absurdamente como Kunoichi, desapegou daquele ego corrosivo. — Resumindo o mais possível, Kakashi sintetiza o que era, querendo focar no presente — Ela brilha por conta própria, Sakumo, e contagia quem se permite ver a mudança. E eu…, bom, eu vi toda a evolução de perto, sem qualquer defesa…

— Você tem noção do que está dizendo? Pelos céus, Kakashi, você é o líder de time dela. Você é mais velho, e ainda é meu amigo, ou ao menos, pensei que era. — Erguendo as mãos ao léu, num gesto de pura frustração, Sakumo pontua — Você acha que está em posição de sustentar esses namoricos adolescentes? Já pensou que o ritmo dela é diferente do seu? É minha irmã, Kakashi, minha irmã! Não quero Sakura sendo induzida a nada que não esteja emocionalmente pronta!

— Sim, eu pensei, considerei, reconsiderei, e sempre voltei ao mesmo ponto. — Não diminuindo nada do que ouvira, Kakashi concorda brevemente, e continua — E são sete anos, Sakumo, você e eu temos a mesma idade, não esqueça, então por favor, não fale como se eu fosse um velho com o pé na cova. Mas sim, sei de toda a complexidade, e não estou falando de namoricos adolescentes, estou falando de compromisso em construir uma relação, no tempo dela, no ritmo dela, porque isso também me importa.

Kakashi espera um instante, abrindo espaço para Sakumo absorver suas palavras, estudando-o também nesse meio tempo, analisando como seus ombros iam lentamente, relaxando, e suas mãos deixavam de abrir-se e fechar-se simultaneamente.

— Quando senti a primeira fisgada na consciência, ignorei, racionalizei e julguei que meu comportamento era por minha amizade com você, então eu não estava preparado para aquela… horrorosa experiência em Suna, e tudo explodiu junto. — Kakashi prossegue, e desta vez, mais aberto do que jamais foi com qualquer um sobre aquilo, fala — Ia esperar, observar e quem sabe, no futuro. Mas nossa vida não segue padrões e perspectivas normais. Já perdi pessoas importantes, estimadas, foram muitas perdas, e de verdade, não quero esperar vendo a vida passar, não mais.

— E o que você quer? Uma bênção ou coisa do tipo? — Ironizando amargamente, Sakumo ri de um jeito desolado — Sakura é autônoma, Kakashi, se você diz que não é impulso, não é indução, por que estou sendo jogado no meio disso?

Era verdade, Sakumo sabia que poderia protestar, obstaculizar, ou até mesmo, usar sua posição para uma reclamação formal, mas isso apenas mancharia a reputação de Sakura, profissional e pessoalmente, além de enfurecê-la; e desalentadoramente, sabia que Kakashi dissera-lhe a verdade, afinal, também percebera os sinais sutis — que decidira ignorar para não confrontar o que via — nos comportamentos dos dois, e por isso sabia que a mudança de afinidade deles ocorreu depois, antes havia amizade e cumplicidade apenas.

— Porque é importante para ela, e também para mim. — Encolhendo-se de ombros, numa sinceridade que faz Sakumo desviar o olhar, Kakashi responde — Justamente por ser importante, que não é correto manter isso às escondidas.

— Eu não sei se deveria amassar essa sua cara de pau agora ou depois. — Suspirando, Sakumo fita Kakashi intensamente, o maxilar remexendo, como se mastigasse tudo aquilo, antes de engolir a força — Você sabe que a Godaime vai te trucidar, não é? E ainda tem sua equipe. Oh, isso sim vai ser divertido, como é trabalhar com a ex-paixonite dela rondando?

— Você poderia não ser infantil? A equipe vai funcionar bem, como sempre. E a Godaime, bem, tecnicamente falando, não existe mais a relação sensei/aluna desde que Sakura é Chunin, não há conflito nesse sentido para Tsunade-sama rechistar. — De volta ao seu pragmatismo habitual, Kakashi tenta ocultar o desconforto.

— Tsc! Sempre com uma resposta na ponta da língua. — Revirando os olhos, Sakumo retruca, e então, sobe seus olhos ao topo da escada e sorri — Pode deixar de espiar, Sakura, ninguém vai sair no tapa aqui.

Quando Sakura começa a descer os degraus com Akamaru nos braços, encontra os dois fitando-a com expressões que diziam claramente: sabíamos que você estava ali.

— Vocês vão brigar quando eu não estiver por perto? — Alcançando o último degrau, ela pergunta, apurando os ouvidos para captar qualquer nuance de mentira.

— Não. — Sakumo garante, embora, sem muita convicção.

— Seu irmão vai amassar minha cara na primeira oportunidade. — Kakashi, por outro lado, afirma o oposto.

— Ei, eu não disse isso! — Sakumo protesta de imediato, indignado.

— É melhor assumir que sim, assim, se acontecer… — Kakashi ia explicando a lógica de sua prevenção.

— Vai acontecer se você fizer qualquer gracinha, Hatake. — De um momento a outro, Sakumo estava parado a centímetros de Kakashi, rosnando um aviso significativo.

— Humm… preciso daquela pomada… — Encontrando uma forma de mudar o foco da situação, Sakura pede.

Funciona, porque em instantes, Kakashi deixa de dar atenção ao tom agressivo de Sakumo, e este volteia o olhar para a irmã, atraído pelo termo que geralmente significava necessidade médica.

— O que aconteceu? — Sakumo pergunta a ela, buscando novamente por feridas visíveis que talvez não vira da primeira vez.

— As picadas estão coçando. Obrigada. — Pegando o pote de cerâmica que Kakashi retira de sua mochila, Sakura explica.

— Por que isso estava com ele? — Antes que ela possa subir e fingir aplicar a pomada para sustentar a mentira, Sakumo inicia uma pequena investigação.

— Minha mochila está lotada de livros que Chiyo-obaasan me passou para ler, ia quebrar o pote. — Sakura contorna a pergunta sem expor a situação delicada — Vou passar, já retorno.

— Chiyo-obaasan, hmph! Deveria ser velha múmia senil! — Com uma enorme aversão ao nome, Sakumo desaba no sofá outra vez, vendo-a subir as escadas, e então, foca em Kakashi, ainda em pé — Você não vai sentar? Como foi lá? Como essa velha maluca convenceu Sakura a aplicar venenos desse jeito?

— Foi um pesadelo. Chiyo-sama é competente, mas é doida de pedra. — Sorrindo, Kakashi evita mencionar o fato de que sabia que Sakumo o deixara em pé todo aquele tempo de propósito, e relata todas as impropriedades das maluquices da mestra de Suna — E como se não bastasse ela, ainda tinha o irmão do Kazekage e sua obsessão com estudar emoções e Karin sendo mais pirracenta do que o normal.

— Gaara? O que ele fe… — Sakumo começa a perguntar, mas então uma memória antiga retorna a sua mente com força e um riso descontrolado escapa de sua garganta, deixando Kakashi completamente confuso — Bem feito! Viu só? Você sentiu na pele o que eu sinto. E isso me lembra, você esteve sondando terreno, seu descarado convencido!

— Do que é que você está falando? E por que vocês, irmãos, ficam me denominando assim? — Sem entender o que era e chocado com o tanto de definições novas que recebera ultimamente, Kakashi protesta.

— Do que estou falando? Estou dizendo que você estava com ciúmes! — Sakumo conta apenas pelo prazer de vê-lo empalidecer e negar freneticamente — E você é um descarado, Kakashi, ou acaso já se esqueceu das perguntas sobre futuros namorados que me fez lá na clareira, no verão passado?

— Eu obviamente não estava me incluindo na questão naquela época! — Kakashi defende-se de pronto, assim que processa e reconhece a memória citada.

— É, sei. — Sarcástico, Sakumo retruca — Se não me engano, Gaara também foi o catalisador, mas o agente fui eu, e como um idiota, cai naquele seu papinho de “desvie a atenção”.

Indignado com o cinismo cético do Hatake, Sakumo escora-se na poltrona, ampliando e alargando o sorriso ao constatar que agora tinha muita munição por muito tempo, e até mesmo o desconcerto tumultuoso no semblante de Kakashi, já poderia ser considerado uma parcela da compensação que cobraria; e conforme as recordações iam inundando sua mente, fazendo-o analisar os últimos meses sob outra ótica, o Haruno encontra também memórias mais antigas, e mesmo que não admitisse agora e talvez nunca, igualmente importantes. Lembrava-se do dia em que ingressara na ANBU, o dia em que conhecera o filho do grande Presa Branca da Folha, Shinobi valoroso, razão para sua falecida mãe tê-lo nomeado Sakumo; na época, Kakashi já estava ascendendo dentro da divisão, era respeitado e temido, e realmente, sua aura era terrorífica, e talvez em maior medida ainda, a tristeza que acompanhava-o.

— Você se importa mesmo, não é? — Com um nó formando-se em sua garganta, Sakumo mais constata do que pergunta.

— Acredite, fiquei mais surpreso que você. — Sempre era assim, fosse com Guy ou Sakumo, Kakashi sempre entendia o subtexto, o contexto oculto, por isso entendia que Sakumo queria saber quão disposto estava a ir adiante, a não retornar ao antigo Hatake — Desde Suna, penso em todos os cenários possíveis e impossíveis, organizando tudo que está ao meu alcance, antecipando problemas… por que me importa tanto, que não pretendo permitir que nada chegue até ela…

Sakumo suspira profundamente e seu tique nervoso retorna, uma mão alisando repetidas vezes os fios rosados, o olhar torna-se distante e então, ele une as mãos tocando as pontas dos cinco dedos umas nas outras, batendo os indicadores um no outro ritmadamente; Kakashi reconhecia aquele padrão, era o mesmo que antecedia uma decisão importante, o mesmo que ocorrera diversas vezes antes de uma emboscada ou limpeza.

— Por que Kizashi estava aqui? — Obviamente, não precisava de mais detalhes para saber que grande parte do estresse que Sakumo tentava conter agora, tinha relação com a visita do pai deles.

— Dívidas de jogatina. — Sakumo solta sem demora.

— Você não entraria em modo ameaça por isso. — Certeiro, Kakashi pontua.

— Ele veio reclamar seus direitos paternos sobre Sakura. — Baixando a voz, Sakumo completa a informação, numa aversão tão intensa que o ar em volta dele vibra e ricocheteia — O cretino insinuou que sendo pai, decide o que é melhor para ela… decide bons partidos…

— As leis da Vila… — Kakashi ia dizendo, o rosto voltando a entrar num estado de palidez absurdo.

— Um bastardo que aposta ilegalmente não liga para leis, Kakashi, principalmente, quando bons partidos pagam suas dívidas! — Por um instante, Sakumo eleva o tom, a exasperação do ocorrido voltando a dominá-lo.

— O que você quer fazer? — Imediatamente entrando no mesmo estado de Sakumo, Kakashi questiona, a respiração tornando-se mais audível no silêncio pesado que seguiu.

— Garantir que nada disso chegue até ela. — Repetindo a resposta de Kakashi, Sakumo levanta-se, e relaxando um pouco os ombros, para diante dele — Amanhã falamos disso. Vou dar uma volta. Nada de gracinhas.

Antes que Kakashi pudesse retrucar algo, Sakumo já caminhava para a saída, passando de propósito pela escadaria, onde Sakura já pisava o último degrau, dando um peteleco na testa dela e ouvindo seus protestos ameaçadores; apenas quando escuta a porta bater, é que Kakashi consegue retomar o controle de si, a respiração voltando ao ritmo normal, as mãos voltando a pousar soltas sobre os joelhos.

— O nii-chan foi ver a Anko-sensei? — Alcançando a sala e sentando-se, um tanto rígida, no lugar ao lado, Sakura pergunta.

— Talvez, ele disse que daria uma volta. — Utilizando o tom neutro estratégico, costumeiro de quando desejava ocultar coisas, Kakashi responde e então indaga — Conseguiu aplicar a pomada?

— Era mentira. — Sem qualquer culpa, Sakura conta — Vocês estavam se provocando tanto.

— Qual parte te preocupou? Sobre ele amassar minha cara, ou… sobre seu primeiro amor? — Buscando algo para recalibrar seu emocional, Kakashi implica.

— Kakashi! — A reação dela é imediata, o rosto vermelhíssimo, os olhos faiscando indignação e acusação, e um empurrão desmedido em seu ombro.

O efeito também é imediato, Kakashi consegue organizar seus pensamentos, separando momentaneamente aquela questão, para analisá-la mais tarde, com cautela e precisão; pelo momento, ele permite-se focar em Sakura.

— Seu cabelo cresceu. — Involuntariamente, sua mão sobe até uma mexa cobrindo a bochecha corada dela.

— Minha cabeleireira pessoal está vivendo em Uzushio agora. — Sakura brinca, o semblante revelando traços sutis de saudade, e logo uma expressão mais séria, mais densa apodera-se de seu rosto, enquanto ela remexe na bainha da blusa — Humm… Kakashi… o que… o que isso significa…?

Sakura não queria perguntar, não queria parecer boba, muito menos parecer que estava pressionando uma definição, mas agora que seu irmão fora envolvido e com o time notificado, não podia evitar questionar-se o que era que realmente tinham.

— Bom, as pessoas costumam chamar isso de relacionamento, e existem inúmeras categorias, sabe? — Quando Sakura começava a se arrepender de perguntar, Kakashi ironiza levemente, e a mesma mão que tocou seu cabelo, desce e hesitante segura uma das suas; as suas seguintes palavras ganhando gravidade — Isso significa, Sakura, que sempre e quando você estiver confortável e segura, nós temos uma relação. Não é simplesmente estar juntos, como Karin diz. É... pertencer…

— Pertencer. — Sakura repete, como se testasse a sonoridade, enquanto seus olhos agitavam-se e seu rosto avermelhava-se mais, ela finalmente fecha seus dedos em torno da mão dele, segurando-a com firmeza e sorri suavemente — É uma boa definição.

A quietude de sempre volta a reinar sobre eles, sincronizando respirações, estendendo a internalização daquela grandiosidade, espalhando a tranquilidade ideal; contudo, mesmo com essa pacificidade instaurada, Kakashi sentia que algo não cabia, estranhamente não pertencia ali, e era mais inquietante do que qualquer sensação que já sentira na vida. Ainda observando suas mãos entrelaçadas, o Hatake busca a origem de seu desajuste, e foi justamente ao captar o movimento suave de Sakura, escorando-se relaxada no encosto do sofá, a pura expressão da serenidade dominando seu rosto, que ele soube; havia uma linha ainda em pé, e talvez o que mais lhe incomodara, foi perceber que ela não exigiu-lhe aquilo — como ocorrera uma que outra vez em seu passado — tudo que Sakura pediu foi por um nome, uma definição que sustentasse o que eram. Ao pensar mais a fundo, percebia que isso lhe perturbara desde o dia da conversa na floresta, e agora entendia o que era, era como se ao não exigir nada além, Sakura estivesse ressaltando o tempo todo que estava pronta para recuar, a qualquer instante; o problema era que, pertencer para Kakashi significava ter, não o ter banal, mas o ter do direito de expressar, ter lugar de fala, ter e merecer comprometimento.

Com um suspiro longo, quase uma risada frustrada, Kakashi escora-se imitando a postura dela, compreendendo naquele instante que Sakura aceitaria o que ele estivesse disposto a oferecer e não forçaria nada mais, não porque estivesse satisfeita, mas por que foi isso que não ser correspondida antes condicionou nela; era sua forma de dizer que não queria ser inconveniente e isso tornava-se mais claro ainda, quando considerava a dificuldade que teve para perguntar antes. Dirigindo-lhe um olhar reprovador, aproveitando que seu quase riso captara sua atenção, Kakashi leva a outra mão até sua bandana, endireitando-a e então, sentindo a ponta dos dedos formigando e o sangue latejar em suas têmporas, baixa aquela máscara que acompanhara-o por cerca de dezessete anos de sua vida; a reação dela foi instantânea, quase cômica, os olhos saltando-se a ponto de cair, a boca literalmente aberta e uma expressão que dizia claramente “de onde diabos veio isso?”.

— Espera, espera… um momento…! — Num pânico palpável, Sakura solta suas mãos e tremulamente, avança sobre Kakashi, puxando as bordas da máscara para cima novamente, mantendo-a firmemente sobre o rosto dele — O que você está fazendo? Que droga, Kakashi!

— … O quê…? — Em choque, Kakashi paralisa, buscando freneticamente o que era tão absurdo em sua ação, que fizera-a reagir tão negativamente.

— Eu não estou pronta para assinar mais nenhum pergaminho negro ou sei lá o que… por que você fez isso? Não sabe o que implica? — Ainda segurando o tecido, como se suspeitasse que ele seria baixado novamente, Sakura exige, agitada como nunca.

— Que pergaminho… Sakura? — É quando Kakashi trava completamente, não entendendo o teor da conversa, ao mesmo tempo em que processava que a reação dela não era rejeição — Do que você está falando?

— Estou falando daquele segredo de ANBU’s. Você não usa essa máscara para ocultar identidade? Eu já passei por isso uma vez, não quero passar de novo, principalmente, não agora que o Naruto retirou o selo. — Apavorada, Sakura desata a falar tudo de uma vez, sem muita ordem de fatos.

— … Como? — E Kakashi continua sem entender bulhufas.

— Eu sei que tem que ser segredo, tá? Quando o nii-chan me levou na sede, eu vi a Hina e o Naruto de serviço sem querer, e por que na época eu não podia me defender e seria um alvo fácil, assinei um tal de pergaminho negro, para não falar nada em caso de captura. — Numa avalanche de informação, Sakura explica — É horrível ter que lembrar uma palavra e ser cuidadosa para não usar ela.

Ao compreender, muitas emoções controversas e distintas passam pelo rosto de Kakashi, de perplexidade, surpresa, temor e alívio, e com muita cautela, segura ambas as mãos dela e volta a baixar a máscara, fazendo Sakura fechar os olhos tenazmente.

— Você assinou um pergaminho, e Naruto te colocou um selo de restrição por ver o que não devia? — Decifrando finalmente a origem do pânico, Kakashi pergunta e a vê assentir freneticamente, e agora que isso estava claro, uma vontade peculiar de provocação surge nele — Mas… Sakura, eu não uso a máscara por isso. Sendo sincero, esta é uma ferramenta menos eficiente do que a que usei na ANBU.

— Não? Então, por que… — Duvidosa, Sakura ia perguntando, ainda com as pálpebras apertadas, quando sente um toque suave em seus lábios, fazendo-a arregalar os olhos.

Ao abri-los em estado catatônico, encontra Kakashi fitando-a sorrindo, com a mão esquerda ainda afastando-se de seu rosto, os dedos médios e indicador unidos, evidenciando o que era o toque que sentira.

— Boba. É só uma barreira entre o que digo e o que demonstro. — Satisfeito, Kakashi explica, vendo todo tipo de reação transpassar o rosto dela, que nos últimos quinze minutos, parecia entrar em constante vermelhidão — Mas você está fora da barreira, é isso que significa pertencer, Sakura.

Desviando o olhar por um momento, Sakura tenta estabilizar suas turbulentas emoções, enquanto sentia seu coração bater nas orelhas, as mãos suando e um frio na barriga sem precedentes; quando volta a fitá-lo, encontra o mesmo sorriso, e agora com um pouco mais de calma e menos surpresa, estuda os traços daquele rosto com interesse enervante, descobrindo por seu corpo trêmulo que seu querer era muito mais avassalador, quando libertado de forma abrupta como acabava de acontecer.

***

Fronteira Leste entre o País do Fogo e o País do Relâmpago. Doze dias atrás. Simultaneamente a saída do Time Sete de Suna.

O último corpo caiu no chão com um baque surdo, não havia mais o ruído de lâminas chocando-se, nem os passos desequilibrados em fuga, nenhum arquejar ou súplica, tudo que restava era o som do vento passando pelas frestas do casebre, fazendo as vigas do teto ranger e o cheiro férreo elevar-se do chão; nenhuma outra informação relevante seria extraída ali, o pouco obtido era suficiente para indicar a nova direção, por isso, silenciosos como entraram, eles saíram, sem deixar rastros. Quando as labaredas cresceram, envolvendo cada canto do mausoléu, consumindo corpos, pegadas, evidências, os dois vultos sumiram como espectros; nada fora dito, nenhum plano traçado, nenhum sinal feito, com um atuar tão natural quanto suas existências.

Na noite seguinte, na taverna mais afastada e vagabunda do vilarejo, a notícia já preenchia cada conversa, era transmitida em cada sussurro de canto de esquina: a milícia local fora aniquilada; os vagabundos, trambiqueiros e baderneiros locais que mantinham negócios ilícitos estavam aterrorizados, escondendo-se e mantendo-se nas sombras de suas sarjetas, tentando preservar suas medíocres vidas. Já aqueles que induziam os desesperados a cair nas armadilhas das jogatinas, estavam eufóricos e comemorando entusiasticamente, uma vez que não precisariam pagar taxas à milícia, seus lucros seriam maiores; a embriaguez da avareza era tanta, que chegavam a professar seus planos aos quatro ventos, antecipando prazeres perversos.

— Estou te dizendo, o homem está louco, completamente. — Rindo com escárnio, um homem esquálido com dentes de ouro revelava sua mão de cartas aos comparsas — Mas a oferta dele foi tentadoramente boa, e ele pensa de verdade que com esse acordo, sua dívida será perdoada.

— E o que você vai fazer depois, Aku? — Na mesma sintonia maliciosa, o sujeito à sua frente pergunta.

— Continuar cobrando, é claro. Posso até estender o prazo, como sinal de boa intenção, afinal, uma beleza exótica vai cair na minha cama envolta em papel de presente. — Lambendo-se, com um brilho doentio ressaltando sua pele acinzentada, o tal Aku inclina-se para frente, aumentando seu sorriso grotesco — Vejam senhores, até o nome é doce…

Os três homens que o acompanhavam riem guturalmente, congratulando-o e adicionando comentários depreciativos, piadas nauseantes sobre também desejarem divertir-se um pouco; e enquanto os quatro brindavam, sendo barulhentos e espalhafatosos, vitoreando, um pequeno deslocamento acontecia a sua volta, imperceptível e sem qualquer indicação de que aconteceria. Num abrir e fechar de olhos, os quatro estavam sentados à mesa, e logo já não se viam em lugar algum, e naquela taverna onde ninguém intervinha nos negócios de ninguém, com os demais assustados como ratos por suas vidas, nenhuma alma importou-se com o sumiço; do lado de fora na noite sem estrelas, nos limites do vilarejo, um pequeno pelotão de seis reunia-se atendendo um chamado, ajoelhados ao chão, posturas de respeito e as respirações sufocando-os com a intensidade opressora das presenças diante deles.

— Retornem com os informes coletados, façam chegar à Godaime, ao Capitão e a Tora e Karasu. — Com os olhos de lua cintilando como uma lâmina do inferno, Hinata dizia à equipe de suporte enviada para auxiliá-los nos postos avançados, pisando o pescoço do tal Aku gemendo ao chão — E entreguem isto a Kaminari, digam que quero um informe detalhado da situação.

— Lembrem-se, pessoal, os porcos são animais resistentes, o mínimo é suficiente. — Terminando de cravar alfinetes embaixo das unhas dos homens, Naruto ordena com aquela voz suave que causava arrepios, ainda agachado sobre os calcanhares — Assumimos o restante da expedição daqui.

— Sim, Tenentes! — Com um brado assustado, os jovens que viram uma limpeza pela primeira vez naqueles dias, partem carregando os quatro condenados.